Tudo é literatura
![]()
O Jogo do Mundo (Rayuela)
Autor: Julio Cortázar
Título original: Rayuela
Tradução: Alberto Simões
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 631
ISBN: 978-989-623-079-1
Ano de publicação: 2008
Obra-prima de Julio Cortázar, Rayuela é uma das narrativas que mais influenciaram os escritores latino-americanos da segunda metade do século XX. Que só agora seja publicada em Portugal, com 45 anos de atraso, diz bem da indiferença a que foi votada no nosso país, durante muito tempo, alguma da melhor literatura estrangeira. Saúde-se então a Cavalo de Ferro pela iniciativa de suprir esta imperdoável lacuna, ainda por cima numa magnífica tradução de Alberto Simões, que resgata quase sem mácula a força poética, o fôlego e a cadência da prosa torrencial do escritor argentino. Eis, desde já, a par de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Dom Quixote), um forte candidato a livro do ano.
O enorme impacto de Rayuela (à letra, o infantil “jogo da macaca”, desenhado no chão com giz; imagem recorrente em vários dos planos narrativos) deveu-se sobretudo ao seu experimentalismo formal. Como se diz logo de início numa “tábua de orientação”, o livro “é muitos livros”, na medida em que a ordem pela qual devem ser lidos os seus 155 capítulos depende apenas da vontade (ou dos caprichos) do leitor. Cortázar sugere duas escolhas possíveis: 1) começar no primeiro capítulo e acabar no 56, seguindo o esquema habitual, o que implica prescindir do último terço do livro; 2) ler a obra na íntegra, mas seguindo uma sequência irregular de capítulos: 73, 1, 2, 116, 3, 84, etc. Na verdade, qualquer ordem é válida (mesmo a leitura de trás para a frente), o que multiplica as abordagens possíveis a esta ficção aberta.
Dito isto, há três núcleos principais a que os fragmentos narrativos se agregam. Na primeira parte, ‘Do lado de lá’, acompanhamos a vida do argentino Horacio Oliveira em Paris, onde se apaixona por uma uruguaia (Maga), discute interminavelmente com um grupo de amigos artistas (O Clube da Serpente) e encontra, por mero acaso, o seu escritor-guru (Morelli). Na segunda parte, ‘Do lado de cá’, Horacio regressa a Buenos Aires, reencontrando um velho amigo (Traveler, que se revela uma espécie de duplo), a mulher deste (Talita, na qual projecta a memória de Maga) e uma galeria de personagens secundárias, com as quais se cruza primeiro num circo e depois num manicómio. Por fim, a terceira parte, ‘De outros lados’, compõe-se de 99 “capítulos prescindíveis”, onde cabe tudo e mais alguma coisa: citações de pensadores e poetas, notícias de jornal, notas do acervo de Morelli, pequenos ensaios, aforismos ou episódios soltos que ajudam a esclarecer certos factos e a definir traços psicológicos.
No fundo, não há nada que o livro enjeite, na sua ânsia de absorver, por exemplo, a cidade de Paris – esse novelo de “matéria infinita enrolando-se sobre si mesma”, logo transformada numa “enorme metáfora”. Como diz alguém: “Tudo é literatura, isto é, fábula.” À semelhança de Morelli, que sonha escrever uma obra “onde o micro e o macrocosmos se unissem numa visão fulminante”, assumindo o “texto desalinhado, desordenado, incongruente, minuciosamente anti-literário (mas não anti-romanesco)”, Cortázar vai contra os “hábitos mentais” e rebenta com as fórmulas clássicas de contar uma história, consciente de que é preciso “desescrever” e “incendiar a linguagem”, para a libertar. Algo que só se consegue com a cumplicidade do leitor, arrancado à força da sua tradicional atitude passiva.
Mesmo quando arrisca mais, ao narrar uma cena erótica com palavras inventadas (o “gíglico”, dialecto dos amantes) ou ao fundir dois textos num só (em linhas alternadas), Rayuela nunca soçobra na mera pirotecnia, no virtuosismo estéril. Romance de ideias (não apenas literárias), muitas das suas reflexões mantêm uma impressionante actualidade e algumas delas anteciparam mesmo agitações futuras. Como quando Cortázar questiona, cinco anos antes do Maio de 68: “E o que é que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, deixar-se cair em si mesmo com uma tal violência que a queda acabasse nos braços do outro.”
Avaliação: 10/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Canto do cisne
Campo Santo
Autor: W. G. Sebald
Título original: Campo Santo
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-695-748-5
Ano de publicação: 2008
Publicado em 2003, quase dois anos após a morte de W. G. Sebald num acidente rodoviário em Norwich (Reino Unido), onde leccionava há mais de três décadas, Campo Santo é um volume que deixará nos admiradores do escritor alemão um travo de melancolia. Isto porque os textos nele reunidos, por muito que reflictam as suas obsessões e o seu estilo singular – feito de subtis questionamentos, sínteses poderosas e derivas tanto geográficas como mentais –, não deixam de ser uma espécie de canto do cisne, o derradeiro legado de um autor que desapareceu, aos 57 anos, no auge das suas capacidades criativas.
O livro abre com uma sequência de quatro textos, independentes uns dos outros, sobre a Córsega. Sebald tencionava inclui-los numa obra dedicada à ilha francesa, mas o projecto foi suspenso para a escrita do seu magnum opus (Austerlitz). Na primeira das “prosas”, o escritor cumpre o seu desígnio de explorador dos “abismos sem fim do passado” e deambula por Ajaccio em busca dos traços de Napoleão na cidade que o viu nascer. Não por acaso, Sebald foca-se na visita à Casa Bonaparte, em tempos descrita por Flaubert, um museu onde a grandeza extinta do Império se cristalizou, com os seus mitos e símbolos. Dos objectos mencionados pelo autor de Madame Bovary, “somente a capa imperial com abelhas douradas que ele vira reluzir no chiaroscuro já não estava lá”. O que interessa ao visitante é perceber como era Napoleão antes de ser Napoleão. Ou seja, o vislumbre da História enquanto entidade “que se move e muda de direcção no seu movimento (…) por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível”. No texto que dá título ao livro, um velho cemitério rural torna-se o palco para uma meditação sobre a decadência do culto dos mortos e os perigos de vivermos o “presente sem memória”, enquanto em Os Alpes no mar o tom é de lamento pelo abate progressivo das florestas corsas e pela “febre” da caça, reflexo da “infâmia que é a violência humana”.
A segunda parte do livro compõe-se de artigos, ensaios e discursos que abrangem um vasto arco temporal (a começar na crítica, escrita em 1975, à peça Kaspar, de Peter Handke). Além de analisar a problemática relação da literatura alemã com a destruição do país durante a II Guerra Mundial, Sebald revela-se um leitor muitíssimo atento de autores consagrados (Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin) e menos conhecidos (Peter Weiss, Jean Améry). Os melhores textos, porém, são aqueles em que evoca a sua infância em Wertach im Allgäu, nos Alpes bávaros, seja através de uma melodia de clarinete (Moments musicaux), seja através de um jogo de cartas onde as cidades em ruínas, como Estugarda, permaneciam intactas (Uma tentativa de restituição).
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
O abismo vazio

Rosa Vermelha em Quarto Escuro
Autor: Pedro Paixão
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 257
ISBN: 978-972-25-1715-7
Ano de publicação: 2008
Recém-chegado à Bertrand (após passagens pela Cotovia, Oficina do Livro, PrimeBooks e Quetzal), Pedro Paixão lançou o seu mais recente romance quase em simultâneo com a reedição do livro de estreia (A Noiva Judia, 1992). Esta coincidência, ao unir os dois extremos de uma obra com mais de 20 títulos, permite confirmar o que obras como Boa Noite (1993), Muito, meu amor (1996) ou PortoKyoto (2001) já prenunciavam: Paixão é excelente quando se dedica aos contos curtos mas torna-se um escritor sofrível sempre que envereda por narrativas mais longas.
Volta a ser o caso de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, romance palavroso no qual o leitor vai da exasperação ao aborrecimento e vice-versa. A história, se é que a podemos designar assim, está cheia de “fantasmas” que se alucinam uns aos outros e de solidões intransponíveis. Tudo girando à volta de uma nova-iorquina trancada na sua angústia, a quem acontecem coisas: a paixão mal resolvida por uma iraniana de “olhos cor de chuva”, tentativa de suicídio, um caso com o homem que a salvou in extremis, a morte do pai ou os sobressaltos que a empurram de Nova Iorque para Sintra, de Sintra para os Açores e dos Açores novamente para Nova Iorque, onde por fim uma gravidez redentora parece abrir portas ao improvável recomeço.
O resto é tão vago que escapa a qualquer resumo. A protagonista pensa muito e os seus pensamentos são o corpo do romance. O que acontece chega-nos através de um discurso analítico, capaz de dissecar, até ao osso, tudo e mais alguma coisa: uma paisagem ou as leis do amor, “o problema da escala” ou a metafísica do “destino”. E assim, nesta imponderabilidade, se vai dissolvendo um débil fio narrativo que só de vez em quando faz, quase por favor, uma ou outra concessão à verosimilhança.
Pelo meio, há leitmotivs — o primado da beleza, ecos do “romance infinito” de Proust — e alguns encontros com personagens que parecem saídas de um sonho: o traficante de ópio com uma quinta edénica; o professor de português que é poeta alcoólico depois das sete da tarde (e lhe revela Ruy Belo, Cinatti, Herberto Helder); ou o escultor judeu que escapou, cheio de culpa, ao horror do Holocausto. No entanto, até estes pontos de fuga acabam por ser devorados pela vertigem verbal da americana sem nome, que tudo absorve e sufoca num ímpeto solipsista.
A escrita de Paixão não mudou: frases curtas, fluidas, sempre à beira do aforismo ou do paradoxo. Mas se este estilo aéreo resulta muito bem em textos de cinco parágrafos, está longe de aguentar a travessia de duas centenas e meia de páginas. Seria necessário outro fôlego, outro rasgo, outra coesão. Em vez disso, na ânsia de fixar epifanias e retratos dos abismos existenciais, o texto dissipa-se numa verborreia filosofante, que tanto se coloca em bicos dos pés (alusões a Joyce e a Balthus) como se aproxima de uma espiritualidade new age, com anjos decididos a salvar a “alma” de burgueses entediados. O tédio, que “está por debaixo de tudo, antes de tudo, à espera de tudo”, é justamente o mínimo denominador comum deste livro atravessado por ideias, pessoas e palavras que “aparecem para logo desaparecerem” da nossa memória, devoradas pelo mais absoluto vazio.
Avaliação: 4/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Parábola filosófica

Uma Segunda Juventude
Autor: Mircea Eliade
Título original: Le temps d’un centenaire
Tradução: Miguel Mascarenhas
Editora: Bico de Pena
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-621-067-0
Ano de publicação: 2008
Conhecido sobretudo pelos seus estudos no campo da História das Religiões, Mircea Eliade acaba de ver editados por cá dois livros relativamente periféricos em relação ao eixo central da sua obra. Primeiro apareceu o curioso, por vezes áspero e sempre muito melancólico Diário Português [1941-1945], com chancela da Guerra & Paz, escrito no período em que o ensaísta foi adido cultural e de imprensa na embaixada romena em Lisboa. Agora surge Uma Segunda Juventude, coincidindo com a estreia do mais recente filme de Francis Ford Coppola, adaptação desta novela publicada em francês pela Gallimard, em 1981.
A história abre com uma espécie de milagre. Ao chegar a Bucareste na noite de Páscoa, decidido a suicidar-se (leva estricnina num envelope azul dentro do bolso), o professor Dominic Matei é atingido em cheio, na cabeça, por um relâmpago. Contra toda a lógica, consegue sobreviver, apesar das queimaduras teoricamente fatais, transformando-se no objecto de estudo de um médico romeno (Stàncielescu) e de um especialista francês (Gilbert Bernard). Com o passar dos dias, Matei não só recupera muito bem como começa a rejuvenescer — uma de várias impossibilidades fisiológicas que deixam abismados os clínicos (outra é o surgimento de uma nova dentição completa).
O septuagenário atingido pelo raio não aparenta agora mais de 30 anos e a progressiva perda de memória, que o levara a querer matar-se, foi substituída por uma hipermnésia — lembra-se de tudo, até de versos de Ungaretti a que não voltara desde a “primeira juventude”. Além disso, as suas faculdades mentais agigantaram-se e pode finalmente escrever o livro definitivo sobre a origem da linguagem, tratado que deixara em suspenso há várias décadas, o opus imperfectum causador de todas as suas angústias e frustrações.
Acontece isto em 1938, nas vésperas da II Guerra Mundial. A conjuntura histórica não perdoa. Para lá do interesse da comunidade médica e dos jornalistas, o estranho caso atrai a atenção dos nazis, que procuram confirmar as teses de um certo doutor Rudolf, defensor da regeneração da espécie humana através da electrocussão em grande escala. Para escapar à Gestapo, Matei altera a fisionomia, muda de identidade e exila-se em Genebra, o que não impede o confronto com toda a sorte de fenómenos fantásticos, desde epifanias com rosas a desdobramentos de personalidade (um doppelgänger que empurra para o Mal), passando por visões do “homem pós-histórico” (sobrevivente das catástrofes nucleares), arremedos de metempsicose e um desfilar de personagens inverosímeis, quase sempre mal esboçadas. Como Veronica, uma rapariga alemã na qual Matei descobre uma espécie de emanação do seu amor perdido (Laura) e que começa de repente a falar em sânscrito e sumério, durante uns bizarros “êxtases paramediúnicos”.
Parábola filosófica sobre o Tempo, Uma Segunda Juventude mergulha-nos num labirinto onírico, onde os erros se repetem e os regressos se tornam impossíveis. Infelizmente, o afã de Eliade em convocar, mesmo se de forma implícita, temas que lhe são caros (do Eterno Retorno ao xamanismo indiano) desequilibra e fragiliza uma narrativa que transborda de ideias, é certo, mas depois parece não saber o que fazer com elas.
Avaliação: 5,5/10
[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
O ouro das palavras

Comboio Nocturno para Lisboa
Autor: Pascal Mercier
Título original: Nachtzug nach Lissabon
Tradução: João Bouza da Costa
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 423
ISBN: 978-972-20-2983-4
Ano de publicação: 2008
Uma epifania em dois actos. Eis o que Raimund Gregorius, 57 anos, sólido nas suas rotinas de professor de línguas clássicas (latim, grego, hebraico) num liceu de Berna, divorciado solitário, não esperaria que lhe acontecesse. Mas acontece. E nesse dia a sua vida muda radicalmente. Primeiro acto: uma mulher na ponte de Kirchenfeld, debaixo de chuva, ameaçando o salto para o rio. É portuguesa, misteriosa, uma espécie de anjo anunciador que lhe escreve um número de telefone na testa. Segundo acto: já depois do desaparecimento da mulher angélica, a descoberta, numa livraria espanhola, de Um Ourives das Palavras – voluminho de fragmentos filosóficos editado, em 1975, por um tal Amadeu Inácio de Almeida Prado.
A unir os dois acontecimentos, uma palavra: “português”. O idioma desconhecido – mas vivo – que ressuscita o homem das línguas mortas. Em casa, põe-se a aprender os rudimentos, recorre a dicionários e tenta traduzir os textos de Prado, à cata do ouro das palavras de que o livreiro lhe concedeu um vislumbre. Gregorius deixa-se contaminar gradualmente pela ressonância pessoana de frases que parecem ter sido escritas a pensar nele: “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que em nós existe, então o que acontece ao resto?” O interesse literário transforma-se em obsessão. Num impulso, decide partir para Lisboa no comboio da noite, à procura daquele pensador singular que reflecte sobre a solidão, a morte e o poder da linguagem.
Na capital portuguesa, cedo descobre que Prado, um médico que lutou contra Salazar, morreu um ano antes da revolução. Mas não desiste. Um a um, contacta familiares, amigos e conhecidos, tentando compreender o autor dos textos que parecem espelhar as suas mais escondidas aspirações e angústias. O retrato que emerge é o de um homem complexo e contraditório, um “sacerdote ateu” que sublimou na escrita os seus dilemas morais, frustrações amorosas e traumas familiares.
Ao recolher informações e memórias alheias, cruzando-as, Gregorius acaba por intuir a verdade de Prado, talvez melhor do que as pessoas que lhe eram mais próximas: Adriana, a irmã que em tempos Amadeu salvou com uma traqueotomia, agradecida e adoradora ao ponto de transformar o seu consultório num mausoléu de objectos intocados, onde o tempo se imobilizou; Jorge O’Kelly, pianista frustrado, farmacêutico e melhor amigo (até que uma mulher se atravessa entre os dois); ou João Eça, o resistente antifascista a quem arrancaram unhas e cujas mãos tremem tanto que não pode beber mais do que meia chávena de chá. Com um impressionante rigor analítico, o professor suíço, bom xadrezista, junta as peças no tabuleiro: cartas nunca enviadas, sinais, segredos, vozes mortas saindo de um antigo gravador de bobinas. No fim, a ameaça de um tumor na cabeça (uma de muitas simetrias com o objecto das suas investigações, vítima de um aneurisma cerebral) força o regresso a Berna.
Terceiro romance de Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa é um livro sobre o modo como a linguagem pode iluminar ou obscurecer a compreensão do mundo à nossa volta, além de uma odisseia existencial fascinante mas algo pesada, em parte devido ao estilo palavroso. Após inúmeras deambulações por Lisboa, com breves passagens por Coimbra, cabo Finisterra e Salamanca, Gregorius consegue aproximar-se da essência de Prado, mas é sobretudo a si mesmo que se desvenda, como se o médico-poeta português fosse, desde a primeira hora, o pretexto para uma viagem de descoberta interior.
Numa narrativa densa e bem construída, com personagens de grande profundidade psicológica, não deixa de ser curioso que o elo mais fraco esteja nas prosas de Amadeu, o livro-dentro-do-livro que justifica a fuga de Gregorius. Muitos dos fragmentos são banais, pretensiosos ou redundantes. E mesmo os melhores, os que mais se aproximam do tom de Bernardo Soares, ficam a anos-luz do heterónimo que trabalhava na Rua dos Douradores. É ainda notório o desconhecimento, por parte de Mercier, do que foi a verdadeira oposição a Salazar, aqui apresentada como uma espécie de Resistência francesa transposta para o eixo Bairro Alto-Baixa, despolitizada e só com o Tarrafal ao fundo.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Infância dourada

Um Mundo para Julius
Autor: Alfredo Bryce Echenique
Título original: Un Mundo para Julius
Tradução: Miranda das Neves
Editora: Teorema
N.º de páginas: 509
ISBN: 978-972-695-743-0
Ano de publicação: 2008
Certa vez, referindo-se a Mario Vargas Llosa, seu amigo e compatriota, Alfredo Bryce Echenique (n. 1939) recorreu à literatura francesa do século XIX para ilustrar o que os separa. Enquanto Llosa seria um escritor de linhagem flaubertiana, racional e capaz de mergulhar meses a fio nos arquivos para documentar as suas ficções, ele assumia-se como um stendhaliano puro e duro: “O que me interessa é a emoção, o sentimento.”
Se toda a obra de Echenique reflecte esta procura de uma discursividade subjectiva, quase sempre filtrada por uma finíssima ironia, em nenhum livro a “emoção” e o “sentimento” nos surgem tão à flor da pele como neste magnífico Um Mundo para Julius (1970). Considerado o melhor romance peruano de todos os tempos (num inquérito da revista Debate», feito a 80 escritores e críticos), só agora, quase quatro décadas depois, chega às livrarias portuguesas, com chancela da Teorema — editora que já publicara Guia Triste de Paris (1999) e A Vida Exagerada de Martin Romaña (2005).
Narrativa proliferante, com mais de 500 páginas e dezenas de histórias secundárias habilmente cerzidas, Um Mundo para Julius tem qualquer coisa de monumental na sua arquitectura, como se esta interiorizasse a grandeza e harmonia dos palácios que descreve. Retrato colectivo espantosamente nítido, permite-nos observar em microscópico detalhe como era a vida opulenta das famílias mais abastadas de Lima, durante os anos 50 e 60 do século XX. Está lá tudo: o luxo, a arrogância, os abismos entres as classes sociais, a ostentação, os segredos, a felicidade fátua ou as pequenas tragédias que a hipocrisia varre para debaixo do tapete.
No centro deste mundo, protegido da realidade por uma redoma de cristal, está Julius, o mais novo de quatro irmãos, descendente de vice-reis e presidentes da república, órfão de pai, menino frágil que as amas enchem de beijos e filho de uma mãe idolatrada na sua beleza, mas sempre distante. Susan, essa mãe etérea, quase cinematográfica, tratando toda a gente por “darling“, sempre a beber Coca-Cola gelada para acalmar os nervos, volta a casar, submissa, com um arrivista, Juan Lucas, empresário que só pensa em jogar golfe, em trazer o toureiro espanhol Briceño ao Peru, em pavonear-se nos cocktails do Country Club e em encher malas de pele de porco com camisas de seda muito bem engomadas. Para os dois, a existência só faz sentido se for uma eterna dolce vita.
Numa das muitas cenas que descrevem a vida doméstica, Juan Lucas está a contemplar, através de um janelão da sua nova casa, o jardim que se prolonga pelo campo de pólo, enquanto bebe vinho e estira “os braços de tweed paralelos aos talheres de prata”. O ricaço está em êxtase com o que construiu. Tudo se lhe afigura exacto, mesmo a interferência visual de uma “fruteira cheia de cor”, até que algo perturba tão exagerada perfeição: “A madeixa loira e maravilhosa de Susan descaiu, tapando o verde com ouro, mas algo de feio lhe entrava também pelo rabinho do olho. — O Universo — anunciou Celso [um dos mordomos].»
Eis um exemplo lapidar dos recursos irónicos que tornam única a escrita de Echenique. O Universo que Celso introduz na sala é o jardineiro recém-contratado, rapaz do povo, tosco, trazido das montanhas onde o baptizaram com o estranho nome. Mas é também, de forma literal, o universo verdadeiro, a materialização do que fica para lá das grades que cercam a relva e a piscina, esse Peru miserável que as classes altas, fechadas sobre si mesmas, ostensivamente ignoram.
A charneira entre as duas realidades é Julius, o rapazinho flor de estufa, apaparicado e reprimido, que aprende a lidar com a perda traumática da irmã (Cinthia), com a indiferença dos mais velhos e a crueldade dos colegas de turma, à medida que passa por sucessivos colégios de freirinhas americanas. Desde pequeno, Julius sente-se atraído pela secção da criadagem, que no palácio se assemelha a “uma verruga no rosto mais belo”. É neste círculo formado por Vilma (a ama proscrita), Nilda (a cozinheira resmungona), mais os mordomos e o restante pessoal menor, que ele encontra amparo, consolo, afecto. E por isso vai intuindo, enquanto os irmãos se perdem em futilidades de playboy, as outras Limas que ficam para lá do bairro chiquérrimo de San Isidro.
Echenique nunca escondeu o carácter semi-autobiográfico do livro. A sua infância foi quase igual à de Julius. Ao narrar o doloroso processo de crescimento de uma criança privilegiada, fê-lo com conhecimento de causa. Mas o que torna este romance um clássico não é o “sentimento”, a “emoção” ou sequer a nostalgia das suas memórias. É antes o experimentalismo formal com que abriu para a literatura latino-americana caminhos alternativos ao realismo mágico, partindo as frases, alternando registos (do monólogo interior à sobreposição de vozes simultâneas), fazendo hiatos líricos, acumulando suspensões e saltos diegéticos — todo um conjunto de efeitos que provocam no leitor espanto e maravilhamento.
Pena é que a tradução fique aquém do desejável, sobretudo em questões de ritmo e nos coloquialismos. A revisão, descuidada, não ajuda.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Refutação astrológica

O que está escrito nas estrelas
Autor: José Carlos Fernandes
Editora: Tinta-da-China
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-8955-51-9
Ano de publicação: 2008
Aos 43 anos, José Carlos Fernandes ocupa, por mérito próprio e falta de “rivais” à altura, um lugar absolutamente central no panorama da Banda Desenhada portuguesa. Com mais de trinta trabalhos editados desde o opus 1 (Controlo Remoto, 1993), JCF consegue publicar muito sem pôr em causa a qualidade final dos seus livros, numa espécie de voragem que o aproxima de outro mestre da prolixidade profícua: Gonçalo M. Tavares. Para lá das óbvias diferenças, em ambos assistimos à criação de uma obra tendencialmente infinita (com vários ramos, ou séries), obra em contínua expansão, como que nascida de uma máquina ficcional imparável e cuja verdadeira magnitude ainda está, num caso como no outro, por determinar.
Consciente do seu traço pouco dúctil e tecnicamente limitado, JCF apostou, desde os primeiros livros, no engenho dos argumentos e numa escrita de grande perfeição estilística. A sensação com que se fica é a de que as suas histórias valem por si mesmas; existirem na forma de pranchas ilustradas não passa de uma casualidade. Pode mesmo afirmar-se que em JCF a palavra vem sempre antes do desenho e o ficcionista se sobrepõe ao autor de BD, o que não impede que algumas das suas criações sejam modelos do que a nona arte pode e deve ser. Um exemplo: os seis volumes da celebrada série “A Pior Banda do Mundo”.
Depois de publicar, em 2004, A última obra-prima de Aaron Slobodj (talvez o mais brilhante e radical dos seus livros, sobre a arte enquanto forma de destruição) e de inagurar as Black Box Stories, em 2006, com o belíssimo Tratado de Umbrografia (seis narrativas ilustradas por Luís Henriques), JCF acaba de interromper a sua ligação à Devir, lançando O que está escrito nas estrelas [Anos I & II] na Tinta-da-China, editora que assim se estreia muitíssimo bem no universo da BD, ao fazer deste volume um exemplo de bom gosto e esmero gráfico.
Muito ao seu jeito, JCF recorre ao humor cáustico e às referências eruditas para negar e subverter os supostos princípios divinatórios da Astrologia, oferecendo-nos “um horóscopo de assombroso rigor científico, elaborado com base na sabedoria milenar dos magos caldeus, dos druidas de Stonehenge e dos sacerdotes-astrónomos de Chichén Itzá, aliada às mais modernas observações do telescópio Hubble e à capacidade de cálculo dos computadores do CNRS”. Os dois conjuntos de 12 textos, cada um relativo a um mês, são supostos fragmentos dos cadernos de um José Carlos Fernandes imaginário (1911-1964), cientista que teria trocado “a bata de laboratório por um manto de mago, os manuais de bioquímica pela Cabala e a tabela periódica pelo Zodíaco”, criando um sistema capaz de prever acontecimentos futuros: a queda da cadeira de Salazar, a morte da princesa Diana, o 11 de Setembro, a conversão de Tom Cruise à Cientologia e até mesmo a “breve passagem de um comediante involuntário pelo cargo de primeiro-ministro de Portugal”.
Os fragmentos propriamente ditos são microcontos irónicos, macabros, nihilistas, melancólicos ou líricos, pequenas prosas cheias de golpes verbais, beleza rude e lições de moral incerta, cujo tom crepuscular se reflecte nas soberbas gravuras de página inteira que as acompanham.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Anatomia do Homo hispanicus
Espanha e os Espanhóis
Autor: Juan Goytisolo
Título original: España y los Españoles
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: 90º
N.º de páginas: 120
ISBN: 978-972-8964-08-5
Ano de publicação: 2008
Considerado um dos mais importantes escritores espanhóis vivos, Juan Goytisolo (n. 1931) traz consigo, há mais de meio século, as marcas do exílio. Feroz opositor de Franco, mudou-se em meados da década de 50 para Paris, onde foi leitor da Gallimard e conheceu Monique Lange, companheira a quem cedo revelou a sua homossexualidade e ao lado de quem ficou até à morte desta, em 1996. Desde então vive em Marraquexe, onde já passava parte do ano, continuando a criticar de forma contundente — à distância, do Café France, na praça Jemaa el Fna — os rumos seguidos pela sua pátria e pelos seus compatriotas.
Espanha e os Espanhóis, publicado em 1969 por uma editora alemã, devido à proibição dos seus livros pelo regime franquista, é um conjunto de textos que, segundo Ana Nuño, “se situa na trajectória do escritor e do intelectual como uma espécie de Jano bifronte”. Ao mesmo tempo que antecipa temáticas futuras, desenvolvidas tanto nos seus trabalhos ensaísticos como na obra ficcional, Goytisolo lança um olhar para o passado, tentando compreender as raízes e especificidades do “caso espanhol”, à luz dos princípios historiográficos de Américo Castro.
O que se tenta desfazer aqui é o mito de uma falsa espanholidade, tão essencialista que funcionaria retrospectivamente, fazendo de Séneca um “andaluz” e de Marcial um “aragonês”. No centro desse mito que perdurou durante séculos, impondo-se até nas regiões que nunca chegaram a “castelhanizar-se” por completo, está o cavaleiro cristão, figura ideal da “casta militar de Castela”, um paladino de Deus que despreza as coisas materiais, estóico, honrado e cioso da “pureza” do seu sangue. Ele é o símbolo da Espanha nascida no final do século XIV, quando os Reis Católicos conquistam o último reino mouro da Península e assinam o édito de expulsão dos judeus, pondo fim a vários séculos de convivência entre as três civilizações.
A partir desta “tragédia”, desta “ferida aberta” e nunca cicatrizada, inicia-se o fechamento de Espanha sobre si mesma, num processo que conduzirá, após um período de ilusória grandeza e expansão colonial, à decadência progressiva do país, tanto nas áreas científicas como artísticas, bem como ao atraso na implantação de uma burguesia capaz de tomar as rédeas da economia (algo que também aconteceu em Portugal). Depois de desconstruir a imagem do Homo hispanicus de matriz cristã-velha, oscilando entre “a façanha e a imobilidade”, Goytisolo analisa o modo como este paradigma foi sendo reforçado ou questionado, através da literatura (Quevedo, Cervantes, Unamuno), da pintura (Goya) ou dos olhares estrangeiros (Borrow, Hemingway, Brenan), culminando na súbita “mudança de mentalidades” que se dá na década de 60, quando o duplo efeito da ida para fora (emigração) e da chegada de estrangeiros (turismo de massas) arranca o povo espanhol do seu marasmo.
Este livro que Espanha só conheceu em 1979 (é dessa época o último capítulo, expectante e pessimista quanto à transição democrática em curso), apesar de datado, mantém intacta a lucidez da sua visão crítica.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Apocalipse menor

O quase fim do mundo
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 382
ISBN: 978-972-20-3525-5
Ano de publicação: 2008
Um dia aconteceu aquilo, a “coisa”, uma “luz intensa, como um flash num céu azul”, sopro de morte a varrer do planeta Terra todos os vestígios de vida animal. Todos, não. Como que por milagre, há quem sobreviva ao súbito desastre, uma espécie de dilúvio do Antigo Testamento mas sem água. Simba Ukolo, médico na imaginária Calpe (dois milhões de habitantes, algures na África Central, perto do Equador), é um dos sobreviventes. De regresso a casa após uma campanha de vacinação, encontra a cidade vazia: automóveis abandonados na rua, um silêncio absoluto, roupas caídas no solo a marcar o sítio onde as pessoas se volatilizaram. A primeira reacção é de pânico; depois chega a certeza de que enlouqueceu. A caminho do hospital, onde tenciona entregar-se aos cuidados de um psiquiatra, pára numa dependência bancária de portas abertas e só então esbarra na realidade. Ou seja, encontra Geny, senhora já entradota, seguidora de uma religião particularmente rígida (a dos Paladinos da Coroa Sagrada), no momento em que os dois se entregam à pouco edificante tarefa de «levantar» dinheiro à borla.
É a partir deste encontro entre náufragos, diametralmente opostos em tudo, mas ambos capazes de violar interditos sociais numa situação-limite, que se começa a estruturar a narrativa do último romance de Pepetela, arremedo de parábola pós-apocalíptica que questiona, por reductio ad absurdum, o estado da Humanidade nos tempos que correm. Para isso, o escritor cria uma pequena tribo de sobreviventes: ao médico e à fanática cristã juntam-se um ladrão pacífico, um pescador agora sem peixes para pescar (a fauna desapareceu quase toda), uma jovem historiadora somali, uma americana que passava meses na selva a estudar gorilas, um electricista nascido no sopé do Kilimanjaro e um sul-africano branco, segurança numa mina de diamantes com pinta de mercenário; entre outros.
O suhaili é a língua franca e eles vão-se conhecendo, confrontando, unindo, desunindo, resolvendo situações, acasalando, medindo forças e conjugando vontades ao sabor de uma dinâmica de grupo algo coxa — já que seriam de esperar, em circunstâncias tão precárias, muito mais conflitos. É notório que Pepetela gosta das suas personagens, às quais atribui por vezes o papel de narrador, cuida bem da prosa (apesar de algumas flutuações estilísticas) e sabe manter o ímpeto do enredo, mesmo se com uma explicação pouco plausível para o grande mistério, simbolicamente encontrada nas Portas de Brandenburgo, em Berlim, ao melhor estilo dos filmes de série B. O pior, porém, são as sistemáticas entorses na verosimilhança (a forma ultra-rápida como Jude aprende a pilotar aviões, por exemplo, ou a manutenção do fornecimento de electricidade em cidades desertas, vários meses após a catástrofe) que nem as liberdades do pacto ficcional conseguem justificar.
Já as reflexões que atravessam as longas conversas filosóficas do grupo, sobre o passado colonial, as diferenças étnicas impostas, o peso da História, a “fortaleza de Schengen” ou o regresso final às origens (para um novo começo da Humanidade a partir do seu antigo berço), conversas que ocupam grande parte do livro, raras vezes ultrapassam a superficialidade das evidências e e dos lugares-comuns.
Avaliação: 6/10
[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Lavagante excelentíssimo
Lavagante — encontro desabitado
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-989-95597-1-4
Ano de publicação: 2008
Na sua obra ficcional, sobretudo a publicada antes do 25 de Abril, José Cardoso Pires recorreu várias vezes aos elementos clássicos da fábula, utilizando-os para abrir alçapões na prosa que permitissem escapar ao escrutínio da Censura ou, mais tarde, à pobreza das leituras em primeiro grau. Esta estratégia é evidente em O Anjo Ancorado (1958) e na sátira Dinossauro Excelentíssimo (1972), mas também em Lavagante — encontro desabitado, pequena novela lançada agora por Nelson de Matos, com o beneplácito da mulher e das filhas do escritor (uma das quais, Ana Cardoso Pires, se responsabilizou pela revisão e fixação do texto). Um texto que conheceu pelo menos três versões manuscritas e outras tantas dactilografadas — desenvolvimentos de um esboço publicado na revista O Tempo e o Modo (Dezembro de 1963) —, supondo-se que foi concluído antes da edição do romance O Delfim (1968).
Se o mero, apanhado a dormir pelo pescador subaquático em O Anjo Ancorado, pode ser visto como símbolo de uma certa letargia que contamina as personagens burguesas do romance, distantes da realidade das coisas, e o Dinossauro é um retrato certeiro e demolidor de Salazar (”fio de peste a alastrar por todas as vilas do império”), já a fábula do lavagante se revela muito menos óbvia. É o narrador quem a introduz, no início do segundo capítulo: “Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. ‘Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.’)”
Uma metáfora tão forte corria o risco de explicar tudo num parágrafo, fazendo da narrativa uma simples caricatura moral. Mas não é isso que acontece, entre outras razões porque as duas personagens principais — Daniel e Cecília — vão desempenhando à vez tanto o papel do safio como o do lavagante. Daniel Lobo, médico ligado aos meios oposicionistas, enamora-se de Cecília, uma estudante de Arquitectura que gosta de Miles Davis, prefere Bergman a Visconti e dá a medo os primeiros passos no sentido de “devenir femme” (à francesa, imitando Simone de Beauvoir). Ele é lavagante quando a tenta moldar aos seus desígnios, levado pela “velha costela de Pigmaleão que todos nós temos”; ela quando acaba por o trair, ao sentir-se à margem “dum universo comprometido numa luta de vida ou de morte” (as manifestações proibidas do 1.º de Maio). Ambos são o safio quando se deixam aprisionar pelas circunstâncias — ele de forma literal, ao ser apanhado ingenuamente numa rusga da PIDE; ela ao deitar tudo a perder, numa sequência de ignomínia e arrependimento digna de um “fado lamechas”.
Quem conta a história deste amor falhado é um amigo de Daniel, que começa por descobrir a verdade acerca de Cecília, a rapariga de “fria altivez” e rosto “soberano”, enquanto bebe vinho num bar da praia com um jornalista da geração de 45 (atormentado por a Censura lhe ter feito a mão “medrosa”). Nessa altura, Daniel ainda está preso e o narrador vê-a com um fascista, «carrasco de negra crónica», a quem ela acabou por ceder após longo cerco. Num segundo momento da narrativa, já com o amigo em liberdade e a par de tudo, é num cenário igualmente imóvel (e não menos etílico), sob um alpendre, que ele escuta durante uma noite inteira a evocação que Daniel faz de um “tempo vencido”, sabendo à partida como tudo acabará.
Embora sem o fôlego e o acabamento literário dos melhores livros de Cardoso Pires, este é um belo texto e o retrato lúcido do que era Portugal no início dos anos 60: um país asfixiante, à mercê das “garras afiadas” do medo que tudo devora. Ou, como se diz a certa altura, um país “em plena Idade Média, com astronautas a voar por cima”.
Avaliação: 8/10
[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Baratas e homens
Kockroach — A Metamorfose
Autor: Tyler Knox
Título original: Kockroach
Tradução: Luís Coimbra
Editora: Paralelo 40º
N.º de páginas: 334
ISBN: 978-989-8134-02-8
Ano de publicação: 2008
“Quando Kockroach, um artrópode pertencente ao género Blatella e à espécie Blatella germanica, acorda de um sono típico sem sonhos numa dada manhã, descobre-se transformado numa qualquer criatura vil de grandes dimensões.” Essa criatura vil é um homem, o que faz deste primeiro parágrafo de Kockroach uma assumida e engenhosa piscadela de olho literária. Gregor Samsa, o protagonista da novela Metamorfose, de Franz Kafka, desperta com seis patas e carapaça quitinosa. Aqui acontece precisamente o contrário: o insecto com K maiúsculo (em inglês, barata é cockroach) descobre que ganhou forma humana e não sabe o que fazer de um corpo tão “ridiculamente estreito e macio”, tão pálido e engelhado “como uma ninfa em época de muda”.
Embora seja evidente o gozo com que Tyler Knox narra a progressiva adaptação de Kockroach ao seu novo estado, depressa compreendemos que o escritor não caiu no erro de levar o jogo intertextual às últimas consequências. Quem procurar neste livro uma simples versão às avessas do clássico kafkiano, desiluda-se. Este romance nada tem a ver com o universo e as obsessões do escritor checo. É, acima de tudo, um divertimento muitíssimo bem escrito que pode ser lido de várias maneiras: como história clássica de ascensão, queda e ressurreição; como parábola sobre a sociedade americana e a importância que esta dá ao dinheiro, ao poder e à figura do self made man (expressão levada aqui mais à letra do que nunca); ou ainda como retrato fiel do submundo nova-iorquino dos anos 50, num estilo que parodia a linguagem de Dashiell Hammett e Raymond Chandler.
Na sua frieza amoral e determinação sem escrúpulos, Kockroach é uma personagem desconcertante porque nunca sabemos muito bem o que esperar dela. Ao contrário de Samsa, que vive enredadado no seu próprio desespero, incapaz de mudar o curso dos acontecimentos, Kockroach nunca tem dilemas ou angústias, só instinto de sobrevivência. A tenacidade torna-o invulnerável e permite-lhe triunfar num mundo hostil.
Os dramas existenciais, esses, ficam por conta de Mickey Mite (um gangster parasita) e de Celia Singer (mulher coxa, cheia de complexos), que alternam o protagonismo dos capítulos com Jerry Blatta (o nome civil de Kockroach), enquanto este vai sucessivamente trepando as hierarquias da mafia de Times Square, do mundo empresarial e da política. Mite, que resgatou aquele a quem chama Chefe na rua, de óculos escuros à noite, quando ainda estava na fase de aprender os gestos dos homens e a sua linguagem (repetindo fora de contexto as frases que ouvia pelas esquinas), é o contraponto de Blatta — o seu Sancho Pança, mas também a sua Nemésis; o fiel escudeiro que às vezes trai — e o elemento humano que equilibra a história até ao seu final em aberto, quando Kockroach, apoiado pelo presidente Nixon, está prestes a ser eleito senador, anunciando uma “nova e gloriosa era para a América”.
Quando o livro saiu nos EUA, em Dezembro de 2006, especulou-se bastante sobre Tyler Knox. A inexistência de fotografias e a escassa informação biográfica — “formado pelo Iowa Writer’s Workshop, vive na Costa Leste com a mulher e um cão” — geraram todo o tipo de desconfianças em relação ao romancista “estreante”. Legítimas, diga-se, porque Sarah Weinman acabou por revelar, no seu blogue, que Knox afinal é o pseudónimo de William Lashner, um relativamente obscuro escritor de thrillers judiciais.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
No gueto de Bedzin

O diário de Rutka
Autora: Rutka Laskier
Título original: Pamienik, Rutki Laskier
Tradução: Maria Milewska Rodrigues
Editora: Sextante
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-8093-38-7
Ano de publicação: 2007
A primeira coisa a fazer diante deste voluminho é não o reduzir a mais uma variação do Diário de Anne Frank, por muito semelhantes que sejam as vidas de Rutka Laskier e da judia alemã que vivia escondida num anexo secreto, em Amsterdão. Se ambas escreveram sobre o terror do nazismo — nunca deixando de registar os típicos dilemas psicológicos das adolescentes — e se ambas morreram em campos de concentração (Anne Frank em Bergen-Belsen, aos 15 anos; Rutka em Auschwitz, aos 14), o certo é que também há grandes diferenças entre as duas.
Para começar, o diário de Frank cobre quase dois anos de vida na clandestinidade (1942-44), enquanto as entradas no caderno de Laskier vão apenas de Janeiro a Abril de 1943. Depois, o testemunho da alemã foi publicado em 1947, logo após o fim da guerra, tornando-se um dos mais populares livros sobre o Holocausto, traduzido em 67 línguas. Já o diário da rapariga polaca ficou escondido debaixo do soalho duplo de umas escadas, num prédio do antigo gueto judeu da cidade de Bedzin, durante mais de 60 anos, sendo apenas descoberto, lido e publicado em 2006.
Desengane-se, porém, quem pensar que o livrinho de Rutka é uma espécie de amostra do que se encontra, mais desenvolvido, nos escritos da outra mártir. Se as preocupações são as mesmas, o estilo diverge. Não há aqui nada que se pareça com o “Querida Kitty” e o tom é muito mais seco, objectivo, pouco dado a arroubos sentimentais. Rutka tem noção de que está no inferno, de que o cerco se vai apertando e de que dificilmente sobreviverá a uma guerra cuja evolução militar mostra conhecer bem. Se escreve, é para deixar um registo — como quando narra com grande detalhe, seis meses após os factos, uma Aktion de deportação feita pelos nazis sobre os judeus de Bedzin, em Agosto de 1942.
O mais arrepiante neste notável documento humano é a forma como Rutka alterna entre o relato dos pesadelos do gueto e as coscuvilhices do seu círculo de amigos, que reflectem o brusco desabrochar da puberdade. A 6 de Fevereiro, por exemplo, escreve estas linhas terríveis: “Algo em mim se destruiu. Quando passo ao pé de um alemão, tudo em mim se contrai. Não sei se é por medo ou por ódio. Queria poder torturá-los, e às suas mulheres e aos seus filhos, (…) estrangulá-los vigorosamente, mais e mais ainda.” Logo depois, ainda no mesmo parágrafo: “Acho que a minha feminilidade acordou dentro de mim.” E descreve como sentiu pela primeira vez, durante o banho, a força do impulso sexual.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Parábola do embarque
Walt ou O Frio e o Quente
Autor: Fernando Assis Pacheco
Edição: Abel Barros Baptista
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 95
ISBN: 978-972-37-1216-2
Ano de publicação: 2007 (1ª edição: 1978)
Publicada pela primeira vez em 1978, esta “noveleta” de Fernando Assis Pacheco tem como cenário os EUA e fala do Vietname “por coisas da causa”. Quatro anos após o fim da guerra colonial, ainda havia uma espécie de tabu sobre o tema na sociedade portuguesa e por isso o jornalista, que se estreava na ficção, situou a história nas docas de San Diego, quando “queria apenas dizer ‘Gare Marítima de Alcântara, Lisboa’, num ano qualquer entre 1961 e 1974″.
A estratégia compreende-se mas na verdade o que está ali, na lenta descrição de um embarque de soldados para uma guerra estúpida, é Portugal escondido com o rabo de fora. A carne para canhão pode ter nomes camones, como Scott Bombardeiro, Cold Prick, King Size ou Joãozinho Scarface, mas as suas acções e forma de falar não podiam ser mais tugas.
À frente de um pelotão, o “autor-narrador-alferes” vai descrevendo tudo o que se passa nas horas anteriores à entrada no Apocalypse, o barco-besta que os levará para Saigão e seus infernos. Isto é, preenche o vazio da espera com olhares sarcásticos sobre as “gajas” das Women of America que distribuem tabaco à tropa fandanga ou sobre as tricas entre oficiais “e outros monstros de aspecto saudável”.
Neste microcosmos ninguém é completamente bom nem mau, “antes pelo contrário”. Estes são homens aflitos, a disfarçar o medo. E a falarem um calão de caserna, bruto mas inventivo, intercalado pelo experimentalismo do autor, que baralha os códigos ficcionais e chega a armadilhar o seu texto contra a crítica. Que 30 anos volvidos os explosivos ainda funcionem, eis o prodígio.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
O fim das ilusões

Mauricio ou as Eleições Sentimentais
Autor: Eduardo Mendoza
Título original: Mauricio o las elecciones primarias
Tradução: Helena Pitta
Editora: ASA
N.º de páginas: 304
ISBN: 978-989-23-0023-8
Ano de publicação: 2008
Eduardo Mendoza, que participou este ano nas Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim), regressa com Mauricio ou as Eleições Sentimentais ao romance e a Barcelona, cenário e objecto de quase todos os seus livros. Desta vez, a época abordada pelo escritor, conhecido pelo afinco com que observa as metamorfoses sociais, não é o início do século XX — como em A Verdade sobre o Caso Savolta ou A Cidade dos Prodígios (narrativa que espelha a evolução da capital catalã entre a exposição universal de 1888 e a de 1929) — mas sim o período que se seguiu à «transição democrática». As balizas cronológicas estão de resto bem marcadas: a história arranca pouco antes das segundas eleições autonómicas da Catalunha (Abril de 1984) e termina com o anúncio, dois anos e meio mais tarde, de que Barcelona acolheria os Jogos Olímpicos de 1992.
Uma década após a morte de Franco, a democracia “ainda usa fraldas”, o país é um “castelo de areia” sempre em risco de vir abaixo e os cidadãos começam aos poucos a voltar às suas vidas, “uns por cansaço, outros por desencanto e todos, definitivamente, por egoísmo”. É neste contexto de refluxo cívico que Mendoza coloca a sua personagem principal: Mauricio Greis, um dentista cinzentão, leitor de Goethe, regressado a Barcelona para exercer numa clínica privada. O seu tédio é posto em causa pelo convite para fazer parte das listas do PSOE às já referidas eleições (em que os socialistas perderam a Generalitat, como sempre, para Jordi Pujol). Vítima da má-consciência burguesa, Mauricio aceita entrar na vertigem da campanha, com uma exaltação rapidamente anulada pela tristeza de descobrir como as coisas de facto se passam; ou seja, pela consciência de que entre a ideologia e a praxis política há um desfasamento que destrói todas as ilusões de mudança radical da sociedade.
Paralelamente, o dentista anódino envolve-se num triângulo amoroso com duas mulheres que pertencem a “mundos irreconciliáveis”: a advogada Clotilde, insegura nas suas relações, tanto profissionais como afectivas; e Porritos, cantora de rancheras, desempregada, pobre, carente, que se descobre com Sida e lança uma sombra de morte sobre grande parte do romance. Nestas personagens que colidem de frente com a realidade, Mendoza consegue fixar de forma muito nítida o desencanto de uma geração confrontada com a ideia de que “tantas energias e tanto entusiasmo não serviram para nada”.
A escrita é veloz, transparente, fluida, de uma precisão e desenvoltura narrativa sem mácula. O humor tem conta, peso e medida. Aos diálogos não falta a cadência certa. As trezentas páginas lêem-se num sopro. Ainda assim, há um excesso de linhas narrativas secundárias (dissipam a força da história central), bem como personagens tão periféricas e difusas que mais valia não terem sido convocadas.
Uma última palavra para a tradução de Helena Pitta: excelente.
Avaliação: 7/10
[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Da beleza efémera

O Mundo das Nuvens
Autor: Gavin Pretor-Pinney
Título original: The Cloudspotter’s Guide
Tradução: Sofia Serra
Editora: Estrela Polar
N.º de páginas: 341
ISBN: 978-972-8929-74-9
Ano de publicação: 2007
Jornalista formado em Oxford e co-fundador da revista The Idler (publicação que se afirma contra a “ética do trabalho”), Gavin Pretor-Pinney sempre adorou “olhar para as nuvens”. Após várias décadas de contemplação passiva, ao constatar que estas continuavam a ser encaradas como “metáforas da desgraça”, decidiu sair em sua defesa. Durante um festival literário na Cornualha, em 2004, fundou a Cloud Appreciation Society (CAS), com diploma e crachá para os sócios, site na Internet e um curto manifesto que louva a beleza “efémera” e “igualitária” das nuvens. Efémera porque feita de água em suspensão, sempre a mudar de forma e de estado. Igualitária porque ao alcance de qualquer um — basta levantar a cabeça para se assistir a extraordinários espectáculos no céu, absolutamente gratuitos.
O sucesso imediato da CAS, que ao fim de um ano já tinha 1800 membros (hoje são quase 12 mil), levou Pretor-Pinney a redigir um guia de observação para os seus associados. Após 28 recusas de editoras que não quiseram arriscar, a obra foi publicada em 2006 e tornou-se o best-seller mais improvável do ano no Reino Unido, agora com edição portuguesa da Estrela Polar (infelizmente com uma capa e um título que não fazem jus à elegância deste The Cloudspotter’s Guide na versão original).

A estrutura do livro segue um sentido ascendente: primeira parte dedicada às nuvens baixas (Cumulus, Cumulonimbus, Stratus, Stratocumulus); a segunda sobre as nuvens médias (Altocumulus, Altostratus, Nimbostratus); uma terceira para as nuvens altas (Cirrus, Cirrocumulus, Cirrostratus) e a última para inventariar outras tipologias. Os nomes em latim da classificação clássica — estabelecida por Luke Howard em 1802 e fixada definitivamente no Atlas Internacional das Nuvens, em 1896 — podem assustar quem não está familiarizado com as nomenclaturas científicas, mas ao fim de meia dúzia de páginas deixam de ser um obstáculo. Isto porque Pretor-Pinney, não prescindindo da exactidão, facilita a vida aos leitores que já esqueceram as leis básicas da Física, recorrendo a exemplos e analogias, bem como à infografia e a tabelas muito completas.
Dentro de cada capítulo, há sempre espaço para evocações pessoais, que podem ir das suas memórias de infância à narração da viagem até Burketown, no Norte da Austrália (”provavelmente o ponto mais longínquo possível de onde moro”), só para contemplar in loco uma das maiores e mais raras nuvens do mundo: a Glória da Manhã, surfada por planadores. Há ainda remissões para as artes (da figuração de Altocumulus lenticularis nos frescos de Piero della Francesca às citações de Aristófanes, Shakespeare ou Keats), para a História, para a mitologia e para problemas ambientais (o peso do rasto dos aviões no aquecimento global).

A nuvem Glória da Manhã, fotografada na Baía dos Tubarões (Austrália) por Jason Cutler
Enciclopédico e divertido, exaustivo sem ser maçudo, este livro não só esclarece os principais mistérios das nuvens, obrigando-nos a olhar para os céus como se os víssemos pela primeira vez, como é uma das obras mais sólidas alguma vez escritas sobre o mais etéreo dos temas.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
PS — Não resisto a partilhar esta lição que Gavin Pretor-Pinney deu sobre nuvens para os sortudos funcionários do Google:
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post
Silêncios, elipses, epifanias

Pequenos Mistérios
Autor: Bruce Holland Rogers
Título original: The Keyhole Opera
Tradução: Luís Rodrigues
Editora: Livros de Areia
N.º de páginas: 234
ISBN: 978-989-81180-2-8
Ano de publicação: 2007
Querem saber qual foi para mim a maior revelação de 2007, no que à literatura estrangeira publicada em Portugal diz respeito? Então anotem: Bruce Holland Rogers. Não é ainda um nome de primeira linha nos EUA, longe disso, mas tem tudo para vir a ser, sobretudo se se libertar da conotação com o género fantástico, que como se sabe é um empecilho para quem pretenda triunfar fora daquela espécie de “gueto” literário.
Aos 49 anos, este nativo de Tucson, Arizona, já ganhou dois prémios Nebula, um Bram Stoker e dois World Fantasy Awards. Mas reduzi-lo a um só género seria tão injusto como dizer que Eusébio só sabia marcar golos de penalty.
Basta ler este precioso volume de contos, editado com o habitual esmero gráfico da Livros de Areia, para perceber que Rogers não é catalogável. Embora tenha sido com esta obra que obteve o World Fantasy Award em 2006, não esperem narrativas com naves espaciais, universos paralelos ou relatos de História alternativa. Há vários momentos de terror e mistério, sim, passam-se por vezes coisas estranhas, obscuras e inexplicáveis, sim, mas também há muitos contos sobre a vida de todos os dias, com personagens normalíssimas em situações normalíssimas, pessoas que vão às compras, dão aulas e podiam estar num livro de Raymond Carver. Ou seja, a escrita de Rogers é sempre fantástica, se fantástica for mais um adjectivo do que um substantivo.
O único denominador comum dos 40 contos aqui reunidos é a concisão. Bruce Holland Rogers é um mestre do que se convencionou chamar short short stories (histórias mesmo muito curtas) e oferece-nos em Pequenos Mistérios um vasto catálogo de textos em que a dimensão mínima é inversamente proporcional ao efeito que a prosa — muito trabalhada, com requintes de ourives — provoca no leitor desprevenido.
Rogers tem um fraquinho por fábulas e alegorias, por vezes com inspiração mitológica. Não faltam homens que se tornam golfinhos ou corações que se convertem em melros de asa vermelha. E variações sobre o medo, a morte, a esperança, o mundo dos sonhos, sempre com um desenlace irónico que coloca as histórias a salvo de moralismos fáceis. Há ainda divertidíssimos exercícios sobre a própria escrita literária, momentos em que Rogers espicaça o leitor ou lhe tira o tapete, mostrando os bastidores do jogo ficcional e a forma como o autor todo-poderoso, lá atrás, na sombra, vai mexendo os cordelinhos, as alavancas e as roldanas.
As melhores narrativas, porém, são as mais simples de todas, aquelas que não carecem de quaisquer artifícios e parecem existir desde sempre, à espera de quem fosse capaz de as contar. Histórias cheias de silêncios, elipses, gestos precisos e suaves epifanias. Histórias inesquecíveis, como Os poetas menores de San Miguel County, Para leste, Brancos mortos ou O plano maior que ofusca o céu e a terra.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post
“Desalinho alinhavo ou logro”
A disfunção lírica
Autora: Inês Lourenço
Editora: &Etc
N.º de páginas: 59
ISBN: 978-972-8539-98-6
Ano de publicação: 2007
Pode um livro de poemas pôr em causa ideias feitas sobre o que é a poesia? Não só pode como deve, se além de um certo distanciamento crítico houver ironia. E ironia é algo que nunca faltou a Inês Lourenço, autora discreta de Um Quarto com Cidades ao Fundo (obra reunida, 1980-2000, na editora Quasi) e de A Enganosa Respiração da Manhã (Asa, 2002), além de ter editado os igualmente discretos Cadernos de Poesia — Hífen. Veja-se um exemplo (Passageira):
«O poema que não
surpreende nem afirma
a inutilidade de si, nem ensina
a olhar a certa dissolução
das coisas, nem interroga o desencanto
É uma espécie de prurido
nas nossas costas, coisa
irritante e passageira
que logo se esquece.»
No fundo, esta é uma escrita consciente dos limites do lirismo e que por isso já nem tenta captar a “excelsa beleza” das coisas mais altas, ficando-se pelo prosaísmo das “batatas novas” que aparecem antes da Páscoa ou pela estética da fragilidade, essa “paixão / sem blandícia das asas / quebradas”. Mesmo sabendo que renuncia à hipótese de aparecer nos livros adoptados pelas escolas (ou talvez por isso mesmo), a autora assume que em vez de “azul mar e barcos” escreverá sempre “desalinho / alinhavo ou logro”.
Nos restantes poemas, mais irregulares, há um regresso a territórios conhecidos: o diálogo com outros poetas (Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Fiama Hasse Pais Brandão), a evocação de gatos, polaróides do quotidiano e subtis sabotagens do “rigor poético”, sobretudo em memórias acres de experiências religiosas ou de um amor que é, as mais das vezes, um “erosivo eros”.
Avaliação: 6,5/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post
Túneis através das trevas

Tudo o que sobe deve convergir
Autora: Flannery O’Connor
Título original: Everything that rises must converge
Tradução: Clara Pinto Correia
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 272
ISBN: 978-989-623-069-2
Ano de publicação: 2007
Flannery O’Connor (1925-64) é uma figura absolutamente singular na literatura norte-americana do século XX. Nascida em Savannah, Georgia, teve uma vida marcada pelo lúpus, doença hereditária que matou o seu pai e que haveria de a debilitar gradualmente, desde os primeiríssimos sintomas (1951) até à morte prematura, aos 39 anos. Fechada na quinta familiar, em Milledgeville, rodeada de silêncio e uma centena de pavões, Flannery viveu para a escrita e nada mais do que a escrita. E se a bibliografia é escassa — dois romances, três dezenas de contos e uns centos de cartas —, a força brutal da sua ficção coloca-a no mesmo patamar de um William Faulkner.
Depois de ter oferecido aos leitores portugueses os magníficos contos de Um Bom Homem é Difícil de Encontrar e o interessante romance de estreia (Sangue Sábio), a Cavalo de Ferro prossegue a edição da obra completa de O’Connor com o segundo livro de contos, trabalhado de forma obsessiva pela escritora até ao fim da vida e publicado postumamente.
Nas nove narrativas de Tudo o que sobe deve convergir, o leitor das outras obras de O’Connor reconhecerá as mesmas paisagens (o Sul dos campos de algodão, das florestas a perder de vista e das fazendas incapazes de lidar com o fim da escravatura), os mesmos temas (questões raciais ou de fé, em fundo de apocalipse moral) e os mesmos tipos humanos (seres à deriva, em busca de uma salvação impossível).
Este é um “mundo da culpa e da dor” onde toda a gente cai desamparada, sem saber o que fazer das sombras malignas que envenenam as relações entre pais e filhos, homens e mulheres, brancos racistas e negros que não conseguem libertar-se. As personagens tentam muitas vezes mudar o curso das suas existências, mas está quase sempre tudo “consumado”. Há um ímpeto fatal em volta do que as pessoas fazem e dizem, uma espécie de maldade que é como o ar que se respira. Quem busca um rasto de compaixão humana, falha. Quem pretende fugir do abismo, cai nele. Os olhos dos outros são sempre “espelhos retorcidos” que devolvem imagens medonhas, grotescas, visões infernais. E as epifanias não redimem, antes projectam quem as vive para o “centro de um mistério desconfortável”.
O que torna estes contos inesquecíveis é a escrita de O’Connor, tensa como uma corda muito esticada, quase a partir. Mesmo quando descreve as mudanças da luz, um gesto súbito ou a boca que é “como uma grande rosa que tivesse escurecido e murchado”, há uma energia que se acumula e que acaba por conduzir, quase sempre, à explosão trágica de um final que é como um uppercut em cheio nos queixos do leitor. O desfecho de Os Coxos Hão-de Entrar Primeiro, um dos mais espantosos e terríveis que alguma vez li, é um bom exemplo.
As histórias de O’Connor são túneis que perfuram as trevas da condição humana. Túneis em que entramos às cegas, sem saber se alguma vez deles sairemos.
Avaliação: 9,5/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post
Todas as cinzas

O homem em queda
Autor: Don DeLillo
Título original: Falling Man
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 255
ISBN: 978-989-8093-39-4
Ano de publicação: 2007
Quando finalmente, mais de cinco anos após o embate dos aviões nas Torres Gémeas de Nova Iorque, Don DeLillo decidiu ficcionar a grande tragédia americana que inaugurou o século XXI, houve quem dissesse: “este era um livro inevitável”. Em alguns dos romances anteriores, DeLillo reflectira já sobre o alcance global do terrorismo e fizera alusões ao facto da gradiosidade do World Trade Center apelar à sua própria destruição. Daí ao adjectivo profético foi um passo, exagerado como todas as extrapolações, mas que tornou legítimo esperar-se dele o retrato definitivo do que aconteceu naquela terça-feira funesta.
Essa expectativa vai-se desfazendo à medida que avançamos na leitura de O homem em queda. E ainda bem. Embora enquadre o acontecimento na História com maiúscula, o autor de Underworld não pretende explicar o 11 de Setembro. O que lhe interessa é descrever a forma como aquele horror se infiltrou na vida das pessoas comuns, alterando radicalmente o sentido das suas existências. Se o romance abre e fecha à la DeLillo, com portentosas descrições sinfónicas do inferno nas torres, o resto é música de câmara. A narrativa avança através de uma acumulação de pequenas histórias, breves episódios que ajudam a situar as personagens no mapa nebuloso daqueles “dias do depois”, marcados por uma espécie de atordoamento colectivo.
No centro de tudo está um casal que tenta recomeçar literalmente das cinzas. Ao sair quase ileso da destruição, Keith bate à porta da ex-mulher, Lianne, coberto de caliça e vidros, trazendo apenas consigo a mala de outra sobrevivente, com quem virá a ter um caso que serve apenas para uma catarse mútua. O fulcro do romance é esta tentativa de reconstituição familiar, difícil porque Keith quer esquecer tudo (afundando-se no anonimato dos torneios de póquer) enquanto Lianne não quer esquecer nada (em parte devido ao pânico de contrair a doença de Alzheimer, que levou o pai ao suicídio).
À volta deles gravitam figuras que reflectem de outras maneiras a mesma luz. O filho, de binóculos apontados ao céu, à procura de mais aviões assassinos. Os idosos a quem Lianne ensina escrita criativa, reagindo à desgraça entre o fervor religioso e a abjuração de Deus. Ou o performer que salta preso a um arnês em sítios públicos, imitando a imagem de um homem que se lançou de cabeça para o abismo. Dispensável era a figura do terrorista, Hammad, membro da célula de Mohamed Atta, que surge no corpo do livro como um “estilhaço orgânico”, mas sem comprometer o ímpeto e a beleza triste deste magnífico romance.
![]()
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post
Anatomia de um génio
Nikolai Gogol
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Carlos Leite
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-37-1227-8
Ano de publicação: 2007
A maioria das biografias começam pelo princípio. Vladimir Nabokov, na sua abordagem à vida e obra de Nikolai Gogol, começa pelo fim. Isto é, pela crua descrição dos últimos momentos do escritor, que morreu aos 42 anos, meio enlouquecido e massacrado pelos médicos que lhe aplicaram horrendas sanguessugas no nariz (o herói de várias das suas histórias).
Se o mundo de Gogol estava sempre às avessas, faz sentido que Nabokov, ele próprio um heterodoxo, vire tudo de pernas para o ar neste livro fragmentário e sem fio condutor. Mais do que um retrato de Gogol, este é um espelho partido em mil pedaços, um feixe de “notas” em busca do sentido profundo da escrita, uma aproximação feita de sageza e respeito, um exemplo de inteligência literária.
Embora siga vagamente o percurso biográfico de Gogol, saltando por cima de uma infância sem interesse e concentrando-se na forma como o escritor lidou quer com a mãe quer com os seus demónios (expressos na tardia deriva religiosa e no pavor de não concluir a obra-prima que todos esperavam dele), o foco de Nabokov incide quase exclusivamente nas principais obras que o escritor deixou: a peça O Inspector-Geral, o primeiro volume das Almas Mortas e O Capote.
“Antes de Gogol e Puchkin, a literatura russa era cega”, afirma-se. Em oito décimos deste livro magnífico, o que o autor de Lolita faz é uma exegese brilhante do modo como Gogol conseguiu abrir os olhos (ou, se quisermos, os horizontes) de uma língua que parecia conservada no formol do classicismo.
Mais do que nas intrigas, o verdadeiro interesse dos seus livros está nas “curvas da sintaxe” e na forma como vai criando “personagens periféricos” em “passagens que rebentam literalmente de gente miúda que irrompe aos trambolhões e se espalha por toda a página (ou que cavalga a pena de Gogol como uma bruxa a vassoura)”.
O que Nabokov nos dá a ver, através de um meticuloso close reading, é o génio em acção, a abrir caminhos novos e a inverter a lógica racional que nos limita e escraviza. Mudanças de foco, saltos para a frente, deslizamentos, toda esta vertigem pode ser resumida numa frase: “Imagine-se um alçapão que se abre sob os nossos pés com um repente absurdo, e uma rabanada lírica de vento que nos ergue no ar e nos deixa cair com um baque no alçapão seguinte.”
É assim a escrita de Gogol: um “fenómeno de linguagem e não de ideias”. Razão para Nabokov se insurgir contra todas as apropriações, seja de quem o dizia “realista”, seja de quem reduziu a complexidade desta ficção ao mero veículo de uma denúncia de cariz social.
Diante do “mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia”, é inútil tentar resolver enigmas. Mas vale a pena aprender a dizer “Gó-gol” em vez de “Go-gól”. Porque “não se pode esperar compreender um autor se nem sequer se for capaz de pronunciar o seu nome”.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post
O mapa do geógrafo errante

Se me Comovesse o Amor
Autor: Francisco José Viegas
Editora: Quasi
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-552-319-1
Ano de publicação: 2007
Francisco José Viegas é sobretudo conhecido como romancista, director da Casa Fernando Pessoa, cronista do quotidiano e da mesa bem posta ou blogger (dos mais antigos e regulares cá do burgo). Menos lembrada, a sua obra poética permanece numa espécie de segundo plano, o que não deixa de ser uma injustiça — como sabe quem tenha lido as quase 300 páginas de Metade da Vida (Quasi, 2002), volume que reúne todos os seus livros anteriores.
Em Se me Comovesse o Amor, Viegas escreve de um território fora do mundo, um lugar em que a poesia procura legitimar-se através de um absoluto desprendimento. Nos poemas, nada do que nos habituámos a encontrar nos versos de FJV ficou de fora: as elegias para os amigos (Manuel Hermínio Monteiro) ou familiares (uma tia); as subtis descrições de paisagens de outros continentes (o grande Sul, as montanhas, a neve em Ushuaia); o enlevo com “a doçura das coisas”; as elegantes enumerações; um certo fascínio com o que resiste ao olhar do viajante (seja o tango ou o silêncio da noite). Mas depois, pairando sobre tudo isto, há uma dúvida persistente quando ao verdadeiro poder da poesia: “Nenhuma palavra é capaz de dizer adeus com aquela perfeição das coisas que comovem.”
A servir para alguma coisa, a poesia serve para a contemplação: “o poeta / devia interpretar as meteorologias, prever / as tempestades, não dar voz às coisas / do mundo nem às pequenas glórias”. Neste livro melancólico, FJV insinua que a literatura é uma forma de afastamento da realidade concreta do mundo, fazendo de nós “passageiros obedientes” que desconhecem o nome do que “fica no meio das árvores”.
É contra este aturdimento, esta cegueira livresca, que se movem os poemas de Viegas, na vertigem de uma austera imponderabilidade existencial. Aqui não há segredos, não há mistérios, “só um risco no céu, um desígnio, um sinal, um aviso”. O sujeito poético já não faz perguntas e avança através de elipses (os poemas de amor), gozos e sarcasmos (como em O Beijo de um Académico em Paris) ou em voos picados sobre a passagem do tempo e os seus efeitos.
À desconfiança em relação à literatura, seguem-se as dúvidas em relação a si mesmo. O envelhecimento é olhado de frente, na sua obscena crueldade. E com ele o medo de quem vai “acrescentando ausências sobre ausências” e não sabe que herança deixar
aos filhos, “para além dos livros” e das “recordações de aldeia”, enquanto a “morte avisa uma e outra vez, / soletrando o teu nome, aprendendo as tuas sílabas, / o teu caminho, para depois te encontrar mais depressa”.
Evitando as lágrimas e a metafísica, este é o mapa de um geógrafo errante, de um “solitário entre ruínas”, que conta “o número de vítimas” e faz deste volume um dos melhores livros de poesia portuguesa editados em 2007.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post


Receba por e-mail




