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Teia de desencontros

Uma História de Amor no Casal da Eira Branca
Autor: Tomás Vasques
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 31
ISBN: 978-989-97448-4-4
Ano de publicação: 2011

Talvez se trate de mera coincidência, mas não deixa de ser curioso que dois dos primeiros livros lançados pela nova editora Abysmo comecem no mesmo lugar: o lisboeta Pavilhão Chinês, ali para os lados do Príncipe Real. Tal como em O Branco das Sombras Chinesas, «folhetim» escrito a «meelas» por João Paulo Cotrim e António Cabrita no início do século (e agora recuperado às «traças da memória»), o protagonista de Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, também inicia a sua jornada à mesa do referido bar. A diferença é que a «noveleta» de Cotrim/Cabrita logo nos lança numa vertigem sem freio, espiral que nasce de uma orelha cortada e de uma história sombria cheia de derivas, enquanto a brevíssima narrativa de Vasques avança com a placidez serena de quem não tem muito para contar.
Na verdade, o enredo é quase inexistente, limitando-se a mais uma variação sobre a fatídica crise da meia-idade. Após 20 anos de casamento com Joana (uma «ortodoxa comunista»), António farta-se das rotinas, da erosão conjugal e da «labiríntica teia de desencontros», apaixonando-se por Maria, uma mulher muito mais nova. Diante do dilema clássico, reage com aquela cobardia tipicamente masculina («Não estava preparado para abandonar a Joana e os seus dois filhos»), para logo depois receber irónico tiro de ricochete, que precipita um pequeno drama existencial, seguido de happy end em apogeu amoroso.
Resumindo, a história nada tem de novo. O problema é que a escrita – muito seca e explicativa – também não. Falta-lhe rasgo. Salvam-se as belas ilustrações de Susa Monteiro e um apuro gráfico que já se vai tornando a imagem de marca da Abysmo.

Avaliação: 4,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Desertos e desastres

Como se Desenha uma Casa
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-37-1616-0
Ano de publicação: 2011

Volume de poesia reflexiva, nostálgica e depurada, Como se Desenha uma Casa é o primeiro livro de originais que Manuel António Pina publica depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões em 2011. Chegado à «tardia idade», Pina ainda procura o que há de material nos objectos, o sabor do «pão primeiro», mas os poemas reflectem sobretudo a «agonia interminável das coisas acabadas». O tom é de desencanto. Os versos enchem-se de fantasmas, passos ao longe, corpos e nomes que se desvanecem, escombros. O que pulsava deixou de pulsar, extingue-se o canto numa vida «excluída / da clarividência da infância», o poeta atravessa uma paisagem em que tudo se perde ou envelhece, acumulação de «desertos» e «desastres», consciência da «mudez do mundo». Um mundo «onde o Lexotan se tornou literatura» e em que «a porta está fechada na palavra porta / para sempre». Mesmo morrer «não é fácil», porque «ficam sombras nem sequer as nossas, / e a nossa voz fala-nos / numa língua estrangeira».
A escrita de Pina surge neste livro mais rarefeita, «com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso», embora circule pelos temas de sempre: o «rumor» dos livros («É então isto um livro, / este, como dizer?, murmúrio, / este rosto virado para dentro de / alguma coisa escura que ainda não existe»); os labirintos da memória; os gatos (para quem nós, humanos, somos «intrusos, bárbaros amigáveis»); as citações explícitas (Paul Celan, Sá de Miranda) e as escondidas; a «possibilidade de sentido» das estruturas verbais de que se faz o poema (mesmo quando no fim não sobra nada: «Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra»).
Há também evocações de amigos: alguns desaparecidos, quase todos poetas. Na Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte, a despedida transformada em até já – «A gente vê-se um dia destes por Aí» – concentra toda a melancolia que atravessa o livro: «Há apenas agora um buraco aqui, / não sei onde, uma espécie de / falta de alguma coisa insolente e amável, / de qualquer modo, aliás, altamente improvável.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

O mecanismo do mistério

Os Malaquias
Autora: Andréa Del Fuego
Editora: Círculo de Leitores
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-42-4747-2
Ano de publicação: 2011

Depois de ter consagrado alguns dos mais importantes ficcionistas portugueses surgidos na última década (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e João Tordo), o Prémio José Saramago distinguiu, em 2011, Andréa Del Fuego (n. 1975), uma escritora paulista até agora inédita em Portugal. Ao contrário de outros autores brasileiros da mesma geração, como João Paulo Cuenca ou Daniel Galera, mais interessados em mostrar a energia e a violência da sociedade contemporânea, num estilo seco, muito directo, Del Fuego retoma uma certa tradição do fantástico, assumidamente lírica e com marcas regionalistas (sobretudo nos diálogos). A sua força está no facto de abordar essa tradição reinventando-a, recriando-a, procurando nela caminhos novos e uma linguagem original.
Logo nas primeiras páginas, assistimos a uma cena arrancada à memória familiar da autora, cujos bisavós morreram fulminados por um raio. Na versão ficcionada, Adolfo e Donana sucumbem porque no momento fatal os seus corações faziam a sístole, fechando a aorta e a possibilidade de a energia se escoar até ao solo: «O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória.» Mais afortunados, os três filhos do casal – Nico, Júlia e Antônio – tinham o coração em diástole, as vias sanguíneas abertas, e por isso salvaram-se com «queimaduras ínfimas, imperceptíveis». O destino dos órfãos desamparados, com nove, seis e quatro anos de idade, diverge logo ali. Nico, o mais velho, fica a trabalhar para o dono de uma fazenda da Serra Morena. Os outros dois são entregues a diligentes freiras francesas, que os criam e educam, à espera de encontrar quem os adopte. E se isso acaba por acontecer com Júlia, menos sorte tem Antônio (por transportar o estigma de ser anão). Separados os três, o livro acompanha as respectivas trajectórias, as suas desilusões e tormentos, o sonho de um dia se voltarem a juntar como família.
Não é, contudo, pela matéria propriamente narrativa que este romance se distingue. O que o torna fascinante é a escrita de Andréa Del Fuego, o modo como ela desmonta à nossa frente o «mecanismo do mistério», o espanto diante das formas do mundo. Esta é uma prosa elementar, feita de elipses, de frases em que só sobra o essencial (tão no osso que até se prescinde dos artigos), uma forma de narrar que fixa os mínimos detalhes: os cheiros, as texturas, as cadeias moleculares invisíveis, o brilho que as coisas têm quando estamos suficientemente atentos para as ver. Numa festa rural, uma rapariga tímida olha para os rapazes «de frente para trás como quem recebe uma carta por debaixo da porta». Antônio «pouco se lembrava da fisionomia dos pais, ela reduziu-se a pontinhos sem a reta que os alinhavasse». E, muito depois do acidente, num dos órfãos «vestígios do raio ficaram nos olhos, cintilando».
Os Malaquias é atravessado por encontros e desencontros, grandes febres, mortes súbitas, segredos, heranças, elementos fantásticos (o espírito de uma mulher que transita entre os vários estados da matéria, o navio encalhado no cimo da serra), também por choques duros com a realidade palpável e paisagens agrestes onde os velhos permanecem, «terminando de se gastar». Andréa Del Fuego cose estes elementos uns aos outros numa vertigem de capítulos curtos, mas no final ficamos com a sensação de que há demasiadas costuras à vista, linhas soltas, pespontos previsíveis, bainhas desnecessárias. É uma sensação difusa, diga-se, porque as imperfeições e os desequilíbrios da história ficam como que ofuscados pela beleza desta prosa, uma das mais estimulantes de entre as que se escrevem em língua portuguesa hoje em dia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um vazio enorme que cai

Uma Vasta e Deserta Paisagem
Autor: Kjell Askildsen
Título original: Et stort øde landskap
Tradução: Mário Semião
Editora: Ahab
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-97228-3-5
Ano de publicação: 2011

O norueguês Kjell Askildsen, um dos maiores ficcionistas escandinavos da actualidade, foi revelado aos leitores portugueses pela Ahab, em 2010, com Um Repentino Pensamento Libertador, antologia dos seus melhores contos. Numa dessas narrativas curtas (Crias de gaivota), um casal discute a sua relação amorosa de forma elíptica, cheia de não-ditos, enquanto ao fundo a ilha de onde partiram para um passeio de barco à vela se incendeia, materializando a violência implícita no diálogo. Os contos de Askildsen funcionam quase sempre assim: com uma imagem forte no centro, a dar sentido a uma prosa descarnada e agreste, palco para uma visão muito negra (por vezes quase niilista) do que são as relações humanas.
No segundo livro deste autor que a Ahab publica, Uma Vasta e Deserta Paisagem, o equivalente da ilha a arder pode ser um acidente rodoviário, o prego que alguém espeta numa árvore ao regressar de um funeral, uma carta de baralho queimada às escondidas (sem que se perceba bem porquê), um cão morto descoberto na cave e que é preciso enterrar. Símbolos que absorvem a energia malsã que circula entre personagens resignadas à mais extrema solidão, ao mais absoluto desamparo. Um dos contos (O jóquer) começa com um homem a abrir a janela da sala. De pé, calado, ele olha para o jardim das traseiras e escuta o rumor da chuva: «Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio, o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como uma imensa e despida paisagem.»
O vazio enorme cai igualmente sobre os protagonistas dos outros contos: velhos sorumbáticos e misantropos, familiares desavindos, casais incapazes de comunicar, irmãos gémeos que se odeiam. Em comum têm um mesmo sentido da angústia como estado natural das coisas, uma consciência de que o «deserto» entrou de vez nas suas vidas e tornou impossível qualquer espécie de consolo. No momento em que uma personagem se mostra invulgarmente simpática e positiva, outra apressa-se a desvalorizar o arremedo de luz: «quando está sóbrio de certeza que também se sente só e insatisfeito, toda a gente se sente assim, simplesmente não o sabem, ou dão-lhe outro nome».
Este pessimismo radical faz de cada história um verdadeiro soco no estômago. Mas se o soco dói tanto, e por tanto tempo, é porque a escrita seca, precisa e finamente cinzelada de Askildsen exponencia a força devastadora do golpe.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Fiódor em Cabul

Maldito seja Dostoiévski
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Maudit soit Dostoïevski
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-97474-5-6
Ano de publicação: 2011

No momento em que racha o crânio de uma velha com um machado, replicando o célebre gesto de Raskólnikov, Rassul sabe que está a cometer uma espécie de plágio. Ainda antes de a ver caída sobre um tapete vermelho e negro, gradualmente manchado de sangue, «passa-lhe pela cabeça» a história de Crime e Castigo. Atiq Rahimi podia apostar num simples decalque do romance de Dostoiévski, correndo sérios riscos de soçobrar num pastiche pretensioso. Ao fazê-lo como o faz, atribuindo ao protagonista a imediata consciência da emulação de Raskólnikov, mas também um sentimento de impotência e raiva por não conseguir imitar à risca o seu destino, torna muito mais subtil e interessante o jogo da intertextualidade.
Embora replique as traves-mestras da narrativa de Dostoiévski, Rahimi sabe perfeitamente que o Afeganistão dos anos 90, após a retirada das tropas soviéticas, nada tem a ver com a S. Petersburgo do século XIX. Por muito que o crime e os consequentes remorsos se assemelhem, tudo o resto é diferente. A escrita depurada do autor franco-afegão, aliás, preocupa-se mais em sublinhar as diferenças do que as semelhanças. Quando assassina Alia, uma mulher horrenda, agiota e proxeneta, que obrigara a sua noiva a prostituir-se, Rassul pretende não apenas vingar-se mas apropriar-se do seu dinheiro e jóias, com os quais tenciona ajudar a mãe e a irmã, sozinhas após a morte recente do patriarca da família. E é aqui que as histórias se começam a separar. Ao contrário de Raskólnikov, Rassul foge do local do crime de mãos vazias, o que torna algo impalpável e até duvidosa a sua culpa, uma vez que o cadáver e respectivos bens desaparecem misteriosamente – permitindo, até, a hipótese de o crime se ter dado apenas na sua cabeça.
Com o choque emocional, Rassul perde a voz e deambula por uma Cabul de pesadelo que cheira a enxofre e «podridão», sacudida por explosões e dominada pelos «barbudos», mujahedines que depois de expulsarem os soviéticos se digladiam em guerras tribais. Para escapar à «fornalha do ódio» em que se transformou o seu país, Rassul afunda-se nas salas de fumo, por entre nuvens de haxixe, a planar «nos abismos poéticos do cânhamo». Ele sempre preferiu o orgulho à altivez, mas agora sente-se vítima do seu próprio crime, incapaz de lidar com a «lâmina do destino» ou sequer com a ideia de um suicídio redentor. O sofrimento que o rói por dentro, como uma «ferida aberta, incurável», leva-o ainda assim a entregar-se à Justiça, só para descobrir que esta não existe – é um edifício abandonado, vazio, às moscas.
No fim de uma labiríntica sequência de peripécias, Rassul consegue finalmente ser julgado. E a ironia explode-lhe na cara. Porque ninguém se preocupa com o seu crime, a não ser ele. Como lhe explica um comandante militar: «o assassínio é um crime quando a vítima é um inocente. Essa mulher devia ser castigada. (…) Àquilo que fizeste, chama-se vingança. Ninguém tem o direito de te julgar como assassino.» Mais do que sacrificar-se aos seus fantasmas, ele pretende que o seu processo seja um testemunho «sobre estes tempos de injustiça, de mentira, de hipocrisia», e que a punição do seu crime sirva de exemplo, num país em que todos os valores colapsaram.
Muito intensa, muito rápida (abundam as frases curtas, em staccato), muito persa (com fortes imagens poéticas e personagens que contam histórias maravilhosas), a escrita de Rahimi surge ainda mais refinada do que nos livros anteriores, mantendo a sua imensa capacidade efabulatória.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma jornada particular

Lugano
Autora: Tatiana Faia
Editora: Artefacto
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8417-09-1
Ano de publicação: 2011

Nos últimos anos, têm sido muitas as revelações femininas na poesia portuguesa – em flagrante contraste com o que se passa no domínio da ficção. Tatiana Faia, co-editora da revista Ítaca, é mais uma autora que se estreia com uma obra que não parece de estreia, tal a densidade e rigor estilístico dos textos reunidos em Lugano. Veja-se o início do poema que dá título ao livro:

muito entediadamente desceu as escadas
e sentou-se no último degrau, rapaz
de longe alguém te trouxe o hábito
de contar no páramo as estrelas
(…) assim somos trabalhados às vezes
pela mudez que fica em algumas imagens
um rasto de prata uma cor de cinza
a impressão de cores que nos visitam
e não sabemos de onde vêm mas chegam-nos
varridas para a margem por uma coisa concreta.

Esta é uma poesia fascinada com o «espectáculo da linguagem», mas também com o «lugar antes das palavras». Tatiana Faia, que fez Estudos Clássicos na Faculdade de Letras de Lisboa e prepara um doutoramento em Literatura Grega, não esconde a influência das suas leituras naquilo que escreve. Os poemas – quase todos longos, compostos por várias partes que funcionam como um mosaico – são marcados por uma deriva geográfica através da bacia mediterrânica, berço da civilização ocidental, um périplo que passa por Roma, Alexandria, Siracusa, Palermo, La Valleta, Pompeia, Atenas e Jerusalém. Há sempre, na viagem, «uma mala cheia de livros». A literatura impregna a escrita, entra nos versos, seja invocando uma imagem de escadas (vinda de Eugenio Montale), seja pela referência a mitos e narrativas fundadoras (Electra, Jano, Ariadne em Naxos, um hino homérico a Apolo). Não se julgue, porém, que a autora se perde nos labirintos da erudição. Pelo contrário, a sua escrita como que busca uma simplificação do real, pairando sobre os rituais do quotidiano, os êxtases e tribulações do amor, as pequenas nostalgias, o acto de abrir uma romã, a procura de um «gesto que nos dispensasse da fala» ou o registo de alegrias efémeras, como todas as alegrias, distribuídas por «um deus que não sabemos se é generoso».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Matéria negra

O Horizonte
Autor: Patrick Modiano
Título original: L’Horizon
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-0-04335-1
Ano de publicação: 2011

Jean Bosmans, o protagonista de O Horizonte, é um escritor sexagenário que se vê de repente assombrado pela memória de episódios soltos da juventude – tempo em que muitas histórias ficaram como que suspensas na ilusão de um «eterno presente». Num caderno preto, ele aponta essas «nuvens flutuantes» que deslizam «umas atrás das outras», tenta dar-lhes uma ordem, um sentido, levado pela «vertigem» do que «poderia ter acontecido e não acontecera». Na sua vida, esses «fios quebrados» equivalem ao que os astrónomos designam por «matéria escura», a parte invisível do universo que é «mais vasta do que a parte visível». E mais insondável.
De certa forma, O Horizonte acaba por ser um livro de fantasmas, em que pessoas se materializam inexplicavelmente na vida de outras pessoas (como ameaça ou como redenção) para logo se dissiparem, ao ponto de questionarmos se alguma vez existiram. A investigação retrospectiva de Bosmans centra-se em Margaret Le Coz, uma misteriosa rapariga de origem bretã, nascida em Berlim no final da II Grande Guerra, com quem se cruzou por acaso na agitação dos anos 60, em Paris. Este improvável encontro de dois seres desenraizados e frágeis resiste, porém, à linearidade das histórias de amor: «a impressão que me ficou é a de que eu e Margaret viajávamos sempre em comboios noturnos, de tal modo que aquele período das nossas vidas é descontínuo, caótico, entrecortado por uma quantidade de sequências muito curtas sem a menor ligação entre si». Oscilando entre o passado difuso e a lucidez do presente, a narrativa desentranha pouco a pouco uma história de perda (a fuga de Margaret, desaparecida sem deixar rasto) que se transforma, quando menos o esperaríamos, num «horizonte» de esperança.
Intangível, por vezes onírico, de uma subtileza admirável, este belo romance mostra Modiano no cume da sua arte: a arte de ser Modiano. Está tudo lá: a voz, a limpidez do estilo, as obsessões. A nós, que o lemos, cabe-nos agradecer a constância de um escritor maior.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Uma bíblia laica

Em frente a uma papelaria do aeroporto de Frankfurt, vários editores portugueses faziam o balanço da maior Feira do Livro do mundo, que decorreu entre 12 e 16 de Outubro. Os mais veteranos lembravam o frenesi de outros tempos com uma certa nostalgia, inquietos com os sinais da crise, traduzida em menos visitantes, menos stands, menos negócios. «Viram o pavilhão dos americanos? No primeiro dia estava às moscas. Eles quase não fizeram compras – só trouxeram agentes, para vender.» Encolhendo os ombros, os editores portugueses admitiam que também compraram pouco: só títulos muito escolhidos, apostas seguras. «Desta vez nem sequer houve um livro da Feira, daqueles que toda a gente fazia loucuras para comprar», resumiu José Prata, responsável pelo catálogo da Lua de Papel e pelo maior sucesso editorial dos últimos anos em Portugal (O Segredo, de Rhonda Byrne, que vendeu quase meio milhão de exemplares).
Enquanto caminhávamos para o nosso gate, arrastando as malas, Prata falou-me então de um livro recente que lhe encheu as medidas. «Não vai vender muito, claro.» Mas se para alguma coisa servem as Rhondas Byrnes, é para isto: permitir, em paralelo, a edição de um calhamaço de 700 páginas que brilha como uma pérola no meio do lixo esotérico. Título: O Livro dos Livros (The Good Book na versão original, lançada em Abril deste ano no Reino Unido). Autor: o filósofo inglês A. C. Grayling, que dá aulas actualmente na Universidade de Londres, depois de ter ensinado em Oxford, e é visto como o menos virulento dos intelectuais que compõem uma pouco santa trindade de ateus militantes em terras de Sua Majestade – os outros dois, escusado será dizer, são Richard Dawkins e Christopher Hitchens. «Quando o livro sair, dá-lhe uma olhadela, porque acho que vais gostar», avisou o Prata, já na zona de embarque. Assim que foi publicado, em meados de Novembro, dei-lhe a prometida olhadela. Aliás, várias olhadelas. E, de facto, gostei do que li.

O conceito desta obra imensa, fruto de um trabalho de três décadas, é tão simples quanto poderoso: fazer uma espécie de Bíblia, com uma estrutura semelhante, mas em que Deus está ausente. Tal como a original, esta bíblia é composta por vários livros (Génesis, Parábolas, Provérbios, Epístolas, etc.), divididos em capítulos e versículos, mas com fontes seculares, em vez de religiosas. O processo de construção é o mesmo – a colagem de textos de diferentes origens, que criam uma genealogia, uma doutrina e uma ética para a vida humana – só que muito mais abrangente. A ideia surgiu a Grayling quando ainda era estudante universitário e se apercebeu de que os editores da Bíblia, ao escolherem apenas fontes religiosas, estavam implicitamente a renunciar à riquíssima tradição humanista dos gregos e romanos, alguma da qual estava ao seu alcance. No Livro dos Livros, o que Grayling faz é justamente uma compilação dessa outra sabedoria, a que foi excluída da matriz judaico-cristã, num arco que vai dos filósofos pré-socráticos ao século XIX e reúne citações – nunca atribuídas directamente – de pensadores e poetas como Plutarco, Epicteto, Xenofonte, Confúcio, Cícero, Rumi, Petrarca, Hume, D’Alembert, Goethe, Kant, Darwin, Emerson ou Rimbaud. Nas palavras de Grayling, que começou a ler Platão aos 12 anos e acredita que toda a gente pode compreender conceitos filosóficos (desde que devidamente explicados), esta obra é «uma destilação do melhor que foi pensado e dito por pessoas que experimentaram realmente o que é viver, e reflectiram sobre essa experiência».
A principal vantagem de uma estrutura semelhante à da Bíblia está na possibilidade de abrir o livro aleatoriamente e ler versículos soltos. É precisamente isso que faço agora. Livro das Lamentações, Capítulo 10, versículo 28: «Se as crianças viessem ao mundo através de um acto puramente racional, poderia a raça humana ter continuado até hoje?». Livro dos Provérbios, Capítulo 43, versículo 12: «Ao crime bem-sucedido chamamos virtude.» Livro das Epístolas, 5.ª Epístola, primeiro versículo: «O dia, se bem aproveitado, dá para tudo.» Dá para tudo, sim. Até para uma pessoa se perder no labirinto de sabedoria desta obra admirável.

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

A vã cobiça

Quando o Diabo Reza
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 164
ISBN: 978-989-671-100-9
Ano de publicação: 2011

Depois de um excelente livro de contos publicado já este ano (O Homem do Turbante Verde, Caminho), Mário de Carvalho regressa às lides com um texto que podemos designar como romance curto ou novela avantajada: Quando o Diabo Reza, segundo título da nova colecção de ficção portuguesa da Tinta da China. Avesso às tipologias habituais, o autor preferiu chamar-lhe «vadiário breve» (e não faltam vadios e vadiagens nestas páginas), como a outros livros chamou «cronovelemas», mas tais epítetos são o que menos importa quando estamos na presença de um prosador de tão alta estirpe. Mário de Carvalho até podia escrever sobre a vida sexual das moscas da fruta, a arte de coser redes de pesca ou o funcionamento da bolsa de valores de Tóquio. Fosse como fosse, brilharia a escrita, esse manejo da língua portuguesa que é sempre um verdadeiro festim, um antecipado regalo.
Desta vez, a trama novelesca resume-se a uma divertidíssima e sarcástica aproximação a vários tipos de cobiça, com o furor de uma campanha eleitoral em fundo. No centro da narrativa está um velho endinheirado, dono de várias drogarias de bairro, cuja fortuna tolda a cabeça das duas filhas: Beatriz, em ânsias de visitar Cuba (cenário das suas fantasias eróticas), e Ester, que traz na ideia o sossego de viver numa casa de campo com telha preta. Paralelamente, Abreu, um bom malandro em liberdade condicional, engendra tortuoso plano para se apropriar do património do velho, esquema que envolve um pintas bem falante (Bartlo) e uma moça voluptuosa (Cíntia), ambos devidamente enfarpelados. Sem grande surpresa, no fim todos ficam a arder, tanto familiares como larápios, mas o gozo está todo no modo como somos conduzidos, de trapalhada em trapalhada, até esse previsível desfecho. Um gozo que é antes do mais vocabular: «No fundo, invejava aquele desembaraço com que Bartlo, em abancando, estendia as pernas, levantava a mão a meia altura, e vá de palavrear e enfiar histórias, magnetizando quem estivesse em volta. Não era grande cabeça pra meditar, mas tinha uma boca de ouro para a palradeira.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Às arrecuas

Poemas Novos e Velhos
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-972-23-4613-9
Ano de publicação: 2011

Ficcionista, ensaísta e titular da Cátedra Camões do King’s College (em Londres), Helder Macedo é também poeta com uma obra significativa, mesmo se menos visível do que a restante bibliografia. O essencial desse trabalho poético, iniciado há 55 anos e disperso por livros nalguns casos difíceis de encontrar, acaba de ser resgatado pelo autor na antologia Poemas Novos e Velhos. Aos poemas inéditos, Macedo colocou-os logo a abrir, retrocedendo no tempo a partir daí, numa espécie de cronologia invertida que vai, não sem uma certa coragem, mostrando o caminho percorrido às arrecuas, desde a sageza do criador maduro à energia em estado puro das primícias.
Começamos então pelas Colagens de 2010-11, poemas de síntese e rigor prosódico, atravessados por ecos camonianos e uma aproximação à ideia do fim, a morte que ronda, deixando vazia a mesa dos amigos: «Já se foram todos / quase todos / (…) um dia destes alguém vai-me telefonar / com a notícia / de que também eu». O tom é de resignada melancolia, consciente de que «Este vai ser / talvez / o meu último poema // ou talvez não». A «finita eternidade» permite sempre um recomeço, «porque tudo é só como parece / e é sem cura».
Vem depois a luz triste, desolada, da Viagem de Inverno (o seu melhor livro), com o «certo entendimento / de que as vidas são feitas / no perdê-las»; a revisitação das mitologias clássicas (Penélope, Orfeu) ou bíblicas (Os Trabalhos de Maria e o Lamento de José); mais os poemas longos da juventude, cheios de «chama» e desafio à «face agreste do mundo» («ergui-me vertical / para dizer-te / existes porque sou»).
O mais espantoso é verificar como os temas de Macedo se mantêm constantes no arco de meio século: sempre a tensão entre Eros (o amor sensual) e Thanatos (a «matéria da morte / de que tudo é feito»), o jogo dos espelhos, as fronteiras, os bloqueios, a demanda identitária. Num poema de Vesperal (1956/57), está já implícito o fecho do círculo: «Serei a minha ausência e o seu indulto / reinventando a minha liberdade / como um sarcasmo, um passatempo e um culto.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Os mil degraus do verso

Vozes
Autora: Ana Luísa Amaral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-20-4781-4
Ano de publicação: 2011

No ano passado, Ana Luísa Amaral reuniu a sua obra poética completa num só volume (Inversos. Poesia 1990-2010, D. Quixote); coordenou uma edição anotada das Novas Cartas Portuguesas (na mesma editora); e traduziu, para a Relógio d’Água, Cem Poemas da norte-americana Emily Dickinson. Hiperactividade ou mera coincidência de projectos autónomos? Provavelmente coincidência. O certo é que ALA mal deixou que a poeira assentasse sobre Inversos e temos já nova obra original, Vozes, mais um exemplo da pujança criativa da autora.
Muitos dos poemas deste livro circulam por paisagens reconhecíveis: os ritmos do quotidiano, as epifanias domésticas, o rasto de coisas «evanescentes» que se guardam «por comovidas gavetas e memórias». Mas há também outras atmosferas. Por exemplo, o lirismo sossegado dos oito fragmentos sobre os Açores, como que a pairar sobre a geologia das ilhas, intuindo a criação do mundo na beleza agreste do basalto. Ou os «apontamentos» aéreos, escritos num avião, mais alto do que as nuvens («como exércitos / pintados»), por entre referências ao triste fim de Ícaro.
A escrita de ALA tem quase sempre uma dimensão lúdica, de experimentação e prazer no trabalho da linguagem, que neste livro se cruza com uma espécie de ventriloquismo, uma vontade de se aproximar (e, nalguns casos, de se apropriar) de outras «vozes», sejam elas estritamente poéticas (Rilke, Camões, Bocage) sejam históricas (Galileu na sua torre; D. Dinis e os navegadores que abriram caminho para novos mundos; ou Pedro e Inês imaginados na velhice, num delicioso exercício de ironia em que o desejo carnal do rei se reduz ao «bom bife / de javali macio», tendo ficado há muito para trás a «fantasia peregrina» de «ver Inês em esquife»).
Muitas vezes, esta desarmante ironia, espécie de antídoto para a solenidade, começa logo nos títulos (Junto a um levíssimo pormenor de estilo ou Gato em apontamento quase barroco e de manhã de sábado). Tudo se joga, afinal, «no avesso / das palavras // que não chegam / – mas cegam». Tudo se resume a «subir a pulso / os mil degraus do verso, / e não voltar / atrás», sem perder de vista que os «estados da matéria» são ambíguos: «Mas nem isto é balada nem estão certas as sílabas / em poema que agora nem sólido, nem líquido.» Indeterminados ou não, os poemas nunca deixam de exibir um certo requinte no acabamento. Como no «quase soneto» onírico que termina assim: «E esse corpo adormece ao nosso lado, / depois de tudo o resto acontecido // – que nunca acontecera, se acordado.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

A memória dos mortos

Anatomia dos Mártires
Autor: João Tordo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 271
ISBN: 978-972-20-4875-0
Ano de publicação: 2011

Logo na primeira página do quinto romance de João Tordo, surge uma espécie de linha de força programática: a ideia de que a nossa existência é «indissociável da memória dos mortos». Quando os queremos resgatar ao esquecimento, ou aos equívocos da História, eles acabam «por assombrar o resto dos nossos dias». É precisamente isso que acontece ao narrador de Anatomia dos Mártires. Jornalista ambicioso, à espera de uma oportunidade para brilhar no suplemento de fim-de-semana, ele decide abordar o tema do martírio num artigo em que associa Catarina Eufémia — a camponesa assassinada em Baleizão, símbolo da resistência anti-fascista — ao suicídio de um místico americano, que saltou do 37.º andar de um prédio em Nova Iorque com um manuscrito amarrado ao peito (segundo o qual o verdadeiro silêncio é o único caminho de aproximação a Deus e aos seus desígnios).
O artigo desperta uma onda de protestos que ganham uma dimensão preocupante quando Raul Cinzas, o editor-chefe do jornal, entra em coma depois de ser atacado na rua por desconhecidos. Cinzas, conhecido por ser um «velho comunista» (mas menos empedernido do que aparenta), saíra em defesa do «jovem» arrogante e este, ainda aturdido com a magnitude das reacções ao texto e com o ataque ao seu superior hierárquico, decide lançar-se numa investigação séria sobre a história de Catarina Eufémia. Para compreender o presente, ele sente que é preciso esclarecer o passado, mas depressa se descobre perdido num «labirinto cheio de espelhos». A partir das muitas versões contraditórias sobre os acontecimentos de 19 de Maio de 1954 – da questão da suposta gravidez da ceifeira aos gestos exactos do assassino (o tenente Carrajola, da GNR) – impôs-se uma narrativa que sobrepõe a «Catarina-mártir» (desde então o símbolo maior da luta comunista no Alentejo) à «Catarina-mãe» ou à «Catarina-mulher», predispostas estas a viver e não a morrer. Cinco décadas após os acontecimentos, o resgate da Catarina real – a de carne e osso, não a lendária – é impossível. Porque atrás do mito não há nada: ele assenta apenas em «meias-verdades» e em «meias-mentiras» que conduzem inevitavelmente ao «cepticismo mais absoluto ou ao dogmatismo mais desenfreado».
Enquanto se entrega à busca obsessiva de um sentido para a história da ceifeira que morreu a exigir um pagamento justo para o trabalho duro, mas também paz, o narrador coloca entre parêntesis as outras frentes da sua vida: o romance com Lorna Figgis, uma irlandesa cheia de segredos; a relação conflituosa com o pai (um antigo maestro à beira da loucura, sempre a escavar o fosso geracional que o separa do único filho); os encontros tensos com Tom Kapus, o biógrafo de Francis Dumas, o tal suicida místico americano; ou a amizade com Afonso, um gestor de investimentos em fundos que perdeu tudo com a crise financeira mundial (tema que atravessa o romance de ponta a ponta, como um inquietante ritornelo).
A dada altura, o protagonista convence-se de que resolvendo o mistério de Eufémia, a mártir involuntária alentejana, poderá encontrar a «chave» para as suas restantes histórias. Pura ilusão. O mistério não se resolve, pelo contrário. E é ele que se deixa apoderar pela «funesta sombra de Catarina», como outros se tinham apoderado dela antes. Só depois de dar quase tudo por perdido – o emprego, o amor, as expectativas de conseguir transformar a morosa investigação num livro – é que a libertação surge, num final épico e optimista, com vozes ao alto, bandeiras ao vento, promessas de sublevação e a memória dos mortos finalmente resgatada.
João Tordo conhece bem as técnicas narrativas, sabe criar conflitos entre as personagens e domina a difícil arte do diálogo. A prosa, porém, ressente-se de uma certa rigidez estilística, do abuso de adjectivos, de uma grandiloquência nem sempre justificável e da vaga sensação de que tudo nesta escrita obedece a uma fórmula. Os livros de Tordo são densos, coesos, eficazes, mas muito construídos, muito certinhos, pouco dados à saudável subversão das regras e dos códigos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O poeta asceta

O Som do Sôpro
Autor: António Barahona
Editora: Poesia Incompleta
N.º de páginas: 142
Depósito legal: 325043/11
Ano de publicação: 2011

Em O Som do Sôpro, o cinzelado volume que António Barahona decidiu publicar com chancela da livraria Poesia Incompleta, assistimos a uma curiosa rebelião ortográfica. Numa altura em que o fatídico Acordo começa a ser aplicado no mundo editorial, Barahona recusa-se a pactuar com as novas regras. Mas, ao contrário de outros autores que também continuam a escrever como sempre escreveram, ele vai mais longe: em vez do questionável passo em frente, dá ostensivamente um passo atrás, recuperando grafias que a norma anterior já tinha banido, como «éther», «lucta», «hymno» ou «saüdade». E se há aqui um efeito de estranheza (o vocabulário aproxima-nos de Camilo Pessanha), ele faz todo o sentido no contexto da rigorosíssima poética do autor.
Central neste processo é a procura da sonoridade certa («o som em carne viva», o «som do sôpro / primordial») que obriga o poeta a uma «constante reescrita do poema», subindo a escada da «lenta e dolorosa» aprendizagem, cujos últimos degraus só a Deus pertencem. «É por causa do som que o vate vive», explicita Barahona, que muitas vezes procura no soneto a forma perfeita («como a roda, o cubo e o triângulo»), num esforço de pura oficina que procura alcançar «fulgor e limpidez verbal» – embora na «convulsiva tarefa» de esculpir a beleza (por exemplo, pondo «em verso / obscuro» a «claridade do fim do dia») acabe muitas vezes por ser o «escultor» a ser esculpido «até ao escalpe». O «gesto d’escrita» constrói um universo, mas também implica despojamento: «O poeta / é um asceta / que renuncia ao oiro do mundo / mas não aos frutos da Terra».
Na sua qualidade de muçulmano zeloso, para quem a «total entrega ao Alcorão» está acima de tudo, Barahona dedica muitos poemas a louvar o Profeta ou a descrever os rituais nas mesquitas de Lisboa. Mais interessantes, porém, são as suas aproximações ao amor, com forte carga erótica, muito na linha da tradição oriental: «O teu corpo é mais belo na minha cama / do que um céu de alegria sobre o mundo.» Na quarta parte do livro, talvez a melhor, é a memória dos mortos que se impõe, mas sem rasto de lágrimas, «a menos / que sejam d’alegria, em versos plenos / de fúnebre alabastro». As várias evocações de amigos perdidos têm o seu vértice num poema extraordinário, Memória do Café Gelo, em que se recupera a célebre tertúlia de «conversas incendidas, sismo a sismo, / no desabar da época», com Barahona a ver-se adolescente no meio do grupo de poetas, sentado «quase à margem / numa fresta de céu».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Onze metros quadrados

O Quarto de Jack
Autora: Emma Donoghue
Título original: Room
Tradução: Cristina Correia
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 333
ISBN: 978-972-0-04343-6
Ano de publicação: 2011

A escritora irlandesa Emma Donoghue inspirou-se em várias histórias de sequestro prolongado – Elizabeth Fritzl, Natascha Kampusch, entre outras – para construir um romance intenso sobre o mal absoluto e a resiliência humana, sobre os abismos do trauma psicológico e o poder do amor. Mesmo sem ter vencido nenhum dos grandes prémios literários para que foi nomeado (chegou à shortlist do Man Booker e do Orange Prize), o livro fez parte das listas dos melhores de 2010 na imprensa internacional. E com toda a justiça.
Aos cinco anos, a única realidade que Jack conhece é a do quarto minúsculo (11 metros quadrados) onde nasceu e de onde nunca saiu. Quando foi raptada, sete anos antes, a mãe ainda adolescente sujeitou-se a todo o tipo de abusos por parte de Nick, o homem que a escondeu num barracão ao canto do jardim das traseiras de sua casa. Para Jack, o universo acaba nas paredes do quarto. O Lá Fora, que vai entrevendo nos programas de televisão, tem qualquer coisa de fantasmagórico, como se não fosse verdadeiro. A única realidade real é a que pode tocar e sentir, a realidade dos objectos que são nomeados com maiúscula: a Cama, o Candeeiro, a Banheira, a Clarabóia, o Tapete.
Jack não se sente preso porque nunca saiu daquele espaço fechado, ao mesmo tempo útero e caverna de Platão. Sabe que Nick existe porque o ouve à noite, fazendo ranger a cama da mãe, enquanto ele se esconde no Guarda-Fatos. A mãe, não. A Mamã. Entre tantos arquétipos, ela é o arquétipo absoluto, o alfa e omega. A relação entre mãe e filho – quase fusional (Jack ainda mama) – ocupa todo o espaço afectivo e físico das respectivas vidas, coagula o próprio tempo. Mas o idílio simulado, feito de rotinas e rituais que reforçam uma cosmogonia a dois, torna-se insustentável. A mãe acaba por não conseguir esconder a dor, a angústia e a necessidade da fuga.
Donoghue foi muito inteligente na escolha do narrador. Tudo o que acontece, tanto na claustrofóbica primeira metade do livro (sobre a clausura no Quarto) como depois da libertação, surge na primeira pessoa, contado por Jack. E o que temos é uma voz que nos fascina e perturba, uma voz que normaliza o horror do cativeiro com uma desarmante lógica infantil. São essa voz e essa lógica, captados de forma muito subtil por Donoghue, que fazem deste romance um notável exercício de linguagem (inventivo sem deixar de ser verosímil) e uma investigação lúcida sobre a forma como uma criança se pode desenvolver no isolamento total, sem interacções sociais e dependente do amor materno.
Quando Jack encontra por fim o grande mundo, o leque de personagens amplia-se, a tragédia ganha outros contornos (com o colapso da mãe) e a narrativa perde algum foco, sobretudo quando deriva para uma crítica da previsível vampirização da história por parte dos media. O choque com a realidade é tremendo e Jack acaba por oferecer uma compreensível resistência à mudança. Ao integrar-se na sociedade, ao autonomizar-se da mãe, a criança sofre de uma só vez todas as dores de um crescimento adiado. Donoghue revela-nos com delicadeza os cambiantes deste embate e fecha o livro com uma espantosa cena de despedida, em que Jack, de regresso ao Quarto, diz adeus àquele espaço que agora parece mais pequeno («Encolheu?»), um inferno que para ele foi o jardim do Éden. «Olho para trás mais uma vez. É como uma cratera, um buraco onde algo aconteceu. Depois, saímos pela porta.» E é como se finalmente, cortado o cordão umbilical, pudesse verdadeiramente nascer.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Balada dos desterrados

O Retorno
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-671-098-9
Ano de publicação: 2011

Até agora, quase 40 anos após o processo da descolonização, ainda não aparecera um grande romance português capaz de contar, como merece ser contada (isto é, sem enviesamentos ideológicos ou saudosismos serôdios), a história do difícil regresso de meio milhão de pessoas à metrópole, nos tempos mais conturbados da década de 70. O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), é esse romance.
A autora não defende nem condena os «desterrados», antes ilumina o que acontece a uma família em dois momentos muito concretos: aquele em que já se perdeu tudo (saída de Angola) e aquele em que ainda não se tem nada (os primeiros meses de impasse, num hotel do Estoril, à espera de refazer a vida). O que se passou antes e depois é como se não existisse, está fora de campo. Dulce Maria Cardoso evita explicar o passado ou antever o futuro das suas personagens. O que lhe interessa é apenas aquele estranho purgatório em que caíram, o limbo entre existências diametralmente opostas.
Para reforçar este efeito de transitoriedade, quem conta a história é o mais novo da família, um adolescente que se encontra, também ele, entre dois mundos: a infância e a vida adulta. Com uma voz narrativa ainda à procura do tom certo, fugidia e por vezes caótica («não consigo mandar naquilo em que penso»), Rui absorve um turbilhão de acontecimentos, mas mostra-se muitas vezes incapaz de lidar com tanta realidade. Ele já tem barba (embora não justifique ida ao barbeiro), já fuma às escondidas, já aprendeu a guiar, já experimentou o sexo com raparigas negras, mas falta-lhe estofo emocional. Quando o pai é preso à sua frente, confundido com um branco assassino, desmaia – e nunca se perdoará por essa cobardia. A experiência na metrópole acaba por ser também a crónica do seu crescimento, da sua autonomia, embora ele nunca abandone uma certa candura que dá consistência e verosimilhança ao relato.
O primeiro capítulo é exemplar na forma como materializa a perda total de quem se vê obrigado a fugir de uma terra que considerava sua. A mãe de Rui, psicologicamente instável, cercada de demónios íntimos que os comprimidos não conseguem afastar, prepara as poucas malas para o voo da noite, enquanto o pai, frustrado por não se ter rendido às evidências em devido tempo, vai arrancando com uma faca as dálias bordadas na toalha do almoço. Ele quer queimar tudo, a casa e os camiões que explora, para que os «pretos» não se fiquem a rir. E há um silêncio que paira sobre todas as coisas (a guerra, a doença da mãe, a consciência de que «Angola acabou»), o silêncio que Rui encontra nos quintais vazios das redondezas, com «pneus quietos nas árvores como se fossem olhos parados no ar a fazerem-nos perguntas».
A chegada à metrópole, «acanhada e suja», de ruas estreitas «onde parece que nem cabemos», representa um choque: «era como se estivéssemos a entrar no mapa que estava pendurado na sala de aula». Com quartos a abarrotar de gente – restos humanos do «império cansado, (…) derrotado e humilhado», sempre a evocar idílios coloniais e a maldizer os políticos «traidores» –, a atmosfera do hotel torna-se irrespirável. A espera «faz com que os dias pareçam emperrados uns nos outros» e dificulta a integração na sociedade, na escola, no quotidiano de um país a meio de um processo revolucionário.
Há muitas coisas que Rui ignora. Sobre a passagem do pai pela prisão, sobre os demónios da mãe, sobre o amor. Na véspera do tão aguardado reinício, porém, os seus horizontes abrem-se como a paisagem que avista do terraço do hotel. E Dulce Maria Cardoso fecha o romance como o começou: demonstrando uma precisão narrativa e uma clareza de estilo absolutamente admiráveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Memorial do estaleiro

Nascimento de uma Ponte
Autora: Maylis de Kerangal
Título original: Naissance d’un pont
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Teorema
N.º de páginas: 278
ISBN: 978-972-695-971-7
Ano de publicação: 2011

Durante muitos anos, houve quem explicasse o declínio do estatuto e influência da literatura francesa em Portugal – enormes há meio século, quase nulos hoje – com a conjugação de dois factores. Por um lado, a hegemonia cada vez mais notória da língua inglesa nos principais circuitos de consumo cultural. Por outro, um fechamento de horizontes dos próprios autores do Hexágono, incapazes de fugir a um certo pendor solipsista (como se a realidade não fosse além dos dilemas existenciais de quem vive em apartamentos modernos na rîve gauche parisiense). Se o primeiro factor é indesmentível, o segundo nem por isso. Aliás, o estereótipo do umbiguismo à solta em Saint-Germain des Prés não passa disso mesmo: de um estereótipo. Ou de uma parte tomada pelo todo. Além dos consagrados que são excepções à suposta regra (Le Clézio, Quignard, Echenoz, entre outros), há muitos novos autores que demonstram a vitalidade e diversidade da ficção francesa contemporânea. Felizmente, alguns deles começam a ser publicados por cá. Depois de Mathias Énard (Zona, Dom Quixote) e Laurent Binet (HHhH, Sextante), duas magníficas surpresas, apareceu de rompante este notável Nascimento de uma Ponte, de Maylis de Kerangal, justíssimo vencedor do Prémio Médicis de 2010.
A ponte a que o título se refere é um projecto de enorme envergadura (seis faixas de rodagem, quase dois quilómetros de comprimento, torres altíssimas, tabuleiro suspenso, tudo desenhado por um arquitecto de renome), obra de rasgo que promete colocar no mapa a imaginária cidade californiana de Coca, da qual «nunca ninguém ouviu falar». Fascinado com o novo-riquismo urbanístico do Dubai, o mayor aposta forte na ideia de expansão, acredita que é uma espécie de Médicis, um «príncipe mecenas de capa de veludo», e quer vencer a barreira que separa as duas margens em tudo opostas: de um lado, o crescimento económico vertiginoso; do outro, a floresta quase virgem, ainda habitada por tribos de índios. Paisagem dentro da paisagem, aquele «bloco de energia bruta» é um hino à engenharia e um delírio de grandeza («como um enorme desejo num corpo muito pequeno»).
Nas mãos de Kerangal, a ponte assume-se como uma metáfora da globalização, um íman que atrai operários especializados vindos de todo o mundo – dezenas de personagens que existem enquanto unidades narrativas autónomas, mesmo se nalguns casos reduzidas à escala mínima do parágrafo. O livro organiza-se como o relato exaustivo de uma «epopeia técnica», com a sua «movimentação colectiva», mas a autora, para lá da «mecânica gigantesca» do estaleiro, também nos oferece uma espécie de poética do trabalho, visível no modo como o texto assimila, nas suas frases longas, muito bem cinzeladas, as dinâmicas e ritmos próprios da construção (a prosa é pulsátil, voluptuosa, belíssima).
Enquanto crescem os pilares da ponte, alarga-se o alcance da gesta narrada. Kerangal não se limita a descrever as contingências da obra: múltiplos atrasos (por causa do clima agreste ou da nidificação de aves migratórias); acidentes; ameaças de greve; uma hipótese de atentado. Vai mais longe, recuperando a história mítica da cidade, hoje «dopada pelo suor e pelo dinheiro», mas outrora apenas a materialização do sonho árduo dos pioneiros que desbravavam a natureza, a caminho do mirífico Oeste. E vai também mais fundo, aproximando-se em zoom das personagens, entrando nelas, nos seus pensamentos e memórias, nas suas histórias passadas, nos seus amores improváveis. Há em Nascimento de uma Ponte um sopro épico, mas o fulgor da escrita nunca ofusca a sua dimensão humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Dentro da vida

Poesia Reunida
Autor: João Luís Barreto Guimarães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 314
ISBN: 978-972-564-971-8
Ano de publicação: 2011

As edições que reúnem a obra completa de um poeta num só volume têm duas grandes vantagens. A primeira é permitir-nos o acesso a livros que não adquirimos em devido tempo e entretanto desapareceram das livrarias. A segunda é a leitura da obra como um todo, com as suas evoluções, rupturas, continuidades.
No caso de João Luís Barreto Guimarães, autor de sete livros, a Poesia Reunida permite assinalar três fases no seu percurso (ou «três andamentos distintos», como sugere José Ricardo Nunes, num excelente posfácio). O núcleo inicial corresponde aos três primeiros livros (1987-1994), nos quais JLBG explorou com grande sentido lúdico um modelo clássico (o soneto), sujeitando-o a todo o tipo de experimentações. Vemos assim surgir poemas com formas geométricas; com errata; com enigmas e respectiva solução no fundo da página; poemas que se ligam e apagam; um que está riscado como certos discos antigos; ou ainda um outro sem o ‘b’, porque «faz um mês que se perdeu / a tecla da letra» na Corona Four, «uma azerty americana já com uma certa / idade». Há depois um belo livro de poemas em prosa, Lugares Comuns (2000), escrito durante um ano, sempre à quinta-feira, no Café Corcel (Porto). Exemplar na arte da observação, o poeta recolhe acasos e gestos, pequenas epifanias, histórias breves, o trabalho da melancolia. Uma melancolia que ganha terreno na terceira fase, a dos últimos livros, muito atentos aos rituais quotidianos, aos estragos que a rotina provoca nos corpos e nos espaços domésticos, ao confronto com a ideia da morte e da perda.
Por muito que JLBG, médico de profissão, afirme que a poesia é uma «doença» que não se deseja a ninguém, a verdade é que ele só sabe escrever «de dentro da vida» e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Crónica de uma orelha perdida

O Branco das Sombras Chinesas
Autores: João Paulo Cotrim e António Cabrita
Ilustrador: João Fazenda
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 78
ISBN: 978-989-97448-0-6
Ano de publicação: 2011

No verão de 2001, João Paulo Cotrim e António Cabrita assinaram no Diário do Notícias um «folhetim a meelas». Escrita a prestações, a «noveleta», com os repentes e solavancos próprios de quem não sabe muito bem para onde seguir, era uma daquelas histórias encomendadas que os jornais de vez em quando se lembram de oferecer aos seus leitores nos meses mais quentes, em parte para desenterrar uma tradição oitocentista, em parte para fintar a falta de notícias e a trivialidade da silly season (entretanto extinta – e muito bem – por uma crise que não está para brincadeiras).
Agora, passada «uma década de misérias», os autores voltaram ao intempestivo «divertimento rabelaisiano» e perceberam que «não se esgotava na paródia e exibia ainda alguma energia genesíaca», motivo mais do que suficiente para o reabilitar das «traças da memória». A edição é cuidada (bom papel, cadernos cosidos), inclui magníficas ilustrações de João Fazenda e marca o lançamento auspicioso de uma nova editora: a Abysmo (com ‘y’, que «escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal», como avisou Teixeira de Pascoaes).
Ora, justamente, em O Branco das Sombras Chinesas nada é banal. Nem o enredo, que mete orelhas perdidas, tráfico de arte, malandrins e galdérias, esquemas de corrupção, sovas épicas, crimes ambientais e uma fantástica chuva de símbolos comunistas; nem as personagens, desenhadas a traço grosso mas firme, em precioso contraluz; nem sobretudo a linguagem, toda ela um primor de invenção e risco, ora delirante, demorada, barroca, como que à deriva, ora capaz de cortar rente e desembrulhar a trama quando é preciso.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A Ocidente do Oriente

Lendas da Índia
Autor: Luís Filipe Castro Mendes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 160
ISBN: 978-972-20-4629-9
Ano de publicação: 2011

Interrompendo um longo hiato de uma década – o livro anterior, Os Dias Inventados (Gótica), é de 2001 –, Luís Filipe Castro Mendes volta à poesia com Lendas da Índia. Um excelente regresso, em que a deriva geográfica do seu percurso profissional, ao serviço da diplomacia portuguesa em vários cantos do planeta, se transforma na «matéria chã» que fixa, mais do que uma visão do mundo, uma experiência dos lugares. Ou melhor, uma aproximação ao modo como a descoberta de outros países e culturas se reflete na consciência que o sujeito poético tem de si mesmo. Veja-se este poema escrito em Paris, cenário de uma bifurcação existencial borgesiana: «Quem eu fui há vinte anos / veio hoje tomar-me do braço e perguntou: / o que fizeste de mim? // Respondi-lhe: fiz tudo quanto deixaste / que eu pudesse fazer. // A sombra sorriu de troça. / E desapareceu. // (Ainda preciso de desculpas / para tudo o que não fiz.)».
Das 14 partes em que o livro se divide, oito evocam a passagem do diplomata pela Índia. Mas esta não é a Índia do exotismo, aquela que se abre aos olhos estrangeiros como uma flor misteriosa ou um segredo místico. O Oriente de Castro Mendes traz consigo a distância e a perplexidade do ocidental para quem «tudo nos é tão estranho aqui». Do anoitecer no Ganges, com os ghats preparando as piras funerárias, às chuvas das monções, aos ventos abrasadores do deserto e à «contemplação do lixo» (símbolo de uma «dividida modernidade»), das estátuas sorridentes nos templos de Angkor (Camboja) ao «incenso e bosta de vaca» junto às imagens de «deuses toscos» numa rua de Nova Deli, a poesia está «na aspereza das coisas contra nós». O poema acaba por ser o «saldo do dia», resgate de «tudo o mais que não fica na memória», e também um «acontecimento», o reverso da afasia, a instância onde as coisas se dizem, à procura do que um dia se perdeu.
Umas vezes subtil, outras oblíquo, Castro Mendes dialoga com a História, com a ideia da morte, com outros poetas (sobretudo Camilo Pessanha e Camões), mas os seus versos viram-se sobretudo para dentro, para uma «nostalgia sem objecto», consciente de que «o que verdadeiramente importa / é opaco ao nosso olhar» e está no «sopro antes da voz».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

O sr. Dodgson vai a Moscovo

Diário de uma Viagem à Rússia em 1867
Autor: Lewis Carroll
Título original: The Russian Journal
Tradução: Paula Reis
Editora: Teorema
N.º de páginas: 84
ISBN: 978-972-6959-75-5
Ano de publicação: 2011

Aos 35 anos, Charles Lutwidge Dodgson, professor de Matemática em Oxford, hoje mais conhecido pelo pseudónimo literário (Lewis Carroll), fez a sua única viagem ao estrangeiro. Atravessado o canal da Mancha, seguiu até Moscovo, passando por Bruxelas, Colónia, Berlim, Königsberg e São Petersburgo (à ida) e por Varsóvia, Breslau, Dresden e Paris (à volta).
Pelo caminho, a atitude foi a do turista informado mas snobe – alguém que olha britanicamente de cima para tudo. Dodgson menciona hotéis e ementas, idas ao teatro e concertos em jardins, o esplendor dos museus e das torres panorâmicas. Narra também tormentosos trajectos de comboio, episódios caricatos (quase sempre envolvendo discussões com cocheiros ou empregados de mesa), encontros falhados e muitos obstáculos linguísticos (numa das cenas mais divertidas do livro, tem mesmo de recorrer à «escrita hieroglífica»).
Talvez devido à companhia – Henry Liddon, um amigo católico devoto – ou ao facto de ser diácono da Igreja Anglicana desde 1861, o interesse de Dodgson foca-se muito nos templos e no fausto das cerimónias religiosas, embora «quanto mais se assiste a estes serviços sumptuosos, com os seus inúmeros apelos aos sentidos, mais uma pessoa aprende a apreciar o serviço da igreja anglicana, sóbrio e simples (mas a meu ver muito mais real)».
No fundo, o que nos espanta neste diário seco, contido, pouco mais do que descritivo, é ter saído da pena de um autor que publicara, dois anos antes, uma aventura de prodigiosa imaginação (Alice no País das Maravilhas). Quem foi à Rússia foi mesmo Dodgson. Lewis Carroll ficou para trás, à espera nos «brancos penhascos da velha Inglaterra».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma tragédia em surdina

Vieram como Andorinhas
Autor: William Maxwell
Título original: They Came like Swallows
Tradução: Rita Almeida Simões
Editora: Sextante
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-25-2271-7
Ano de publicação: 2011

No ano passado, a Sextante colmatou uma estranha lacuna editorial, ao publicar pela primeira vez no nosso país um livro de William Maxwell (1908-2000), extraordinário escritor que ficou essencialmente conhecido por ter editado a ficção da revista New Yorker durante quatro décadas, embora hoje muitos lhe reconheçam um lugar de destaque na história da literatura norte-americana do séc. XX. Depois do último romance (Adeus, Até Amanhã), sobre os erros do passado que podem perseguir-nos uma vida inteira, chega agora o segundo, Vieram como Andorinhas (bem traduzido por Rita Almeida Simões), um prodígio de delicadeza estilística e precisão narrativa, escrito quando Maxwell ainda não chegara aos 30 anos.
A acção do livro decorre numa pequena cidade do Illinois, durante a grande epidemia de gripe espanhola (1918). Maxwell começa por nos mostrar a vida dos Morison pelos olhos de Bunny, oito anos, o benjamim da família. Para a criança, a casa é um universo que se submete aos caprichos da sua imaginação. Os sons, as sombras, os reflexos nas janelas, os padrões dos tapetes, tudo ganha uma dimensão mágica. Mas depois há a realidade propriamente dita, esse nebuloso mundo dos adultos que Bunny, mesmo quando finge dormir e fica a ouvir as conversas dos crescidos, não consegue discernir. Porque eles comunicam através de «acenos e silêncios», dizendo as coisas por meias palavras ou nem isso (para o rapazinho, a gravidez da mãe só se torna evidente quando ela se põe a coser o que pareciam panos de cozinha e afinal são fraldas).
Mesmo quando transfere o ponto de vista para Robert, o filho mais velho (marcado pelo acidente em que perdeu uma perna), e para James, o pai austero, Maxwell nunca abandona este registo de absoluta contenção expressiva, em que as verdades são intuídas, mais do que reveladas. A doença e morte da mãe, pilar da família, é por isso uma tragédia narrada em surdina, com uma subtileza e um recato que só tornam mais comovente o desamparo e a dor de quem não sabe como sobreviver a tamanha perda.
Parafraseando o que escreveu Jorge Luis Borges no prólogo a um livro de Adolfo Bioy Casares (A Invenção de Morel), classificar Vieram como Andorinhas como um livro perfeito não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

O caminho que interessa

A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

No mundo das duas luas

1Q84 – Livro 1
Autor: Haruki Murakami
Título original: 1Q84
Tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 487
ISBN: 978-972-46-2053-4
Ano de publicação: 2011

O primeiro volume de 1Q84, o complexo e gigantesco romance de Haruki Murakami (composto por três livros que já venderam milhões de exemplares no Japão e ameaçam tornar-se a versão 2011-2012 do fenómeno Stieg Larsson), começa numa auto-estrada engarrafada de Tóquio, em 1984. Dentro de um táxi, Aomame desespera com a quase certeza de chegar atrasada a um importante encontro. Na sofisticadíssima aparelhagem do automóvel ouvem-se os compassos agrestes da Sinfonietta, de Janacek, e a música provoca na jovem uma «sensação estranha», equivalente a uma «torção interna». Às tantas, o motorista sugere que ela pode descer por umas escadas de emergência com ligação ao solo e depois apanhar um comboio na estação mais próxima. Aomame aceita a ideia, depois de ouvir o taxista alertá-la para o facto de as coisas nem sempre serem o que parecem. E não são, de facto. Chegada ao nível da rua, Aomame já não está em 1984 mas sim em 1Q84 («Q é a letra inicial da expressão ‘question mark’, o signo de qualquer coisa carregada de interrogações»). Isto é, uma realidade paralela e quase igual, à excepção de ligeiras diferenças. Um mundo, por exemplo, em que os uniformes e o armamento da polícia sofreram uma súbita melhoria. E em que há duas luas, em vez de uma só. A normal continua no seu sítio, mas a seu lado surgiu uma outra, mais pequena e verde («como se estivesse coberta por uma fina camada de musgo»).
É neste território de «estranheza subtil» que Murakami se sente como peixe na água. À semelhança de outros romances deste autor, a narrativa alterna entre duas histórias independentes que se vão aproximando pouco a pouco, à medida que se vislumbram nexos entre as respectivas personagens e enredos. Uma das histórias tem como protagonista Aomame, a rapariga que desceu as escadas para um outro mundo, na verdade uma assassina profissional, a mando de uma velha senhora que elimina homens que maltratam as mulheres (nem de propósito, um tema recorrente nos livros de Larsson). A outra história gira em torno de Tengo, professor de matemática com aspirações literárias, instigado pelo seu editor a reescrever um romance com enorme potencial, mas estilisticamente fraco, enviado para um concurso de primeiras obras por uma estudante de 17 anos. Os elementos fantásticos dessa ficção, sobre um «Povo Pequeno» que emerge da boca de uma cabra cega e morta, podem ser menos irreais do que parecem à primeira vista, acabando por estabelecer uma das pontes entre as duas histórias (juntas, elas formam a crónica lenta de um reencontro deixado nas mãos do acaso).
Murakami gosta de personagens solitárias, alienadas, assombradas por perdas, ausências, memórias traumáticas, vazios interiores. Quase todas as figuras com que deparamos em 1Q84 encaixam neste perfil, escondendo umas das outras os seus segredos «profundos e obscuros». O estilo é neutro, muito preciso nas descrições, quase clínico de tão eficaz, mas não isento de lugares-comuns e passagens menos conseguidas (por exemplo, a dada altura Tengo rumina os «fragmentos» de uma cena «como uma vaca num prado», obtendo «valiosos nutrientes que alimentavam a sua imaginação»). Ainda assim, o escritor japonês consegue aprisionar com mestria o leitor dentro da lógica alucinada dos seus mundos paralelos, mergulhando-o aos poucos na textura onírica da narrativa.
Na edição original, os dois primeiros livros foram editados em simultâneo e só o terceiro, que é uma espécie de prolongamento, mais tarde. Ao publicar o Livro 1 de forma isolada, a Casa das Letras fez uma pequena maldade ao seus leitores, porque as histórias ficam em suspenso e o Livro 2 tem edição prevista apenas para Março de 2012.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Depois do acidente

Por Este Mundo Acima
Autora: Patrícia Reis
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 220
ISBN: 978-972-20-4634-3
Ano de publicação: 2011

O quinto romance de Patrícia Reis decorre numa Lisboa pós-apocalíptica, devastada por um misterioso «acidente» global cujos contornos nunca chegamos a conhecer com precisão. Entre ruínas, Eduardo, um antigo editor de meia-idade, outrora altivo e poderoso, vê-se humildemente reduzido a uma condição animalesca quando descobre que a «existência civilizada» acabou de vez (não há electricidade, nem água canalizada, nem qualquer ordem social).
Enquanto afina a arte da sobrevivência, Eduardo agarra-se ao único vínculo que o liga à sua vida anterior: a memória. Através de anotações manuscritas e listas que guarda em caixas de sapatos, evoca o círculo íntimo dos seus amigos: Jaime, o galerista; Lourenço, o pragmático, «político nas horas vagas»; e sobretudo Sofia, a filha rebelde de pai militar, mulher tão sozinha que ouvia o seu corpo a envelhecer, portadora de um segredo que Eduardo só descobre agora, quando já é tarde demais. No meio do negrume, surge depois a improvável esperança, através de um miúdo desembaraçado (Pedro) e de um livro inédito, anterior ao acidente, mas que «fala do futuro e da forma como não seremos capazes de combater um lado mais forte das coisas terríveis» (ou seja, de um futuro que se tornou o presente). Cada um à sua maneira, salvam Eduardo e dão sentido à sua velhice, despertando nele uma bondade que a arrogância pré-catástrofe não deixava antever.
Hino à amizade, ao poder redentor da arte (sobretudo a literatura, mas também a música) e à crença no lado bom dos seres humanos, esta é uma narrativa em que «tudo se mistura como tintas a desfazer-se em água»: as histórias, os tempos, as ilusões, as perdas, os recomeços. Se «todos os bons romances são interrogações», como defende Eduardo, então este é sem dúvida um bom romance.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Ratos e homens

Batalha
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
N.º de páginas: 200
ISBN: 978-989-637-318-4
Ano de publicação: 2011

Escritor prolífico, David Soares afirmou-se no género fantástico mas tem vindo a cruzar essa matriz ficcional com o romance histórico, nomeadamente em A Conspiração dos Antepassados (2007), Lisboa Triunfante (2008) e O Evangelho do Enforcado (2010). No seu quarto romance, Batalha, evoca-se a figura do mestre Afonso Domingues, o arquitecto que acompanhou a edificação do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no final do século XIV e ficou, segundo a lenda, três dias em jejum sob a abóbada da Casa do Capítulo, para garantir que seria o primeiro a morrer caso ela caísse – como caíra pouco antes a abóbada construída pelo flamengo David Huguet.
A esta história de fé na obra própria, por parte de um arquitecto já cego e moribundo, havemos de chegar, mas só no fim do livro. É este o aspecto mais original de Batalha. Em vez de acompanhar o processo de construção do mosteiro, Soares prefere contar-nos uma fábula das antigas, com animais a personificarem qualidades e defeitos humanos. Protagonista: uma ratazana que descobre sucessivamente o amor e o abandono (no seio de uma família de ratos do campo), o cinismo dos corvos, a bondade absoluta (porca Fraca-Chicha) e o instinto predador de gatos cruéis. A ratazana acaba entre humanos, procurando uma grandeza espiritual a que a maior parte dos homens nem sequer aspira.
Talvez por fidelidade à época em que a história decorre, a prosa é barroca. Compreende-se que David Soares recupere palavras raras, vocabulário perdido nos dicionários. Nada contra. Acontece que exagera: só numa página, tropeçamos em «abacinava», «fulverino», «noncupativo», «luarejar», «rorífluas», «tristimania», «ossívoro». O estilo torna-se pesado, quando não opaco. Mesmo sem comprometer as qualidades narrativas do autor, há ali um lastro claramente desnecessário.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

O Evangelho segundo o irmão gémeo

Jesus o Bom e Cristo o Patife
Autor: Philip Pullman
Título original: The good man Jesus and the scoundrel Christ
Tradução: Ana Saldanha
Editora: Teorema
N.º de páginas: 189
ISBN: 978-972-695-978-6
Ano de publicação: 2011

Ateu assumido, Philip Pullman está habituado a ter problemas com os fundamentalistas cristãos. Na trilogia fantástica His Dark Materials, uma espécie de resposta à «propaganda religiosa» das célebres Crónicas de Narnia, de C. S. Lewis, Pullman criou um mundo em que há um Deus senil, além de impotente, inspirador de uma igreja opressora e corrupta. O facto de pertencer à National Secular Society e ter sido um dos intelectuais britânicos que assinou, há cerca de um ano, uma carta aberta contra as «honras de Estado» concedidas à visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, também não contribuiu para a sua boa imagem junto dos crentes mais ortodoxos. Foi contudo o lançamento de Jesus o Bom e Cristo o Patife, em 2010, numa colecção que a Canongate dedica à revisitação dos grandes mitos por escritores contemporâneos (editada em Portugal pela Teorema), a colocá-lo debaixo de fogo. Às previsíveis reacções violentas de vários sectores da igreja, juntaram-se dezenas de cartas a acusarem-no de blasfémia (e a condenarem-no ao «inferno eterno»), bem como um livro inteirinho que se limita a desmontar, ponto por ponto, as supostas inconsistências bíblicas desta obra de ficção (Philip Pulmann’s Jesus, de Gerald O’Collins).
Tal como outros escritores que se debruçaram antes sobre o tema (entre os quais José Saramago), Pullman dá um sentido diferente a vários episódios (encontrando explicações racionais para os milagres, por exemplo) e resolve alguns pontos delicados da história, que na forma canónica só se sustêm como matéria de fé (no caso da concepção «imaculada» de Maria, explica que esta chama «anjo» a um homem que lhe entrou pela janela). O achado desta abordagem narrativa, porém, está na dissociação de Jesus Cristo. Quando nasce em Belém, ele não é um, mas dois. Um par de irmãos gémeos: Jesus, o primogénito, robusto, iluminado, pronto a anunciar por toda a parte a vinda próxima do Reino dos Céus; e Cristo, o mais novo, frágil, uma sombra do outro, incapaz de grandeza, cheio de dúvidas e dilemas morais.
Cristo admira Jesus e salva-o muitas vezes com a sua argúcia, sobretudo durante a infância, mas sabe também que a mensagem do irmão, quando este começa a pregar na Galileia, precisa de uma estrutura que a perpetue. Sugere por isso a importância dos milagres como elementos persuasivos e a necessidade de uma «poderosa organização», capaz de determinar aquilo em «que se deveria acreditar e o que deveria ser rejeitado». Jesus recusa «montar um espectáculo sensacionalista para os crédulos» e continua o seu caminho de intransigente rectidão, em nome de um Deus que por vezes parece «impulsivo», «arbitrário» e até injusto. Mais do que pela trajectória do profeta, destinado a morrer na cruz para cumprir o seu desígnio divino, Pullman interessa-se pela tragédia íntima de Cristo, que no fim substitui Judas no papel de traidor, antes de encenar o embuste decisivo (ao fazer-se passar por Jesus, legitimando o suposto milagre da ressurreição).
A dado momento, um «estranho» (outro «anjo» dúbio, agente de não se sabe que poder) atribui a Cristo a função de registar, moldar e «melhorar» as histórias do irmão: «Há o tempo e há o que está para além do tempo. A história pertence ao tempo, mas a verdade pertence ao que está para além do tempo. Ao escrever sobre as coisas como elas deveriam ter sido, estás a permitir que a verdade entre na história.» Segundo o «estranho», Jesus exige uma perfeição absoluta – isto é, excessiva, impossível de alcançar. «O verdadeiro Reino cegaria os seres humanos como o sol, mas, mesmo assim, eles precisam de uma sua imagem. E é isso que a igreja será.» A igreja que Jesus antecipa como manifestação quase diabólica, ao confrontar-se com o silêncio de Deus no jardim de Getsémani. Eis a trágica ironia: a igreja ergueu-se como poder à custa do sacrifício de Jesus, mas sem a igreja ele seria esquecido, como água despejada sobre a areia. Neste belo livro, complexo, corajoso e muito bem escrito, Pullman ataca aquilo em que a religião cristã se tornou, mas nunca o seu profeta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011

Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Eu & Bobby Fischer

No final dos anos 80, a minha grande paixão era o xadrez. Todos os sábados, apanhava um autocarro da Rodoviária Nacional com destino ao subúrbios de Almada (isto é, a periferia da periferia), onde participava em campeonatos fracos, mas disputadíssimos, no humilde Clube Recreativo do Feijó. Não se pode dizer que as condições para a prática da modalidade fossem as melhores: lembro-me de um “torneio interno” ter coincidido com um campeonato de tiro, em salas contíguas. Ao regressarem aos tabuleiros, vindos da casa de banho, os xadrezistas tinham de esperar que os atiradores baixassem as armas. E o som dos disparos minava, tarde adentro, a capacidade de concentração de quem temia perder-se nos labirintos teóricos da Defesa Siciliana.
Nessa época, o meu herói era Garry Kasparov, cujas partidas acompanhava nas páginas inteiras que o vespertino A Capital dedicava todas as semanas ao xadrez, cheias de diagramas e análises do mestre Luís Santos (hoje recordo esse espaço de inteligência como um oásis efémero, rapidamente devorado pelo deserto da vulgaridade jornalística). Muitos anos mais tarde, pude jogar contra o mítico “ogre de Baku” numa simultânea no Estoril e o meu único prazer consistiu em adiar o golpe de misericórdia, a estocada final do antigo campeão, já na reforma mas ainda ferozmente competitivo. Antes de Kasparov, admirei Anatoly Karpov, cerebral campeão-tipo da escola soviética (li de fio a pavio o livro de capa verde, editado pela Caminho, com as “32 lições de xadrez” do match Karpov-Korchnoi pelo título mundial de 1978); e antes dele rendi-me a Alexandre Alekhine (russo branco que morreu em Portugal, engasgado com um pedaço de carne), capaz dos mais estrepitosos sacrifícios de peças, mesmo em jogos às cegas; e, antes ainda de Alekhine, houve o cubano elegantíssimo, José Raúl Capablanca, autor daquele que foi o meu primeiro livro de xadrez.
Deste panteão, curiosamente, nunca constou Bobby Fischer, talvez porque o único campeão mundial norte-americano acabou por sair de cena assim que venceu Spassky em Reiquejavique, poucos meses depois do meu nascimento, em 1972. Quando comecei a jogar mais a sério, Fischer era um fantasma, uma assombração, um paranóico incapaz de se encaixar no mundo. Reconhecia-lhe o talento puro e deleitava-me com as suas melhores partidas, mas não era capaz de o venerar. Depois veio o 11 de Setembro e as célebres afirmações de regozijo com os ataques aos EUA – a alegria de um sociopata ressentido com a pátria que renegou. Risquei-o de vez do meu mapa mental, até saber da sua morte na Islândia, em 2008, no fim de um longo processo de decadência e fuga que o levou até ao lugar onde conheceu a glória desportiva, esse zénite estupidamente desperdiçado.

Embora não seja grande leitor de biografias, algo me atraiu para o livro Endgame, de Frank Brady (Crown, 402 páginas, 2011). Talvez o quilométrico subtítulo: Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness. Quem não gosta de histórias de ascensão e queda? Quem resiste a figuras que estão no fio da navalha, entre génio e loucura? Em muitos aspectos, Bobby Fischer é como uma personagem de romance: grandiosa, iníqua, trágica. E a trajectória da sua vida – minuciosamente recuperada por Brady (um árbitro internacional de xadrez que conheceu de perto o objecto da sua biografia e teve acesso a vasta documentação) – mostra-nos como o rapazinho brilhante de Brooklyn, que respirou xadrez da infância à idade adulta, obcecado em tornar-se um dos melhores jogadores de sempre, descarrilou assim que cumpriu o seu desígnio, deixando-se levar por megalomanias insensatas, pela torpeza das teorias da conspiração e por um ódio anti-semita que o tornou, para sempre, odioso. O xadrez era a sua vida e ele desperdiçou ambos: o xadrez (que na prática abandonou antes de fazer 30 anos) e a vida. É uma história triste, tristíssima, mas atravessada por fugazes momentos de luz intensa. Como aquela partida maravilhosa que jogou aos 13 anos contra Donald Byrne (chamaram-lhe o “Jogo do Século”) e que está entre as coisas mais belas que alguma vez contemplei.

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Vozes sobre vozes

Comissão das Lágrimas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 326
ISBN: 978-972-20-4795-1
Ano de publicação: 2011

Não há nada mais violento do que reduzir a complexidade de um livro com mais de 300 páginas à formulação lapidar, mas necessariamente superficial, de uma sinopse com três ou quatro linhas. No caso dos romances de António Lobo Antunes, sobretudo os mais recentes, não se trata sequer de violência mas de impossibilidade. Dizer-se que Comissão das Lágrimas é sobre o horror vivido em Angola no período pós-independência, quando Agostinho Neto aproveitou o esmagamento da revolta «fraccionista» de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977, para eliminar opositores (tanto fora como dentro do MPLA), equivale a resumir o romance anterior – Sôbolos Rios que Vão – à lenta agonia de um homem operado a um cancro, que enfrenta as suas desordenadas memórias e o espectro da morte numa cama de hospital. Os romances também são isto, claro, mas são sempre muito mais, infinitamente mais do que isto, porque Lobo Antunes abandonou há muito os modelos narrativos clássicos, trocando-os por uma praxis poética da ficção, em que a força torrencial da linguagem se sobrepõe a tudo, até à clareza e legibilidade das muitas histórias que convoca para as suas obras.
Num breve ensaio sobre um livro anterior, de 2008, publicado no volume António Lobo Antunes: A Arte do Romance, organizado por Felipe Cammaert (Texto, 2011), o filósofo José Gil escreve: «O que é O Arquipélago da Insónia? Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos. E em cada um destes pode surgir um outro tempo, alguém que se lembra subitamente de um gesto ou de coisas num outro tempo do passado; então a recordação salta para um plano diferente da memória, como uma lembrança de uma lembrança, muitas vezes sem nenhuma ligação com a narrativa que interrompeu. São ilhas de tempo que se conectam pelo poder hipnótico da bruma que a escrita segrega.» A descrição aplica-se, palavra por palavra, a Comissão das Lágrimas. Está tudo lá: a «imensa colagem» de imagens e cenas, os mecanismos da memória, as «ilhas de tempo», o «poder hipnótico» da linguagem, até a «bruma» que torna difusos os meandros dos percursos individuais.
O espaço narrativo coincide com a mente caótica de Cristina, uma mulher que ouve vozes e está internada numa clínica: «as coisas passam-se dentro de mim, não fora». A matéria do livro é por isso, em sentido estrito, uma alucinação. Cristina torna-se o veículo das vozes alheias que «se acotovelam, vociferando ou lamuriando-se», um círculo de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», figuras que a manipulam e confundem: «aproximam-se-me do ouvido, pegam-me no braço, empurram-me, surge uma cara e logo outra se sobrepõe discursando por seu turno, às vezes não discursos, segredos, confidências». No corpo do texto, sincopado e tenso, os narradores interrompem-se, coalescem, tal como os tempos e lugares se misturam e prolongam uns nos outros. Há no que se conta um alto grau de incerteza (por exemplo, a mãe, cujo nome oscila entre Alice e Simone, trabalhou numa fábrica/modista/escritório). O estado natural das coisas é a derrocada, das «lembranças que se emaranhavam trocando de sítio» aos episódios «que ao julgar apanhá-los se escapam». No limite, a única certeza é a dúvida (e a suspeita de que pode ser «tudo mentira»).
Das muitas vozes que irrompem no delírio de Cristina, há duas que se destacam. A da mãe, branca, corista decadente, sofrendo em África com as saudades da província portuguesa de onde veio (mesmo se parte das suas memórias são traumáticas: violações, abusos, miséria). E a do pai, negro, que andou no seminário, foi padre, mas depois abandonou Deus. É ele o eixo central da narrativa. Para vingar a humilhação da mãe, em tempos posta de joelhos, submissa, no chão da cozinha de um chefe de posto, aceita fazer parte da Comissão das Lágrimas, que interrogou, torturou e condenou sumariamente à morte milhares de pessoas, tanto na Cadeia de São Paulo, onde se lançavam granadas para dentro de cubículos cheios de prisioneiros, como em Quibala, onde as vítimas cavavam as fossas em que depois eram sepultadas. A culpa, essa, continua intacta trinta anos depois, no apartamento lisboeta com marquise virada para o Tejo e vidros opacos, um refúgio tão precário como o eterno jogo de xadrez atrás do qual se esconde, porque ele sabe que um dia os fantasmas da História lhe hão-de bater à porta para o fazer pagar pelos seus crimes.
À semelhança dos outros romances da última década, há em Comissão das Lágrimas uma estrutura musical (temas, variações, estribilhos, ritornelos) que permite abordá-lo como uma «partitura literária», para usar a expressão de Catarina Vaz Warrot (num ensaio sobre o «texto como tecido sonoro», incluído no volume citado mais acima). Volta igualmente a verificar-se uma espécie de auto-consciência da ficção: «se as vozes não voltam não se escreve este livro»; «não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se e eu a perguntar-me quais as que devo dar a vocês, não tenho tempo para decidir, escolham».
Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é também aqui que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo se maravilhados). Nas palavras de José Gil, o «poder entrópico» desta «grande máquina formal de escrita» é tão grande que corre o risco de «devorar toda a substância, toda a vida das personagens e dos acontecimentos». Mas enquanto Lobo Antunes não perder as suas qualidades de prosador magnífico – capaz de descrever Luanda como «uma gaveta de facas sempre aberta», uma cidade «que incha e se contrai numa cadência de punho, as avenidas elásticas, os edifícios moles, a Muxima para diante e a arredar-se depois, exprimindo, só para ela, o que eu não entendia» –, enquanto continuar a escrever com um fôlego e um fulgor sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea, esse é um risco que vale a pena assumir.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A longa espera

Perder Teorias
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Perder Teorías
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-989-97474-0-1
Ano de publicação: 2011

Em Dublinesca, o seu último romance, Enrique Vila-Matas acompanha os impasses e cogitações de um editor da velha guarda (ou seja, daqueles que «ainda lêem») nestes tempos de euforia com os suportes digitais, que a ele, Samuel Riba, só prenunciam o declínio definitivo da literatura e umas sombrias «exéquias da galáxia Gutenberg». Ironicamente, esse espantoso livro foi publicado em Portugal no início deste ano pela Teorema, poucas semanas depois de Carlos Veiga Ferreira se ter afastado de vez, e não sem amargura, daquele que foi o projecto editorial da sua vida — um pouco à semelhança do que acontece a Riba, com quem partilha não só o percurso profissional como uma certa mundividência. Mais irónico ainda é verificar que o regresso de Veiga Ferreira à edição, com a Teodolito (chancela da Afrontamento), se faz justamente com uma novela de Vila-Matas que é uma espécie de extensão ou «anexo» ensaístico de Dublinesca. Coincidência ou justiça poética? Talvez ambas, muito ao jeito do que costuma acontecer nas obras do escritor catalão.
Perder Teorias começa com a chegada de um alter ego de Vila-Matas a Lyon, para participar num encontro internacional de literatura «sobre as relações entre a ficção e a realidade». O escritor, transportado por um taxista português algo «burgesso», que só recebeu a carta de condução há três dias e a quem ele explica que «nós, a humanidade, não seríamos nada sem a linguagem», descobre, ao chegar ao hotel, que a organização se esqueceu de o receber. Incógnito e resignado ao papel de «alguém que espera», fecha-se no quarto e aproveita o tempo livre para esboçar uma teoria geral do romance no século XXI, assente em elementos «irrenunciáveis» e «imprescindíveis», como a «”intertextualidade” (escrita assim, entre aspas)», as ligações com a grande poesia, a prevalência do estilo sobre a trama (tendo como mote uma frase de John Banville: «O estilo avança dando passos largos triunfais, a trama caminha atrás, a arrastar os pés») ou a «consciência de uma paisagem moral nociva».
A principal referência para esta teorização é o romance O Mar das Sirtes, em torno do qual o narrador se demora, vendo nele um precursor das tendências narrativas actuais, na medida em que o livro de Julien Gracq, embora publicado em 1951, soube «pressentir» e percepcionar o futuro. Trata-se de uma obra que «não se alimenta apenas dos materiais que a vida lhe proporciona, mas como que também cresce, misteriosamente, sobre outros livros». Uma característica, bem o sabemos, do próprio Vila-Matas, que não deixa aqui de «crescer» sobre textos e ideias de Kafka, Rimbaud, Charles Simic ou Ricardo Piglia.
O tema central de Perder Teorias é a reflexão, nada exaustiva e razoavelmente desconfiada, sobre o «sentido da espera nessa longa espera que é a vida». Sempre à deriva, caótico, selvagem, divertido, Vila-Matas faz deste seu livrinho vermelho uma defesa da importância de construirmos teorias explicativas, nem que seja para as abandonarmos à primeira oportunidade, em troca da «grande liberdade do espírito vago, disponível para tudo menos para outra teoria».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Carne e voragem

Adornos
Autora: Ana Marques Gastão
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-20-4699-2
Ano de publicação: 2011

Neste livro de poesia, o seu sexto, Ana Marques Gastão fez corresponder a cada uma das partes um dos cinco sentidos: visão (Antevisão), tacto (O rapto), audição (Ondulações), olfacto (Inflorescências) e paladar (Confeitos). Esta é uma poesia sensorial, ágil e depuradíssima. Em vez de meros efeitos sinestésicos, porém, o que se busca é justamente o que os sentidos não conseguem apreender, a «invisível presença», o «indeterminado» que «se determina / pelo correr do tempo».
Para o sujeito poético, a escrita é «uma valsa, / blusa sem alça, / fractura d’um salmo / que amacio no papel». Aqui, imperam os ritmos puros e os movimentos aéreos (como passos de dança), a sintaxe elástica, as aliterações e rimas bruscas, a esquiva beleza que nasce do entrelaçar de elementos opostos. O mundo «não é senão / sonho, íris, degrau»; a vida «véu ou tocha», «tafetá ou monstro». À poesia – lunar, espectral, «neptúnica», feita de ressonâncias, turbilhões e quedas – cabe estabelecer a «sinapse sinopse / dum saturado real». Saturado ao ponto de exigir uma transubstanciação, o deslocamento do sujeito para outro plano, a manifestação de um desejo «corporeamente espiritual» («quando o rosto se expõe de tão oculto»).
Estas complexas metamorfoses simbólicas tornam por vezes os poemas algo crípticos, atravessados por imagens bizarras, barrocas, como que caídas neste nosso tempo vindas de outro século. Mas nunca Ana Marques Gastão esteve tão perto da exactidão formal a que todos os poetas aspiram: «Anda, suporta teu corpo de ferida / cicatriz ou nome, és esqueleto bravio / carne e voragem, sino que ressoa, / te ensurdece e desmorona».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Queres ser Américo?

O verdadeiro ator
Autor: Jacinto Lucas Pires
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 190
ISBN: 978-972-795-321-9
Ano de publicação: 2011

Terceiro romance de Jacinto Lucas Pires, O verdadeiro ator é uma narrativa que está continuamente a desdobrar-se numa espécie de hipertexto. No percurso de Américo Abril, um actor desempregado e com a vida em pantanas, abrem-se sucessivas janelas com histórias perpendiculares à trama principal: sequências oníricas, memórias antigas (infância, adolescência), breves ficções dentro da ficção (cenas de um filme, romances lidos pelo protagonista, sinopses de espectáculos teatrais hipotéticos). Este material paralelo faz sentido, mas há talvez excesso de sequências oníricas e défice do resto. Todos os escritores sabem que contar sonhos atrás de sonhos é um risco. No monumental 2666, Roberto Bolaño correu esse risco e saiu ileso. Já Lucas Pires não pode dizer o mesmo.
Na verdade, a insistência no relato dos sonhos (com a sua inevitável carga simbólica) acaba por ser redundante, porque o livro corresponde, no seu todo, a um enorme pesadelo. Logo nas primeiras páginas, Américo é convidado a participar numa produção cinematográfica internacional de grande orçamento: um filme intitulado Queres ser Paul Giamatti, no qual interpretará justamente o papel daquele «tipo cómico que fez aquele filme cómico sobre o vinho na América», desta vez às voltas com questões de identidade num enredo muito ao estilo de Charlie Kaufman (o argumentista de Queres ser John Malkovich?). Preso dentro de um jogo de vídeo chamado Estar Vivo, o protagonista de Sideways descobre que só ultrapassando os vários níveis se aproximará do seu verdadeiro eu: «Para ser cada vez mais ele (e, presume-se, conseguir sair do jogo e regressar ao mundo cá de fora), o nosso protagonista Giamatti tem de ir resolvendo os problemas à sua volta, ganhando consciência dos seus dons e limites.»
Ora o que acontece a Américo na vida real é muito semelhante a esta busca de si mesmo. Nos vários planos da existência (enquanto marido, pai, amante, amigo, filho, profissional e cidadão), ele está longe de ser exemplar. Mas se Giamatti, no filme, vai sempre subindo de nível, no seu caso as coisas descarrilam de vez, sobretudo após o homicídio de Carla Bruna (o nome é um achado), prostituta de luxo que lhe servia de escape a um casamento asfixiante. A partir daí, a deriva de Américo torna-se tão grotesca que ele próprio se convence da sua irrealidade. Tudo não passaria de uma performance muito rebuscada, «uma espécie de instalação-em-processo», feita de simulacros, obedecendo ao grande «mecanismo da ilusão».
Entretanto, à medida que Américo se dissolve, o país está em acelerada mudança. O avolumar das tensões sociais conduz a uma revolta pacífica, um «caos magnífico», em que uma multidão compacta invade a Assembleia e sobe à tribuna, propondo soluções para o «problema português». Infelizmente, Lucas Pires desiste logo de acompanhar o modus operandi e as consequências desta revolução sem ideologia, preferindo trazer para o primeiro plano a investigação policial à morte de Carla Bruna. Aliás, o problema do livro está precisamente na frágil articulação dos materiais que o compõem. O verdadeiro ator oscila entre registos muito diferentes – com predomínio da ironia e da sátira feroz (as páginas sobre os tiques da classe média ou sobre o mundo das artes são divertidíssimas, de antologia) – mas nem sempre esses registos encaixam bem uns nos outros. Quanto ao final ambíguo, faz lembrar uma das personagens secundárias, cujo sorriso não se vai «desfazendo aos poucos», como é suposto, antes «cai todo de uma vez».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Um livro de areia

Uma Mentira Mil Vezes Repetida
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Quetzal
N.º de páginas:
206
ISBN: 978-972-564-972-5
Ano de publicação: 2011

O novo livro de Manuel Jorge Marmelo (MJM) pertence à linhagem das ficções que se alimentam da própria ideia de literatura, pondo à vista do leitor, numa espécie de striptease conceptual, alguns dos seus mecanismos internos. Não por acaso, há no texto referências explícitas a vários escritores – como Jorge Luis Borges, Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas, Julio Cortázar ou Italo Calvino – que também fizeram do acto de criação literária a matéria-prima de muitos dos seus actos de criação literária, passe a redundância.
Em Uma Mentira Mil Vezes Repetida, nono romance de MJM (e talvez o seu melhor), o que está em causa é um embuste, uma falsificação intelectual. Reformado por invalidez aos 36 anos, devido a uma «agressiva doença de pele provocada pelo implacável stresse do funcionalismo público», o narrador do livro anda às voltas pela cidade do Porto, viajando nos transportes públicos com um calhamaço de 1200 páginas. A qualquer passageiro que demonstre um mínimo de curiosidade, ele explica que Cidade Conquistada é o único e extraordinário romance de Oscar Schidinski, judeu húngaro que passou por Lisboa em fuga da ameaça nazi e dos «seus próprios fantasmas», um autor esquecido mas genial, entretanto transformado numa «das mais obscuras lendas literárias do século XX».
O problema, claro está, é que o livro nunca existiu. Devidamente encadernado, o cartapácio que o narrador mitómano finge ler não passa de uma «colagem de textos avulsos escolhidos quase sem critério, copiados da internet». Todas as histórias de Cidade Conquistada, bem como as incidências biográficas do fictício Schidinski, saem da sua imaginação de escritor frustrado, incapaz de escrever por si mesmo uma obra-prima, e que por isso encontra na invenção de um livro raro, misterioso, impossível, o meio mais rápido de aceder à «celebridade». No seu delírio, ele sonha um dia falar sobre Schidinski na televisão e em conferências eruditas, tornando-se famoso por causa disso. Em suma, além de mentiroso compulsivo, este típico narrador não fiável (porque nada do que afirma pode ser tomado como certo) é também um pobre diabo cheio de ilusões.
Enquanto molda o «enredo movediço» do livro, sempre em função de quem o ouve em cada momento, ele vai erguendo um universo ficcional desordenado mas fascinante, não só dentro das fronteiras do romance – em que acompanhamos a vida atormentada de Marcos Sacatepequez, escritor do Belize que leva à falência todas as editoras que o publicam e termina os seus dias na ilha caboverdiana de Santo Antão; mas também a deriva do marinheiro flamengo Albrecht, amaldiçoado pelo cadáver errante e insepulto de Sacatepequez – como fora dele, à medida que cria a incerta biografia de Schidinski, mais os seus improváveis encontros e amizades, nomeadamente com Afonso Cão, mendigo português muito digno mas destrambelhado.
O narrador não ignora que um romance está por natureza incompleto: «há sempre alguma coisa que pode ser acrescentada, melhorada ou eliminada, fios que podem ser atados, observações mesquinhas que podem ser rasuradas em benefício de uma certa fluidez do texto». À medida que vai alterando a estrutura e o conteúdo de Cidade Conquistada, reconhece que a «sua» obra não tem fim. Tornou-se «virtualmente inesgotável, como um livro que pudesse ser reinventado todos os dias e desdobrar-se continuamente». De certo modo, assemelha-se ao «livro de areia» que surge num conto de Borges, «objecto de pesadelo» porque infinito, «coisa obscena que infamava e corrompia a realidade». Tal como o protagonista desse conto, também o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida se torna «prisioneiro do livro» e sente a necessidade de o perder para se libertar do «monstruoso» sortilégio.
O principal mérito de MJM está na forma como consegue manter a sensação de claustrofobia narrativa, sem deixar que o leitor se perca no caos de repetições, incongruências e «solavancos lógicos». Muito bem escrito, o livro oferece-nos pelo menos dois pastiches brilhantes: um de García Márquez (a cidade de Polvorosa, uma espécie de Macondo onde se produz cacau em vez de bananas); outro de Thomas Pynchon (a barafunda postal de Granada). Já o desenlace, em que se esboça uma redentora mas algo forçada história de amor, fica aquém do que um romance tão abertamente contrário às convenções romanescas exigia e merecia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um acto delicado

Nervo
Autor: Diogo Vaz Pinto
Editora: Averno
N.º de páginas: 120
Depósito Legal: 326223/11
Ano de publicação: 2011

Novíssimo entre os novíssimos, Diogo Vaz Pinto (n. 1985) começou a publicar os seus poemas longos na revista Criatura, que co-dirige com David Teles Pereira. Eram poemas de grande intensidade expressiva, simultaneamente íntimos e com ressonâncias geracionais, reveladores de uma voz singular e pouco alinhada com a restante poesia portuguesa contemporânea. Muitos desses textos reaparecem agora no extenso livro de estreia e confirmam DVP como um dos poetas mais estimulantes surgidos nos últimos anos.
Há, nesta escrita, uma espécie de urgência juvenil, uma vontade de vencer a «trôpega distância» que nos separa da «realidade / que passa por nós em diferido», uma «pressa insuportável de dar mundo / às palavras». Humildemente, o poeta reconhece que escrever «é só ir apanhando as coisas do chão», seja a «tão pouca vida, e tão repetida» a que parece condenada uma geração precária, à deriva numa «era a que falta assombro» e resignada a uma «amorosa derrota», seja a trama dos alheios versos «de esplendor puro», resgatados (a itálico) na «colagem violenta» de que se são feitos os poemas.
Se a revolta «contra o mundo» é um dos temas recorrentes, no centro desta energia lírica está o amor e as suas contingências. Em tom elegíaco, testemunhamos bebedeiras, noitadas, «derivas quixotescas», cansaços, «tudo, um pouco, ao sabor do desespero». O livro funciona como um labirinto sentimental (mas não sentimentalista), um catálogo de entregas e fracassos, idílios e rejeições. Melancolicamente, convoca-se a memória só para a ver andar descalça sobre pedaços de vidro. E fixam-se as imagens do passado porque elas «depressa se esvaem», como a própria juventude («uma piada que na altura / não entendemos, e agora é já um pouco tarde / para nos começarmos a rir»).
Mesmo quando a «mania efabuladora» o faz ceder a impulsos narrativos, DVP acredita que a poesia «é ainda um acto delicado», em que o poeta se limita a puxar o fio que há em cada nome. Mas eis o problema: «Daí a nada / mais parece que é o fio que te puxa a ti. / E puxa, horrorizando-te, enquanto / imaginas que costura do teu mundo / agora se descose.» É nesta tensão entre o que se puxa e o que é puxado, entre o direito e o avesso, que reside a força maior desta poesia, por vezes errática e demasiado palavrosa, mas outras vezes capaz de se aproximar da perfeição, em poemas magníficos como Wonderlands, Fósforo ou Carrossel.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

As palavras são tudo

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2418-8
Ano de publicação: 2011

Em 1940, os avós de Afonso Cruz acolheram em casa, na Figueira da Foz, um pintor eslovaco. Temendo as rusgas da polícia política a meio da noite, colocaram-no a dormir por baixo do lava-loiças, atrás da lenha. «Julgo que todos nós, olhando para a vida dos nossos antepassados, encontramos histórias que dariam histórias», lembra Afonso Cruz. Isto é, histórias verdadeiras que se podem transformar em literatura. Neste caso, o acto de coragem dos avós, ao esconderem um refugiado que lhes entrou um dia de rompante na loja de fotografia, levou-o a escrever O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, um romance muitíssimo inventivo e bem escrito – digno sucessor do magnífico A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010).
À partida, o que Afonso Cruz conhecia do pintor eslovaco era quase nada. Tinha um nome (Ivan Sors), o intervalo da sua vida (1895-1950), os quadros que deixou na casa dos protectores figueirenses (uma Crucifixão e um retrato da avó, vestida de minhota), mais uns vagos factos biográficos soltos. Isto deu-lhe toda a liberdade para efabular. Alterado o nome próprio de Sors para Jozef, o pintor transformou-se então num ser absolutamente ficcional, que o romancista pôde moldar à vontade. Por exemplo, fazendo dele o filho de um mordomo demasiado sincero, incapaz de compreender metáforas, e de uma engomadeira apreciadora dos gestos repetidos, das rotinas («os sapatos são bons quando não se sentem»).
Logo na infância, passada na casa do patrão dos pais (o coronel Möller, cuja autoridade não era posta em causa pelo facto de andar com flores no cabelo), Jozef descobre que a sua vocação é «desenhar o mundo». Ele olha para as coisas como se fizesse o pino, pensa através dos traços no papel e gosta de deixar os desenhos inacabados para que eles se abram «para o infinito». Abomina a «dispersão circular» e quer muito crescer para cima, vertical, sem desvios. A natureza não o ajuda, ao colocar-lhe no caminho tentações como a vizinha Frantiska, por quem sente um amor altíssimo, embora «desprovido de corpo». À excepção do momento em que a empurra no baloiço, nunca se tocam. Em vez disso, Jozef procura que a sua sombra beije a sombra da rapariga, contenta-se em encostar os lábios ao pedaço de vidro que ela antes embaciou, entra em êxtase quando consegue respirar ao lado dela, com a mesma cadência.
Depois, sucedem-se episódios. Tragédias familiares. Pessoas que morrem por causa de uma figura de estilo. A I Guerra Mundial, vista de um balão pairando sobre as trincheiras. Um Museu das Coisas Inúteis. Colarinhos assimétricos. Uma orelha arrancada. Cadernos cheios de desenhos (um só com olhos abertos, outro só com olhos fechados). O tempo a transformar tudo em areia. A mãe abandonada num hospício. Ida para os EUA. Regresso à Europa. Uma espécie de cegueira (o olhar ofuscado por sombras). Quase fim da linha em Lisboa, no meio de um «povo fatal».
Afonso Cruz narra tudo isto com vigor e precisão, em capítulos curtos. O estilo é o que já lhe conhecíamos: poético, filosófico, aforístico («Se está esticado é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador»). No manifesto gozo com que trabalha a linguagem, nota-se sobretudo neste autor a convicção de quem acredita firmemente no poder imenso, quase mágico, da literatura: «As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Coisas terríveis em movimento

Ferrugem Americana
Autor: Philipp Meyer
Título original: American Rust
Tradução: Ester Cortegano
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 411
ISBN: 978-972-25-2283-0
Ano de publicação: 2011

A imaginária cidade de Buell, onde Philipp Meyer centra a ação de Ferrugem Americana, um dos mais aclamados romances de estreia dos últimos anos, fica no vale do Mon, a sul de Pittsburgh (Pennsylvania), em tempos um grande pólo industrial que produzia aço para todo o país, mas condenado ao declínio económico desde os anos 70. Uma a uma, as siderurgias fecharam as portas e «o vale entrou em colapso». As sirenes que assinalavam as mudanças de turno — com milhares de operários a sair das fábricas e outros milhares a entrar — calaram-se de vez. Os apitos já só se ouvem na memória dos nostálgicos: «apenas vinte anos antes, houvera tanta vida em Buell que era inconcebível, era impossível aceitar a ideia de que um lugar pudesse ser destruído tão rapidamente». Mas a decadência, vertiginosa, chegou mesmo. Tal como a miséria e o desemprego de longa duração. Por muito que pareça inconcebível, os EUA começam de facto a «andar para trás como nação, provavelmente pela primeira vez na História».
Meyer parte justamente daqui, deste «ignóbil» reverso do Sonho Americano. Não espanta por isso que as suas personagens pareçam (embora umas mais do que outras) condenadas à desistência e «a fazer tudo de maneira errada». Presas a uma cidade decrépita, de onde não puderam ou não quiseram sair, elas deixaram-se apanhar pelos «tempos sombrios». Na verdade, não pedem mais do que «uma vida com um pouco de dignidade», mas até isso parece um desígnio difícil de cumprir, quando a corrosão que devora as fábricas em ruínas se estende às relações sociais e aos pequenos gestos do quotidiano. A dada altura, alguém refere que em Buell há «coisas terríveis em movimento», só discerníveis quando já é «demasiado tarde».
Uma dessas «coisas terríveis» materializa-se numa tragédia, protagonizada por Isaac English e Billy Poe, amigos desde a escola secundária. Hoje com 20 anos, eles arrependem-se de terem ficado na terra natal, em vez de procurarem a sorte noutras paragens, como Lee, irmã de Isaac e ex-namorada de Poe, que se licenciou em Yale, onde encontrou o marido endinheirado. Se Billy, potencial estrela do futebol americano, ficou por vontade própria e casmurrice, recusando as bolsas de estudo universitárias que lhe ofereceram, Isaac foi vítima da escolha de Lee. Com a partida da irmã, ele teve de ficar a cuidar do pai, incapacitado por um acidente de trabalho na siderurgia e sozinho depois do suicídio inexplicável da mulher, cinco anos antes.
Quando o livro começa, Isaac, o melhor aluno do condado, planeia fugir para a Califórnia e dedicar-se à astrofísica. No bolso leva quatro mil dólares, roubados ao pai, e a disposição aventurosa de um «Jack Kerouac Júnior». Mas a ingénua odisseia descamba logo ao princípio. Enquanto tenta convencer o amigo Billy a fazer-lhe companhia, os dois são apanhados por uma bátega e abrigam-se numa velha fábrica abandonada. Chegam então três vadios que reclamam o espaço e Billy, incapaz de resistir a um confronto físico, faz-lhes frente. Resultado: um dos sem-abrigo acaba morto. A partir deste nó narrativo, a «coisa terrível» foi posta em movimento e não mais parará.
Em pânico, Isaac e Billy não avisam a polícia. Em vez disso, decidem seguir cada um o seu caminho. Isaac viajará escondido em comboios de mercadorias, antes de mergulhar numa espiral violenta: é espancado, assaltado, humilhado, perseguido, forçado a roubar em lojas, sujeito à fome e ao frio mais extremos. Billy é detido mas recusa-se a prestar declarações, para não incriminar o amigo, acabando numa cadeia de alta segurança, onde o seu mau feitio o incompatibiliza com os vários gangs de prisioneiros e o deixa marcado como alvo a abater.
Esta narrativa poliédrica não se fixa, porém, apenas nas descidas ao inferno, em paralelo, de Isaac e Billy. Há outras quatro personagens centrais, que vão assumindo à vez o protagonismo de cada capítulo: Lee; Grace, a desesperada mãe de Billy; Henry, o pai de Isaac; e Harris, o chefe local da polícia e amante intermitente de Grace, indeciso quanto à possibilidade de livrar Billy do sarilho em que se meteu (como já fizera anteriormente, num caso menos grave). Recorrendo com mestria à técnica do monólogo interior, Meyer entra na cabeça destas pessoas e acompanha os seus caóticos pensamentos, os raciocínios obsessivos, as dúvidas, angústias e medos, o sentido de lealdade e os dilemas morais (particularmente agudos no caso de Harris).
Ferrugem Americana pode ser lido como um romance pessimista sobre uma época e um lugar amaldiçoados, prestes a regressar ao «estado primitivo» em que é a natureza quem mais ordena. Mas, se lermos com atenção, apercebemo-nos do infinito cuidado e respeito que o autor dedica às suas figuras humanas, aos hérois possíveis desta história sem heroísmo. Mesmo quando mergulham nas trevas, há sempre nestes homens e mulheres um lampejo da tal «dignidade» a que aspiram até os proscritos entre os proscritos. Compreendemos então a escolha para epígrafe de uma frase de Camus, segundo a qual em tempo de pestilência aprendemos «que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar». Ela podia ser apenas uma inspiração. Mas é mais do que isso. É todo um programa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Sintomas de poema

Uma Prática para Desconserto
Autora: Sylvia Beirute
Editora: 4Águas
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-989-97401-0-5
Ano de publicação: 2011

Sylvia Beirute é uma poeta algarvia de 26 anos que foi revelando o seu trabalho inédito no blogue Uma Casa em Beirute e se estreia em livro com Uma Prática para Desconserto. Os poemas desta autora, quando lidos isoladamente no ecrã, surpreendiam pela força expressiva e um certo desassombro (havia neles a espontaneidade de quem não escreve com um fim à vista), mas grande parte desse efeito perde-se na passagem para o papel. Há poemas que se anulam uns aos outros, ou que vêem subitamente expostas as suas fragilidades – vítimas talvez da luz mais crua da página branca.
Logo a abrir, um «Aviso» compara a poesia a uma doença contagiosa: «se tiver sintomas de poema, aguente». A distância de segurança, porém, nunca é respeitada e a contaminação acontece, trazendo consigo a marca da recusa: «não tenho maneiras puramente estéticas. / não tenho processos literários. / (…) não recuperei emoções com a cabeça. / não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema». A autora propõe-se então escrever a partir de um grau zero, de uma imaginária Beirute em ruínas, onde «o sujeito só deve representar / o que sente».
O resultado é desigual. Quando acompanha «movimentos em colapso», a linguagem torna-se uma máquina voraz, caótica e intuitiva. Mas isto acontece poucas vezes. Na maior parte dos casos, Sylvia Beirute perde-se em metafísicas abstractas, a raiar o pretensioso, e deixa-se cair nas armadilhas da escrita automática (geradora de versos catastróficos, como «a cármica sede / que desflora uma cor difusa»). Se «escrever poemas é errar», falta agora errar de novo e melhor, como diria Beckett.

Avaliação: 4,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Os banhistas zombies

Histórias Amorais para Crianças e Animais
Autor: João Diogo Zagalo
Editora: Angelus Novus
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-8827-83-0
Ano de publicação: 2011

Com as suas desconcertantes Histórias Amorais para Crianças e Animais, uma bela obra de estreia, João Diogo Zagalo junta-se a uma corrente infelizmente pouco explorada na literatura portuguesa: a da narrativa ácida, ora delirante, ora absurda, em tempos praticada por Mário Henrique Leiria e ultimamente recuperada por Rui Manuel Amaral. É uma escrita que conhece os mecanismos tradicionais da ficção, as suas regras, os seus truques, e depois se encarrega de os desmontar, de os virar do avesso, de os reinventar.
O livro está organizado em cinco partes. Na primeira, fala-se essencialmente de amores e ódios, quase sempre de forma distorcida. Aberrações anatómicas, equívocos tecnológicos (via SMS), diálogos vazios literalmente em torno de nada, casos de necrofilia, um choque frontal entre o erotismo e o Direito (com sugestivas expressões em latim) – há de tudo. Até um homem que diz amar a namorada «quase tanto como um saco de batatas».
Seguem-se contos sobre um tema árduo: o trabalho. Em As Camisolas dos meus Colegas, um novo funcionário invisível (ou talvez inexistente) aumenta por linhas tortas a produtividade da empresa. Que Força é Essa? explica o significado do verbo procrastinar. E a Carta endereçada ao Menino Jesus, da parte de um advogado esfomeado está mesmo a pedir para ser o hino irónico da geração à rasca. Nesta secção do livro, abundam os escritórios, algures entre Franz Kafka e Ricky Gervais.
A terceira parte, talvez a menos interessante, nasceu da leitura de fait-divers e notícias de jornal. Além de uma sátira à profusão de biopics em Hollywood e de uma caricatura mordaz da literatura light nacional, vale pela invenção de um conceito curioso: os «não-obituários de pessoas desconhecidas».
Na quarta parte, Zagalo, inspirando-se nos entremezes medievais, criou diálogos eficazes e de um fino humor (destaque para a deliciosa paródia aos comentadores televisivos). Por fim, surgem os contos baseados em personagens de histórias infantis ou da mitologia popular: Pinóquio vítima das suas mentiras úteis; Drácula agarrado ao Facebook; a história de Hansel e Gretel como a poderia ter contado Boris Vian. A melhor história, porém, intitula-se Os Banhistas Zombies, um relato de como as coisas mais estranhas se podem dissolver naquilo a que chamamos normalidade (e, de certa forma, uma chave para a lógica secreta desta escrita).
Quanto ao epílogo, «em jeito de final feliz», resume tudo o que lemos antes, levando-o ao paroxismo. E confirma uma ideia: a de que valerá a pena acompanhar, muito de perto, a trajectória futura de João Diogo Zagalo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

Exortação ao crocodilo

Deixem Falar as Pedras
Autor: David Machado
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 331
ISBN: 978-972-20-4503-2
Ano de publicação: 2011

O arranque de Deixem Falar as Pedras, segundo romance de David Machado, é daqueles que nos agarram logo pelos colarinhos. Sem preâmbulo, entramos de chofre no quotidiano atribulado de Valdemar, o narrador, adolescente obeso que aterroriza os colegas de escola, quando não anda aos beijos e a ouvir bandas de heavy metal com Alice, a pseudo-namorada anoréctica. As suas angústias, frustrações e actos de rebeldia vão sendo escritos à mão num caderno que por vezes rasura, a preto, para esconder os momentos de maior fragilidade emocional. E é aqui que começa o triunfo de David Machado neste livro. Antes de tudo o resto, temos uma voz cheia de raiva e desespero, de energia e desassombro, com qualquer coisa que remete para o subjectivismo radical de Holden Caulfield, a lendária personagem de Salinger. Só para conhecer esta voz, intensa como poucas na literatura portuguesa recente, já não daríamos por mal empregue a leitura do romance.
Depois, aos poucos, vamos conhecendo o cenário familiar em que Valdemar cresceu. O pai controlador, obcecado com o Antigo Egipto e a numismática, incapaz de lidar com a desconformidade social do filho. A mãe jornalista, sempre em reportagem algures, afectuosa mas ausente. E o avô que foi viver lá para casa dez anos antes, figura misteriosa com um passado de heroísmo sangrento, três dedos a menos na mão direita, muito mau feitio e palavrões sempre na ponta da língua. Este homem de acção, porém, apagou-se sem glória, queimando agora os dias a ver telenovelas em série.
É para resgatar o avô do marasmo que Valdemar decide transcrever para um caderno (paralelo ao seu diário com rasuras) todas as histórias ouvidas ao longo dos anos. A sua missão, no fundo, é «abrir o buraco onde a verdade foi enterrada» e desentranhá-la da vasta rede de mentiras que desgraçaram a existência de Nicolau Manuel, desde o dia funesto, há mais de meio século, em que esteve para casar com o amor da sua vida, Graça dos Penedo. Tendo o avô mal-aventurado como única fonte, Valdemar não ignora que o trabalho de iluminar o passado será sempre precário («aconteceu tudo há tanto tempo que as palavras se encheram de sombras e poeira»), mas avança ainda assim. Sem surpresa, a narrativa que emerge é a de um percurso de azares, equívocos, traições e perversidades sem nome – a que não falta, por vezes, uma ironia cruel.
Durante décadas de sofrimento contínuo, Nicolau Manuel experimenta todo o horror do salazarismo. Conhece o pior das piores prisões (Caxias, forte de Peniche, Tarrafal), é espancado e torturado até ao limite do imaginável, partem-lhe os ossos, desfazem-lhe o corpo, torna-se involuntariamente uma figura mítica da luta anti-fascista, ganha e perde identidades, enlouquece, passa por fantasma. Em suma, roubam-lhe a vida, deturpam-na através de uma espécie de «censura existencial», substituem-na por «sopros avulsos, vácuo». Ele é o homem desapossado, o homem que «não é dono nem da sua própria história». E, no entanto, resiste. «Mesmo quando isto era tudo dinossauros, já havia crocodilos», diz a certa altura a mãe de Valdemar. Milhões de anos depois, «viemos nós, os seres humanos, com os nossos automóveis e as nossas cidades e as nossas guerras, e os crocodilos, como se não fosse nada com eles, como se tivessem mais em que pensar do que morrer, sobreviveram». Valdemar conclui: «O avô é um crocodilo.» Um crocodilo que ele venera e deseja a todo o custo redimir.
Há momentos em que o romance perde algum fôlego e foco (embrenha-se demasiado no seu próprio labirinto ficcional), mas as últimas páginas recuperam a força das primeiras. O problema das histórias, diz-nos David Machado, é que «podemos olhar para elas de vários lados e ângulos e a história nunca parece a mesma». Algo que Valdemar aprenderá a seu modo, mas talvez tarde demais.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

Anatomia do exílio

O Museu da Rendição Incondicional
Autora: Dubravka Ugrešić
Título original: Musej Bezuvjetne Predaje
Tradução: Sofia Castro Rodrigues
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-623-152-1
Ano de publicação: 2011

No início da década de 90, quando a Croácia declarou a independência (precipitando o fim da Jugoslávia), Dubravka Ugrešić ensinava literatura russa na Universidade de Zagreb e era já uma escritora reconhecida. O seu estatuto, porém, de nada lhe valeu quando se opôs de forma clara ao nacionalismo fanático do novo presidente Tudjman, que levou à expulsão das minorias sérvias e à guerra na Bósnia. De um momento para o outro, caiu em desgraça. A imprensa lançava ataques impiedosos, acusando-a de ser «traidora», «bruxa» e coisas piores. «Em apenas um ano, perdera a minha casa, os meus amigos, o meu emprego.» Sem possibilidade, mas também sem desejo, de «regressar em breve», muda-se para Berlim em 1993. «Aos quarenta e cinco anos, dei por mim no mundo com um saco que continha os artigos de primeira necessidade, como se o mundo fosse um abrigo anti-aéreo». Mais tarde Ugrešić viveria nos EUA e na Holanda, mas O Museu da Rendição Incondicional (publicado originalmente em 1998) reflecte a experiência dos primeiros anos berlinenses, logo a seguir à queda do Muro, quando ainda se fazia ouvir, pelas ruas, «o doloroso ruído de uma era desaparecida».
O tema central do livro é o exílio, esse território mental onde deambula quem foi arrancado à «pátria perdida» e se vê condenado a procurar «alguma coisa» que não sabe exactamente o que seja: «(…) os carimbos no nosso passaporte acumulam-se e a certa altura transformam-se em linhas ilegíveis. Depois, começam subitamente a traçar um mapa interior, o mapa do irreal, do imaginário. E é apenas nesse momento que elas exprimem com exactidão a incomensurável experiência do exílio.» Para Ugrešić, esta experiência teve qualquer coisa de «pesadelo», mas também de «neurose». Há nela, implícita, uma «arte da paranóia». De repente, «aparecem rostos que havíamos esquecido, que provavelmente nunca conhecemos, mas parece-nos que os conhecemos desde sempre, lugares que estamos certamente a ver pela primeira vez, mas parece-nos que sempre lá estivemos…»
A cabeça da narradora funciona como uma vertiginosa «mesa de edição», cruzando as suas próprias histórias e vivências quotidianas com as de outros exilados: amigos, artistas, desconhecidos (de quem traça biografias «fortuitas») ou escritores – Joseph Brodsky, Vladimir Nabokov, Viktor Shklovsky, Miroslav Krleza – cujas citações vão surgindo amiúde, numa espécie de diálogo com a tradição literária. Ugrešić aborda o exílio a partir de dentro, mostra-nos as suas arestas e zonas de sombra, mas nunca pretende explicar nada, antes testemunha o desencanto e o cansaço de quem ficou à mercê do turbilhão da História: «Não compreendo o significado de tudo isto, sinto-me deslocada, sou um espécime humano exausto, um seixo, fui atirada pelo acaso para uma costa diferente».
Logo no início do livro, deparamos com a enumeração do conteúdo estomacal de uma morsa do jardim zoológico de Berlim, exposto num mostruário de vidro quando o animal morreu, em Agosto de 1961. Das entranhas do bicho foram retirados paus de gelado, correntes de aço, uma caixa de fósforos, um saquinho de plástico com agulhas e linha, uma lata de cerveja, um isqueiro, etc. (a enumeração é longa). Como sugere a autora, dificilmente se resiste ao «pensamento poético» de que com o tempo aqueles objectos acabariam por revelar algumas ligações «mais subtis» entre si, tal como «o exilado começa a decifrar sinais, cruzes e nós» em tudo, intuindo «uma secreta harmonia, uma lógica redonda de símbolos». Esta lógica, explica Ugrešić, é a mesma que atravessa o seu livro, também ele composto por materiais heteróclitos que vão ganhando nexos insuspeitos, à medida que avançamos na leitura.
Certamente não por acaso, evoca-se Rilke, segundo o qual «a história de uma vida estilhaçada só podia ser contada em pequenos fragmentos». Nas sete partes em que dividiu a complexa estrutura do romance, Ugrešić pulveriza a narrativa, intercalando memórias pessoais com breves ensaios, cartas e diários com ficções autónomas, tudo sabiamente interligado com a determinação daquela amiga que gostava de «passar fios entre as coisas». Outro amigo, artista plástico, «exprime amor entre materiais incompatíveis, casa coisas inconectáveis, (…) desenha um emaranhado de metal duro sob um tapete persa macio». Sem esconder uma pontinha de inveja, a autora diz-lhe: «Gostava de ser capaz de fazer isso.» Um exemplo de falsa modéstia, porque «isso» é precisamente o que ela faz com palavras e ideias.
Se quisermos uma imagem que sirva de chave para O Museu da Rendição Incondicional, o estômago caótico de Roland, a morsa, será a mais óbvia. Mas há outras. Berlim, por exemplo. A «cidade-mutante» em que vários tempos se sobrepõem, com as suas feiras da ladra onde «uniformes sobreviventes, de donos há muito mortos, com insígnias diversas, (…) roçam uns nos outros e o seus únicos inimigos são as traças». Ou o álbum de fotografias, conceito amplamente teorizado por Ugrešić, para quem as fotografias representam «a nossa medida do mundo». Porque elas organizam e fixam a memória individual e colectiva, são o elo que nos prende a um passado sempre em risco de se perder na pura aniquilação do esquecimento. «A vida não passa de um álbum de fotografias. Só o que está no álbum existe. O que não está no álbum, nunca aconteceu.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges