Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Chega de Saudade, de Ruy Castro (Tinta da China), por José Mário Silva
Tempos Difíceis, de Charles Dickens (e-Primatur), por Luís M. Faria
Não Faças Mal, de Henry Marsh (Lua de Papel), por José Mário Silva
A Conspiração Cellamare, de Nuno Júdice (Dom Quixote), por Pedro Mexia
O Espião de Austerlitz, de Laurent Joffrin (Gradiva), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Ruy Castro a propósito do livro Chega de Saudade (Tinta da China), por José Mário Silva
Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia (Tinta da China), por José Mário Silva
Os Dez Livros de Santiago Boccanegra, de Pedro Marta Santos (Teorema), por Luísa Mellid-Franco
Doce Carícia, de William Boyd (Dom Quixote), por Luís M. Faria
O Curso do Amor, de Alain de Botton (Dom Quixote), por Cristina Peres
Senhor Roubado, de Raquel Nobre Guerra (Douda Correria), por Pedro Mexia
Tão, Tão Grande, de Catarina Sobral (Orfeu Negro), por José Mário Silva

Um cisne negro

A Coleção Privada de Acácio Nobre
Autor: Patrícia Portela
Editora: Caminho
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-21-279-12
Ano de publicação: 2016

Quem é Acácio Nobre? Um fantasma? Uma singularidade quântica? Um homem invisível, sem rasto palpável, mas que mexeu nos cordelinhos do mundo? A leitura do novo livro de Patrícia Portela não oferece respostas definitivas; só mais perguntas, dúvidas, questionamentos. O mais seguro é dizer que se trata de um «cisne negro», segundo a teoria que defende serem brancos todos os cisnes «até ao momento em que um (basta um!) primeiro cisne negro apareça». Pelo simples facto de se materializar na escrita hiper-criativa de Patrícia Portela, Acácio Nobre passa a existir. Se foi real, se foi de carne e osso, eis uma questão menor, para não dizer inoportuna.
O fio desta história começa a desenrolar-se, muito pessoanamente, com a descoberta de uma arca na cave dos avós da autora, em 1999. Lá dentro, centenas de textos e projectos de um homem esquecido pela História, em larga medida por vontade própria. Nascido provavelmente em 1869, ele atravessará todos os sobressaltos do século XX, até se apagar, quase centenário, vítima de um tiro perdido que o atinge em cheio nos testículos, em pleno Maio de 68 parisiense, caminhando pelo Quartier Latin como se estivesse no Chiado, à procura de ver «passar uma revolução antes de morrer». Embora dela só conheçamos uma ínfima parte, por entre extensos hiatos, a sua vida abunda em momentos altos: trocou correspondência com Melville, cruzou-se com Einstein e Picasso, foi compincha de Pessoa e amigo íntimo de Mário de Sá-Carneiro, passou pelas trincheiras da I Guerra Mundial e pelos ficheiros da PIDE (que o vigiava de perto), criou puzzles geométricos durante décadas, e tentou de mil maneiras introduzir os Kindergarten de Fröbel em Portugal, por acreditar que a educação artística precoce seria a única forma de fazer o país entrar na modernidade.
O espólio que Patrícia Portela descobriu na arca de Acácio (nome que, em latim, significa «aquele que não tem maldade») é quase tão caótica como a sua existência. Esforçadamente, a autora classifica os materiais, organiza-os, contextualiza-os, capricha nos fac-similes. O que emerge, pouco a pouco, é a imagem de um visionário que esteve sempre deslocado do tempo em que vivia, mas ainda assim consegue antecipar as grandes mudanças e rupturas levadas a cabo pelas vanguardas artísticas, algo que certamente ficaria inscrito na sua muito inventiva «árvore genealógica da arte», se alguma vez ela tivesse deixado o campo das meras intenções.
A esmagadora maioria das obras de Acácio Nobre não são obras propriamente ditas, mas projectos, sonhos deixados em esboço. É o caso de uma máquina do tempo, denominada ‘Lepidóptero’, que funcionaria por «exclusão das horas através do sono, da meditação, da levitação, do voo picado e da metamorfose». Ou da proposta de «reurbanização do Chiado através da alteração radical da sua banda sonora», uma ideia que viria a ser materializada por Patrícia Portela, sob a forma de instalação/performance, em 2009. De certa forma, Acácio Nobre só sai da sombra pela mão de Portela. É ela que o arranca a um anonimato procurado de forma quase obsessiva. Uma vontade de não ser fixado na ordem do mundo. Apesar de ter vivido quase um século, não sobraram dele quaisquer fotografias (suspeita-se apenas que possa constar de um retrato de grupo, encontrado no espólio de José Pacheko). Nas muitas deambulações por paragens longínquas, que o levaram a Rudolstadt e a Baku, transportava consigo um pesado fonógrafo, «para gravar o ruído da sua ausência em diferentes lugares». Tudo indícios de uma atitude de desdém perante a posteridade, sublinhada de resto num dos «objectivos prioritários» do Clube dos Amigos de Acácio Nobre: «Assegurar que as suas obras se mantêm dispersas e passíveis de serem reencontradas e perdidas vezes sem conta».
É precisamente isso que acontece durante a leitura deste livro-enigma, quebra-cabeças capaz de pedir meças aos engenhosos puzzles geométricos de Acácio Nobre. Reencontramos e perdemos vezes sem conta o fio à meada. Tão depressa lamentamos não encontrar mais exemplos da «arte minúscula» (que só se consegue observar ao microscópio), como nos entusiasmamos com o relato pejado de palavrões da amante, Alva, exemplo caricato de nobreza traída pela síndrome de Tourette. Ou nos deliciamos com os labirintos retóricos das gigantescas notas de rodapé.
Fragmentária e quase impalpável, coisa em potência mais do que coisa real, a obra de Acácio Nobre não se esgota neste livro desafiante. Ela continuará a assombrar o trabalho futuro de Patrícia Portela, de quem esperamos que continue a mergulhar na arca acaciana, à procura de notas rabiscadas em guardanapos de papel e, quem sabe, desse dicionário perdido que permitiria descodificar um promissor manifesto encriptado. Mas o que gostaríamos mesmo, embora talvez seja pedir muito, é que Portela exumasse o livro de ficção científica publicado por A. N. em 1902 (Memórias de um Androide Que Sonha com Mosquitos Elétricos); ou então o Diário Retrospectivo, texto «em rewind, do fim para o princípio, com Nobre a admitir que só «escrevendo para trás posso fazer frente à minha época».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com Henry Marsh a propósito do livro Não Faças Mal (Lua de Papel), por José Mário Silva
– Entrevista com Alain de Botton, a propósito do livro O Curso do Amor (Dom Quixote), por Cristina Peres
A Coleção Privada de Acácio Nobre, de Patrícia Portela (Caminho), por José Mário Silva
A Vida no Campo, de Joel Neto (Marcador), por Pedro Mexia
O Peso do Coração, de Rosa Montero (Porto Editora), por José Guardado Moreira
Balbúrdia, de Teresa Cortez (Pato Lógico), por Sara Figueiredo Costa
Gritante Justiça, de António de Almeida Santos (Dom Quixote), por Luísa Pinto Teixeira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com John Banville a propósito do livro A Guitarra Azul (Porto Editora) e respectiva recensão, por José Mário Silva
A Invenção da Natureza, de Andrea Wolf (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Cassandra, de Christa Wolf (Cotovia), por Cristina Peres
O Leão de Belfort, de Alexandre Andrade (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Velhas Traições, de Olen Steinhauer (Bertrand), por José Guardado Moreira
A Dor Concreta, de António Carlos Cortez (Tinta da China), por José Mário Silva

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges