Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Julián Fuks, sobre o livro A Resistência (Companhia das Letras), por José Mário Silva
Letra Aberta, de Herberto Helder (Porto Editora), por Pedro Mexia
Os Usurpadores, de Susan George (Bizâncio), por Luís M. Faria
Cabo Verde, Janelas de África, de Corsino Tolentino (Livraria Pedro Cardoso), por Cristina Peres
Adivinha em que mão está a moeda, de Benjamín Prado (Do Lado Esquerdo), por José Mário Silva
Sob a Pele – Conversas com Sara Antónia Matos, de Rui Chafes (Documenta), por Manuel de Freitas

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com José Eduardo Agualusa, a propósito da nomeação para a ‘longlist’ do Man Booker International Prize
Artigos Portugueses, de Miguel Tamen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Pós-Capitalismo, de Paul Mason (Objectiva), por Luís M. Faria
Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães (Quetzal), por José Mário Silva
A Crisálida, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas

Hino à vida

Gratidão
Autor: Oliver Sacks
Editora: Relógio d’Água
Título original: Gratitude
Tradução: Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-989-641-591-4
Ano de publicação: 2016

Este volume, composto por quatro brevíssimos ensaios, é uma espécie de complemento à autobiografia Em Movimento – o livro final do neurologista Oliver Sacks, que ainda teve tempo de o acabar e ver publicado, em Abril de 2015, quatro meses antes de ser vencido pelas múltiplas metástases, no fígado, de um melanoma ocular que o deixara cego de um olho. Na autobiografia, já publicada pela Relógio d’Água, Sacks narra com o habitual entusiasmo – e prosa magnífica, clara, encantatória – o arco completo da sua existência: não apenas o notável percurso intelectual e científico, mas também toda a sorte de idiossincrasias (a faceta de motard, o gosto pelo culturismo e pela halterofilia, as rotinas de nadador metódico), bem como aspectos íntimos, da conhecida dependência das anfetaminas à homossexualidade, que até esse momento não assumira publicamente.
Os textos de Gratidão, todos eles publicados no The New York Times (e partilhados na internet, onde se tornaram virais), são uma espécie de coda em que Sacks, mais do que consciente da morte próxima, se despede com uma dignidade e uma delicadeza extraordinárias. Grato por tudo o que pôde ver, sentir, experimentar, ele faz deste adeus um hino à vida, uma celebração do privilégio de conhecer o mundo, aproveitando a existência até ao tutano.
Em Sabat, o derradeiro dos seus escritos, evoca a infância judaica e acolhe em si «a paz de um mundo que se detém, de um tempo fora do tempo». A paixão pelos elementos químicos atravessa Mercúrio e A Minha Tabela Periódica, duas prosas que lembram o melhor de Sacks: a forma como torna empática, e às vezes até comovente, de tão pessoal, a abordagem ao conhecimento científico. Já A Minha Vida, o texto que anunciou ao mundo a irreversibilidade da doença, termina com uma luminosa aceitação do fim: «Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta, e isso foi, por si só, um enorme privilégio e aventura.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Judas, de Amos Oz (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Águas Negras, de José Viale Moutinho (Lápis de Memórias), por Pedro Mexia
Entre Mim e o Mundo, de Ta-Nehisi Coates (Ítaca), por José Mário Silva
Gratidão, de Oliver Sacks (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Última Noite e Outras Histórias, de James Salter (Livros do Brasil), por José Guardado Moreira
Os Irmãos Wright, de David McCullough (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Amos Oz, autor de Judas (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Tudo Pode Mudar, de Naomi Klein (Presença), por Luís M. Faria
A Solidão Como Um Sentido seguido de Desespero, de Rui Almeida (Lua de Marfim), por José Mário Silva
Essa Terra, de Antônio Torres (Teodolito), por José Mário Silva
Amemo-nos Uns Aos Outros, de Catherine Clément (Porto Editora), por José Guardado Moreira
Noizz, de Rui Baião (Companhia das Ilhas), por Manuel de Freitas

A Verdadeira Biblioteca Ou Uma História Em Três Metades

Eis o belíssimo texto de Raquel Patriarca, lido nas Correntes d’Escritas, numa mesa intitulada ‘Quantos Livros Tem Um Livro':

«Primeira Metade: Sobre Começar um Texto
Quando eu era pequena, tinha muitos sonhos. Agora que sou maior, estou igual. Sonho com os pedaços do mundo que quero conhecer, os abraços que quero apertar, as imagens que quero criar, os livros que hei-de escrever. Estar aqui é um desses sonhos da idade adulta, arrumado na rubrica das coisas admiráveis de que é preciso fazer parte. Quando me imaginava aqui, começava sempre por agradecer às Correntes porque correm e por me levarem na correnteza. Agradecer o estar aqui agora e todas as vezes que estive aí e que, no fim do dia, regressei a casa maior. Não de tamanho, mas maior. Quando me imaginava aqui, depois de agradecer, fazia uma comunicação brilhante. Não me parecia muito difícil. Não sei porquê, nessa altura as ideias eram transparentes e ordenadas, as palavras respondiam à chamada sem atraso e sem engulho. Era preciso citar um autor de referência: Pessoa, Benjamin ou Borges; Camus, Barthes, ou Foucault. Falar de literatura e arte, de coisas verdadeiras e universais. Como se no mundo – ou em mim – não restassem dúvidas da minha sabedoria sobre todas as matérias.
Mas estas coisas só acontecem na minha imaginação. Sonho e nada mais. No momento em que chegou o convite, todo o dia me parecia feito de irrealidade. A cabeça ficou vazia e a página em branco. Afinal, é tudo muito difícil.
Sentei-me para escrever e não chegavam as frases que deviam iluminar-me as ideias. Fui à procura dos cadernos e das notas amarelas com os registos da genialidade alheia, e nada rimava com o tema ou a situação. Em ressonância longínqua das traseiras do cérebro, soava uma espécie de conselho que ouvi quando era pequena: “Sabendo muito do que falas, fala pouco. Sabendo pouco, fala quase nada. Sabendo nada, sorri”.
… (Pausa para o sorriso)
E assim, em vez de Benjamin, Borges ou Barthes, veio ajudar-me uma espécie de aforismo de Joaquim Patriarca, mestre-escola, guarda-livros, organista na Igreja de S. Pedro, emigrante, retornado, avô. E a conselho dele, porque falamos de livros, vou falar pouco.

Segunda Metade: Sobre o Meu Avô
Quando eu era pequena, fascinava-me a capacidade que o meu avô tinha para guardar objectos. Para ele nada existia que fosse imprestável. Mais cedo ou mais tarde, tudo ganhava serventia e, por isso, tudo se guardava em lugar próprio, rigorosamente ordenado. Esta filosofia, vim a percebê-lo mais tarde, levava-me a intuir que, até para mim – criatura algo estouvada, grande consumidora de mercurocromo, tantas vezes nas imediações de coisas indesejáveis como cacos ou nódoas –, até para mim, dizia eu, se guardava um lugar e uma função. E, enquanto não descobria o meu lugar e a minha função, fui absorvida no fascínio de como o meu avô se movia pelo mundo e da serenidade com que coleccionava todo o tipo de objectos.
As folhas soltas de papel e os fios de diferentes materiais, os tocos dos lápis que já mal serviam para escrever, as sementes que havia de pôr na terra, os pequenos pedaços de plástico que, mais tarde e com a ajuda de um canivete, transformava em mistérios de rezar, perfeitamente redondos e recortados: um buraco ao centro para o indicador, dez saliências em forma de pétala, uma para cada ave-maria, a cruz na décima primeira pétala, no lugar do pai-nosso.
Cada gesto do meu avô era feito com esmero e ternura. O vinco nas arestas dos embrulhos de correio e o nó direito que unia, em absoluta perpendicularidade, o cruzamento do cordão, a caligrafia pausada, aprumada, perfeita, a adivinhar que, naquele endereço, tinha de erguer-se um palácio. As canas enterradas na horta a estender fios de sisal que desenhavam uma espécie de guias, por onde se alinhavam os sulcos na terra, as sementes e as plantas.
Fascinavam-me as coisas que ele fazia mas, mais ainda, o vagar sereno que colocava em tudo. Uma alegria simples que enchia de plenitude os gestos mais comuns. Curiosamente desimportado do resultado final, o meu avô parecia absorver-se no encantamento – para nós invisível – de todas as tarefas a que se entregava, como se a função inteira da existência se guardasse naquele momento. Punha, de verdade, quanto era no mínimo que fazia, de maneira que despachar uma encomenda ou plantar morangueiros se transformavam em formas de arte.
Foi nesta altura, enquanto os meus avós se transformavam em memórias nucleares, que aprendi a relacionar-me com os livros. Eu não fui uma daquelas crianças adoráveis que, sentadamente sábias, amam os livros desde que se lembram de respirar. Gostava muito que me contassem histórias, como todas as crianças, mas adorava correr desenfreadamente pelas ruas íngremes que desciam da casa dos meus avós ao fundo da vila. Saltar muros e inventar barcos feitos de casca de árvore que depois fazia navegar nos ribeiros que desciam da serra pela primavera. Subir às tílias descalça, com um saco de pano para apanhar os raminhos de fazer chá, sair nos dias de feira, a cheirar os bolos de leite ainda quentes, e ajudar a avó a escolher os figos mais maduros e as colheres de pau mais redondas e fundas. Havia uma televisão, e não é que não gostasse de a ver, mas o aparelho era muito demorado de arrancar, apanhava a televisão espanhola e não havia desenhos animados, só programas de agricultura e notícias. Naquele tempo, a televisão era mais um entroncho que uma distracção a sério. E havia a escola, claro, e a catequese para onde eu ia sempre muito contente porque, no regresso, a minha avó me dava uma bolacha de chocolate. Era uma obra-prima em forma de estrela, vinha embrulhada em papel de prata colorido, começava a derreter-se mal me tocava nos dedos e inspirava-me um conforto interior que eu me habituei a confundir com o sentimento da fé.
Os livros trouxeram a calma e a profundidade que eu não me dava ao trabalho de procurar em nenhuma outra dimensão na vida a não ser, talvez, na minha família.

Terceira Metade: Sobre os Livros
Quando eu era pequena passava muito tempo em casa dos meus avós. Viviam por lá muitos livros, uma condição que eu entendia como decorrência natural de, num tempo antes de mim, o meu avô ter sido guarda-livros. Um guarda-livros era, evidentemente, uma espécie de bibliotecário com um título singelo. Naquele tempo e lugar, tudo era menos pretensioso, sobretudo os nomes das profissões. Foi o meu avô quem ensinou a minha avó a ler e eu, que assistia a toda aquela circunstância de meiguice, mais convencida ficava de que a sua função no mundo era a de guardador de livros. Na dimensão preservável do objecto, como fazia com todas as coisas, e na dimensão partilhável do conteúdo, que lia para si e para nós, ensinava a ler e ajudava a compreender.
Quando eu era pequena o meu avô ensinou-me a encadernar os livros e eu entendi que devia aprender a fazê-lo com a ternura e o esmero que ele trazia sempre nas mãos. Ele levava horas a reforçar as capas e a cobri-las com papéis de cores e texturas diferentes, impecavelmente vincados nas dobras, os títulos nas lombadas claramente desenhados naquela caligrafia brilhante e impossível de copiar. Eu aprendia a vincar as dobras com os dedos pequeninos e mal capazes. Queria muito imitar-lhe a arte mas, com a mesma naturalidade que os gestos do meu avô se inclinavam para a perfeição, os meus obedeciam a um desvio incontrolável para o desastre e, muitas vezes se rasgavam os papéis e se estragavam os títulos com erros de ortografia. O meu avô suspirava, sobrepunha a sua paciência à minha frustração, deitavam-se à lareira os papéis rasgados e os erros de ortografia, e a tarefa começava de novo. Desta vez, melhor.
O meu primeiro livro contava a história da fuga de uma tal Alice através do espelho. Foram precisas várias tentativas até o serviço ficar aceitável e foi maravilhoso ver o meu avô sorrir e dizer que sim com a cabeça enquanto examinava o meu primeiro projecto: um desconchavo de papel manteiga com as dobras quase tão espessas como o próprio livro. Foi um triunfo indizível. E, logo a seguir, chegou uma nova dificuldade.
No momento de colocar o livro na estante, havia um banco para eu subir e ficar da mesma altura do meu avô, e havia uma única regra de arrumação, muito simples que se baseava – em partes iguais – nos conceitos de ordem e de caos, um critério difícil de definir e que ordenava os títulos alfabeticamente segundo o destino geográfico do assunto.
O meu avô levou algum tempo a explicar-me que cada livro é como uma viagem e que cada viagem se faz rumo a um destino diferente. Eu não compreendi e ele foi buscar um volume grosso que trazia na lombada as palavras Crime e Castigo. Explicou que era um livro muito importante para conhecer os conceitos de bem e mal, certo e errado que vivem nas aspirações e atitudes de cada um. Uma viagem que se fazia rumo àquilo que uma pessoa deseja para si e ao percurso que está disposto a fazer para lá chegar. Como eu fiquei muito calada, a segurar nas mãos a minha Alice sem ideia de onde a guardar, o meu avô pegou num outro livro – 20.000 Léguas Submarinas – a aventura de uma viagem pelas profundezas do mar, ou então, uma viagem pelo engenho humano e pela vontade de ultrapassar o medo que é natural sentir-se em relação ao desconhecido.
Eu olhava para as minhas mãos.
Tens de descobrir onde te leva o teu livro, revelou por fim o meu avô.
E eu compreendi que precisava de o ler e, só passados muitos dias, voltei a subir ao banco resolutamente à procura da prateleira marcada com M de Maravilhas.
Fui compreendendo aos poucos o sistema de arrumação de livros que o meu avô praticava, garantindo-me sempre que era assim que se faziam as coisas nas verdadeiras bibliotecas. Acontecia por vezes termos de mudar os livros e as viagens de um lugar para outro. A cabana do Pai Tomás – muito muito bonito – teve morada no E de Escravatura, depois mudou-se para o A de Abolicionismo e acabou, mais tarde, por inaugurar uma nova secção no L para Livros que Salvaram o Mundo.
Quando eu era pequena aprendi com o meu avô a ternura de todas as coisas. Aprendi que é possível ser feliz em sossego. Que os livros devem ser lidos antes de arrumados, que cada livro propõe uma viagem e que cada leitura pode criar novos rumos a um caminho já percorrido. Aprendi a ser guardadora de livros.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de graduada, pós-graduada e especializada, recebi um papel carimbado que me fez bibliotecária, que é só um nome diferente para uma prática muito antiga. Estudei catalogação e indexação, as listas ordenadas de termos e as tabelas de autoridade, os sistemas de triagem das espécies bibliográficas e os códigos alfanuméricos das cotas e descobri que, afinal, já não existem verdadeiras bibliotecas, como aquelas de que falava o meu avô. Descobri que nas bibliotecas onde hoje se guardam os livros não é possível compreender-se o mapa das viagens da humanidade. Da humanidade que escreve e da humanidade que lê.
Mas em casa, guardo uma verdadeira biblioteca, com estantes e prateleiras em que se faz um esforço genuíno de procura da verdade. Ainda lá está o volume mal encadernado da pequena Alice que agora repousa no I onde se alinham as viagens Interiores.
Foi com esse o livro que tudo começou. Quantos livros se guardam lá dentro? Suponho que terei de o ler outra vez. Por agora, não sei. E como não sei, devo apenas sorrir.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges