Façam o favor de clicar
A Domínio Público é uma biblioteca online brasileira, desenvolvida com software livre, que disponibiliza, como o nome indica, obras literárias (e não só) que foram deixando de estar ao abrigo dos direitos de autor. Quem quiser, encontra ali, em pdf, todos os livros de Machado de Assis, poemas de Pessoa, traduções de Shakespeare ou a Divina Comédia, além de alguma música erudita interpretada pela Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense e vários hinos em formato mp3.
Acontece que este site, mantido pelo Ministério da Educação do Brasil, está em vias de ser fechado “por desuso, já que o número de acessos é muito pequeno”. A solução é a óbvia: ir passando por lá e pedir à pessoa do lado que faça o mesmo.
PS - Afinal, como explica o Paulinho Assunção nos comentários a este post, a suposta crise da biblioteca não passa de uma “mentiroca internáutica” propagada por e-mail. Ainda bem. O site, esse, é mesmo verdadeiro e vale a pena. Continuem por isso a clicá-lo, s.f.f..
Leilão de biblioteca particular
A Livraria Manuel Ferreira (R. Dr. Alves da Veiga, n.º 89, Porto) organiza no próximo dia 16 de Fevereiro, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, a partir das 15h00, o leilão de uma preciosa biblioteca particular com mais de 500 espécies bibliográficas raras. Do acervo fazem parte, entre muitas outras peças, 888 cartas enviadas por José Régio ao seu amigo e poeta Alberto Serpa (algumas com desenhos); sete cartas autógrafas de Abel Salazar; e primeiras edições de livros de Almeida Garrett, Camilo Castelo-Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Wenceslau de Morais, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Almeida Negreiros (muitos deles com dedicatórias dos autores).
Os lotes estarão expostos no dia 15, das 15h00 às 18h00, e no dia 16, das 10h00 às 12h00. Já o catálogo para consulta pode ser descarregado no blogue da livraria.
Depois da pompa
A biblioteca desenhada por Álvaro Siza, em Viana do Castelo, é lindíssima (apesar de muita gente dizer que rouba o rio à cidade), é um espanto, é um ícone arquitectónico. Mas será mesmo uma biblioteca, uma biblioteca a sério? Diz-se que sim, mas geralmente as bibliotecas a sério não abrem só à tarde.
Biblioteca de Siza em Viana, por Alexandra Lucas Coelho
A reportagem sobre as reacções dos habitantes de Viana do Castelo à primeira biblioteca pública desenhada pelo mais internacional dos nossos arquitectos — que a colocou, acendendo as polémicas do costume, junto à margem do rio Lima — vem hoje no suplemento P2 do Público (sem link directo).
Como todas as reportagens da Alexandra, seja na Faixa de Gaza ou noutro lugar qualquer do mundo, é de leitura obrigatória. Eis alguns excertos:
«Quem está virado para a biblioteca, tem atrás de si o casario histórico — telhados vermelhos, paredes brancas, varandas de ferro forjado, janelas de guilhotina — e vê o rio através do pátio relvado. É como se o edifício fosse a passagem da cidade para a água.
(…) Maria de Fátima [63 anos, “fotógrafa da Foto Nélita”, à vontade em tudo menos no digital — “puxo pelas orelhas, mas já é tarde, não tenho paciência para aprender computadores”] transpõe a discreta porta e dá por si num grande átrio de mármore cor-de-areia que parece irmão do Museu de Serralves, no geral e no particular — do desenho das letras (que ao nível dos olhos identificam cada zona) ao desenho das portas (para a zona de serviços ou para o auditório com o nome do poeta António Manuel Couto Viana, natural da cidade).
Subindo a escada para o corpo principal, suspenso, a luz entra através de grandes janelas horizontais, em cambiantes mais quentes ou mais suaves, consoante a posição do sol.
Maria de Fátima dá voltas em torno de si mesma, murmurando: “Sim, sim, sim…” Afinal de contas, é fotógrafa, trabalha com luz. “Sim, como paisagem está bonito.” Dois passos à frente, dois passos atrás: “Mas é amplo demais para o meu gosto…”
Neste andar suspenso, os espaços de leitura, Internet, áudio e vídeo formam um quadrado à volta do pátio, e é possível percorrer a biblioteca sem parar, vendo agora umas águas furtadas e depois o manso azul do Lima. A biblioteca é atravessada pela paisagem cá dentro, tal como lá fora é atravessada pelo olhar.
“Está bom, aceito”, anuncia Maria de Fátima. “Quer dizer, quando isto estava a ser construído houve uma revolta muito grande. O verdadeiro vianense sentiu-se quase ofendido com esta construção frente à nossa cidade velhinha. Para nós, era uma aberração.”
(…) Mesmo em frente à biblioteca mora por exemplo a Residencial Jardim. Primeiro, a recepcionista Lucília diz que “as pessoas aqui não gostam da biblioteca”, mas pelo sim pelo não chama a colega. “Agoniiiiia!” E Agonia vem em discórdia: “Eu gosto!” E segue-se uma desgarrada.
Lucília - Isto é uma zona histórica, e se nós temos que manter a nossa fachada, nem podemos pôr uma janela de metal, tá ali um edifício que pode ser de uma pessoa muito importante mas tirou-nos as vistas e tá horrível, pronto.
Agonia - Ah, mas a arquitectura é uma coisa bonita. Gosto e até me disseram que por dentro era um sonho. Ao 1º e ao 2º andar tirou vista, mas ao 3º e ao 4º não. E na inauguração o senhor primeiro-ministro acenou-me e disse que a cidade de Viana era linda. Não, a biblioteca estava a fazer muita falta, até quando foi aqui a União Europeia, estava lindíssima. Pronto, a gente já sabe que o sr. Siza Vieira faz umas coisas extravagantes.
Lucília - Mas eu só ouvi falar do homem quando fez a biblioteca, antes não conhecia.
Agonia - Por amor de Deus, no Porto há tanta coisa feita por ele! E em Espanha até houve uma polémica, que ele queria e não deixaram. Pronto, cada um é como cada qual.
(…) Das mesas aos puxadores das portas, tudo dentro da biblioteca é Siza, e está lá o nome, Álvaro Siza, até na perninha da cadeira de bebé. Há uma grande clareza de linhas, materiais e cores, entre cada objecto e a construção. E andando em volta, a cidade e o rio vão girando pelas janelas como num caleidoscópio.»
Outros anjos (noutra biblioteca)
A coorte dos anjos bibliófilos, numa das mais espantosas cenas de As Asas do Desejo, de Wim Wenders (1987).
A biblioteca de Siza em Viana do Castelo
Sobre o edifício diz Ana Vaz Milheiro, no Público:
«A biblioteca recorre a um “esquema” clássico: um edifício perfurado por um pátio que aqui se eleva criando um vazio no plano da rua. As salas de leitura “suspensas” posicionam-se assim sobre a paisagem urbana e ribeirinha. Os serviços de apoio e áreas administrativas mantêm-se junto ao solo num volume de sentido longitudinal. Siza dá sequência a obras de forte significação urbana que têm assinalado os seus últimos dez anos de actividade, e que podem ser seguidas a partir do Pavilhão de Portugal. São edifícios de escala mais monumental que a sua obra anterior e que, situando-se à margem da cidade histórica, contribuem para “refundar” urbanamente os seus lugares de implantação.»
Foi inaugurada ontem à tarde por José Sócrates, depois de o primeiro-ministro ter corrido uma minimaratona que assinalou os 160 anos da elevação a cidade de Viana do Castelo.
Adenda - Eis a reportagem da RTP sobre o acontecimento:
Numa peça com 1′44” de duração, a jornalista dedicou um minuto à prova de atletismo e apenas 15 segundos à Biblioteca (de que só se vê um plano, de fugida), gastando o resto com o discurso redondo de Sócrates (sobre a importância das cidades serem “bonitas”…) e a recusa do PM em falar sobre outros assuntos (ameaça terrorista e fecho das urgências hospitalares). É o jornalismo televisivo no seu pior.
A ler

Muito completo e informativo, o extenso dossier sobre as 158 bibliotecas da Rede de Leitura Pública (lançada há 20 anos) que o Jornal de Letras publica no número que chegou anteontem às bancas.
Casa Kike

Por fora

Por dentro
Esta moradia ergue-se junto ao Mar das Caraíbas, na Costa Rica. Foi desenhada pelo arquitecto Gianni Botsford a pensar no seu pai, escritor, e na respectiva biblioteca, composta por 16 mil livros. O resultado final é o que se vê, de uma simplicidade e elegância exemplares.
A mim, o que me tira do sério são as estantes, com aquelas divisórias diagonais e um pé direito a exigir escada Magirus. Ao pé delas, as minhas Billy branquinhas, coitadas, até sentem vertigens.
Mais detalhes e fotografias aqui.
[Post feito a partir de uma sugestão do leitor António Gregório]
A geração Y afinal gosta de livros
Diz-nos o senso comum que as gerações mais novas (18-30 anos) recorrem cada vez menos à informação em suporte físico, contida em livros ou jornais de papel, optando antes pelo saber imaterial disponível na Internet.
Acontece que o senso comum é traiçoeiro. Eis o que nos revela um post do blogue adrian&pandora (sobre “adolescentes e jovens adultos em bibliotecas públicas”):
«Um estudo da Pew Internet & American Life Project revela que, apesar de a Internet ser usada como principal fonte de informação, a Geração Y — 18 aos 30 anos —, é uma das maiores e mais regulares frequentadoras de bibliotecas, com 65% dos inquiridos desta faixa etária a afirmarem que acima de tudo procuram o livre acesso à web e 58% procuram referências literárias. Ainda de acordo com este estudo, os internautas são duas vezes mais propensos a visitarem as unidades documentais do que os que não utilizam a web. Cita-se uma das autoras do estudo, Leigh Estabrook, professora emérita da Universidade de Illinois: “Esta descoberta vira de cabeça para baixo a nossa opinião sobre bibliotecas (…) O uso da internet parece criar uma fome por informação e são as pessoas que usam muito a rede que parecem estar mais dispostas a visitar bibliotecas”.
Curiosa é também a comparação de dados entre este estudo e um outro, realizado em 1996, em que as pessoas da já referida faixa etária mencionavam, à altura, que as bibliotecas se tornariam cada vez menos relevantes. O que leva a autora a afirmar que “10 anos depois, os irmãos e irmãs mais novos dessas pessoas são os mais ávidos usuários de bibliotecas”.»
Catálogo de bibliotecas

São às dezenas. Lindíssimas, enormes, de cortar a respiração. Algumas portuguesas, incluindo a que é considerada “possivelmente a mais bela de todas” (Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro).
Contemplem e embasbaquem-se, ó bibliófilos.
[Link sugerido “como, digamos, prenda atrasada de inauguração” pelo Rogério Casanova]
A biblioteca vazia
Não é só em Portugal que a Cultura sofre tratos de polé. Devido a desentendimentos entre as autoridades regionais galegas e o Ministério da Cultura espanhol, a novíssima biblioteca pública de Santiago de Compostela foi inaugurada terça-feira… sem livros.
[via Cadeirão Voltaire]
Uma casa para os livros, segundo Siza

Reforços
Ali atrás, esqueci-me evidentemente de referir que também há amantes dos livros que oferecem livros a outros amantes dos livros. Uma felicidade que se traduziu, este Natal, em três capas:



Felizes, a sub-biblioteca das nuvens e a sub-biblioteca oulipiana já receberam os novos hóspedes.
Alberto Manguel e as bibliotecas
Nem sei bem como, descobri este programa curto intitulado Café con Libros (creio que espanhol, mas não tenho a certeza). O episódio aborda de forma bastante engenhosa o livro La Biblioteca de Noche, de Alberto Manguel, cruzando depoimentos de várias pessoas que leram o livro, o descrevem e comparam as suas experiências pessoais com as do autor. O fascínio de Manguel com as bibliotecas (em pequeno queria ser bibliotecário, o que não surpreende quem conheça as suas obras) leva cada um dos colaboradores do programa a falar daquela que preferem ou na qual viveram melhores experiências. Todas as evocações são interessantes mas atentem, por favor, nos BiblioBurros da Colômbia, espécie de biblioteca itinerante da Gulbenkian em que as carrinhas Citröen foram substituídas por heróicos exemplos da persistência asinina. Uma delícia.
Estudos Helénicos na Biblioteca de Alexandria
A Biblioteca de Alexandria vai criar até ao fim de 2008 um Centro Alexandrino de Estudos Helénicos, com o objectivo de criar uma ponte cultural no Mediterrâneo, foi hoje anunciado em Atenas.
O projecto é apoiado pelas duas maiores fundações gregas, a Alexander Onassis e a Vardinoyaneiko, que pela primeira vez juntaram esforços para fundar um centro de estudos de pós-graduação para investigadores de todo o mundo em Filosofia, História, Literatura e Belas Artes clássicas.
[Fonte: Lusa]


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