Movimento contínuo

inercia

Inércia
Autor: André Carrilho
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 150
ISBN: 978-989-8688-07-1
Ano de publicação: 2014

André Carrilho (n. 1974) é um dos ilustradores portugueses mais premiados e reconhecidos internacionalmente, pelos trabalhos que publica amiúde em publicações de grande prestígio: New Yorker, The Independent on Sunday, Harper’s, Vanity Fair, New York Times, entre outras. Quem conheça o traço elegante das suas caricaturas e cartoons, ficará decerto surpreendido com as imagens que reuniu em Inércia, um belíssimo diário gráfico que cobre cerca de ano e meio de deambulações pelo mundo (Janeiro de 2012 a Agosto de 2013) – editado primorosamente pela Abysmo, em capa dura e com magníficas reproduções em papel couché mate.
Ao invés da sua produção para a imprensa, em que recorre aos mais sofisticados recursos tecnológicos, «os desenhos deste livro foram feitos presencialmente no local que retratam, à mão, com canetas, tintas acrílicas, grafite solúvel e aguarelas», nas páginas de um pequeno caderno, reproduzidas à escala real. O resultado é sempre deslumbrante, oscilando entre a abundância de detalhes (perspectivas urbanas) e uma apropriação difusa de atmosferas (paisagens rurais ou marinhas), servidas por uma paleta forte: vermelhos para as falésias da Costa Vicentina, amarelos para as margens do Douro, tons pastel para as praias de Moçambique, sombras e luzes para a noite de Macau.

A surpresa maior, porém, está na qualidade dos textos em que Carrilho descreve as suas derivas geográficas. Prosa atenta, desconcertante, por vezes irónica, mas sobretudo reflexiva – e saudavelmente avessa a lugares-comuns. A inércia a que o título alude não é a dos corpos que se mantêm estacionários, mas a dos que revelam tendência para «continuar em movimento». É sobre isso que o autor escreve, sobre o movimento contínuo a que se entrega, deslocando-se em permanência, de continente em continente, de voo em voo, de escala em escala, levando consigo o trabalho que envia por e-mail, fazendo questão de circular a «contra-ciclo» dos seus desenhos, numa espécie de «pendularidade simétrica». Precisa de se afastar de casa, onde fica «mais lento, mais ancorado», para ganhar «claridade e leveza». Mas dificilmente se encaixa na dicotomia clássica, a do turista versus viajante. «Ambos têm algo que eu não tenho: disponibilidade para o que encontram no caminho. A minha é limitada, continuo a trabalhar, muitas vezes não tenho tempo para olhar a paisagem.» Será talvez um nómada, alguém que se desloca mas não cria raízes.
Mesmo no outro lado do planeta, em cidades desconhecidas, Carrilho procura criar hábitos de familiaridade, «como se sempre lá tivesse estado». É capaz de passar dias inteiros na mesma esplanada, no mesmo beco, ignorando as dicas dos guias de viagem, até sentir que pertence àquele sítio, até ser capaz de o compreender na sua nudez quotidiana. E o instrumento dessa apropriação nunca deixa de ser o caderno: «Desenhar tem o poder de abrandar tudo, de me tornar mais imerso num canto particular da realidade. Não penso em mais nada a não ser no que estou a ver. Aliás não penso, olho. E é o desenho que encontra por mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O eco dos fantasmas

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Biografia involuntária dos amantes
Autor: João Tordo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-989-672-259-3
Ano de publicação: 2014

Desde que se estreou em 2004, com O Livro dos Homens sem Luz, João Tordo vem apurando, de romance para romance, uma das dimensões tradicionalmente mais frágeis na ficção literária feita por autores portugueses: o enredo. Fiel a uma linha anglo-saxónica, Tordo é um bom contador de histórias que domina a arte do diálogo, sabe gerar e gerir conflitos entre as personagens, conhece a estrutura dos arcos narrativos, coloca os plot points no sítio certo; enfim, aplica sem mácula um vasto conjunto de técnicas que aprendeu (e ensina) em cursos de escrita criativa. A principal consequência é uma espécie de legibilidade absoluta, sem escolhos. Por muito complexas que se tornem as tramas, por muito retorcidos que sejam os dilemas dos protagonistas, tudo bate certo, tudo se explica, tudo se justifica. E até a ambiguidade, quando existe, assume a forma de um imperativo racional. Ao escritor interessa levar cada história ao seu limite, desdobrá-la e estendê-la até onde ela consiga chegar. O trabalho sobre a linguagem, esse, é secundário, embora venha ganhando importância nos livros mais recentes. Em Biografia involuntária dos amantes é notório o salto na qualidade estilística, mas muitas das descrições de lugares, estados atmosféricos ou ambientes domésticos ainda se limitam a cumprir, com certo grau de artificialismo, uma função utilitária (de transição entre cenas, por exemplo).
O narrador deste romance é um professor universitário que vive em Pontevedra, na Galiza. Divorciado, com uma filha adolescente muito problemática, ele avança a passo de caracol na sua tese de pós-doutoramento sobre Harold Pinter e Sarah Kane, tem um programa de rádio com um nome beckettiano (Dias Felizes), e uma existência bastante monótona, para não dizer banal. Tudo muda quando se cruza com um poeta mexicano desterrado, Miguel Saldaña Paris, de quem se torna amigo. Quando este lhe pede, após um acidente em que atropelam um javali, para ler o manuscrito deixado pela ex-mulher, Teresa, recentemente falecida, vítima de cancro, inicia-se uma verdadeira descida aos infernos. Saldaña Paris não tem coragem de ler o texto deixado pelo objecto do seu amor obsessivo porque sabe que o «problema das palavras» não está no que permitem recordar mas no que «podem ajudar a destruir». A melancolia extrema do mexicano contamina então o narrador, ao descobrir no tal texto as primeiras memórias de Teresa, indiciadoras de um negrume tremendo que a investigação subsequente confirmará.
Decidido a «averiguar o passado para que este não se transformasse no monstro do futuro», o professor universitário pede uma licença sem vencimento e dedica-se a tempo inteiro ao amigo (entretanto internado no hospital, em estado catatónico), procurando solucionar aquela vida e dar-lhe sentido, para assim solucionar e dar sentido à sua. Parte então numa demanda, a de compreender a relação amorosa condenada de Saldaña Paris e Teresa, o que o leva a descer degraus atrás de degraus, até ao fundo de uma realidade duríssima e escabrosa, onde reverbera o «grito contínuo dos velhos terrores» de que fala um poema de Dylan Thomas. Pelo caminho, encontra muitas sombras e equívocos, uma corte de fantasmas e seus ecos. Vai da Galiza a Londres, depois ao Canadá e a Lisboa, seguindo pistas e indícios, sob o signo dos acasos, que o levam, entre outros, a questionar personagens que vêm de romances anteriores de Tordo, como Luís Stockman (de O Ano Sabático) ou Raul Cinzas (de Anatomia dos Mártires).
À semelhança de O Ano Sabático, este é um livro sobre o poder redentor da amizade. Na sua busca incansável para compreender a história de Saldaña Paris, o narrador não deixa pedra por virar nem ponta por unir. Infelizmente, essa exaustividade nem sempre joga a favor do romance. Há demasiadas conversas à mesa e ao telefone; quase sempre excelentes diálogos, mas muito parecidos uns com os outros. As melhores páginas do livro são as 80 do «manuscrito de Bríon», supostamente escritas por Teresa sobre a sua adolescência, a descoberta da sexualidade com um adulto, a obsessão por um tio e a fuga a uma família claustrofóbica. É um texto arriscadíssimo na temática e no tom, mas surpreendentemente bem conseguido – um sinal de que Tordo pode e deve sair da sua zona de conforto. No fim, ficamos com pena de que esse capítulo não seja mais longo e o resto do livro mais curto.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Do sítio das palavras

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Tudo são histórias de amor
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-989-671-198-6
Ano de publicação: 2014

No novo livro de contos de Dulce Maria Cardoso – Tudo são histórias de amor: título enganoso e de uma ironia amarga, como o leitor rapidamente perceberá – os textos são quase sempre construídos a partir de um núcleo central ocupado por uma imagem muito poderosa, cuja carga dramática, ou poética (ou ambas), se expande depois ao resto da prosa, contaminando-a; isto é, iluminando-a. Pode ser a aparição de uma beleza angélica num «além-mundo azul», a ilha do primeiro conto, com a população de faroleiros e suas famílias a devorarem a cesta de cerejas trazida pela forasteira («O sumo vermelho escorria-lhes pelos queixos e pelas mãos»), prenúncio de uma carnalidade que destruirá a inocência do narrador, inclinando-o de vez para o exercício do mal. Pode ser um cão habituado a roubar nacos de carne ao talhante e que um dia aparece em casa com a perna de um bebé, uma «perna rechonchuda que terminava num pé gordo com cinco dedos perfeitos». Pode ser uma mosca a debater-se dentro de um copo com resto de vinho rosé, durante uma tépida disputa conjugal.
Duas destas imagens fortes são protagonizadas por automóveis. Em Os anjos por dentro, a história de tensões familiares contidas, na sequência de um piquenique junto ao rio, desemboca numa situação fantástica quando o narrador, acompanhado pelo irmão e pela mãe, avança por um atalho, a subir, e depara com um Opel Kapitan em sentido contrário, «animado por vontade própria», sem ninguém ao volante, pronto a esmagá-los. De repente, o carro parou, «simplesmente», impossivelmente, «como se se tivesse esquecido de como as coisas são». Esta espécie de milagre torna-se um tabu («Nunca falámos sobre o que aconteceu naquele dia ao voltarmos do rio»), mas a sua força reverbera e dá sentido à «violência do amor» que pressentimos, subterrânea, por baixo do que é dito. «Talvez não tenha acontecido tudo exactamente como contei», admite ainda assim o narrador.
E alguma vez contamos as coisas exactamente como aconteceram? Veja-se a narrativa inspirada no célebre caso do desaparecimento de Joana, a menina algarvia de oito anos cuja mãe foi condenada por homicídio. Há elementos que nos aproximam do hediondo crime (alguns factos, a brutalidade dos interrogatórios policiais, a confissão, os impulsos da justiça popular), mas Dulce Maria Cardoso logo introduz uma dimensão quase onírica que anula qualquer tentação realista, justamente através da imagem de um automóvel, um Volkswagen carocha amarelo, brinquedo preferido da menina. Esta, antes de desaparecer sem deixar rasto, escondera-o debaixo de terra como se fosse «uma boa semente», da qual virá a nascer, no arrepiante final do conto, um «carocha amarelo verdadeiro». Em Não esquecerás, o ponto de partida é outra história real: a do acidente de Entre-os-Rios, quando um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro ruiu, arrastando dezenas de pessoas para as águas do Douro. «Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada», diz-se logo de início, e assim somos levados debaixo de chuva até ao autocarro que parou ali adiante, resgatando quem procura escapar da intempérie. Lá dentro, alegres por terem visto as amendoeiras em flor, estão as futuras vítimas. Pessoas normais, gestos normais, vidas normais. A tragédia está aqui, nesta normalidade ameaçada, a poucos minutos de mergulhar no abismo da morte. Transformados em personagens sem nome, os passageiros são como que redimidos do destino que a negligência do Estado lhes teceu. E aqueles cabelos de rapariga, «suspensos no ar quando a cabeça se volta», pairarão assim para sempre na memória do leitor que, como a história, não chega a atravessar a ponte.
Num texto autobiográfico, em que conta como «matou» uma parte de si mesma para poder ser ficcionista, Dulce Maria Cardoso afirma: «Escrever é espreitar outras vidas. É contar mentiras e acreditar que isso é bom.» Neste livro, as vidas espreitadas estão muitas vezes sujeitas ao império da maldade, própria ou alheia, essa «planta carnuda» que lança «ramos vigorosos para todo o lado». Num dos contos mais negros, Humal, um ser monstruoso só comove os aldeões com a beleza do seu canto quando é sujeito a torturas físicas: «Para que as criaturas fornecessem o bem de que eram capazes era preciso infligir-lhes sofrimento. Mas isso sempre foi um trabalho simples: há sofrimento em abundância neste mundo de Deus e consegui-lo é das coisas mais fáceis.» São vários os contos do livro (por exemplo, Este azul que nos cerca ou Iguais) em que esta brutalidade visceral se manifesta. Entregues ao «martírio de pensar» e incapazes de «domar o tempo», as personagens são como pequenos animais indefesos, à mercê tanto da «solidão do que envelhece» como da «impiedade do que é novo». Acima deles, a autora monta as armadilhas e observa com rigor clínico. Quanto à escrita, exemplar, é sempre feita a partir do «local do crime». Isto é, «do sítio das palavras».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Últimas pétalas da metralha

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Os Memoráveis
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 342
ISBN: 978-972-20-5436-2
Ano de publicação: 2014

Numa casa de madeira e vidro, em Washington, Frank Carlucci, o antigo embaixador americano em Lisboa, tenta convencer uma repórter portuguesa, de 28 anos, a participar numa série da CBS, com coordenação do seu afilhado, Robert Peterson. Em A História Acordada, a ideia é reunir um conjunto de narrativas edificantes, «luminosas», próximas do «júbilo», sobre transições pacíficas para a democracia: na República Checa, na Hungria, na Alemanha quando caiu o Muro, e, antes de todas essas, em Portugal, a cuja Revolução dos Cravos será dedicado o primeiro episódio. Esta cena, a primeira de Os Memoráveis, decorre no final de 2003, a poucos meses do trigésimo aniversário do 25 de Abril.
Aceitando regressar à pátria em trabalho, depois de ter vivido experiências traumáticas em cenários de guerra, Ana Maria Machado tem como missão «recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa». Fazendo equipa com dois colegas de curso, também já nascidos em liberdade (uma jornalista instintiva, capaz de aprender depressa; e um operador de câmara a tender para o distanciamento cínico), ela começa a sua busca das «últimas pétalas da metralha» tendo como bússola uma fotografia encontrada em casa do pai. Nessa imagem, captada durante um jantar em Agosto de 1975, sentam-se à mesma mesa vários pesos-pesados da Revolução, escondidos atrás de alcunhas que são fáceis de descodificar: El Campeador é Otelo Saraiva de Carvalho; Charlie 8 é Salgueiro Maia; Vasco Lourenço, o Oficial de Bronze. Mas há mais gente: um castiço da rádio com «olhar guevarista» (Salamida, responsável por um incidente, ao benzer de forma imprópria o conteúdo de uma terrina, que envenenará a noite), o próprio fotógrafo, o cozinheiro, três barbudos «esguedelhados», o pai e a mãe de Ana Maria, um casal de poetas.
A força da fotografia está na «dimensão testemunhal de um momento acontecido nas costas da história» – isto é, no lugar onde se esboçou o que poderia ter sido e não foi. Naquela noite de desavenças e reconciliações, os oficiais presentes traziam papéis dobrados no bolso da camisa, documentos que mudariam, se assinados por todos, «o rumo deste país». Mas não mudaram coisa nenhuma, como se perceberia definitivamente três meses depois. Ao entrevistar uma a uma aquelas figuras, a equipa de jovens jornalistas vai entrando no labirinto da revolução, «fábula» contada por quem a viveu. Além de se evocarem as contingências, acasos, «milagres» e mitos daquele dia em que cinco mil heróis anónimos derrubaram um regime podre, surgem – dolorosas – as marcas de um falhanço colectivo que condenou estes homens «à perda e à desilusão». No seu desamparo, eles assemelham-se à imaginária vigésima quinta coluna, um «comboio de carros militares que durante trinta anos não encontra o objectivo, e apesar de se ir desfazendo, perdendo rodas, espelhos, torres, traves, condutores, não desiste do seu propósito, e vai avançando ruas fora, sem parar».
Lídia Jorge articula, com mestria narrativa e requinte estilístico, os vários ângulos desta investigação, na procura de uma verdade a que talvez seja impossível fazer justiça, como se comprova no guião final do episódio (terceira e última parte do romance). O esteio de Os Memoráveis, que lhe dá consistência e espessura, é a história da difícil relação entre Ana Maria e o pai, António Machado, «figura de papel», antigo cronista de referência, «profeta em relação ao mundo» mas «cego em relação a si mesmo». Na sua decadência, no seu penoso processo de desligamento e clausura, ele simboliza todos os derrotados, mesmo os póstumos. E é dele que emana a melancolia que atravessa o livro de ponta a ponta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Um todo a partir de muitas vozes

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Teoria dos Limites
Autora: Maria Manuel Viana
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-989-8580-19-1
Ano de publicação: 2014

No funeral de um grande Escritor, reúne-se o seu círculo mais íntimo: a filha, Mariana; as sobrinhas (Ana Sofia e Ana Lúcia); o irmão mais velho; a mãe. Cada um deles assumirá, a seu tempo, o primeiro plano da narração, através de uma rede apertada de monólogos interiores, sonhos, segredos, factos remotos que subitamente se acendem na memória, um novelo que dá sentido à história de uma família ao mesmo tempo tão complexa e tão vulgar como outra família qualquer.
O vértice da ficção é carregado por Mariana: a hipótese de existir um livro póstumo do Escritor, de quem foi secretária e que nunca a tratou como filha – sendo que a mãe, desaparecida de cena quando ela era bebé, permanece um mistério familiar. Nesse livro, com título escolhido (Teoria dos limites), tudo remeteria para as ideias de Leibniz e a sua «concepção do mundo», nomeadamente a monadologia, a «pirâmide dos mundos possíveis» e a língua universal imaginada pelo filósofo alemão.
Mais interessante do que a suspeita de que esse livro vago e por completar, cujo material se resume a oito páginas A4 cheias de esquemas enigmáticos, possa ser o próprio romance que estamos a ler; mais impressionante do que a subtil assimilação dos princípios leibnizianos (sobretudo o que defende a «construção de um todo a partir de muitas vozes»); mais entusiasmante ainda do que a perfeição estrutural da ficção labiríntica é a escrita de Maria Manuel Viana, o fulgor de uma prosa que atravessa, como um cometa, os lugares sombrios ou precários das personagens. Este é um romance denso, melancólico, belíssimo, sobre o que há de mais profundo e frágil 
na condição humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Resplendor e susto

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Ginecologia – Considerações em defesa da Virgindade de Nossa Senhora
Autora: Rosalina Marshall
Editora: não (edições)
N.º de páginas: 34
ISBN: 978-989-98790-1-0
Ano de publicação: 2013

Depois de uma estreia auspiciosa (Manucure, Companhia das Ilhas), Rosalina Marshall confirma a radical originalidade da sua voz neste livrinho em que se entrega a «considerações em defesa da virgindade de Nossa Senhora». Eis um inesperado regresso aos fulgores da poesia mística, com o sujeito poético a colocar-se voluntariamente na posição do devoto – aquele que olha para cima, em «pudico assombro», diante de uma «altíssima visão».
Como é evidente, Marshall conhece Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz mas o que fica desse lastro estético em certas imagens – como a da «flecha ferindo a graça» – logo se dissolve no mais desconcertante prosaísmo («tuas lágrimas / óleo Johnson»). Sendo a aproximação à figura de Nossa Senhora feita de «resplendor» e «susto», certos versos parecem destinados a provocar o choque e até (se vivêssemos noutra década) o escândalo: «Maria, Virgem santíssima / o teu orgasmo / é espírito / e santo». Mas relevar essa explicitação do que há de sexual no êxtase religioso seria desrespeitar a natureza do poema, todo ele feito de um subtil movimento de entrega à linguagem, enquanto poderosa lente que aumenta e dá sentido à realidade: «creio em ti, beata imagem / creio em ti, exposta / espelho meu / magnífica lupa».
A Virgem nunca deixa de ser essa «beata imagem», o veículo de uma projeção total, a ponto de se poder retirar «meu coração / de dentro do teu peito» ou ver que «debaixo da tua saia / a minha perna direita / é cera resplandecente». Para lá do transe, da bênção de «purpurina», da harmonia de lantejoulas, do espectáculo feérico da imaginação simbólica, restam «sonâmbulas / todas as palavras».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Uma metamorfose falhada

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Traição
Autor: Luís Mário Lopes
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-989-671-196-2
Ano de publicação: 2013

Na sexta cena de Traição – o texto com que Luís Mário Lopes venceu, em 2011, o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva – encontramos uma possível chave para o estranho jogo identitário que atravessa esta peça teatral. Num monólogo relativamente longo, o protagonista recorda um pesadelo que lhe atormentou a infância. No sonho, uma borboleta escapa-se da caixa dos bichos-da-seda e esconde-se atrás da estante, onde fica encurralada e a bater as asas, em pânico. «Os livros mal arrumados tinham servido de armadilha. Ouvia a borboleta assustada sem conseguir sair. Sentia-a. Sentia-a mas não a via… (…) então muito depressa, de uma vez só, empurrei os livros até ao fundo (…) Só um esmigalhar qualquer. Depois nada…» Acordada, a criança esperara que os casulos se abrissem e de lá brotassem «borboletas lindas», mas em vez disso saíram «uma espécie de moscas gigantes e brancas». Na continuação do sonho, é uma dessas que lhe entra pela boca e começa a descer pela garganta, sufocando-o. Longe de ser original, a metáfora associa uma ameaça à ideia de mudança, um processo que nem sempre nos transforma para melhor, às vezes muito pelo contrário.
O objecto da metamorfose chama-se Pedro, um astrofísico que deu o nome da mulher a uma estrela de neutrões e que não sabe se há-de aceitar o cargo de director numa instituição científica, à qual o governo pretende adjudicar o desenvolvimento de um sórdido Projecto de Vigilância Global – em que satélites seriam equipados com «câmaras poderosíssimas capazes de registar tudo o que toda a gente faz a toda a hora», dentro e fora de casa. O natural conflito interior do protagonista dá origem a um desdobramento, com a aparição súbita de um Pedro 2 que é um avatar daquilo que o Pedro original pode vir a ser, se abdicar dos seus princípios.
Esta enésima variação sobre o tema do duplo estabelece a principal linha de conflito da peça. Numa nota inicial, junto à indicação das idades aproximadas das personagens, o autor sublinha que «os actores que representam Pedro 1 e Pedro 2 devem ser apenas vagamente parecidos». O que aterroriza Pedro 1 é perceber que Pedro 2 não é sequer um sósia, mas toda a gente o aceita sem reservas ou surpresas quando ele lhe rouba a vida e o substitui em todos os planos da existência, do profissional ao amoroso. A dúvida instala-se: «Será que o estranho finge assim tão bem… ou afinal ninguém te conhece, ninguém te conhece verdadeiramente, e estás completamente só?»
Luís Mário Lopes tentou fazer uma peça com implicações filosóficas a partir de um enredo quase plano, em que as personagens nunca chegam a ganhar espessura ou densidade. Inevitavelmente, falhou. Os diálogos são fluidos, há savoir faire dramatúrgico, mas falta coesão ao todo. As partes não encaixam bem umas nas outras. Pior: ficam questões por explicar (a origem de Pedro 2 e a natureza da sua relação com Mr. World, por exemplo) e outras mal resolvidas (os dilemas de Pedro 1; o derradeiro ajuste de contas). Em palco, trabalhado por um encenador capaz, pode ser que o texto até funcione. No papel, deixa muito a desejar.

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

A siderurgia das coisas frágeis

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Flúor
Autora: Andreia C. Faria
Editora: Textura
N.º de páginas: 61
ISBN: 978-989-98751-1-1
Ano de publicação: 2013

De Andreia C. Faria, nascida em 1984, conhecíamos um pequeno volume atravessado por gatos e mulheres «a habitar a perda». Nesse De haver relento (Cosmorama, 2008) impressionou-nos a extrema segurança da dicção poética e o fulgor de algumas imagens, mas o livro era um círculo fechado, por vezes opaco, quase sempre claustrofóbico, com uma energia latente que nunca chegava verdadeiramente a explodir. Essa explosão, qual supernova, acontece em Flúor, um livro poderoso que amplia de forma brusca os horizontes desta escrita.
Logo no primeiro poema, evoca-se uma rapariga «tão magra / que os pensamentos lhe apareciam à flor da pele» e «bela / como osso saindo da carne / ou pássaro largando a árvore». Estamos perante uma poética que nunca se desliga do corpo, enquanto evidência, glória ou maldição. Os elementos anatómicos – coxas, ancas, pulsos magoados, vértebras, pele, a «cerviz de encontro à noite sem se curvar» – são pontos de partida em torno dos quais se articulam visões de um mundo que se perdeu (a infância, a vida na aldeia, o sabão Offenbach a lembrar «a barrela das lavadeiras») ou do próprio ímpeto criativo («à música / de costelas e clavículas / faria um poema, se soubesse, / de ressonância e susto / desvinculando ossos»).
Há uma certa violência nas metáforas, uma força bruta de arestas e lacerações, uma forma crua de olhar para tudo o que está sujeito a ser partido, esmagado – isso a que a poeta chama «siderurgia das coisas frágeis». Coisas como o amor («o amor é soslaio, oblíquo»), um rosto («o meu rosto implodirá como um punho») ou o corpo que se oferece («pela noite / fazer do corpo raso / prato vazio de onde se come»).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O intervalo preciso

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Passageiro frequente
Autor: Daniel Jonas
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8638-09-0
Ano de publicação: 2013

Há na poesia de Daniel Jonas uma resistência explícita a qualquer discurso que a pretenda enclausurar num determinado tempo, ou em quaisquer linhagens literárias. É como se o poeta quisesse deliberadamente trocar as voltas ao leitor, confundi-lo, empurrá-lo para um estado de perplexidade, em que o desenho inscrito pelos poemas no pensamento está sempre a transformar-se noutra coisa. Este efeito de desorientação nasce do facto de ser muito vasta a gama de registos poéticos em que se declina a sua escrita. Tão depressa se aproxima da volúpia barroca (com rimas, sintaxe antiga, vocabulário raro) como se entrega a exasperações românticas sobre o lugar do sujeito no mundo, ou então a súbitas sínteses de poucos versos, de um minimalismo próximo da perfeição dos haikus. Num instante passamos das referências bíblicas e das citações literárias cifradas para a mais prosaica realidade quotidiana.
No poema que dá título ao livro, surge a figura do «passageiro frequente dos faux-pas», alguém que está «muito a tempo de alguma coisa» que não se sabe bem o que é: «Ei-lo: tardiamente chegado dos subúrbios / ao coração de tudo, ao centro das coisas». Sublinhe-se a pertinência do advérbio, porque o «tardiamente» sinaliza um atraso, um desajuste, uma descontinuidade com a época em que se vive e com o real que as palavras tentam em vão fixar, que é a própria matéria desta poesia. Consciente do desfasamento, o sujeito poético transporta as suas percepções para uma espécie de paisagem mental (veja-se o poema Praia pensada), em que muitas vezes encena o espectáculo da sua auto-reflexividade: «Sou jusante, escusado de mim, / o pior de dois mundos, / o intervalo preciso entre / nada // e coisa nenhuma». Neste caso, o sentido de «preciso» tanto pode ser o da exactidão como o da necessidade. Essencial é a ideia de intervalo, de algo que se interrompe e retoma (não será por acaso que surge tantas vezes, mais metafórica ou mais literal, a imagem de uma ponte).
Dos muitos recursos retóricos que Daniel Jonas exibe, há um particularmente poderoso, que consiste no cruzamento ou sobreposição de planos sensoriais distintos («Meu deus, o que faríamos sem a sinestesia», admite algures). Aves negras sobre a neve serão sombras, «corvos corvos» ou «píxeis fundidos, / o anátema da inexistência»? Há fotografias que se ouvem, sons que se vêem, objectos conscientes da sua condição de símbolos. As maiores alturas estéticas, porém, atingem-se através da mais pura contemplação. Como no poema Velho Mestre: «O silêncio / de um fruto sobre a mesa, / apenas ferido / por um gume de luz / no meridiano. // Mas nenhuma ameaça, / nem o arnês de dedos / formando-se no horizonte, / apenas o golpe do sol / afiado na vidraça. // Um fruto / é um velho mestre / esperando na luz / as trevas / do amadurecimento.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

A mãe dela

Durante muito tempo, tive tendência a olhar de lado para as novelas gráficas. Algures entre a literatura e a BD, nem carne nem peixe, pareciam-me apenas romances ilustrados, feitos para leitores preguiçosos. Como todos os preconceitos idiotas, este também ruiu assim que dediquei ao género a atenção que ele merece. Quando vi emergir, das páginas de Persépolis, a vida quotidiana no Irão de Khomeini, entendi duas coisas: 1) que Marjane Satrapi é uma artista invulgarmente subtil e talentosa; 2) que afinal isto das novelas gráficas tem muito que se lhe diga. Ou seja, elas não estão a meio caminho de coisa nenhuma, valem por si mesmas, e transformaram-se num dos mais interessantes territórios de experimentação ficcional da actualidade (à semelhança do que acontece com as melhores séries de TV dos canais de cabo americanos).
Aos poucos, fui descobrindo vários autores, mas nenhum me entusiasmou tanto como Alison Bechdel. Há uns meses, veio parar-me às mãos Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar (edição portuguesa da Contraponto) e fiquei pasmado. Bechdel começou por se afirmar como cartoonista, assinando durante mais de vinte anos, em vários jornais, a tira cómica Dykes to Watch Out For, que acompanhava a vida e as opiniões de um grupo de personagens femininas, na sua maioria lésbicas como ela. A questão da identidade sexual é justamente uma das linhas narrativas principais de Fun Home. Bechdel fez o coming out aos 19 anos, uns meses antes do acidente que vitimou o pai, atropelado por um camião – uma tragédia em que a filha, mesmo sem ter provas, pressentiu a possibilidade de um suicídio. A comunicação difícil com esse pai enigmático e emocionalmente desligado da família – ele próprio um homossexual, mas incapaz de se assumir – salta para o primeiro plano desde cedo. É em torno dessa relação que o livro se organiza, numa estrutura complexa e graficamente muito inventiva, feita de avanços e recuos no tempo, desenhos minuciosos, planos que se sobrepõem, e uma escrita poderosa, muito precisa e saturada de referências literárias.
A figura do pai, esse mistério que a filha continua a tentar resolver muitos anos depois da sua morte, é tão intensa que ofusca o resto da família. A mãe e os irmãos mais novos estão quase sempre fora de campo, como se fossem meros figurantes numa tragédia que os ultrapassa. Que mãe era aquela?, pergunta-se o leitor, perplexo. A resposta chegou em 2012, após quase dez anos de trabalho obsessivo, no volume Are You My Mother? (Jonathan Cape, 290 páginas), um comic drama ainda mais brilhante do que Fun Home.

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Na essência, trata-se de um «meta-livro», um livro que narra a sua própria construção, uma obra que nos deixa espreitar a arquitectura interna (o modo como se vai fazendo, desfazendo, refazendo) e exibe, sem pudor, todas as dúvidas, dilemas, angústias, crises e soluções com que Bechdel se deparou durante o processo criativo. No início de cada um dos sete capítulos, entramos na história através de um dos sonhos de Alison, o que faz todo o sentido, já que a relação complexa entre mãe e filha é sempre explorada (e teorizada) a partir dos trabalhos abundantemente citados do psicanalista inglês Donald Winnicott, que têm nos diários e romances de Virginia Woolf (sobretudo To the Lighthouse) o seu contraponto literário.
Algumas das pranchas de Are You My Mother? são graficamente assombrosas, mas a sua força nasce da absoluta liberdade formal com que Bechdel vai intercalando materiais biográficos sensíveis (mostrados em toda a sua crueza), elaboradas digressões ensaísticas (sempre oportunas, embora por vezes fastidiosas) e verdadeiros achados visuais (grandes planos, ângulos inesperados, uma obsessiva atenção aos detalhes). Compreensivelmente, a mãe, que já ficara incomodada com o livro sobre o pai, teme o pior do sofisticado jogo de exposição pessoal da filha. Mas as páginas finais, em que Alison resolve de forma exemplar as várias tensões que atravessam o livro, não a deixam ficar mal. A mãe duríssima, que deixou de beijar a filha aos sete anos, obrigou-a a inventar um outro espaço, uma saída. E essa saída, para nossa felicidade, foi a arte, foi a escrita.

[Texto publicado no n.º 123 da revista Ler]

Uma coça bem dada

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Pleno Emprego
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Douda Correria
N.º de páginas: 21
ISBN: 978-989-20-4383-8
Ano de publicação: 2013

Não é fácil construir um discurso sobre a poesia de Miguel Cardoso porque ela nunca abandona a sua condição de objecto em fuga, de coisa que se ergue assim, de repente, do nada, com uma energia cinética espantosa, e nos leva pela longa escadaria dos versos, ou pelos labirintos da prosa (como neste caso), sem que saibamos muito bem o que é isto afinal, ou para onde se dirige a imparável torrente de palavras, ideias e imagens.
Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física. Um encontrão valente. Lê-los é levar porrada, é não conseguir agachar-se, à la Álvaro de Campos, «para fora da possibilidade do soco» (e curiosamente talvez ninguém se aproxime tanto da energia do Poema em Linha Recta, hoje, como Miguel Cardoso).
Pleno Emprego, um texto que começou por ser uma instalação sonora na casa de banho do bar Purex, é mais uma coça bem dada nos que se atreverem a entrar no seu torvelinho. O lirismo nasce do real em catadupa, esmiuçado como quem não quer a coisa – mas afinal quer, por muito que se desconverse. Por baixo e por cima do alarido está a miséria, o desemprego, o pérfido minguar das vidas e dos horizontes. Mesmo quando vai por partes, e lhes dá a volta, é sempre disso que o poeta fala: «Sou pelos plenos pulmões, e por esvaziá-los até ao fim. (…) Sou pelo pleno emprego das razões, mas nunca das certas. Das revoluções, mas daquelas que, como aquele livro de poemas que andas há semanas a ler em voz alta no autocarro, podes levar a casa de amigos e de estranhos a qualquer hora».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Dias da transição

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Nada Tenho de Meu
Autores: João Paulo Cuenca, Miguel Gonçalves Mendes e Tatiana Salem Levy
Editora: Jump Cut
N.º de páginas: 134 (+ DVD)
ISBN: 978-989-98769-0-3
Ano de publicação: 2013

Em 2012, Miguel Gonçalves Mendes, realizador de dois documentários sobre escritores – Autografia, em torno de Mário Cesariny (2004); José e Pilar, retrato intimista de Saramago (2010) –, voltou a aproximar-se da literatura. Em Macau, no festival Rota das Letras, encontrou dois ficcionistas brasileiros da sua idade: João Paulo Cuenca (com dois romances editados em Portugal, na Caminho) e Tatiana Salem Levy (publicada pela Cotovia e Tinta da China), ambos seleccionados pela revista inglesa Granta, no seu número dedicado aos vinte melhores autores jovens do Brasil. Aproveitando a estadia no outro lado do mundo, os três decidiram deambular pelo Sudeste asiático. De Macau passaram ao Vietname, depois ao Cambodja e à Tailândia, com regresso ao ponto de partida, via Hong Kong. Num processo criativo meio caótico, entre textos e filmagens, foi nascendo um «diário colectivo de viagem», uma espécie de «poema visual», um «quase cadáver esquisito» que se fixou numa série com 11 episódios e num livro.
O livro segue a estrutura do filme de Miguel Gonçalves Mendes, apropria-se das suas imagens, dos seus fotogramas (numa paginação que remete para as anacrónicas fotonovelas), mas não é um mero espelho em papel do que podemos ver no DVD. Há elementos da série que desaparecem no livro – e vice-versa. Certas frases soltas que vamos ouvindo, tanto de Tatiana como de Cuenca, ganham outro sentido quando as descobrimos nos textos completos de onde foram retiradas (prosas e notas de viagem reunidas no fim do volume). Ou seja, Nada Tenho de Meu assume-se como um verdadeiro objecto artístico multimedia: não basta ver, é preciso ler; não basta ler, é preciso imaginar. E depois preencher os espaços em branco de um relato pulverizado, em que a realidade se transforma sistematicamente em matéria de ficção, enquanto paira uma ameaça de apocalipse (há um asteróide chamado Portugal em rota de colisão com a Terra).
Na origem de tudo está talvez uma estadia de MGM em Macau, no ano de 1999, para assistir ao chamado «dia da transição», quando o poder no território passou de Portugal para a China. As transições tornam-se depois pessoais, à medida que os três criadores se reinventam como personagens uns dos outros, ou de si mesmos. Tatiana ficciona Miguel, os seus amores, a sua tristeza, a sua falhada busca de sentido. Por outro lado, também se questiona e à sua escrita, enquanto busca em vão sinais de Marguerite Duras nas margens do rio Mekong. Cuenca ensaia uma estética do afastamento, da perda, da desaparição. E resume de forma lapidar o que une as pontas deste mosaico imperfeito mas fascinante: «Aquilo que somos, o que vemos, o que sentimos, não tem a mínima ligação com o real. O projeto será sobre isso. Sobre projeções. Trata-se de projeções daquilo que supomos viver e sentir.»

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]


Episódio n.º 4 de Nada Tenho de Meu

A sua cara é-me estranha

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Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 391
ISBN: 978-989-722-139-2
Ano de publicação: 2014

O protagonista de Barba Ensopada de Sangue sofre de uma doença neurológica relativamente rara (prosopagnosia) que o torna incapaz de reconhecer rostos – todos os rostos, não apenas os que foram vistos só uma vez e é natural esquecer. Para ultrapassar esta limitação, ele recorre a outras formas de perceber quem são as pessoas com quem se cruza. Fica atento às inflexões das vozes, à textura dos cabelos, às peças de roupa, ao «jeito de andar», aos adereços. «Eu tenho que estar sempre ligado no que pode identificar uma pessoa, fora o rosto dela. Eu escaneio os detalhes. (…) Quanto mais eu conheço a pessoa, mais fácil é reconhecer. Mas sempre é meio complicado.» Ao mudar-se para Garopaba, fugindo de Porto Alegre, das quezílias familiares e da imagem de um pai que se suicidou, deixando-lhe nos braços a sua cadela, ele não conhece ninguém, começa relacionamentos sociais do zero, pelo que essa dificuldade crónica se torna maior do que nunca.
A escolha de Garopaba, cidade balnear muito frequentada no Verão, mas deprimente no Inverno, não foi um mero acaso. Antes de se matar, o pai contou-lhe que o seu avô teria sido assassinado ali, no final da década de 60, em circunstâncias nunca esclarecidas. Homem de «pavio curto», brigão, sempre a puxar da faca, era visto como forasteiro indesejável pelos habitantes locais. Certa noite, num baile, alguém apagou as luzes, ouviram-se dezenas de lâminas e a escuridão apadrinhou o ajuste de contas colectivo. Só que o corpo nunca apareceu, o suposto crime não foi devidamente investigado e o nome de Gaudério tornou-se um tabu, uma lenda incómoda – mesmo quatro décadas depois, quando o neto daquele gaúcho maldito chega à cidade, ainda por cima deixando crescer a barba, ao ponto de ficar a cara chapada do seu antepassado.
Homem simples, o protagonista é um professor de educação física que dá aulas de natação e corrida, depois de ter treinado atletas para campeonatos de triatlo. Em Garopaba, as suas rotinas não mudam muito. Após um período de adaptação, ele mergulha na modorra da vida quotidiana, enquanto tenta desenterrar a verdadeira história do que terá acontecido ao avô, esbarrando quase sempre na desconfiança ou no silêncio ostensivo de quem o poderia ajudar. Há qualquer coisa de instável no círculo das suas relações mais íntimas – as duas mulheres com quem se envolve (uma garçonete de pizzaria e uma secretária de uma agência de passeios turísticos, ambas com nome de flor), além do budista engatatão que se torna o seu melhor amigo – e as ondas de choque do que deixou para trás acabam por apanhá-lo, quando a mãe, primeiro, e a ex-namorada, depois, o visitam. A certa altura, ele alude à «presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer» e essa demora estrutura todo o romance. Dito de outro modo: a passagem do tempo é em si mesma uma personagem do livro, talvez a principal. O leitor não se limita a assinalar os dias, as semanas, os meses. Vive-os por dentro, sente-lhes o peso, a sua glória, os seus vazios.
Para produzir este efeito, a escrita de Daniel Galera assume radicalmente a perspectiva do protagonista. Ou seja, é como se ela também sofresse de prosopagnosia e amplificasse ao máximo a atenção aos detalhes. Tudo merece descrição exaustiva, seja um gesto, uma paisagem, uma noite no circo, uma quermesse com show de dupla sertaneja, um bordel manhoso, um jogo de póquer (em que os participantes usam fralda geriátrica para não terem sequer de ir à casa de banho) ou um passeio de barco para avistar baleias. O romance expande-se neste movimento de contar tudo, prescindindo das elipses e dos atalhos habituais que nos levam directamente ao que interessa, mas nunca se perde nem se desequilibra. A investigação conclui-se, os problemas familiares tornam-se por fim compreensíveis, as pontas unem-se, enquanto o processo de construir uma lenda se repete. Como a miragem vista na praia, a narrativa está sempre à beira de se desfazer «sem alarde». Mas quem a tenha lido dificilmente esquecerá os contornos do seu ‘rosto’.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Ao fundo do jardim

a porta secreta

A Porta Secreta
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-989-641-383-5
Ano de publicação: 2013

Nos seus romances e novelas, Ana Teresa Pereira nunca escondeu o fascínio pelos livros de aventuras juvenis de Enid Blyton. Muitas das personagens os mencionam, chegando a procurar edições antigas em alfarrabistas. Esse suave encantamento britânico paira em cada uma das páginas de A Porta Secreta, história escrita a pensar num segmento etário específico (algures entre o fim da infância e o início da adolescência), mas que pode ser lida com proveito em qualquer idade.
Nos arredores do Funchal, Ema aluga, para si e para os dois filhos, Sara e Miguel, uma casa que fica «praticamente no meio do campo» – o oposto do «bairro tão feio onde viviam antes». Nas traseiras há um belo jardim, a mãe deixa as crianças terem um cão e um gato, a família abalada em tempos pela morte do pai parece encontrar o equilíbrio. Mesmo ao lado, uma grande quinta e respectiva mansão, propriedade de uma família inglesa, alimentam as fantasias de Sara e Miguel. Descoberto um acesso escondido, eles fazem amizade com um pintor de passagem e especulam sobre as luzes que se acendem, à noite, no torreão. Como em Blyton, os estremecimentos e receios não correspondem a um perigo efectivo e os heróis estão de volta à hora do lanche.
Outonal e serena, a história reúne muitos elementos do universo da autora: flores, cinefilia, aparições no nevoeiro, pintura (a chave é uma aguarela que pode ser de Turner e representa o princípio do mundo). A escrita é despojada, precisa, acessível, mas capaz de achados. Por exemplo, a velha casa, ao luar, surge como «uma concentração de silêncio». Mais do que para o mistério, a porta secreta ao fundo do jardim dá para a literatura.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Viver com isto

rostain

O Filho
Autor: Michel Rostain
Título original: Le Fils
Tradução: Luísa Feijó
Editora: Sextante
N.º de páginas: 149
ISBN: 978-989-676-167-7
Ano de publicação: 2013

Encenador de ópera, Michel Rostain enfrentou, em Outubro de 2003, o mais inconcebível dos sofrimentos: a morte do filho único, Lion. Aos 21 anos, o jovem sucumbiu em poucas horas a uma meningite fulminante. O Filho é o relato detalhado de como um casal atravessou o caos da dor e o longo processo do luto, encontrando no fim do caminho motivos para dar sentido à vida e para gritar, como o pai em lágrimas à saída da morgue, «Viva o sol! Viva o sol, apesar de tudo!». Fragmentário, desamparado, por vezes brutal na sua sinceridade, este livro honesto olha-nos nos olhos. E mostra apenas, sem pathos, a paisagem depois do desastre.
Na escrita, Rostain preferiu inverter os papéis. O narrador não é o pai destroçado; é antes o filho, o morto, uma espécie de fantasma que o texto inventa e reclama. Esta projecção podia ser mero malabarismo formal – ou talvez um mecanismo de defesa. Depressa compreendemos, porém, que há neste jogo arriscado algo que permite a Rostain aproximar-se da verdade, nem sempre redutível a palavras, do que experimentou. Após o choque da perda, assistimos ao desnorte natural de quem se torna, absurdamente, «herdeiro» do filho, procurando pistas e respostas em todos os seus despojos, sejam notas em cadernos escolares, peripécias contadas por amigos ou mensagens para a namorada no telemóvel. Imerso até ao pescoço no «tempo da morte», ele rememora momentos felizes, arrepende-se do que poderia ter feito e não fez, vai num instante da racionalização ao delírio, agarra-se à infelicidade e não tem pejo em comprazer-se no choro, até porque é incapaz de vestir a pele do «estóico moderno».
Com a bússola da vida a girar «em falso», Rostain mostra as suas fúrias, as suas quebras, o desalento e o consolo, mas também o impulso mórbido que o levou a fotografar o filho enquanto «cadáver metralhado pelos impactos dos meningococos violeta», entre soluços, «na sala de reanimação onde já não reanimavam». Eis a tecnologia ao serviço do memento mori: «Antigamente faziam-se moldes da mão do morto, que depois se punham sobre o fogão de sala. Hoje fazem-se fotografias que se retocam e arquivam.» Cena assombrosa: a solidão de um homem diante do computador, a acariciar o filho «por pixels interpostos». O homem que depois se insurgirá contra o «bulldozer das exéquias» e o «horror burlesco» dos rituais funerários, encenando com a mulher um cerimonial com amigos e música, digno da memória do filho.
Embora a dor nunca desapareça, Rostain dá razão a um amigo que passou pelo mesmo: é possível «viver com isto». De que maneira? Transformando o luto em histórias. Como a das cinzas de Lion, enterradas no flanco de um vulcão islandês, o Eyjafjallajökull, que haveria de explodir, anos mais tarde, numa espécie de justiça poética: «Em certos dias, os meus pais inspiram fundo as minúsculas partículas de cinza que descem do Grande Norte até ao sul da Europa, como se elas viessem de propósito carregadas de mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Apenas seres humanos

cultivo

O cultivo de flores de plástico
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-989-672-187-9
Ano de publicação: 2013

Numa didascália desta sua primeira peça de teatro, Afonso Cruz sugere que uma personagem tem «palavras desmedidas na boca» e «hálito de mar e de vodka». São indicações talvez pouco úteis para um encenador, mas que permitem desde logo estabelecer a atmosfera em que decorre esta aproximação aos problemas (mas também às inesperadas alegrias) de quem vive na rua, mais concretamente quatro sem-abrigo que beberam a «poção de invisibilidade» da miséria e por isso se tranformam em «fantasmas numa cidade assombrada».
Em nove cenas de assinalável economia dramática, Afonso Cruz oferece-nos retratos muito nítidos das personagens: Couraçado Korzhev, um russo que guarda mapas num saco, conchas no bolso e uma nostalgia alimentada a álcool; Jorge, um homem que um dia se fartou da hipocrisia, mandou a ordem social dar uma curva e vive em função dessa desistência (embora insista em espalhar actos aleatórios de bondade); Lili, sempre à procura das fechaduras onde entrem as chaves que lhe sobraram do tempo em que tinha um tecto; e uma «senhora de fato», disposta a fingir que finge a pobreza absoluta em que o desemprego a lançou.
Em diálogos precisos, líricos mas nunca sentimentais, estas pessoas perdidas de si mesmas, e das suas memórias, encontram-se e criam, do nada, um nexo forte e uma razão para continuar em frente. Nesta sociedade em que «é tudo plástico», até a felicidade, e se substitui «o próprio plástico por plástico», ainda há quem tenha as mãos a cheirar a flores, mesmo se roubadas no cemitério. E quem fale – lá está – com palavras desmedidas: «A pensar em nós, ninguém faz campanhas contra o abandono. Somos apenas seres humanos.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Teatro de poeira

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A Maldição de Ondina
Autor: António Cabrita
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 233
ISBN: 978-989-98019-5-0
Ano de publicação: 2013

Os golfinhos são mamíferos que desconhecem o sono profundo. Para sobreviverem, um dos lóbulos cerebrais tem de estar sempre alerta, assegurando a imprescindível vinda à superfície de cinco em cinco minutos, para respirar. Esta é a «maldição de Ondina» a que se refere o título do magnífico primeiro romance de António Cabrita. Metáfora, também, de um país: Moçambique. «Não conseguimos dormir completamente, e por isso não conseguimos esquecer… estamos em eterna vigília sobre o nosso passado (…) E sem conseguirmos resgatar a capacidade de esquecer, não conseguimos superar o ressentimento e atingir o perdão».
Para lá da bem urdida trama, de vagos contornos policiais, o romance fala-nos em primeiro lugar da experiência do autor, que trocou Lisboa por Maputo há quase uma década. «Quem aterra em África dá de repente conta de uma particular expansão do instante. Uma intangibilidade faz pairar o tempo sobre o corpo, uma hora ramifica-se em duas, somos de novo a criança que entrevê o paraíso na porta giratória donde não se entra nem se sai. Depois este efeito escapa-se-nos, a almofada do tempo fica crivada de alfinetes, e, como em toda a parte, a ansiedade mostra a sua juba.» De facto, a ansiedade é um animal selvagem, cuja sombra gera as mais diversas formas de violência e injustiça social, encapsuladas por Cabrita em pequenas histórias exemplares, marginais no contexto do romance, mas reveladoras de um estado de coisas: a desesperante burocracia; os negócios sujos; as urnas com votos na oposição deitadas ao mar («a democracia não foi feita para o africano», diz um sargento); o caso do curso para formar bibliotecários que aceita dois analfabetos como alunos; etc.
No centro da narrativa está César, um escritor português paralisado por impasses literários (anda às voltas com a própria escrita, insatisfeito, ao ponto de apagar seis meses de trabalho do computador) e afectivos (em plena crise matrimonial com Beatriz, reaproxima-se de Argentina, antiga namorada). Ele é um «adolescente perpétuo», desorientado e volúvel, preso «num hiato, entre o sucesso e o descalabro». Como alguém lhe explica: «Estás ‘entre’ – na vida, no amor, nos países.» Em torno de César, tudo se fragmenta, tudo se dissolve, tudo se desfaz. Com um pé na realidade e outro na ficção, ele gere o próprio desequilíbrio, convoca figuras do seu património cultural, avança num «jogo de biombos», estatela-se ao comprido mais de uma vez. No peito, tem «uma cratera lunar»; e sente-se no palco de um «teatro de poeira».
O contraponto de César é Raul, o amigo polícia, cujas histórias foi inconscientemente vampirizando nos romances que lhe deram fama e (cada vez menos) sustento. Entre os dois cria-se o vínculo que sustenta a história principal, de desfecho trágico. Mas o que torna este livro precioso não é o enredo, nem sequer a estrutura narrativa de muitas pontas aparentemente soltas, por fim atadas de modo subtil. É a linguagem. Cabrita torce as frases, cinzela a sintaxe, arredonda a prosa, faz música. Exemplo: «Quadriculado convulso, uma cidade que desaprendeu a mansidão, que se desdobra aos baldões e se acama em escombros.» À escrita exuberante junta-se um tremendo rigor na construção das cenas, que começam sempre num pormenor, numa palavra solta, numa esquina, numa esguelha, e depois se desdobram com agilidade felina, como quem escava no real o espaço da sua própria representação.
Para o protagonista, a literatura é uma «obsessão danosa» mas inelutável: «Descobrir como imprimir ritmo a uma frase é um transe de que não se recupera.» Em César, criatura, haverá algo de António Cabrita, criador. Pelo menos esta obsessão, este transe maravilhoso, são decerto iguais num e noutro.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Estadia americana

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O Estado de Nova Iorque
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 137
ISBN: 978-989-616-539-0
Ano de publicação: 2013

«Toda a gente tem alguma ideia sobre a América, mas ninguém sabe o que vai encontrar», lembra Tiago Patrício neste livro de impressões breves e aforismos, escrito durante uma residência na Ledig House, ao abrigo de uma bolsa de criação literária. Patrício começa o relato fragmentário num tom quase documental, descrevendo a partida com uma mala cheia de livros, as incidências da viagem aérea, as barreiras de comunicação entre passageiros, e a chegada aos EUA, com os choques culturais mais óbvios, da alimentação ao custo das coisas.
Em linguagem económica, a primeira parte oferece-nos o que se espera de um diário de viagem: retratos de americanos típicos, o espanto com a verticalidade de Nova Iorque, muitos ecos do 11 de Setembro, reflexões irónicas sobre Wall Street e a crise financeira. «Aqui, tudo é robusto e musculado: os camiões, os comboios, as fábricas, as máquinas de lavar e secar, as leis, as palavras, as frases.»
As partes seguintes evoluem para outros «estados» de escrita, menos objectivos. Quando se descreve a vida dos escritores em retiro criativo, numa redoma com refeições a horas certas e piscina, há uma tensão ficcional que se instala, com pequenos medos inventados por quem só quer «apanhar sustos em segurança». Depois, assim que o primeiro estranhamento se dissolve, é a própria realidade a dar asas a este livro difuso. Numa igreja, uma rapariga em cadeira de rodas tenta levantar-se: «Quando cai desamparada, mais à frente, levanta-se a suspeita de haver alguém com falta de fé na sala.» À noite, nos lugares por onde andou Melville, «consegue-se ver um olho muito amarelo de baleia no horizonte, que se torna mais plácido à medida que sobe no céu».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Onde o vento não sopra

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Zero à Esquerda
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Edição de autor
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-148-40-8797-8
Ano de publicação: 2013

A pretexto da crise económica, muitas editoras vêm reduzindo de forma drástica o número de livros que publicam. Sem surpresa, as principais vítimas são os géneros comercialmente menos interessantes, como as recolhas de contos ou crónicas. Consciente do problema, Manuel Jorge Marmelo procurou uma solução alternativa e acaba de publicar dois livros fora do circuito habitual das livrarias, em edições de autor, distribuídas através da Amazon. As Crónicas do Autocarro existem apenas em versão electrónica (com uma pequeníssima tiragem em papel, de 100 exemplares assinados), enquanto Zero à Esquerda, uma recolha de contos dispersos, foi impressa nos EUA e é vendida nas lojas americana e francesa da maior livraria online do mundo.
Os textos mais longos e interessantes de Zero à Esquerda têm Cabo Verde como cenário. Logo na primeira história, um fotógrafo dispara a sua máquina ao acaso, procurando captar no tecido caótico da realidade as subtilezas que escapam a um primeiro olhar. No fundo, ele deseja «ver para além do que pode ser visto»; ele quer desvendar o que «a aparência oculta». Este impulso é comum a quase todos os narradores deste livro, no modo como procuram descrever, ora com subtileza, ora com ironia, amores impossivelmente líricos e devaneios sensuais, movimentos de fuga ou de isolamento, dilemas identitários, alegrias insulares e outras aproximações ao cerne da vida cabo-verdiana (a sua paisagem, a sua música, o seu falar crioulo). No conto que dá título ao livro, um homem esconde-se debaixo de um cobertor «velho e puído», a ler e a escrever com a pouca luz que entra pelos buracos feitos pelas traças. É uma figura que procura desaparecer do mundo, apagar-se, e utiliza a literatura como instrumento para esse eclipse. Marmelo cita Walser e Pynchon, há quase sempre uma auto-consciência do fazer literário, mas depois a escrita solta-se quando as mulatas agitam as noites do alto da sua beleza, inclinando a prosa para a toada das mornas e para a melancolia que se mistura com o desejo.
Num dos seus romances, Enrique Vila-Matas criou um personagem, Federico Mayol, que empreende uma «viagem vertical», do Porto à Madeira, passando por Lisboa. MJM imagina que essa viagem continuou e coloca Mayol ainda mais a sul, numa esplanada de São Vicente, a ler um livro que talvez seja «infinito» ou «inesgotável». Numa ilha ventosa, o septuagenário é conhecido pelo facto de nunca correr uma brisa nos sítios por onde anda. O mistério talvez se explique pelo facto de ele não existir realmente, de ser uma figura inventada por Vila-Matas, preso «num limbo onde nada acontece e o vento não sopra», e talvez isto suceda «com todos os personagens de todos os livros quando as histórias chegam ao fim». Uma ideia que nos dá esperança quanto ao destino, por exemplo, do saxofonista Quentin Maschado (Crescendo and diminuendo in blue), da Anita vendedora de compota de fruta (A doçura), da Benvida que não vem à janela ouvir uma serenata, ou do futebolista que todas as noites sonha que pode qualificar Cabo Verde para o Campeonato do Mundo e falha o golo decisivo. Pode ser que se sentem todos à mesa com Mayol, na esplanada onde o vento não sopra, do outro lado da ficção. E bebam à saúde de quem tão bem os inventou.
Os contos mais curtos, guardados para o fim, ficam aquém das histórias cabo-verdianas. São exercícios divertidos, vinhetas provocatórias ou absurdas (algumas demasiado esquemáticas, outras dispensáveis), um complemento que a densidade dos textos longos não pedia. Ainda assim, Um insecto muito repugnante e António espanta os peixes são miniaturas preciosas.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Mostrar o invisível

aniki

Aniki-Bobó
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 96
ISBN: 978-972-37-1659-7
Ano de publicação: 2012

Inédito durante quase duas décadas, Aniki-Bobó, o ensaio de Manuel António Pina sobre o filme realizado por Manoel de Oliveira em 1942, foi uma encomenda do British Film Institute para uma colecção sobre clássicos da história do cinema. O livro nunca chegou a ser publicado no Reino Unido, embora uma parte do texto tenha aparecido no catálogo do ciclo ‘Odisseia nas Imagens’, ao tempo do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Agora em versão integral, a leitura de Pina mostra-nos uma faceta talvez menos conhecida da sua abrangente mundividência: a de cinéfilo atento e apaixonado.
Na introdução, após um breve resumo dos primeiros anos do cinema português, com referências ao pioneirismo de Aurélio Paz dos Reis e à «primeira tentativa séria de montar em Portugal uma grande indústria cinematográfica» (a Invicta Filmes, do Porto), M. A. Pina não esconde o fascínio pelo improvável percurso artístico de Manoel de Oliveira. Filho de um industrial próspero, o então muito jovem desportista (campeão de salto à vara, piloto de aviões e automóveis, além de ás do trapézio) convenceu o pai a comprar-lhe uma câmara com película de 35 mm, portátil, e pôs-se a filmar os gestos, o trabalho e a dura vida quotidiana das «gentes ribeirinhas». Tinha 21 anos. Desta «vontade de fazer cinema» nasceria a sua primeira obra, Douro Faina Fluvial, um «filme de montagem», entre documentário e ficção, terminado em 1931 com o empenho de António Lopes Ribeiro, uma das mais influentes figuras do establishment cultural da época.
Na estreia, os críticos portugueses não suportaram o «ritmo inquieto» e menos ainda a rudeza das imagens que exibiam a vergonhosa miséria do Porto («aquelas mulheres esfarrapadas, com carretos de carvão à cabeça, de pé descalço…»), manifestando o seu desagrado com assobios e uma monumental pateada. Pelo contrário, um crítico do jornal Le Temps empolgava-se: «Nunca o patético novo da arquitectura do ferro e a poesia eterna da água foram traduzidos com tanta força e inteligência.» A obra de Oliveira nascia sob o «signo da controvérsia»: aplaudido lá fora, questionado cá dentro. «E assim continuou» até aos nossos dias, resume Pina.
Aniki-Bobó, rodado nas margens do Douro com «pequenos actores amadores», descobertos por Oliveira nos locais de filmagem, também foi mal-recebido de início, tanto pela crítica como pelo público, mas ocupa hoje um lugar central na história do cinema português. Pina comenta o filme quase plano a plano, levando-nos para o coração desta história de amores infantis que espelham o «mundo real dos homens (…), reduzido (…) à sua mais funda e descarnada estrutura: Bem e Mal, justiça e injustiça, esperança e medo, felicidade e infelicidade, desejo e morte, amor e ódio». Com o seu «realismo poético», o filme é um hino à infância enquanto território das grandes descobertas e revelações. Um território visto de dentro, em oposição à autoridade normativa dos adultos. Com os seus contre-plongées, Oliveira obriga mesmo o espectador «a olhar o mundo e as coisas através dos desmedidos olhos originais das crianças». Pina lembra ainda que neste filme «tempo e câmara, duração e découpage, enquadramentos e raccords, bastam-se para, conjugadamente, mostrar o invisível» – característica essencial do cinema futuro de Oliveira, que só voltaria a realizar uma longa-metragem de ficção (O Passado e o Presente, 1972) após um inacreditável hiato de trinta anos.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler]

Era uma vez um optimista

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Índice Médio de Felicidade
Autor: David Machado
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 255
ISBN: 978-972-20-5276-4
Ano de publicação: 2013

Na vida de Daniel, um português médio igual a milhões de outros, as «coisas ficaram muito difíceis muito depressa». Após anos de ilusória prosperidade, a crise atingiu em cheio o país e o que parecia sólido começa a ruir. Perdido o emprego numa agência de viagens, o cenário torna-se negro. A mulher, também desempregada, arranja trabalho no café do pai e instala-se em Viana do Castelo com os filhos. Sozinho em Lisboa, Daniel resigna-se a vender aspiradores, mas até esse biscate acaba por perder ingloriamente. Sem dinheiro para pagar a prestação, o banco fica-lhe com a casa e ele vê-se forçado a passar as noites no banco traseiro do carro. Quando este se incendeia, resolve invadir de noite o escritório onde trabalhava (ficou com as chaves) e dormir debaixo da antiga secretária.
Durante anos, Daniel encheu um caderno de capa preta com aquilo a que chamou o «Plano», uma espécie de «diário do futuro» onde esquematizava o que deveria acontecer lá mais à frente. Como é óbvio, nunca imaginou chegar aos 37 anos numa situação tão difícil e precária. «O que é que falhou? Onde é que as costuras não ficaram bem apertadas?» Ninguém sabe. E o mais difícil é encontrar forma de encaixar as expectativas do caderno de capa preta nos «novos limites da realidade». No lugar de Daniel, qualquer pessoa cairia no desespero, na depressão ou no cinismo. Acontece que ele é o mais resiliente dos optimistas. E por isso não desiste, não baixa os braços. Acredita que tudo se pode resolver, que ainda é possível «agarrar de novo as partes da minha vida que se tinham soltado, ajustá-las mais e melhor ao meu corpo».
Só que essas partes insistem em desligar-se. À distância, a relação conjugal entra num impasse e os filhos vão-se tornando estranhos (Flor, a mais velha, desiludida com o mundo, a sublinhar as palavras negativas dos jornais; Mateus, alienado pela internet). Os dois maiores amigos também lhe dão problemas: Xavier, um recluso voluntário, incapaz de sair de casa há 12 anos; e Almodôvar, recluso literal, preso depois de assaltar uma estação de serviço. Em tempos, os três criaram uma rede social «através da qual pessoas que precisam de ajuda e pessoas dispostas a ajudar» poderiam encontrar-se, uma ideia excelente que redundou num inexplicável fracasso. É a Almodôvar, o amigo inacessível (não aceita ser visitado na prisão), que Daniel se dirige em diálogo mental, falando-lhe das suas lutas e dilemas, mas também dos problemas em que Vasco, o filho de Almodôvar, se anda a meter por falta de acompanhamento familiar (faz parte de um gangue que humilha mendigos e sem-abrigo, publicando os respectivos vídeos online).
David Machado criou um protagonista improvável no qual somos capazes de acreditar. E fez da sua história – escrita num tom justo, sempre adequado à natureza do que descreve – uma espécie de hino à esperança, uma demonstração de que nós, os seres humanos, embora imperfeitos e falíveis, talvez não sejamos, afinal, um caso perdido. Numa narrativa em que os bons sentimentos prevalecem, e em que o Índice Médio de Felicidade das personagens oscila, mas com tendência a subir à medida que fazem o que deve ser feito, o risco de dulcificação da prosa era enorme. Quando Daniel sobe para uma carrinha de nove lugares, com os filhos, Vasco, Xavier e um motorista patusco, dispostos os seis a percorrer 2500 quilómetros para cumprir a vontade de uma senhora paraplégica de Genebra, que pediu, no site, para ver uma última vez o irmão moribundo num hospital de Marselha, teme-se o pior: um retrato lúcido do nosso tempo dissolvido por um final lamechas. Temor infundado. A viagem é redentora, sim, mas por razões oblíquas. E raras vezes um final feliz fez tanto sentido como este faz.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O vento que se levanta

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Sala VIP
Autor: Jorge Silva Melo
Editora: Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos)
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-989-20-3972-5
Ano de publicação: 2013

Na Sala VIP de um aeroporto internacional, quatro cantores líricos (soprano, mezzo, barítono, tenor), acompanhados pelo seu empresário, esperam noite dentro por uma ligação aérea, a caminho de uma récita que está em risco de ser cancelada. É neste não-lugar – um espaço de transição, neutro, anódino e despojado (até a máquina distribuidora de snacks está vazia) – que Jorge Silva Melo instala as personagens da peça que escreveu a convite do encenador Pedro Gil, mas atravessada, como o dramaturgo admitiu nas notas de produção do espectáculo (estreado na Culturgest, em Julho), por «aquilo que me interessa, aquilo que me inquieta, este meu mundo que termina em breve».
Nas falas sobrepostas dos cantores decadentes e do empresário embrutecido pelo álcool, vemos de facto desfilar muitos dos temas caros a Silva Melo: o poder do dinheiro, a desconstrução da memória, os jogos sexuais, os vasos comunicantes com outras obras (através de um labirinto verbal de referências e citações), a nostalgia política, a amargura das ilusões que se esfumam, tudo numa atmosfera de desencanto crepuscular. “Já não há tiradas, árias, apartes, solilóquios, já não sabem o que é esquerda baixa nem projectar a voz, alexandrinos, já não há lustres, nem caixa do ponto, nem rosas nos camarins…»
O teatro acaba – mas não só o teatro. Na sala de espera do aeroporto, no SPA de um hotel de luxo ou numa clínica privada (quando a tragédia se instala), estas figuras perdidas de si mesmas dançam a melancólica valsa do fim da esperança, tentando resistir ao vento que se levanta, agreste, numa paisagem tão desolada como o deserto em que morre a Manon Lescaut de Puccini, o alicerce oculto desta peça subtil.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Dentro da casa

amada vida

Amada Vida
Autora: Alice Munro
Título original: Dear Life
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-641-355-2
Ano de publicação: 2013

Na página 213, depois de dez histórias que voltam a revelar, em todo o seu esplendor, a mestria narrativa de Alice Munro, o leitor de Amada Vida depara com a seguinte nota: «Os últimos quatro trabalhos deste livro não são propriamente contos. Formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas – e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida.» O que mais surpreende nestes fragmentos biográficos, construídos a partir das memórias de infância, é a afinidade evidente com os temas, situações e personagens da sua escrita ficcional, por muito que a autora procure estabelecer uma barreira entre os dois domínios.
Ao evocar uma prostituta muito vistosa que viu certo dia num baile, Munro acrescenta: «Penso que se estivesse a escrever ficção em vez de recordar algo, eu nunca lhe teria dado aquele vestido.» Mais à frente, ao referir os primeiros sintomas de Parkinson na mãe, coincidentes com o falhanço profissional do pai, assume uma certa inverosimilhança na acumulação de infortúnios: «Talvez pensem que isto era excessivo. O negócio arruinado, a saúde da minha mãe arruinada. Em ficção não daria resultado.» A ironia é que os contos de Munro fazem questão de desmentir esta última frase. Os pais da escritora não são assim tão diferentes das personagens que sofrem, se perdem ou se agigantam nos seus textos. Ela própria, ao escrever sobre os conflitos surdos com a mãe, sobre insolências e respectivos castigos, sobre demónios inconfessáveis (houve uma altura em que sentiu o impulso de estrangular a irmã mais nova), coloca-se num lugar de espanto e desalento, fúria de seguir em frente e melancolia, que é o lugar ocupado por quase todas as suas protagonistas. Muitas delas transportam uma «falha», uma «falta», ou então um «peso» que se desloca «à volta do coração». São «peritas em perdas» e conhecem demasiado bem o vazio «espantoso» de quando subitamente tudo acaba, mas a vida continua. Umas superam-se, outras afundam-se, outras nunca saem do «buraco» em que se meteram na infância – e «continuam a cavar».
Quando uma destas mulheres explica ao amante a verdadeira razão da morte do pai (atirou-se para debaixo de um comboio, depois de contemplar a nudez da filha e não saber lidar com isso), há uma súbita leveza associada à partilha do segredo e à eliminação da culpa: «Sinto um alívio tão grande. Não é que tenha deixado de sentir a tragédia, mas é como se a visse de fora. São simplesmente os erros da natureza humana.» Os erros inevitáveis da natureza humana: eis a matéria-prima de Alice Munro. Nas suas histórias, há como que uma cartografia dos abalos que transfiguram a existência das pessoas comuns, criando inesperadas zonas de luz ou de sombra. De repente, algo acontece que não era suposto acontecer e duas pessoas ligam-se, envolvem-se, separam-se, partem para nunca mais voltar, regressam quando já ninguém as espera. Ou então, muitos anos depois, reencontram-se a atravessar uma rua cheia de gente, descobrindo no outro a verdade dos seus «rostos deteriorados pelo tempo» e a forma como se foram fechando, uma a uma, «as possibilidades da vida».
Na introdução a Selected Stories (Vintage, 1996), Munro explicou que uma história não é tanto um caminho que se segue. É antes uma casa: «Entramos e ficamos ali um bocado, a deambular, descobrindo como as salas e corredores se relacionam, como o mundo exterior fica diferente se contemplado daquelas janelas. (…) Podemos voltar muitas vezes, mas a casa, a história, conterá sempre mais do que vimos da última vez.» As casas de Amada Vida – talvez o derradeiro, e belíssimo, livro da escritora canadiana (n. 1931) – são inesgotáveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que nos dizem as casas

arquitectura

A Arquitectura da Felicidade
Autor: Alain de Botton
Título original: The Architecture of Happiness
Tradução: Lucília Filipe
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-972-203-932-1
Ano de publicação: 2013

Nas margens de um lago na Irlanda do Norte, em 1767, o visconde Bangor e sua mulher, Lady Anne Bligh, decidiram construir uma casa grande, digna do seu estatuto. O problema é que não chegavam a acordo sobre o estilo arquitectónico a adoptar em Castle Ward. O visconde era um classicista: queria «janelas salientes, colunas embutidas, proporções palladianas e janelas encimadas por frontões triangulares com mísula». Já Lady Anne admirava o estilo gótico: «telhados com ameias e pináculos, janelas ogivais e quadrifólios». Para sair do impasse, o arquitecto do casal sugeriu uma solução de «engenho salomónico»: dividir a casa ao meio. E assim surgiu a estranha quimera que ainda hoje pode ser vista em Stragford Lough: fachada em puro estilo clássico; alçado das traseiras a lembrar um palácio medieval (compromisso que se prolonga no interior).
Esta é uma das dezenas de histórias curiosas a que Alain de Botton recorre para ilustrar, em texto e imagens, a sua abordagem à evolução da arquitectura, sempre do ponto de vista do filósofo que procura entender de que modo as construções humanas reflectem e condicionam conceitos abstractos difíceis de definir, como a «beleza» e a «felicidade». Todos procuramos moldar os lugares em que vivemos, mas o contrário também acontece: «Uma sala feia pode cristalizar qualquer suspeita isolada sobre a imperfeição da vida, enquanto um cenário iluminado pelo sol com ladrilhos de calcário cor de mel pode dar apoio ao que de mais esperançoso existe em nós.» Em última análise, resume Alain de Botton, «a tarefa da arquitectura é fazer-nos ver quem podíamos idealmente ser». Em muitos casos, a beleza do espaço em que vivemos empurra-nos para o aperfeiçoamento ético. Mas nem sempre. As casas belas não nos tornam necessariamente melhores, porque «a arquitectura pode muito bem conter mensagens morais, mas simplesmente não tem qualquer poder para as fazer cumprir». No fundo, os falhanços da arquitectura expressam a «mesma tendência que, noutras áreas, nos levarão a casar com a pessoa errada, a escolher profissões inadequadas e a marcar férias malsucedidas: a tendência para não entender quem somos e o que irá satisfazer-nos».
John Ruskin escreveu que esperamos pelo menos duas coisas das construções humanas: que nos abriguem e que «nos falem». É justamente esta eloquência da arquitectura que Alain de Botton procura entender e descodificar, percorrendo o mundo e os séculos para «ouvir» o que as casas têm para dizer e o modo como falam «de democracia ou de aristocracia, de simplicidade ou de arrogância, de bom acolhimento ou de ameaça, de uma simpatia pelo futuro ou de uma nostalgia do passado». Pelo caminho, estabelece nexos surpreendentes (por vezes com quadros ou obras literárias), detém-se na psicologia do gosto e no utilitarismo dos engenheiros, enumera os princípios da ordem arquitectónica e reincide numa embirração mal escondida para com Le Corbusier.
Alain de Botton é eficaz a narrar factos invulgares (o obelisco de nove metros mandado erguer por uma condessa, em memória de um porco «ao qual não hesitou chamar verdadeiro amigo»; ou a aldeia holandesa falsa construída no Japão, com tulipas, canais e moinhos de vento), mas muitas das ligações que estabelece são superficiais, frívolas ou simplesmente arbitrárias – veja-se a comparação forçadíssima entre os caixilhos de uma janela e uma bailarina de Degas. Apesar de um estilo solene (por vezes a resvalar para o pomposo) e demasiado reiterativo, o livro funciona bem como introdução ligeira à arquitectura. Já como teorização filosófica, que devia ser o ponto forte do autor, deixa bastante a desejar.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A estirpe maldita

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O Anão
Autor: Pär Lagerkvist
Título original: Dvärgen
Tradução: João Pedro de Andrade
Editora: Antígona
N.º de páginas: 178
ISBN: 978-972-608-237-8
Ano de publicação: 2013

Escrito em 1944, no final da II Guerra Mundial, O Anão é um livro de um pessimismo lúcido, exemplar na construção narrativa e brilhante no estilo. Pär Lagerkvist situou a narrativa num tempo histórico incerto, algures durante a Renascença italiana (provavelmente no final do século XV), mas as situações e figuras que evoca têm uma dimensão universal. No fundo, o que o leitor encontrará, ao longo destas páginas sôfregas, é um retrato da maldade humana em todo o seu esplendor, personificada pelo anão Piccolino que, do alto das suas 26 polegadas de altura, lança sobre a realidade que o rodeia o mais aviltante dos olhares.
Nas entradas do seu diário, Piccolino constrói e defende uma visão do mundo claramente distorcida. Tudo o que se passa na corte, tudo o que se diz ou faz, chega-nos através do filtro tortuoso da sua mente. Escarnecido e humilhado, ele devolve o escárnio e as humilhações com juros. A pequenez, em vez de o inferiorizar, gera um complexo de superioridade, embora ele acredite que os anões descendem de uma «raça mais antiga do que a que hoje povoa o mundo», o que os torna já velhos quando nascem. «Os anões não têm pátria, nem pai nem mãe; somos engendrados por estrangeiros vulgares; a fim de que a nossa raça se perpetue, consentimos em nascer secretamente entre os miseráveis. E quando esses pais adoptivos se apercebem de ter lançado ao mundo um ser da nossa estirpe, vendem-nos a poderosos senhores, a quem a deformidade diverte, para lhes servirmos de bobos.» É uma estirpe maldita, condenada à servidão e ao gozo dos outros. E por isso Piccolino a despreza.
Na verdade, Piccolino não despreza apenas os outros anões, ao ponto de os afastar um a um, até ao último (que estrangula); ele despreza a humanidade em geral. As pessoas com quem se cruza, na corte, inspiram-lhe um desdém que não consegue esconder. Só pelo príncipe revela respeito e admiração, mas mesmo esse por vezes o desorienta, com o seu carácter impenetrável. Ele gosta de ser o prolongamento do monarca, a sua «sombra», um símbolo do seu poder. Quando passeia sozinho pela cidade, os habitantes fazem-lhe o que não podem fazer ao soberano: insultam-no, cospem-lhe, atiram-lhe ratos mortos. Ele não recebe a hipocrisia da bajulação, antes a verdade do ódio puro dos súbditos. A ele não lhe mentem. Saber «sempre mais de todas as coisas do que o seu senhor» é o triunfo que lhe cabe.
Piccolino não tem propriamente um cargo. Enche taças de vinho, ouve confidências, entrega cartas secretas da princesa ao seu amante, escuta atrás das portas, conspira nos corredores. Mas essa posição privilegiada dá-lhe acesso aos meandros onde tudo se decide e ele não se coíbe de mexer alguns cordelinhos. Bernardo, um sábio que faz lembrar Leonardo da Vinci (pinta uma Última Ceia e um retrato da princesa com um sorriso misterioso, à la Mona Lisa; além de abrir cadáveres e desenhar máquinas de guerra), junta ao conhecimento e curiosidade infinitos uma dose de humanismo. É o suficiente para que desconfie dele. Como desconfia das pessoas boas, ou ingénuas, ou capazes de amor. Porque ele só conhece sentimentos negros: «O ódio foi o meu alimento desde os primeiros instantes da minha vida, absorvi a sua amarga seiva». Sem remorsos, sem medo, ele faz do ódio a sua linguagem, não se furtando à respectiva radiação maligna: «Mas também me odeio a mim mesmo. Devoro a minha carne embebida em fel. Bebo o meu sangue envenenado.»
O diário exulta com as carnificinas da guerra e mostra os horrores da peste, enquanto o mundo de Piccolino se dissolve. No fim, o anão continua a acreditar na ligação ao seu senhor («Está acorrentado a mim, como eu o estou a ele!»), mesmo depois de o príncipe o ter mandado prender na masmorra do palácio. «Os homens gostam de se ver reflectidos em espelhos turvos», resume. E nenhum espelho é mais turvo do que esta viagem sombria ao coração do Mal.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Coisas próprias do escuro

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O da Joana
Autor: Valério Romão
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-98019-8-1
Ano de publicação: 2013

No seu romance anterior (Autismo), Valério Romão colocava, durante muitas dezenas de páginas, um casal consumido pelo desespero à porta de uma urgência hospitalar, ansiando por notícias que nunca chegavam sobre o filho de seis anos, atropelado horas antes. A espera kafkiana face ao muro da intransigência burocrática era a metáfora perfeita da incomunicabilidade que ferira de morte a família – o autismo do filho a desencadear ondas de choque, como uma «bomba com retardador» que de repente explode. Em O da Joana, segundo volume da trilogia «Paternidades falhadas», reaparece a figura opressiva do hospital, mas desta vez tudo (ou quase tudo) decorre lá dentro, um espaço claustrofóbico, asfixiante, espécie de inferno onde uma mulher grávida é condenada a dar à luz um nado-morto.
A narrativa não se fecha logo nas salas e corredores da maternidade, começa antes numa animada festa, sobre a qual paira, no travo melancólico da alegria suburbana, uma espécie de aviso ou prenúncio do que nos aguarda. Valério descreve tudo com minúcia, numa prosa rápida, elástica, abrangente, feita de panorâmicas e zooms, como num documentário que a National Geographic fizesse sobre nós, humanos, esses primatas no fundo tão semelhantes nas suas «pulsões mais profundas e genuínas». Fala-se, por exemplo, do «magnetismo» primário que faz com que as mães sejam atraídas pelo choro dos filhos, seguindo o instinto de «um coração feminino devidamente calibrado». E é aqui que a história inicia o seu deslize para um «alto-mar existencial no qual tudo quanto há se desnuda na inexistência de terra firme». No meio da confusão, Joana procura um bebé que chora algures num quarto, encontra-o, identifica uma fome que se apressa a saciar com um mamilo «de onde despontavam já (…) bolsas microscópicas de leite», para logo dissolver este momento íntimo em algo mais perturbante, à medida que as carícias no bebé se transformam numa «apneia» de «prazer dúbio dos sentidos que se confundem», concluída num orgasmo.
Quando o leitor descobre que o filho não é dela e a mãe verdadeira se prepara para um confronto de pura energia animal, instala-se uma «arritmia da normalidade». Saber que tudo não passou de um pesadelo gera talvez um sentimento de alívio, até porque sinaliza o rompimento das águas e o início da corrida para a maternidade, onde Joana espera cumprir o sonho alimentado durante oito anos de obsessão, durante os quais preparou a sua vida, ao milímetro, em função do filho que um dia haveria de chegar. O problema é que a «arritmia da normalidade» é transposta do mundo onírico para o mundo real. Se, no sonho, ela fazia coisas «próprias do escuro», embaraçosas «porque não são próprias de mim», essas coisas perseguem-na na vigília, uma vez que o corpo continua a perder-se, «assim que eu viro as costas à lucidez e abro mão da consciência».
A perdição do corpo, neste caso, assume a forma de um silêncio: dentro da mãe, o coração do Francisco deixou de bater. É esta tragédia que acompanhamos momento a momento, sem elipses nem pausas para respirar, até ao paroxismo do arrepiante desenlace, numa vertigem de realismo cru e visceral sem paralelo na literatura portuguesa. Entre o corpo e a dor, «desabam as fronteiras que permitem que o primeiro localize e contenha a última». E nós assistimos a esse desabamento que, numa Joana transformada em «barco sem tripulação, abandonado à sua sorte», corresponde ao desabamento da própria realidade. Terrível, duríssimo, admirável, este é um romance que traz à luz feridas e angústias, sem anestesia, a frio, mas com a delicadeza de quem respeita infinitamente o lado mais brutal da vida.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma nação suicida

despais

Despaís
Autor: Pedro Sena-Lino
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 330
ISBN: 978-972-0-04486-0
Ano de publicação: 2013

Das muitas formas de abordar ficcionalmente a crise aguda que Portugal vem atravessando nos últimos anos, Pedro Sena-Lino escolheu a mais extrema: imaginar o que acontecerá ao nosso país se as políticas de austeridade forem levadas longe demais. No começo do romance, em Setembro de 2023, os resultados do quinto programa de ajustamento estão à vista: taxas dos juros da dívida soberana nos 35%; congeladas todas as pensões de reforma; quase metade da população no desemprego; propinas obrigatórias no ensino básico. A «espiral de pobreza e perda de direitos», iniciada «no preciso dia de 2011 em que Portugal pedira ajuda à troika», atinge agora proporções insustentáveis. O país – exausto, exangue – está à beira do colapso. E, em pouco mais de um mês, colapsará mesmo.
Despaís é o relato desse apocalipse. Ou seja, de um suicídio. O suicídio de Portugal. Tudo começa com a iniciativa de um grupúsculo de extrema-direita que propõe um referendo: «Concorda com a dissolução total do Estado Português?» Inicialmente desvalorizada como uma brincadeira de mau gosto, a iniciativa depressa ganha embalo, força, apoios (até de partidos de esquerda) e centenas de milhares de assinaturas. A ideia subjacente não podia ser mais simples: se o país acabar, acaba a dívida. E poder-se-á então «começar do zero», criar uma «nova ordem», inventar outra forma de democracia. O que está em causa, no fundo, é o destino a dar aos estados-nação, «mortos pela sociedade de consumo excessiva, pelo financeirismo que destruiu as raízes do estado social». O povo, farto de governantes sem passado nem futuro, presos no «presente da dívida», ao serviço de interesses financeiros «sem rosto», capazes até de vender o Mosteiro dos Jerónimos por mil milhões de euros, propõe-se corrigir «um erro histórico de proporções monumentais», mesmo que isso implique um hara-kiri exemplar.
Os factos sucedem-se numa vertigem: crises políticas, caos social, invasão popular da Assembleia, a Constituição anulada (tornando possível o referendo inconstitucional), e votação esmagadora a decretar o fim do mais antigo país da Europa. Previsivelmente, as promessas de «ressurreição» esfumam-se num instante. Não há Fénix; só cinzas. Tudo se desfaz. A Madeira e os Açores tornam-se independentes, a região norte é ocupada por tropas espanholas, o resto do território acaba vendido ao desbarato a grandes empresas estrangeiras. Nas praias, trezentos mil «desportugueses» fazem-se ao mar, em «Crísias», embarcações feitas de restos de madeira e plástico, «símbolos dolorosos de um passado gloriosamente burguês, ouropel europeu», imensas barcaças «de construção babélica» à deriva no oceano. E volta o povo português à sua condição de «nómada marítimo».
As dezenas de narradores deste romance criam uma estrutura polifónica que permite transições eficazes entre os muitos planos da narrativa: da vida concreta das pessoas que perderam tudo (até o nome) aos ínvios labirintos do poder, onde um primeiro-ministro fraco se sujeita à agenda do diabólico ministro das Finanças (espécie de cruzamento entre Salazar e o Marquês de Pombal), passando pelo heróico Bartolomeu Henriques, jornalista que lidera a revolta e o êxodo dos «embarcados». Sena-Lino é melhor a descrever os grandes movimentos de massas (memorável, a cena da pilhagem do Museu de Arte Antiga) do que os conflitos interiores das personagens. Para além da normal suspensão da incredulidade, Despaís exige do leitor que ignore essa coisa chamada verosimilhança. E o leitor aceita, porque este não é um livro realista mas onírico. Uma fantasia lúgubre. A descrição do pesadelo em que se pode transformar o sonho mau que temos vivido.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Preferir não o fazer

Bartlebys Reunidos
Autor: Ricardo Gil Soeiro
Editora: Deriva
N.º de páginas: 66
ISBN: 978-972-9250-94-1
Ano de publicação: 2013

Quando Melville criou, em 1853, a personagem de Bartleby, o escrivão renitente, a história da mais exemplar das recusas transformou-se num emblema que ainda hoje influencia escritores e estimula os teóricos da literatura. Há qualquer coisa na «renúncia da escrita» por parte de Bartleby – na sua obstinação em «não o fazer» («I would prefer not to») – que remete para uma «ética da impotência», capaz de fixar toda a sorte de angústias pós-modernas. Daí o seu enorme poder, quer enquanto conceito, quer enquanto atitude.
Neste conjunto de 30 poemas «em forma de nota de rodapé a um texto invisível», Ricardo Gil Soeiro (investigador do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa) tem como programa «interrogar poeticamente a pulsão negativa e a atracção pelo nada, tal como esta se desenha no labirinto da literatura do Não». Para isso, entrega-se a uma espécie de louvor e complexificação de Bartleby, essa figura dúbia que procura «soletrar / o triste mistério de existir»; e umas vezes é «voz avulsa», outras é «fantasma ausente» perseguindo «sombras», ou «desembrulhando / a noite em câmara lenta». Estas abordagens – marcadas por hesitações e desacertos – dialogam explicitamente com autores que também se aproximaram de Bartleby ou da «problemática da desistência literária»: Vila-Matas, Wittgenstein, Georges Perec, Deleuze, Robert Walser, Blanchot, Celan ou Giorgio Agamben.
Infelizmente, nem sempre a escrita poética de Gil Soeiro – de um lirismo algo enfático – se adequa à procura de um proverbial silêncio retórico que o poema sobre Kafka anuncia: «de quando em vez, assalta-me esta / estranha sensação, a de poder / anunciar o nada nos lábios».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um homem determinado

O Livro Negro
Autora: Hilary Mantel
Título original: Bring Up the Bodies
Tradução: Miguel Freitas da Costa
Editora: Civilização
N.º de páginas: 439
ISBN: 978-972-26-3594-3
Ano de publicação: 2013

Poucas épocas da História inglesa foram tão escrutinadas pela literatura como o reinado de Henrique VIII, o monarca conhecido por ter casado seis vezes. Hilary Mantel, uma grande escritora a quem durante décadas faltou o reconhecimento pela excelência da sua prosa, entrou por isso num território já muito explorado quando publicou Wolf Hall (2009), um romance que conduzia mais uma vez os leitores contemporâneos através dos labirintos de intriga e conspiração na corte dos Tudor, a braços com uma crise dinástica nas primeiras décadas do séc. XVI.
As circunstâncias são por demais conhecidas: obcecado pela necessidade imperiosa de um sucessor, Henrique VIII separou-se da rainha que só lhe deu uma filha (Catarina de Aragão) e casou novamente (com Ana Bolena), provocando um cisma com a Igreja de Roma. O golpe de asa de Mantel foi centrar o seu livro não na figura do rei mas na de Thomas Cromwell, o seu secretário-mor, tradicionalmente representado como um vilão determinadíssimo e ambicioso, inteligente e cruel, que veio do nada para se tornar o braço-direito do monarca, o seu cão de guarda, responsável pelo lado mais negro e sujo de uma diplomacia que não olhava a meios para atingir os fins.
Em Wolf Hall, assistimos à ascensão de Cromwell, filho de um ferreiro que se ergue a pulso até aos círculos mais altos do poder, terminando com a condenação e execução de um dos seus muitos inimigos: Thomas More. Em O Livro Negro, segundo volume de uma trilogia (distinguido, tal como o primeiro, com o Booker Prize), a escrita de Mantel – que conseguiu o feito de tornar verdadeiramente literária a ficção histórica – é ainda mais depurada e precisa, à medida que acompanha as diligências, esquemas e manobras de Cromwell, com vista a trocar Ana Bolena (também ela incapaz de dar à luz um rapaz) pela nova amante do rei, Jane Seymour.
A figura de Cromwell – um homem com «pele de lírio» e olhar «direto e brutal», que deu o nome da mulher e das filhas mortas aos seus falcões – surge nestas páginas com a nitidez do retrato de Hans Holbein, descrito por Mantel como se fosse uma metonímia da personalidade do seu anti-herói. Não deixando de ser um fresco da sociedade inglesa da época, O Livro Negro traz-nos sobretudo a visão de uma personagem que molda, na sombra, o destino de um país. Com perto de 50 anos, Cromwell está no auge das suas capacidade políticas – é genial a forma como arquitecta a queda de Ana Bolena, aproveitando para se vingar ao mesmo tempo dos homens que desgraçaram o cardeal Wolsey, seu mentor – mas não ignora que a confiança depositada em si pelo rei é precária. Ou seja, também ele pode cair um dia; como descobriremos no muito aguardado terceiro tomo da trilogia (O Espelho e a Luz).
Mantel articula com elegância e vigor narrativo as muitas pequenas histórias de que se faz a grande História. Porém, é na perfeição estilística que o seu triunfo se materializa. Veja-se como transforma, em meia dúzia de linhas, o relato de uma viagem na manifestação de um estado de espírito, de uma angústia: «Certas imagens serão tudo o que resta da viagem ao centro de Inglaterra. Os bagos de azevinho a arder nas suas matas. O voo sobressaltado de uma galinhola, afugentada de quase debaixo dos seus cascos. A sensação de nos aventurarmos num lugar aquoso, onde solo e pântano são da mesma cor e não há nada sólido debaixo dos nossos pés.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Alegria intermitente

cinza

Cinza
Autora: Rosa Oliveira
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 98
ISBN: 978-989-671-161-0
Ano de publicação: 2013

Nos últimos tempos, a poesia portuguesa tem sido pródiga em estreias promissoras, quase sempre de poetas na casa dos 20 ou dos 30 anos. Rosa Oliveira, cujo primeiro livro inaugura a nova colecção de poesia da Tinta da China, coordenada por Pedro Mexia, pertence a uma outra geração (nasceu em 1958), mas mostra até que ponto saber esperar pode ser uma virtude.
Os versos de Cinza vivem de uma relação tensa mas produtiva com a ideia do tempo que passa, desse presente que é charneira entre a memória do que foi e a incerteza do que virá, lugar onde uma voz se ergue, apesar de tudo, contra a ameaça do esquecimento. Os poemas são sóbrios, de prosódia segura mas sujeita a turbulências, quase sempre «longos como o sofrimento». A rede das remissões literárias é tão vasta quanto apertada: vai da verve melancólica de Ruy Belo à nitidez esquiva de Emily Dickinson, que «vivia dentro da sua biografia futura / e renunciara à vida por não suportar / o ruído do mundo».
Esta é uma escrita sempre em movimento, atenta à velocidade das coisas, às tragédias humanas (Pompeia, Waterloo), aos grandes fenómenos cósmicos e à iminência de uma barbárie que há muito nos vem tomando de assalto («estamos todos em guerra mesmo sem guerra»). Entre «paradoxos oníricos» e a visão das ruínas, há ainda espaço para alguma «alegria intermitente» e para um confessionalismo que é sempre elíptico, dolorido sem ser doloroso.
Se a poesia configura um «campo de distorção da realidade», Rosa Oliveira não se coíbe de desmontar, através dele, o caos contemporâneo. E de chicoteá-lo, uma e outra vez, com o látego das perguntas incómodas: «o que será mais cruel / a possibilidade ou a contingência?»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Recuar um passo

alta ajuda

Alta Ajuda
Autor: Francisco Bosco
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 157
ISBN: 978-989-671-158-0
Ano de publicação: 2013

Eis o programa que Francisco Bosco, carioca nascido em 1976, escolheu para os textos que publica regularmente na imprensa brasileira (no jornal O Globo e nas revistas Trip e Cult): «abordar com espírito filosófico os problemas da existência cotidiana, comuns a qualquer pessoa». Partindo das próprias experiências, ele transporta para o século XXI o espírito de Montaigne: um interesse omnívoro sobre o que se passa à sua volta e a capacidade de interrogar qualquer assunto, alargando o mais possível os círculos da reflexão. Em três ou quatro páginas, Bosco pensa e faz-nos pensar, confronta-nos, mobiliza-nos, inquieta-nos, desarruma-nos. Eleva a crónica às alturas do ensaio, sem nunca perder a graça da escrita imediata, o tom ameno de quem discute a actualidade na mesa do café.
Além da elegância simples da prosa, avessa a hermetismos, acessível, directa, o que mais atrai na escrita de Bosco é o seu desassombro. Como quando admite a atracção pela chamada baixa cultura: «Durante anos, assisti a novelas. Quando me perguntavam por que as via, respondia que elas cumprem um papel importante numa dieta semiológica. Sou a favor de um regime de signos balanceado, onde sistemas fortes, de alta informação (literatura, filosofia, etc.), sejam equilibrados por outros, mais ligeiros e inconsistentes, como mesas-redondas sobre futebol e novelas.» O conferencista que se doutorou com uma tese sobre Roland Barthes, e está sempre a citar Deleuze, não fecha os olhos a nada. As ideias de Espinoza interessam-lhe, sim. Pode reflectir sobre a ascese, sim. Mas também sobre o Barcelona de Pep Guardiola, a decadência artística de Roberto Carlos ou a crucificação mediática de Tiger Woods. Ele é um nómada intelectual, pouco preocupado em definir um «território discursivo». Pelo contrário, orgulha-se do carácter «indisciplinado» do seu pensamento. Numa das crónicas, defende que só se pode ser contemporâneo do nosso tempo – ou seja, só se consegue «estar à altura de capturá-lo numa forma ou num sentido» – se não coincidirmos completamente com ele. É sempre preciso «recuar um passo» para ver melhor.
Em Alta Ajuda, Francisco Bosco impõe-se sistematicamente essa tão necessária distância. E assim vai analisando, com minúcia e inteligência, os mais variados tópicos: da maldição dos insones, esses «imortais de olheiras», assombrados por uma «voz de dentro» que nunca se cala; ao modo como os casais discutem e lidam com a «fadiga» das relações amorosas; ao perigosíssimo paradoxo emocional do réveillon (essa data em que há um «imperativo no gozo»); ao pânico de morrer num avião; ou ao modo como as drogas «operam dentro da realidade» (no caso do álcool, por exemplo, «amaciando-a, afrouxando as cordas em que todo sujeito, mais ou menos neurótico, vive cotidianamente amparado e enlaçado»).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O coelho, a serpente e o hipopótamo

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Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villalobos
Título original: Fiesta en la madriguera
Tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 82
ISBN: 978-989-97228-9-7
Ano de publicação: 2013

Num «palácio» que fica «no meio do nada», atrás de muros altos, com arame farpado e alarmes de última geração, Tochtli vive rodeado de animais. Verdadeiros, nas jaulas no jardim: águias, falcões, um leão, dois tigres. Mas também simbólicos, já que os habitantes do imenso casarão têm nomes de animais em náhuatl, uma das línguas indígenas do México. Tochtli, por exemplo, é «coelho»; Yolcaut, o seu pai, é «serpente». Há ainda uma outra animalidade: a da violência que se exerce sem pejo, para assegurar uma hierarquia, para marcar um território no mundo do crime. Quando alguém se intromete nos negócios, os capangas de Yolcaut matam a sangue-frio. A serpente nunca prescinde do seu veneno.
Dentro da redoma, Tochtli vive em circuito fechado. Terá uns dez anos, não mais. É um rapazinho precoce, de memória «quase fulminante» e raciocínio rápido, que usa palavras difíceis porque todas as noites passa horas a ler o dicionário. Além disso, colecciona chapéus, considera que os franceses são boas pessoas porque inventaram a guilhotina para cortar a cabeça dos reis (tendo o cuidado de lhes tirar a coroa antes, «para não ficar amassada»), sabe de cor filmes de samurais e esforça-se por interiorizar os rígidos códigos da masculinidade latina (o importante é ser «macho», aguentar tudo, porque quem chora ou tem medo é «maricas»). Para suprir a ausência da mãe, que ainda lhe provoca ataques de tristeza e dores de barriga, o pai, com os seus dedos «cheios de anéis de ouro e diamantes», típicos do traficante paranóico que é, satisfaz todos os seus caprichos.
Assim, quando o «coelho» pede à «serpente» um hipopótamo anão da Libéria, pai e filho partem para África, à procura do animal raríssimo. A partir daqui, a novela de Juan Pablo Villalobos – que já nos mostrara o «palácio» como um universo de fantasia, onde as imagens do mundo exterior chegam completamente distorcidas – entra literalmente no domínio da fábula. Com nomes falsos hondurenhos, a «quadrilha» mexicana deambula por Monróvia, divertindo-se a contar os buracos de bala nas paredes de um país saído da guerra civil. O safari improvável termina com a captura de dois espécimes do desejado hipopótamo, um macho a que Tochtli chama Luís XVI e uma fêmea (Maria Antonieta, claro), ambos condenados a um fim não muito diferente dos aristocratas a que foram buscar o nome.
O que torna este livro notável não é a descrição dos meandros sórdidos do narcotráfico, essa espécie de lugar-comum da literatura mexicana recente, mas a forma como essa realidade vai sendo percepcionada e narrada por uma criança que viveu sempre no conforto artificial de uma torre de marfim. É a voz de Tochtli, ainda inocente mas já contaminada por um cinismo que paira no ar que respira, o trunfo maior de Festa no Covil. Desarmante na sua franqueza, ele tanto divaga sobre os conhecimentos enciclopédicos que um professor privado lhe vai incutindo como sobre o facto de um tiro por vezes não ser suficiente para matar alguém («Às vezes precisam de três tiros, ou até de catorze. Tudo depende do sítio para onde disparas»). Ou sobre a diferença entre cadáveres e restos humanos: «Se forem cadáveres, dá para saber que pessoas eram antes de serem cadáveres. Se forem restos humanos já não dá para saber que pessoas eram.»
Novela sobre o México de hoje, Festa no Covil mostra-nos a violência extrema, a corrupção e as engrenagens do crime, sem recorrer ao realismo sujo do costume. Ao contar-nos a história em forma de fábula, a partir do olhar cândido de uma criança que não percebe bem o que se passa à sua volta, o efeito é igualmente brutal mas muito mais eficaz.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A violência dos inúteis

Cinerama Peruana
Autor: Rodrigo Magalhães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-722-111-8
Ano de publicação: 2013

Nos últimos tempos, multiplicaram-se nas livrarias os primeiros romances de escritores portugueses, em parte devido ao efeito de alguns prémios literários – sobretudo o Prémio LeYa, que abre a porta da publicação tanto ao vencedor como aos melhores finalistas. Entre tamanha oferta, não faltam tiros de pólvora seca (a maioria) nem exemplos de verdadeiro talento. Mais raro é encontrar um romancista que já domine plenamente o seu mister, um estreante que a cada frase nos faça duvidar desse estatuto de inexperiência narrativa. Aconteceu com Benoni, de Alexandre Andrade (Editorial Notícias), em 1997. Aconteceu com Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares (Caminho), em 2003. Aconteceu poucas vezes na última década. Volta a acontecer agora com Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães.
Neste livro magnético (no sentido em que o leitor experimenta em permanência uma força de atracção, densa e obscura), o que mais impressiona é o domínio absoluto do autor sobre os materiais literários. Livreiro de profissão, Rodrigo Magalhães leu decerto muitíssimo. E isso nota-se nas muitas dezenas de referências a escritores e livros ao longo do romance. Essas leituras, porém, não tolhem a arte de contar nem lhe acrescentam o peso de uma erudição artificial ou pretensiosa. Se se evoca Buzzati ou Melville, é porque o texto pede uma evocação de Buzzati ou de Melville. No fundo, o livro aglutina ideias, imagens e arquétipos que encontrámos talvez noutros lugares, mas que surgem aqui reconfigurados, sempre em fuga, sempre em movimento. Nada é fixo. Tudo flui. E o mesmo acontece com as personagens: corpos errantes, difusos, quase imateriais, com a consistência do fumo e da sombra. Uma dessas personagens, sempre a oscilar entre a «objectividade» e o «delírio», resume tudo numa espécie de lema: «Quero ser um criador de coisas secretas que, expostas ao ar, expludam.» Rodrigo Magalhães segue-lhe os passos. Expõe ao ar coisas secretas. E as explosões que assim nos oferece são magníficas.
O livro está organizado em três partes autónomas, independentes umas das outras. Na primeira acompanhamos um ensaísta falhado, Harry Heels, autor de uma obra vasta e inédita (embora sujeita a minuciosa exegese). Essa obra árida, difícil, nalguns casos quase ilegível, contrasta com a sua vida aventurosa, durante a qual foi bebé adoptado na Inglaterra da II Guerra Mundial, alfaiate, empregado de mesa num bar, pugilista e rufia do bas fond londrino nos anos 60, quando este era dominado pelos célebres irmãos Kray. Os seus crimes culminam no homicídio de um polícia nos cais de Paris, durante o festivo Maio de 68. A segunda parte é uma sucessão de vinhetas curtas sobre dois irmãos gémeos, filhos de um célebre editor, uma rapariga e um rapaz que deambulam pelo mundo e pela literatura, mais leves do que o ar. Mas a carta de alforria de RM na literatura portuguesa surge na extraordinária terceira parte. Uma história de assassinos peruanos, «pessoas inúteis ao serviço da violência», como sugere a epígrafe de Ryszard Kapuscinski. Violência brutal, «nascida do ressentimento», do despeito, de uma ordem que os ultrapassa, como se cada um destes homens – Bruno, Alvaro, Pascal, Moisés, «príncipes infernais» – trouxesse em si uma «lâmina feita de pura maldade». Complexa, a história expande-se e contrai-se em ondas que abarcam vários tempos, vários pontos de vista, uma engenhosa rede de narradores. Há mestres e discípulos, conjuras e traições, enganos e imposturas, muitos crimes, muito negrume.
Se a energia visceral desta terceira parte remete para Roberto Bolaño e a vertiginosa hipertrofia de pormenores da primeira lembra David Foster Wallace (não faltam sequer notas de rodapé às notas de rodapé, como em A Piada Infinita), Rodrigo Magalhães é tudo menos um epígono habilidoso. À semelhança das suas personagens, ele aprendeu com os melhores para depois seguir o seu caminho. Esperemos para ver, com a expectativa no zénite, até onde conseguirá chegar.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma ponte no Bósforo

Fala-lhes de batalhas de reis e de elefantes

Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes
Autor: Mathias Énard
Título original: Parle-leur de batailles, de rois et d’eléphants
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-20-5174-3
Ano de publicação: 2013

Quando desembarca em Constantinopla, em Maio de 1506, Miguel Ângelo, escultor ainda jovem (31 anos) mas já elevado a «herói da república de Florença», tem à sua espera um enorme desafio. Para trás ficou o braço-de-ferro com o Papa Júlio II. Exigente e autoritário, o Sumo Pontífice quer que ele trabalhe nos mármores do túmulo papal – «imenso monumento que iria pavonear-se mesmo a meio da nova basílica» de São Pedro, em Roma –, embora seja menos lesto na hora de pagar o que prometeu. Por isso, Miguel Ângelo aceita o convite feito pelo sultão Bayazid II: um mês de estadia junto ao estreito do Bósforo, a troco de uma fortuna (cinco vezes mais do que recebera nos dois anos anteriores), para desenhar uma ponte sobre o estuário a que chamam Corno de Ouro. O desafio torna-se ainda mais estimulante porque fora lançado antes a Leonardo Da Vinci, cujo projecto, «inventivo mas impossível de construir», o sultão considerou «bastante feio». É pela rivalidade que o convencem: «Se aceitardes ireis ultrapassá-lo [a Da Vinci] em glória, porque triunfareis onde ele fracassou».
Num primeiro momento, esmagado pela sensações que Constantinopla lhe desperta e pelo fausto da corte otomana, Miguel Ângelo recolhe-se, fica no quarto a desenhar «cavalos, homens e astrágalos», talvez consciente de que é um homem feio, pouco sociável e mal cheiroso (nunca se lava). Depois, aos poucos, vai conhecendo a cidade «perturbadora» que lhe faz lembrar Veneza, apropria-se dos seus ritmos, da sua energia, da sua «matéria». Observa «imagens, rostos e cores», tira notas, faz esboços e listas de objectos (enumerações que ganham uma qualidade poética: «gaxeta, cabrestante, varanda, portaló, carlinga»; «pórfiro, brocatelo, obsidiana, cianite»), escreve cartas ao irmão, tenta saber notícias do Papa, hesita e duvida das suas escolhas, até porque os turcos também tardam em pagar e Constantinopla arrisca tornar-se uma «dulcíssima prisão».
Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes começa por ser isto. Ou seja, um relato das indecisões e derivas de Miguel Ângelo no lugar de todas as clivagens, entre Ocidente e Oriente. Ele sabe que o chamaram para «acrescentar beleza ao mundo» e sente o peso da responsabilidade. Se a arquitectura é a «arte do equilíbrio», ele deve encontrar a conjugação ideal entre «a cadência dos arcos, a sua curva, a elegância dos pilares». Mas a ponte escapasse-lhe e os esboços ficam aquém da grandeza necessária. É então que ocorre uma transformação, à medida que se aprofunda a amizade «tão forte quanto discreta» com Mesihi de Pristina, um grande poeta de «olhar sombrio» que o leva para as tabernas, onde corre o vinho e dançam beldades andróginas. Uma destas bailarinas, vinda do Al-Andaluz (depois de os reis católicos terem destruído aquele lugar de coexistência pacífica entre muçulmanos, judeus e cristãos), acaba por enfeitiçá-lo, reduzida a «uma voz na escuridão» que o abre ao sortilégio do amor, mesmo se este não passa de um reflexo dos sentimentos de Mesihi.
Em capítulos muito curtos, de grande intensidade expressiva e lírica, acompanhamos o modo como Miguel Ângelo supera os bloqueios, conseguindo desenhar a ponte sonhada pelo sultão, mas sem se dar conta da rede apertada de maquinações e desenlaces trágicos que foi sendo urdida à sua volta, antes do regresso intempestivo a Florença. «São belas as pontes, se perdurarem», diz-se, mas esta ruirá no terramoto verdadeiro de 1509, permitindo a Énard fechar a sua realidade alternativa, sincronizando-a com os registos históricos. Ao morrer, quase nonagenário, Miguel Ângelo ainda guarda de Constantinopla «uma vaga luz, uma doçura subtil mesclada de amargura, uma música distante». É a música sublime que atravessa este romance, tão harmonioso e inesquecível quanto a ponte que nunca existiu.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O terror da beleza

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Servidões
Autor: Herberto Helder
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-37-1696-2
Ano de publicação: 2013

Há no primeiro livro de José Tolentino Mendonça (Os Dias Contados, 1990), um poema intitulado A infância de Herberto Helder que começa com o verso: «No princípio era a ilha». O que cria a tensão nesse texto é o diálogo entre a própria infância de Tolentino Mendonça – evocada explicitamente no poema – e a imaginária infância de Herberto Helder, de cuja vida sabemos sempre tão pouco (quase nada), confinadas as duas meninices a um território comum: a ilha da Madeira. Uma das muitas surpresas que Servidões nos reserva é a oportunidade de vislumbrarmos alguns fragmentos da infância real de Herberto Helder. No longo poema em prosa que abre o livro, o poeta fala-nos de como era crescer «no meio do atordoamento de flores e animais», atento «às matérias e sopros do mundo expressos em imagens e vozes autónomas».
Se a poesia é «um início perene, nunca uma chegada seja ao que for», a «interminável preparação» talvez tenha começado nesses primeiros anos, com a aprendizagem de «certas astúcias», como «apanhar a ocasional distracção das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consciência», para depois «enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas». A «vida» que é sempre, na matéria «ferozmente parcialíssima» do poema, uma «paisagem transfigurada». Ao regressar à ilha, após muitos anos de ausência, o poeta não a reconheceu: «nenhuma imagem confirmada pelo olhar, ou esse odor de vaza marinha, de jasmins, e o vento trazido das montanhas, nada era vivo, actual, reiterado, circulatório, nada me reatava, um ímpeto do espírito, uma religação». Ainda assim, sabe que foi ali que forjou a sua liberdade («o meu espírito seria daí em diante irredutível, não me sujeitaria nenhuma regra alheia») e o esboço de uma existência «subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava».
Neste livro crepuscular, Herberto relembra-nos a cada passo que já ultrapassou os 80 anos, mas a extraordinária combustão lírica da sua escrita como que o desmente. O corpo vai ficando cego mas ainda é «sôfrego», cheio de energia sexual, «fedendo a testosterona e sangue»:

(…) farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome, (…)

Como sempre, o poeta devora o mundo e é por ele devorado. Mas se noutro tempo olhou a morte de frente, agora não: «agora sou olhado, e estremeço / do incrível natural de ser olhado assim por ela». O fim é uma ideia fixa, vai montando o cerco e insinuando-se como uma obsessão: «bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho, / e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude, / e eu de dentro o não pudesse desfazer».
Na maior parte dos poemas, aflora uma sensação de perda, a consciência de que «tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica». Pode ainda haver vontade de escrever o «poema fixo entre as palavras móveis», mas «a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora». O «passarão» a quem vai falhando o «sopro», que perdeu o ouvido absoluto para «as músicas sumptuosas do verso livre», resigna-se: «já não tenho mão com que escreva nem lâmpada, / pois se me fundiu a alma, / já nada em mim sabe quanto não sei / da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede / minha turva eternidade». Resta-lhe procurar a «perfeição de poucas linhas», os versos rápidos, o poema curto, «trémulo e severo», uma arte tão «breve» quanto «furtiva».
Herberto zanga-se, exalta-se, imagina infernos, vitupera a geração «inclitamente vergonhosa» que em testamento deixou uma «montanha de merda», procura «corpo a corpo o nada disso tudo», mas continua a elevar às alturas, como nenhum outro na poesia portuguesa, a música da língua:

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A invenção do passado

Luz Antiga
Autor: John Banville
Título original: Ancient Light
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-0-04593-5
Ano de publicação: 2013

Luz Antiga é o livro final de uma trilogia de John Banville, iniciada com Eclipse (2000) e Shroud (2002) – ambos publicados pela Ulisseia, em 2006 (com os títulos Eclipse e O Impostor). No primeiro livro, Alexander Cleave, um actor em crise, retira-se para a casa da sua infância, impregnada de memórias e premonições fantasmáticas, que se materializam numa tragédia final (o suicídio da filha, Cass). No segundo, tornam-se perceptíveis as eventuais razões para esse gesto extremo, quando acompanhamos a aproximação de Cass à figura de Axel Vander, um teórico da literatura sobre cuja verdadeira identidade ela descobriu um segredo comprometedor. No terceiro, já passaram dez anos sobre a morte da filha, mas os Cleave ainda não se apaziguaram. Lydia, a mãe, continua a acordar de noite, em sobressalto: «É uma espécie de sonambulismo, só que em vez de andar, ela corre, num estado em que ela se convence de que a nossa Catherine, a nossa Cass, ainda está viva e é de novo uma criança e se perdeu algures na casa.»
Embora a perda da filha esteja sempre presente, em fundo, como uma ferida que não sara, Alexander Cleave entrega-se, com evidente deleite, à recordação do seu primeiro (e talvez único) amor, vivido no verão dos seus 15 anos, quando se envolveu num tórrido romance com Mrs. Gray, a mãe do seu melhor amigo, vinte anos mais velha. Enquanto avança «aos tropeções pela Rua da Memória», recapitula os numerosos encontros sexuais, no banco de trás de uma carrinha ou numa casa abandonada no meio dos bosques, com buracos no telhado por onde entrava a luz. Em toda a descrição do processo amoroso, com os seus êxtases agigantados pela ameaça de um fim súbito (os amantes correm, uma e outra vez, sérios riscos de serem expostos), há como que uma dimensão de fantasia. É difícil perceber o que aconteceu de facto e o que corresponde à efabulação de um adolescente transtornado pelo desejo. Até que ponto podemos confiar na memória, quando até as cenas primaveris são contaminadas por motivos outonais? Ao recordar, reconstruímos. E quando olhamos para o que fomos, inventamo-nos.
Não por acaso, o filme no qual Alexander é convidado a desempenhar o papel de protagonista intitula-se A Invenção do Passado. No ecrã, cabe-lhe encarnar justamente a figura de Axel Vander, alguém que assumiu a identidade de outrém (como fazem os actores), um homem que ele pressente próximo da filha, quanto mais não seja porque estava em Portovenere, na costa da Ligúria, quando Cass ali pôs fim à vida, lançando-se para a falésia do alto da torre de uma igreja. A estrela de cinema com quem contracena, Dawn Devonport, lida com um luto mais recente: a morte do pai, fulminado por um ataque cardíaco, há menos de um mês. Frágil, desamparada, ela tenta suicidar-se com uma overdose de comprimidos, falha e acaba por encontrar em Alexander um refúgio. Tal como ele substitui a figura paterna, também ela tenta ocupar o lugar de Cass, acompanhando Cleave numa viagem a Portovenere que não chegará ao destino.
À excepção de Cleave e de Mrs. Gray, perfeitamente desenhados no abismo da sua carnalidade e no desamparo de uma relação impossível, as personagens deste livro são demasiado esquivas, difusas, escapam-se por entre os dedos. Nos livros de Banville, a história que se conta nunca é o mais importante. O que importa é a linguagem, que neste romance volta a ser de uma exuberância, plasticidade e requinte nabokovianos. Numa das muitas e pormenorizadas descrições de Mrs. Gray, diz o narrador: «Parece que estou a vê-la à mesa da cozinha, depois de ter arrumado a chávena, mas com a mão ainda levemente pousada nela, como que para reter a exata sensação, a sua exata textura, enquanto, com os dedos da outra mão, fazia girar o rebelde cacho de cabelo atrás da orelha.» A prosa de Banville funciona da mesma maneira: toca nas coisas ao de leve, retém sensações e texturas, capta atmosferas que já se desfizeram, ou que talvez nunca tenham existido, mas que depois de as lermos adquirem uma aura que não somos capazes de esquecer.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A armadilha da falsificação

O Condottiere
Autor: Georges Perec
Título original: Le Condottière
Tradução: António Mega Ferreira
Editora: Sextante
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-676-166-0
Ano de publicação: 2013

É impossível falar desta obra de juventude de Georges Perec (1936-1982) sem explicar o contexto em que surgiu. Após algumas experiências literárias no final da adolescência, Perec trabalhou arduamente, durante três anos (1957-1960), no manuscrito de um romance que foi assumindo diversas formas e títulos até se fixar no texto que agora nos é revelado. Fechadas as portas na Seuil, Perec tentou a Gallimard e conseguiu um adiantamento de direitos: 75 mil francos. Estava à beira de cumprir o sonho de ser um escritor publicado (escritor tout court já ele se sentia), mas o idiossincrático comité de leitura da Gallimard torceu o nariz ao que qualificou de «imperícia» e «tagarelice», adiando por cinco anos a sua entrada no território da literatura francesa (uma entrada triunfal, diga-se, com Les Choses, que venceu o Prémio Renaudot em 1965).
Na ressaca das recusas, Perec prometeu ao amigo Jacques Lederer retomar o livro «daqui a dez anos, altura em que isto se tornará uma obra-prima», ou «esperar no túmulo que um fiel exegeta o encontre numa mala velha que te pertenceu e o publique». Proféticas palavras. Tresmalhado numa mudança de casa e dado como perdido, o livro só foi redescoberto na década de 90 e publicado em 2012, quando se assinalaram os 30 anos da sua morte. E se O Condottiere não ganhou estatuto de obra-prima, a verdade é que também não se trata de uma mera curiosidade literária. Neste policial heterodoxo – uma narrativa selvagem; ramificada; claustrofóbica; reiterativa; não-linear; obscura e luminosa ao mesmo tempo – já está muito do que Perec fará mais tarde, tanto no plano temático como estilístico. Claude Burgelin, no prefácio, assinala que «as pontas que saem de todos os lados são as mesmas pelas quais continuamos hoje a puxar: são elas que nos conduzem à sequência posterior da sua obra».
O livro abre com o protagonista, Gaspar Winkler, um falsificador profissional, a assassinar o homem que lhe encomendou o último trabalho: uma versão do retrato de um mercenário, pintado no século XV por Antonello da Messina. Winkler tenta compreender o encadeamento de factos e de histórias que o conduziram até ali, procura uma explicação para o falhanço do seu trabalho e para a necessidade de matar o patrão, mas quanto mais se aventura pelos túneis e subterrâneos do seu passado, mais cresce a certeza de que se enredou numa armadilha. Ao entrar no mundo da contrafacção e do engano, essa «ratoeira demasiado perfeita», iludido com «a criação autêntica de uma obra-prima do passado», ele mergulhou num mundo de sombras e fantasmas.
Mais do que uma cópia exacta do Condottiere, o que ele pretende fazer é um outro Condottiere, tão verdadeiro como o de Antonello, mesmo se aquém do seu «génio» e «precisão» (a capacidade de sugerir o carácter de um homem pela musculatura do maxilar). No «rosto-espelho», o falsificador descobre, uma vez caídas todas as máscaras, «o equívoco perturbante do seu próprio olhar». Mas a noção de um fracasso total, de uma absoluta incapacidade de exercer, pela pintura, o «domínio do mundo», conduzem-no a uma «explosão de ódio e loucura» (o homicídio, a tentativa de fuga) que é também uma forma de ganhar consciência. E de procurar um caminho para a liberdade. Tornar-se pintor, em suma. Como Perec, à sua maneira, se tornou escritor, ao procurar neste texto uma «liquidação definitiva dos espectros do passado».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Memórias do inferno tropical

Que Importa a Fúria do Mar
Autora: Ana Margarida de Carvalho
Editora: Teorema
N.º de páginas: 239
ISBN: 978-972-47-4639-5
Ano de publicação: 2013

Há ficções que vão direitas ao assunto, sem rodeios, contando logo o que têm para contar, e há outras que precisam de prolegómenos, circunlóquios e outras procrastinações narrativas. Para não deixar dúvidas ao leitor de que pertence a esta última categoria, o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, jornalista da Visão, abre com uma personagem marginal que se alonga em queixumes sobre o seu estatuto. Embora lhe caiba o gesto que fecha o círculo maior da narrativa, ele sabe que vai ser rapidamente posto de parte, «como um figurante dispensado, que ainda permanece no set, à cata dos restos do catering». Por isso recusa dizer o que o levou a passear junto à linha do comboio, «numa madrugada húmida e mal amanhecida», descobrindo no meio do mato, embrulhado em meias de seda, um pacote de cartas que um homem insubmisso enviou à mulher amada.
Esse homem insubmisso chama-se Joaquim e naquele dia de 1934 está a caminho do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, então ainda por estrear. Com ele seguem outros resistentes que participaram na revolta da Marinha Grande, onde por algumas horas existiu, nas barbas do Estado Novo, um soviete. Mas se os camaradas pensam na revolução, Joaquim só pensa em Luísa, a destinatária das cartas lançadas pela janela, a mulher que prometeu esperar por ele e que servirá de bálsamo mental para todas as provações que o esperam: os espancamentos da polícia (que na altura se chamava PVDE e não PIDE, como o texto sugere); a tormentosa viagem de barco; o «inferno tropical», com nuvens de pó amarelo, insectos, malária, fome e tortura; a crueldade dos algozes; o sofrimento inimaginável da «frigideira» (uma caixa de cimento rectangular, exposta ao sol, onde os prisioneiros enlouqueciam de calor extremo e solidão).
Lá mais para a frente, esta «infâmia do passado» acaba por ser evocada, em toda sua brutalidade, mas a autora coloca esse centro negro no final de um labirinto que é preciso percorrer. Quem ergue o labirinto é Eugénia, uma jornalista televisiva que entrevista Joaquim, na sua qualidade de sobrevivente do Tarrafal, e depois se deixa fascinar pela figura de um velho que tem, além de uma história de amor por resolver, uma farpa no coração desde os cinco anos (um sentimento de culpa terrível, associado a uma tragédia familiar). A narrativa avança então aos saltos, aos tombos, entre a caótica «tecedura dos pensamentos» de Eugénia, «em que a malha de um logo se cose com a de outro», numa vertigem que chega a ser cansativa, e a memória precária do idoso, narrador lento, lacunar, obsessivo. A jornalista atribui-se o papel de uma «Ariadne ao contrário», na missão de retomar «os vários fios das várias meadas que Joaquim ia desatando».
Entre verdade e verosimilhança, Eugénia escolhe a verosimilhança, porque «nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros», nem até que ponto somos traídos pelo que julgamos ter acontecido. A memória é uma esponja, «cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial». Aos poucos, porém, os dois acabam por acertar os seus ritmos, partilhando o tempo, os silêncios, até um gato. E a história de amor interrompida, com Luísa, é transfigurada pela improvável cumplicidade entre Joaquim e Eugénia, onde se projectam e entrelaçam as histórias e traumas dos dois.
Se a primeira parte do livro é marcada por um excesso de artifícios literários e de referências culturais, a segunda revela uma escrita muito mais despojada – o que só beneficia um romance que é tanto mais inteligente quanto menos exibe a sua inteligência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A casa do fim

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Não é Meia Noite Quem Quer
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 455
ISBN: 978-972-20-5094-4
Ano de publicação: 2012

Num ensaio recente, As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes – (In)variantes do feminino (Texto Editora), a professora Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra) associa ao sexto ciclo romanesco de Lobo Antunes, iniciado com O Arquipélago da Insónia (2008), um progressivo suavizar da «confusão e estranheza causadas por intrincadas redes polifónicas». Nos romances mais recentes, garante a investigadora, «parece mais fácil identificar a voz que fala e, em consequência, diferenciá-la de outras verbalizações que ocorrem num mesmo trecho». A publicação, quase em simultâneo, do 24.º romance de Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, confirma esse processo de simplificação formal que permite ao leitor seguir, mesmo com interrupções e elipses, o fluxo narrativo das múltiplas histórias e respectivos planos cronológicos.
Em vários aspectos, a estrutura deste livro assemelha-se à do romance anterior (Comissão das Lágrimas, 2011). Tudo volta a girar em torno de uma personagem principal feminina, uma dessas que «permanecem, de forma irremediável, em gaiolas de grades inexistentes», segundo Ana Paula Arnaut. Mulheres que se fecham sobre si mesmas e concentram no próprio corpo, dentro da cabeça, as histórias que as atormentam. Se em Comissão das Lágrimas encontrávamos Cristina, internada numa clínica psiquiátrica, perseguida por um círculo de vozes que «se acotovelam, vociferando», conjunto de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», em Não é Meia Noite Quem Quer a protagonista narra os três dias que leva a despedir-se da casa de férias familiar «onde nunca põe os pés», cenário das memórias de uma infância agora transformada em «ruínas moribundas».
Na casa que tantos anos depois «diminuiu de tamanho, sem espaço para eco algum», invadida pelo «bolor do silêncio», cria-se uma espécie de limbo onde ela pode confrontar-se definitivamente com os seus fantasmas e os «desabamentos do tempo». A sua cabeça é como o carrossel das feiras, «girafas e cavalos de madeira» sempre à roda, à roda, desentranhando «a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita». E não só a sua «tralha», também a dos outros, «silhuetas sem nome que me chamam, ao chamarem-me reconheço-as, mal emudecem perco-as». Aos 52 anos, com o casamento desfeito, o trauma de um filho perdido, a experiência de um cancro que lhe levou um dos peitos, desorientada e vulnerável («tudo me aleija, hoje, tudo me fere»), ela deixa-se atravessar pela «melancolia longa», pelas «imensidões comovidas» das vidas alheias («em quantas vozes a minha voz se dividia»), e até pelas interpelações de objectos inanimados (uma maçaneta, um tapete «puído»), da própria casa e do mar que a convida para um encontro fatal.
Se na família ninguém se despede («vamos embora e pronto»), a protagonista tenta ainda perceber «qual a razão de as pessoas se apartarem». E surgem assim, uma a uma, essas figuras que iluminaram ou ensombraram a sua existência: a mãe controladora, sempre a queixar-se dos filhos; o pai fraco que não cumpriu as expectativas nele colocadas e se afunda no alcoolismo; um «irmão surdo», incapaz de se fazer compreender; outro «não surdo», perseguido pelas memórias terríveis da Guerra Colonial, em particular a imagem de uma aldeia africana a arder, num dia de massacre; o «irmão mais velho» que se atirou da falésia e como que chama por ela do fundo das águas; o marido que a trocou por uma vizinha; a colega da escola onde é professora, com quem se envolve numa relação lésbica; etc. Todas estas figuras se chegam à frente e se penduram nas girafas e cavalos de madeira do seu carrossel mental, umas só durante uma voltinha, outras o tempo todo, algumas até com direito a narração própria (como a amante ou o irmão «não surdo»).
Lobo Antunes arrisca pouco neste livro? Talvez. Parece recusar-se a sair da sua zona de conforto? Sim. Mas isso não é necessariamente mau, sobretudo num autor de tamanha exuberância estilística. Se a progressão narrativa se revela algo mecânica e previsível (para quem já conheça bem a obra anterior), atentemos nas muitas frases que apetece recortar: «Tu de roupa caída aos pés num charco de algodão aos quadradinhos»; «um metrónomo para a esquerda e para a direita numa angústia cardíaca»; «daqui a pouco chove porque a terra parece erguer-se ao encontro das nuvens, uma exaltação nas plantas como antes de um beijo». Lobo Antunes continua a ser inigualável na descrição da mediocridade suburbana, rodeada de bibelôs («chinesices, pontezinhas, pagodes, a arca com relevos de árvores anãs e dragões»), e na obsessiva atenção aos pormenores: o homem que carrega uma bilha de gás com uma serapilheira a proteger o pescoço; o outro que na paragem do autocarro «ajeitava o chinó» e «conforme a testa maior ou menor uma cara diferente»; esse animal feito de «sombra sem matéria, capaz de atravessar paredes num assobiozinho subtil e a que as pessoas chamam gato». Mais um exemplo: «olha a maré a encher, olha os leques de espuma, os pescadores a enrolarem as canas com limos nos anzóis, não peixes, que peixes há nestas ondas, há ossos de afogados, roupinha desfeita, despedidas que a água dissolveu». E ainda esta visão desencantada do que nos faz a morte: «existimos à mesma só que não dão por nós, somos um centro de mesa que se entorta ou um preguear de cortina».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

Mater dolorosa

testamento

O Testamento de Maria
Autor: Colm Tóibín
Título original: The Testament of Mary
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 109
ISBN: 978-972-252-602-9
Ano de publicação: 2013

Sentindo a morte próxima, Maria, mãe de Jesus, conta-nos a sua versão da história. É o seu testamento, o seu testemunho, o seu evangelho íntimo – narrado na primeira pessoa com raiva, mágoa e arrebatamento lírico. Colm Tóibín já escreveu antes sobre a problemática relação entre mães e filhos, sobre os extremos de amor ou ressentimento que o mais visceral dos vínculos humanos pode desencadear. Aqui vai mais longe e questiona directamente um dos mais poderosos arquétipos civilizacionais da maternidade: a figura de Maria, mater dolorosa, chorando o filho pendurado na cruz. Sem grande surpresa, descobrimos que a Maria deste livro não é a figura resignada e submissa do Novo Testamento, mas uma mulher que se revolta com o martírio e se recusa a cumprir o papel que lhe destinaram, mostrando a têmpera de uma heroína grega.
Quando a narração começa, muitos anos após a morte de Cristo, Maria vive em Éfeso, numa casa visitada regularmente por dois dos evangelistas, que cuidam dela, alimentam-na, vestem-na, protegem-na. Ela vê neles «uma espécie de fome e rudeza». Quando lhe pedem que relembre o que se passou, exasperam-se ao compreender que a sua história não encaixa na narrativa com que querem fundar um novo mundo, um novo tempo, uma nova religião. Tentam vergá-la, mas ela não se verga. A memória que lhe preenche o corpo, «da mesma maneira que o sangue e os ossos», não é matéria moldável. Por isso, recusa-se a «acrescentar o que eles querem que acrescente» e não cede aos seus «esforços para darem um sentido simples a coisas que não são simples».
Nunca nomeando o filho («algo se quebrará dentro de mim se eu disser o nome dele»), Maria recorda com especial doçura os momentos em que ele ainda «precisava do meu peito para beber leite, da minha mão para se equilibrar enquanto aprendia a andar e da minha voz para o reconfortar até adormecer». O estranhamento começa mais tarde, quando o rapazinho «frágil» dá lugar ao homem «radiante», que passou a falar às multidões com «voz falsa» e «tom empolado». O caminho messiânico de Jesus afasta-o da mãe e esta parece condoída com esse afastamento. Nas bodas de Caná, embora se sentem lado a lado, quase não falam. E Maria demonstra ainda reticências diante dos proclamados milagres de Cristo, não escondendo um certo desprezo pelos seus seguidores (um bando de «inadaptados») e uma aberta indignação com a ideia de que ele seja «Filho de Deus».
Inevitavelmente, as memórias acabam por convergir para o dia fatal da crucificação, essa «coisa feroz e exata», cuja «sombra maldita» nunca mais a abandonará, como um coração que bombeia trevas «de uma ponta à outra do meu corpo». Se é dura com os evangelistas que tentam forçá-la a uma verdade construída, mais dura ainda se mostra consigo própria. «Não gritei nem corri para o salvar, porque não teria mudado nada. Teria sido afastada para o lado como uma coisa que o vento arrastou. Mas o que é igualmente estranho, o que parece estranho passados estes anos todos, é o facto de eu ter tido a capacidade, naquela altura, de me controlar, de pesar as coisas, de ver e não fazer nada.» A esta racionalização de uma dor que «era dele e não minha», junta-se o facto de ter fugido antes de tudo estar terminado, antes do último suspiro. Nesta versão da história, não há Pietà, só o arrependimento de quem sobreviveu à visão do horror supremo, sem sequer o consolo de um desígnio maior. Quando os evangelistas lhe explicam que o filho morreu para redimir o mundo e libertar a humanidade do pecado, ela usa todo o seu fôlego para lhes responder: «Eu estive lá. Fugi antes do fim, mas se querem testemunhas, eu sou uma delas e posso dizer-vos que, enquanto vocês afirmam que ele redimiu o mundo, eu direi que não valeu a pena. Não valeu a pena.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges