O caminho que interessa
A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»
[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]
No mundo das duas luas
1Q84 – Livro 1
Autor: Haruki Murakami
Título original: 1Q84
Tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 487
ISBN: 978-972-46-2053-4
Ano de publicação: 2011
O primeiro volume de 1Q84, o complexo e gigantesco romance de Haruki Murakami (composto por três livros que já venderam milhões de exemplares no Japão e ameaçam tornar-se a versão 2011-2012 do fenómeno Stieg Larsson), começa numa auto-estrada engarrafada de Tóquio, em 1984. Dentro de um táxi, Aomame desespera com a quase certeza de chegar atrasada a um importante encontro. Na sofisticadíssima aparelhagem do automóvel ouvem-se os compassos agrestes da Sinfonietta, de Janacek, e a música provoca na jovem uma «sensação estranha», equivalente a uma «torção interna». Às tantas, o motorista sugere que ela pode descer por umas escadas de emergência com ligação ao solo e depois apanhar um comboio na estação mais próxima. Aomame aceita a ideia, depois de ouvir o taxista alertá-la para o facto de as coisas nem sempre serem o que parecem. E não são, de facto. Chegada ao nível da rua, Aomame já não está em 1984 mas sim em 1Q84 («Q é a letra inicial da expressão ‘question mark’, o signo de qualquer coisa carregada de interrogações»). Isto é, uma realidade paralela e quase igual, à excepção de ligeiras diferenças. Um mundo, por exemplo, em que os uniformes e o armamento da polícia sofreram uma súbita melhoria. E em que há duas luas, em vez de uma só. A normal continua no seu sítio, mas a seu lado surgiu uma outra, mais pequena e verde («como se estivesse coberta por uma fina camada de musgo»).
É neste território de «estranheza subtil» que Murakami se sente como peixe na água. À semelhança de outros romances deste autor, a narrativa alterna entre duas histórias independentes que se vão aproximando pouco a pouco, à medida que se vislumbram nexos entre as respectivas personagens e enredos. Uma das histórias tem como protagonista Aomame, a rapariga que desceu as escadas para um outro mundo, na verdade uma assassina profissional, a mando de uma velha senhora que elimina homens que maltratam as mulheres (nem de propósito, um tema recorrente nos livros de Larsson). A outra história gira em torno de Tengo, professor de matemática com aspirações literárias, instigado pelo seu editor a reescrever um romance com enorme potencial, mas estilisticamente fraco, enviado para um concurso de primeiras obras por uma estudante de 17 anos. Os elementos fantásticos dessa ficção, sobre um «Povo Pequeno» que emerge da boca de uma cabra cega e morta, podem ser menos irreais do que parecem à primeira vista, acabando por estabelecer uma das pontes entre as duas histórias (juntas, elas formam a crónica lenta de um reencontro deixado nas mãos do acaso).
Murakami gosta de personagens solitárias, alienadas, assombradas por perdas, ausências, memórias traumáticas, vazios interiores. Quase todas as figuras com que deparamos em 1Q84 encaixam neste perfil, escondendo umas das outras os seus segredos «profundos e obscuros». O estilo é neutro, muito preciso nas descrições, quase clínico de tão eficaz, mas não isento de lugares-comuns e passagens menos conseguidas (por exemplo, a dada altura Tengo rumina os «fragmentos» de uma cena «como uma vaca num prado», obtendo «valiosos nutrientes que alimentavam a sua imaginação»). Ainda assim, o escritor japonês consegue aprisionar com mestria o leitor dentro da lógica alucinada dos seus mundos paralelos, mergulhando-o aos poucos na textura onírica da narrativa.
Na edição original, os dois primeiros livros foram editados em simultâneo e só o terceiro, que é uma espécie de prolongamento, mais tarde. Ao publicar o Livro 1 de forma isolada, a Casa das Letras fez uma pequena maldade ao seus leitores, porque as histórias ficam em suspenso e o Livro 2 tem edição prevista apenas para Março de 2012.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Depois do acidente

Por Este Mundo Acima
Autora: Patrícia Reis
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 220
ISBN: 978-972-20-4634-3
Ano de publicação: 2011
O quinto romance de Patrícia Reis decorre numa Lisboa pós-apocalíptica, devastada por um misterioso «acidente» global cujos contornos nunca chegamos a conhecer com precisão. Entre ruínas, Eduardo, um antigo editor de meia-idade, outrora altivo e poderoso, vê-se humildemente reduzido a uma condição animalesca quando descobre que a «existência civilizada» acabou de vez (não há electricidade, nem água canalizada, nem qualquer ordem social).
Enquanto afina a arte da sobrevivência, Eduardo agarra-se ao único vínculo que o liga à sua vida anterior: a memória. Através de anotações manuscritas e listas que guarda em caixas de sapatos, evoca o círculo íntimo dos seus amigos: Jaime, o galerista; Lourenço, o pragmático, «político nas horas vagas»; e sobretudo Sofia, a filha rebelde de pai militar, mulher tão sozinha que ouvia o seu corpo a envelhecer, portadora de um segredo que Eduardo só descobre agora, quando já é tarde demais. No meio do negrume, surge depois a improvável esperança, através de um miúdo desembaraçado (Pedro) e de um livro inédito, anterior ao acidente, mas que «fala do futuro e da forma como não seremos capazes de combater um lado mais forte das coisas terríveis» (ou seja, de um futuro que se tornou o presente). Cada um à sua maneira, salvam Eduardo e dão sentido à sua velhice, despertando nele uma bondade que a arrogância pré-catástrofe não deixava antever.
Hino à amizade, ao poder redentor da arte (sobretudo a literatura, mas também a música) e à crença no lado bom dos seres humanos, esta é uma narrativa em que «tudo se mistura como tintas a desfazer-se em água»: as histórias, os tempos, as ilusões, as perdas, os recomeços. Se «todos os bons romances são interrogações», como defende Eduardo, então este é sem dúvida um bom romance.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]
Ratos e homens
![]()
Batalha
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
N.º de páginas: 200
ISBN: 978-989-637-318-4
Ano de publicação: 2011
Escritor prolífico, David Soares afirmou-se no género fantástico mas tem vindo a cruzar essa matriz ficcional com o romance histórico, nomeadamente em A Conspiração dos Antepassados (2007), Lisboa Triunfante (2008) e O Evangelho do Enforcado (2010). No seu quarto romance, Batalha, evoca-se a figura do mestre Afonso Domingues, o arquitecto que acompanhou a edificação do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no final do século XIV e ficou, segundo a lenda, três dias em jejum sob a abóbada da Casa do Capítulo, para garantir que seria o primeiro a morrer caso ela caísse – como caíra pouco antes a abóbada construída pelo flamengo David Huguet.
A esta história de fé na obra própria, por parte de um arquitecto já cego e moribundo, havemos de chegar, mas só no fim do livro. É este o aspecto mais original de Batalha. Em vez de acompanhar o processo de construção do mosteiro, Soares prefere contar-nos uma fábula das antigas, com animais a personificarem qualidades e defeitos humanos. Protagonista: uma ratazana que descobre sucessivamente o amor e o abandono (no seio de uma família de ratos do campo), o cinismo dos corvos, a bondade absoluta (porca Fraca-Chicha) e o instinto predador de gatos cruéis. A ratazana acaba entre humanos, procurando uma grandeza espiritual a que a maior parte dos homens nem sequer aspira.
Talvez por fidelidade à época em que a história decorre, a prosa é barroca. Compreende-se que David Soares recupere palavras raras, vocabulário perdido nos dicionários. Nada contra. Acontece que exagera: só numa página, tropeçamos em «abacinava», «fulverino», «noncupativo», «luarejar», «rorífluas», «tristimania», «ossívoro». O estilo torna-se pesado, quando não opaco. Mesmo sem comprometer as qualidades narrativas do autor, há ali um lastro claramente desnecessário.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]
O Evangelho segundo o irmão gémeo

Jesus o Bom e Cristo o Patife
Autor: Philip Pullman
Título original: The good man Jesus and the scoundrel Christ
Tradução: Ana Saldanha
Editora: Teorema
N.º de páginas: 189
ISBN: 978-972-695-978-6
Ano de publicação: 2011
Ateu assumido, Philip Pullman está habituado a ter problemas com os fundamentalistas cristãos. Na trilogia fantástica His Dark Materials, uma espécie de resposta à «propaganda religiosa» das célebres Crónicas de Narnia, de C. S. Lewis, Pullman criou um mundo em que há um Deus senil, além de impotente, inspirador de uma igreja opressora e corrupta. O facto de pertencer à National Secular Society e ter sido um dos intelectuais britânicos que assinou, há cerca de um ano, uma carta aberta contra as «honras de Estado» concedidas à visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, também não contribuiu para a sua boa imagem junto dos crentes mais ortodoxos. Foi contudo o lançamento de Jesus o Bom e Cristo o Patife, em 2010, numa colecção que a Canongate dedica à revisitação dos grandes mitos por escritores contemporâneos (editada em Portugal pela Teorema), a colocá-lo debaixo de fogo. Às previsíveis reacções violentas de vários sectores da igreja, juntaram-se dezenas de cartas a acusarem-no de blasfémia (e a condenarem-no ao «inferno eterno»), bem como um livro inteirinho que se limita a desmontar, ponto por ponto, as supostas inconsistências bíblicas desta obra de ficção (Philip Pulmann’s Jesus, de Gerald O’Collins).
Tal como outros escritores que se debruçaram antes sobre o tema (entre os quais José Saramago), Pullman dá um sentido diferente a vários episódios (encontrando explicações racionais para os milagres, por exemplo) e resolve alguns pontos delicados da história, que na forma canónica só se sustêm como matéria de fé (no caso da concepção «imaculada» de Maria, explica que esta chama «anjo» a um homem que lhe entrou pela janela). O achado desta abordagem narrativa, porém, está na dissociação de Jesus Cristo. Quando nasce em Belém, ele não é um, mas dois. Um par de irmãos gémeos: Jesus, o primogénito, robusto, iluminado, pronto a anunciar por toda a parte a vinda próxima do Reino dos Céus; e Cristo, o mais novo, frágil, uma sombra do outro, incapaz de grandeza, cheio de dúvidas e dilemas morais.
Cristo admira Jesus e salva-o muitas vezes com a sua argúcia, sobretudo durante a infância, mas sabe também que a mensagem do irmão, quando este começa a pregar na Galileia, precisa de uma estrutura que a perpetue. Sugere por isso a importância dos milagres como elementos persuasivos e a necessidade de uma «poderosa organização», capaz de determinar aquilo em «que se deveria acreditar e o que deveria ser rejeitado». Jesus recusa «montar um espectáculo sensacionalista para os crédulos» e continua o seu caminho de intransigente rectidão, em nome de um Deus que por vezes parece «impulsivo», «arbitrário» e até injusto. Mais do que pela trajectória do profeta, destinado a morrer na cruz para cumprir o seu desígnio divino, Pullman interessa-se pela tragédia íntima de Cristo, que no fim substitui Judas no papel de traidor, antes de encenar o embuste decisivo (ao fazer-se passar por Jesus, legitimando o suposto milagre da ressurreição).
A dado momento, um «estranho» (outro «anjo» dúbio, agente de não se sabe que poder) atribui a Cristo a função de registar, moldar e «melhorar» as histórias do irmão: «Há o tempo e há o que está para além do tempo. A história pertence ao tempo, mas a verdade pertence ao que está para além do tempo. Ao escrever sobre as coisas como elas deveriam ter sido, estás a permitir que a verdade entre na história.» Segundo o «estranho», Jesus exige uma perfeição absoluta – isto é, excessiva, impossível de alcançar. «O verdadeiro Reino cegaria os seres humanos como o sol, mas, mesmo assim, eles precisam de uma sua imagem. E é isso que a igreja será.» A igreja que Jesus antecipa como manifestação quase diabólica, ao confrontar-se com o silêncio de Deus no jardim de Getsémani. Eis a trágica ironia: a igreja ergueu-se como poder à custa do sacrifício de Jesus, mas sem a igreja ele seria esquecido, como água despejada sobre a areia. Neste belo livro, complexo, corajoso e muito bem escrito, Pullman ataca aquilo em que a religião cristã se tornou, mas nunca o seu profeta.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011
Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]
Eu & Bobby Fischer
No final dos anos 80, a minha grande paixão era o xadrez. Todos os sábados, apanhava um autocarro da Rodoviária Nacional com destino ao subúrbios de Almada (isto é, a periferia da periferia), onde participava em campeonatos fracos, mas disputadíssimos, no humilde Clube Recreativo do Feijó. Não se pode dizer que as condições para a prática da modalidade fossem as melhores: lembro-me de um “torneio interno” ter coincidido com um campeonato de tiro, em salas contíguas. Ao regressarem aos tabuleiros, vindos da casa de banho, os xadrezistas tinham de esperar que os atiradores baixassem as armas. E o som dos disparos minava, tarde adentro, a capacidade de concentração de quem temia perder-se nos labirintos teóricos da Defesa Siciliana.
Nessa época, o meu herói era Garry Kasparov, cujas partidas acompanhava nas páginas inteiras que o vespertino A Capital dedicava todas as semanas ao xadrez, cheias de diagramas e análises do mestre Luís Santos (hoje recordo esse espaço de inteligência como um oásis efémero, rapidamente devorado pelo deserto da vulgaridade jornalística). Muitos anos mais tarde, pude jogar contra o mítico “ogre de Baku” numa simultânea no Estoril e o meu único prazer consistiu em adiar o golpe de misericórdia, a estocada final do antigo campeão, já na reforma mas ainda ferozmente competitivo. Antes de Kasparov, admirei Anatoly Karpov, cerebral campeão-tipo da escola soviética (li de fio a pavio o livro de capa verde, editado pela Caminho, com as “32 lições de xadrez” do match Karpov-Korchnoi pelo título mundial de 1978); e antes dele rendi-me a Alexandre Alekhine (russo branco que morreu em Portugal, engasgado com um pedaço de carne), capaz dos mais estrepitosos sacrifícios de peças, mesmo em jogos às cegas; e, antes ainda de Alekhine, houve o cubano elegantíssimo, José Raúl Capablanca, autor daquele que foi o meu primeiro livro de xadrez.
Deste panteão, curiosamente, nunca constou Bobby Fischer, talvez porque o único campeão mundial norte-americano acabou por sair de cena assim que venceu Spassky em Reiquejavique, poucos meses depois do meu nascimento, em 1972. Quando comecei a jogar mais a sério, Fischer era um fantasma, uma assombração, um paranóico incapaz de se encaixar no mundo. Reconhecia-lhe o talento puro e deleitava-me com as suas melhores partidas, mas não era capaz de o venerar. Depois veio o 11 de Setembro e as célebres afirmações de regozijo com os ataques aos EUA – a alegria de um sociopata ressentido com a pátria que renegou. Risquei-o de vez do meu mapa mental, até saber da sua morte na Islândia, em 2008, no fim de um longo processo de decadência e fuga que o levou até ao lugar onde conheceu a glória desportiva, esse zénite estupidamente desperdiçado.

Embora não seja grande leitor de biografias, algo me atraiu para o livro Endgame, de Frank Brady (Crown, 402 páginas, 2011). Talvez o quilométrico subtítulo: Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness. Quem não gosta de histórias de ascensão e queda? Quem resiste a figuras que estão no fio da navalha, entre génio e loucura? Em muitos aspectos, Bobby Fischer é como uma personagem de romance: grandiosa, iníqua, trágica. E a trajectória da sua vida – minuciosamente recuperada por Brady (um árbitro internacional de xadrez que conheceu de perto o objecto da sua biografia e teve acesso a vasta documentação) – mostra-nos como o rapazinho brilhante de Brooklyn, que respirou xadrez da infância à idade adulta, obcecado em tornar-se um dos melhores jogadores de sempre, descarrilou assim que cumpriu o seu desígnio, deixando-se levar por megalomanias insensatas, pela torpeza das teorias da conspiração e por um ódio anti-semita que o tornou, para sempre, odioso. O xadrez era a sua vida e ele desperdiçou ambos: o xadrez (que na prática abandonou antes de fazer 30 anos) e a vida. É uma história triste, tristíssima, mas atravessada por fugazes momentos de luz intensa. Como aquela partida maravilhosa que jogou aos 13 anos contra Donald Byrne (chamaram-lhe o “Jogo do Século”) e que está entre as coisas mais belas que alguma vez contemplei.
[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]
Vozes sobre vozes

Comissão das Lágrimas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 326
ISBN: 978-972-20-4795-1
Ano de publicação: 2011
Não há nada mais violento do que reduzir a complexidade de um livro com mais de 300 páginas à formulação lapidar, mas necessariamente superficial, de uma sinopse com três ou quatro linhas. No caso dos romances de António Lobo Antunes, sobretudo os mais recentes, não se trata sequer de violência mas de impossibilidade. Dizer-se que Comissão das Lágrimas é sobre o horror vivido em Angola no período pós-independência, quando Agostinho Neto aproveitou o esmagamento da revolta «fraccionista» de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977, para eliminar opositores (tanto fora como dentro do MPLA), equivale a resumir o romance anterior – Sôbolos Rios que Vão – à lenta agonia de um homem operado a um cancro, que enfrenta as suas desordenadas memórias e o espectro da morte numa cama de hospital. Os romances também são isto, claro, mas são sempre muito mais, infinitamente mais do que isto, porque Lobo Antunes abandonou há muito os modelos narrativos clássicos, trocando-os por uma praxis poética da ficção, em que a força torrencial da linguagem se sobrepõe a tudo, até à clareza e legibilidade das muitas histórias que convoca para as suas obras.
Num breve ensaio sobre um livro anterior, de 2008, publicado no volume António Lobo Antunes: A Arte do Romance, organizado por Felipe Cammaert (Texto, 2011), o filósofo José Gil escreve: «O que é O Arquipélago da Insónia? Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos. E em cada um destes pode surgir um outro tempo, alguém que se lembra subitamente de um gesto ou de coisas num outro tempo do passado; então a recordação salta para um plano diferente da memória, como uma lembrança de uma lembrança, muitas vezes sem nenhuma ligação com a narrativa que interrompeu. São ilhas de tempo que se conectam pelo poder hipnótico da bruma que a escrita segrega.» A descrição aplica-se, palavra por palavra, a Comissão das Lágrimas. Está tudo lá: a «imensa colagem» de imagens e cenas, os mecanismos da memória, as «ilhas de tempo», o «poder hipnótico» da linguagem, até a «bruma» que torna difusos os meandros dos percursos individuais.
O espaço narrativo coincide com a mente caótica de Cristina, uma mulher que ouve vozes e está internada numa clínica: «as coisas passam-se dentro de mim, não fora». A matéria do livro é por isso, em sentido estrito, uma alucinação. Cristina torna-se o veículo das vozes alheias que «se acotovelam, vociferando ou lamuriando-se», um círculo de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», figuras que a manipulam e confundem: «aproximam-se-me do ouvido, pegam-me no braço, empurram-me, surge uma cara e logo outra se sobrepõe discursando por seu turno, às vezes não discursos, segredos, confidências». No corpo do texto, sincopado e tenso, os narradores interrompem-se, coalescem, tal como os tempos e lugares se misturam e prolongam uns nos outros. Há no que se conta um alto grau de incerteza (por exemplo, a mãe, cujo nome oscila entre Alice e Simone, trabalhou numa fábrica/modista/escritório). O estado natural das coisas é a derrocada, das «lembranças que se emaranhavam trocando de sítio» aos episódios «que ao julgar apanhá-los se escapam». No limite, a única certeza é a dúvida (e a suspeita de que pode ser «tudo mentira»).
Das muitas vozes que irrompem no delírio de Cristina, há duas que se destacam. A da mãe, branca, corista decadente, sofrendo em África com as saudades da província portuguesa de onde veio (mesmo se parte das suas memórias são traumáticas: violações, abusos, miséria). E a do pai, negro, que andou no seminário, foi padre, mas depois abandonou Deus. É ele o eixo central da narrativa. Para vingar a humilhação da mãe, em tempos posta de joelhos, submissa, no chão da cozinha de um chefe de posto, aceita fazer parte da Comissão das Lágrimas, que interrogou, torturou e condenou sumariamente à morte milhares de pessoas, tanto na Cadeia de São Paulo, onde se lançavam granadas para dentro de cubículos cheios de prisioneiros, como em Quibala, onde as vítimas cavavam as fossas em que depois eram sepultadas. A culpa, essa, continua intacta trinta anos depois, no apartamento lisboeta com marquise virada para o Tejo e vidros opacos, um refúgio tão precário como o eterno jogo de xadrez atrás do qual se esconde, porque ele sabe que um dia os fantasmas da História lhe hão-de bater à porta para o fazer pagar pelos seus crimes.
À semelhança dos outros romances da última década, há em Comissão das Lágrimas uma estrutura musical (temas, variações, estribilhos, ritornelos) que permite abordá-lo como uma «partitura literária», para usar a expressão de Catarina Vaz Warrot (num ensaio sobre o «texto como tecido sonoro», incluído no volume citado mais acima). Volta igualmente a verificar-se uma espécie de auto-consciência da ficção: «se as vozes não voltam não se escreve este livro»; «não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se e eu a perguntar-me quais as que devo dar a vocês, não tenho tempo para decidir, escolham».
Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é também aqui que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo se maravilhados). Nas palavras de José Gil, o «poder entrópico» desta «grande máquina formal de escrita» é tão grande que corre o risco de «devorar toda a substância, toda a vida das personagens e dos acontecimentos». Mas enquanto Lobo Antunes não perder as suas qualidades de prosador magnífico – capaz de descrever Luanda como «uma gaveta de facas sempre aberta», uma cidade «que incha e se contrai numa cadência de punho, as avenidas elásticas, os edifícios moles, a Muxima para diante e a arredar-se depois, exprimindo, só para ela, o que eu não entendia» –, enquanto continuar a escrever com um fôlego e um fulgor sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea, esse é um risco que vale a pena assumir.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
A longa espera
Perder Teorias
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Perder Teorías
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-989-97474-0-1
Ano de publicação: 2011
Em Dublinesca, o seu último romance, Enrique Vila-Matas acompanha os impasses e cogitações de um editor da velha guarda (ou seja, daqueles que «ainda lêem») nestes tempos de euforia com os suportes digitais, que a ele, Samuel Riba, só prenunciam o declínio definitivo da literatura e umas sombrias «exéquias da galáxia Gutenberg». Ironicamente, esse espantoso livro foi publicado em Portugal no início deste ano pela Teorema, poucas semanas depois de Carlos Veiga Ferreira se ter afastado de vez, e não sem amargura, daquele que foi o projecto editorial da sua vida — um pouco à semelhança do que acontece a Riba, com quem partilha não só o percurso profissional como uma certa mundividência. Mais irónico ainda é verificar que o regresso de Veiga Ferreira à edição, com a Teodolito (chancela da Afrontamento), se faz justamente com uma novela de Vila-Matas que é uma espécie de extensão ou «anexo» ensaístico de Dublinesca. Coincidência ou justiça poética? Talvez ambas, muito ao jeito do que costuma acontecer nas obras do escritor catalão.
Perder Teorias começa com a chegada de um alter ego de Vila-Matas a Lyon, para participar num encontro internacional de literatura «sobre as relações entre a ficção e a realidade». O escritor, transportado por um taxista português algo «burgesso», que só recebeu a carta de condução há três dias e a quem ele explica que «nós, a humanidade, não seríamos nada sem a linguagem», descobre, ao chegar ao hotel, que a organização se esqueceu de o receber. Incógnito e resignado ao papel de «alguém que espera», fecha-se no quarto e aproveita o tempo livre para esboçar uma teoria geral do romance no século XXI, assente em elementos «irrenunciáveis» e «imprescindíveis», como a «”intertextualidade” (escrita assim, entre aspas)», as ligações com a grande poesia, a prevalência do estilo sobre a trama (tendo como mote uma frase de John Banville: «O estilo avança dando passos largos triunfais, a trama caminha atrás, a arrastar os pés») ou a «consciência de uma paisagem moral nociva».
A principal referência para esta teorização é o romance O Mar das Sirtes, em torno do qual o narrador se demora, vendo nele um precursor das tendências narrativas actuais, na medida em que o livro de Julien Gracq, embora publicado em 1951, soube «pressentir» e percepcionar o futuro. Trata-se de uma obra que «não se alimenta apenas dos materiais que a vida lhe proporciona, mas como que também cresce, misteriosamente, sobre outros livros». Uma característica, bem o sabemos, do próprio Vila-Matas, que não deixa aqui de «crescer» sobre textos e ideias de Kafka, Rimbaud, Charles Simic ou Ricardo Piglia.
O tema central de Perder Teorias é a reflexão, nada exaustiva e razoavelmente desconfiada, sobre o «sentido da espera nessa longa espera que é a vida». Sempre à deriva, caótico, selvagem, divertido, Vila-Matas faz deste seu livrinho vermelho uma defesa da importância de construirmos teorias explicativas, nem que seja para as abandonarmos à primeira oportunidade, em troca da «grande liberdade do espírito vago, disponível para tudo menos para outra teoria».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Carne e voragem
Adornos
Autora: Ana Marques Gastão
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-20-4699-2
Ano de publicação: 2011
Neste livro de poesia, o seu sexto, Ana Marques Gastão fez corresponder a cada uma das partes um dos cinco sentidos: visão (Antevisão), tacto (O rapto), audição (Ondulações), olfacto (Inflorescências) e paladar (Confeitos). Esta é uma poesia sensorial, ágil e depuradíssima. Em vez de meros efeitos sinestésicos, porém, o que se busca é justamente o que os sentidos não conseguem apreender, a «invisível presença», o «indeterminado» que «se determina / pelo correr do tempo».
Para o sujeito poético, a escrita é «uma valsa, / blusa sem alça, / fractura d’um salmo / que amacio no papel». Aqui, imperam os ritmos puros e os movimentos aéreos (como passos de dança), a sintaxe elástica, as aliterações e rimas bruscas, a esquiva beleza que nasce do entrelaçar de elementos opostos. O mundo «não é senão / sonho, íris, degrau»; a vida «véu ou tocha», «tafetá ou monstro». À poesia – lunar, espectral, «neptúnica», feita de ressonâncias, turbilhões e quedas – cabe estabelecer a «sinapse sinopse / dum saturado real». Saturado ao ponto de exigir uma transubstanciação, o deslocamento do sujeito para outro plano, a manifestação de um desejo «corporeamente espiritual» («quando o rosto se expõe de tão oculto»).
Estas complexas metamorfoses simbólicas tornam por vezes os poemas algo crípticos, atravessados por imagens bizarras, barrocas, como que caídas neste nosso tempo vindas de outro século. Mas nunca Ana Marques Gastão esteve tão perto da exactidão formal a que todos os poetas aspiram: «Anda, suporta teu corpo de ferida / cicatriz ou nome, és esqueleto bravio / carne e voragem, sino que ressoa, / te ensurdece e desmorona».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Queres ser Américo?

O verdadeiro ator
Autor: Jacinto Lucas Pires
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 190
ISBN: 978-972-795-321-9
Ano de publicação: 2011
Terceiro romance de Jacinto Lucas Pires, O verdadeiro ator é uma narrativa que está continuamente a desdobrar-se numa espécie de hipertexto. No percurso de Américo Abril, um actor desempregado e com a vida em pantanas, abrem-se sucessivas janelas com histórias perpendiculares à trama principal: sequências oníricas, memórias antigas (infância, adolescência), breves ficções dentro da ficção (cenas de um filme, romances lidos pelo protagonista, sinopses de espectáculos teatrais hipotéticos). Este material paralelo faz sentido, mas há talvez excesso de sequências oníricas e défice do resto. Todos os escritores sabem que contar sonhos atrás de sonhos é um risco. No monumental 2666, Roberto Bolaño correu esse risco e saiu ileso. Já Lucas Pires não pode dizer o mesmo.
Na verdade, a insistência no relato dos sonhos (com a sua inevitável carga simbólica) acaba por ser redundante, porque o livro corresponde, no seu todo, a um enorme pesadelo. Logo nas primeiras páginas, Américo é convidado a participar numa produção cinematográfica internacional de grande orçamento: um filme intitulado Queres ser Paul Giamatti, no qual interpretará justamente o papel daquele «tipo cómico que fez aquele filme cómico sobre o vinho na América», desta vez às voltas com questões de identidade num enredo muito ao estilo de Charlie Kaufman (o argumentista de Queres ser John Malkovich?). Preso dentro de um jogo de vídeo chamado Estar Vivo, o protagonista de Sideways descobre que só ultrapassando os vários níveis se aproximará do seu verdadeiro eu: «Para ser cada vez mais ele (e, presume-se, conseguir sair do jogo e regressar ao mundo cá de fora), o nosso protagonista Giamatti tem de ir resolvendo os problemas à sua volta, ganhando consciência dos seus dons e limites.»
Ora o que acontece a Américo na vida real é muito semelhante a esta busca de si mesmo. Nos vários planos da existência (enquanto marido, pai, amante, amigo, filho, profissional e cidadão), ele está longe de ser exemplar. Mas se Giamatti, no filme, vai sempre subindo de nível, no seu caso as coisas descarrilam de vez, sobretudo após o homicídio de Carla Bruna (o nome é um achado), prostituta de luxo que lhe servia de escape a um casamento asfixiante. A partir daí, a deriva de Américo torna-se tão grotesca que ele próprio se convence da sua irrealidade. Tudo não passaria de uma performance muito rebuscada, «uma espécie de instalação-em-processo», feita de simulacros, obedecendo ao grande «mecanismo da ilusão».
Entretanto, à medida que Américo se dissolve, o país está em acelerada mudança. O avolumar das tensões sociais conduz a uma revolta pacífica, um «caos magnífico», em que uma multidão compacta invade a Assembleia e sobe à tribuna, propondo soluções para o «problema português». Infelizmente, Lucas Pires desiste logo de acompanhar o modus operandi e as consequências desta revolução sem ideologia, preferindo trazer para o primeiro plano a investigação policial à morte de Carla Bruna. Aliás, o problema do livro está precisamente na frágil articulação dos materiais que o compõem. O verdadeiro ator oscila entre registos muito diferentes – com predomínio da ironia e da sátira feroz (as páginas sobre os tiques da classe média ou sobre o mundo das artes são divertidíssimas, de antologia) – mas nem sempre esses registos encaixam bem uns nos outros. Quanto ao final ambíguo, faz lembrar uma das personagens secundárias, cujo sorriso não se vai «desfazendo aos poucos», como é suposto, antes «cai todo de uma vez».
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]
Um livro de areia

Uma Mentira Mil Vezes Repetida
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 206
ISBN: 978-972-564-972-5
Ano de publicação: 2011
O novo livro de Manuel Jorge Marmelo (MJM) pertence à linhagem das ficções que se alimentam da própria ideia de literatura, pondo à vista do leitor, numa espécie de striptease conceptual, alguns dos seus mecanismos internos. Não por acaso, há no texto referências explícitas a vários escritores – como Jorge Luis Borges, Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas, Julio Cortázar ou Italo Calvino – que também fizeram do acto de criação literária a matéria-prima de muitos dos seus actos de criação literária, passe a redundância.
Em Uma Mentira Mil Vezes Repetida, nono romance de MJM (e talvez o seu melhor), o que está em causa é um embuste, uma falsificação intelectual. Reformado por invalidez aos 36 anos, devido a uma «agressiva doença de pele provocada pelo implacável stresse do funcionalismo público», o narrador do livro anda às voltas pela cidade do Porto, viajando nos transportes públicos com um calhamaço de 1200 páginas. A qualquer passageiro que demonstre um mínimo de curiosidade, ele explica que Cidade Conquistada é o único e extraordinário romance de Oscar Schidinski, judeu húngaro que passou por Lisboa em fuga da ameaça nazi e dos «seus próprios fantasmas», um autor esquecido mas genial, entretanto transformado numa «das mais obscuras lendas literárias do século XX».
O problema, claro está, é que o livro nunca existiu. Devidamente encadernado, o cartapácio que o narrador mitómano finge ler não passa de uma «colagem de textos avulsos escolhidos quase sem critério, copiados da internet». Todas as histórias de Cidade Conquistada, bem como as incidências biográficas do fictício Schidinski, saem da sua imaginação de escritor frustrado, incapaz de escrever por si mesmo uma obra-prima, e que por isso encontra na invenção de um livro raro, misterioso, impossível, o meio mais rápido de aceder à «celebridade». No seu delírio, ele sonha um dia falar sobre Schidinski na televisão e em conferências eruditas, tornando-se famoso por causa disso. Em suma, além de mentiroso compulsivo, este típico narrador não fiável (porque nada do que afirma pode ser tomado como certo) é também um pobre diabo cheio de ilusões.
Enquanto molda o «enredo movediço» do livro, sempre em função de quem o ouve em cada momento, ele vai erguendo um universo ficcional desordenado mas fascinante, não só dentro das fronteiras do romance – em que acompanhamos a vida atormentada de Marcos Sacatepequez, escritor do Belize que leva à falência todas as editoras que o publicam e termina os seus dias na ilha caboverdiana de Santo Antão; mas também a deriva do marinheiro flamengo Albrecht, amaldiçoado pelo cadáver errante e insepulto de Sacatepequez – como fora dele, à medida que cria a incerta biografia de Schidinski, mais os seus improváveis encontros e amizades, nomeadamente com Afonso Cão, mendigo português muito digno mas destrambelhado.
O narrador não ignora que um romance está por natureza incompleto: «há sempre alguma coisa que pode ser acrescentada, melhorada ou eliminada, fios que podem ser atados, observações mesquinhas que podem ser rasuradas em benefício de uma certa fluidez do texto». À medida que vai alterando a estrutura e o conteúdo de Cidade Conquistada, reconhece que a «sua» obra não tem fim. Tornou-se «virtualmente inesgotável, como um livro que pudesse ser reinventado todos os dias e desdobrar-se continuamente». De certo modo, assemelha-se ao «livro de areia» que surge num conto de Borges, «objecto de pesadelo» porque infinito, «coisa obscena que infamava e corrompia a realidade». Tal como o protagonista desse conto, também o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida se torna «prisioneiro do livro» e sente a necessidade de o perder para se libertar do «monstruoso» sortilégio.
O principal mérito de MJM está na forma como consegue manter a sensação de claustrofobia narrativa, sem deixar que o leitor se perca no caos de repetições, incongruências e «solavancos lógicos». Muito bem escrito, o livro oferece-nos pelo menos dois pastiches brilhantes: um de García Márquez (a cidade de Polvorosa, uma espécie de Macondo onde se produz cacau em vez de bananas); outro de Thomas Pynchon (a barafunda postal de Granada). Já o desenlace, em que se esboça uma redentora mas algo forçada história de amor, fica aquém do que um romance tão abertamente contrário às convenções romanescas exigia e merecia.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Um acto delicado
Nervo
Autor: Diogo Vaz Pinto
Editora: Averno
N.º de páginas: 120
Depósito Legal: 326223/11
Ano de publicação: 2011
Novíssimo entre os novíssimos, Diogo Vaz Pinto (n. 1985) começou a publicar os seus poemas longos na revista Criatura, que co-dirige com David Teles Pereira. Eram poemas de grande intensidade expressiva, simultaneamente íntimos e com ressonâncias geracionais, reveladores de uma voz singular e pouco alinhada com a restante poesia portuguesa contemporânea. Muitos desses textos reaparecem agora no extenso livro de estreia e confirmam DVP como um dos poetas mais estimulantes surgidos nos últimos anos.
Há, nesta escrita, uma espécie de urgência juvenil, uma vontade de vencer a «trôpega distância» que nos separa da «realidade / que passa por nós em diferido», uma «pressa insuportável de dar mundo / às palavras». Humildemente, o poeta reconhece que escrever «é só ir apanhando as coisas do chão», seja a «tão pouca vida, e tão repetida» a que parece condenada uma geração precária, à deriva numa «era a que falta assombro» e resignada a uma «amorosa derrota», seja a trama dos alheios versos «de esplendor puro», resgatados (a itálico) na «colagem violenta» de que se são feitos os poemas.
Se a revolta «contra o mundo» é um dos temas recorrentes, no centro desta energia lírica está o amor e as suas contingências. Em tom elegíaco, testemunhamos bebedeiras, noitadas, «derivas quixotescas», cansaços, «tudo, um pouco, ao sabor do desespero». O livro funciona como um labirinto sentimental (mas não sentimentalista), um catálogo de entregas e fracassos, idílios e rejeições. Melancolicamente, convoca-se a memória só para a ver andar descalça sobre pedaços de vidro. E fixam-se as imagens do passado porque elas «depressa se esvaem», como a própria juventude («uma piada que na altura / não entendemos, e agora é já um pouco tarde / para nos começarmos a rir»).
Mesmo quando a «mania efabuladora» o faz ceder a impulsos narrativos, DVP acredita que a poesia «é ainda um acto delicado», em que o poeta se limita a puxar o fio que há em cada nome. Mas eis o problema: «Daí a nada / mais parece que é o fio que te puxa a ti. / E puxa, horrorizando-te, enquanto / imaginas que costura do teu mundo / agora se descose.» É nesta tensão entre o que se puxa e o que é puxado, entre o direito e o avesso, que reside a força maior desta poesia, por vezes errática e demasiado palavrosa, mas outras vezes capaz de se aproximar da perfeição, em poemas magníficos como Wonderlands, Fósforo ou Carrossel.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]
As palavras são tudo

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2418-8
Ano de publicação: 2011
Em 1940, os avós de Afonso Cruz acolheram em casa, na Figueira da Foz, um pintor eslovaco. Temendo as rusgas da polícia política a meio da noite, colocaram-no a dormir por baixo do lava-loiças, atrás da lenha. «Julgo que todos nós, olhando para a vida dos nossos antepassados, encontramos histórias que dariam histórias», lembra Afonso Cruz. Isto é, histórias verdadeiras que se podem transformar em literatura. Neste caso, o acto de coragem dos avós, ao esconderem um refugiado que lhes entrou um dia de rompante na loja de fotografia, levou-o a escrever O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, um romance muitíssimo inventivo e bem escrito – digno sucessor do magnífico A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010).
À partida, o que Afonso Cruz conhecia do pintor eslovaco era quase nada. Tinha um nome (Ivan Sors), o intervalo da sua vida (1895-1950), os quadros que deixou na casa dos protectores figueirenses (uma Crucifixão e um retrato da avó, vestida de minhota), mais uns vagos factos biográficos soltos. Isto deu-lhe toda a liberdade para efabular. Alterado o nome próprio de Sors para Jozef, o pintor transformou-se então num ser absolutamente ficcional, que o romancista pôde moldar à vontade. Por exemplo, fazendo dele o filho de um mordomo demasiado sincero, incapaz de compreender metáforas, e de uma engomadeira apreciadora dos gestos repetidos, das rotinas («os sapatos são bons quando não se sentem»).
Logo na infância, passada na casa do patrão dos pais (o coronel Möller, cuja autoridade não era posta em causa pelo facto de andar com flores no cabelo), Jozef descobre que a sua vocação é «desenhar o mundo». Ele olha para as coisas como se fizesse o pino, pensa através dos traços no papel e gosta de deixar os desenhos inacabados para que eles se abram «para o infinito». Abomina a «dispersão circular» e quer muito crescer para cima, vertical, sem desvios. A natureza não o ajuda, ao colocar-lhe no caminho tentações como a vizinha Frantiska, por quem sente um amor altíssimo, embora «desprovido de corpo». À excepção do momento em que a empurra no baloiço, nunca se tocam. Em vez disso, Jozef procura que a sua sombra beije a sombra da rapariga, contenta-se em encostar os lábios ao pedaço de vidro que ela antes embaciou, entra em êxtase quando consegue respirar ao lado dela, com a mesma cadência.
Depois, sucedem-se episódios. Tragédias familiares. Pessoas que morrem por causa de uma figura de estilo. A I Guerra Mundial, vista de um balão pairando sobre as trincheiras. Um Museu das Coisas Inúteis. Colarinhos assimétricos. Uma orelha arrancada. Cadernos cheios de desenhos (um só com olhos abertos, outro só com olhos fechados). O tempo a transformar tudo em areia. A mãe abandonada num hospício. Ida para os EUA. Regresso à Europa. Uma espécie de cegueira (o olhar ofuscado por sombras). Quase fim da linha em Lisboa, no meio de um «povo fatal».
Afonso Cruz narra tudo isto com vigor e precisão, em capítulos curtos. O estilo é o que já lhe conhecíamos: poético, filosófico, aforístico («Se está esticado é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador»). No manifesto gozo com que trabalha a linguagem, nota-se sobretudo neste autor a convicção de quem acredita firmemente no poder imenso, quase mágico, da literatura: «As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas.»
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]
Coisas terríveis em movimento
Ferrugem Americana
Autor: Philipp Meyer
Título original: American Rust
Tradução: Ester Cortegano
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 411
ISBN: 978-972-25-2283-0
Ano de publicação: 2011
A imaginária cidade de Buell, onde Philipp Meyer centra a ação de Ferrugem Americana, um dos mais aclamados romances de estreia dos últimos anos, fica no vale do Mon, a sul de Pittsburgh (Pennsylvania), em tempos um grande pólo industrial que produzia aço para todo o país, mas condenado ao declínio económico desde os anos 70. Uma a uma, as siderurgias fecharam as portas e «o vale entrou em colapso». As sirenes que assinalavam as mudanças de turno — com milhares de operários a sair das fábricas e outros milhares a entrar — calaram-se de vez. Os apitos já só se ouvem na memória dos nostálgicos: «apenas vinte anos antes, houvera tanta vida em Buell que era inconcebível, era impossível aceitar a ideia de que um lugar pudesse ser destruído tão rapidamente». Mas a decadência, vertiginosa, chegou mesmo. Tal como a miséria e o desemprego de longa duração. Por muito que pareça inconcebível, os EUA começam de facto a «andar para trás como nação, provavelmente pela primeira vez na História».
Meyer parte justamente daqui, deste «ignóbil» reverso do Sonho Americano. Não espanta por isso que as suas personagens pareçam (embora umas mais do que outras) condenadas à desistência e «a fazer tudo de maneira errada». Presas a uma cidade decrépita, de onde não puderam ou não quiseram sair, elas deixaram-se apanhar pelos «tempos sombrios». Na verdade, não pedem mais do que «uma vida com um pouco de dignidade», mas até isso parece um desígnio difícil de cumprir, quando a corrosão que devora as fábricas em ruínas se estende às relações sociais e aos pequenos gestos do quotidiano. A dada altura, alguém refere que em Buell há «coisas terríveis em movimento», só discerníveis quando já é «demasiado tarde».
Uma dessas «coisas terríveis» materializa-se numa tragédia, protagonizada por Isaac English e Billy Poe, amigos desde a escola secundária. Hoje com 20 anos, eles arrependem-se de terem ficado na terra natal, em vez de procurarem a sorte noutras paragens, como Lee, irmã de Isaac e ex-namorada de Poe, que se licenciou em Yale, onde encontrou o marido endinheirado. Se Billy, potencial estrela do futebol americano, ficou por vontade própria e casmurrice, recusando as bolsas de estudo universitárias que lhe ofereceram, Isaac foi vítima da escolha de Lee. Com a partida da irmã, ele teve de ficar a cuidar do pai, incapacitado por um acidente de trabalho na siderurgia e sozinho depois do suicídio inexplicável da mulher, cinco anos antes.
Quando o livro começa, Isaac, o melhor aluno do condado, planeia fugir para a Califórnia e dedicar-se à astrofísica. No bolso leva quatro mil dólares, roubados ao pai, e a disposição aventurosa de um «Jack Kerouac Júnior». Mas a ingénua odisseia descamba logo ao princípio. Enquanto tenta convencer o amigo Billy a fazer-lhe companhia, os dois são apanhados por uma bátega e abrigam-se numa velha fábrica abandonada. Chegam então três vadios que reclamam o espaço e Billy, incapaz de resistir a um confronto físico, faz-lhes frente. Resultado: um dos sem-abrigo acaba morto. A partir deste nó narrativo, a «coisa terrível» foi posta em movimento e não mais parará.
Em pânico, Isaac e Billy não avisam a polícia. Em vez disso, decidem seguir cada um o seu caminho. Isaac viajará escondido em comboios de mercadorias, antes de mergulhar numa espiral violenta: é espancado, assaltado, humilhado, perseguido, forçado a roubar em lojas, sujeito à fome e ao frio mais extremos. Billy é detido mas recusa-se a prestar declarações, para não incriminar o amigo, acabando numa cadeia de alta segurança, onde o seu mau feitio o incompatibiliza com os vários gangs de prisioneiros e o deixa marcado como alvo a abater.
Esta narrativa poliédrica não se fixa, porém, apenas nas descidas ao inferno, em paralelo, de Isaac e Billy. Há outras quatro personagens centrais, que vão assumindo à vez o protagonismo de cada capítulo: Lee; Grace, a desesperada mãe de Billy; Henry, o pai de Isaac; e Harris, o chefe local da polícia e amante intermitente de Grace, indeciso quanto à possibilidade de livrar Billy do sarilho em que se meteu (como já fizera anteriormente, num caso menos grave). Recorrendo com mestria à técnica do monólogo interior, Meyer entra na cabeça destas pessoas e acompanha os seus caóticos pensamentos, os raciocínios obsessivos, as dúvidas, angústias e medos, o sentido de lealdade e os dilemas morais (particularmente agudos no caso de Harris).
Ferrugem Americana pode ser lido como um romance pessimista sobre uma época e um lugar amaldiçoados, prestes a regressar ao «estado primitivo» em que é a natureza quem mais ordena. Mas, se lermos com atenção, apercebemo-nos do infinito cuidado e respeito que o autor dedica às suas figuras humanas, aos hérois possíveis desta história sem heroísmo. Mesmo quando mergulham nas trevas, há sempre nestes homens e mulheres um lampejo da tal «dignidade» a que aspiram até os proscritos entre os proscritos. Compreendemos então a escolha para epígrafe de uma frase de Camus, segundo a qual em tempo de pestilência aprendemos «que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar». Ela podia ser apenas uma inspiração. Mas é mais do que isso. É todo um programa.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Sintomas de poema
Uma Prática para Desconserto
Autora: Sylvia Beirute
Editora: 4Águas
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-989-97401-0-5
Ano de publicação: 2011
Sylvia Beirute é uma poeta algarvia de 26 anos que foi revelando o seu trabalho inédito no blogue Uma Casa em Beirute e se estreia em livro com Uma Prática para Desconserto. Os poemas desta autora, quando lidos isoladamente no ecrã, surpreendiam pela força expressiva e um certo desassombro (havia neles a espontaneidade de quem não escreve com um fim à vista), mas grande parte desse efeito perde-se na passagem para o papel. Há poemas que se anulam uns aos outros, ou que vêem subitamente expostas as suas fragilidades – vítimas talvez da luz mais crua da página branca.
Logo a abrir, um «Aviso» compara a poesia a uma doença contagiosa: «se tiver sintomas de poema, aguente». A distância de segurança, porém, nunca é respeitada e a contaminação acontece, trazendo consigo a marca da recusa: «não tenho maneiras puramente estéticas. / não tenho processos literários. / (…) não recuperei emoções com a cabeça. / não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema». A autora propõe-se então escrever a partir de um grau zero, de uma imaginária Beirute em ruínas, onde «o sujeito só deve representar / o que sente».
O resultado é desigual. Quando acompanha «movimentos em colapso», a linguagem torna-se uma máquina voraz, caótica e intuitiva. Mas isto acontece poucas vezes. Na maior parte dos casos, Sylvia Beirute perde-se em metafísicas abstractas, a raiar o pretensioso, e deixa-se cair nas armadilhas da escrita automática (geradora de versos catastróficos, como «a cármica sede / que desflora uma cor difusa»). Se «escrever poemas é errar», falta agora errar de novo e melhor, como diria Beckett.
Avaliação: 4,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Os banhistas zombies

Histórias Amorais para Crianças e Animais
Autor: João Diogo Zagalo
Editora: Angelus Novus
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-8827-83-0
Ano de publicação: 2011
Com as suas desconcertantes Histórias Amorais para Crianças e Animais, uma bela obra de estreia, João Diogo Zagalo junta-se a uma corrente infelizmente pouco explorada na literatura portuguesa: a da narrativa ácida, ora delirante, ora absurda, em tempos praticada por Mário Henrique Leiria e ultimamente recuperada por Rui Manuel Amaral. É uma escrita que conhece os mecanismos tradicionais da ficção, as suas regras, os seus truques, e depois se encarrega de os desmontar, de os virar do avesso, de os reinventar.
O livro está organizado em cinco partes. Na primeira, fala-se essencialmente de amores e ódios, quase sempre de forma distorcida. Aberrações anatómicas, equívocos tecnológicos (via SMS), diálogos vazios literalmente em torno de nada, casos de necrofilia, um choque frontal entre o erotismo e o Direito (com sugestivas expressões em latim) – há de tudo. Até um homem que diz amar a namorada «quase tanto como um saco de batatas».
Seguem-se contos sobre um tema árduo: o trabalho. Em As Camisolas dos meus Colegas, um novo funcionário invisível (ou talvez inexistente) aumenta por linhas tortas a produtividade da empresa. Que Força é Essa? explica o significado do verbo procrastinar. E a Carta endereçada ao Menino Jesus, da parte de um advogado esfomeado está mesmo a pedir para ser o hino irónico da geração à rasca. Nesta secção do livro, abundam os escritórios, algures entre Franz Kafka e Ricky Gervais.
A terceira parte, talvez a menos interessante, nasceu da leitura de fait-divers e notícias de jornal. Além de uma sátira à profusão de biopics em Hollywood e de uma caricatura mordaz da literatura light nacional, vale pela invenção de um conceito curioso: os «não-obituários de pessoas desconhecidas».
Na quarta parte, Zagalo, inspirando-se nos entremezes medievais, criou diálogos eficazes e de um fino humor (destaque para a deliciosa paródia aos comentadores televisivos). Por fim, surgem os contos baseados em personagens de histórias infantis ou da mitologia popular: Pinóquio vítima das suas mentiras úteis; Drácula agarrado ao Facebook; a história de Hansel e Gretel como a poderia ter contado Boris Vian. A melhor história, porém, intitula-se Os Banhistas Zombies, um relato de como as coisas mais estranhas se podem dissolver naquilo a que chamamos normalidade (e, de certa forma, uma chave para a lógica secreta desta escrita).
Quanto ao epílogo, «em jeito de final feliz», resume tudo o que lemos antes, levando-o ao paroxismo. E confirma uma ideia: a de que valerá a pena acompanhar, muito de perto, a trajectória futura de João Diogo Zagalo.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]
Exortação ao crocodilo

Deixem Falar as Pedras
Autor: David Machado
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 331
ISBN: 978-972-20-4503-2
Ano de publicação: 2011
O arranque de Deixem Falar as Pedras, segundo romance de David Machado, é daqueles que nos agarram logo pelos colarinhos. Sem preâmbulo, entramos de chofre no quotidiano atribulado de Valdemar, o narrador, adolescente obeso que aterroriza os colegas de escola, quando não anda aos beijos e a ouvir bandas de heavy metal com Alice, a pseudo-namorada anoréctica. As suas angústias, frustrações e actos de rebeldia vão sendo escritos à mão num caderno que por vezes rasura, a preto, para esconder os momentos de maior fragilidade emocional. E é aqui que começa o triunfo de David Machado neste livro. Antes de tudo o resto, temos uma voz cheia de raiva e desespero, de energia e desassombro, com qualquer coisa que remete para o subjectivismo radical de Holden Caulfield, a lendária personagem de Salinger. Só para conhecer esta voz, intensa como poucas na literatura portuguesa recente, já não daríamos por mal empregue a leitura do romance.
Depois, aos poucos, vamos conhecendo o cenário familiar em que Valdemar cresceu. O pai controlador, obcecado com o Antigo Egipto e a numismática, incapaz de lidar com a desconformidade social do filho. A mãe jornalista, sempre em reportagem algures, afectuosa mas ausente. E o avô que foi viver lá para casa dez anos antes, figura misteriosa com um passado de heroísmo sangrento, três dedos a menos na mão direita, muito mau feitio e palavrões sempre na ponta da língua. Este homem de acção, porém, apagou-se sem glória, queimando agora os dias a ver telenovelas em série.
É para resgatar o avô do marasmo que Valdemar decide transcrever para um caderno (paralelo ao seu diário com rasuras) todas as histórias ouvidas ao longo dos anos. A sua missão, no fundo, é «abrir o buraco onde a verdade foi enterrada» e desentranhá-la da vasta rede de mentiras que desgraçaram a existência de Nicolau Manuel, desde o dia funesto, há mais de meio século, em que esteve para casar com o amor da sua vida, Graça dos Penedo. Tendo o avô mal-aventurado como única fonte, Valdemar não ignora que o trabalho de iluminar o passado será sempre precário («aconteceu tudo há tanto tempo que as palavras se encheram de sombras e poeira»), mas avança ainda assim. Sem surpresa, a narrativa que emerge é a de um percurso de azares, equívocos, traições e perversidades sem nome – a que não falta, por vezes, uma ironia cruel.
Durante décadas de sofrimento contínuo, Nicolau Manuel experimenta todo o horror do salazarismo. Conhece o pior das piores prisões (Caxias, forte de Peniche, Tarrafal), é espancado e torturado até ao limite do imaginável, partem-lhe os ossos, desfazem-lhe o corpo, torna-se involuntariamente uma figura mítica da luta anti-fascista, ganha e perde identidades, enlouquece, passa por fantasma. Em suma, roubam-lhe a vida, deturpam-na através de uma espécie de «censura existencial», substituem-na por «sopros avulsos, vácuo». Ele é o homem desapossado, o homem que «não é dono nem da sua própria história». E, no entanto, resiste. «Mesmo quando isto era tudo dinossauros, já havia crocodilos», diz a certa altura a mãe de Valdemar. Milhões de anos depois, «viemos nós, os seres humanos, com os nossos automóveis e as nossas cidades e as nossas guerras, e os crocodilos, como se não fosse nada com eles, como se tivessem mais em que pensar do que morrer, sobreviveram». Valdemar conclui: «O avô é um crocodilo.» Um crocodilo que ele venera e deseja a todo o custo redimir.
Há momentos em que o romance perde algum fôlego e foco (embrenha-se demasiado no seu próprio labirinto ficcional), mas as últimas páginas recuperam a força das primeiras. O problema das histórias, diz-nos David Machado, é que «podemos olhar para elas de vários lados e ângulos e a história nunca parece a mesma». Algo que Valdemar aprenderá a seu modo, mas talvez tarde demais.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]
Anatomia do exílio

O Museu da Rendição Incondicional
Autora: Dubravka Ugrešić
Título original: Musej Bezuvjetne Predaje
Tradução: Sofia Castro Rodrigues
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-623-152-1
Ano de publicação: 2011
No início da década de 90, quando a Croácia declarou a independência (precipitando o fim da Jugoslávia), Dubravka Ugrešić ensinava literatura russa na Universidade de Zagreb e era já uma escritora reconhecida. O seu estatuto, porém, de nada lhe valeu quando se opôs de forma clara ao nacionalismo fanático do novo presidente Tudjman, que levou à expulsão das minorias sérvias e à guerra na Bósnia. De um momento para o outro, caiu em desgraça. A imprensa lançava ataques impiedosos, acusando-a de ser «traidora», «bruxa» e coisas piores. «Em apenas um ano, perdera a minha casa, os meus amigos, o meu emprego.» Sem possibilidade, mas também sem desejo, de «regressar em breve», muda-se para Berlim em 1993. «Aos quarenta e cinco anos, dei por mim no mundo com um saco que continha os artigos de primeira necessidade, como se o mundo fosse um abrigo anti-aéreo». Mais tarde Ugrešić viveria nos EUA e na Holanda, mas O Museu da Rendição Incondicional (publicado originalmente em 1998) reflecte a experiência dos primeiros anos berlinenses, logo a seguir à queda do Muro, quando ainda se fazia ouvir, pelas ruas, «o doloroso ruído de uma era desaparecida».
O tema central do livro é o exílio, esse território mental onde deambula quem foi arrancado à «pátria perdida» e se vê condenado a procurar «alguma coisa» que não sabe exactamente o que seja: «(…) os carimbos no nosso passaporte acumulam-se e a certa altura transformam-se em linhas ilegíveis. Depois, começam subitamente a traçar um mapa interior, o mapa do irreal, do imaginário. E é apenas nesse momento que elas exprimem com exactidão a incomensurável experiência do exílio.» Para Ugrešić, esta experiência teve qualquer coisa de «pesadelo», mas também de «neurose». Há nela, implícita, uma «arte da paranóia». De repente, «aparecem rostos que havíamos esquecido, que provavelmente nunca conhecemos, mas parece-nos que os conhecemos desde sempre, lugares que estamos certamente a ver pela primeira vez, mas parece-nos que sempre lá estivemos…»
A cabeça da narradora funciona como uma vertiginosa «mesa de edição», cruzando as suas próprias histórias e vivências quotidianas com as de outros exilados: amigos, artistas, desconhecidos (de quem traça biografias «fortuitas») ou escritores – Joseph Brodsky, Vladimir Nabokov, Viktor Shklovsky, Miroslav Krleza – cujas citações vão surgindo amiúde, numa espécie de diálogo com a tradição literária. Ugrešić aborda o exílio a partir de dentro, mostra-nos as suas arestas e zonas de sombra, mas nunca pretende explicar nada, antes testemunha o desencanto e o cansaço de quem ficou à mercê do turbilhão da História: «Não compreendo o significado de tudo isto, sinto-me deslocada, sou um espécime humano exausto, um seixo, fui atirada pelo acaso para uma costa diferente».
Logo no início do livro, deparamos com a enumeração do conteúdo estomacal de uma morsa do jardim zoológico de Berlim, exposto num mostruário de vidro quando o animal morreu, em Agosto de 1961. Das entranhas do bicho foram retirados paus de gelado, correntes de aço, uma caixa de fósforos, um saquinho de plástico com agulhas e linha, uma lata de cerveja, um isqueiro, etc. (a enumeração é longa). Como sugere a autora, dificilmente se resiste ao «pensamento poético» de que com o tempo aqueles objectos acabariam por revelar algumas ligações «mais subtis» entre si, tal como «o exilado começa a decifrar sinais, cruzes e nós» em tudo, intuindo «uma secreta harmonia, uma lógica redonda de símbolos». Esta lógica, explica Ugrešić, é a mesma que atravessa o seu livro, também ele composto por materiais heteróclitos que vão ganhando nexos insuspeitos, à medida que avançamos na leitura.
Certamente não por acaso, evoca-se Rilke, segundo o qual «a história de uma vida estilhaçada só podia ser contada em pequenos fragmentos». Nas sete partes em que dividiu a complexa estrutura do romance, Ugrešić pulveriza a narrativa, intercalando memórias pessoais com breves ensaios, cartas e diários com ficções autónomas, tudo sabiamente interligado com a determinação daquela amiga que gostava de «passar fios entre as coisas». Outro amigo, artista plástico, «exprime amor entre materiais incompatíveis, casa coisas inconectáveis, (…) desenha um emaranhado de metal duro sob um tapete persa macio». Sem esconder uma pontinha de inveja, a autora diz-lhe: «Gostava de ser capaz de fazer isso.» Um exemplo de falsa modéstia, porque «isso» é precisamente o que ela faz com palavras e ideias.
Se quisermos uma imagem que sirva de chave para O Museu da Rendição Incondicional, o estômago caótico de Roland, a morsa, será a mais óbvia. Mas há outras. Berlim, por exemplo. A «cidade-mutante» em que vários tempos se sobrepõem, com as suas feiras da ladra onde «uniformes sobreviventes, de donos há muito mortos, com insígnias diversas, (…) roçam uns nos outros e o seus únicos inimigos são as traças». Ou o álbum de fotografias, conceito amplamente teorizado por Ugrešić, para quem as fotografias representam «a nossa medida do mundo». Porque elas organizam e fixam a memória individual e colectiva, são o elo que nos prende a um passado sempre em risco de se perder na pura aniquilação do esquecimento. «A vida não passa de um álbum de fotografias. Só o que está no álbum existe. O que não está no álbum, nunca aconteceu.»
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Princípio da esperança
Como Viver em Tempo de Crise?
Autores: Edgar Morin e Patrick Viveret
Título original: Comment vivre en temps de crise?
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-27-1943-8
Ano de publicação: 2011
Desde que o mundo financeiro entrou em colapso (2008), não têm faltado análises sobre a crise global, quase sempre circunscritas à esfera da economia ou aos impactos sociais e políticos. Pode mesmo dizer-se que um dos poucos sectores imunes à crise é, justamente, o dos livros sobre a crise. Filósofos, Edgar Morin e Patrick Viveret propõem-se pensar este fenómeno num contexto mais vasto.
No seu curto ensaio, todo ele apontado ao futuro (Compreender o mundo que aí vem), Morin sugere que só poderemos apreender a extraordinária complexidade do presente se formos sensíveis à «ambiguidade» e «ambivalência» da imensa trama de fenómenos interligados a que chamamos globalização. Só assumindo «uma certa margem de incerteza» é que se pode fazer uma «aposta ética» que reduza a probabilidade do desastre. Optimista, Morin acredita que o facto de termos «chegado a um momento de ruptura» não é necessariamente mau. Quem sabe se não estarão já em curso «forças subterrâneas», toupeiras de Hegel capazes de engendrar a «metamorfose da qual nascerá um novo tipo de sociedade-mundo»?
Viveret parte deste «princípio da esperança» de Morin e cruza-o com Gramsci e o Apocalipse de S. João — ou seja, o apocalipse não enquanto catástrofe mas revelação. Uma revelação que leve ao «encontro crítico da humanidade com ela própria». Autor de estudos sobre os indicadores de riqueza, Viveret debruça-se sobre as «vagas de mutações» que a crise veio magnificar, mostrando como o «velho mundo» está «em vias de se tornar insustentável». Importa então aproveitar a «oportunidade» que a crise também suscita (ao colocar tudo em causa), para «responder positivamente às três questões radicais» com que nos defrontamos enquanto colectivo humano: «que vamos fazer do nosso planeta, da nossa espécie e da nossa vida?»
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Uma mosca entre vespas

Eu e Tu
Autor: Niccolò Ammaniti
Título original: Io e Te
Tradução: José J. C. Serra
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-25-2340-0
Ano de publicação: 2011
Aos 14 anos, Lorenzo é um rapaz com as dificuldades de integração social típicas dos adolescentes. Diz o psicólogo que ele sofre de «perturbação narcísica» e incapacidade «de sentir empatia pelos outros». Na escola, é uma «mosca» rodeada de «vespas». Solução: imita as vespas, finge ser como elas. À mãe, preocupada com o seu isolamento, dá a entender que um grupo de colegas o convidou para uma semana de férias na neve. A mentira ganha vida própria e Lorenzo decide levá-la às últimas consequências: simula a partida para Cortina, fecha-se na cave do prédio (com muitas latas de atum, PlayStation e romances de Stephen King), inventando depois relatórios sobre esqui e montanhas nas curtas chamadas de telemóvel para a progenitora. O idílio solipsista é interrompido pela chegada imprevista de Olivia, uma meia-irmã de 23 anos que Lorenzo mal conhece. Com ela vêm problemas a sério, questões de vida ou morte, dilemas que relativizam as angústias do adolescente, forçam-no a ultrapassar bloqueios, ajudam-no a crescer.
Escrito num estilo seco, directo e sem grandes requintes estilísticos, Eu e Tu é um romance de formação com estrutura simples mas muito eficaz. De leitura fácil (quase light, apesar das sombras que se abatem sobre a história), tem a lógica funcional dos best-sellers. Os picos dramáticos, os momentos de pausa, as revelações, os conflitos, as surpresas – está tudo onde se esperaria que estivesse. É tentador, aliás, imaginar estes capítulos transformados em cenas de um filme. Não por acaso, já foi anunciada para breve a adaptação cinematográfica do livro, marcando o regresso ao cinema de Bernardo Bertolucci, ausente dos estúdios desde 2003.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
O livreiro utópico

Na próxima semana, talvez
Autor: Alberto Nessi
Título original: La prossima settimana, forse
Tradução: Simonetta Neto
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 166
ISBN: 978-972-25-2271-7
Ano de publicação: 2011
Nascido num vale do cantão de Ticino (Suíça), em 1840, Giuseppe Fontana é o arquétipo da figura romanesca. Relojoeiro e operário humanista, desde sempre escandalizado com as injustiças sociais e defensor dos direitos dos trabalhadores, revolucionário nas ideias e nas acções, acabou por vir parar a Lisboa, onde durante o dia trabalhava na Livraria Bertrand do Chiado e à noite mergulhava na boémia ilustre do Cenáculo de Eça e Antero de Quental, o poeta magnético que o descreveu numa penada: «muito alto, muito magro, sempre vestido de preto». José, como lhe chamavam por cá, foi ainda um dos organizadores das Conferências do Casino (1871) e fundador do Partido Socialista Português (1875). A 2 de Setembro de 1876, suicidou-se com um tiro, pondo fim ao suplício da tuberculose.
Eis, em suma, uma daquelas histórias que exigem ser transformadas em literatura. E como nenhum escritor português se chegou à frente, Alberto Nessi, um suíço que mora a dois quilómetros da aldeia onde Fontana nasceu (Cabbio), tomou conta do recado em Na Próxima Semana, Talvez (Bertrand), um romance biográfico de forte pendor poético. Ao longo do relato, sobrepõem-se três planos narrativos: o principal acompanha os últimos cinco anos da vida de Fontana, das Conferências do Casino até ao momento em que decide roubar à doença a decisão de morrer; o segundo consiste nas memórias de infância e juventude, resgate do seu percurso de vida, arrancado às «sombras do passado»; e o último coloca o próprio objecto da história a dirigir-se ao narrador, a partir de um além que tudo abarca.
No fundo, Nessi sabe que nunca alcançamos a verdadeira complexidade de um homem, por muito que o observemos de vários ângulos. Ainda assim, fixa com delicadeza e respeito os belos sonhos e visões de quem tão romanticamente quis mudar o mundo – este mundo que um século e meio depois continua a precisar de ser mudado.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]
Histórias contadas

O Homem do Turbante Verde e outras histórias
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Caminho
N.º de páginas: 187
ISBN: 978-972-21-2408-9
Ano de publicação: 2011
Trinta anos depois da retumbante estreia literária (Contos da Sétima Esfera), e onze anos após o último volume de narrativas curtas (Contos Vagabundos), Mário de Carvalho regressa ao seu habitat natural com O Homem do Turbante Verde. E em grande forma. Não que os seus romances e novelas sejam obras menores, longe disso, mas há no seu perfil de ficcionista uma apetência pela forma breve, um talento para o relato de poucas páginas, que o coloca, sem margem para dúvidas, no restrito panteão dos melhores contistas da literatura portuguesa.
Atente-se, por exemplo, no ritmo perfeito e acabamento sem mácula de O Celacanto. Começa por nos mostrar o narrador ao telefone com uma ex-namorada, enquanto enrodilha o fio espiralado do telefone nos «dedos incautos». Só isto já nos situa no tempo, anterior à omnipresença dos telemóveis e dos aparelhos fixos sem fios. Descobrimos depois que Jacinta, a tal ex-namorada vagamente autoritária, é sócia de uma galeria de arte que aposta em «instalações» de jovens artistas. Ora Jacinta, «para honrar a exposição», decide mandar vir de Moçambique, meio às escondidas, um «planetariamente protegido» celacanto, raríssimo peixe-fóssil, pardo e feio, transportado de avião como se fosse um mero «xarroco tropical». Nessa altura, o fantástico irrompe na narrativa: afinal o bicho paira no ar, junto ao tecto, antes de fugir da galeria para a Rua da Escola Politécnica. O que se segue é Mário de Carvalho vintage: personagens à beira de um ataque de nervos, correrias, altercações, volte-faces e um desfecho irónico, a que não falta o «brilho de escamas» que o peixe voador vai deixando em ombreiras e parágrafos.
Se há histórias ansiosas por serem contadas (ideia sugerida pela epígrafe de Luísa Costa Gomes), o autor de O Conde Jano faz-lhes a vontade, aliando o esmero narrativo a uma certa volúpia no uso da nossa língua e seu vasto vocabulário. Em O Homem do Turbante Verde assistimos ao conceito de guerra preventiva levado ao extremo, algures no Iraque ou no Afeganistão, quando o exército americano rapta crianças para as usar como moeda de troca – neste caso, única forma de salvar arqueólogos transformados em escudos humanos. Na Terra dos Makalueles é um «capricho» literário divertidíssimo, com as influências todas à vista (confira-se o nome dos navios). Depois, uma sequência de três textos abordam um dos temas recorrentes do autor: a memória afectiva da luta anti-fascista, aqui feita de surpresas, desilusões e sobretudo de um certo desfazer da inocência, ou talvez da ingenuidade. Numa dessas histórias (A secção de campo), frustra-se a tentativa de mostrar Eisenstein a camponeses, porque estes preferem o sossego à incerteza do que carece de autorização oficial. E em Bildung acompanhamos um jovem no processo de descobrir que o amor por vezes não dura mais do que o desfraldar de uma bandeira.
À medida que avançamos no livro, o carácter faceto desta escrita (evidente na história rocambolesca do homem que tenta, tenta, mas não consegue sair do Porto) vai dando lugar a atmosferas mais densas e opressivas. Na secção final – muito negra, pessimista, kafkiana – mergulhamos no absurdo das relações sociais equívocas (O chochman), na violência absoluta a que se submete um ser humano atirado para uma via crucis involuntária (A longa marcha) e no fechamento literal a que conduz a paranóia (O reduto).
Voltemos um pouco atrás: «Renato ouvia vagamente, intrometendo-se no clamor, como um veio precioso na escória, a voz alteada e fina de um pequeno homem de pêra que levantava um dedo enristado, e se dirigia, furioso, ao comissário de polícia. Num instante, a multidão oscilou, dividiu-se, sombras correram, a vaia modelou-se em vozeios diferenciados, crepitaram ruídos corridos de passos, desaustinaram tropeios de botas.» Por muito que as histórias sejam bem arquitectadas e as personagens construídas com minúcia, o que torna este livro extraordinário é a prosa inigualável de Mário de Carvalho.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]
Labirinto quinhentista
O Romance do Gramático
Autor: Ernesto Rodrigues
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 230
ISBN: 978-989-616-437-9
Ano de publicação: 2011
Na abertura deste romance, Ernesto Rodrigues recorre a um dos mais antigos estratagemas ficcionais: a descoberta de um manuscrito perdido que lança nova luz sobre uma determinada figura histórica. Neste caso, o foco recai sobre Fernando de Oliveira, autor da primeira Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536). Em jeito de preâmbulo, assistimos ao encontro entre um professor de português da Universidade de Budapeste e uma aluna húngara que prepara dissertação sobre João de Barros. Nas suas investigações, a jovem recupera um documento, dobrado em 16 partes, escrito por diferentes mãos, tanto na frente como no verso. Os dois textos, autónomos, causam no professor «admiração, inveja limpa, euforia», na medida em que revelam uma inesperada qualidade romanesca, antecipando «algumas propostas da ficção seiscentista e ulterior».
O primeiro «livro» consiste numa estranha narrativa, passada na ilha de Bled (actual Eslovénia), em Setembro de 1532, quando os turcos voltam a ameaçar a Europa. Enviado pelo papa, Fernando de Oliveira chega a um mosteiro de frades desconfiadíssimos, numa missão pouco clara até para ele próprio. Apresentando-se como censor de livros, tenciona vigiar aquela comunidade fechada e hostil, mas é ele que acaba vigiado.
A ilha surge como um espaço opressivo, longe do mundo, onde se infiltra, por entre as neblinas, uma espécie de irrealidade. Oliveira assiste a crimes horrendos, fugas, conspirações, diatribes teológicas e até a um bizarro «concurso europeu Cristo do Ano», com qualquer coisa de reality show. Há ainda uma biblioteca gótica vazia (gémea siamesa de uma igreja) e um labirinto vegetal onde Oliveira intui princípios de uma «gramática da natureza». Sendo um «homem de sentidos», ele tem muitas dúvidas quanto à sua capacidade de resistência ao pecado, acabando por cair em tentação. Ao envolver-se num festim carnal com uma Judite de contornos míticos, o «discurso em romance», barroco e picaresco, torna-se ainda mais difuso e inverosímil — pelo que não espanta o parecer final do frade que proíbe a obra, alegando que ela contém «muita coisa desonesta, e mal soante, alguma escandalosa e contrária à fé e bons costumes».
O segundo «livro», escrito no verso do primeiro, é supostamente obra deste último dominicano censor, inimigo que acompanhou como uma sombra todo o percurso de Fernando, uma vida agora narrada em fragmentos (sete passos e uma «queda»). Mais do que a trajectória de uma «figura indecisa» e fugidia, «mudando conforme o olhar» que sobre ela incide, importa aqui o cenário em que Oliveira se move: esse século «de ouro sombrio», atravessado por «sismos e pestes, pirataria, perdas do rei e da nação, império ao deus-dará», mais o Santo Ofício e seus julgamentos sumários.
Ernesto Rodrigues constrói O Romance do Gramático como um labirinto em que a autoria dos textos é incerta, bem como a verdade do que neles se conta. Mas o que lhe interessa, para lá das contingências ficcionais, é o retrato de um país à beira do declínio, triste sina que se prolongou até hoje. Isso e o elogio do amor (em jogo de espelhos que atravessa os séculos). Isso e o prazer da escrita, dando corpo ao «luxo de falarmos esta língua».
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Meridiano de culpa

A Ilha de Sukkwan
Autor: David Vann
Título original: Sukkwan Island
Tradução: José Lima
Editora: Ahab
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-97228-2-8
Ano de publicação: 2011
Jim, um dentista de Fairbanks, decide largar tudo para viver na natureza, longe dos «excessos da humanidade». Numa ilha remota do Alasca, a que só se chega de barco ou hidrovião, compra um terreno e respectiva cabana (a precisar de obras) e convida o filho para um ano inteiro de isolamento e reconciliação. Roy tem 13 anos. Está habituado ao sol e aos confortos da Califórnia, para onde se mudou em criança com a mãe e a irmã. A perspectiva de ficar com o pai numa ilha inóspita, meses a fio, não o entusiasma mas também não o angustia. Só que Jim começa, aos poucos, a dar mostras de perturbação. Em vez de se descontrair e trabalhar o relacionamento com Roy, vai-se fechando cada vez mais numa «carapaça» de desespero sem fissuras. Ele queria ser «um novo homem surgido das cinzas» (as cinzas dos dois casamentos que arruinou, dos falhanços profissionais, das dívidas ao fisco) mas não consegue. Por isso, chora à noite. E deixa o filho preocupado com a sua fraqueza psicológica, a falta de jeito para as questões práticas da sobrevivência, a obsessiva acumulação de mantimentos para o inverno.
Entre os dois há uma corda emocional, esticada até ao limite. Quando esta rebenta, é para o lado que menos se esperaria e o livro mergulha a pique num território de trevas (como num pesadelo). Quem sobrevive, não sobrevive: afunda-se na culpa, na dor, numa solidão irredimível. David Vann, ao acompanhar em apneia a trajectória dessa «queda», revela a têmpera dos grandes escritores.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
A sintaxe do caos

As Teorias Selvagens
Autora: Pola Oloixarac
Título original: Las Teorías Salvajes
Tradução: Margarida Amado Costa
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 263
ISBN: 978-972-564-957-2
Ano de publicação: 2011
Num dos capítulos finais de As Teorias Selvagens, primeiro romance da argentina Pola Oloixarac (n. 1977), deparamos com um «fenómeno total»: um ataque organizado, com o apoio informático de verdadeiros hackers, ao site do Google Earth. Aproveitando a vulnerabilidade dos protocolos estruturais da Internet, os piratas conseguem trocar as fotografias normais do perímetro urbano de Buenos Aires por imagens modificadas. Da manipulação resultam não apenas avenidas repletas de sangue e edifícios reduzidos a ruínas (todo um cenário de hecatombe), mas também uma vista aérea da própria história da cidade, através de uma «justaposição de tempos». O que está em causa nesta espécie de terrorismo artístico é a inscrição de «factos, pormenores, arquitetura, catástrofe e caos». Dito de outro modo, o que se leva aqui ao extremo é a própria noção de simulacro: o mapa já não é uma réplica do espaço físico mas sim uma materialização do tempo como «cenário sucessivo».
Até chegar a esta apoteose conceptual, o livro de Oloixarac vai sistematicamente sabotando as expectativas narrativas do leitor, à boa maneira pós-moderna de quem sabe que todos os enredos já foram contados de todas as maneiras possíveis. Aquilo a que temos direito é a uma «acumulação de relatos, carentes de ordem e hierarquia, e não propriamente uma história». Mas se a autora deixa para trás a artificialidade do realismo (e a sua tentativa vã de contar a verdade concreta do mundo), também não cede, sem mais nem menos, ao canto de sereia dos exercícios meta-literários. As Teorias Selvagens começa por ser uma sátira devastadora do mundo académico e das imposturas intelectuais que por lá campeiam, mas nunca deixa de reflectir a sociedade argentina contemporânea, dos traumas da sua história recente (os «anos de chumbo») às dinâmicas de comportamento das novas gerações.
A principal linha narrativa que atravessa o livro acompanha a aproximação obsessiva de uma aluna de Filosofia a um professor decadente: Augusto García Roxler. Este criou uma difusa e críptica Teoria das Transmissões Yoicas, a partir do trabalho feito no início do século XX por um antropólogo holandês, Johan Van Vliet, admirador de Rousseau e estudioso de comunidades humanas alheias «ao processo de adaptação coreográfica chamado cultura». Quando desapareceu na selva, Van Vliet deixou discípulos fracos, cujas exposições académicas lhes saíam «das gargantas como balidos de errantes cabras montesas», inintelígiveis e por isso condenadas a não deixar «descendência teorética». Décadas mais tarde, é Roxler que encontra o seu próprio caminho ao compreender as implicações profundas do legado de Van Vliet: «Tinha nas mãos o tecido fetal da intuição, e agora devia esmagá-lo contra a garganta do seu sistema de crenças». A teoria, porém, volta a encalhar, até que a estudante se entusiasma com as suas possibilidades e se decide a corrigir os respectivos erros, falhas e incongruências, fechando-se em casa – com a sua biblioteca omnívora, um peixe vermelho e uma gata chamada Montaigne – a teclar furiosamente noite dentro.
Em si mesma, a teoria das transmissões yoicas é imperfeita, para não dizer ridícula, mas a aluna/narradora encontra ali o modelo para uma «antropologia da voluptuosidade e da guerra», que presume a maldade natural dos homens e aponta, como chave da evolução da espécie, o momento em que um primata antiquíssimo passou de presa a predador das bestas. Quase como ilustração prática destas ideias, acompanhamos em paralelo uma segunda linha narrativa, centrada num par de namorados muito feios (Kamtchowsky e Pablo/Pabst) que vivem a vertigem do século XXI como uma espécie de reverso da década em que nasceram: «Nos anos 70, (…) não havia como ser piroso. Podias bradar aos quatro ventos que o teu objetivo na vida era ser poeta maldito, que ninguém se ria na tua cara. Agora é diferente.» Uma diferença que passa pela despolitização dos jovens, indiferentes à mitologia heróica dos intelectuais de esquerda que se aburguesaram, e pela recusa dos discursos hegemónicos (a «alegada revolução sexual», por exemplo, é vista como uma falácia, uma vez que o sexo é apenas «um sistema estável de formas egoístas que giram em redor do sol da vaidade»). Na era do cinismo, chega-se ao ponto de enaltecer a McDonald’s como o único lugar verdadeiramente democrático, onde «toda a gente ia para a fila, e o que obtinham não era mais do que aquilo a que podiam aspirar».
Para o seu livro-vórtice, Oloixarac tanto convoca a cultura popular (canções foleiras, programas televisivos, jogos de computador, filmes de James Bond, blogues, YouTube) como o pensamento de filósofos clássicos (de Hobbes a Leibniz, de Sun Tzu a Wittgenstein). As suas personagens não dialogam: debitam opiniões elaboradíssimas, de uma erudição exagerada e provavelmente wikipédica. Para elas, tudo pode ser relacionado com tudo. São teóricos selvagens, procurando ligações (uma sintaxe, uma ordem) no caos da informação quase infinita que hoje temos ao dispor.
Embora denso e por vezes cansativo (sobretudo quando abusa do jargão académico e acumula referências especificamente argentinas que o leitor europeu não capta), este é um romance brilhante, uma comédia intelectual corrosiva e um exemplo de inteligência literária, com a dose certa de sentido crítico.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Inventário de assombros

Contos Carnívoros
Autor: Bernard Quiriny
Título original: Contes Carnivores
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Ahab
N.º de páginas: 233
ISBN: 978-989-97228-0-4
Ano de publicação: 2011
Por vezes, há livros que provocam uma inveja saudável: «Caramba, como eu gostava de ter escrito isto.» Ou uma certa raiva: «Mas porque não me ocorreu a mim, em devido tempo, tão espantosa ideia?» Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny, é um desses livros. Depois dos cumes a que Jorge Luis Borges a elevou, poderia pensar-se que a literatura fantástica estava condenada ao declínio, à repetição, ao pastiche, ao esgotamento. Este jovem autor belga (n. 1978) prova precisamente o contrário. E não é, evidentemente, caso único. As extraordinárias narrativas deste seu segundo livro representam mesmo, para quem a elas se saiba entregar, um atestado de vitalidade criativa de um género que já nos ofereceu no passado – de Edgar Allan Poe a Julio Cortázar ou Italo Calvino – um sem-número de obras-primas.
Para além do recorte clássico da escrita (muito trabalhada, elegante, buriladíssima), o que mais impressiona nas 14 histórias de Quiriny é o rigor da sua construção e o esmero do acabamento literário. Cada conto revela uma unidade perfeita, em que um certo conjunto de ideias ou pressupostos são testados e explorados até aos limites da sua potencialidade narrativa, até ao cerne da sua lógica interna. O modelo recorrente consiste no embate (umas vezes divertido, outras inquietante) de personagens vulgares com situações inauditas, quase sempre anomalias da percepção ou fenómenos sobrenaturais. Como as histórias são narradas na primeira pessoa, o leitor partilha o espanto, os medos, as angústias e as epifanias dos protagonistas, vive o desconcerto por dentro, sofre na pele os mecanismos do absurdo, e acaba por aceitar a precária verosimilhança do que lhe vai sendo descrito.
Logo no primeiro conto, Sanguínea, deparamos com uma mulher que tem o corpo literalmente coberto por casca de laranja, uma mulher-citrino que se deixa beber pelo seu amante. Dito assim, parece um disparate grotesco. Lido no papel, é uma fantasmagoria erótica lancinante, que fica a pairar na memória como uma assombração. Outro exemplo: o bizarro ovo humano que um artista pinta em A ave rara. Ou o bispo cuja alma se divide entre dois corpos (O episcopado da Argentina), invertendo a situação da mais conhecida personagem de Stevenson – Dr. Jekyll/Mr. Hyde – que tinha num só corpo duas almas. Há depois quem beba o que não é suposto beber (Uma embriaguez perpétua), quem oiça o que não é suposto ouvir (Qui habet aures…), quem veja o que não é suposto ver (Miscelâneas amorosas). E há quem encomende a própria morte por razões artísticas ou por enfado (Recordações de um assassino a soldo).
Os leitores que se aventurarem nestas páginas ficarão também a saber o que são «homonimografias», em que consiste o «gaudiofone» e o que leva pessoas aparentemente sãs a atravessarem a Europa para assistirem, em êxtase, ao triste espectáculo de uma maré negra a chegar às praias galegas. Expansiva, a fantasia de Quiriny cria ainda catálogos inteiros de músicos e escritores imaginários, com destaque para uma personagem-fetiche que surge em vários contos e já aparecia no livro anterior: Pierre Gould, autor sem obra, homem tímido, excêntrico e desligado da realidade, que tem como lema «Já não acreditar senão nas lendas» e talvez seja o duplo de Quiriny. Ou seja, o verdadeiro autor destes Contos Carnívoros, como sugere Enrique Vila-Matas no seu brilhante posfácio, cheio de malícia e alguma da tal saudável inveja.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]
A matéria da memória

Cartas do Meu Magrebe
Autor: Ernesto de Sousa
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 142
ISBN: 978-989-671-091-0
Ano de publicação: 2011
Hoje infelizmente pouco lembrado, Ernesto de Sousa (1921-1988) foi um artista pluridisciplinar que se dedicou à fotografia, ao cinema, ao teatro e às artes visuais de vanguarda, depois de ter sido, ainda na década de 40, um pioneiro dos cineclubes. Dom Roberto, a sua única longa-metragem, esteve na origem – junto com Os Verdes Anos, de Paulo Rocha – do chamado Novo Cinema Português. Premiada em 1962 no Festival de Cannes, onde o realizador não esteve presente porque a PIDE o prendeu na fronteira, a obra viria a ser escolhida, nesse mesmo ano, para a International Filmweek de Manheim. Com o objectivo de financiar a deslocação à Alemanha, Ernesto de Sousa empreendeu uma outra viagem, a Marrocos e Argélia, pretexto para uma série de crónicas publicadas no Jornal de Notícias. Assim surgiram As Cartas do Meu Magrebe, agora editadas em livro pela Tinta da China, incluindo as que foram censuradas e permaneciam inéditas.
Embora interessantes, as crónicas marroquinas não trazem nada de novo. Aborda-se a amizade dos homens que andam de mãos dadas na rua, o dúbio «encanto da mulher velada», os rituais da hospitalidade, a miséria dos bidonvilles, a arquitectura, o chá de hortelã e encontros significativos de sinal oposto (a gentileza de um artesão pobre; a fúria de um aguadeiro que não queria ser fotografado). Só quando entra na Argélia, ainda com muitas marcas da recente guerra de Independência, é que a escrita ganha outra espessura. De Tlemcen a Argel, passando por Orão, Ernesto de Sousa mede o pulso a um país a começar do zero, contraditório mas cheio de esperança. E fá-lo misturando habilmente os tempos das suas deambulações, «porque a memória é a matéria, e o vivido um intervalo dela».
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Uma coerência dadaísta
Tudo Voltaire ao Cabaré
Autor: Luís Serra
Editora: Apenas Livros
N.º de páginas: 28
ISBN: 978-989-618-336-3
Ano de publicação: 2011
Professor de Filosofia, Luís Serra (n. 1970) publicou até agora dois conjuntos de poemas, com tiragem reduzida e circulação discreta. Atentando no seu aspecto artesanal (folhas agrafadas, sem lombada, presas por um cordel), estamos mais próximos da noção de plaquete do que do conceito de livro. O que faz aliás todo o sentido, ou não se desse o caso deste «poeta do arrabalde» cultivar uma irreverência e um descentramento que colocam a sua escrita nas margens – ou talvez mesmo fora – do mapa oficial da poesia portuguesa contemporânea, se é que tal cartografia existe.
À semelhança do primeiro trabalho (o desconcertante Brinquedos de Latão e Sarampo, 2009), Tudo Voltaire ao Cabaré reúne uma série de poemas muito breves, por vezes irónicos, outras vezes esquivos, vagos, ou então absurdos (melhor dizendo: não redutíveis a um qualquer sentido), mas capazes de fixar em três ou quatro versos uma ideia poética intensa. Constate-se a subtil acumulação de elementos sensoriais (imagem, som, tacto, desejo) do poema Manhã leve e amarga:
os portões de madeira carunchosa
o murmúrio do alambique
a luz e o gato que brincam recônditos
o amor flutuante em urgências perversas
Como o título da obra sugere, estes textos são varridos por «ventos fortes de coerência dadaísta». Luís Serra é sensível à força bruta dos acasos vocabulares, à sua incongruente beleza. Está atento às «derrapagens» e «atritos», ao que é «bambo» e «sem acerto», à «passageira arte com ferrugem». Quando pode, finta a semântica, essa «senhora / tão fora de horas». E oferece-nos, entre alguns poemas falhados, visões fulgurantes (exemplo: a nespereira «a um canto do pátio / como ardil amarelado / que não deserta»).
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Damas & Valetes

O Homem do Buick Azul
Autor: António Garcia Barreto
Editora: Oficina do Livro
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-989-555-570-3
Ano de publicação: 2011
Eneias Trindade, o protagonista do romance O Homem do Buick Azul, de António Garcia Barreto, é um detective privado sui generis. Com um metro e oitenta de altura para noventa quilos, quase «gigante» se atendermos «à bitola do português médio», faz-se valer das manhas de antigo polícia e dos músculos de ex-pugilista. Fumador compulsivo de cigarrilhas, leitor de Camilo, bom garfo (gosta de frequentar casas de pasto e leitarias), Eneias anda tristonho com a fuga da amada Rosarinho, que vários namoricos e flirts com outras mulheres não chegam a afastar do seu pensamento. A história dos desencontros com Rosarinho vem de um livro anterior (A Mulher da Minha Vida, 2008), bem como o Padre Angústias, agora reduzido à figura de mentor cujos aforismos pontuam a narrativa.
Um desses ensinamentos — «Este país tem muito sol por fora e muita sombra por dentro» — retrata na perfeição o Portugal da época (1933). O cinzentismo paira sobre todas as coisas e sufoca Lisboa com cheiros ácidos a «trapo velho», não conseguindo mesmo assim eclipsar a beleza e vibração da cidade. «No reino dos céus morava Deus; em São Bento, Salazar.» Mais modesto, Eneias vive numas águas-furtadas e mantém a custo uma pequena sala de trabalho num andar de escritórios. É aí que recebe os seus clientes, quase sempre necessitados de ajuda em casos de «damas & valetes»: grandes intrigas e pequenos mistérios de gente abastada. Casos como o desaparecimento de um sportsman chamado Álvaro Durval, conhecido produtor de vinho do Porto que se eclipsou e os amigos querem encontrar, embora com menos empenho do que seria de prever.
Na sua investigação, Eneias destapa pouco a pouco um mundo que cruza a alta roda da sociedade lisboeta com o bas-fond dos bairros populares. Há de tudo: senhoras elegantes e automóveis americanos, rufias e proxenetas, polícias sem grandes problemas em recorrer à tortura e até um anão travesti. De pistola Parabellum no coldre, o detective vai da capital a uma quinta no Douro, passando pelo Porto, para desmontar uma teia sem pontas soltas e que reserva ao leitor um desenlace surpreendente.
A escrita de Garcia Barreto é simples, directa e bastante eficaz, embora revele algumas fragilidades estilísticas. Volta não volta, salta um cliché ou uma frase pirosa (como esta: «O dia amanheceu da cor do sorriso das crianças»). Em certos momentos, a narrativa tem ainda tendência a perder-se nos meandros psicológicos de Eneias, nos seus dilemas afectivos banais, mas nada que comprometa o ritmo de uma história bem contada.
Avaliação: 5,5/10
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]
O funeral da literatura

Dublinesca
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Dublinesca
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teorema
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-695-951-9
Ano de publicação: 2011
Samuel Riba é um editor à antiga, daqueles que «ainda lêem». Enquanto a sociedade «avança a passos gigantescos para a estupidez», ele está entre os últimos exemplares de uma espécie em vias de extinção — e sabe disso. Resignado, dispõe-se a vender a sua editora mas o negócio não avança. Já a velhice, pelo contrário, trepa por ele acima, voraz, deixando-lhe mazelas físicas e a angústia de não saber lidar com elas. O mundo digital assusta-o, é uma «ameaça», mas também uma fonte de fascínio (fica hipnotizado diante do computador: faz pesquisas no Google, vê vídeos no YouTube). Entre Célia, a companheira que se converteu ao budismo, e os pais muito idosos, incapazes de compreender as suas obsessões literárias, sente-se emparedado. Melhor dito: está num impasse. Até que um sonho premonitório o empurra para Dublin na companhia de três escritores amigos. O que o atrai é Joyce, é o cortejo fúnebre do sexto capítulo de Ulisses (essa «síntese universal»), pretexto para «celebrar as exéquias da galáxia Gutenberg», o ocaso de uma era, o funeral de uma certa ideia da literatura enquanto «arte em perigo».
No seu jeito derivativo, Dublinesca é uma belíssima viagem sentimental com requiem ao fundo, percorrendo um labirinto de referências literárias — sabiamente desconstruídas por Vila-Matas, com a habitual ironia. Imerso numa trama povoada tanto por escritores reais (Brendan Behan ou Paul Auster) como por avatares (Vilém Vok, Nietzky), Riba oferece resistência à sua condição de personagem. Ele «não quer de maneira nenhuma viver dentro de um romance». Mas claro que só dentro de um romance, dentro da própria literatura, é que a sua quixotesca e crepuscular jornada faz sentido.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Motorizadas e megawatts
Um Arraial Português
Autor: Rui Lage
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-568-673-7
Ano de publicação: 2011
Ao escrever sobre Trás-os-Montes no seu penúltimo livro de poemas (Corvo, Quasi, 2008), Rui Lage não se limitou a mostrar como pode ser «triste» a «moral da fábula campestre», encontrada no fim de um «caminho» para fora da cidade (Porto) empreendido em Revólver (Quasi, 2006). Nas palavras de Osvaldo Manuel Silvestre, Corvo correspondeu a um «imperativo»: o de «dar voz» a «quem desapareceu da cena da representação portuguesa». Ou seja, esse outro país dentro do país (o interior) que é geralmente ignorado pelas elites culturais.
Lage leva agora o «imperativo» ainda mais longe, fazendo das festas populares na província, durante o «querido mês de Agosto», o objecto da sua lírica atenta e depurada. Inevitavelmente, há aqui um efeito de estranheza, porque se a «paisagem aturdida» desta poesia é a da estética pimba — bailaricos e casamentos, foguetes no ar, motorizadas e megawatts, luzes que piscam, desacatos, muito pó —, a escrita está no exacto oposto da vulgaridade berrante que descreve. Repare-se na adjectivação inventiva («beijo tangencial», «combustíveis raparigas», «varandas penitentes», «muro cabisbaixo»), no rigor da construção estrófica («Nas escadas alinhados / quais peças de artilharia, / um por degrau refulgem, / entre os vasos, / os instrumentos da filarmónica») ou no modo como em apenas dois versos se fixa uma antinomia, uma atmosfera («Pairam abelhas sobre dálias / e cravos de plástico»).
O olhar de Lage é por vezes irónico, mas nunca depreciativo. O que ele procura são as sombras que se escondem sob a euforia kitsch. No seu tom de fanfarra melancólica, este livro é o belíssimo retrato (sem filtros) da nossa ruralidade, emboscada pelas silvas do abandono.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Epifanias familiares

O Progresso do Amor
Autora: Alice Munro
Título original: The Progress of Love
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-641-235-7
Ano de publicação: 2011
O mais recente conto de Alice Munro foi publicado a 27 de Junho, na revista New Yorker. Intitula-se Gravel (Gravilha) e começa por descrever uma cova não muito funda, junto à caravana onde o narrador, então criança, vivia com a irmã mais velha, a mãe grávida, o amante desta e uma cadela chamada Blitzee. A mãe saíra de casa, levando consigo as crianças, depois de confessar ao marido que o filho não fora gerado por ele, mas pelo outro, um actor de uma companhia teatral recentemente chegada à cidade. Segundo Cynthia Ozick, a octogenária Munro (completou 80 anos a 10 de Julho) é «o nosso Tchéckhov». O mestre russo dizia que se no primeiro acto de uma peça vemos uma espingarda pendurada na parede, no último acto ela tem forçosamente de ser disparada. Com a cova de Gravel acontece o mesmo. No Inverno, a neve derretida transforma-a num pequeno lago. É aí que se desenrola a tragédia. Agarrada a Blitzee, a irmã lança-se à água. Nunca perceberemos porquê. Mas o narrador, incapaz de reagir na altura, arrastará toda a vida o fardo dessa súbita paralisia, o peso de não ter evitado aquele afogamento e o respectivo rasto de dor.
Embora escrito um quarto de século mais tarde, este conto podia perfeitamente juntar-se aos 11 textos que compõem O Progresso do Amor, uma colectânea de 1986, agora disponibilizada aos leitores portugueses numa excelente tradução de José Miguel Silva. Neste volume, há mesmo dois contos que representam uma espécie de variação, em negativo, da história de Gravel. Em Miles City, Montana, um casal canadiano viaja de carro nos EUA, com as duas filhas. Num dia particularmente quente, param numa piscina municipal para as miúdas se refrescarem. Por ser hora de almoço, a piscina está fechada mas a nadadora-salvadora deixa-as entrar. Os pais ficam de fora, no automóvel. Talvez guiada por um sexto sentido, a mãe inquieta-se no preciso momento em que a mais pequena desaparece nas águas, longe do olhar da primogénita, distraída com os beijos trocados entre a nadadora-salvadora e o namorado. Milagrosamente, o pior não chega a acontecer. Mas a possibilidade da «mais banal das tragédias» fica a pairar: «E se eu não tivesse tido naquele instante o impulso de ver onde estavam as crianças? E se tivéssemos ido à cidade buscar bebidas, como chegáramos a pensar?» A mera possibilidade da morte iminente de quem amamos, um golpe capaz de nos destruir (e não tão improvável quanto isso), deixa inevitavelmente as suas marcas.
O outro conto é Monsieur les Deux Chapeaux, exemplo perfeito da mestria narrativa de Munro. Colin e Ross são irmãos bastante parecidos, embora o segundo, mais novo, tenha aura de falhado. Na escola em que Colin dá aulas de ginástica, cabe a Ross aparar a relva e outros trabalhos menores. Nos últimos tempos, ele anda obcecado em artilhar o seu carro com um motor muito potente, talvez até potente demais para a fragilidade da carroçaria. Este risco, de que Colin toma consciência durante uma festa, reacende no irmão mais velho um instinto de protecção. Mas de onde vem esse instinto quase físico? Vem lá muito de trás. Depois de ter estabelecido habilmente a teia de relações entre as várias personagens, Munro desenterra, pela voz da mãe dos rapazes, Sylvia, a história fundadora dos equilíbrios familiares. Um dia, durante uma brincadeira perigosa, Colin disparou uma arma, sem querer, contra Ross. Por momentos, julgou que o irmão fora atingido mortalmente e fugiu para o topo de uma ponte, talvez com intenções suicidas. Só depois de ver Ross ileso, embora «não verdadeiramente arrependido» da partida estúpida que lhe quis pregar, é que «tudo começou a regressar ao que sempre fora». Mais uma vez, «o que por pouco não acontecera» condiciona para sempre aquelas pessoas e os seus actos.
Em quase todos os contos assistimos a um trabalho de escavação semelhante. Há sempre uma verdade das personagens que está escondida — por vezes delas próprias (através de complexos mecanismos de defesa) — e o trabalho da ficcionista é trazer essa verdade à superfície. Com extraordinária precisão, Munro cruza os vários tempos de cada história, organizando-os em torno de uma epifania, de uma revelação, momentos que tornam tudo mais claro (ou mais insondável), reverberando depois através da existência de quem os presenciou, em muitos casos fixando um sentimento que é levado ao extremo (desespero, compaixão, amor). São «clareiras na vida», sugere Munro. Lugares onde as coisas ganham sentido. E em que nós, leitores, entramos siderados.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Um escritor a sério

O Filho de Campo de Ourique e outras histórias
Autor: António Figueira
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-972-20-4494-3
Ano de publicação: 2011
Jurista de formação, com muitos anos de carreira diplomática, António Figueira (n. 1961) é um estreante tardio, mas não se pode dizer que seja um desconhecido. Em 2007 viu um conto publicado na revista Ficções (ou seja, passou pelo crivo da exigente Luísa Costa Gomes) e quem frequenta a blogosfera nacional conhece decerto o seu talento de narrador, mais o invulgar domínio da língua portuguesa, evidentes nos textos que vai deixando no blogue 5 Dias. Algumas dessas prosas foram de resto incluídas, mesmo se com modificações, no volume O Filho de Campo de Ourique e outras histórias, um excelente livro que reúne 17 textos e é a afirmação inequívoca de um autor, daqueles que não nascem por geração espontânea, nem se dissolvem na espuma do êxito súbito e efémero.
À medida que se avança na leitura, cresce a sensação de que os temas destas histórias poderiam perfeitamente ser outros. Uma nota explica que Figueira tanto se inspirou num artigo sobre as desventuras de um proxeneta (publicado pela imprensa britânica) como numa página da Wikipedia sobre motocicletas ou numa entrevista lida no jornal gratuito Destak. O que lhe interessa, mais do que os assuntos em causa, é a escrita propriamente dita, o acto de escrever, a inteligência que o texto, ao fazer-se, engendra. Daí o carácter experimental desta obra, que vai dos puros exercícios de estilo aos elaborados morceaux de bravoure (a que não faltam, justamente, doses generosas de francesismos), declinando-se em glosas, variações, estruturas narrativas fragmentadas e toda a sorte de constrangimentos formais (notando-se uma tendência para criar limites quanto ao número total de palavras utilizadas).
Dito isto, convém sublinhar que o virtuosismo de António Figueira está sempre ao serviço de uma ideia de literatura. Ou melhor, de uma vontade literária em contínuo questionamento, a que não falta graça e panache, gozo lúdico e ironia. Seja na Ode ao Nabo, que defende o «encanto» do mui «nobre vegetal» (num único mas veemente parágrafo), seja na engenhosa paródia às teorias da conspiração (Rerum Cognoscere Causas), seja na formidável mas trágica saga do «primeiro grande não-autor da história da literatura mundial» (deliciosa sátira aos mitos literários e ao culto fetichista dos respectivos espólios), vemos surgir do nada uma voz poderosa. O Filho de Campo de Ourique que dá título ao livro pode ser um simulacro de escritor, uma divertida inexistência. Mas o pai do Filho de Campo de Ourique, pelo contrário, é um escritor a sério.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]
Arte de folgar
Bailias
Autora: Catarina Nunes de Almeida
Editora: Deriva
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-9250-77-4
Ano de publicação: 2011
No seu terceiro livro de poemas, Catarina Nunes de Almeida apropria-se dos temas, ritmos e vocabulário das cantigas de amigo medievais. Os poemas são delicadamente atribuídos a donzelas cheias de graça e leveza, tão disponíveis para o amor como para o espectáculo grandioso da natureza. Este é um mundo de folguedos, uma espécie de primavera eterna, declinada em cânticos que ecoam nas «noites bem bebidas». Um mundo de cavalgadas e pomares, florestas e «pasto aceso», tranças e ramos, pão e uvas, lençóis e remos, «ancas ondeadas» e carne viva. As raparigas bailam «rente aos caules / pelos caminhos curvos do vento», ensaiando a «perfeição de um delito» que é sempre um excesso de felicidade, um alvoroço, a manifestação «de uma alegria que tem flores e frutos».
Catarina Nunes de Almeida deixa-se levar por estas criaturas diáfanas, aéreas, luminosas (embora não necessariamente inocentes), abre-lhes as dobras dos seus poemas, inventa-lhes um rasto e enquadra-as num universo verbal bem cerzido, feito de regras antigas que se estilhaçam com garbo, quase sempre através de subtis jogos de palavras («o grande aqueduto das éguas livres»; «adão e erva»; «árvore de rapina»). Aqui, a arte de folgar representa também a liberdade de fazer da linguagem o palco de todas as brincadeiras, de todos os desvios, de todas as reinvenções. É com «brandura épica» que acedemos às veredas que levam ao coração de cada texto. Como nos versos iniciais da secção intitulada “Barcarolas ou Manhãs Frias”:
Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular
onde ia gastando os teus sapatos.
Manhãs compridas que chegavam ao mar.
Trazíamos as letras inclinadas trazíamos
na ponta da língua o nome dos naufrágios
e estávamos à mesa como um corpo de baile.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]
Sob um céu a arder
No Meu Peito Não Cabem Pássaros
Autor: Nuno Camarneiro
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 190
ISBN: 978- 972-20-4625-1
Ano de publicação: 2011
Em 1910, dois cometas lançaram o pânico à escala global. Antes ainda do previsto Halley (Abril/Maio), as pessoas espantaram-se com a cauda brilhante do inesperado Grande Cometa Diurno de Janeiro. Para os mais crédulos, a visão do céu a arder representava o cumprimento de profecias sobre o fim do mundo. Houve quem se matasse, quem enlouquecesse, quem exorcizasse o medo com prantos e rezas. No Meu Peito Não Cabem Pássaros, o arriscado primeiro romance de Nuno Camarneiro (n. 1977), um engenheiro físico de formação que já trabalhou no CERN, é a história de três homens imunes ao dito pânico que assolou o mundo.
Embora o autor seja omisso, não é difícil identificar os protagonistas das três narrativas paralelas. O Jorge que vive a infância rodeado de livros e das lendas dos antepassados (heróis de batalhas míticas), inventando zoologias fantásticas numa Buenos Aires encriptada em anagramas, é Jorge Luis Borges. O Fernando introvertido, com «uma cabeça de inventar filosofias», rapazinho que regressa de navio a um país «diminutivo e manso», só pode ser Pessoa. E Karl, o desamparado imigrante que lava janelas num arranha-céus de Nova Iorque, a oitenta metros de altura, faz lembrar o protagonista do primeiro romance (incompleto) de Kafka: Amerika.
Cada um à sua maneira, estes são homens aprisionados no labirinto da solidão. Jorge «cresce de dentro para fora», usando a imaginação como escudo contra a violência do mundo. Ele tanto projecta as suas memórias nos objectos quotidianos como inventa coisas que não aconteceram mas conseguem forçar a realidade («Um homem a escrever pode virar o mundo para onde quer»). Já Fernando nasceu para ser um homem «cheio de palavras novas a quererem ser ditas». Mesmo quando se fecha no quarto, o seu espírito «sai à rua como se fosse à pesca, deita as redes finas pelas ruas da cidade e apanha o que por lá passa». O mundo é para ser visto e entendido, não inventado – explica-lhe um professor. Em permanente «desacerto com a vida», ele aplica-se a refutar esta máxima. Quanto a Karl, cobaia que fica com um braço a tremer por excesso de electricidade, é despedido, afunda-se na bebida e na miséria, dorme em bancos de jardim, vende bíblias, até se redimir pelo amor num bordel onde o deixam ser barman.
Durante as primeiras cem páginas, o narrador cruza muito bem estes percursos só aparentemente díspares (há ecos, simetrias). Camarneiro começou pela micronarrativa e isso nota-se, sobretudo na forma como burila quase até à perfeição muitos dos seus curtíssimos capítulos. Não faltam excelentes passagens – a descrição da «lógica concêntrica» dos pátios escolares, por exemplo – e belas frases: «O verdadeiro bilhete de um suicida é a sua vida como ele a viveu». Infelizmente, na segunda metade do livro, Camarneiro parece hipnotizado pela própria linguagem, deixando-se levar por um lirismo que se torna omnipresente e cansativo, de tanto se encostar à grandiloquência. Resultado: o romance desfoca-se, dissipa-se, fica aquém do que chega a prometer. Ainda assim, uma boa estreia.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Rendas e cabedal
Como o Ar que Respiras
Autora: Maria João Martins
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 152
ISBN: 978-972-0-04318-4
Ano de publicação: 2011
Em Possessão, o livro que deu a A.S. Byatt o Booker Prize de 1990, dois estudiosos académicos investigam a relação amorosa secreta que uniu os poetas vitorianos Randolph Henry Ash e Christabel LaMotte. Entre o casal do século XIX e o da actualidade há pontos de contacto, paralelismos, mas também óbvias diferenças, que permitem a Byatt comparar duas épocas em quase tudo antagónicas. No seu romance de estreia, Maria João Martins recorre a um dispositivo narrativo similar. Um investigador português (Gabriel Ferreira) e uma especialista inglesa (Angelina Blackwell, Angie para os amigos) aproximam-se por terem um interesse comum: a vida de um casal de poetas vitorianos que servirá, inevitavelmente, de luz e espelho para a sua própria relação. Mas ao contrário de Byatt, que inventou Ash e LaMotte, MJM convoca as figuras reais de Elizabeth Barrett e Robert Browning, protagonistas de uma das mais belas histórias de amor da literatura ocidental.
Enquanto permanece na órbita dos Browning, exemplo maior de um desejo carnal despertado «pelo poder evocativo da palavra», o romance avança com uma certa desenvoltura. Ao revisitarem as cartas e poemas dos seus objectos de estudo, Gabriel e Angie apaixonam-se por uma certa ideia do romantismo levado às últimas consequências, antes de se apaixonarem um pelo outro. Acontece que na era dos e-mails, das webcams e dos telemóveis que sujeitam «tudo e todos à ditadura da audiovigilância permanente», o amor tem de ser outra coisa. E quando Angie vence por fim os seus impasses e bloqueios, aos quarenta anos (tal como Elizabeth, ambas cortejadas por homens mais novos), a liberdade subitamente conquistada conduz a uma procura dos limites – da sedução, do corpo, do sexo – que não cabe nos ideais de entrega pura tão caros aos românticos oitocentistas.
Angie acaba por ser a personagem mais interessante do livro. Enquanto Gabriel é um insípido bolseiro da geração Deolinda, condenado à «via-sacra dos empregos precários e frustrantes», entre call centers e traduções mal pagas («mil nanobiscates com nanopagamentos»), há nela uma candura desarmante. Por um lado, tanto venera Shelley como Ian Curtis, conjugando as «rendas» da literatura com o «cabedal» da música punk. Por outro, surge-nos como um caos afectivo à espera de redenção. O problema é que ela acaba por eclipsar tudo à sua volta, tornando-se gradualmente o centro único da história e desequilibrando de vez a narrativa.
Em Como o Ar que Respiras, MJM cruza muitas das suas referências literárias, musicais e cinéfilas, com a agilidade que se espera de uma jornalista cultural atenta. Ainda lhe falta, porém, algum estofo de ficcionista. A trama romanesca é frágil, difusa, incipiente. As observações sociológicas, embora certeiras, são previsíveis. E há passagens que poderiam perfeitamente ter sido excluídas, como a comparação da «natureza caprichosa» dos primeiros beijos com um soufflé ou a enésima referência à estafada história do sapo e do escorpião.
Avaliação: 5,5/10
[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]
A ternura e o terrível

A Pantera
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-641-236-4
Ano de publicação: 2011
Para os leitores fiéis, o universo ficcional de Ana Teresa Pereira (ATP) é uma paisagem imediatamente reconhecível. Entra-se num livro da autora madeirense como não se entra em mais lado nenhum. De livro para livro, há personagens que regressam obsessivamente, circularidades, repetições, simetrias, imagens que funcionam como leitmotifs (o nevoeiro, o castelo, o lago, a neve, o colar de prata com um nó celta). Enfim, uma atmosfera romântica saturada de referências literárias e pictóricas (maioritariamente britânicas), cenário para relações impossíveis, quase sempre entre mulheres jovens e homens mais velhos. É como se houvesse um continuum narrativo que atravessa toda a obra de ATP, uma mesma história de «inquietante estranheza» que vai sendo contada em sucessivas variações.
À semelhança de Quando Atravessares o Rio (2007), a protagonista desta nova ficção é uma escritora (Kate) que transforma o actor com quem se envolve (Tom) em personagem do seu livro. Mas a obra anterior com que A Pantera dialoga mais explicitamente é Inverness (2010). Não só porque parte da acção decorre na mesma casa de campo (Owl Cottage) e seu jardim luxuriante, mas porque coincidem no tema central: a dificuldade de separar a realidade da imaginação quando os dois planos se confundem.
Num caso como no outro, o corolário desta ambiguidade é a tentação do artifício («Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa»). O estilo «simples» esconde uma estrutura densa, complexa, onde coexistem «a ternura e o terrível», bem como o pânico de enlouquecer, de cair nesses «lugares escuros» onde nos defrontamos com os nossos «demónios». É um «jogo cruel», sim, mas cheio de beleza.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Sobre o Atlântico

O Dois Amigos
Autor: Kirmen Uribe
Título original: Bilbao-New York-Bilbao
Tradução: Pedro Vidal
Editora: Planeta
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-657-148-1
Ano de publicação: 2011
Filho e neto de pescadores, o poeta basco Kirmen Uribe (n. 1970) trabalhou durante vários anos num projecto ficcional que se apropriava de histórias da sua família, nomeadamente as do avô paterno, Liborio, um homem cujo trajecto e escolhas nem sempre conseguia compreender. Por exemplo, o que o levou ao Museu de Belas-Artes de Bilbau com a nora, para lhe mostrar um mural do pintor Aurelio Arteta, no dia em que soube que só lhe sobravam poucos meses de vida? Que misteriosa razão o levou a apoiar, em 1936, a sublevação de Franco? E qual a origem do nome que se lia na popa do seu barco (Dois Amigos)?
Kirmen intuiu que «por detrás desse Dois Amigos havia um romance, um romance sobre esse mundo do mar prestes a desaparecer». E começou a reunir material, informações, pistas. À semelhança de W. G. Sebald, a quem foi buscar uma epígrafe, interessava-lhe discernir «as invisíveis relações que determinam a nossa vida e que fios as unem», partindo sempre de factos verdadeiros. «Não queria construir personagens de ficção. Queria falar de gente real.»
Em vez do livro prometido, porém, o que Uribe nos mostra é o caminho que fez para lá chegar, os meandros do seu processo de escrita. Liborio gostava do mural de Arteta? Pois o neto investiga este artista que declinou o convite do governo da República para pintar uma tela sobre o massacre de Guernica (atribuída depois a Picasso). Tal como desenterra as experiências no mar de duas gerações. A do avô, claro, mas também a do pai, José, que a bordo do Toki-Argia pescou durante várias temporadas perto da ilha de Rockall, no norte da Escócia, onde aparecem ondas gigantes (incluindo a maior alguma vez medida, com 29 metros de altura).
O texto evolui por acumulação de camadas e fragmentos em que são perceptíveis as marcas do tempo, como nos anéis que vão surgindo nos troncos das árvores e nas escamas dos peixes, evocados logo no primeiro capítulo. São dezenas de fragmentos que se unem uns aos outros por subtis vínculos (uma espécie de hipertexto), formando uma rede de malha apertada que tanto apanha o facto histórico como a recordação de infância, o acaso improvável como o exercício meta-literário, as formas de comunicação mais antigas (diários, cartas, depoimentos orais, anotações em cadernos, poemas) como as mais modernas (e-mail, Facebook). Se num momento Uribe fala de si mesmo e da relação com o enteado que só «nasceu» para ele aos 13 anos, no seguinte pode saltar para o complexo problema do terrorismo, para relatos da Guerra Civil, para reflexões sobre as artes que passam de geração em geração (seja apanhar peixe, seja moldar rosas de vidro) ou sobre a origem da língua basca e a sua importância enquanto factor de aglutinação cultural e identitária de um povo.
A unir estas pontas todas, uma viagem concreta, um voo sobre o Atlântico, entre Bilbau e Nova Iorque. Não sabemos o objectivo desta viagem, contada nos seus mais ínfimos e insignificantes detalhes: a espera na cafetaria do aeroporto, o controlo de segurança, as conversas com quem se sentou no banco ao lado, as refeições servidas pelas hospedeiras, a escolha de uma canção (Norah Jones) e de um filme (Laurent Cantet), a evolução das imagens nos ecrãs embutidos (mostrando a rota num mapa, a distância por percorrer, a altitude e a temperatura exterior). Não sabemos o objectivo da viagem, mas podemos suspeitar. Kirmen Uribe vai a Nova Iorque terminar o livro, cosê-lo ao movimento do avião, dar corpo de narrativa ao que é só o esboço – brilhante, belíssimo – de um romance que não chegou a ser.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]
Bibliofilia fatal
O Último Livro
Autor: Zoran Živković
Título original: Posledjna knjiga
Tradução: João Cruz
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 238
ISBN: 978-989-623-144-6
Ano de publicação: 2011
Do escritor sérvio Zoran Živković já conhecíamos um pequeno volume com seis contos fantásticos, Biblioteca, publicado pela Cavalo de Ferro em 2005. Claramente inspiradas em Jorge Luis Borges, essas histórias valiam pelas ideias fortes e engenhosas, já que as qualidades estilísticas ficavam a anos-luz do escritor argentino. Eram exercícios de uma inteligência provocatória, apontando para o lado negro da bibliofilia: os livros como maldição e a biblioteca como inferno (uma espécie de negativo do Paraíso borgesiano).
Em O Último Livro, permanece a sensação de ameaça. O livro mencionado no título é o derradeiro porque mata quem o abre. Quando os clientes da livraria Papyrus começam a sucumbir, sem explicação que a autópsia detecte, entra em cena o inspector Dejan Lukic, um detective licenciado em literatura. Chega a pairar a hipótese de uma imitação de O Nome da Rosa, depressa afastada à falta de subtis venenos. Na verdade, Živković esconde bem o jogo até ao capítulo final (optando por um desenlace meta-literário que justifica a estranha sensação de «déjà lu» por parte de Lukic), embora pelo caminho use e abuse dos estereótipos do género policial.
O recurso a fórmulas estafadas (como a insistência em pesadelos simbólicos, obscuros mas iluminadores), o frouxo romance entre o inspector e a dona da livraria (regado a chá de figo) ou a seita apocalíptica que parece saída do Eyes Wide Shut, algures entre o grotesco e o risível, empurram o romance para baixo. Salvam-no as últimas páginas, as da revelação do mistério, pelo seu efeito retrospectivo e pelo modo como alteram, literalmente, a forma como as personagens se vêem a si mesmas (e ao mundo).
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]


Receba por e-mail












