Um ano sem o Olímpio

Retrato de Olímpio Ferreira, por Pedro Vieira
(Ilustração de Pedro Vieira)

Não gosto por aí além de efemérides, mas a verdade é que o tempo passa e nós quase que nem damos por isso e de repente são necessárias balizas que nos orientem, pelo menos quando olhamos para trás. Há precisamente um ano, perdemos o Olímpio Ferreira (e cabe muita gente dentro deste plural). A sua ausência, não sei porquê, magoou-me mais do que outras. Foram muitas as vezes em que o recordei, sobretudo ao folhear livros de poesia que ele desenhou com um cuidado tão raro, mas também ao ver certas coisas, ao ouvir certas coisas («o que é que o Olímpio pensaria disto?») e ao descobrir, ia dizer a posteriori (se isso não fosse injusto para os que ficaram), o espaço tão acolhedor da sua casa, cheia de literatura e vida e memórias.
Não gosto por aí além de efemérides, excepto quando elas assinalam datas que não consigo esquecer.

Lembrar o Olímpio (2)

Faz hoje um mês que os amigos do Olímpio Ferreira se juntaram para o homenagear, um encontro que na altura o Daniel descreveu assim e a que tive muita pena de faltar (estava em Espanha naquele fim-de-semana). Além da despedida emocionada, houve também a distribuição de um livro feito para o Olímpio, com depoimentos, desenhos e poemas (edição Diatribe).
Eis a capa:

olimpio_livro.jpg

Lá de dentro, resgato este poema do Paulo da Costa Domingos:

CARPIR

Vamos lá. Vamos lá sorrir um pouco. A vida
é isto: fugir-nos como areia entre dedos;
versos soltos por uma outra manhã, ou
versos soltos aconchegando um féretro…

A vida, que é isto (amigos perdem o gás,
súbitos, e vêm então celebrá-los poetas,
os seus queridos poetas), vai descer à
terra, onde nada cessa e tudo se reagrega.

Zona da grã paciência, lá onde o anjo
que partiu dialogará, enfim, com o fantasma;
e os vivos, entre si, pedem lhes seja concedida
nova manhã de luto e luta. Vamos lá, vamos lá.

E já agora este desenho/poema do Luís Manuel Gaspar:

olimpio_livro2.jpg

Nota – Aos três primeiros leitores deste blogue que o solicitem por e-mail, tenho todo o gosto em oferecer um exemplar da obra (por favor indicar morada para o envio).

Lembrar o Olímpio

É logo à noite, pelas 22h00, na Cooperativa Padaria do Povo (Rua Luís Derouet, 20, 1º, Campo de Ourique, Lisboa). Um grupo de amigos do Olímpio Ferreira vai evocá-lo com textos, versos e outras formas de memória. Será igualmente posto a circular um pequeno livro de homenagem, para o qual contribuí com este poema:

O. F.

Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que já foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.

Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.

Apareçam e dêem um abraço à Mariana por mim, que hoje estou demasiado longe (mas não me esqueço).

Olímpio

De todos os fazedores de livros, ele era o mais discreto. Estava lá atrás, nos bastidores, a meter em página os textos dos outros, a compor as manchas gráficas, a zelar pela harmonia visual que não passa despercebida aos leitores mais exigentes. Aqueles leitores que provavelmente liam o seu nome, em letras minúsculas, nas fichas técnicas dos livros da & Etc, da Tinta da China, da Averno ou das edições de teatro dos Artistas Unidos.
Chamava-se Olímpio Ferreira, tinha quarenta anos, dois filhos pequenos e uma espécie de reserva nos contactos sociais que ainda hoje ignoro se nascia da timidez ou da humildade. Ao apresentá-lo no extinto blogue Barnabé, Rui Tavares apelidou-o de “nosso homem da sombra” e acrescentou: “É o gajo mais culto do Barnabé, razão pela qual diz que não sabe se vai escrever.” Não escreveu muito, de facto. Mas o que escreveu deixou-nos com pena de que o “homem da sombra” nunca tivesse desejado chegar-se mais à luz.
Agora que me deram a notícia, com a violência absurda do que não conseguimos compreender, só me ocorrem imagens: encontros por acaso em livrarias, manhãs de sábado no jardim do Príncipe Real, tardes na Feira do Livro com carrinhos de bebé, sacos cheios de preciosidades e uma alegria que parecia estar a salvo de tudo (mas não estava).

[Havia outros posts previstos para hoje, nomeadamente as inevitáveis listas dos melhores livros de 2007 para o BdB, mas tudo isso terá que ficar para amanhã. Não consigo mesmo escrever mais. Desculpem.]

Rui Costa (1972-2012)

Quando soube da notícia, não tive tempo de escrever, não tive cabeça para escrever, não tive vontade de escrever. Eu conheci muito mal o Rui. Há três anos, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, conversámos durante uma viagem de autocarro. Ele estava empenhado em candidatar-se à direcção do Pen Clube e falou muito sobre os jogos de bastidores, sobre as tricas em que é pródigo o mundo literário, sobre os egos que os escritores transportam como um estandarte, para ser exibido aos outros como os galos mostram as suas cristas.
Conversámos também sobre poesia, sobre livros adiados, versos que nunca nos chegam a satisfazer e outras misérias líricas. Quando o autocarro estacionou no cimo de um monte, com vista panorâmica e o mar lá muito ao fundo, cheio de brilhos dourados, sentámo-nos em pontas opostas do restaurante e a conversa ficou a meio (era, na verdade, uma conversa que ficaria sempre a meio, por muito que a continuássemos).
Há dez dias, ao saber que o Rui estava desaparecido desde dia 5, sem fazer levantamentos no multibanco, nem dar sinal de vida nos telemóveis, temi logo o pior. Nem por isso foi menos violenta, a notícia. Lembrei-me, por exemplo, da morte do Olímpio Ferreira, muito diferente nas circunstâncias, mas com a mesma brutalidade de ver um homem tão novo (40 anos), e com tanto para dar, arrancado assim de repente ao convívio dos que o amavam. Há um buraco que se recorta no quotidiano, sempre tão cheio de prioridades que nos afastam uns dos outros, e no momento em que nos apercebemos dessa cratera, a irreversível cratera, já nada podemos fazer.
Conheci muito mal o Rui. Ignoro as histórias que se escondem por trás da história da sua morte. Prefiro não saber mais nada. Sei que durante aquela viagem de autocarro ele me pareceu um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas, e isso basta-me. O essencial ficou dito, com raiva, com o coração todo à mostra, pelo Henrique Manuel Bento Fialho (a quem roubei a fotografia do Rui), neste post.

Lançamento do n.º 4 da revista ‘Intervalo’

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Tema deste número, dedicado à memória do Olímpio Ferreira: «A Alegria».

Dedicatórias

As dedicatórias nunca são inócuas, mesmo as que parecem inócuas. Às vezes, são actos de despojamento ou noção da realidade (como a do Rui Pires Cabral). Às vezes, são apenas gestos que repõem uma certa forma de justiça. Como a dedicatória de Pedro Sena-Lino, em 333, um romance de bibliófilo, sobre o impacto que os livros podem ter na vida das pessoas:

«Para o Olímpio, que tanto viveu de livros,
e tantos livros fez viver»

“Era um homem que fazia livros — e às vezes os dava”

O Jorge escreveu sobre o Olímpio (hoje no P2).

Poema nono do ciclo ‘Negrume’, de Amadeu Baptista

uma casa na terra. foi isso que criei,
sabendo como pode ser difícil encontrar,
muitas léguas em redor,
uma luz com esse benefício.

andar, andei. fazia como via,
os outros a fazer. invocava
as coisas da manhã e escrevia,
com elas, a nossa redenção.

o universo seria o que quiséssemos.
a nervura do mirto, a essência nítida.
a curva do arroio, a intensidade
com que o sol tocasse a pele.

mesmo de noite, a busca prosseguia.
ao subir ao abismo do teu corpo,
ao descer à densa irrupção do teu olhar,
procurava apartar a escuridão, e dissipá-la.

podia ser possível renascer.
podia ser possível antecipar
o fundo aterrador que há na mágoa
com que o meu no teu rosto se procura.

bastava, só, falar. dizer que ódio,
ou que cegueira, pesava sobre nós.
que impaciência gelava o nosso sono,
que pesadelo aniquilava o sonho.

bastava, só, dizer o que podia,
ou não, ser feito, usando a linguagem
das aves desabridas, as ondas
que há no mar, o vento sobre os campos.

agora, sobre a terra, há só desilusão.
cavalos sem forragem, colheitas por fazer.
e golpes desferidos nos sicômoros,
que, como chagas, sangram.

nada nos perdoará a atrocidade.
nada nos redimirá por termos ido
ao arrepio da afronta, da tristeza.
sempre que te chamo não respondes.

[in Negrume, & Etc, composto e paginado por Olímpio Ferreira, 2006]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges