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Pierre Assouline sobre o novo livro de Michel Houellebecq

La carte et le territoire (Flammarion), o novo romance do autor de As Partículas Elementares, só vai para as livrarias no dia 8, mas Assouline já o leu e diz de sua justiça:

«Alors? Alors rien. Non qu’il ne se passe rien, mais il n’y a rien au bout. Pas d’enjeu. Du moins s’il y en avait un, il est traité avec une telle absence de tout ce qui fait une charge (violence, provocation, agressivité…) que cela tape dans le vide. On cherche en vain à retrouver l’énergie du plus aigu de nos sociologues littéraires, celui qui n’a pas son pareil pour anticiper, annoncer et refléter l’air du temps, le même qui s’imposa par sa mise à nu de la misère affective et sexuelle de l’homme occidental et sa dénonciation des religions meurtrières. Quand on prétend s’attaquer à de tels milieux et aux valeurs qu’ils charrient, à commencer par la dénaturation de l’argent, on le fait avec un tout autre mordant, et des arguments autrement plus solides, fussent-ils transcendés par une prose poétique. On guette une vraie réflexion sur le rôle et le statut de l’artiste dans la société, puisque ça tourne autour de la chose, mais rien ne vient. Par manque d’épaisseur ou excès de sagesse. (…)
Sauf imprévu, le scénario de la rentrée littéraire pour les semaines à venir est écrit. La carte et le territoire va écraser le reste. La critique sera quasi unanime dans l’admiration. Ceux qui s’en écarteront seront sèchement rappelés à l’ordre comme vient de l’expérimenter Tahar Ben Jelloun : il s’est fait cogner par les internautes sur la Toile pour avoir osé rapporter dans sa chronique de La Repubblica tout le déplaisir que lui avait procuré la lecture de ce livre. Elisabeth Badinter donne bien le ton de ce que sera le fond de l’air littéraire en déclarant :” Pour moi en France aujourd’hui, il n’y a que deux romanciers qui ont su renouveler le rapport hommes/femmes : Virginie Despentes et Michel Houellebecq”. C’est entre eux que cela se jouera au final. En attendant, on s’arrachera les droits du roman de Houellebecq à la foire de Francfort. Il s’en vendra 150 000 exemplaires, et bien 400 000 une fois que le Goncourt lui aura été attribué. Car on ne voit pas par quel mystère, à moins d’un faux-pas médiatique du candidat malgré son intelligence tactique et sa prudence désormais éprouvée, comment le jury ne serait pas sensible à un roman qui a tellement tout pour lui plaire. C’est même à se demander si Houellebecq ne l’a pas fait exprès.
Son roman a de la main (423 pages, parfait pour les cadeaux de fin d’année, quand tant d’autres semblent plus légers à cause de leurs 150 pages alors qu’ils ont plus de poids), et il est sympathique. Les Goncourt, qui ne détesteraient pas que leur image devînt un peu plus jeune-et-moderne, se réconcilieront à moindre frais avec leur trublion grâce à un roman qui présente l’avantage d’être moins triste que celui d’Olivier Adam et moins trash que celui de Virginie Despentes. Traînés dans la boue par la critique et boudés par le public en 1998 pour avoir préféré Confidence pour confidence de Paule Constant aux Particules élémentaires qui avait été “le” livre de la rentrée, ils en ont conservé un souvenir amer. Depuis, son auteur est devenu l’écrivain français le plus connu et l’un des plus vendus à l’étranger. Si les dix de Drouant passent à nouveau à côté, leur casier judiciaire risque de s’alourdir. Cette fois, on ne voit pas comment Houellecbecq et Goncourt pourraient s’échapper l’un à l’autre. C’est tout le mal qu’on leur souhaite.»

A mobília de Lisbeth Salander

Alguém se deu ao trabalho de conferir e materializar em imagens a lista das compras feitas, no IKEA, por Lisbeth Salander durante o segundo volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson. Ei-la:

lisbeth-salander-ikea-01_rect540

[via BiblioFilmes]

A sobrancelha judaico-cristã

Pedro Mexia no seu melhor:

«Ele discorre sobre Bataille e o “caos do desejo” que afronta os nossos inaceitáveis “tabus e preconceitos” incutidos pela arcaica cultura “judaico-cristã”. Está embalado nisto, quando entra no escritório a filha dele, tem talvez catorze anos, e umas pernas altíssimas e moreníssimas. Não consigo evitar uma olhadela. O fã de Bataille franze logo a sobrancelha judaico-cristã.»

Sementes em risco

A partir deste post de Safaa Dib, tradutora de Fome, cheguei a uma notícia terrível sobre a ameaça que paira sobre o Instituto descrito na novela de Elise Blackwell:

«Outside of St. Petersburg, Russia, the Pavlovsk Station houses a huge collection of unique and diverse apples, strawberries, cherries, raspberries, currants and many more — more than 5,000 varieties in all. First assembled in 1926 by Nikolai Vavilov, the inventor of the modern seed bank, this collection will be vital as scientists race to breed new varieties to adapt to climate change and that resist the rising tide of disease, pests and drought. 90 percent of the fruit and berry varieties at Pavlovsk can be found nowhere else.
During the Siege of Leningrad in World War II, scientists starved to death while protecting this diversity. They chose to protect seeds over feeding themselves precisely because they understood the importance of this priceless resource to the future of agriculture.
Today, the Pavlovsk station is facing bulldozers. Over the protests of scientists at the Pavlovsk Station, the government is poised to convert the land to a housing development. This is nothing short of an environmental disaster – and one that is easily avoidable.»

Felizmente, a campanha contra este desastre está a dar os seus frutos e o presidente russo, Dmitri Medvedev, alertado através do Twitter, terá prometido investigar o assunto.

Um chicote de férias

Confesso: já tenho uma certa saudade das vergastadas irónicas, da maldadezinha inteligente e da lascívia literária do senhor Fortinbras.

Uma Sagres para o maradona

Em Setembro, lá estarei no Botequim, caro maradona. Como leitor do teu blogue e visitante diário do teu blogue (sem ser pelo Google ou pelo Facebook, essas vias abomináveis), tenho direito a pagar-te uma cerveja.
Ou não?

Capas da ‘Ler’

Não as capas da revista propriamente dita, mas as capas de livros que o blogue da Ler está a publicar durante o mês de Agosto. Algumas são belíssimas. E demonstram que ainda há muito trabalho a fazer neste domínio por parte da maioria das editoras portuguesas.

Outras corridas

A partir de hoje, vou dar uma perninha noutro blogue. Uma perninha, não. Duas perninhas.

Silly season

No e-Bay, já se sabe, encontra-se de tudo. Livros raros, candeeiros malucos, tostas com a éfigie de Elvis na parte queimada, whatever. Mas isto ultrapassa todos os limites. Alguém no seu perfeito juízo quererá comprar a sanita «usada» durante décadas por J. D. Salinger na sua casa de New Hampshire? Aparentemente, o vendedor está convencido de que terá muitos candidatos à aquisição deste «trono», já que pede um milhão de dólares (sim, leram bem, um milhão de dólares) pela distinta peça de memorabilia.

[via Jacket Copy]

Assim uma espécie de Murakamis

Eles lêem, eles escrevem, eles correm. Que não lhes doam (muito) as perninhas, é o que desejo. Isso e que um dia se mostrem capazes de chegar ao fim de uma maratona, ou até mesmo de uma ultramaratona, como o romancista japonês que escreveu o Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo.

Uma nova editora

Segundo o blogue da Ler, João Gonçalves, antigo responsável pelo marketing da Oficina do Livro e, mais recentemente, do grupo Bertrand (do qual se desvinculou em Junho), vai criar um novo projecto editorial generalista: o Clube do Autor. A acompanhá-lo nesta aventura, que deverá arrancar em Outubro, estará Cristina Ovídeo, ex-editora da Oficina do Livro e da Planeta.

‘Freakonomics’, agora em filme

Segundo um dos autores do livro, Stephen Dubner, o documentário vai estar disponível do iTunes antes de chegar às salas de cinema.

Verões literários

No blogue cultural do El País, Winston Manrique Sabogal vai fazendo propostas para leituras estivais. Katherine Mansfield, Cesare Pavese, Scott Fitzgerald, Virginia Woolf, Melville, etc. – a escolha é inatacável.

Arte da edição

Vale a pena ler, de fio a pavio, esta entrevista a Mary Norris, uma das responsáveis pela impecável, minuciosa e hiper-perfeccionista edição dos textos da revista The New Yorker. Para um jornalista português, olhar para a maneira como aquela gente trabalha é o mesmo que um treinador-adjunto do Ramaldense assistir a uma sessão de trabalho do Pep Guardiola com os seus jogadores, no relvado do Camp Nou.

JLB por JPB

Ou seja: Jorge Luis Borges por Jean Pierre Bernés.

Fomento da Leitura

O 15.º Foro Internacional por el Fomento del Libro y la Lectura, organizado pela Fundacion Mempo Giardinelli, vai reunir «escritores y intelectuales para pensar juntos la producción literaria y teórica, los temas, los avances, las tareas pendientes, las innovaciones en materia de fomento de lectura de los últimos 15 años» e «para imaginar lo que vendrá, lo que seremos capaces de construir durante los próximos 15». O encontro decorrerá em Chaco (Argentina), mas pode ser acompanhado no blogue do FIFLL.

Apenas as pernas

«No início de 1994, um grupo fundamentalista islâmico da Jordânia lançou uma campanha terrorista que incluía ataques a sítios seculares, tais como livrarias, videoclubes ou supermercados que vendessem álcool. No final de uma manhã de 1 de Fevereiro, Eid Saleh al Jahaleen, um canalizador de 31 anos, entrou no cinema Salwa na cidade de Zarga. O cinema era famoso por exibir filmes pornográficos oriundos da Turquia. Jahaleen, que alegadamente recebera 50 dólares para colocar uma bomba, nunca tinha visto pornografia e ficou completamente paralisado, embasbacado, perante as imagens que via projectadas na tela. Quando a bomba explodiu, Jahaleen ainda se encontrava sentado numa das cadeiras da sala. Perdeu apenas as pernas.»

Retirado daqui.

Despedida com champanhe

A morte de Tchekov, segundo Pedro Vieira, a partir de uma selecção de «literary last words» publicada no site do The Guardian.

Guerra & Paz edita livro vencedor do World Fantasy Award 2009

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As Raparigas Que Sonhavam Ursos, da australiana Margo Lanagan, estará nas livrarias a partir de 28 de Julho. A escritora tem um blogue chamado Among Amid While, onde podemos encontrar o link para uma entrevista interessante que Lanagan deu à revista Meanjin.

Outra Babel

O site do Jornal de Notícias tem um blogue sobre livros chamado Babel. Sem bibliotecários, mas com dois profissionais diligentes à frente do projecto: Elmano Madail e Sérgio Almeida.

‘Dublinesca’

Enquanto vai traduzindo para a Teorema o último romance de Enrique Vila-Matas, o Jorge Fallorca partilha connosco alguns magníficos excertos do seu trabalho. Um privilégio, é o que vos digo.

Notícia do intercâmbio

O Estêvão Haeser, um dos organizadores do I Fórum de Intercâmbio Cultural Lisboa-Porto Alegre, que decorreu segunda-feira na Ler Devagar, fez um relato das várias sessões no seu blogue.

O poster que todos os escritores aspirantes deviam colar na parede do escritório (e alguns dos escritores consagrados também)


Clique para aumentar

[via Blogtailors, que o foi buscar a este post do Paper Cuts]

Jardins e literatura

«Os jardins e as correntes artísticas andaram sempre de mãos dadas. Sobretudo nas épocas em que eram confortáveis os maniqueísmos. Velhas “Artes Poéticas” associavam o poeta artífice – apolíneo – ao jardim francês, e o poeta inspirado – dionisíaco – ao jardim inglês.
Hoje as coisas são muito diferentes, devido às novas catalogações, e acatalogações, modernas e pós-modernas, onde o nature e o nurture se posiciona de outra maneira.
Talvez se possa dizer que o poeta transpirado é um jardineiro incansável na procura do verso, articulando várias formas de funcionar, articulando o que nasce de dentro com a cerca que delimita muitos jardins.»
António Ferra

Ler o post completo aqui.

A África do Sul é um lugar mental (e catódico)

Não estando fisicamente na África do Sul, o homem que queria ser luís filipe cristóvão estará na África do Sul, esse país feito de relva e linhas de cal, até 11 de Julho. Ou de como o futebol é sempre mais do que uma bola pontapeada por 22 homens dentro de um rectângulo (é um íman de memórias, por exemplo).

Navio de grande porte

O escritor, jornalista e crítico literário Paulo Nogueira acaba de chegar à blogosfera, a bordo de um transatlântico. Agora só é preciso ter cuidado com as marés. E com os icebergues.

Cinco anos

Segundo um responsável da Sony, dentro de cinco anos a venda de livros digitais ultrapassará a de livros físicos. Devemos no entanto interpretar estas declarações com alguma prudência. Afinal, como lembra Gregory Cowles no blogue Paper Cuts, a Sony foi aquela empresa que acreditou que o formato Betamax iria dominar o mercado das cassetes de vídeo nos anos 80.

Silêncio de Morte

Uma típica e deliciosa história à Jaime Bulhosa, contada no blogue da Pó dos Livros:

«Há muitos anos, algures numa livraria da cidade de Lisboa:
- É pá, esteve aqui um cliente que perguntou se nós tínhamos livros sobre Bibliomancia. Como eu não sei o que é, com vergonha, respondi que não tínhamos nada. Sabes o que é Bibliomancia?
- Sei, Bibliomancia é a adivinhação do futuro, através dos livros, nomeadamente dos livros sagrados, como a Bíblia ou o Alcorão, mas pode ser através de outro livro qualquer.
- Ai sim… e como é que isso funciona?
- Imagina que queres saber o que nos vai acontecer quando sairmos da livraria. Pegas num livro qualquer, pode ser este do Cocteau, pões a palma da mão por baixo, abres numa página ao calhas e lês um excerto, como este, interpretando-o:

Um jovem jardineiro pediu ao seu príncipe:
“Salva-me! Esta manhã, encontrei a Morte no jardim, e ela fez-me um gesto ameaçador. Quem me dera estar esta noite, por milagre, muito longe daqui, em Ispahan.”
O Príncipe emprestou-lhe o mais veloz dos seus cavalos. Nessa tarde, ao passear pelo jardim, o príncipe deparou-se com a Morte.
“Porque foi”, perguntou-lhe, “que esta manhã fizeste um gesto ameaçador ao meu jardineiro”. Respondeu a Morte: “Foi um gesto de surpresa. Espantou-me vê-lo longe de Ispahan, sabendo como sei que logo à noite terei de tomá-lo em Ispahan.”


- Ouve lá, a profecia que acabaste de ler é para mim que a oiço, ou para ti que a lês?
De repente, e ao mesmo tempo, os livreiros rodam a cabeça na direcção da porta, vendo quem entra, um silêncio de Morte instala-se entre os livros.»

Um escritor na tormenta

Henning Mankell, autor sueco que vendeu mais de 30 milhões de exemplares dos seus romances policiais, viajava no comboio de navios que foi brutalmente atacado, ontem, pelas tropas israelitas. Detido como dezenas de outros activistas que tentavam levar ajuda humanitária até Gaza, já foi libertado e regressou à Suécia de avião. Segundo a agência AFP, no momento da libertação o escritor limitou-se a declarar: «Estamos preocupados com os nossos amigos que continuam presos.»

Feira do Livro do Funchal

Não tem a dimensão das maiores (Lisboa e Porto), mas quer afirmar-se para lá dos limites regionais. O Paulo Ferreira, dos Booktailors, tem acompanhado a Feira do Livro do Funchal e vai-nos dando a reportagem do que por lá se passa no Blogtailors.

Uma coisa destas não se faz, sr. Fortinbras

Eis uma péssima surpresa: da noite para o dia, o Máscara&Chicote (o mais deliciosamente provocador e impertinente dos blogues literários nacionais) passou a estar «aberto apenas a leitores convidados».
Mesmo sabendo que não tenho voto na matéria, voto contra.

PS – Por e-mail, o autor de Máscara&Chicote acaba de me informar que o blogue está apenas suspenso. Ou seja, «lá para meio do Verão» Fortinbras regressará «ao trabalho». Menos mal.

Elogio de Robert Laffont

Pierre Assouline evoca no seu blogue, com afecto e admiração, o grande editor francês Robert Laffont, desaparecido esta semana, aos 93 anos de idade.

Um silêncio que não foi de indiferença

O Jaime Bulhosa, da Livraria Pó dos Livros, insurge-se contra o incompreensível silêncio com que os blogues literários teriam recebido os protestos livreiros sobre a extensão da Feira do Livro (aqui, aqui e aqui).
Pela minha parte, tenho duas coisas a dizer:

1) Estou totalmente solidário com os protestos dos livreiros.

2) O meu silêncio não nasceu do desinteresse pela causa mas do desconhecimento de que ela existia, numa semana particularmente complicada (muitas obrigações profissionais) e com o tempo reservado à Internet, e à actualização do blogue, reduzido ao mínimo.

Horas Extraordinárias

Excelente notícia: Maria do Rosário Pedreira, uma das melhores e mais atentas leitoras deste país, começou ontem um blogue sobre as horas extraordinárias (ou seja, «as que passamos a ler», dentro ou fora do horário de trabalho). Eis uma página que tem tudo para se tornar uma referência na felizmente cada vez mais vasta blogosfera literária portuguesa.
Bem-vinda, Maria do Rosário.

Feira do Livro do Porto afinal vai ser… em Gaia

É uma notícia de última hora, dada pelos Blogtailors:

«A feira do livro do Porto decorrerá em Vila Nova de Gaia. Segundo o Blogtailors apurou, a decisão terá sido tomada devido às dificuldades encontradas na negociação entre a APEL e Câmara Municipal do Porto e à imediata disponibilidade da Câmara de Vila Nova de Gaia para acolher o evento.»

Sou só eu a achar caricata, para não dizer ridícula, esta sucessiva mudança do lugar da Feira? Começou na Avenida dos Aliados, passou para a Rotunda da Boavista, já vai na outra margem do Douro e desconfio que ainda vai acabar nos acessos ao Estádio do Dragão ou à volta do cubo da Ribeira. Se a mudança para Gaia se confirmar, Rui Rio ficará um pouco mais próximo de conseguir o seu grande objectivo: a extinção definitiva da actividade cultural no Porto. Serralves e a Casa da Música que se cuidem.

Blog da Companhia

A Companhia das Letras, uma das melhores editoras brasileiras, inaugurou esta semana o seu blogue. E começa bem, muito bem, com textos sobre Roberto Bolaño de dois dos seus melhores amigos, Alan Pauls e Rodrigo Fresán. Pretexto: o lançamento em breve, no Brasil, de 2666.

«Roberto Bolaño disse certa vez: “Há livros que inspiram medo. Medo de verdade. Mais que livros, parecem bombas-relógio ou animais falsamente empalhados dispostos a pular no seu pescoço se você se descuidar”. A categoria — livros temíveis — parece pensada à medida de 2666. Como todas as grandes ficções de Bolaño — penso em Estrela distante, por exemplo —, 2666 dá medo. Dá medo e faz rir ao mesmo tempo. Lê-lo é entrar num tremor, numa convulsão física. Não é um livro que se dirige ao leitor; não pretende falar com ele nem enfeitiçá-lo. Ele quer tocá-lo, marcá-lo, atravessá-lo com o vento gelado da morte e a brisa ardente da gargalhada.»
Alan Pauls

«A obra de Roberto Bolaño — chame-se o Santo Gral de Cesárea Tinajero em Os detetives selvagens, ou de Benno von Archimboldi em 2666, ou de Wieder/Ruiz-Tagle em Estrela distante — está sempre marcada pela busca de “seres-livros”. Pessoas que não podem parar de escrever e de ler.
E me ocorre que a leitura ou a releitura de 2666 é consequência da escrita de 2666. Explico-me: a escrita noturna e lançada ao abismo de 2666 — Bolaño apostando uma corrida contra tudo, noite após noite, para alcançar a última página de seu romance antes do último amanhecer de sua vida — age sobre o leitor causando um efeito similar. Não importa a hora que seja; quando se lê ou relê 2666 a gente não demora a se entregar a uma espécie de transe entre sonâmbulo e insone. Em 2666, a prosa de Bolaño cativa mais do que em qualquer de seus outros livros porque aqui se trata de conseguir uma espécie de summa artística, plenamente harmônica e ao mesmo tempo disfuncional onde — por meio de epifanias de longa distância suspensas no espaço ou abruptas acelerações no tempo emolduradas no formato de romance aberto, de romance exterior e interior ao mesmo tempo —, o que se persegue e se alcança não é outra coisa senão uma teoria do mundo, de todo o mundo.»
Rodrigo Fresán

Os textos completos podem ser lidos aqui.

Depois do ‘Caderno’, os ‘Cadernos’

José Saramago deixou de escrever posts no seu blogue, mas a presença do Nobel na blogosfera não esmorece. Fechado o Caderno que já deu dois livros (este e este), abrem-se os Outros Cadernos de Saramago, onde «irão aparecendo anotações ou fragmentos já acabados das várias obras», mas «também poemas ou breves reflexões escritas no caminho» e «declarações que o nosso autor um dia proferiu e que o explicam e nos explicam».

Hotel Cervantes

Fica numa rua do centro de Montevideu e aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Lá dentro, a misteriosa porta do quarto 205.

Uma resposta para Fortinbras

O autor do blogue Máscara&Chicote leu a minha crónica na revista Ler, sobre o último livro de Joaquim Manuel Magalhães, e depois escreveu o seguinte:

«(…) chamaram-me a atenção para um texto de José Mário Silva publicado na Ler deste mês sobre Um Toldo Vermelho do Peter Sutcliffe da poesia portuguesa. Passo a citar um pequeno excerto:
“Tentei ler Um Toldo Vermelho às cegas, como se nunca tivesse ouvido falar de Joaquim Manuel Magalhães. O resultado foi avassalador. Esta é uma poesia da rasura e da cesura, um magnífico mecanismo verbal que torce a linguagem até ao limite e nos agride, mas que não abdica da beleza, antes a procura nas linhas de fractura da própria escrita.”
Se a primeira frase fosse apenas “Tentei ler Um Toldo Vermelho às cegas” eu até achava normal dizer que, neste livro, Joaquim Manuel Magalhães “não abdica da beleza, antes a procura nas linhas de fractura da própria escrita”. Eu próprio li Um Toldo Vermelho com os olhos vendados, um fato de treino cor-de-laranja vestido e rodeado por dois terroristas afegãos com dois cutelos apontados ao meu pescoço e confesso que me pareceu um livro fantástico. Nas vezes que o li sem ter os olhos vendados apenas me pareceu uma tentativa mal sucedida de escrever coreano em português.
Há cerca de uma semana descobri um papel no meu quarto onde tinha rabiscado uma espécie de crítica a Um Toldo Vermelho, depois de ter ingerido quatro copos de Glenlossie. Reparei que lhe tinha dado uma nota média da minha escala. Ao lado, na mesma folha, deparei-me com outra crítica, desta vez à lista de compras da minha irmã num supermercado vegetariano, que foi classificada com uma das notas mais elevadas da minha escala. Ou seja, quero saber que espécie de whisky é que José Mário Silva anda a consumir, porque quero pedir ao meu patrão para mandar vir duas ou três garrafas disso.
A sério, eu concordo com grande parte das afirmações de José Mário Silva. O resultado é, de facto, “avassalador”. É, realmente, “uma poesia de rasura e cesura”. Também é verdade que “torce a linguagem” e que “nos agride”. Agora daí a juntar todas estas considerações num mesmo parágrafo e, ainda por cima, com um elogio estético, é que eu não consigo. E não fui só eu, o António Guerreiro e o Francisco Vale também não.»

Como o Fortinbras quer saber que espécie de whisky é que eu ando a consumir, não posso desiludi-lo. Ou melhor, vou desiludi-lo à mesma, porque a verdade é muito mais assustadora do que se confessasse que me embebedei com uma caixa de Bunnahabhain antes de ler Um Toldo Vermelho. A verdade é que ando a consumir leite meio-gordo da Mimosa. Sim, esse mesmo, o dos pacotes verdes. Ou seja, a culpa é dos dois terroristas afegãos.

Novas moradas

O Moleskine Literário, do escritor peruano Iván Thays, mudou daqui para aqui. E o irmaolucia também já não mora aqui, mas aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges