Uma biblioteca sem livros

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Acaba de ser inaugurada a primeira biblioteca norte-americana 100% digital. Terá os seus méritos, certamente. Mas, com o seu look de cybercafé muito limpinho, não me dá vontade nenhuma de lá entrar.

216 anos

O Alvará régio de 29 de Fevereiro de 1796 fundou a Real Biblioteca Pública da Corte, a mais antiga antecessora formal da BNP.

‘Defesa do Livro’

Eis um excerto inédito (ou uma cena cortada, se preferirem) do romance Inglaterra, Inglaterra, de Julian Barnes, agora disponível em The Library Book (juntamente com textos de Alan Bennett, Stephen Fry, Tom Holland, Val McDermid, Lionel Shriver, Zadie Smith, e outros). The Library Book é uma antologia lançada este sábado, para assinalar o National Libraries Day no Reino Unido (pode ser comprada aqui, em versão hardcover; compreensivelmente, não existe versão para o Kindle).

Little free libraries

Eis uma rede comunitária de microbibliotecas (pequenas casas para livros). Ou de como a ideia de partilha bibliófila anda por aí, à solta.

Mais bibliotecas admiráveis

Aqui.

[Sugestão do leitor Miguel Coelho]

Biblioteca Nacional reabre, mas não totalmente

Ao fim de nove meses de obras, os serviços de Leitura Geral e de Reservados da Biblioteca Nacional voltaram a abrir portas, embora ainda com algumas restrições.

I Love My Librarian Award

Nem só quem escreve, traduz ou edita livros merece um prémio.

14 bibliotecas

Todas diferentes. Umas tradicionais. Outras modernas. Belíssimas. Aqui.

Reductio ad absurdum

A BIBLIOTECA

«Nada está tão bem protegido do ruído como uma biblioteca.
Somente os mudos, a não ser que tenham tuberculose ou alguma constipação, podem ali entrar. Mas em pantufas de feltro, sem anéis, pulseiras ou outros objectos susceptíveis de perturbar o silêncio.
A cada dois metros, nos corredores, seguranças armados fazem respeitar o regulamento. O essencial encontra-se em painéis de aço.
“Avance lentamente”, pode-se ler. “Evite respirar pelo nariz”. “Não bata nas paredes”. “Caminhe na ponta dos pés”.
As recomendações tornam-se mais precisas, mais ásperas ainda ao entrarmos na grande sala de leitura da biblioteca onde dois painéis gigantescos ditam ordens de peso.
A primeira: “É proibido folhear as páginas das obras”.
E a outra: “É proibido ler”.»
Jacques Sternberg, in Contes glacés

[via Bruaá]

Quando uma estante cheia de livros nos deixa perplexos

Muito bom, o texto de Alan Bennett sobre as bibliotecas da sua vida, publicado na London Review of Books. Começa assim:

«I have always been happy in libraries, though without ever being entirely at ease there. A scene that seems to crop up regularly in plays that I have written has a character, often a young man, standing in front of a bookcase feeling baffled. He – and occasionally she – is overwhelmed by the amount of stuff that has been written and the ground to be covered. ‘All these books. I’ll never catch up,’ wails the young Joe Orton in the film script of Prick Up Your Ears, and in The Old Country another young man reacts more dramatically, by hurling half the books to the floor. In Me, I’m Afraid of Virginia Woolf someone else gives vent to their frustration with literature by drawing breasts on a photograph of Virginia Woolf and kitting out E.M. Forster with a big cigar. Orton himself notoriously defaced library books before starting to write books himself. This resentment, which was, I suppose, somewhere mine, had to do with feeling shut out. A library, I used to feel, was like a cocktail party with everybody standing with their back to me; I could not find a way in.»

Um país sem bibliotecas

Charles Simic sobre o «trágico» fecho de bibliotecas públicas nos EUA.

A batalha perdida de Zadie Smith

Apesar da luta levada a cabo pela autora de Dentes Brancos, a biblioteca de Kensal Rise, fundada por Mark Twain no início do século XX, vai mesmo fechar.

Um e-mail enviado de Figueiró dos Vinhos

Sérgio Mangas, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos, pediu-me que divulgasse a seguinte notícia:

«No sentido de dar a conhecer a história, cultura e tradições do concelho de Figueiró dos Vinhos, a Biblioteca Municipal deste município acaba de lançar mais um serviço digital, utilizando o YouTube, conhecido site de referência em matéria de partilha de vídeos na Internet.
Além de terem de constituir um fundo documental pertinente e actual, tematicamente diversificado e ecléctico, que vá ao encontro das necessidades de informação da comunidade, as bibliotecas públicas devem também ter como objectivo prioritário a constituição de colecções de interesse local, designadas de Fundo Local. Este fundo é decisivo para a conservação da memória colectiva local.
O Fundo Local é um dos aspectos essenciais das colecções das bibliotecas públicas. Estes recursos documentais de interesse local são muito específicos, reflectem a actividade de uma determinada comunidade e as características do concelho e da região em questão. O seu valor está exactamente no seu carácter único e no papel vital que desempenha para o conhecimento da memória colectiva da comunidade e, por conseguinte, da sua identidade. Sendo esta uma colecção irrepetível em outras bibliotecas, torna-se o bem informativo mais precioso que as bibliotecas públicas podem oferecer ao mundo globalizado da Internet.
Com uma forte presença na Internet e apostando no Fundo Local como elemento diferenciador e de atracção de novos utilizadores, a Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos é provavelmente caso único no panorama bibliotecário português ao nível dos múltiplos serviços que tem desenvolvido com base no seu Fundo Local. Actualmente, à distância de um clique e em qualquer parte do mundo, é possível aceder a um sem número de recursos informativos sobre Figueiró dos Vinhos através dos seguintes canais: site da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos; Europeana; Flickr; YouTube; e delicious

José Marmelo e Silva dá nome a biblioteca de Espinho

A Câmara Municipal de Espinho decidiu em Fevereiro, por unanimidade, atribuir o nome do escritor José Marmelo e Silva ao novo edifício da Biblioteca Municipal da cidade, desenhado pelo arquitecto Rui Lacerda. No parque circundante, será ainda colocado um memorial, a inaugurar no dia 7 de Maio e integrado nas comemorações do centenário do nascimento de Marmelo e Silva.

They love libraries (and so do I)

Eis como os habitantes de Somerset (Reino Unido) se estão a mobilizar para evitar o fecho de bibliotecas na região, em consequência dos cortes orçamentais para diminuir o défice:

Bibliotecas de escritores

Excelente trabalho de Leila Guerreiro, no suplemento Babelia do El País, com depoimentos de Rodrigo Fresán, Alan Pauls, Héctor Abad Faciolince, Andrés Trapiello e Santiago Roncagliolo, entre outros.

Biblioteca do Vaticano reabre na próxima semana

«Depois de mais de dez anos de obras e de três anos encerrada ao público, a Biblioteca Apostólica do Vaticano reabre segunda-feira. Com mais espaço, melhor arrumação e com todas as condições de segurança», explica o DN.

Poetas sobre poetas

É uma excelente ideia do blogue Poesia & Lda.: desafiar poetas portugueses a escrever acerca de um poema concreto de outro poeta, português ou não. Já tivemos Rui Almeida sobre José Blanc de Portugal; Francisco Duarte Mangas sobre Cesare Pavese; Luís Filipe Parrado sobre Andrew Hudgin; Rui Lage sobre Thomas Hardy; Vasco Graça Moura sobre Federico García Lorca; Ana Luísa Amaral sobre Emily Dickinson; Fortinbras sobre Zbigniew Herbert; entre outros. Uma série para acompanhar.

Biblioteca-modelo

É elegante, espaçosa, moderna, ecológica e polémica (por surgir numa das zonas mais privilegiadas de Nova Iorque e por ter contado com donativos de uma das empresas responsáveis pelo recente colapso financeiro: a Goldman Sachs). Controvérsias à parte, o New York Times visitou a Battery Park City Library e chama-lhe «a thing of beauty».

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(Foto: Piotr Redlinski, NYT)

Exeter

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Foi na biblioteca da Phillips Exeter Academy (PEA) que entrevistei Dan Brown. Fundada em 1781, a PEA é uma das escolas secundárias privadas (só para alunos do 9.º ao 12.º ano) com maior prestígio nos EUA. Entre os seus antigos alunos contam-se o presidente Franklin Pierce, uma série de figuras que ocuparam lugares importantes na administração pública, desportistas, músicos e uns quantos homens de letras, como George Plimpton (fundador da The Paris Review), Gore Vidal ou John Irving.
No piso quatro da enorme biblioteca – um edifício de linhas austeras, com tijolo vermelho por fora e betão por dentro, desenhado nos anos 60 pelo arquitecto Louis Kahn (tudo sobre esta obra, aqui) – ficam as salas com os livros mais preciosos. Atrás de uma vitrina, podem ver-se primeiras edições dos romances de Virginia Woolf, editados pela Hogarth Press. E depois há as estantes com as obras dos antigos alunos, divididas conforme os anos passados na PEA: a classe de 1876, a classe de 1927, a classe de 1964, etc. Lá estão os livros de Gore Vidal, os de John Irving, os de Daniel C. Dennet, os de muitos outros escritores conhecidos. E os de Dan Brown, que não só frequentou a PEA como era filho de um dos mais distintos professores de matemática da escola (noutra sala, há uma prateleira inteira preenchida com os manuais de Álgebra que o tornaram conhecido de todos os alunos de Ciências do país). Em destaque neste sector Dan Brown da estante dos antigos alunos, também chamados «exonians», a capa dourada e escarlate do último romance: The Lost Symbol.
A conversa começou justamente por aí, pelo novo livro, mera repetição de uma fórmula narrativa literariamente nula, enquanto lá fora a tarde declinava e as folhas das árvores brilhavam com o seu amarelo muito vivo, quase sobrenatural.

arvore

A bolha

«Provavelmente há já quem organize visitas de estudo aos bastidores das bibliotecas. Porque há salas memoráveis, daquelas que podem espantar tanto um leitor como certas páginas dos livros: salas com estantes apinhadas, altas como arranha-céus, salas com arquivos deslizantes que mostram camadas sucessivas de prateleiras, salas com livros tão despedaçados que tememos tocar-lhes (diz-se, nas bibliotecas, que os romances com mais tiras de fita-cola são os melhores).
Os bastidores da biblioteca de Serpa ainda são novos, arrumadíssimos, com uma limpeza de hospital, mas nem por isso menos dignos de uma visita. Sobretudo desde que lá existe uma certa bolha…»

Para ver esta bolha e descobrir para que serve, é favor continuar a ler o post da Isabel Minhós Martins, no blogue da Planeta Tangerina.

Esmiuçando os livros

Ricardo Araújo Pereira fala sobre a sua experiência de leitor na Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica, em Lisboa.

Uma página web para cada livro

Utopia? Os promotores da Open Library acham que não. E já processaram (à falta de melhor verbo) mais de 23 milhões de livros. Entre eles Os Lusíadas (88 referências) e Os Maias (54 registos).

Borboletas nocturnas

Uma Noite na Biblioteca
Autor: Jean-Christophe Bailly
Título original: Une nuit à la bibliothèque
Tradução: Christine Zurbach e Luís Varela
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-795-288-5
Ano de publicação: 2009

O que é que fazem, a altas horas da madrugada, os livros de uma biblioteca? Sem leitores por perto, nem funcionários, nem sequer o guarda-nocturno e a sua lanterna controladora, será que eles saltam das prateleiras e conversam uns com os outros? A hipótese pode parecer estapafúrdia, mas só a quem não viu – ou não leu – esta peça teatral de Jean-Cristophe Bailly, estreada em 1999 na Biblioteca Palatina de Parma e levada à cena recentemente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, pela companhia Teatro da Rainha.
Entre as estantes e as mesas de leitura, surgem quatro personagens que cedo descobrimos serem livros; ou melhor, fantasmas de livros, «borboletas nocturnas» que se agitam no abismo claustrofóbico de um tempo parado. Há Bertoli, a meio caminho entre o mestre de cerimónias e o conferencista; há Ragionello, de perfil sereno e indumentária à moda do século XIX; há Alegoria, que mora nas alturas, «ao lado dum poeta russo que não faz barulho»; e há Fantolin, o neófito que descobre, espantado, que traz dentro de si a visão de um mundo em ruínas, a desfazer-se sob as cinzas do apocalipse.
Os quatro livros dialogam, interrompem-se, jogam badmington, lêem-se uns aos outros e descobrem-se parte de «uma rede de histórias e de ilusões que se agitam num vazio em que a verdade anda errante». O real, essa abstracção, é o que se vê de uma janela precária, falso ponto de fuga. No discurso rendilhado (e às vezes aflito) dos seus habitantes, a biblioteca fecha-se mais e mais sobre si mesma, sobre a sua solidão, ela que se constrói «em torno daquilo que lhe escapa» e aspira ao impossível «silêncio em que a palavra se aboliria, aceite pela indolência dum sentido mais antigo».
Sobre tudo isto paira, inevitável, a melancolia, porque Bailly sabe que a biblioteca «nunca atingirá a imensidão que a alimenta». Uma melancolia que se desprende do texto mas não o sufoca, antes o ilumina.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

Um link que vale a pena explorar

O da IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions).

A maior biblioteca pública do Reino Unido vai ficar em Birmingham

Ver notícia do The Guardian, aqui.

Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos no Flickr

A Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos decidiu «colocar on-line um conjunto de fotografias provenientes do seu acervo, bem como de particulares e entidades públicas», com vista à recolha, preservação e divulgação do património fotográfico daquele concelho do distrito de Leiria. O banco de imagens (por enquanto com 122 itens) pode ser visto aqui.

A liberdade de ler

Os reclusos do Estabelecimento Prisional de Vila Real vão poder requisitar, todos os meses, livros e revistas através de uma biblioteca itinerante.

Biblioteca de Murça atende leitores na blogosfera

Enviada pelos serviços da Biblioteca Municipal de Murça, acaba de chegar à minha caixa de correio electrónico a seguinte mensagem:

«A Biblioteca Municipal de Murça deseja aproximar-se cada vez mais dos seus utilizadores e de toda a comunidade murcense ao disponibilizar em linha variados conteúdos. As actividades culturais e de promoção da leitura que desenvolve, as novidades bibliográficas adquiridas todos os meses, os horários, contactos, serviços, espaços, normas regulamentares, links úteis, entre outros. Com a vontade de acompanhar os novos desafios, na área das novas tecnologias, a Câmara Municipal de Murça, através da Biblioteca local, colocou esta semana ao dispor da população um serviço de atendimento online.
Assim, quem quiser obter algum esclarecimento sobre o funcionamento da Biblioteca pode fazê-lo, em tempo real, com um técnico da instituição, podendo os utilizadores solicitar informações sobre publicações existentes na Biblioteca, proceder à reserva de obras bibliográficas, solicitar horários de funcionamento ou até mesmo pedir outro tipo de informações relativas à realização de eventos no Centro Cultural local.
Este novo serviço da Biblioteca Municipal de Murça, pioneiro na Rede Nacional de Leitura Pública, consiste no atendimento online através do blogue desta instituição, não havendo necessidade de aguardar uma resposta de um e-mail ou de uma chamada telefónica.
Segundo João Teixeira, presidente da autarquia, “este novo sistema de atendimento permitirá aos utilizadores ter mais um canal de comunicação com este serviço público, para além de proporcionar a troca de informações ou, até mesmo, tirar dúvidas instantaneamente relativamente aos serviços que dispomos”.
Para usufruir deste serviço não precisa de instalar nenhum software no seu computador, basta aceder à área de apoio ao utilizador no blogue da Biblioteca, e caso o ícone apareça online clique para falar em tempo real.
João Teixeira referiu que esta é também uma forma de dar voz aos utilizadores através de entrevistas, artigos de opinião, inquéritos. “Ambicionamos que o blogue constitua não só um canal de divulgação da Biblioteca mas, sobretudo, um espaço dinamizador de públicos.”
Recorde-se que o blogue da Biblioteca Municipal de Murça obteve no ano 2007 a oitava posição na eleição do Melhor Blogue Português na categoria de Literatura sendo a única representação de Trás-os-Montes e Alto Douro.»

BMVC

Além de um belíssimo edifício, desenhado por Álvaro Siza, a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo também tem um blogue. Este.

Biblioteca de Arte da Gulbenkian no Flickr

“estão disponíveis a qualquer pessoa que faça uma busca no Flickr (uma rede social destinada à partilha de fotografias na Internet) mil imagens das colecções da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian”. As imagens podem ser consultadas aqui.

Façam o favor de clicar

A Domínio Público é uma biblioteca online brasileira, desenvolvida com software livre, que disponibiliza, como o nome indica, obras literárias (e não só) que foram deixando de estar ao abrigo dos direitos de autor. Quem quiser, encontra ali, em pdf, todos os livros de Machado de Assis, poemas de Pessoa, traduções de Shakespeare ou a Divina Comédia, além de alguma música erudita interpretada pela Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense e vários hinos em formato mp3.
Acontece que este site, mantido pelo Ministério da Educação do Brasil, está em vias de ser fechado “por desuso, já que o número de acessos é muito pequeno”. A solução é a óbvia: ir passando por lá e pedir à pessoa do lado que faça o mesmo.

PS – Afinal, como explica o Paulinho Assunção nos comentários a este post, a suposta crise da biblioteca não passa de uma “mentiroca internáutica” propagada por e-mail. Ainda bem. O site, esse, é mesmo verdadeiro e vale a pena. Continuem por isso a clicá-lo, s.f.f..

Leilão de biblioteca particular

A Livraria Manuel Ferreira (R. Dr. Alves da Veiga, n.º 89, Porto) organiza no próximo dia 16 de Fevereiro, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, a partir das 15h00, o leilão de uma preciosa biblioteca particular com mais de 500 espécies bibliográficas raras. Do acervo fazem parte, entre muitas outras peças, 888 cartas enviadas por José Régio ao seu amigo e poeta Alberto Serpa (algumas com desenhos); sete cartas autógrafas de Abel Salazar; e primeiras edições de livros de Almeida Garrett, Camilo Castelo-Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Wenceslau de Morais, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Almeida Negreiros (muitos deles com dedicatórias dos autores).
Os lotes estarão expostos no dia 15, das 15h00 às 18h00, e no dia 16, das 10h00 às 12h00. Já o catálogo para consulta pode ser descarregado no blogue da livraria.

Depois da pompa

A biblioteca desenhada por Álvaro Siza, em Viana do Castelo, é lindíssima (apesar de muita gente dizer que rouba o rio à cidade), é um espanto, é um ícone arquitectónico. Mas será mesmo uma biblioteca, uma biblioteca a sério? Diz-se que sim, mas geralmente as bibliotecas a sério não abrem só à tarde.

Biblioteca de Siza em Viana, por Alexandra Lucas Coelho

A reportagem sobre as reacções dos habitantes de Viana do Castelo à primeira biblioteca pública desenhada pelo mais internacional dos nossos arquitectos — que a colocou, acendendo as polémicas do costume, junto à margem do rio Lima — vem hoje no suplemento P2 do Público (sem link directo).
Como todas as reportagens da Alexandra, seja na Faixa de Gaza ou noutro lugar qualquer do mundo, é de leitura obrigatória. Eis alguns excertos:

«Quem está virado para a biblioteca, tem atrás de si o casario histórico — telhados vermelhos, paredes brancas, varandas de ferro forjado, janelas de guilhotina — e vê o rio através do pátio relvado. É como se o edifício fosse a passagem da cidade para a água.
(…) Maria de Fátima [63 anos, “fotógrafa da Foto Nélita”, à vontade em tudo menos no digital — “puxo pelas orelhas, mas já é tarde, não tenho paciência para aprender computadores”] transpõe a discreta porta e dá por si num grande átrio de mármore cor-de-areia que parece irmão do Museu de Serralves, no geral e no particular — do desenho das letras (que ao nível dos olhos identificam cada zona) ao desenho das portas (para a zona de serviços ou para o auditório com o nome do poeta António Manuel Couto Viana, natural da cidade).
Subindo a escada para o corpo principal, suspenso, a luz entra através de grandes janelas horizontais, em cambiantes mais quentes ou mais suaves, consoante a posição do sol.
Maria de Fátima dá voltas em torno de si mesma, murmurando: “Sim, sim, sim…” Afinal de contas, é fotógrafa, trabalha com luz. “Sim, como paisagem está bonito.” Dois passos à frente, dois passos atrás: “Mas é amplo demais para o meu gosto…”
Neste andar suspenso, os espaços de leitura, Internet, áudio e vídeo formam um quadrado à volta do pátio, e é possível percorrer a biblioteca sem parar, vendo agora umas águas furtadas e depois o manso azul do Lima. A biblioteca é atravessada pela paisagem cá dentro, tal como lá fora é atravessada pelo olhar.
“Está bom, aceito”, anuncia Maria de Fátima. “Quer dizer, quando isto estava a ser construído houve uma revolta muito grande. O verdadeiro vianense sentiu-se quase ofendido com esta construção frente à nossa cidade velhinha. Para nós, era uma aberração.”
(…) Mesmo em frente à biblioteca mora por exemplo a Residencial Jardim. Primeiro, a recepcionista Lucília diz que “as pessoas aqui não gostam da biblioteca”, mas pelo sim pelo não chama a colega. “Agoniiiiia!” E Agonia vem em discórdia: “Eu gosto!” E segue-se uma desgarrada.
Lucília – Isto é uma zona histórica, e se nós temos que manter a nossa fachada, nem podemos pôr uma janela de metal, tá ali um edifício que pode ser de uma pessoa muito importante mas tirou-nos as vistas e tá horrível, pronto.
Agonia – Ah, mas a arquitectura é uma coisa bonita. Gosto e até me disseram que por dentro era um sonho. Ao 1º e ao 2º andar tirou vista, mas ao 3º e ao 4º não. E na inauguração o senhor primeiro-ministro acenou-me e disse que a cidade de Viana era linda. Não, a biblioteca estava a fazer muita falta, até quando foi aqui a União Europeia, estava lindíssima. Pronto, a gente já sabe que o sr. Siza Vieira faz umas coisas extravagantes.
Lucília – Mas eu só ouvi falar do homem quando fez a biblioteca, antes não conhecia.
Agonia – Por amor de Deus, no Porto há tanta coisa feita por ele! E em Espanha até houve uma polémica, que ele queria e não deixaram. Pronto, cada um é como cada qual.
(…) Das mesas aos puxadores das portas, tudo dentro da biblioteca é Siza, e está lá o nome, Álvaro Siza, até na perninha da cadeira de bebé. Há uma grande clareza de linhas, materiais e cores, entre cada objecto e a construção. E andando em volta, a cidade e o rio vão girando pelas janelas como num caleidoscópio.»

Outros anjos (noutra biblioteca)

A coorte dos anjos bibliófilos, numa das mais espantosas cenas de As Asas do Desejo, de Wim Wenders (1987).

A biblioteca de Siza em Viana do Castelo

Sobre o edifício diz Ana Vaz Milheiro, no Público:

«A biblioteca recorre a um “esquema” clássico: um edifício perfurado por um pátio que aqui se eleva criando um vazio no plano da rua. As salas de leitura “suspensas” posicionam-se assim sobre a paisagem urbana e ribeirinha. Os serviços de apoio e áreas administrativas mantêm-se junto ao solo num volume de sentido longitudinal. Siza dá sequência a obras de forte significação urbana que têm assinalado os seus últimos dez anos de actividade, e que podem ser seguidas a partir do Pavilhão de Portugal. São edifícios de escala mais monumental que a sua obra anterior e que, situando-se à margem da cidade histórica, contribuem para “refundar” urbanamente os seus lugares de implantação.»

Foi inaugurada ontem à tarde por José Sócrates, depois de o primeiro-ministro ter corrido uma minimaratona que assinalou os 160 anos da elevação a cidade de Viana do Castelo.

Adenda – Eis a reportagem da RTP sobre o acontecimento:

Numa peça com 1’44” de duração, a jornalista dedicou um minuto à prova de atletismo e apenas 15 segundos à Biblioteca (de que só se vê um plano, de fugida), gastando o resto com o discurso redondo de Sócrates (sobre a importância das cidades serem “bonitas”…) e a recusa do PM em falar sobre outros assuntos (ameaça terrorista e fecho das urgências hospitalares). É o jornalismo televisivo no seu pior.

A ler

capa JL

Muito completo e informativo, o extenso dossier sobre as 158 bibliotecas da Rede de Leitura Pública (lançada há 20 anos) que o Jornal de Letras publica no número que chegou anteontem às bancas.

Casa Kike

casa Kike

Por fora

casa Kike

Por dentro

Esta moradia ergue-se junto ao Mar das Caraíbas, na Costa Rica. Foi desenhada pelo arquitecto Gianni Botsford a pensar no seu pai, escritor, e na respectiva biblioteca, composta por 16 mil livros. O resultado final é o que se vê, de uma simplicidade e elegância exemplares.
A mim, o que me tira do sério são as estantes, com aquelas divisórias diagonais e um pé direito a exigir escada Magirus. Ao pé delas, as minhas Billy branquinhas, coitadas, até sentem vertigens.
Mais detalhes e fotografias aqui.

[Post feito a partir de uma sugestão do leitor António Gregório]

A geração Y afinal gosta de livros

Diz-nos o senso comum que as gerações mais novas (18-30 anos) recorrem cada vez menos à informação em suporte físico, contida em livros ou jornais de papel, optando antes pelo saber imaterial disponível na Internet.
Acontece que o senso comum é traiçoeiro. Eis o que nos revela um post do blogue adrian&pandora (sobre “adolescentes e jovens adultos em bibliotecas públicas”):

«Um estudo da Pew Internet & American Life Project revela que, apesar de a Internet ser usada como principal fonte de informação, a Geração Y — 18 aos 30 anos —, é uma das maiores e mais regulares frequentadoras de bibliotecas, com 65% dos inquiridos desta faixa etária a afirmarem que acima de tudo procuram o livre acesso à web e 58% procuram referências literárias. Ainda de acordo com este estudo, os internautas são duas vezes mais propensos a visitarem as unidades documentais do que os que não utilizam a web. Cita-se uma das autoras do estudo, Leigh Estabrook, professora emérita da Universidade de Illinois: “Esta descoberta vira de cabeça para baixo a nossa opinião sobre bibliotecas (…) O uso da internet parece criar uma fome por informação e são as pessoas que usam muito a rede que parecem estar mais dispostas a visitar bibliotecas”.
Curiosa é também a comparação de dados entre este estudo e um outro, realizado em 1996, em que as pessoas da já referida faixa etária mencionavam, à altura, que as bibliotecas se tornariam cada vez menos relevantes. O que leva a autora a afirmar que “10 anos depois, os irmãos e irmãs mais novos dessas pessoas são os mais ávidos usuários de bibliotecas”.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges