Margarida Vale de Gato sobre António Poppe

«TODOS OS MEIOS SENTIDOS DÃO À LUZ

O António é um meu amigo admirado, não só porque eu o admiro como porque ele também se admira, isto é, espanta-se amiúde. A amizade é uma admiração, e desenvolvendo mais a atenção a estes sentidos presentes das palavras nem precisamos de ter tantas, embora às vezes também seja bom termos uma reserva para variarmos e a mesma coisa passar a ser nova, o que também tem a ver com este livro. A nossa – amizade, admiração – nem precisou até agora de ser longa, mas um dia vai ser. Comecei a conhecer o Livro, e o António também, um através do outro, porque quem o conhece lembra sempre que tantas das suas elocuções são dizeres do livro, tantas também dizeres de outros livros. “A memória é uma surpresa na realidade.”
Quando, pois, o António me convidou para apresentar este livro enchi-me de orgulho e de miaúfa, porque o que aqui temos não é nada fácil de articular. Quis preparar-me e fazer toda a justiça que me permite a minha qualidade de professora de literatura e fiz o que faria qualquer académica que se preze, mergulhando no que podia ser o filão da poética do Poppe, tentando traçar-lhe um percurso, e até fases, começando pelo primeiro livro publicado – ao que ele me adiantou trabalho, dizendo que, sendo um livro onde já desde logo houve a sobreposição do desenho ao poema, como não podia deixar de ser no seu espírito plástico, o fizera também para treinar a mão, procurando que o guiassem as palavras que amava ou que o desatinavam em escritos dos outros. Posto isto, ainda que não achasse a ligação toda com Juan Abad, tipógrafo tornado dramaturgo a escrever zarzuelas em plena revolução das Filipinas no final do século XIX (falha de ligação que provavelmente é só despiste meu, mas se calhar está nos versos finais de “Um alfaiate traça na manga o corte / eu olho por dentro uma velha maneira de falar com a morte”), optei pela leviandade de passar por cima de tantos anos de estudo de teoria literária em favor da crítica impressionista que me levasse pelo coração à ponte entre Torre de Juan Abad e o Livro da Luz. E escrevi isto:

Todos os meios sentidos dão à luz. O A. escreve a ler,
escreve o Helder, escreve o Quevedo, escreve o Auden,
escreve o Pau-Chi, escreve a sorte de zarzuelas e castelos
inundando Juan Abad, e desenha montanhas moldes de
inversas cúpulas e escreve e repete e ouve o Cintra
e desenha o Belo e o escuro, o Belo ainda estava lá
no escuro, cada sentido com vários meios, e o sexto,
a luz e o seio, sentido sabor de sabedoria com gosto,
verso de saber que é verso do saber, anagrama de servo,
“de coral em vértebra / uma existência livre de vontade”.
Então o António vai a ver e traça sobre o que viu, cola
o rosto no verso, a imagem na imagem sobe às letras coradas,
a escrita no carvão e na água, a pintura com os tímpanos,
a fotografia do rosto devém caracter-Fonte de muitos membros,
uma cauda a varrer um útero aberto como grandes olhos.

Concretamente sobre o livro em apreço, e pretendendo voltar aos carris da crítica literária, digo que quis estruturar a que se segue sobre quatro palavras de significantes concatenados, roubando ao Poppe a técnica da mnemónica:

Rasura / Satura / Sutura / Sutra
O António Poppe é um rapaz, além de lido e lindo, formado em Belas-Artes pelo School of the Art Institute of Chicago. Será tentador, talvez, à primeira vista, relacionar o seu trabalho de risco com uma certa onda da rasura que terá emergido nas artes plásticas por este nosso pós-modernismo tardio adentro, com o beneplácito de Derrida e sequazes, da desconstrução, extinção e marca ou traço da tradição fragmentada e desmembrada. As pistas da citação e elisão artísticas tornam-se, porém, enganosas. Possivelmente, para a brasa da sardinha dos filósofos do pós-moderno, seria mais pertinente chamar aqui a dobra deleuziana, a pli que vai da inflexão à inclusão, e a que eu acho que o António, quando ainda lhe agrada o barroco, pisca o olho em versos como “árvore de letras e vento / plica e explica”. Mas já o António, se rasura não risca, dobra, e a dobra que é dele e não do Deleuze tende à sutura, que com mais uma dobra se torna em sutra, texto condensado para melhor se memorizar, o que também se aplica ao António, mas não o explica. Ou então sutra, escrito num livro de folhas de palmeira cozidas por um fio, que sempre parece tecer mais sentido com “árvore de folhas e vento”. Cosida pela mão, a sutura não fecha, nem sequer completamente cicatriza, tem poros, “de mão dada à pele”. Aliás, o António uma vez ensinou-me uma coisa de deixar esbugalhada boa parte da poesia portuguesa: resistir a procurar o fecho do poema, guardar-lhe a vocação de abrir.

Venho com esta conversa da rasura, porque estive Quarta-feira passada no lançamento de um livro onde se falou muito da técnica da rasura, tratando-se no caso de um livro de meu companheiro de investigação, José Duarte, que se meteu a riscar nada mais do que a Moby Dick, deixando apenas umas palavras aqui e ali, escolhidas no entanto por serem fortemente significantes, e que permitiram tornar o catrapázio de Melville num livro de poemas de 88 páginas, com um resultado singular e em muitos casos bastante pungente. Introduzi a rasura da poesia no Google (uma outra técnica, que gostava de dominar tanto como o Manso) e descobri que neste momento, no Illinois, estado fronteiro ao Michigan da Chicago onde o Poppe cursou, uma senhora chamada Julie Judkins está a dar workshops de poemas de rasura sob o título “Uma Poesia da Ausência”, e que, na Wikipedia: “Erasure poetry is a form of found poetry created by erasing words from an existing text”. Foi daí que concluí também que a poesia do Poppe não é uma poesia da rasura, pois não só não pretende limitar as suas palavras dentro das escolhas lexicais de textos anteriores, como a sua sutura não se satura de esgotamento. Sobretudo, pouca poesia será tanto de presença como a sua, de palavras que se nos apresentam e pairam ainda, simultaneamente circundadas e livres, de contextos anteriores. Tanto há para ler num verso como “Aconteceu a corda” – incitação ao despertar, à vibração, à fibra do coração, corações ao alto, o nosso coração está em Deus, livre tradução, sursum corda. Onde quer que o António tenha andado para achar os caminhos de um verso como “Aconteceu a corda”, e onde quer que tenha lido e visto e decorado, o risco dele, neste livro, a corda que cora e se espalha sobre o escrito, não é sobre o dado ou encontrado nos outros, mas sobre o que dá também, verso chegado a si, entrado no poema. O risco entra, pois, no poema, não o oblitera.
Aconteceu a corda, corações ao alto. O coração do António até pode estar no nada como estar em Deus, mas não está quieto, não tomemos este como um livro de plácida contemplação, contemplação nele é comunhão ativa, tantas vezes é tensão e, todas as vezes, a tensão (atenção!). No livro estão os mestres e os irmãos, os companheiros de viagem e os outros da paisagem, o pai e a filha, a cora, a mãe, o mundo, os seus fundos. Não apaga, sobrepõe, e o que está em cima é deferente para com o que está em baixo, não procura exatamente precedência, embora se preocupe de algum modo com o primário, forte força telúrica e dos elementos que se achem expostos, a nossos sentidos todos atentos. Nada mais errado, parece-me, do que ver no seu gesto desconstrução, senão assimilação, dirigida, lá está ela, por essa atenção que aprendeu na experiência e nos mestres do Oriente e do deserto (é pela duna que se inicia, ou se pode ver numa das leituras iniciar este livro, e a duna está distante dos aterros e dos buracos negros), experiência e mestres do Oriente e do deserto, perto da fonte da luz, a quem presta homenagem em vários degraus deste livro, seja por referências, colagens, desenhos ou fotos, além de – não esquecer – a proximidade mântrica da voz. Já a ouviremos, espero.
Há uns poucos dias, a generosidade do António presenteou-me com um caderno, “Memória Artesanal”, que veio dos anos da primeira idade adulta, escrito com uma caneta de tinta dourada, mais perto do abstrato da luz do que da matéria de cor corada que no Livro da Luz chega a tocar e não raro faz canto. Mas a memória surpreende na realidade e em “memória artesanal” encontrei já pedaços de versões do livro, com certo estrondo, medita e se dilata, mnemónicas, “uterina sábia colmeia tímpano anatomia prima”. São de mil plateias os degraus que dimanam do livro, os livros que a ele emanam. No meu, um brinde extra-texto, papel vegetal numerado, desdobrando-se da colagem, caneta preta, cópia em castelhano, calígrafo e palavras em esferográfica no verso da foto de Ramana Maharshi. Googlo e traduzo. “Nascido em 1879, no seio de uma família brâmane falante de Tamil, Ramana Maharshi parte em 1896, aos dezasseis anos e após a morte do pai, numa longa viagem e experiência de se acordar (self-awakening) para a montanha sagrada de Arunachala, onde permaneceu no cultivo do desapego além de todos os limites até à sua morte, em 1950. Sentar-se um tempo na sua santa presença era submergir na paz total. A forma mais pura do seu ensinamento era o poderoso silêncio que da sua presença irradiava, aplacando todos os espíritos que com ele se sintonizavam. Aquiescia no ensinamento verbal somente para benefício daqueles que não podiam compreender o seu silêncio.” Pessoalmente, sentar-me na presença do António é acolher o silêncio, mas sentar-me na presença das suas folhas, pranchas do traço e do risco que se iluminam, é acolher também todos os mil e mil ensinamentos, ensinamentos que se podem procurar através de bites de Google, mas que eu chego a crer também que de profecias tratam, não só verbais como visuais, vocais, tácteis. É possível que se encaminhem para o silêncio e para a brancura, mas para mim tendo a ver mais do que o branco que absorve todo o palimpsesto. Sinestesia multimediática, é uma luz de muito coração e muita cor. Se o António quisesse riscar a branco se calhar tinha usado líquido corretor. Mas eu pelo menos não creio que haja aqui outro apagamento senão o de si, a iluminura é africana e no poema entra-se a vermelho, letras coradas que só substituem na medida em que adicionam: “trouxeram-me aquela que soma e cora (….) / trouxeram-me aquela que soma o nada / derramá-lo-ás estima / ó conciliante.” Ou seja, com tudo isto o que eu quero dizer, é que, não necessariamente em paz com a história, mas já acima e contrariando qualquer asfixia ou saturação ou obsolescência ou sentimento rasteiro de crise e esgotamento que não pode fazer mais do que esta moinha em que vivemos, e que nos desgasta sempre muito mais do que a tentamos desgastar, este livro (humildemente entrado, lembre-se, na segunda fase de poeta, a de profeta) não tem pejo de tudo absorver e se encher, para que tudo se solte e abra, e se apresente novo, com uma graça afinal não tão difícil neste Solstício. E com tudo isto, também, não falei da voz, e de este livro ser para ser ouvido, sobretudo pelo Poppe, que sabe de cor e de cora as suas versões passadas e saberá as versões futuras, consoante se lhe apresentam. Palavras coradas. Obrigada e força, António Poppe.
Margarida Vale de Gato»

[Texto lido na apresentação de Livro da Luz, de António Poppe (Edições Documenta), a 21 de Dezembro de 2012]

Maravilhas da paternidade

Ontem, os jardins da Gulbenkian abriram-se a “Um Plácido Domingo” de experimentação musical. No meio de dezenas de outras crianças (e respectivos progenitores), a Alice e o Pedro andaram de mapa na mão à procura das surpresas.
Ei-los no Paúl dos Tambores Cantantes:

No Campo das Flores Sonívoras:

E por fim no Pomar dos Gamelões (já com alguns sinais de impaciência do mais novo):

O ‘caso João Bonifácio’ segundo Pedro Mexia

O meu amigo Pedro Mexia pediu espaço, aqui no Bibliotecário de Babel, para dizer o que pensa da recente polémica que envolveu o crítico musical João Bonifácio e, sobretudo, para explicar como se posiciona perante a resposta que a essa polémica foi dada pela direcção do jornal Público. Vindo o pedido de quem vem, nem hesitei na resposta. Aproveito para dizer que subscrevo, palavra por palavra, o texto que se segue:

João Bonifácio escreveu no Público uma crítica sobre o concerto dos Killers no Restelo. O texto online suscitou grande número de comentários (mais de duzentos, da última vez que abri a página), quase todos escandalizados, muitos deles insultuosos. Os fãs dos Killers não admitiam a opinião negativa. E o Belenenses protestou oficialmente por causa de uma suposta ofensa ao clube.
Toda a gente é livre de se sentir ofendida e de protestar. Mas qualquer pessoa não excessivamente fanatizada percebe que João Bonifácio fez uma piada sobre os adeptos de um clube e escreveu uma crítica a um concerto de uma banda. Um texto discutível, felizmente, mas um texto normal.
Infelizmente, o
Público (que é o jornal onde eu escrevo), em editorial, pediu desculpa ao Belenenses. Pela mesma lógica, podia também ter pedido desculpa aos fãs dos Killers. E aqui é que se começa a desenhar um precedente preocupante.
A crítica implica liberdade em matéria opinativa. Um jornal não tem que concordar com as opiniões dos seus críticos, mas quando as publica tem que as proteger, excepto quando ultrapassam determinados limites legais ou éticos. Não foi o caso, pelo que não se percebe o excesso de zelo.
Seria muito mau sinal se as direcções dos jornais orientassem a sua política editorial pelos protestos. Seria péssimo se as direcções dos jornais orientassem a sua política editorial pelos insultos.

Pedro Mexia

Mais uma micronarrativa de Fernando Venâncio

EXÓTICO

O miúdo nasceu assim pró claro. Muito clarinho mesmo. «Foi feito de dia, tá visto», dizia a melhor amiga, agitando braceletes, descontraindo a enfermaria.
A mãe só produzia sorrisos amarelos. Sim, que diria o esbelto negro quando, passado um mês, regressasse do mar? «Não penses nisso, pazinha», insistia a rotunda amiga, avessa a inquietações.
E o facto é que o marujo nunca voltou. Tomou-se de amores exóticos. Mas ah, tão tão práticos em certas alturas!

Fernando Venâncio

Holden Caulfield a salvo da velhice

Luís M. Faria esteve atento à defesa que J. D. Salinger fez da sua obra mais conhecida (posta em causa por uma sequela manhosa, escrita por um escritor oportunista) e ofereceu ao Bibliotecário de Babel a sua visão da polémica literária deste Verão nos EUA:

HOLDEN CAULFIELD A SALVO DA VELHICE

Salinger é um escritor que não gosta de abusos. Há uns anos, um biógrafo de renome quis fazer um livro sobre ele e tramou-se. Salinger processou, e deu-lhe tanto trabalho que a carreira do homem nunca mais recuperou. Em tempos mais recentes, uma antiga amante e uma filha também escreveram livros sobre o autor de «Catcher in the Rye», para grande indignação dele. Outra coisa que o irrita são fotografias não-autorizadas, e houve algumas ao longo dos anos. Mas agora aconteceu uma afronta diferente. Alguém publicou um romance que se pretendia uma homenagem, mas foi tratado como uma sequela – logo, uma obra derivada, logo proibida por lei. O atrevido, que escrevia com o óbvio e absurdo pseudónimo de J. D. Califórnia, era na realidade Fredrik Colting, um jovem sueco. O seu livro, «60 Years Later», segue um personagem de 76 anos a partir do momento em que ele foge do hospital mental onde se encontra internado. Os paralelos com Holden Caulfield, protagonista de «Catcher», são mais que evidentes. Não apenas ao nível da narrativa – Caulfield também deambula por Nova Iorque durante uns dias; no seu caso, após escapar do colégio interno – como ao nível da linguagem. Isso mesmo assinalou o tribunal, que acaba de proibir a publicação da obra nos EUA. Expressões características de Caulfield, tais como «crumby», «lousy»,«bastard» e «kills me», abundam no romance de Colting. Os personagens principais também são os mesmos. O texto de modo algum pode ser considerado um mero exercício de crítica ou paródia, como alega a defesa. Salinger, que não publica um texto original desde os anos 60, é conhecido por proteger ciosamente a sua obra, jamais autorizando adaptações, sequelas, ou quaisquer outras formas de utilização. Colting confessa-se chocado, dizendo que nunca pensou que a América impedisse a publicação de uma obra literária. Mas para Salinger a questão afigura-se simples: «É um roubo.» Quanto aos leitores, se tiverem uma palavra a dizer, é de crer que prefiram limitar-se à versão juvenil de Holden Caulfield. Um dia, daqui a 70 ou 80 anos, ele será tão utilizável, modificável e bastardável como, digamos, o sr. Pickwick ou o Quixote. Até lá, graças ao seu autor, mantém a pureza. Ainda bem.
Luís M. Faria

Mais uma micronarrativa de Fernando Venâncio

A matrícula

De repente, aquela ideia. Melhor dito, aquela formulação. Essa, que lhe vinha sempre à mente, para sempre de novo se esfumar.
Caminhando, segurando a pasta, procurou nervoso a esferográfica, mais o blocozinho, que nunca largava. Ainda teve que bordejar um carro ali estacionado, até meteu um sapato na lama. Mas tudo preferível a fugir-lhe de novo a ideia, melhor dito, a formulação.
Parou na beirinha do passeio. Prudentemente, escreveu logo duas palavras centrais da coisa. E passou, absorto, o olhar em volta.
Foi quando recebeu a primeira bala no estômago. Apercebeu-se de que aquilo viera do carro, parado a metros. Olhou em pânico, viu ali um movimento e logo veio o segundo aguilhão, um tudo-nada mais abaixo. Fechou os olhos, largou a pasta, a esferográfica, o blocozinho, e sentiu-se tombando, tombando…
Não chegou a perceber aquela estupidez de pôr-se a anotar uma matrícula de mafiosos.
Fernando Venâncio

Bouquet de estrelas para Arménio Vieira, dito conde, rei à nossa maneira [por um compatriota, longe da pátria]

Mais do que justa é a atribuição do prémio Camões ao poeta Arménio Vieira, senhor duma obra sólida, ainda que escassa. Em meio às pressões identitárias e à vociferação tribunícia, que tempos e circunstâncias impuseram a outros menos radicais na assumpção da condição criadora, Arménio Vieira soube abrir-se à universalidade estética e pensante, sem no entanto deixar de reflectir nas suas obras as atribulações existenciais e as particularidades antropológicas do ser-se caboverdiano.
Embora se possa tomar este prémio como uma reparação devida, ainda que tardia, à literatura caboverdiana, ele é, indubitavelmente, o coroar da obra daquele que dentre nós encarnava por excelência a figura e condição de poeta, e não nobilita, por atacado, toda a produção literária do arquipélago.
Talvez a pátria suspirasse por outros mais conformes aos ditames e cânones da monocultura identitária, a esses que de tanto fincar os pés perderam de vista o horizonte longínquo, como postula um dos meus grandes mestres, o irlandês Seamus Heaney, neste verso, minha divisa e meu lema: «vai para além da segurança do que te é conhecido».
A ele, condor de largo voo, inolvidável coveiro da literatura gastronómica, nobre oficiante das horas salerosas do Cachito e Café Sofia, impoluto cobridor das fêmeas tresmalhadas, a ele nunca lhe foi horizonte o arrazoado folclórico-etnológico, mas o irredutível humano condensado na totalidade dos signos, onde a articulação entre reflexão e sentimento, aliada à discreta inteligência metapoética, são a afirmação extrema do que ainda nos sustém e poderemos chamar, no desconforto de um tempo de imundície terror e morte, beleza.
José Luiz Tavares

Uma micronarrativa de Fernando Venâncio

Recebi-a por e-mail. «É homenagem, pois claro», diz o nosso homem em Amsterdão.

Ódio

Escrito no espaço branco da página 84 de «Efeito Borboleta» do Zé Mário Silva.

Está no meio dum parking, ao sol, um parking imenso. Ali especado, tentando divisar o pronto-socorro.
Haviam bastado vinte, vinte estúpidos minutos. Para comprar aquela pasta de dentes que só ali há. Logo a um sábado, a uma hora destas. Esquecera os máximos acesos. E a bateria foi à vida.
Aguarda já bem hora e meia. À sua frente, atrás, por todos os lados, há carros que aparcam, carros que arrancam, passam, piscam luzes, educadamente buzinam.
E ele sente ódio, um ódio de que se envergonha mas não consegue calar, por aqueles paspalhos que têm um carro que anda.
Fernando Venâncio

Importa-se que o leve?

Do Luís M. Faria, jornalista do Expresso e companheiro de estrada (no famoso eixo Lisboa-Laveiras), recebi este texto itálico, à boa maneira do antigo BdE, sobre o fenómeno dos «livros humanos» (já referido aqui):

IMPORTA-SE QUE O LEVE?
Em tempos remotos, um escritor chamado Graham Greene (ou Graham Green, na versão canónica do Diário de Notícias) publicou um livro intitulado May I Borrow Your Husband? A ideia de emprestar gente tem precedentes ilustres e aplicações bastante diversas. Uma das versões mais recentes, criada nos países nórdicos e actualmente a espalhar-se com apoio oficial, visa combater fenómenos de discriminação. A ideia é que pessoas representativas de categorias mal aceites ou compreendidas na sociedade – muçulmanos, homossexuais, toxicodependentes, etc – se disponibilizem para contar as suas experiências a quem os quiser requisitar. Aceite o pedido, o requisitante tem direito a meia-hora de conversa, podendo fazer as perguntas relevantes que entender. Meia-hora dá para esclarecer muitas dúvidas e alterar o nível da compreensão humana. Imagina-se que as obrigações habituais – devolver em bom estado, não utilizar o objecto para fins que não os autorizados, não fazer cópias, etc – se apliquem plenamente. Utilizações do tipo que Greene teria em mente não constam do regulamento. Mas falando a sério, parece uma forma ideal de permitir a qualquer pessoa acesso fácil ao maior capital sub-utilizado das sociedades modernas: a experiência alheia. Outro dia, num programa da BBC, o homem que organizou um grupo desses na Grã-Bretanha contava o sucesso que tem sido. Como antigo jovem delinquente, ele próprio já foi requisitado umas quantas vezes por pais preocupados, e não só.
Luís Faria

Sobre a universalidade da literatura

Na nona mesa das Correntes d’Escritas, a Margarida Vale de Gato, uma das organizadoras do colóquio sobre Edgar Allan Poe que daqui a nada começa na Faculdade de Letras de Lisboa (ver post anterior), leu o seguinte texto, que em minha opinião merece, depois daquela passagem efémera pelo Auditório Municipal da Póvoa do Varzim, uma segunda vida:

«1. A universalidade da literatura e a originalidade da escrita

A universalidade da literatura é uma ideia bonita, especialmente para quem a ela se dedica, já que todos nós gostamos de pensar que o que fazemos é importante, e até mais do que isso, essencial. Gostamos de pensar que a necessidade da literatura faz parte: 1) duma necessidade do homem e da mulher se exprimirem artisticamente desde o princípio dos tempos; 2) duma necessidade de configurar através da palavra explicações para o mundo e para a identidade. Daí que uma das evidências que se pode apresentar para a universalidade da literatura seja a sua base quer num número restrito de temas comuns (o amor, a morte, a guerra, a loucura, o medo da loucura) quer mesmo num número possivelmente quantificável de enredos que nos vêm desde os mitos, os quais sabemos, tais como os contos tradicionais, repetirem-se em culturas separadas por grandes distâncias quer geográficas quer temporais.
A isto, porém, pode contrapor-se que a literatura – o que torna um texto literário – não é propriamente isso. Um enredo não faz necessariamente uma obra literária e os temas comuns (amor, morte, guerra, loucura) podem ser expressos de outras formas que não literárias. Nem sequer é a linguagem que faz a literatura. Como dizia ontem Santiago Gamboa: “nós, os escritores, não representamos adequadamente a humanidade; nem a realidade nem a linguagem na sua origem são literárias.”
Muitos defendem que literatura não é o que é dito, mas o modo como é dito. E aí surge a questão do estilo, de onde advém a necessidade de originalidade – que não convive confortavelmente com a universalidade. Se o universal é o comum, e nós acreditarmos no título de uma outra mesa aqui das Correntes, “é literatura tudo o que não é evidente” – portanto, justamente, o único, o original, o marginal –, em que ficamos?
Não creio que a universalidade da literatura seja uma existência, mas antes uma aspiração. A universalidade da literatura só pode fazer sentido como utopia que mova o escritor. E se pensarmos assim, pode dizer-se que pode ser ambição do escritor o inscrever-se na humanidade, o dar o seu contributo único, individual – subversivo, original – para tornar o universal mais amplo.
Um escritor tem um material, a linguagem, com uma série de convenções e aplicações com possibilidades ilimitadas da comunicação. Para mim, é na função comunicativa da linguagem que reside o seu potencial universal; mas o escritor vai buscar esse potencial para nele fazer preferencialmente outra coisa: expressar arte, expressar-se a si. Assim, voltamos ao conflito: o escritor poderá idealmente querer comunicar universalmente, mas antes de tudo quererá, penso, expressar-se individualmente, num registo de diferença, porque acha que tem coisas a dizer ao mundo, ou sobre o mundo, que o mundo ainda não previu nem incluiu.

2. A Tradução como o vento das escritas

Eu, que sou tendencialmente de ideias fixas, e que desde pequena meti na cabeça que queria viver a escrever, curiosamente, partindo dum amor à literatura fui desembocando cada vez mais – primeiro por um percurso pessoal (passando a adolescência nos Estados Unidos, conheci o trânsito linguístico) e depois profissional (até agora ainda só consegui viver da escrita como tradutora) – naquilo que na literatura se pode comunicar. Como tradutora, estou bem melhor com a universalidade da literatura, visto que contribuo para que se liberte da sua ancoragem mais nativa por contraposição às outras artes (música, pintura, fotografia), no esforço de superação das suas contingências, primeiro linguísticas, mas também culturais, espaciais e temporais. Porque um tradutor não só atravessa línguas, o tradutor atravessa também contextos, espaços, tempos. Nesse sentido, uma metáfora que lhe serve pode ser retirada da primeira parte do título desta mesa: o vento.
Várias imagens bíblicas – possivelmente outros tantos mitos desses que dizemos serem universais – servem a tradução. O mais conhecido será o da Torre de Babel, de que um dos meus teóricos preferidos sobre o tema, George Steiner, nos fala, e que serviu também ao grande tradutor português João Barrento para expor as suas ideias sobre tradução, O Poço de Babel. Saber se foi vingança ou ardil de Deus condenar os homens a falar diferentes línguas, por ousarem pretender que um monumento chegasse à sua altura, é ainda uma questão em aberto. Em conversa com Ana Luísa Amaral, com quem tive a honra também de aprender muito neste encontro – e com cujos livros tenho aprendido muito ao longo da vida – ela falava-me no mistério, também bíblico, da Visitação. A ideia da visitação é muito cara a uma concepção romântica da poesia, e na tradução aplica-se muitas vezes a um estado de possessão do tradutor pelo mesmo espírito que animou o autor. É, também, uma bela imagem, mas para mim, não é ainda a que me serve em tradução, porque em tradução, mais do que me imaginar em comunhão com um autor, eu considero-me em trânsito entre este e o leitor. Defendo o tradutor como alguém que deve ter a humildade e a gratidão de ser um veículo. Daí que a metáfora bíblica mais recorrente no meu imaginário de tradução seja a do Espírito Santo, o sopro ou o vento do Deus. Também gosto, confesso, do Espírito Santo que se divide em línguas de fogo na Ceia de Pentecostes e manda os apóstolos para fazerem entender a palavra divina pelos homens de todas as terras e idiomas. Sendo uma imagem de graça e iluminação, o Espírito Santo não revela a Verdade, não é uma visitação que invista o visado dum conhecimento especial que lhe permita chegar à Fonte, antes dá o meio pelo qual Deus se faz Homem; na Catequese explicavam-me que o Espírito Santo era o amor entre o Pai e o Filho, e também o Amor que levou o Pai a fazer-se Filho para viver e ser frágil ao ponto de morrer com os Homens. Para mim, a tradução é essa versão comunicável da graça, essa versão que toma um determinado corpo para chegar ao Outro.
Não me empenho especialmente em defender o tradutor como um autor, sequer como co-autor, nem tampouco, por mais lisonjeador que isso possa ser, como criador. Claro que o tradutor também cria, ou sobretudo recria. É, todavia, um criador secundário, e deve depender sempre do que foi gerado pelo autor. Habituei-me a pensar no autor como criador de universos e no tradutor como seu satélite; cada vez penso mais nesse satélite como uma sonda, um vaivém espacial, que reporta as constelações, as crateras e os mares do autor aos homens cá na terra – mais propriamente, recorrendo ao título duma mesa de ontem, cá no bairro, cá na rua. Ao tradutor aplica-se certamente o lema de pensar globalmente e agir localmente, quando ele actualiza um texto – por exemplo, uma das obras ditas universais da literatura – para o público da sua língua, da sua época, e aí ele é mais um executor do que um criador. E, no entanto, se não fosse essa tarefa, às vezes tão circunscrita (um tradutor de uma peça de teatro, por exemplo, que trabalha com encenadores e actores pensando num público-alvo específico), os clássicos, esses tais universais da literatura, não perdurariam enquanto universais. Daí que numa formulação feliz, Walter Benjamin, no seu ensaio precisamente intitulado “A tarefa do tradutor”, fale da tradução como uma “sobre-vida”, garantindo a sobrevivência do texto e insuflando-o de novas vidas. No entanto, sobre este ensaio, devo acrescentar que é para mim um texto conflituoso, precisamente porque Benjamin está, acho eu, muito preso a uma ideia de comunhão entre autor e tradutor que lhes permita recuperar uma espécie de linguagem pura. Tal como a ideia de universalidade de literatura, também acho bonito o pensamento de Benjamin, mas não me serve. A tradução, do meu ponto de vista, existe também para se sujar e promiscuir com o leitor. Para mim, e pegando na oposição que antes delineei entre a ambição de uma comunicação universal e a expressão artística original, a diferença entre tradução e literatura é que a literatura, se quiser, pode desprezar a função comunicativa da linguagem e ater-se apenas à sua função expressiva até chegar a uma poeticidade em que a palavra se torna independente duma necessidade de mensagem. Mas a tradução não pode descurar a função comunicativa da linguagem, nem a procura duma mensagem, por mais que o autor não a tenha lá posto. Afinal, se um tradutor é um mensageiro, como pode haver um mensageiro sem mensagem?
Mas se dissemos antes que a literatura não se faz nem da mensagem, nem da linguagem, a tradução corre o risco de passar ao lado da literatura. Pois corre. Robert Frost disse numa frase lapidar e cruel: “a poesia é o que se perde em tradução”. Todo o meu esforço de tradutora, a bem dizer, é contrariar isto. Eu quero meter a poesia nas minhas traduções. Quero que elas carreguem o que está lá de investimento incomum dum determinado autor (seja de sonoridade, de construção frásica, ou de metáforas como nós na garganta), mas também me sinto grata por meter nelas um esforço de trazer para o outro, fazer chegar ao outro – que pode não estar, que não tem de estar, nas intenções dum autor. Para mim, a maneira como a tradução pode contribuir para a universalidade da literatura não tem a ver com uma inscrição na posteridade tal como a conceberá um autor que se proponha escrever uma obra-prima universal. Tem a ver com um compromisso aqui e agora, com, mais do que criar novas condições de possibilidade (isso é tarefa dos autores), transmitir o mais possível nas condições possíveis.
Uma vez que sou, porém, uma criatura contraditória, e porque tenho por outro lado as minhas ambições de escrita pessoais, resolvi que não ia deixar passar este momento em que também posso fingir que vim ao Correntes d’Escritas por ser um bocadinho escritora, sem apresentar um pedaço de poesia da minha autoria. E até trouxe um que vem bastante a propósito. Primeiro, porque foi feito num encontro com algumas semelhanças com este, embora mal “acomparadas” em benefício deste. Ou seja, não era de escritores maduros como aqueles com quem tenho o prazer de estar hoje, era entre chamados “jovens criadores”. No entanto, tal como neste, trazia a oportunidade dum convívio de boas conversas e boas bebidas no lounge do hotel onde estávamos hospedados, e onde, sendo internacional, se podiam justamente discutir questões como “será que alguém vai perceber o que há de verdadeiramente literário na minha obra passando isto para uma língua franca, ou universal, como o inglês?” Segundo, e relacionado com isto, porque foi pensado também como resposta à tal citação de Robert Frost de que “a poesia é o que se perde na tradução”. Chama-se “Hotel Lounge”, e nele o lounge surgiu-me também como imagem de tradução.

Hotel Lounge

Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se tresmalham
incandescentes queimam os ouvidos
internarmente eu lamento discordar
mas sendo a poesia o que perde
a tradução
haverá então coisas mais importantes
para guardar e eu não vejo
forma outra de sair deste ruído
senão um esforço extremo distendido
no transporte de chegarmos.

Eu lamento discordar
mas para mim são alvos desiguais
ter em vista o chegarmos a outrém
ou escudarmos a perda que se arrisca.

E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão, rondamos,
estrangeiros num abrigo, as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros,
será jamais possível emalhar nossas
línguas sem que o verso seja lenocínio?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram ou
pode haver uma outra via de sair
a via em que mudamos ao falar
quando folgamos
o freio do orgulho de ser único?

Embaraça-me, de resto, discordar
dum tão distinto parecer,
e quero mesmo assim agradecer
as lenitivas vias de acedermos
ao encontro provisório ou comunhão
aturdida no terreno transitório
de um lounge no hotel.

Margarida Vale de Gato»

Uma “história curta (e exemplar)”

Praticante ocasional da micronarrativa, Fernando Venâncio enviou-nos esta miniatura:

Susto

A bebé era linda de morrer. E tão inocente, tão pura! Os pais chamaram-na Flora. Havia lá nome mais merecido?
Quando, semanas depois, a Flora da novela se revelou a vilã, os pais correram, transtornados, ao registo.
Fastidiosas burocracias se seguiram, e algum doce suborno. Mas hoje, num alívio, olham embevecidos, no berço, os bracinhos roliços da Donatela.
Fernando Venâncio

‘Não sejamos fortes…’

Em memória de José Manuel Rodrigues da Silva, Margarida Ferra confiou-nos o seguinte texto:

“São ínvios os caminhos do Senhor.” É a frase que me lembro mais de lhe ouvir. Deixou-a escrita n’O Mau Tempo no Canal, que me ofereceu quando fiz 23 anos. Quando lhe disse pela primeira vez o meu nome pareceu-lhe que me chamava Margarida Terra, avó e sósia de Margarida Clark Dulmo, segundo a longuíssima tábua de personagens do livro que nunca cheguei a acabar, até hoje à espera de uma viagem ao grupo central dos Açores. Ínvios os caminhos que o trouxeram à nossa turma, professor-substituto da disciplina de Iniciação ao Jornalismo, no terceiro período do ano lectivo de 1992-1993. (Do terceiro andar, debruçado sobre o corrimão, chamou aos gritos a turma alvoroçada no rés-do-chão. Depois, explicou-nos que não havia sebenta, não havia caderno diário, não havia faltas, a quem quisesse não ir às aulas bastava escrever o número no quadro, as notas eram de dez a vinte, os testes eram feitos em casa.) Menos ínvios os atalhos que me levaram a um encontro no S. Jorge, seguido de um café na Rua de S. José, uma longa conversa sobre os caminhos esperados e os percorridos, que me abriu depois a porta à colaboração no JL. (E agora fazes o favor de me tratares por tu que não admito de outra maneira na mesma redacção.)
“Não sejamos fortes, quando a honra é ser fraco”, da Fanny Owen da Agustina, Francisca do Oliveira, o Zé Manel tinha este tom certeiro para servir frases que parecia coleccionar com elegância e usar na medida justa. Podia ouvi-lo, ainda, se passasse pelos corredores do D. Pedro V, se lhe telefonasse bem tarde (oito postais, pelo menos, que dizem: “liga-me noite alta para combinarmos um encontro“). Uma pessoa de rastos, coração destroçado, a vida toda a desmembrar-se, e o Zé Manel lá, do outro lado do fio, na caixa de correio com um pouco mais de insistência, mais postais naquela semana, “não sejamos fortes…“.
De todas as frases que usou para se explicar melhor, aquela de que mais gostei era do Vivre Sa Vie, “A felicidade não é alegre”. Depois de a dizer escreveu no quadro Jean-luc Godard (a caligrafia quase indecifrável, o modo como desenhava a letra l, minúscula, caixa baixa). E nas cartas. Em pelo menos uma das cartas, A felicidade não é alegre, as letras da máquina a saltarem ligeiramente da folha de ponto que usava para a correspondência privada, mais tarde foram impressas em papel branco, normal, depois enviadas por email, e outras formas por que soube chegar a nós nos últimos anos. Mesmo havendo o JL, os livros, os textos, a escrita do Zé Manel terá sempre esta mancha, a folha de ponto dobrada ao meio, e mais umas vezes para caber no envelope, às vezes o próximo texto sobre Cinema a ilustrar uma ideia (no cabeçalho: R. da S., JL número xyz, para Cinema; era preciso imprimir a versão final, sair do número 202 da Avenida, ir à Gráfica, na Rodrigues Sampaio, entregar o texto em papel e numa disquete, fazer todo o caminho de volta).
A felicidade não é alegre serve-me sempre, assentava-me como uma luva nos nossos encontros, noite alta alguns deles, lá em casa, no Galeto, ou à tarde, num café da Almirante Reis, como da última vez em que nos vimos. Tenho um postal em minha casa, ainda hoje à espera de selo: Adorei o nosso encontro de ontem, com a durée dos do D. Pedro V. Obrigada pelos textos. Não seguirá.
Margarida Ferra

O Mau Leitor

O mau leitor começa a ler um conto intitulado O mau leitor e julga, a príncipio, tratar-se da história de uma personagem fictícia chamada “o mau leitor”. Só depois da primeira frase é que o mau leitor se apercebe que o conto talvez esteja dirigido simplesmente ao leitor que, agora mesmo, lê estas palavras. De que forma pode um leitor ser considerado mau? Antes, que leitor não é por vezes um mau leitor?
O mau leitor consegue lembrar-se de pelo menos um exemplo de ter sido mau, de ter visto “É uma hora” quando, na realidade, a frase dizia “É uma nora”. O mau leitor recorda-se de não ter apanhado aquela pista que todos parecem ter descoberto na história policial. Ou talvez o mau leitor não se recorde de nenhuma ocorrência de má leitura, sendo que, nesse caso, o leitor tem memória fraca ou uma imaginação pobre. Há mais do que uma forma de se ser mau leitor.
Nesta altura da história, o mau leitor começa a ofender-se com o escritor. Decerto haverá algum princípio da escrita que este conto viola. Um escritor que insulta o seu leitor só pode ser parvo. Os leitores não querem insultos. Um mau leitor, um que não seja suficientemente astuto para detectar o objectivo da história, é capaz de se enervar bastante ao ser insultado. O mau leitor é capaz de achar que um conto intitulado O mau leitor não é nada um conto, mas um acto de vingança. O mau leitor é capaz de achar que o preguiçoso do escritor o ataca em vez de se dar ao trabalho de escrever um conto a sério.
Na realidade, é igualmente provável que o leitor ache muita graça ao texto. Eis a que ponto é mau este leitor. Eis a que ponto pode ao mau leitor escapar o sentido da coisa.
Perto do final, o mau leitor chega a uma frase animadora: “O mau leitor lê na divisão mais pequena da casa.”
Ora, quem não lê na divisão mais pequena da casa? Mas o mau leitor pensa, Não sou o mau leitor descrito no conto. Também leio noutras divisões!
O mau leitor experimenta uma sensação de tranquilidade. Uma sensação enganadora.
O mau leitor, tendo terminado a leitura do conto, não voltará a pensar nele. Ou, pior, continuará a pensar no conto sem lhe discernir o verdadeiro e subtil significado.

© Bruce Holland Rogers (texto)
© Luís Rodrigues (tradução)

The Bad Reader

The bad reader begins to read a story called “The Bad Reader” and thinks at first that the story will be about a fictional character called “the bad reader.” Only after the first sentence does the bad reader consider that the story may actually be aimed squarely at the reader who is, even now, reading these words. In what sense can the reader be considered bad? Rather, what reader is not sometimes the bad reader?
The bad reader can think of at least one example of having been bad, of having seen “It was hot Tuesday” when the sentence actually read “It was not Tuesday.” The bad reader remembers having missed the clue that everyone else seems to have detected in the detective story. Or perhaps the bad reader can think of no instances of bad reading, in which case the reader has a poor memory or a weak imagination. There is more than one way to be a bad reader.
At this point in the story, the bad reader begins to resent the writer. Surely there is some principle of writing that this story violates. A writer who insults the reader must be a fool. Insults are not what readers want. A bad reader, one who isn’t smart enough to detect the purpose of the story, might get quite worked up about being insulted. The bad reader might feel that the story called “The Bad Reader” is not a story at all but an act of revenge. The bad reader might think that the lazy writer is attacking the reader instead of doing the hard work of writing a real story.
Actually, the bad reader is just as likely to think that the story is clever. That’s how bad the bad reader is. That’s how badly the bad reader can miss the point.
Near the end, the bad reader comes to a reassuring sentence: “The bad reader reads in the smallest room of the house.” Well, who does not read in the smallest room of the house? But the bad reader thinks, I am not the bad reader portrayed in this story. I read in other rooms as well!
The bad reader feels a sense of assurance. A false sense.
The bad reader, having finished reading the story, will not give it another thought. Or, worse, will keep thinking about the story without teasing out its true and subtle meaning.

© Bruce Holland Rogers

Uma micronarrativa (ou história-para-ler-em-três-segundos) de Fernando Venâncio

Sorte

Ele corria, desde pequeno, atrás da sorte. E a sorte, sabe-se, corre atrás dos meninos-prodígio. Nunca se encontraram.

O lado bom do Acordo

O Acordo Ortográfico de 1990, o tal que aí vem, é uma medida incoerente, oportunista, irresponsável, desnecessária. Os quase 100.000 portugueses que já assinaram um protesto na Net mostram como não é fácil enganar um povo. Simplesmente, o PR não deu ouvidos ao intenso clamor, e o Acordo lá passou. E agora? Choros convulsivos? Uma maciça desobediência civil? Qual! O Acordo contém, por nítida desatenção, um lado espantosamente saudável. Ora vejamos.
Até hoje, o grande critério para a ortografia do português era a etimologia. Escreve-se assim porque a forma original era esta ou aquela. Um segundo critério, menos produtivo, mas não menos eficaz, era a tradição. Escreve-se assim porque já o nosso bisavô o fazia. Estes critérios eram sacrossantos e produziram uma ortografia de desnortear os mais sisudos. Vamos ao dicionário ver onde está o ‘z’ em “vazar” e “extravasar”, ou o ‘u’ em “coscuvilhar” e “burburinho”. Inútil indignar-nos. A ortografia nunca perseguiu a fiel reprodução da fala. Quando calhava, óptimo. Quando não calhava, óptimo na mesma.
Mas o Acordo traz novidade, e das graúdas. Ponhamos por caso “amnistia”, “amnistiar”, “amnistiável”. Assim dizemos e escrevemos nós. Um brasileiro diz e escreve “anistia”, “anistiar”, “anistiável”. A leitura destas realidades foi sempre dúplice. Havia a imarcescível latinidade portuguesa, havia a natural evolução ultramarina. Altas justificações para a crueza dos factos. O mesmo valia para os nossos “subtil”, “súbdito”, “contactar”, “intacto”, etc., e para os brasílicos “sutil”, “súdito”, “contatar”, “intato”. Era a evolução.
O Acordo deixou-se de impressionismos. Muito pós-moderno, ele declarou tais diferenças um reflexo da prolação das elites. Ou mais chãmente: a reprodução das várias “pronúncias cultas locais”.
Mas espera lá: não vinha o mirífico Acordo unificar a escrita da ‘Lusofonia’? Claro. E bem tentou. Só que, no contorcionismo para uniformizar o impossível, rebentaram-lhe as costuras do outro lado. Isto é: o Brasil, cansado de ser ‘evolução’ dos usos portugueses, fez proclamar a igualdade das “pronúncias locais”, reconhecidas a partir de agora como o critério decisivo da grafia.
Isto, senhores, é simplesmente revolucionário. A ortografia deixa de ser ‘arbitrária’, ‘convencional’, para tornar-se, sem meias tintas, o reflexo duma fala efectiva. O que abre perspectivas nunca sonhadas. Podemos agora – libertos da camisa-de-forças da etimologia e da tradição, finalmente donos de nós próprios – dar ao nosso português uma escrita adequada e pedagógica.
Não era essa a intenção? É esse o precioso resultado.

Fernando Venâncio

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges