O senhor F.

O senhor F. não sabe que as outras pessoas o tratam por senhor F., quando ele não está presente. Se soubesse que as outras pessoas o tratam por senhor F., o senhor F. ficaria furioso. «Mas quem é que vocês pensam que eu sou? Alguma personagem do Gonçalo M. Tavares?», perguntaria, aos berros. Depois, de chapéu na cabeça, guarda-chuva na mão, sairia para a rua, encolhendo os ombros e murmurando impropérios.

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O senhor F. gosta muito de poucas coisas e gosta pouco de muitas. Quais as poucas coisas de que gosta muito e quais as muitas coisas de que gosta pouco, eis o que se torna difícil de determinar – sobretudo porque falar nisso é justamente uma das muitas coisas de que o senhor F. gosta pouco.

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O senhor F., em tempos, foi um excelente nadador. Bruços, crawl, mariposa, costas – dominava os vários estilos. Hoje o senhor F. continua a frequentar piscinas, mas fica na bancada, a ver pessoas de todas as idades, com as suas toucas coloridas, avançando a diferentes ritmos nas várias pistas, separadas por fios com flutuadores. Se perguntarem ao senhor F. por que razão já não vai para dentro de água, ele responderá com evasivas. A verdade é que o senhor F. aprecia sobretudo os movimentos pendulares dos corpos que vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm através do feérico brilho azul da piscina. Se insistirem muito, ele explicará: «Prefiro assistir aos movimentos pendulares do que ser eu próprio um pêndulo.»

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O senhor F. frequenta livrarias às terças e quintas. Às segundas, quartas e sextas, bibliotecas. Nas livrarias, faz listas das obras que gostaria de comprar. Nas bibliotecas, lê os livros que em tempos gostaria de ter comprado. Ao fim-de-semana fica em casa, entretido com jornais e revistas.

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O senhor F. considera que a cinefilia exige solidão. Quando um amigo o convida para a matinée, ele desculpa-se com tarefas de última hora e vai à noite. Quando a namorada sugere um determinado filme em sessão nocturna (o filme que ela quer mesmo, mesmo ver, e nenhum outro), adia a resposta, mete-se no cinema logo a seguir ao almoço e à saída responde com uma SMS: «Não vai dar, querida, esse já vi.»

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O senhor F. sente-se mal nos supermercados. Na verdade, o senhor F. sente-se mal em quase todos os lugares, mas particularmente nos supermercados. A aflição começa com a escolha do carrinho. O senhor F. acha que as compras só podem correr mal, vão correr inevitavelmente mal, se o carrinho não estiver em óptimas condições. Por isso experimenta vários até encontrar o perfeito (com as rodas oleadas, sem sacos do cliente anterior, impecavelmente limpo). Mas o carrinho perfeito muitas vezes não existe. Ou então está no fundo da série de carrinhos enganchados uns nos outros. Nas poucas vezes em que encontra o carrinho perfeito e entra com ele no dédalo do supermercado, depara-se com um problema ainda mais bicudo. Que percurso seguir? Começa-se pela fruta, passa-se depois ao talho, à charcutaria, à secção das bebidas e acaba-se na área dos produtos de limpeza, ou é ao contrário? Certeza, só uma: os congelados, por razões óbvias, devem ser a última paragem antes de seguir para a caixa. Mas um homem, mesmo um homem coriáceo e abnegado como o senhor F., não se pode agarrar a uma única certeza. Por isso o senhor F. acaba por retroceder, deixando o carrinho escolhido com tanto critério no parque de estacionamento (nem sequer recupera a moeda), e faz as suas compras na mercearia do bairro.

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O senhor F. é um melómano a sério, daqueles que considera a música tocada ao vivo insubstituível. As gravações, sejam elas analógicas ou digitais, exigem sempre uma reprodução mecânica em que há sons que ficam pelo caminho e para ele, purista como é, se um som se perde, um ínfimo som que seja, a música torna-se incompleta, amputada como a Vénus de Milo ou a Vitória de Samotrácia, e deixa de valer a pena. Se um dia ganhasse a lotaria, o senhor F. talvez se dispusesse a pagar bom dinheiro a um quarteto de cordas para que este subisse os instrumentos até ao seu quinto andar, sem elevador (coitado do violoncelista), de forma a proporcionar-lhe, em condições acústicas ideais, a fruição das obras mais extraordinárias de Schubert, Beethoven e Béla Bartók. Como provavelmente nunca ganhará a lotaria, nem qualquer outro jogo de azar, o senhor F., que também não tem dinheiro para comprar as assinaturas das grandes salas de concerto e ópera, contenta-se em procurar pela cidade os jardins em que os estudantes do Conservatório tocam de graça para a população.

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O senhor F. admira muito os funcionários das Finanças. Ao contrário dos outros contribuintes, acabrunhados enquanto esperam como reses em fila para o matadouro, temerosos das multas ou silenciosamente fervendo de indignação diante da máquina do Estado (especialista em apropriar-se de uma fatia generosa dos seus rendimentos), ao contrário de toda a gente que protesta mesmo quando não tem razão nenhuma para protestar, o senhor F. sente-se na repartição de Finanças como peixe na água. «A burocracia, quando bem exercida, é um espectáculo admirável», pensa ele. E deixa-se estar, deliciado, a assistir à consulta das matrizes prediais e a ouvir o som dos carimbos, sem sequer tirar senha porque na verdade não tem nenhum assunto para tratar ali.

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O senhor F. fala muito com os seus botões. Levanta-se do sofá, vai ao armário do quarto buscar a caixa de costura, pousa-a em cima da mesa da sala, abre-a e tira lá de dentro vários saquinhos de plástico com os botões, separados por cores e tamanhos. Assim que ficam todos alinhados em cima da toalha de linho que foi da sua trisavó materna, começa a falar e nunca mais se cala.

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O senhor F. só assistiu a um jogo de futebol na vida – e foi por engano. Era Fevereiro, estava frio e o senhor F. saiu à rua com um cachecol de lã amarelo e vermelho. No momento em que passava junto a um estádio, cruzou-se com dezenas de adeptos que envergavam cachecóis amarelos e vermelhos. Havia adeptos à sua frente, atrás de si e dos lados. De repente, sem perceber bem como, ficou no meio daquela multidão que se dirigia para os torniquetes, abertos naquele dia para que toda a gente apoiasse a equipa num dos jogos mais decisivos da temporada. O senhor F. assistiu à partida no meio de uma claque ululante, que exibia faixas, gritava os cânticos, rebentava petardos. Mesmo sem perceber nada do que acontecia sobre a relva, o senhor F. ficou satisfeito com o espectáculo. No fim, eufórico, um dos adeptos dos cachecóis amarelos e vermelhos deu-lhe uma cotovelada amistosa: «Então, foi bom, não foi?» Ao que o senhor F. respondeu: «Foi bom, sim senhor, foi muito bom, mas continuo a preferir a dança clássica.»

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O senhor F. desenvolveu, com os anos, um certo medo das alturas. Mas não tem sempre medo. Umas vezes tem, outras vezes não tem. Depende, justamente, das alturas.

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O senhor F. queria muito escrever um romance. Para ganhar rotinas de escrita, um certo embalo, uma certa disciplina, decidiu escrever mil palavras todos os dias, durante um mês. De início, alcançava o objectivo diário com relativa facilidade, numa hora e meia, duas no máximo. Mas a partir de certo momento o exercício tornou-se penoso. O que fora uma alegria, era agora um sacrifício. Já não era ele que escrevia as mil palavras, eram as mil palavras que o escreviam a ele. Quando apagou do computador os textos tão esforçadamente arrancados à sua escassa imaginação, o senhor F. pensou que ia sentir pena, desânimo, arrependimento. O que sentiu foi alívio das ilusões desfeitas.

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O senhor F. é muito friorento, mesmo no Verão. É por isso que anda sempre com um casaco de malha e o seu cachecol de lã amarelo e vermelho. Dito isto, não se pode acusar o senhor F. de insensibilidade absoluta às condições meteorológicas quando escolhe o seu guarda-roupa. Nos dias em que os termómetros se aproximam dos quarenta graus centígrados, o senhor F. não deixa de usar o seu cachecol de lã amarelo e vermelho, mas deixa cair o casaco de malha, saindo para a rua, ó ousadia, em camisa – uma camisa de mangas compridas, azul escura, com o colarinho abotoado, claro.

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O senhor F. indigna-se facilmente. Se a indignação for muito grande, pega num caixote de madeira, vai até à esquina da rua e imita os oradores londrinos do Speakers Corner, lançando-se em jeremiadas que podem durar até cinco horas. Se a indignação for moderada, faz o percurso das mercearias do bairro, começando sempre as suas queixas com um vocativo: «Ó dona Albertina, então já viu isto?»; «Ó senhor Alfredo, eu sei que parece mentira mas…»; «Ó dona Belinha, a senhora não vai acreditar no que acabei de ouvir no ‘Jornal da Tarde’…»; etc. Se a indignação for pequena, o senhor F. escreve mais um dos seus posts crípticos, publicados no seu blogue anónimo e completamente desconhecido, cujas únicas visitas são as que faz todas as noites para confirmar que ainda continua a existir (o blogue e ele próprio).

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O senhor F. deixou de ter namorada. Ou melhor, a namorada do senhor F. é que deixou de o ter a ele. Abandonou-o. O senhor F. ficou de rastos e transporta uma tristeza no peito semelhante a uma bomba-relógio programada para explodir de minuto a minuto. Quando o senhor F. perguntou à namorada «porquê?», ela não lhe soube responder. Ou melhor, respondeu-lhe que havia um problema grave de desfasamento. Para ela, o que mais importava era o futuro, o que estava para vir (e, no futuro, ela não conseguia imaginar-se ao lado do senhor F.). Para o senhor F., o importante era o presente, o que estava a acontecer agora (e, no presente, ele não conseguia imaginar-se sem a namorada junto de si). Fora esta discrepância, o entendimento entre os dois era perfeito, uma espécie de milagre do amor, melhor ainda do que nos livros. Mas a namorada, por muito que gostasse do senhor F., era incapaz de lidar com o tal desfasamento, com o tal absurdo medo do futuro. E um dia desapareceu mesmo. O senhor F., que se estava nas tintas para o futuro, sentiu o presente a ser-lhe arrancado como se fosse uma perna ou um braço, e transporta agora o passado como um tesouro cruel que lhe dá cabo das costas.

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O senhor F. juntou muitos mapas ao longo da vida. Coleccioná-los é a sua maior obsessão. Tem mapas de todos os tamanhos e feitios. Mapas de ilhas remotas, minúsculas e desabitadas. Mapas das estradas que são como sistemas circulatórios de um país ou de um continente inteiro. Mapas históricos com geografia ainda imprecisa, áreas vazias de terra incognita, monstros na orla do planeta e baleias de cauda escamosa no meio do mar. Mapas dos grandes desertos com a posição relativa das dunas no momento em que o mapa se imprimiu e a sua provável evolução (a tracejado). Mapas de grandes capitais que ocupam uma sala inteira, com os bairros identificados por cores diferentes, mas também os prédios, um a um, e os pátios, os saguões, as garagens subterrâneas, os bancos dos jardins, as antenas, os quiosques, os ecopontos, as sarjetas, os toldos dos cafés, os baloiços dos parques infantis, os parquímetros. Mapas de glaciares, desactualizados ainda antes de terem saído da gráfica, mas belíssimos nos seus vários tons de branco, cinzento e azul. Mapas atravessados por fronteiras que já não existem. Mapas económicos. Mapas demográficos. Mapas de terras que nunca existiram a não ser na imaginação de certos escritores. E o mapa mais importante de todos: o mapa das dezenas de gavetas do seu arquivo de mapas, sem o qual não conseguiria chegar de forma tão expedita ao mapa que lhe interessa num determinado momento.

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O senhor F. enerva-se muito a ler jornais. Todos os sábados e domingos, recorta os artigos com erros factuais ou ortográficos, assinala-os, corrige-os, e cola-os em folhas A4 brancas. Depois, sai discretamente de madrugada, quando ninguém passa na rua, e vai afixando esses papéis à porta das redacções que deixaram passar os inadmissíveis erros. Já houve, aliás, reportagens feitas pelos jornais visados sobre este justiceiro anónimo. Mesmo actuando pela calada, o senhor F. devia sentir orgulho do seu cada vez mais mencionado e influente jornal de parede. O problema é que ele descobre alguns erros nas próprias denúncias que escreve. Ou seja, em vez de orgulho, o que ele sente é vontade de fazer um segundo jornal de parede que corrija o seu primeiro jornal de parede, sabendo perfeitamente que ao fazê-lo só estaria a abrir a porta a um terceiro jornal de parede, etc. «Não tenho vida para isto», resume o senhor F.

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O senhor F. é um visitante frequente do Jardim Zoológico. Nunca espreita as jaulas dos tigres, nem o fosso dos leões, nem o espaço dos macacos, nem as girafas, nem os elefantes, nem as crias do rinoceronte branco, nem o espectáculo com golfinhos que voam a grande altura e focas que batem palmas. Assim que atravessa o portão, o senhor F. dirige-se logo para o Reptilário, onde fica tardes inteiras junto a uma das enormes caixas de vidro, à espera de ouvir a música tão discreta e preciosa da cascavel.

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O senhor F. tentou suicidar-se três vezes. Uma corda à volta da garganta. Comprimidos. Um salto da janela. A corda partiu-se. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago. O toldo de um café e um colchão abandonado na rua amorteceram-lhe a queda. Morrer é mais complicado do que parece à primeira vista. Resignado, o senhor F. costuma dizer que se à terceira não foi de vez, então é porque não vale a pena tentar a quarta.

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O senhor F. detesta finais infelizes (a tragédia grega), mas detesta mais ainda finais felizes (Hollywood). O que o senhor F. detesta mesmo é a própria ideia de final. Para ele, o final é o momento em que chegamos ao futuro e acaba tudo. Se dependesse do senhor F., nunca haveria final para nada, muito menos para a forma como ele, senhor F., mal ou bem, se vai inscrevendo no mundo. É por isso que aproveito o facto de o senhor F. ter ido à repartição de Finanças para, à sua revelia… enfim, vocês sabem.

Aldeia Olímpica

O porta-bandeira de Chipre torceu um pé ao sair do autocarro, estatelando-se ao comprido no chão. Atrás dele saiu uma nadadora do Suriname que nada fez para o ajudar. Três canoístas canadianos passavam por ali no momento da queda mas também nada fizeram. Assistindo à cena a vinte metros de distância, o chefe da comitiva grega abanou a cabeça e murmurou para o chefe da comitiva norueguesa: «Não foi para isto que o Barão Pierre de Coubertin, esse grande francês, reinventou os Jogos». Meia hora antes, quatro ginastas ucranianas foram apanhadas a roubar ganchos para o cabelo numa loja de souvenirs. A mesma loja em que se venderam dezenas de postais com os cinco anéis, remetidos nessa tarde ou no dia seguinte para países tão remotos como a Arménia, Nova Zelândia, Belize, Samoa, Tadjiquistão ou Zimbabué. Na cafetaria, os velocistas da Jamaica sentaram-se à parte para beber café, o que motivou comentários jocosos dos velocistas de Saint Vincent e Grenadines, Saint Kitts e Nevis, Trinidad e Tobago, Granada, República Dominicana e Ilhas Virgens Britânicas. Uma halterofilista turca assumiu o seu relacionamento amoroso com uma jogadora de hóquei em campo argentina, ao publicar no Facebook uma foto em que as duas se beijam, no intervalo do jogo de pólo aquático entre a Hungria e a Eslovénia. A melhor dupla chinesa de saltadores para a água, favorita à vitória, desentendeu-se momentos antes da prova e ofereceu ao mundo um inesperado e violentíssimo espectáculo de pancadaria sincronizada. Nos dias de folga, o atirador com pistola livre do Cazaquistão organiza simultâneas de xadrez no jardim, mas se os atletas dos países balcânicos (croatas, albaneses, sérvios, montenegrinos) têm correspondido, os outros tendem a preferir os seus iPods, iPads e playstations. Meio desorientada, a judoca do Chade pediu ajuda a um basquetebolista nigeriano mas ele não ouviu, talvez porque as palavras têm alguma dificuldade em chegar lá acima. Com os fatos de treino vestidos, ninguém repara nas duas esculturais brasileiras do volley de praia, enquanto elas discutem, na fila da farmácia, qual a cachaça certa para fazer a melhor caipirinha do planeta. O lançador do dardo checo traz hoje uma t-shirt com o rosto de Zátopek (tem no quarto outra, muito parecida, com a efígie de Kafka). Feitas as apresentações, alguém se apercebe que no grupinho formado espontaneamente só estão desportistas de países começados pela letra M (Madagáscar, Malawi, Malásia, Maldivas, Mali, Malta, Mauritânia, Maurícia, México, Micronésia, Moldova, Mónaco, Mongólia, Marrocos, Moçambique e Myanmar), o que provoca, sem que se perceba bem porquê, uma enorme gargalhada colectiva. Um pugilista nicaraguense enorme (categoria peso super-pesado; ou seja, com mais de 91 quilos) desabafa com um pugilista lingrinhas do Panamá (categoria peso mosca-ligeiro; ou seja, com menos de 49 quilos) que tem muitas, mas mesmo muitas, saudades da sua filha de dois anos e meio, a Carmen, «tão pequenina, tão doce, tão bonita», luz dos seus olhos que já não vê há três semanas. O saltador em comprimento da Serra Leoa lê o jornal com um ar preocupado, à procura de notícias sobre o seu país (quando aparecem nos jornais internacionais, é mau sinal; quando não aparecem, também é mau sinal). No terraço do edifício onde está alojado, o lutador cubano mais velho fuma um charuto às escondidas e observa, de longe, a equipa de perseguição em bicicleta alemã e os remadores austríacos a caminharem, em amena cavaqueira, até ao ponto em que divergem para os respectivos centros de treinos. «Saltar à vara é bom, saltar à vara é maravilhoso, saltar à vara é a única coisa que eu quero fazer na vida, mas já chega de me chamarem o ‘holandês voador’», pensa o holandês voador. Depois de ter sido candidata a Miss Mundo aos 18 anos, a velejadora venezuelana de 27 anos (classe Laser) aspira a um outro tipo de glória, uma glória sem o martírio dos vestidos de noite, das tiaras, das lágrimas obrigatórias e dos desejos profundos de paz no mundo e de felicidade para todas as crianças, especialmente as abusadas, as abandonadas, as subnutridas. Agora a sério, parem de pedir ao trampolinista das Ilhas Caimão conselhos sobre a melhor forma de abrir uma conta bancária off-shore porque ele não acha mesmo piada nenhuma à brincadeira. Sem aviso, um repórter irlandês pergunta maldosamente ao representante chileno no triatlo se sabe mostrar no mapa-mundi onde ficam Aruba, a Samoa Americana, Antígua e Barbuda, Kiribati, Tuvalu, Guam, Nauru, Palau, Vanuatu e Santa Lucia, ao que o representante chileno no triatlo responde, com honestidade e candura, que nunca sequer ouviu falar de tais lugares. Entre as voleibolistas turcas, há uma especialmente tímida, incapaz de dizer «Bom dia» com voz que se oiça, mas cuja personalidade se metamorfoseia durante os jogos, ao ponto de gritar os impropérios mais obscenos às colegas de equipa, se uma delas não se esforça na recepção ou falha o tempo de salto para o bloqueio. Se o especialista estónio dos 5000 metros mal consegue andar por causa das bolhas nos pés, a dupla sueca dos 1000 metros em K2 mal consegue pegar nas cervejas por causa das bolhas nas mãos. O norte-americano apontado como principal favorito à vitória nos 400 metros planos tem todos os dias o mesmo pesadelo, no qual dá o seu máximo e está certo de bater o recorde do mundo, só para descobrir ao cortar a meta que ficou em segundo lugar, atrás de uma figura difusa a que o seu psicanalista chamaria uma materialização do seu medo de perder. Para descomprimir entre as várias provas, há quem jogue ténis de mesa a tarde toda, mas os representantes de Hong Kong no torneio de ténis de mesa, compreensivelmente, preferem ver televisão. Apesar de tão óbvia, a velha ordem alfabética tem sempre os seus admiradores, que o digam os 24 atletas de Andorra, Bahamas, Cambodja, Djibouti, Eritreia, Fiji, Granada, Haiti, Indonésia, Jordânia, Kuwait, Letónia, Macedónia, Niger, Oman, Papua Nova Guiné, Qatar, Ruanda, San Marino, Tanzânia, Uganda, Vietname, Yemen e Zâmbia a quem pediram que se perfilassem ao lado uns dos outros. Quando a ciclista búlgara quase atropela o maratonista costa-marfinense, aumentam muitíssimo as probabilidades de nascer, cerca de um ano mais tarde, um belíssimo bebé mulato intercontinental. As opiniões valem o que valem, mas toda a gente acha que o treinador da selecção de ginástica rítmica polaca anda triste demais (como se lhe tivesse morrido um familiar próximo) e o ex-campeão de tiro ao arco sul-coreano excessivamente eufórico (como se tivesse arrebatado o maior prémio de sempre na lotaria). Na zona do controlo anti-doping, o afegão que está inscrito nos combates de Taekwondo olha com alguma desconfiança para um halterofilista russo, pensando: «Será que foi o pai dele a matar o meu no ataque a Kandahar ou terá sido, antes desse dia negro, o meu pai a matar o dele nas montanhas que cercam Cabul?» O marchador colombiano começou por responder com indiferença aos comentários mordazes sobre o grau de masculinidade (ou falta dela) da disciplina a que se dedica há 15 anos com o máximo empenho; depois, ao ver que os comentários persistiam, lembrou em voz alta aos gozadores que o seu irmão mais velho é um dos cabecilhas do cartel de Medellín e foi, como se costuma dizer, remédio santo. Quem gosta de couscous sabe que a argelina lançadora do peso faz um tajine de chorar por mais, embora as suas actividades gastronómicas, necessariamente clandestinas, nunca tenham dia ou hora certos. Ao meio-fundista boliviano tudo parece mais fácil cá em baixo, onde o oxigénio não falta e os caminhos não são íngremes, nem de terra, nem se arriscam a desaparecer no meio das nuvens. Cinco futebolistas hondorenhos saíram à noite e só voltaram, de manhã, «com um ar esquisito», segundo alguns compatriotas da delegação que os conhecem bem. O esgrimista do Bahrain trouxe consigo uma considerável biblioteca (uma mala cheia com mais de 50 volumes de estudos corânicos), o que fez sorrir o seu adversário finlandês na segunda ronda, também ele leitor voraz, mas de romances policiais escandinavos (umas quantas dezenas, comodamente guardados na memória do seu Kindle). A estafeta australiana de 4 x 100 metros livres nada em conjunto há tanto tempo que se consideram uma família e como todas as famílias por vezes discutem, incompatibilizam-se, amuam, proclamam o seu afecto uns pelos outros, zangam-se outra vez e reconciliam-se no fim (o extraordinário é que tudo aconteça durante um único treino). À representante das Comores o anonimato não deve custar muito porque, assinala com manifesto prazer um comentador televisivo que se tornou conhecido pelo seu cinismo, «afinal de contas ela vem das Comores». O maratonista islandês tem literalmente inscrita no corpo a distância que percorre há oito anos (é uma tatuagem simples, a dizer 42,195 kms, um pouco acima do calcanhar). De comum, os atletas da República Democrática da Coreia do Norte e da República Democrática do Congo só têm o facto de representarem países que não são democráticos. Toda a gente se queixa do excesso de controlo na aldeia, menos o judoca palestiniano, que vive em Jenin, tem uma avó doente que mora em Jerusalém e sabe o que sofre, diariamente, para ultrapassar os checkpoints à ida e à volta. Com os seus modos mansos, a sua mosquinha no queixo e os olhares dengosos, o porto-riquenho especialista em 110 metros barreiras tem fama de gigôlo (e talvez algum proveito). Para a delegação saudita, qualquer movimento de súbditos nacionais no exterior representa um enorme perigo de contaminação cultural, pelo que foram já accionados os mais mirabolantes mecanismos de vigilância e controlo, nem sempre tão eficazes quanto os responsáveis dão a entender nos relatórios que enviam de hora a hora para Riade. O tenista suíço sabe que há torneios mais importantes para ganhar do que este, uma vitória aqui não substitui um triunfo em Melbourne ou Roland Garros, e isso talvez o desmotive um pouco, ou se calhar são as enxaquecas, não tem bem a certeza. O nadador de Tonga sabe que o Tonga só é bom em râguebi, mas infelizmente o râguebi é um dos desportos que não se pratica nos Jogos. Para o tapete onde se decidem os combates de luta greco-romana, o lutador indiano gostava de levar muitos braços, como os da deusa Kali, mas não só não os tem como sabe que os regulamentos nunca permitiriam uma tal extravagância. O peso galo (isto é, menos de 56 quilos) do Uzbequistão nem sempre andou aos murros com luvas de boxe; houve um tempo em que andou aos murros com as mãos nuas e os muitos narizes partidos dos seus colegas de escola são a marca viva de um talento na altura ainda em bruto. Por razões não especificadas, o lançador do disco angolano e o roupeiro de Cabo Verde, ambos visivelmente embriagados, envolveram-se numa rixa com navalhas e garrafas partidas, da qual saíram miraculosamente ilesos, salvo algumas escoriações superficiais e golpes pouco profundos nos braços (de uma das janelas, o delegado da Guiné Bissau gritou bem alto: «Até aqui fazem cenas dessas? Não têm vergonha?»). Ao entrar na cantina, um velejador belga da classe 470 trauteia com certo orgulho uma canção de Brel e parece feliz ao perceber que as batatas fritas fazem parte dos acompanhamentos para o almoço. Jaz o jocoso judoca japonês, justapondo júbilo e jasmim. Estavam quatro – um andebolista espanhol, um cavaleiro egípcio, o dinamarquês do windsurf e o italiano do decatlo – quando ela passou, ela a praticante libanesa de ginástica rítmica, mais as suas ancas rítmicas, os seus seios rítmicos, o seu rosto rítmico, o seu corpo rítmico, toda ela rítmica e os quatro como que enfeitiçados. Num computador portátil, alguém consulta a lista de todos os países participantes e vai transcrevendo para um moleskine, com caligrafia trémula e por vezes quase ilegível, alguns deles: Azerbaijão, Bangladesh, Barbados, Bielorrússia, Benin, Bermudas, Butão, Bósnia-Herzegovina, Botswana, Brunei, Burkina Faso, Burundi, Camarões, República Centro Africana, Congo, Ilhas Cook, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Guiné Equatorial, Etiópia, Gabão, Gâmbia, Geórgia, Gana, Guiné Conakri, Guiana, Irão, Iraque, Israel, Quénia, Quirguistão, Laos, Libéria, Líbia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Namíbia, Nepal, Paquistão, Panamá, Paraguai, Filipinas, Roménia, São Tomé e Príncipe, Senegal, Seycheles, Singapura, Eslováquia, Ilhas Salomão, África do Sul, Sri Lanka, Sudão, Suazilândia, Síria, Taipé, Tailândia, Timor-Leste, Togo, Turquemenistão, Uganda, Emirados Árabes Unidos, Uruguai. Um comissário britânico repara no afã do escriba e pergunta-lhe porque anota ele aqueles países no seu caderninho. Responde o português: «Escrevo para os cortar da lista. Já não tenho histórias e situações que cheguem para todos.»

Um bilhete para Anchorage

Na nossa família, o Alasca era um ponto de fuga. Sempre que o meu pai desesperava com os conflitos na fábrica e o problema das dívidas, dizia: «Um dia destes pego em nós e vamos todos para o Alasca.» Começar do zero era o sonho dele. Ir para longe de tudo, para longe da vida real, tão miserável. Encontrar um princípio qualquer no fim do mundo.
Eu imaginava-nos a chegar àquele lugar demasiado grande: as montanhas, os lagos, os glaciares, tudo imenso, a natureza belíssima mas agreste, devoradora. Sonhei muitas vezes com a luz mínima do Inverno, eu e os meus irmãos a caminho de uma escola soturna, atravessando a neve, aprendendo devagar a linguagem do frio.
Um dia percebi que o meu pai dizia aquilo por dizer. Onde estava Alasca podia estar Austrália, deserto de Gobi, a Lua. O meu pai morreu há duas semanas. Um acidente na fábrica, horrível. Ficou cinco dias no hospital, a agonizar, sustido pela morfina. A minha mãe não diz nada, só murmura rezas, fechou-se dentro de um luto que é só uma forma de loucura. Nenhum dos meus irmãos voltou a casa neste momento tão triste. Um está preso, outro num cargueiro algures no meio do Pacífico, ao mais novo há muito que perdemos o rasto. Antes de ir visitar o meu pai ao hospital, na manhã em que os médicos nos roubaram qualquer esperança, despedi-me do trabalho de merda que me consumiu toda a energia nos últimos vinte anos.
«Vou-me embora, pai», disse baixinho. Mexeu-se na cama. Gemeu. Os tubos. Os sons das máquinas que respiravam por ele, que lhe purificavam ainda o sangue condenado. «Fazes bem, filho, não há aqui nada por que valha a pena lutar.» A voz muito arrastada, ruína no meio da tosse. «E vais para onde?» Pousei a mão no peito dele. Senti o estertor dos pulmões. «Ainda não disse a ninguém, mas vou para o Alasca.» Ele ficou parado, os olhos muito abertos, a estudar-me, a certificar-se de que eu falava a sério. Então tirei o bilhete do bolso e mostrei-o. O meu pai começou a tremelicar. Era uma espécie de solavanco suave, contido, abafado. Julguei que se ia desfazer. Mas então, em vez do choro, o seu corpo abriu-se à gargalhada. Uma gargalhada funda, a vencer a resistência do corpo dorido, uma gargalhada impossível, um desafio à morte, um último gesto de rebeldia desperdiçado comigo, o filho disposto a cumprir a sua antiga ameaça. Ao fim de uns minutos, exausto, parou de rir e ficou imóvel. Outra vez o quase silêncio. Só os sons das máquinas que respiravam por ele, que lhe purificavam ainda o sangue condenado.
Quando abriu novamente os olhos, a muito custo, não disse nada. Fez um gesto com a mão, para que me fosse. Eu saí do quarto, sem saber se aprovava a minha decisão ou se me considerava louco, parvo, infantil, mais um filho perdido, o último numa cadeia de desilusões. Parti para Anchorage na manhã seguinte, mais ou menos à hora a que lhe assinaram a certidão de óbito. Quando pisei pela primeira vez o solo do Alasca, foi dele que me lembrei. Acho que só trouxe da minha vida anterior a imagem do meu pai preso à cama do hospital. E a gargalhada tenebrosa. Ontem, quando olhava para um glaciar ao longe, meio escondido pela névoa, apercebi-me de que foi a única vez que o ouvi rir.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]

Samsa

Gregor Samsa sonhava muitas vezes com insectos. Eram sonhos agradáveis, em que ele saía pelas ruas a exibir a sua bela carapaça e sucumbia ao apelo das feromonas, entregando-se à lascívia e à fornicação com fêmeas em cujos élitros se reflectia o arco-íris. O problema era de manhã. Na casa de banho, ao espalhar a espuma na cara, via-se ao espelho e deparava com o rosto anguloso daquele colega esquisito lá da repartição, o Franz. Era como se durante a noite se tivesse transformado naquele homenzinho opaco e vagamente sinistro. Depois de se barbear, o espelho devolvia-lhe o verdadeiro rosto: arredondado, lustroso, banal. Mas os pequenos golpes da navalha, na bochecha ou no queixo (mesmo por baixo do lábio inferior), prolongavam pelo dia fora o desconforto da sensação matinal, semelhantes a marcas feitas por um escultor que hesitasse e, tendo já iniciado a obra, preferisse deixar o trabalho para mais tarde.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges