‘O Tigre Branco’ (booktrailer)

A estreia do indiano Aravind Adiga no romance, premiada com o Man Booker Prize 2008, já anda por aí (edição Presença). A sua leitura é mais do que recomendável, sobretudo na semana em que o G20 se reuniu em Londres para discutir o estado comatoso da economia mundial.

‘O Tigre Branco’ vai para a Presença

Após um forte despique com outras editoras, a Presença acaba de obter os direitos para Portugal do romance The White Tiger, de Aravind Adiga, recente vencedor do Man Booker Prize. Recorde-se que a Presença já assegurara, em Frankfurt, a publicação do outro finalista indiano do Booker: Amitav Ghosh (Sea of Poppies).
Entretanto, Adiga abandonou a agência William Morris, que lhe conseguiu um generoso adiantamento pelo livro de estreia (quando ele ainda era um absoluto desconhecido no meio literário britânico), aparentemente por se considerar mal pago.

Vem aí o tigre

O Tigre Branco, de Aravind Adiga, vencedor do Man Booker Prize 2008, de que falei aqui, aqui e aqui, vai para as livrarias a 3 de Março, com chancela da Presença. A capa é esta:

Pode uma capa bonita ser uma má capa? Pode. E esta é, porque não tem nada a ver com o romance de Adiga: um retrato brutal, violento e sujo, da Índia contemporânea; a história de um homem que se safa na vida com os seus dotes de predador. Para ser eficaz, a capa devia explorar ou a iconografia do mais raro dos tigres (de preferência estilizado), ou mostrar a realidade da miséria que se esconde atrás do “milagre económico” indiano (imagens de lixeiras, ruas imundas, bairros de lata). Mas uma capa dessas não seria tão comercial, tão vendável, não é?

Crónica de um assassínio anunciado

O Caso das Mangas Explosivas
Autor: Mohammed Hanif
Título original: A Case of Exploding Mangoes
Tradução: Teresa Curvelo
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 328
ISBN: 978-972-0-04512-6
Ano de publicação: 2009

Em Um Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, Hercule Poirot desvenda um homicídio colectivo. Certa manhã, o Sr. Ratchett aparece morto com doze facadas e só a astúcia do detective belga permite provar que todos os doze suspeitos estão envolvidos, contribuindo com um golpe cada para uma elaboradíssima vingança. Em O Caso das Mangas Explosivas, Mohammed Hanif utiliza um esquema semelhante para contar o atentado que vitimou, a 17 de Agosto de 1988, o General Zia ul-Haq, na altura Presidente do Paquistão há 11 anos. Após assistir a um exercício militar no deserto de Bahawalpur, Zia regressava a Islamabade num Hercules C130 que explodiu no ar – uma espécie de Camarate paquistanês que tem alimentado, nas últimas duas décadas, muitas teorias da conspiração.
Tal como Christie, Hanif não elimina quaisquer possíveis explicações para a misteriosa queda da aeronave; pelo contrário, acumula-as. E é assim que ficamos sem saber ao certo o que esteve mesmo na origem da morte de Zia. Pode ter sido a libertação de gases tóxicos no ar condicionado da cabina, podem ter sido as mangas explosivas do título, pode ter sido um corvo que cumpre uma maldição, pode ter sido a ponta envenenada de um sabre, ou tudo isto ao mesmo tempo, na linha das facadas redundantes que vitimaram o Sr. Ratchett.
Neste romance de estreia que não parece de estreia (tal é a solidez narrativa), a acção avança em duas linhas paralelas. De um lado, o relato na primeira pessoa de Ali Shigri, cadete da Força Aérea que pretende vingar a morte do pai, um coronel cujo aparente suicídio atribui a uma ordem do general Zia. Do outro, a descrição da paranóia securitária em que vivia o ditador, rodeado de generais que lhe cobiçavam a liderança e de agentes da CIA interessados apenas em derrotar os soviéticos no Afeganistão.
Com inteligência, verve e muito humor, Hanif ergueu uma sátira poderosa e ácida sobre um período negro da História do país onde nasceu. Ao seu sarcasmo demolidor nada escapa: nem os aspectos mais ridículos do exercício do poder autoritário, nem os primeiros passos de uma islamização radical, nem os absurdos da vida militar, nem menos ainda a hipocrisia diplomática (exposta numa cena em que Osama Bin Laden, então um apoiante dos mujahedines, recebe apoios e incentivos numa festa da Embaixada norte-americana).
Escolhido para a longlist do Man Booker em 2008, este livro é uma magnífica revelação – melhor ainda do que a estreia do indiano Aravind Adiga (Tigre Branco, Presença), que acabaria por vencer o mais importante dos prémios literários de língua inglesa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 83 da revista Ler]

“I didn’t consciously write these stories to have a message. This is what came out”

Aravind Adiga, autor de Tigre Branco (Man Booker Prize 2008), em entrevista ao The Times.

O tio húngaro

Vidas Entrelaçadas
Autor: Linda Grant
Título original: The Clothes on Their Backs
Tradução: Isabel Alves
Editora: Civilização
N.º de páginas: 302
ISBN: 978-972-26-2828-0
Ano de publicação: 2009

Vivien Kovaks é uma rapariga introvertida e com ambições literárias que vive num típico prédio de tijolos vermelhos, em Benson Court, com os pais – húngaros emigrados para Inglaterra em 1938 (mesmo a tempo de escaparem aos horrores da II Guerra Mundial). Reservados e paranóicos, com pavor de qualquer mudança que os obrigue a regressar à pátria, os progenitores vivem numa espécie de reclusão voluntária, fazendo do passado familiar um território opaco, cujas fronteiras a filha nunca conseguiu discernir. O processo de libertação – pessoal, política, sexual e identitária – de Vivien, numa altura (a segunda metade dos anos 70) em que Londres assistia a um surto de intolerância racista, alimentada por grupúsculos de extrema-direita, está no cerne deste sólido romance de Linda Grant, que em 2008 chegou à shortlist (isto é, ao lote de seis finalistas) do Man Booker Prize, ganho por Aravind Adiga, autor indiano de O Tigre Branco (editado pela Presença).
O factor que desencadeia a mudança em Vivien, regressada à casa paterna depois de enviuvar precocemente, é o reencontro com o tio Sándor, irmão do pai, figura fascinante e perigosa, um sedutor bem vestido que passou alguns anos na cadeia, depois de descobertos os abusos a que sujeitava os seus inquilinos, maioritariamente negros oriundos das Caraíbas. Embora reconheça o homem que vira apenas uma vez, e de relance (aos dez anos, quando ele lhe tentou oferecer uma barra de Toblerone, à porta de casa, durante uma discussão com o seu pai), Vivien, sob um falso nome, aceita trabalhar como secretária, gravando e transcrevendo as memórias que o tio proscrito quer fixar num livro biográfico. Por portas travessas, ela recupera assim as histórias de família que os pais desde sempre lhe esconderam e aprende que «os sobreviventes resistem graças à sua força, astúcia ou sorte e não à sua bondade e muito menos à sua inocência».
A estrutura do livro é simples, clássica, nada de muito arriscado ou inventivo. Por vezes o romance hesita, patina um pouco em linhas narrativas estéreis, mas nunca chega a perder completamente o fôlego ou o foco. Grant sabe o que faz, define bem o recorte psicológico das personagens e escreve num estilo ameno, com um toque de nostalgia. Na verdade, só falha mesmo na tentativa de criar uma metáfora abrangente, segundo a qual as roupas, e o modo como são usadas, reflectem aquilo que somos (o título inglês é The Clothes on Their Backs). Talvez isso aconteça, admitamos que sim, mas esta ideia nunca chega a ser desenvolvida de forma consistente.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]

Balanço final do Booker 2008

Na noite de terça-feira (14 de Outubro), quando a gala de entrega do Man Booker Prize chegou ao fim, o escritor indiano Aravind Adiga não cabia em si de contente. Aos 33 anos, o seu romance de estreia, The White Tiger (Atlantic Books), acabara de receber o mais prestigiado dos prémios literários de língua inglesa, a que podem concorrer obras publicadas no Reino Unido e na Commonwealth. Além do cheque de 50 mil libras (cerca de 64 mil euros) e da consagração precoce, a vitória no Booker garante-lhe um efeito multiplicador nas vendas capaz de transformar em poucos dias o seu livro, que até ao momento vendera apenas cinco mil exemplares, num bestseller.
Adiga é o segundo mais jovem vencedor de sempre – atrás de Ben Okri, que conseguiu o feito aos 32 anos, em 1991 – e apenas o quarto romancista a ganhar o Booker com uma primeira obra, depois de Keri Hulme (1985), Arundhati Roy (1997) e DBC Pierre (2003). Curiosamente, até chegar ao palco do Guildhall, em Londres, onde levantou o troféu, foi deixando sucessivamente para trás dois pesos-pesados da literatura indiana: primeiro Salman Rushdie, que não passou da longlist de 13 títulos, com A Feiticeira de Florença (já nas livrarias portuguesas, editado pela Dom Quixote); depois Amitav Ghosh, um dos seis finalistas, mas que viu o seu Sea of Poppies (Mar de Papoilas) ser devorado pelo tigre branco.
Ao contrário do que aconteceu noutros anos, esta não foi uma vitória por unanimidade. «Houve luta renhida até ao fim», admitiu Michael Portillo, presidente do júri – de que também fizeram parte Alex Clark, crítica literária e editora da revista Granta; a romancista Louise Doughty; James Heneage, fundador da rede de livrarias Ottakar; e o radialista Hardeep Singh Kohli. A última reunião do júri terá sido marcada por um «debate apaixonado» e «emocionalmente esgotante». Ombro a ombro com The White Tiger esteve «um outro romance», cujo título não foi divulgado, provavelmente A Fraction of the Whole, do australiano Steve Toltz, outro estreante, que para mim era o melhor dos seis romances a concurso. Mais consensual e acessível ao grande público, o livro de Adiga é, ainda assim, uma escolha que se compreende e aplaude.

A estrutura narrativa de The White Tiger não podia ser mais simples: um “empresário” espertalhão e sem escrúpulos, chamado Balram Halwai, escreve sete longas cartas ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, a poucos dias da sua visita oficial à Índia. Convicto de que os «amarelos» e os «castanhos» vão dominar em breve o mundo, pelo menos no plano económico, ele quer explicar a Jiabao as razões do sucesso dos «empreendedores» indianos, partindo da sua exemplar história de self made man. Exemplar é como quem diz. Halwai sobe a pulso na escala social, de motorista a dono de uma empresa de transportes (ao serviço dos grandes call centers de Bangalore), mas essa ascensão é feita à custa de todo o tipo de atropelos éticos, crimes e gestos amorais.
Nascido no coração da Índia, junto às margens negras do Ganges (negras por causa das cinzas que sobram das piras funerárias), Halwai cumpre o sonho que é negado a milhões de outros miseráveis como ele: sair da Escuridão («Darkness») – onde os búfalos trabalham nos campos, as pessoas morrem de tuberculose em hospitais sem médicos e os caciques fazem o que querem – a caminho da Luz representada pelas cidades modernas, a abarrotar de centros comerciais e empresas informáticas de ponta, cujas acções são negociadas na Bolsa de Nova Iorque.
São estas duas Índias, com os seus contrastes chocantes e os seus pontos de contacto (a corrupção, por exemplo, que surge em todos os níveis da sociedade), são estas imagens extremas de um país contraditório que Adiga explora com uma inteligência e uma subtileza raras, fazendo do seu livro uma parábola, ao mesmo tempo divertida e violenta, sobre o lado mais sombrio do milagre económico indiano.
Foi de resto esta capacidade de fugir à visão de uma Índia tradicionalista e exótica, trocando-a pelo choque frontal com a realidade dos nossos dias, que seduziu o júri do Booker. «Este é um livro que vai até ao limite, mostrando uma face da Índia que muitos leitores ocidentais talvez não conheçam», disse Portillo, destacando ainda o modo como Adiga aborda «temas sociais muito importantes», como o abismo entre ricos e pobres ou a questão das castas (que Halwai, o protagonista, simplifica ao dizer que só existem duas: a dos «homens com barriga grande» e a dos «homens com barriga pequena»).
Arvind Adiga nasceu em 1974, em Madras, viveu na Austrália e frequentou universidades norte-americanas (Columbia; Oxford). Como jornalista especializado em temas económicos, foi correspondente da revista Time e colaborador do jornal Financial Times. Numa entrevista dada ao site BookBrowse, Adiga explicou que a sua experiência profissional lhe permitiu perceber a infinita distância que separa o discurso economês hiper-optimista do quotidiano concreto dos indianos comuns. Ao viajar pelo país, passou horas e horas a ouvir o que as pessoas diziam nas estações de comboio e nas paragens de autocarro: «Quis fixar esse murmúrio contínuo que ninguém se dá ao trabalho de registar. A minha personagem, Balram Halwai, é uma mistura de vários homens que fui encontrando nessas viagens.»
Criado há 40 anos para ocupar no mundo anglófono um estatuto semelhante ao do prémio Goncourt, o Booker Prize é hoje muito mais importante, tanto em termos mediáticos como comerciais, do que o seu «rival» francês, ficando apenas aquém do Prémio Nobel. Esta influência, que reflecte o predomínio cada vez maior da língua inglesa num mundo globalizado, foi notório em 2007, quando metade da shortlist do Booker (Ian McEwan, Lloyd Jones e Mohsin Hamid) já estava editada em Portugal aquando do anúncio do prémio. Este ano, pelo contrário, nenhum dos seis finalistas teve essa sorte, embora se saiba que o livro de Linda Grant será publicado na Primavera (pela Civilização). Quanto aos direitos do romance de Adiga, alguém já os deve estar a negociar neste momento. E ainda bem.

Os finalistas derrotados:


A Fraction of the Whole, de Steve Toltz

O Man Booker Prize deste ano valeu sobretudo pelos dois estreantes. Além de Aravind Adiga, o vencedor, houve Steve Toltz, um genial australiano que resolveu fazer do seu primeiro romance um deslumbrante tour de force: caótico, filosófico, labiríntico, divertidíssimo e sem o mínimo sentido das proporções. Ao longo das suas 710 páginas, acompanhamos a complexa relação de Jasper Dean com o seu pai, Martin, e deste com o seu irmão, Terry (um criminoso que se torna o homem mais idolatrado da Austrália quando começa a assassinar, com requintes de malvadez, desportistas que se deixam corromper). No caso desta obra, qualquer tentativa de sinopse é vã, tantas são as linhas narrativas e os «livros dentro do livro» com que Toltz vai criando um universo proliferante e agónico, em que as tragédias se sucedem e cada uma consegue ser pior do que a anterior. Ostensivamente talentoso, capaz de oscilar entre a melancolia e o sarcasmo num décimo de segundo, Toltz tem uma concepção épica da literatura, como se esta fosse um lugar onde tudo pode ainda acontecer. Se tivesse feito parte do júri, era em The Fraction of the Whole que eu votaria.


The Secret Scripture, de Sebastian Barry

Num hospital psiquiátrico prestes a ser demolido, perto de Sligo (costa oeste da Irlanda), uma mulher centenária começa a desenrolar o longo novelo das suas memórias, um lento exorcismo que a transporta até aos anos duríssimos da guerra civil irlandesa, na década de 20 do século passado, e à raiz do seu trauma psicológico (uma terrível história de exclusão familiar). Em simultâneo, o médico que a acompanha atravessa o deserto do luto, provocado pela morte da mulher, e debate-se com um vazio existencial contra o qual não consegue lutar. No romance de Barry, estas duas vozes desoladas chegam-nos através dos respectivos diários, num processo de aproximação entre dois seres humanos – dois náufragos – que chega a ser arrebatador e comovente, mas perde alguma força devido a um desenlace tão inesperado quanto inverosímil. A escrita deste autor, que já fora finalista do Man Booker Prize em 2005 (com A Long Long Way), faz lembrar, pela limpidez e lirismo, a do seu compatriota John Banville. Seria uma pena que este romance não fosse traduzido, em breve, no nosso país.


The Clothes on their Backs, de Linda Grant

Na Londres dos anos 70, Vivien, uma rapariga que sempre viveu demasiado protegida pelos pais (um casal de imigrantes húngaros, tímidos e paranóicos), começa a acordar para a vida, para o sexo e para a política, centrada por aqueles dias no combate contra a intolerância racista da extrema-direita. Quase por acaso, reencontra um tio proscrito, Sandór Kovacs, em tempos condenado por explorar inquilinos, um homem fascinante e com uma história ainda mais fascinante para contar. Ao entrevistá-lo, com vista a escrever um livro biográfico, é todo o passado escondido da sua família que vem à superfície. Grant assina um ameno e subtil exercício de nostalgia.


Sea of Poppies, de Amitav Ghosh

Tendo como pano de fundo as Guerras do Ópio, Ghosh construiu um romance histórico à moda antiga, com uma investigação cuidada e um enorme rigor nas descrições (seja de uma cidade, ou da vida a bordo de um navio negreiro, ou do calão colonial oitocentista). Só que, por muito exactos e fiéis à realidade que sejam os factos em que Ghosh se apoia para criar a sua ficção, não creio que haja grandes razões para nos congratularmos. Um romance deve ser um espaço de liberdade criativa, não um manual de História. E liberdade criativa é aquilo que mais falta neste livro. Há algumas passagens que nos empolgam? Sim, há. Mas são poucas. O sentimento predominante é o tédio.


The Northern Clemency, de Philip Hensher

A primeira metade desta saga familiar em grande escala (738 páginas) dá a entender que Hensher é um bom escritor, digno do Booker Prize. A segunda metade mostra que Hensher não ganhará o prémio enquanto não tiver um editor mais exigente (capaz de cortar os excessos e as redundâncias da sua prosa torrencial). Centrado em Sheffield, com ramificações em Londres e na Austrália, o livro acompanha pessoas comuns através das suas pequenas e grandes tragédias, das suas alegrias e equívocos, num arco temporal que vai de 1974 a 1994, com os anos Thatcher (e as greves dos mineiros) pelo meio. Podia ser um clássico. Infelizmente, é só um flop.

[Versão revista de textos publicados no suplemento Actual do Expresso de 18 de Outubro]

Quatro poemas de Juan Manuel Roca

ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.

***

CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.

***

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.

***

POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.

[in Os Cinco Enterros de Pessoa, selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Glaciar, 2014]

A minha escolha

Da lista de «50 livros que toda a gente deve ler», coube-me escrever sobre nove. Ei-los:

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes (Dom Quixote)

Numa terra de La Mancha, de que o narrador prefere não se lembrar, vive Alonso Quijano, um homem que por excesso de leituras passou a linha que separa a sanidade da loucura. Ao sair da sua biblioteca, ele só consegue apreender o mundo com os olhos da literatura: a bacia de barbeiro é um elmo; o decrépito jumento parece-lhe um cavalo a sério (Rocinante); em prostitutas vê castas donzelas; numa estalagem manhosa, um palácio. Transforma-se assim o «engenhoso fidalgo» num «cavaleiro da triste figura», partindo estrada fora na companhia de um escudeiro que não o compreende (Sancho Pança) mas lhe alimenta a ilusão. Lado a lado, arremetem contra moinhos que para Quixote são gigantes e para Pança nunca deixam de ser moinhos. Raras vezes foi tão nítido, como nesta dupla picaresca, o contraste entre a imaginação à solta e a materialidade concreta das coisas, entre a utopia e o pragmatismo.
Publicada em 1605, a primeira parte do Quixote, com os seus elementos paródicos, fazia a transição entre modelos narrativos antigos (novelas pastoris, romances de cavalaria) e a literatura moderna. Mas a genialidade intemporal de Cervantes manifesta-se dez anos mais tarde, em 1615, com a edição da segunda parte da obra. Tendo o primeiro livro obtido um êxito enorme em toda a Espanha, as personagens que se cruzam com a dupla Quixote/Pança leram-no; ou seja, já conhecem os seus feitos, os seus falhanços, e aproveitam esse conhecimento para lhes criarem novos embaraços. Dito por outras palavras, Cervantes inventou, há quatro séculos, a meta-ficção. Querem algo mais moderno do que isto? Aliás, ainda na primeira parte, quando o barbeiro revista a biblioteca de Quijano, para lhe queimar os livros, encontra o primeiro romance de Cervantes (A Galateia) e poupa-o. A multiplicação dos narradores, bem como o seu carácter ambíguo, é outra marca de modernidade. El Ingenioso Don Quijote de La Mancha foi provavelmente o primeiro de todos os romances dignos desse nome. Podia ser o último.

MOBY DICK, Herman Melville (Relógio d’Água)

«Call me Ishmael» («Chamem-me Ishmael»). Uma frase, três palavras, e já estamos presos no sortilégio de Melville. Antigo mestre-escola, Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela experiência da aventura no mar alto. Após algumas experiências na marinha mercante, embarca num baleeiro de Nantucket: o Pequod. Em Moby Dick, é ele que narra a viagem do navio e a loucura do seu capitão, Ahab, um homem obcecado pela ideia de vingança. A grande baleia branca, monstro do oceano que escapa a todos os perseguidores, levou-lhe há muito tempo uma perna e a paz de espírito. Enquanto não a reencontrar, enquanto não lhe cravar o arpão fatal que tinja as águas de vermelho, Ahab não descansa. Mesmo que isso implique enfrentar uma tripulação que só quer fazer o seu trabalho – a faina de sempre – e voltar para casa. Melville publicou este livro portentoso a meio do século XIX (1851) e a recepção foi fria ou negativa. Para alguns críticos da época, Moby Dick era um livro desequilibrado, lento, com problemas estruturais e de escrita. O que umas décadas mais tarde seria visto como antecipação do que aí vinha (o hibridismo entre vários géneros, o olhar caleidoscópico sobre a realidade, o fôlego de uma empresa ficcional que rebenta com os espartilhos romanescos), na altura foi entendido como defeituosa execução de um escritor ambicioso. Melville sabia que tinha escrito o seu magnum opus, mas morreu sem o ver no cânone da literatura norte-americana e universal, onde está hoje de pleno direito. A sua baleia branca é a metáfora perfeita porque pode ser tudo o que quisermos que ela seja: a morte, Deus, o Mal. A bordo do Pequod vai a humanidade inteira. E no fim, consumada a tragédia, só sobrevive um. Ishmael, o que ficou para contar.

FICÇÕES, Jorge Luis Borges (Teorema)

Argentino de cultura anglófona, Borges viveu a infância na biblioteca do pai e atravessou a vida como se nunca de lá tivesse saído. O seu universo é livresco no melhor sentido da palavra, erudito, especulativo, fantástico, reinventando permanentemente os grandes temas (o tempo, o infinito, a ordem secreta do mundo). Em vez de «compor vastos livros», preferiu «simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário». Poeta maior, ensaísta agudíssimo e enciclopédico, escreveu dezenas de contos perfeitos, atravessados por tigres, espelhos, labirintos, simulacros e parábolas. Alguns dos mais geniais estão em Ficções: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius; Pierre Menard, autor do Quixote; O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam; A Biblioteca de Babel.

A VIDA MODO DE USAR, Georges Perec (Presença)

Figura maior do movimento OuLiPo, Perec explorou como ninguém os «constrangimentos» formais autoimpostos da chamada Literatura Potencial. La Disparition, por exemplo, é um romance lipogramático de 300 páginas sem uma única ocorrência da letra ‘e’ (a vogal mais frequente na língua francesa). Em A Vida Modo de Usar, de 1978, imaginou uma série de «romances» imbricados num único prédio, o n.º 11 da imaginária rue Simon-Crubellier, em Paris. Não podendo abarcar a realidade toda do mundo, Perec oferece-nos a dissecação exaustiva de um edifício e da vida dos seus habitantes – quer no espaço, quer no tempo (um arco de cem anos). Imenso puzzle a que falta sempre a peça decisiva, este é um tour de force que testa, com imenso brio literário e génio linguístico, os limites da arte narrativa.

RAYUELA – O JOGO DO MUNDO, Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Logo de início, numa «tábua de orientação», Cortázar explica que este romance é «muitos livros», porque a ordem dos seus 155 capítulos (99 dos quais considerados «prescindíveis») fica ao critério de quem lê: pode seguir-se a sequência da paginação, saltar para a frente e para trás, avançar em ziguezague, ou obedecer às sugestões do autor. Nesta narrativa não-linear, com dois hemisférios (Paris e Buenos Aires) que se complementam, há milhares de caminhos possíveis e todos são legítimos. Cortázar experimenta das mais variadas formas: funde dois textos num só, narra uma cena erótica com palavras inventadas (o «gíglico», dialecto dos amantes), parodia, rebenta com as regras, reinventa. Rayuela é um dos mais belos exercício de desmesura: lírico, caótico, infinitamente livre.

AUSTERLITZ, W. G. Sebald (Teorema)

Erudito alemão com carreira académica em Inglaterra, Sebald (n. 1944) foi um escritor tardio que depressa se impôs nos círculos mais exigentes. Quando morreu, em 2001, num acidente de automóvel, acabara de publicar a sua obra-prima, Austerlitz, romance que é uma espécie de apoteose da sua peculiar técnica narrativa. Algures entre a ficção e o ensaio, o relato de vidas alheias e a reflexão autobiográfica, escrevia num estilo digressivo, com frases muito longas de arquitectura perfeita, aqui e ali intercaladas por fotografias a preto-e-branco, cheias de grão, difusas como fantasmas. Austerlitz, o protagonista deste livro crepuscular, é uma figura tipicamente sebaldiana: um desterrado que procura o registo oculto das suas origens, inseparável da memória da Europa e dos seus traumas históricos.

AUTO-DE-FÉ, Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

O professor Peter Kien, sinólogo, existe em função da sua biblioteca. «Homem-livro», ele é um erudito misantropo que olha o mundo através do prisma dos seus milhares de volumes, mantendo-o cuidadosamente à distância. Até ao dia em que decide, num impulso, casar-se com a governanta, convencido de que ela o ajudará a manter o equilíbrio entre o seu recolhimento e as ameaças da realidade exterior. As consequências funestas cedo se materializam, quando o casal se incompatibiliza e Kien acaba expulso de casa. Forçado a confrontar-se com a sociedade que tão diligentemente evitara, o professor desce aos infernos e entra numa espiral destrutiva que culmina no apocalipse livresco que o título sugere. Único romance de Canetti, este é um dos mais extraordinários estudos sobre as glórias e malefícios da bibliofilia.

OS DETECTIVES SELVAGENS, Roberto Bolaño (Teorema)

Sabendo que o seu fígado tinha os dias contados, Bolaño (1953-2003) entregou-se na última década de vida a um autêntico frenesim de criação literária, de forma a garantir o futuro sustento dos filhos. Transformado em fenómeno editorial, sobretudo após a edição póstuma do gigantesco e magnífico romance 2666 (mais de mil páginas), Bolaño já atingira um ponto altíssimo nas letras hispânicas em Os Detectives Selvagens (1998), que segue de forma elíptica, a partir dos relatos de pessoas que com eles se cruzaram, a demanda de Arturo Belano e Ulisses Lima – fundadores do realismo visceral, “duas sombras cheias de energia e velocidade” – em busca de Cesárea Tinajero, poeta dos anos 20 que desapareceu misteriosamente no deserto de Sonora, esse locus horribilis que é o centro do mal em 2666.

SUBMUNDO, Don DeLillo (Sextante)

Na origem deste monumental romance, forte candidato ao estatuto de «great american novel», estão dois acontecimentos quase simultâneos, ocorridos em Outubro de 1951: por um lado, o improvável home run de Bobby Thomson que deu aos New York Giants uma vitória mítica no basebol; por outro, um teste nuclear soviético que foi o prenúncio das décadas paranóicas da Guerra Fria. Destes dois factos emanam os inumeráveis fios que Don DeLillo cruza na sua narrativa, oscilando entre as grandes escalas da História e o quotidiano banal de uma imensa galeria de personagens. Épico na descrição das grandes cenas colectivas, mestre na arte do diálogo, DeLillo conseguiu fazer, com esta ficção panorâmica, uma síntese da América na segunda metade do séc. XX.

[Textos publicados no suplemento Actual do jornal Expresso]

O senhor F.

O senhor F. não sabe que as outras pessoas o tratam por senhor F., quando ele não está presente. Se soubesse que as outras pessoas o tratam por senhor F., o senhor F. ficaria furioso. «Mas quem é que vocês pensam que eu sou? Alguma personagem do Gonçalo M. Tavares?», perguntaria, aos berros. Depois, de chapéu na cabeça, guarda-chuva na mão, sairia para a rua, encolhendo os ombros e murmurando impropérios.

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O senhor F. gosta muito de poucas coisas e gosta pouco de muitas. Quais as poucas coisas de que gosta muito e quais as muitas coisas de que gosta pouco, eis o que se torna difícil de determinar – sobretudo porque falar nisso é justamente uma das muitas coisas de que o senhor F. gosta pouco.

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O senhor F., em tempos, foi um excelente nadador. Bruços, crawl, mariposa, costas – dominava os vários estilos. Hoje o senhor F. continua a frequentar piscinas, mas fica na bancada, a ver pessoas de todas as idades, com as suas toucas coloridas, avançando a diferentes ritmos nas várias pistas, separadas por fios com flutuadores. Se perguntarem ao senhor F. por que razão já não vai para dentro de água, ele responderá com evasivas. A verdade é que o senhor F. aprecia sobretudo os movimentos pendulares dos corpos que vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm através do feérico brilho azul da piscina. Se insistirem muito, ele explicará: «Prefiro assistir aos movimentos pendulares do que ser eu próprio um pêndulo.»

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O senhor F. frequenta livrarias às terças e quintas. Às segundas, quartas e sextas, bibliotecas. Nas livrarias, faz listas das obras que gostaria de comprar. Nas bibliotecas, lê os livros que em tempos gostaria de ter comprado. Ao fim-de-semana fica em casa, entretido com jornais e revistas.

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O senhor F. considera que a cinefilia exige solidão. Quando um amigo o convida para a matinée, ele desculpa-se com tarefas de última hora e vai à noite. Quando a namorada sugere um determinado filme em sessão nocturna (o filme que ela quer mesmo, mesmo ver, e nenhum outro), adia a resposta, mete-se no cinema logo a seguir ao almoço e à saída responde com uma SMS: «Não vai dar, querida, esse já vi.»

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O senhor F. sente-se mal nos supermercados. Na verdade, o senhor F. sente-se mal em quase todos os lugares, mas particularmente nos supermercados. A aflição começa com a escolha do carrinho. O senhor F. acha que as compras só podem correr mal, vão correr inevitavelmente mal, se o carrinho não estiver em óptimas condições. Por isso experimenta vários até encontrar o perfeito (com as rodas oleadas, sem sacos do cliente anterior, impecavelmente limpo). Mas o carrinho perfeito muitas vezes não existe. Ou então está no fundo da série de carrinhos enganchados uns nos outros. Nas poucas vezes em que encontra o carrinho perfeito e entra com ele no dédalo do supermercado, depara-se com um problema ainda mais bicudo. Que percurso seguir? Começa-se pela fruta, passa-se depois ao talho, à charcutaria, à secção das bebidas e acaba-se na área dos produtos de limpeza, ou é ao contrário? Certeza, só uma: os congelados, por razões óbvias, devem ser a última paragem antes de seguir para a caixa. Mas um homem, mesmo um homem coriáceo e abnegado como o senhor F., não se pode agarrar a uma única certeza. Por isso o senhor F. acaba por retroceder, deixando o carrinho escolhido com tanto critério no parque de estacionamento (nem sequer recupera a moeda), e faz as suas compras na mercearia do bairro.

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O senhor F. é um melómano a sério, daqueles que considera a música tocada ao vivo insubstituível. As gravações, sejam elas analógicas ou digitais, exigem sempre uma reprodução mecânica em que há sons que ficam pelo caminho e para ele, purista como é, se um som se perde, um ínfimo som que seja, a música torna-se incompleta, amputada como a Vénus de Milo ou a Vitória de Samotrácia, e deixa de valer a pena. Se um dia ganhasse a lotaria, o senhor F. talvez se dispusesse a pagar bom dinheiro a um quarteto de cordas para que este subisse os instrumentos até ao seu quinto andar, sem elevador (coitado do violoncelista), de forma a proporcionar-lhe, em condições acústicas ideais, a fruição das obras mais extraordinárias de Schubert, Beethoven e Béla Bartók. Como provavelmente nunca ganhará a lotaria, nem qualquer outro jogo de azar, o senhor F., que também não tem dinheiro para comprar as assinaturas das grandes salas de concerto e ópera, contenta-se em procurar pela cidade os jardins em que os estudantes do Conservatório tocam de graça para a população.

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O senhor F. admira muito os funcionários das Finanças. Ao contrário dos outros contribuintes, acabrunhados enquanto esperam como reses em fila para o matadouro, temerosos das multas ou silenciosamente fervendo de indignação diante da máquina do Estado (especialista em apropriar-se de uma fatia generosa dos seus rendimentos), ao contrário de toda a gente que protesta mesmo quando não tem razão nenhuma para protestar, o senhor F. sente-se na repartição de Finanças como peixe na água. «A burocracia, quando bem exercida, é um espectáculo admirável», pensa ele. E deixa-se estar, deliciado, a assistir à consulta das matrizes prediais e a ouvir o som dos carimbos, sem sequer tirar senha porque na verdade não tem nenhum assunto para tratar ali.

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O senhor F. fala muito com os seus botões. Levanta-se do sofá, vai ao armário do quarto buscar a caixa de costura, pousa-a em cima da mesa da sala, abre-a e tira lá de dentro vários saquinhos de plástico com os botões, separados por cores e tamanhos. Assim que ficam todos alinhados em cima da toalha de linho que foi da sua trisavó materna, começa a falar e nunca mais se cala.

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O senhor F. só assistiu a um jogo de futebol na vida – e foi por engano. Era Fevereiro, estava frio e o senhor F. saiu à rua com um cachecol de lã amarelo e vermelho. No momento em que passava junto a um estádio, cruzou-se com dezenas de adeptos que envergavam cachecóis amarelos e vermelhos. Havia adeptos à sua frente, atrás de si e dos lados. De repente, sem perceber bem como, ficou no meio daquela multidão que se dirigia para os torniquetes, abertos naquele dia para que toda a gente apoiasse a equipa num dos jogos mais decisivos da temporada. O senhor F. assistiu à partida no meio de uma claque ululante, que exibia faixas, gritava os cânticos, rebentava petardos. Mesmo sem perceber nada do que acontecia sobre a relva, o senhor F. ficou satisfeito com o espectáculo. No fim, eufórico, um dos adeptos dos cachecóis amarelos e vermelhos deu-lhe uma cotovelada amistosa: «Então, foi bom, não foi?» Ao que o senhor F. respondeu: «Foi bom, sim senhor, foi muito bom, mas continuo a preferir a dança clássica.»

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O senhor F. desenvolveu, com os anos, um certo medo das alturas. Mas não tem sempre medo. Umas vezes tem, outras vezes não tem. Depende, justamente, das alturas.

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O senhor F. queria muito escrever um romance. Para ganhar rotinas de escrita, um certo embalo, uma certa disciplina, decidiu escrever mil palavras todos os dias, durante um mês. De início, alcançava o objectivo diário com relativa facilidade, numa hora e meia, duas no máximo. Mas a partir de certo momento o exercício tornou-se penoso. O que fora uma alegria, era agora um sacrifício. Já não era ele que escrevia as mil palavras, eram as mil palavras que o escreviam a ele. Quando apagou do computador os textos tão esforçadamente arrancados à sua escassa imaginação, o senhor F. pensou que ia sentir pena, desânimo, arrependimento. O que sentiu foi alívio das ilusões desfeitas.

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O senhor F. é muito friorento, mesmo no Verão. É por isso que anda sempre com um casaco de malha e o seu cachecol de lã amarelo e vermelho. Dito isto, não se pode acusar o senhor F. de insensibilidade absoluta às condições meteorológicas quando escolhe o seu guarda-roupa. Nos dias em que os termómetros se aproximam dos quarenta graus centígrados, o senhor F. não deixa de usar o seu cachecol de lã amarelo e vermelho, mas deixa cair o casaco de malha, saindo para a rua, ó ousadia, em camisa – uma camisa de mangas compridas, azul escura, com o colarinho abotoado, claro.

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O senhor F. indigna-se facilmente. Se a indignação for muito grande, pega num caixote de madeira, vai até à esquina da rua e imita os oradores londrinos do Speakers Corner, lançando-se em jeremiadas que podem durar até cinco horas. Se a indignação for moderada, faz o percurso das mercearias do bairro, começando sempre as suas queixas com um vocativo: «Ó dona Albertina, então já viu isto?»; «Ó senhor Alfredo, eu sei que parece mentira mas…»; «Ó dona Belinha, a senhora não vai acreditar no que acabei de ouvir no ‘Jornal da Tarde’…»; etc. Se a indignação for pequena, o senhor F. escreve mais um dos seus posts crípticos, publicados no seu blogue anónimo e completamente desconhecido, cujas únicas visitas são as que faz todas as noites para confirmar que ainda continua a existir (o blogue e ele próprio).

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O senhor F. deixou de ter namorada. Ou melhor, a namorada do senhor F. é que deixou de o ter a ele. Abandonou-o. O senhor F. ficou de rastos e transporta uma tristeza no peito semelhante a uma bomba-relógio programada para explodir de minuto a minuto. Quando o senhor F. perguntou à namorada «porquê?», ela não lhe soube responder. Ou melhor, respondeu-lhe que havia um problema grave de desfasamento. Para ela, o que mais importava era o futuro, o que estava para vir (e, no futuro, ela não conseguia imaginar-se ao lado do senhor F.). Para o senhor F., o importante era o presente, o que estava a acontecer agora (e, no presente, ele não conseguia imaginar-se sem a namorada junto de si). Fora esta discrepância, o entendimento entre os dois era perfeito, uma espécie de milagre do amor, melhor ainda do que nos livros. Mas a namorada, por muito que gostasse do senhor F., era incapaz de lidar com o tal desfasamento, com o tal absurdo medo do futuro. E um dia desapareceu mesmo. O senhor F., que se estava nas tintas para o futuro, sentiu o presente a ser-lhe arrancado como se fosse uma perna ou um braço, e transporta agora o passado como um tesouro cruel que lhe dá cabo das costas.

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O senhor F. juntou muitos mapas ao longo da vida. Coleccioná-los é a sua maior obsessão. Tem mapas de todos os tamanhos e feitios. Mapas de ilhas remotas, minúsculas e desabitadas. Mapas das estradas que são como sistemas circulatórios de um país ou de um continente inteiro. Mapas históricos com geografia ainda imprecisa, áreas vazias de terra incognita, monstros na orla do planeta e baleias de cauda escamosa no meio do mar. Mapas dos grandes desertos com a posição relativa das dunas no momento em que o mapa se imprimiu e a sua provável evolução (a tracejado). Mapas de grandes capitais que ocupam uma sala inteira, com os bairros identificados por cores diferentes, mas também os prédios, um a um, e os pátios, os saguões, as garagens subterrâneas, os bancos dos jardins, as antenas, os quiosques, os ecopontos, as sarjetas, os toldos dos cafés, os baloiços dos parques infantis, os parquímetros. Mapas de glaciares, desactualizados ainda antes de terem saído da gráfica, mas belíssimos nos seus vários tons de branco, cinzento e azul. Mapas atravessados por fronteiras que já não existem. Mapas económicos. Mapas demográficos. Mapas de terras que nunca existiram a não ser na imaginação de certos escritores. E o mapa mais importante de todos: o mapa das dezenas de gavetas do seu arquivo de mapas, sem o qual não conseguiria chegar de forma tão expedita ao mapa que lhe interessa num determinado momento.

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O senhor F. enerva-se muito a ler jornais. Todos os sábados e domingos, recorta os artigos com erros factuais ou ortográficos, assinala-os, corrige-os, e cola-os em folhas A4 brancas. Depois, sai discretamente de madrugada, quando ninguém passa na rua, e vai afixando esses papéis à porta das redacções que deixaram passar os inadmissíveis erros. Já houve, aliás, reportagens feitas pelos jornais visados sobre este justiceiro anónimo. Mesmo actuando pela calada, o senhor F. devia sentir orgulho do seu cada vez mais mencionado e influente jornal de parede. O problema é que ele descobre alguns erros nas próprias denúncias que escreve. Ou seja, em vez de orgulho, o que ele sente é vontade de fazer um segundo jornal de parede que corrija o seu primeiro jornal de parede, sabendo perfeitamente que ao fazê-lo só estaria a abrir a porta a um terceiro jornal de parede, etc. «Não tenho vida para isto», resume o senhor F.

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O senhor F. é um visitante frequente do Jardim Zoológico. Nunca espreita as jaulas dos tigres, nem o fosso dos leões, nem o espaço dos macacos, nem as girafas, nem os elefantes, nem as crias do rinoceronte branco, nem o espectáculo com golfinhos que voam a grande altura e focas que batem palmas. Assim que atravessa o portão, o senhor F. dirige-se logo para o Reptilário, onde fica tardes inteiras junto a uma das enormes caixas de vidro, à espera de ouvir a música tão discreta e preciosa da cascavel.

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O senhor F. tentou suicidar-se três vezes. Uma corda à volta da garganta. Comprimidos. Um salto da janela. A corda partiu-se. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago. O toldo de um café e um colchão abandonado na rua amorteceram-lhe a queda. Morrer é mais complicado do que parece à primeira vista. Resignado, o senhor F. costuma dizer que se à terceira não foi de vez, então é porque não vale a pena tentar a quarta.

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O senhor F. detesta finais infelizes (a tragédia grega), mas detesta mais ainda finais felizes (Hollywood). O que o senhor F. detesta mesmo é a própria ideia de final. Para ele, o final é o momento em que chegamos ao futuro e acaba tudo. Se dependesse do senhor F., nunca haveria final para nada, muito menos para a forma como ele, senhor F., mal ou bem, se vai inscrevendo no mundo. É por isso que aproveito o facto de o senhor F. ter ido à repartição de Finanças para, à sua revelia… enfim, vocês sabem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges