Cinco poemas de Tomas Tranströmer

CARRIL

Duas da madrugada: noite luarenta. O comboio detém-se
no meio da campina6. Bem ao longe, pontos luminosos, urbanos,
tremulam friamente a perderem-se de vista.

O mesmo sucede quando sonhamos tão profundamente
que nunca havemos de nos recordar onde estivemos
ao regressar ao nosso quarto.

Ou como alguém com uma doença tão adiantada
que todos os anos vividos passam a ser pontos trémulos,
um enxame frio e sem importância no horizonte.

O comboio continua sem se mexer um milímetro.
São as duas da madrugada: luar intenso, poucas estrelas.

***

ABRIL E O SILÊNCIO

A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

O que apenas quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

***

UM CÉU POR ACABAR

O desânimo interrompe o seu curso.
A angústia interrompe o seu curso.
O abutre interrompe o seu voo.

A luminosidade impaciente escoa-se,
até os fantasmas pedem um copo de três.

Pinturas rupestres vêm à luz,
animais em ocre vermelho de um ateliê glaciar.

Todo o existente olha à sua volta.
O astro-rei é adorado.

Cada ser humano é uma porta entreaberta
que conduz a um quarto para todos.

O solo imenso no qual caminhamos.

Por entre o arvoredo, a água da chuva ilumina.

Lagos são janelas com vista para a terra.

***

O CASAL

Apagam a luz, o globo branco treme
um instante antes de se desvanecer
como um comprimido num copo de escuridão. Às escuras,
as paredes do hotel elevam-se, atingem o negrume celeste.

Os movimentos do amor esmorecem, eles dormem,
mas os pensamentos mais íntimos encontram-se
como duas cores que esbarram e se misturam,
tal papel humedecido da pintura de um garoto na idade escolar.

Ainda não é dia e há silêncio. Esta noite, porém, a cidade acercou-se.
Com janelas apagadas, as casas estão ali.
Juntas umas às outras, à espera, muito perto,
uma multidão com rostos sem expressão.

***

MEADOS DO INVERNO

Um rasto de luz azulada
irradia da minha roupa.
Decorrida está metade do inverno.
Música de choques de mil blocos de gelo.
Fecho os olhos.
Há um mundo sem ruídos,
uma fissura,
onde os mortos,
como contrabando, são passados para o além.

[in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio d’Água, 2012]

Duplo Tranströmer

O Prémio Nobel de Literatura de 2011, Tomas Tranströmer, só estava publicado em Portugal de forma muito esparsa, nalgumas antologias e em jornais e blogues (que fizeram traduções de poemas avulsos). Quase um ano após a consagração que lhe foi conferida pela Academia Sueca, as editoras nacionais começam finalmente a reagir. Já este mês, a Relógio d’Água publica 50 poemas, com tradução e nota introdutória de Alexandre Pastor. Em Setembro, será a vez da Sextante lançar o único livro em prosa de Tranströmer: As Minhas Memórias Observam-me (Minnena ser mig, 1993), com prefácio de Pedro Mexia.

Uma homenagem a Tomas Tranströmer (amanhã à tarde)


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Programa:

– Abertura da homenagem, por Raquel Marinho e José Mário Silva
– Apresentação de um vídeo em que Tranströmer toca piano no dia em que recebeu o Nobel (16 minutos; Sergio Letria fará a tradução das legendas)
– Leitura de poemas de Tomas Tranströmer traduzidos para português, por Raquel Marinho e José Mário Silva
– Leitura de poemas de Tranströmer em sueco, por Cisela Björk
– Depoimento gravado do professor Amadeu Batel, em Estocolmo, a explicar como se viveu a entrega do prémio Nobel 2011 na Suécia
– Leitura de uma carta de Tomas Tranströmer em que descreve a cerimónia de entrega do Nobel
– Saudação de Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago
– Leitura do discurso de aceitação do Nobel por José Saramago. Referência ao aniversário da Declaração dos Direitos Humanos
– Despedida com um poema de Tomas Tranströmer cantado por Emma Tranströmer

Quatro poemas de Tomas Tranströmer

Em Fevereiro deste ano, o poeta João Luís Barreto Guimarães publicou no seu blogue alguns poemas do novo Prémio Nobel, traduzidos a partir da versão castelhana do livro Para vivos y muertos (editado em Espanha pela Hiperión, com tradução do sueco por Roberto Mascaro e Francisco Uriz). Desse post que me foi dedicado (e que agora agradeço, com meses de atraso), roubo então estas quatro pequenas maravilhas, vertidas para português por JLBG:

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

***

A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

***

DESDE A MONTANHA (1962)

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Número de livros de Tomas Tranströmer publicados em Portugal:

Zero.

O desenho de uma tempestade

50 Poemas
Autor: Tomas Tranströmer
Tradução: Alexandre Pastor
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 144
ISBN: 978-989-641-304-0
Ano de publicação: 2012

Poeta canónico na Escandinávia, traduzido em dezenas de línguas e eterno candidato ao Nobel, Tomas Tranströmer recebeu finalmente, em 2011, o mais importante dos prémios literários. Em Portugal, do grande escritor sueco havia apenas alguns textos incluídos em antologias de poesia nórdica e uns quantos poemas traduzidos na internet. Foi preciso quase um ano para que se colmatasse esta lacuna, com a publicação, pela Relógio d’Água, destes 50 Poemas, traduzidos por Alexandre Pastor.
O livro ilustra quase meio século de produção poética, com textos retirados de 12 livros, sem ordem cronológica. Muito presente está um dos aspectos mais destacados da obra de Tranströmer: a forma como descreve a paisagem e os elementos naturais. Abundam as florestas, as manifestações do Inverno, os cenários de neve e ventania. O poeta é capaz de ler uma borrasca de olhos fechados, de discernir os mínimos sinais do degelo, mas também se pode sentir subitamente «desmascarado pelo esplendor do verão». Agreste, misteriosa, a natureza fascina mas tem um carácter indecifrável – e por isso há lugares ermos que se transformam «numa esfinge».
Quase sempre com uma estrutura simples, reduzida ao essencial, partindo de uma situação do quotidiano, os poemas como que se acendem pela deflagração de imagens fortíssimas. Tranströmer revela uma absoluta mestria no uso dos paradoxos («uma bebida efervescente num copo vazio», o «altifalante que emite silêncio», o «livro que só pode ser lido nas trevas») e sobretudo das metáforas. Certo barco é comparado a «um alaúde enorme sem cordas». Um outro, visto do céu, assemelha-se a um «caroço de azeitona cuspido para o oceano», com uma esteira que é «pálida cicatriz». Há ainda uma «megacidade» crescendo como «uma galáxia em espiral», carruagens do metro que são «catacumbas itinerantes», e colunas de uma igreja a servir de «talas de gesso / à volta do braço partido da fé».
Tranströmer é um poeta muitíssimo atento às mais pequenas vibrações do mundo sensível: a luz que bate num rosto adormecido, tornando mais vívido o sonho que agita os olhos sob as pálpebras; o ruído urbano que atravessa as paredes de uma catedral e invade o súbito silêncio do órgão. As «bonitas sobras da experiência» que dão origem ao poema estão em todo o lado. Podem assumir a forma de um pássaro – um cuco empoleirado no vidoeiro ou o canto do rouxinol, «sonoro e áspero, a afiar a gadanha pálida da abóbada celeste». Pode ser um comboio que se deteve «no meio da campina» às duas da madrugada. Podem ser objectos artísticos: um quinteto de Schubert, uma tela de Turner, um personagem de Gogol, um baixo-relevo do século XVI representando um judeu português explorador no Benim, um retrato de mulher estrangulado por uma moldura dourada.
Muitas das reflexões de Tranströmer revelam um pendor metafísico: o poeta senta-se à «mesa oscilante da humanidade» e aprende que «cada ser humano é uma porta entreaberta / que conduz a um quarto para todos». Com a idade, «encurralado num canto», diminuem as surpresas mas também a capacidade de «carregar» o peso do que «acontece». Pressente-se então, de forma cada vez mais explícita, a sombra da morte, esse destino que todos fingimos ignorar: «Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta / e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida, / e a vida continua. O fato, porém, esse / é cosido em silêncio.» No fundo, esta poesia aspira a mostrar-nos uma imagem abstracta do mundo, sabendo que «a imagem abstracta do mundo é tão impossível de dar como fazer o desenho de uma tempestade».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

Telegrama para Alice Munro

Desta vez, apostei em si para o Nobel STOP O prémio foi para o Oriente STOP Não desanime STOP Durante três anos, apostei no poeta Tranströmer STOP Na vez seguinte, disse que não apostava mais nele STOP Foi nesse ano que ele ganhou STOP Esperemos então por 2015 STOP Cumprimentos de um admirador

Rastos de luz

As minhas lembranças observam-me seguido de Primeiros Poemas
Autor: Tomas Tranströmer
Título original: Minnena Ser Mig
Tradução: Ana Diniz
Editora: Sextante
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-972-0-07176-7
Ano de publicação: 2012

A recordação mais antiga de Tomas Tranströmer é «de um sentimento». Não um facto ou uma paisagem, não uma palavra ou um gesto, mas o «orgulho» de ouvir, na boca dos adultos, «que agora eu era grande». Tinha três anos. O pai ainda fazia parte do agregado familiar, mas não por muito tempo. O divórcio, relativamente raro na época, aconteceria pouco depois e ele sentiu o peso dessa ausência paterna que o tornava diferente dos outros meninos. Sobretudo na escola, onde imperava a disciplina severa dos professores e a hostilidade por vezes cruel de alguns alunos. A dada altura, um rapaz «cinco vezes mais forte» decidiu implicar com ele. «No início, eu resistia ferozmente, mas não servia de nada. (…) Por fim descobri um método de o desiludir (…). Quando ele se aproximava, eu fazia de conta que O Meu Eu tinha voado para outro sítio e deixado ali um cadáver, um trapo sem vida que ele podia deitar ao chão à vontade. Acabou por se fartar.»
As evocações de Tranströmer, escritas pouco antes do AVC que o deixou afásico e com metade do corpo paralisado, no início da década de 90, correspondem ao período de formação. Sexagenário, olha para trás e a sua existência assume a forma de um cometa. Ele escreve a partir do fim da cauda, de intensidade já muito diluída, quase a desaparecer na escuridão mais funda. E talvez por isso o foco do seu interesse está todo na cabeça do cometa, essa «extremidade mais luminosa» que corresponde aos primeiros anos: «O núcleo, a parte mais densa, é a primeira infância, quando são determinados os traços principais da nossa vida. Tento recordar-me, tento chegar lá. Mas é difícil movimentarmo-nos nessas regiões muito condensadas, é perigoso, tenho a sensação de que chegaria muito próximo da morte.»
Esta dificuldade leva a um certo desprendimento da prosa, que salta entre episódios sem uma grande preocupação de exaustividade cronológica. Por exemplo, as páginas dedicadas ao tempo com a mãe, depois do divórcio, quando se mudaram para um bairro de classe média baixa, passam da caracterização geral dos vizinhos, ou da empregada que cuidava dele, para um momento que fixa o seu desnorte infantil, mas também a sua capacidade de superação. Um dia perdeu-se na rua, após um concerto escolar. À saída do auditório, viu-se de repente sozinho, avançando por ruas desconhecidas, ao crepúsculo. Ultrapassado o pânico, lembrou-se do trajecto feito à vinda, no autocarro, e seguiu instintivamente o percurso inverso. «Talvez me guiasse a mesma misteriosa bússola que trazem em si os cães e os pombos-correios: conseguem sempre encontrar o caminho para casa, onde quer que sejam largados.» Quando chegou, sem saber bem como, estava «num estado de autêntica embriaguez».
A memória de Tranströmer é feita destes «rastos de luz». O seu perfil desenha-se sob um brilho de relâmpagos: o menino fascinado por museus e bibliotecas, coleccionador de escaravelhos (sempre com um frasco de éter no bolso), o rapazinho anti-nazi fervoroso durante a guerra, o adolescente deprimido («Fui aprisionado por um holofote que emitia escuridão») mas capaz de libertar-se dos seus fantasmas e descobrir, nas traduções de versos clássicos nas aulas de Latim (Catulo, Horácio), que «através da forma (da Forma!) era possível elevar uma coisa a um estádio superior». Desde pequeno, Tranströmer vai aproximando-se quer da «experiência da beleza», quer do «grande mistério» do mundo natural. Faz todo o sentido que o livro termine quando se torna poeta, reunindo mesmo uma breve antologia dos seus primeiros poemas, porque poeta foi o que ele nunca mais deixou de ser. O resto fica implícito: «Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Chad Harbach, autor de A Arte de Viver à Defesa (Civilização), por Clara Ferreira Alves
As Minhas Lembranças Observam-me, de Tomas Tranströmer (Sextante), por José Mário Silva
Estação Central, de José Tolentino Mendonça (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Mulheres Livres, de Maria de Belém Roseira (A Esfera dos Livros), por Luísa Meireles
– Escolhas de Graça Batista

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Dossier “50 livros que toda a gente deve ler”, por Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia
Carmina, de Gaio Valério Catulo (Cotovia), por António Guerreiro
50 Poemas, de Tomas Tranströmer (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Voltar, de Sarah Adamopoulus (Planeta), por Luís M. Faria
Os Dias de Davanzati, de Héctor Abad Faciolince (Quetzal), por José Mário Silva
Arde o Musgo Cinzento, de Thor Vilhjámsson (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
– Escolhas de José Rentes de Carvalho

Poesia sueca na Poetria

No próximo dia 22, a partir das 21h30, a Poetria promove uma sessão dedicada à poesia sueca no Espaço Gesto (R. José Falcão, 107, Porto), com destaque especial para Tomas Tranströmer, Prémio Nobel da Literatura em 2011. A apresentação dos poetas caberá a Gonçalo Vilas-Boas, as leituras a Celeste Pereira, Armando Dourado e Anna Olsson. Preço da entrada: 3,5 euros. Os organizadores avisam: «Sejam frugais no jantar. Nós oferecemos a sobremesa e os digestivos. Também serão oferecidos presentes-surpresa, da Suécia, naturalmente.»

Imagens translúcidas

O que mais me impressionou foi a súbita explosão de alegria. O anúncio do Nobel costuma ser uma cerimónia circunspecta. Abre-se uma porta numa sala cheia de dourados, o secretário permanente da Academia Sueca faz uma curtíssima declaração, ouvem-se os disparos das máquinas fotográficas e um ligeiro burburinho (geralmente um «quem é?» em várias línguas, quando o premiado sai das trevas do anonimato). Este ano foi diferente. Quando Peter Englund, visivelmente satisfeito, revelou que o Nobel ficaria em casa, na Suécia, nas mãos do venerado poeta Tomas Tranströmer, a sala rejubilou. E eu também. A sala rejubilou porque ao fim de 37 anos acabava o tabu provocado pela polémica atribuição do Nobel a dois suecos em 1974, Harry Martinson e Eyvind Johnson, ambos membros do comité do prémio. Eu porque o Nobel voltava a ser atribuído a um poeta, 15 anos depois. Pelo meio houve Saramago e Pinter, que também escreveram poemas, mas foram premiados pelos seus romances (o primeiro) e peças de teatro (o segundo). Poeta-poeta, o último fora a polaca Wislawa Szymborska, em 1996, há uma eternidade.
Alguém devia fazer um dia, se já não foi feito, um estudo sobre as justificações lapidares da Academia Sueca, reduzidas quase sempre a uma frase generalista, redonda e abrangente, que pode ser perfeita para a lógica dos soundbytes da comunicação social, mas é curta para quem deseja perceber o que distingue o autor premiado. No caso de Tranströmer, foram evocadas as suas «imagens condensadas e translúcidas» que permitem «novas formas de acedermos à realidade», um elogio que em bom rigor pode aplicar-se a dezenas de outros poetas. Houve, apesar de tudo, alguma exactidão na referência às «imagens translúcidas», porque é precisamente o refinadíssimo trabalho metafórico de Tranströmer, a capacidade de vermos através das imagens por ele convocadas, que torna a sua poesia tão arrebatadora.
Os poemas que conheço deste autor foram vertidos para inglês, castelhano e (poucos) para português. Se a poesia é o que se perde na tradução, como defendia Robert Frost, eu de cada vez que os leio fico com pena de não saber sueco. Pressinto neles uma delicadeza que o trânsito para outras línguas deforma. O poema traduzido é a sombra do poema original: tem o seu contorno, a sua silhueta, mas falta-lhe espessura. Ainda assim, encontrei belíssimas sombras. Como a de Madrigal, traduzido por Alexandre Pastor no Jornal de Letras: «Herdei uma floresta sombria onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que mortos e vivos mudarão de lugar. A floresta começará então a mover-se. (…) Eu herdei uma floresta sombria, mas hoje passeio numa outra, plena de claridade. Tudo o que está vivo e canta, serpenteia, acena, rasteja! É primavera, e o ar que se respira é fortíssimo. Tenho um diploma da universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.» Releio o poema e as imagens acendem-se: a floresta que se move, como no quinto acto de Macbeth; a explosão da primavera; a universidade do esquecimento; as mãos vazias agitadas pela ventania que não precisa de ser nomeada.
Este poema surgiu num livro de 1989 e há justamente uma imagem – a da camisa pendurada na corda – que rima com outro poema, de 1966, intitulado Pássaros Matinais (aqui em tradução do poeta português João Luís Barreto Guimarães, a partir de uma versão castelhana): «(…) Por uma parte de trás da paisagem / chega a gralha / negra e branca. Pássaro agoirento. / E o melro que se move em todas as direcções / até que tudo seja um desenho a carvão, / salvo a roupa branca na corda de estender: / um coro da Palestina: // Não há vazios por aqui. // É fantástico sentir como cresce o meu poema / enquanto me vou encolhendo / Cresce, ocupa o meu lugar. // Desloca-me. / Expulsa-me do ninho. / O poema está pronto.» A imagem translúcida, aqui, é a do poema que se desenvolve à custa do poeta, o crescimento de um fazendo-se do encolhimento do outro, o poema ocupando o lugar do poeta, expulsando-o do ninho. Uma lição essencial. Quem ganhou o Nobel este ano não foi Tranströmer, mas a poesia.

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Uma oliveira carregada de poemas

Na véspera do 13.º Aniversário da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago e no dia em que a Fundação Saramago celebra a vida e a obra de Tomas Tranströmer, a oliveira que acolheu as cinzas do autor de Memorial do Convento acordou coberta por poemas do autor sueco e exemplares do Discurso de Estocolmo (proferido em Dezembro de 1998), em português, espanhol e inglês, «para que sejam lidos, levados e partilhados».

A conferência do Nobel

Este ano, a conferência do Nobel de Literatura não foi uma conferência. Por razões óbvias: desde 1990, quando sofreu um derrame cerebral, Tomas Tranströmer não consegue falar. Na quarta-feira, em Estocolmo, a habitual cerimónia de aceitação do prémio foi substituída pela leitura de 13 poemas de Tranströmer, nalguns casos com música a acompanhar (Wagner, Schubert e compositores suecos). O alinhamento do recital e a tradução dos poemas para inglês estão aqui.
Para a homenagem desta tarde, traduzi o primeiro dos poemas lidos:

MEMÓRIAS, OLHEM PARA MIM

Manhã de Junho, demasiado cedo para acordar,
demasiado tarde para adormecer de novo.

Tenho de sair – a paisagem verde é densa
de memórias, elas seguem-me com o olhar.

Não podem ser vistas, confundem-se completamente
com o cenário, são verdadeiros camaleões.

Estão tão próximas que consigo ouvir a sua respiração
embora aqui o cantar dos pássaros seja ensurdecedor.

Mais sete poemas de T. T.

Em inglês, aqui.

A imprensa de referência e o Nobel de Literatura

Todos os anos, no dia seguinte à atribuição do Nobel de Literatura, faço um pequeno exercício na banca dos jornais: «Ora deixa cá ver quem é que chamou o escritor nobelizado para a primeira página e quem é que o ignorou.»
Escusado será dizer que o Correio da Manhã, por exemplo, nunca faz qualquer referência. Ainda se o escritor fosse um assassino, um pedófilo ou um ponta-de-lança do Benfica, talvez se arranjasse um espacinho. Agora alguém que escreve livros, essas coisas aborrecidas, é óbvio que nunca terá lugar numa capa tablóide.
Durante muito tempo, verifiquei uma espécie de lei universal que permitia separar os jornais de referência do resto da imprensa. Os jornais de referência são os que fazem chamada de capa com o Prémio Nobel de Literatura ou com os grandes escritores, quando morrem. Há uns anos, para minha tristeza, o Diário de Notícias começou a esquecer o Nobel literário. O Público, esse, nunca falhava.
Ora neste ano da graça de 2011, para meu grande espanto, aconteceu o contrário: Tomas Tranströmer está na capa do DN (com foto e tudo; embora para isso contribua, estou certo, o facto de o poeta sueco ter escrito sobre Lisboa), mas nem sombra dele na capa que o Público dedica quase na íntegra a Steve Jobs. Não deixa de ser sintomático (e preocupante).

“Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja”

O poema que num post anterior Tomas Tranströmer lê em sueco (língua incompreensível, estou certo, para 99,99% dos leitores deste blogue) foi ontem mesmo traduzido pelo incansável Luís Costa, autor de um ensaio muito interessante sobre a poética de Tranströmer, publicado em Novembro de 2007 na revista online Agulha.
Eis a versão portuguesa de Madrigal:

«Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera, o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.»

‘Madrigal’

Tomas Tranströmer lê um poema de Tomas Tranströmer.

Lá na ilha

Em 2007, Doris Lessing soube do Nobel quando chegou a casa, com os sacos das compras, e viu uma multidão de jornalistas à sua porta. Normalmente, os vencedores são avisados por telefone. Mas Tranströmer vive numa ilha, longe de tudo, propositadamente isolado do mundo. Sem jornalistas à porta, terá atendido o telefonema de Estocolmo? Ou será que olhava as árvores a andar «de aqui para ali sob a chuva» e foi preciso alguém murmurar-lhe ao ouvido que o grande mundo está, finalmente, de olhos postos nele?

Justificação

Pouco passava do meio-dia, quando o secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund, surgiu dos bastidores para ler em sueco e em inglês o habitual curtíssimo comunicado:

«The Nobel Prize in Literature for 2011 is awarded to the Swedish poet Tomas Tranströmer “because, through his condensed, translucent images, he gives us fresh access to reality”»

O que pode ser traduzido por:

«O Prémio Nobel de Literatura 2011 é atribuído ao poeta sueco Tomas Tranströmer “porque nos dá, através das suas imagens condensadas e translúcidas, novas formas de acedermos à realidade”»

Pensamento mágico

Em 2008, apostei em Tomas Tranströmer. Em 2009, apostei em Tomas Tranströmer. Em 2010, voltei a apostar em Tomas Tranströmer, convencido que à terceira seria de vez. Depois, a 8 de Outubro de 2010, escrevi: «Para o ano, não apostarei no poeta Tomas Tranströmer (pode ser que assim ele ganhe)». Fiel a essa promessa, em 2011 não apostei em Tomas Tranströmer nem em mais ninguém. Pelos vistos, resultou.

E o vencedor do Prémio Nobel de Literatura de 2011 é…

Tomas Tranströmer. O maior poeta sueco vivo. Excelente escolha.

Balanço pessoalíssimo do Prémio Nobel da Literatura

Para o ano, não apostarei no poeta Tomas Tranströmer (pode ser que assim ele ganhe).

À terceira

Em 2008, a minha aposta para o Nobel de Literatura foi o poeta sueco Tomas Tranströmer. Em 2009, a minha aposta para o Nobel de Literatura foi o poeta sueco Tomas Tranströmer. Em 2010, a minha aposta para o Nobel de Literatura é o poeta sueco Tomas Tranströmer.
Será desta?

Prémio Nobel da Literatura (um prognóstico falível, como todos os prognósticos sobre a decisão da Academia Sueca)

Amanhã, pelas 12h00 do nosso meridiano, a Academia Sueca vai anunciar o Nobel da Literatura 2009. Os favoritos são os do costume: Amos Oz, Philip Roth, Joyce Carol Oates, Vargas Llosa, Claudio Magris, Adonis. Mas, como de costume, os favoritos podem perfeitamente ser ignorados pelos académicos de Estocolmo, em favor de um ilustre desconhecido, ou de um grande autor de uma literatura marginal.
Se me pedissem apostas, apontaria três nomes:

1. Philip Roth – Se não for este ano, talvez já não venha a ser laureado (o que seria uma enorme injustiça, para juntar a tantas outras: Joyce, Borges, Nabokov, etc.). A seu favor, jogam as afirmações do novo secretário permanente da Academia, Peter Englund, segundo as quais o prémio «tem sido demasiado eurocêntrico», o que abre uma porta para os autores norte-americanos que o seu predecessor, Horace Engdahl, fechara em 2008, ao garantir que a Europa continuava a ser o centro do mundo literário e que os EUA se fechavam muito sobre si mesmos, numa lógica insular, incapazes de participar no «grande diálogo da literatura».

2. Tomas Tranströmer – Pelas mesmíssimas razões que me levaram a apostar nele no ano passado.

3. Amos Oz – Porque é o palpite de Eduardo Pitta (o observador atento das coisas literárias que há precisamente um ano apostou, acertando na mouche, em Le Clézio) e porque está à frente na lista das casas de apostas britânicas, tal como estava Hilary Mantel, a romancista que ontem arrebatou o Man Booker Prize (provando que às vezes os favoritos ganham mesmo).

A minha aposta para amanhã

Tomas Tranströmer. Convém lembrar que o Nobel da Literatura não fica em casa desde 1974, quando foi atribuído ex aequo a Harry Martinson e Eyvind Johnson.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges