Paulo Branco vai produzir filme inspirado num livro de Don DeLillo

Na 61.ª edição do Festival de Cannes (que abre esta noite com a projecção de Blindness, o filme que Fernando Meirelles fez a partir de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago), o produtor Paulo Branco apresentará um projecto ambicioso: a adaptação cinematográfica do romance Cosmopolis, de Don DeLillo. O realizador será anunciado em breve, mas já se sabe que o orçamento será de 10 milhões de dólares e que a rodagem está prevista para o final de 2009.
Entretanto, Paulo Branco produzirá igualmente Mistérios de Lisboa, um filme (e série de TV), co-produção entre Portugal, França e Brasil, que parte da obra homónima de Camilo Castelo Branco, com argumento de Carlos Saboga e realizado pelo veterano Raoul Ruiz.

Saramago em plasticina no cinema (enquanto esperamos pelo ‘Ensaio sobre a Cegueira’ segundo Fernando Meirelles)

O realizador espanhol Juan Pablo Etcheverry adaptou ao cinema A Maior Flor do Mundo, única história infantil publicada por José Saramago. A sua curta-metragem de animação combina várias técnicas (2D com 3D, stop motion, etc.). O Nobel português aparece enquanto personagem e narrador.
Feito em 2007, o filme ganhou o prémio de melhor animação do Anchorage Internacional Film Festival e foi nomeado para os Goya deste ano na categoria de melhor curta-metragem.
A TVE ouviu tanto o cineasta como o escritor:

Uma Segunda Juventude

O mais recente filme de Francis Ford Coppola estreia hoje em Portugal. Intitula-se Uma Segunda Juventude (Youth without Youth) e é a adaptação relativamente fiel de um romance de Mircea Eliade, lançado por estes dias pela Bico de Pena, sobre o qual escreverei na próxima edição do Expresso.

Agualusa no grande ecrã

O Vendedor de Passados, romance cuja tradução inglesa (The Book of Chameleons) deu a José Eduardo Agualusa o prémio Independent de Ficção Estrangeira 2007, vai ser adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Lula Buarque de Holanda, com produção da Conspiração Filmes. O actor brasileiro Lázaro Ramos desempenhará o papel do protagonista, Félix Ventura.
Publicado pela Dom Quixote em 2004, o livro já vai na nona edição e foi traduzido em França, Itália, Holanda, Espanha, Sérvia, Croácia, Eslováquia, Coreia do Sul e Estados Unidos da América (pela conceituada editora Simon & Shuster).

Outro escritor na Cinemateca

Pedro Mexia

A nomeação do Pedro Mexia para subdirector da Cinemateca Portuguesa parece-me uma excelente notícia. E digo-o — não escondendo ser seu amigo — apenas porque estou certo de que fará um excelente trabalho no velho casarão da Rua Barata Salgueiro.
O Pedro é provavelmente o melhor crítico literário português sub-40, um notável poeta, cronista e blogger, um intelectual sólido com uma cultura abrangente e, sobretudo, alguém que não se limita a reflectir o air du temps, antes o analisa, critica, pensa. Além disso, é um cinéfilo na verdadeira acepção do termo: alguém que ama o cinema. Nunca esquecerei as muitas tardes que passei com ele, numa tertúlia de amigos, a discutir Scorsese, Ozu, Bergman ou Rohmer. É verdade que do seu currículo consta a tradução de um livro de Bresson (Notas sobre o Cinematógrafo) e vários anos de crítica cinematográfica no Diário de Notícias, mas a mim bastava-me a sua cinefilia para compreender e saudar o convite que lhe fez Bénard da Costa. Mais: se a ideia era escolher alguém que não fosse do meio, alguém exterior à teia de interesses e capelinhas que envolvem o cinema português, olho à volta e não vejo outra figura que melhor possa cumprir esse papel.
Uma palavra ainda para o novo ministro da Cultura. Ao nomear Pedro Mexia, um opinion maker que nunca escondeu o seu alinhamento ideológico com a direita conservadora, José António Pinto Ribeiro mostra a sua abertura, a sua independência política e a sua inteligência estratégica. Porque se quiser realmente, como afirmou logo de início, “fazer muito com pouco” (os míseros 0,4% do Orçamento do Estado), tem que chamar ao serviço público as pessoas mais capazes e não os eventuais boys que se ponham a jeito para os lugares.
Estão ambos de parabéns, o Pedro e o Ministro.
Agora mãos à obra.

Um western gaúcho

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O brasileiro Tabajara Ruas veio às Correntes com um duplo estatuto: escritor e cineasta. Ontem à noite, exibiu no Auditório Municipal Netto e o domador de cavalos, filme que escreveu e realizou (com assistência de Ondjaki). Apesar das cores desbotadas, “por causa de uma incompatibilidade entre o DVD que eu trouxe e o sistema de leitura das imagens daqui”, o público entusiasmou-se e comoveu-se com o fôlego desta espécie de western passado nas paisagens imensas do Rio Grande do Sul, em 1835. Narrativamente bem construído, em torno da lenda de um neguinho que foi morto pelo patrão por ter perdido uma corrida de cavalos, despertando a revolta e vingança dos outros escravos, a película tem cenas de tirar a respiração (o duelo num campo com formigueiros a perder de vista, por exemplo) e longas sequências de chibatadas que fazem lembrar o martírio de Cristo no filme de Mel Gibson (ainda assim com menos sangue). Ao meu lado, uma senhora levou o tempo todo a tapar os olhos e a limpar as lágrimas, enquanto murmurava: “ai que horror, mas isto não acaba?” Já as breves aparições do poeta poveiro Aurelino de Sousa, que antes da sessão não escondia o orgulho por ter feito parte do elenco, foram sendo recebidas com aplausos.

‘Seda’ nas livrarias e nos cinemas

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Romance curto sobre um amor impossível, Seda foi o livro que deu projecção internacional a Alessandro Baricco, ao narrar uma história delicada e macia, minimalista e agradável ao toque como o material em que se inspira (essa seda produzida vagarosamente pelos bichos-da-seda que Hervé Joncour, a personagem central, compra e vende em sucessivas viagens entre França e o Japão).
Agora a Dom Quixote reedita a obra, tendo em vista a estreia em Portugal da respectiva adaptação cinematográfica, feita por François Girard. Michael Pitt (Hervé Joncour), Keira Knightley (Hélène), Koji Yakusho (Hara Kei), Alfred Molina (Baldabiou) e Miki Nakatani (Madame Blanche) compõem o elenco. Eis o trailer (que, convenhamos, não augura nada de bom):

A chegada às livrarias é já na próxima segunda-feira, dia 4. O filme só poderá ser visto nas salas de cinema mais para o fim do mês (dia 28).

Outros anjos (noutra biblioteca)

A coorte dos anjos bibliófilos, numa das mais espantosas cenas de As Asas do Desejo, de Wim Wenders (1987).

Uma aventura poética

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«Somos, claro que sim, amantes da literatura, mas com a devida distância e a devida cautela. Literatura, sim, mas com conta, peso e medida.»
Vítor Silva Tavares

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«Se esta engrenagem quer dar cabo de mim e de uma aventura poética como é a & Etc, eu por raiva não deixo, não quero. E então persisto, insisto.»
Vítor Silva Tavares

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[Imagens e citações retiradas do excelente documentário & Etc, de Cláudia Clemente, que é exibido esta noite, pelas 21h30, na Cinemateca Portuguesa, juntamente com a primeira curta de ficção da cineasta: A Mulher Morena]

‘Expiação’

«A peça — para a qual Briony tinha desenhado os cartazes, os programas e os bilhetes, construído a bilheteira com um biombo voltado de lado e debruado uma caixa com papel crepe vermelho para recolher donativos — tinha sido escrita por ela num assomo de criatividade que tinha durado dois dias e que a levara a perder um pequeno-almoço e um almoço. Depois de concluídos todos os preparativos, já não tinha mais nada a fazer a não ser rever o manuscrito e esperar pela chegada dos primos que vinham do norte. Só teriam tempo para um dia de ensaios antes de o irmão chegar. A peça, com passagens sinistras e outras desesperadamente tristes, era uma história de amor, cuja mensagem, transmitida num prólogo em verso, era a de que o amor que não estivesse assente numa base de bom-senso estaria condenado. A paixão louca da heroína, Arabella, por um maléfico conde estrangeiro é punida pelo infortúnio de ela contrair cólera durante uma ida impetuosa até uma vila à beira-mar com o namorado. Abandonada por ele, e por quase toda a gente, presa à cama numas águas-furtadas, descobre em si mesma um inesperado sentido de humor. A sorte dá-lhe uma segunda oportunidade, sob a forma de um médico pobre que, na verdade, é um príncipe disfarçado que escolheu trabalhar no seio dos mais necessitados. Arabella é curada por ele e, desta vez, faz uma escolha sensata, sendo recompensada pela reconciliação com a família e pelo casamento com o príncipe-médico “num dia de Primavera com muito sol e algum vento”.»

[Primeiro parágrafo de Expiação, de Ian McEwan, tradução de Maria do Carmo Figueira, Gradiva, 2002]

'Expiação', o filme

A adaptação cinematográfica do romance de McEwan chega hoje aos cinemas portugueses, realizada por Joe Wright, com Keira Knightley e James McAvoy nos principais papéis. Mais logo, pelas 19h00, o jornalista Carlos Vaz Marques entrevista o escritor inglês no programa Pessoal e… Transmissível, na TSF.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges