Tirar as medidas

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Não há nada mais frustrante do que ver um livro belíssimo confinado a um círculo de leitores demasiado curto para a sua grandeza. Foi o que aconteceu com Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela! (publicado pela A23), de Manuel da Silva Ramos, um extraordinário volume de memórias cuja primeira edição se esgotou num ápice, entre a Covilhã e o Fundão, não chegando a circular pelas livrarias do resto do país. Talvez as reacções dispersas a esta pequena maravilha consigam libertá-la dos mecanismos da interioridade e projectem o livro da esfera regional para a nacional, que é onde merece estar. Na sua estrutura fragmentária, entre o puro lirismo e a descrição de realidades concretas, vividas em vários tempos, a obra aproxima-se desse outro livro inclassificável que é Fernanda, de Ernesto Sampaio. Mas onde este se concentrava na história de um amor louco e do desespero sem fundo provocado pela morte da amada, Manuel da Silva Ramos amplia o foco. Ao prestar tributo à figura do pai, à sua vida, ao seu trabalho, à sua integridade, ele fala-nos também de um Portugal antigo, o Portugal salazarista dos anos 40 e 50 do século passado, marcado pela «fome» e pela «miséria», as «escoriações» de um «tempo sinistro» em que «a boca nos tinha sido selada com arame e chumbo».
Manuel da Silva Ramos evoca a neve que «tratava de bonifrates os pobres tecelões que partiam cabisbaixos para as fábricas de lancheiras nas mãos», o céu branco da serra que «parecia o vómito dum anjinho», mas também os dias «brilhantes como o vidro espesso dos pirolitos». Das dobras do passado, o escritor resgata figuras inesquecíveis: o avô José Luís, carniceiro que matava porcos e quando bebia demais afiava as facas raspando-as nas paredes de granito, a levantar “faíscas voadoras”; o comunista João Pereira, pinta de “companheiro do Maiakovski” mas sem dinheiro para comprar livros, que o embalou e lhe deu à boca colheradas de Farinha 33 com leite; a “maléfica” Dona Clotilde Calheiros, a quem a sua família prestou uma vassalagem que ainda hoje não é capaz de perdoar; entre muitos outros, acima dos quais se ergue o pai, Armando Ramos Pereira, alfaiate escrupuloso no exercício da sua profissão, homem sincero, afável, justo, e de uma generosidade «sem limites».
Com um ano de idade, Manuel ficava atado por uma linha aos pés de uma grande mesa de madeira, ouvindo as «conversas desacolchetadas» dos fregueses do pai, enquanto estes faziam as provas com alfinetes e marcas de giz. Essa arte antiga de ajustar o tecido ao corpo, de tirar as medidas para que o casaco e as calças assentem bem, transfere-se para o trabalho da escrita. E tudo vai ficando no seu lugar: a nostalgia e a raiva, a tristeza e a exaltação, a ironia e a dor. Ouve-se o realejo dos bailaricos; o tumulto das excursões a Espanha; os efeitos da crueldade dos adultos sobre as crianças. E também se sente, no ar, o “misterioso odor da canela” sobre o arroz-doce, nos casamentos que duravam três dias, como esse em Louriçal do Campo, debaixo de uma chuva diluviana que inundou a aldeia e propiciou uma espécie de milagre: «diante da nossa janela passava a noiva branquíssima, impecável, serena em cima de um carro de bois dando o braço ao seu padrinho. (…) O noivo, cintado no fato do meu pai, olhava já a nossa janela por onde nós devíamos sair enxutos. Já no nosso carro de bois olhei o princípio do cortejo: a noiva Zeilinda, belíssima, ia agora com o véu ao vento, um súbito e fraco sol batia nela e na água barrenta e dava à nossa vida um ar de irrealidade resplandecente.»
Nas primeiras páginas, Manuel da Silva Ramos recapitula os últimos dias do pai, conhecido como o alfaiate do Refúgio, essa aldeia em tempos separada da Covilhã pela extensão das quintas, e hoje contígua, engolida pela malha urbana da cidade. Com a memória a fugir-lhe, ele deixou de reconhecer o filho e é contra essa aniquilação que o livro se ergue, contra a barbárie do esquecimento definitivo. Deixar que um testemunho notável como este se fique por uma primeira edição, inacessível até para a grande maioria dos admiradores de Ambulância ou Três Vidas ao Espelho, é ser cúmplice da dita barbárie.

[Texto publicado no n.º 126 da revista Ler]

Borboletas amarelas

Como combinado, pelas nove horas o David estava à nossa espera no átrio do hotel. Na véspera, quando decidimos aproveitar a manhã de sábado para dar uma volta pelos bairros antigos da capital, um telefonema bastou para garantir um guia improvisado, disponível e simpático – como são quase todos os colombianos com que nos cruzámos durante a nossa estadia a 2600 metros de altitude, na cordilheira dos Andes, para acompanhar a presença de Portugal como país-convidado na Feira do Livro de Bogotá, uma das maiores da América Latina. David tem 22 anos, cabelo abundante e barba, estuda literatura na universidade e mete-se num táxi connosco, a caminho de La Candelaria.

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Cumpridas as visitas obrigatórias ao opulento Museu do Ouro e ao senhorial Museu Botero (mais interessante pela vasta colecção de arte europeia do pintor do que pelos seus retratos de criaturas obesas), David mostrou-nos a Plaza Bolívar, ampla mas claustrofóbica na sua imponência colonial, como que abafada pelos cumes das montanhas que cercam a cidade, e levou-nos por ruas estreitas onde os vendedores de fruta estacionam no passeio os seus carrinhos, enquanto militares de metralhadora a tiracolo montam vigilância nas esquinas. «Ali à frente fica o Centro Cultural Gabriel García Márquez», apontou. «Vale a pena. E tem uma das maiores livrarias do país.»

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Uma livraria é sempre irresistível, seja em que latitude for. E a Fondo de Cultura Económica, com a sua oferta de 80 mil títulos e 120 mil exemplares, não desiludiu. É circular, uma espécie de anel feito de estantes e livros, com janelões que dão para um lago interior, dentro do grande edifício do Centro Cultural, desenhado pelo arquitecto Rogelio Salmona. Foi lá que comprei Gabo – memorias de una vida mágica (R+N, 172 págs.), aproximação ao percurso e à obra de Gabriel García Márquez que recorre à flexibilidade da novela gráfica, a partir de um guião do escritor Óscar Pantoja. O livro está dividido em quatro partes e a cada uma delas corresponde um artista e uma cor dominante diferentes: amarelo (Miguel Bustos), azul claro (Tatiana Córdoba), cor-de-rosa (Felipe Camargo Rojas) e verde eléctrico (Julián Naranjo).

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Em vez de seguir uma estrutura linear, os quatro blocos são compostos por episódios marcantes da vida do autor de Ninguém Escreve ao Coronel, apresentados sem ordem cronológica. É como se Pantoja transformasse cada um dos momentos essenciais da trajectória de Gabo numa peça desirmanada, deixando ao leitor o trabalho de montar o puzzle. Não sendo original, é um dispositivo narrativo eficaz. Logo a abrir, assistimos a uma epifania que se tornou mítica: após muitos anos às voltas com os materiais que haveriam de conduzir à sua obra-prima (Cem Anos de Solidão), um romance que durante muito tempo esteve para se chamar A Casa, Márquez estava a caminho das praias de Acapulco, com a mulher Mercedes e os filhos, conduzindo um Opel branco, quando de repente percebeu que sabia finalmente como contar a história dos Buendía, a começar pela celebérrima frase inicial que fala da «tarde remota» em que o pai do coronel Aureliano o levou a «conhecer o gelo».
Segue-se um imbricado labirinto de saltos no tempo, da infância em Aracataca, criado pelos avós, à entrega do Nobel em Estocolmo (1982), passando pelo nascimento dos filhos, o trabalho como jornalista, os anos de formação, o amor louco e para a vida toda com Mercedes, rapariga que conheceu quando ela tinha 14 anos, os vários períodos de absoluta penúria (enviou o manuscrito de Cem Anos de Solidão ao editor em duas remessas, porque não tinha 82 pesos para pagar os portes), o envolvimento político, as amizades com outros escritores, as desilusões, os fracassos, os cumes da glória literária. Em vários momentos aparecem a pairar, talvez inevitavelmente, as borboletas amarelas que perseguiam Mauricio Babilonia pelas ruas de Macondo. Elas desprendem-se deste livro como da memória que temos do outro, aquele em que as «estirpes condenadas» não têm «uma segunda oportunidade sobre a terra». Ficamos a pensar: para quando uma homenagem como esta ao nosso Nobel? A história de Saramago é igualmente forte. E ilustradores de qualidade não nos faltam.

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[Texto publicado no n.º 125 da revista Ler]

O olhar de Clarice

Sobre uma exposição, ‘A Hora da Estrela’, que esteve patente na Fundação Gulbenkian entre Abril e Junho de 2013:

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Antes de a vermos, é ela que nos vê. Ao fundo da sala, o olho de Clarice emerge da escuridão. Só o olho em grande plano, a curva da pálpebra, a ténue sobrancelha, as finas pestanas, um ponto de luz na pupila. Quando nos aproximamos, percebemos que a imagem é transparente. Por trás, uma frase: «Ver é a pura loucura do corpo.» Não há melhor resumo do que foi a vida e a escrita de Clarice Lispector, brasileira assombrosa nascida na Ucrânia, do que esta espécie de epígrafe da exposição A Hora da Estrela, comissariada por Júlia Peregrino e pelo poeta Ferreira Gullar, aberta ao público no Museu Gulbenkian.
A primeira sala é panorâmica. Eis Clarice nas várias idades, o rosto transformando-se, ganhando sombras e uma espécie de alheamento, como se tudo o que importa estivesse na escrita e a escrita nunca chegasse para reflectir o prodígio do mundo. Não há aqui explicações, enquadramentos biográficos, cronologias. Só palavras nas paredes: «O nome da coisa é um intervalo para a coisa». Qualquer explicação de Clarice seria um intervalo entre nós e Clarice. Mais vale por isso a nudez das frases em bruto, isoladas, arrancadas dos livros, sem contexto, aproximando-nos de uma perplexidade essencial: «Escrevo pela incapacidade de entender, sem ser através do processo de escrever». Somos então guiados por fragmentos desse processo de escrita, vislumbres da sua forma de enfrentar a realidade com palavras. Clarice sempre soube que escrever é uma maldição, mas «uma maldição que salva».
As palavras da escritora saem dos livros e colam-se à pele de quem as lê. É essa a sua força tirânica. Não se projectam apenas nas paredes, escavam-nas, abrem sulcos. De forma subtil e inteligente, a exposição lembra-nos isso. Eis as palavras acesas, brilhando: «Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro». As frases são costuras, cicatrizes, tatuagens. Ou então polaroids, imagens que deflagram. Como na sala em que as fotografias instantâneas, quadradas, oníricas, nos surgem através das palavras. «Aí está ele, o mar, a menos ininteligível das existências não-humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos.» A mulher é Clarice e vemo-la, difusa, de fato de banho, junto ao oceano, num tempo perdido que é o tempo sem tempo da literatura.
Cinzenta, a Underwood é um totem. Imaginamos os dedos longos da escritora, matraqueando as teclas noite dentro, com a máquina de escrever pousada no colo. Os dedos longos que pegam, lânguidos, no cigarro. Observem como ela o acende, nessa entrevista televisiva emitida em 1977 (ano da sua morte), de que aqui sobraram só as respostas, o registo da voz, a pronúncia estranha, os silêncios, uma honestidade tão grande e desarmada, a sufocante tristeza. «O horror sou eu diante das coisas», disse noutro lugar. E a sombra desse horror nunca a abandona, enquanto o fumo do cigarro paira no estúdio, onde ela parece estar e não estar, desligada de si, completamente exposta. Ao longo dos anos, Clarice andou pelo mundo, atrás do marido diplomata, e esses percursos de cidade em cidade desenham uma constelação, uma linha que se torna poética no interior de um cubo de vidro, com luzes que crescem e diminuem, espelhando as superfícies.
Chegamos por fim à sala do arquivo, gavetas de alto a baixo, mais de mil, embora só 35, com chave, se abram à nossa curiosidade. Lá dentro: documentos, rascunhos, edições estrangeiras das suas obras. A sala é uma cápsula de memórias. Vale a pena puxar uma das cadeiras e ficar ali, lendo tudo o que há para ler. A correspondência com outros grandes escritores (Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto). Os bilhetes de identificação, com fotos tipo passe. As listas com indicações para o trabalho de revisão literária. Cartas para os filhos, cheias de um amor materno arrebatado (no fim de uma delas, conta ao filho Paulo, então nos EUA, que o «Botafogo ganhou do Flamengo 2×0»).
À saída, Clarice permanece um mistério. A exposição sabe a pouco. E ainda bem. O resto temos de procurar nos seus livros e é para os livros, sempre para os livros, que somos empurrados.

[Texto publicado no n.º 124 da revista Ler]

A mãe dela

Durante muito tempo, tive tendência a olhar de lado para as novelas gráficas. Algures entre a literatura e a BD, nem carne nem peixe, pareciam-me apenas romances ilustrados, feitos para leitores preguiçosos. Como todos os preconceitos idiotas, este também ruiu assim que dediquei ao género a atenção que ele merece. Quando vi emergir, das páginas de Persépolis, a vida quotidiana no Irão de Khomeini, entendi duas coisas: 1) que Marjane Satrapi é uma artista invulgarmente subtil e talentosa; 2) que afinal isto das novelas gráficas tem muito que se lhe diga. Ou seja, elas não estão a meio caminho de coisa nenhuma, valem por si mesmas, e transformaram-se num dos mais interessantes territórios de experimentação ficcional da actualidade (à semelhança do que acontece com as melhores séries de TV dos canais de cabo americanos).
Aos poucos, fui descobrindo vários autores, mas nenhum me entusiasmou tanto como Alison Bechdel. Há uns meses, veio parar-me às mãos Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar (edição portuguesa da Contraponto) e fiquei pasmado. Bechdel começou por se afirmar como cartoonista, assinando durante mais de vinte anos, em vários jornais, a tira cómica Dykes to Watch Out For, que acompanhava a vida e as opiniões de um grupo de personagens femininas, na sua maioria lésbicas como ela. A questão da identidade sexual é justamente uma das linhas narrativas principais de Fun Home. Bechdel fez o coming out aos 19 anos, uns meses antes do acidente que vitimou o pai, atropelado por um camião – uma tragédia em que a filha, mesmo sem ter provas, pressentiu a possibilidade de um suicídio. A comunicação difícil com esse pai enigmático e emocionalmente desligado da família – ele próprio um homossexual, mas incapaz de se assumir – salta para o primeiro plano desde cedo. É em torno dessa relação que o livro se organiza, numa estrutura complexa e graficamente muito inventiva, feita de avanços e recuos no tempo, desenhos minuciosos, planos que se sobrepõem, e uma escrita poderosa, muito precisa e saturada de referências literárias.
A figura do pai, esse mistério que a filha continua a tentar resolver muitos anos depois da sua morte, é tão intensa que ofusca o resto da família. A mãe e os irmãos mais novos estão quase sempre fora de campo, como se fossem meros figurantes numa tragédia que os ultrapassa. Que mãe era aquela?, pergunta-se o leitor, perplexo. A resposta chegou em 2012, após quase dez anos de trabalho obsessivo, no volume Are You My Mother? (Jonathan Cape, 290 páginas), um comic drama ainda mais brilhante do que Fun Home.

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Na essência, trata-se de um «meta-livro», um livro que narra a sua própria construção, uma obra que nos deixa espreitar a arquitectura interna (o modo como se vai fazendo, desfazendo, refazendo) e exibe, sem pudor, todas as dúvidas, dilemas, angústias, crises e soluções com que Bechdel se deparou durante o processo criativo. No início de cada um dos sete capítulos, entramos na história através de um dos sonhos de Alison, o que faz todo o sentido, já que a relação complexa entre mãe e filha é sempre explorada (e teorizada) a partir dos trabalhos abundantemente citados do psicanalista inglês Donald Winnicott, que têm nos diários e romances de Virginia Woolf (sobretudo To the Lighthouse) o seu contraponto literário.
Algumas das pranchas de Are You My Mother? são graficamente assombrosas, mas a sua força nasce da absoluta liberdade formal com que Bechdel vai intercalando materiais biográficos sensíveis (mostrados em toda a sua crueza), elaboradas digressões ensaísticas (sempre oportunas, embora por vezes fastidiosas) e verdadeiros achados visuais (grandes planos, ângulos inesperados, uma obsessiva atenção aos detalhes). Compreensivelmente, a mãe, que já ficara incomodada com o livro sobre o pai, teme o pior do sofisticado jogo de exposição pessoal da filha. Mas as páginas finais, em que Alison resolve de forma exemplar as várias tensões que atravessam o livro, não a deixam ficar mal. A mãe duríssima, que deixou de beijar a filha aos sete anos, obrigou-a a inventar um outro espaço, uma saída. E essa saída, para nossa felicidade, foi a arte, foi a escrita.

[Texto publicado no n.º 123 da revista Ler]

O lápis na água

Ana Luísa Amaral pegou no copo e verteu água lá para dentro até meio. «Alguém tem um lápis que me empreste?» Estávamos, eu e ela, na Escola Básica 2/3 de Rates, perto da Póvoa de Varzim. À nossa frente, dezenas de alunos do oitavo e nono ano convocados para um encontro com autores, incluído na programação das Correntes d’Escritas. De uma das filas do meio, levantou-se um rapazinho tímido, lápis na mão. Ana Luísa agradeceu, pegou no pequeno cilindro de grafite e madeira, mergulhando-o na água. «Estão a ver?», perguntou, copo levantado no ar. «Reparem na percepção que têm agora do lápis. Ele não perdeu nenhuma das suas características, mas, devido ao fenómeno físico da refracção, parece maior. Parece outra coisa, parece diferente.» Onde está o copo com água até meio e lápis, leia-se poema e seu objecto. O poema não deve reflectir a realidade, deve refractá-la. Silenciosos, atentos, os miúdos perceberam a analogia, sem necessidade de grandes explicações.
«As Correntes d’Escritas são um lugar de resistência», lembrou Jaime Rocha, no final da sexta mesa. Resistência cultural. E resiliência. Numa altura em que os cortes orçamentais se tornaram regra e em que muitos projectos são suspensos, ou ficam congelados, ou pura e simplesmente desaparecem, porque não há dinheiro, porque as autarquias deixam de apoiar, porque os subsídios se eclipsaram (ou emagreceram tanto que deixam de ser suficientes), é admirável ver como as Correntes se mantêm de pé, firmes, com o auditório municipal ainda mais cheio do que em edições anteriores – aliás, a rebentar pelas costuras, mesmo em sessões habitualmente menos concorridas (quinta à tarde, sexta de manhã). Como sempre, os escritores foram subindo ao palco, respondendo aos motes nunca lineares que a organização sugere, desta vez versos retirados das obras finalistas do Prémio Casino da Póvoa, atribuído ao livro A Terceira Miséria, de Hélia Correia (Relógio d’Água).
Um dos aspectos mais marcantes da edição de 2013 foi a omnipresença da crise e do seu reverso: a revolta cada vez mais generalizada contra o sufoco da austeridade. Noutras edições das Correntes, já se tinham ouvido referências à situação económica e política do país, mas nunca como este ano. Volta não volta, quando algum orador se referia a um certo ministro com obscuras habilitações académicas, ou fazia uma piada sobre a obrigatoriedade de pedir factura, o público logo respondia com um burburinho cúmplice, bruáá, gargalhadas. «Já faltou mais para se ouvir a Grândola», dizia alguém na tarde de sexta-feira. E foi profético. Nessa mesma noite, Rui Zink precipitou o inevitável. No fim da sua intervenção, durante a qual se referiu à importância da acção cívica dos escritores e ao novo verbo que circula pelas redes sociais (grandolar; isto é, cantar a Grândola em sinal de protesto), lançou uma das suas provocações: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas. Se ele, só com uma licenciatura, foi interrompido pela Grândola, eu, que sou doutorado, também quero ser. Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O resultado foi o que se imagina. Apoteose, vozes ao alto e uma desculpável desafinação.
Logo no primeiro dia, ao reagir ao prémio para A Terceira Miséria, Hélia Correia dissera que os seus poemas cantam um país (a Grécia) massacrado pelo horror económico e devem ser lidos como o grito da «cantiga de alevantar», de José Mário Branco. Alevantemo-nos, então. Grandolemos. É extraordinário ver músicas quase esquecidas renascerem de um momento para o outro como instrumento de luta e mobilização. No hotel Axis Vermar, onde à noite os escritores, editores e jornalistas se juntam para conversas e copos, a Grândola teve direito a vários encores, ouviu-se ainda o Acordai, de Fernando Lopes-Graça, e até a Internacional. Na brincadeira, discutiu-se o que seria mais importante numa futura revolução: as palavras ou uma AK-47? Nas Correntes d’Escritas, o ar do tempo não fica à porta. Entra nos debates e nos momentos de lazer. É como o poema da Ana Luísa Amaral, o lápis dentro de água, refracção à espera de quem lhe dê um novo sentido.

[Texto publicado no n.º 122 da revista Ler, em Março de 2013]

Escadas de incêndio

Já todos intuímos o que aí vem. A imprensa escrita, em papel, dificilmente sobreviverá a estes tempos de crise aguda. Quem julgar que se trata de uma tormenta, desengane-se: estamos perante um naufrágio. Aquilo a que assistimos – queda a pique das vendas em banca, fuga da publicidade, redacções reduzidas ao mínimo e mal pagas, desinvestimento no jornalismo de investigação, ausência de verdadeiros mecanismos de controlo da qualidade jornalística (do rigor no uso da língua à simples verificação dos factos), vulnerabilidade financeira que põe em causa a independência, etc. – é um caminho de perda progressiva e enfraquecimento radical do quarto poder, justamente quando ele seria mais necessário do que nunca para escrutinar a realidade política e económica do país. Resumindo, em bom economês, o modelo de negócio deixou de ser rentável e ainda ninguém descobriu como dar a volta ao texto. Resta saber, aliás, se há mesmo volta a dar ou se mais vale começar tudo de novo, de outra maneira. Para já, importa perceber que o prédio está a arder e ter esperança de que alguém encontre, ou invente, saídas de emergência.
Admito que o raccord é um pouco forçado, mas foi numa escada de incêndio que nasceu uma semente do que pode vir a ser a nova paisagem mediática, no que à imprensa escrita diz respeito. Uma escada de incêndio em Nova Iorque, onde Uzoamaka Maduka, uma licenciada em Princeton de origem nigeriana, agora com 25 anos, estava a fumar um cigarro, ao frio, com Jac Mullen, o seu namorado. Discutiam o que muitos outros jovens com interesses literários e artísticos discutem: a falta de espaço, no panorama editorial instituído, para escritores e leitores na faixa dos vinte/trinta anos. Toda a gente parte do princípio de que a geração Y – a dos iPhones e iPads, a do Facebook e do Twitter – não quer saber de textos longos (ensaios com muitas páginas, recensões que escapem ao formato bonsai dos jornais) ou que só toleram o que vêem num ecrã, ignorando o velho prazer da leitura em papel. Grande equívoco. O que Maduka e Mullen desejavam era uma publicação que desse a ver as realidades literárias emergentes, a nova ficção e a nova poesia, sem deixar de reflectir criticamente sobre os livros e autores que aparecem nas revistas consagradas. Como essa publicação ideal não existia, criaram-na. E assim surgiu, em 2012, a The American Reader, que alguém disse ser uma espécie de irmã mais nova, e mais cool, da New Yorker. A edição em papel, mensal, financiada por um investidor anónimo, prolonga-se num site de grafismo sofisticado e fácil de navegar. Se o sucesso chegou muito depressa, tal não se deveu a uma qualquer inovação formal (já se inventou tudo, ou quase tudo) mas apenas, e como deve ser, à qualidade dos textos. A irreverência está sobretudo na capacidade de juntar abordagens sérias a livros sérios com brincadeiras muito irónicas e inteligentes – veja-se a divertidíssima lista de «10 under 10», um inquérito imaginário a dez escritores com menos de dez anos, infantis à sua maneira, mas revelando a bagagem teórica e a linguagem de um académico de Harvard.
Maduka e Mullen não estão sós. Antes deles, já havia um excelente projecto mais ou menos com os mesmos propósitos, a n+1, e entretanto começaram a aparecer outros: The New Inquiry; Triple Canopy. O que os une é um certo sentido de comunidade. As revistas são colectivos de criadores e críticos com interesses próximos, mas nada impede cruzamentos entre elas. Sobretudo, o que estas iniciativas provam é que há vida para além dos circuitos habituais, muitos deles saturados e pouco abertos a novas formas de discurso sobre a literatura. De certa maneira, na sua leveza e agilidade, estas revistas nova-iorquinas fazem-me lembrar as microeditoras de poesia portuguesas, mais activas e interessantes, pelo menos nos últimos anos, do que as editoras clássicas. O que eu gostava era de ver surgir por cá uma revista assim. Bastava uma, que a nossa massa crítica é o que se sabe. Em 1915, há quase um século, também apareceu do nada uma revista que agitou, e de que maneira, as águas. Chamava-se Orpheu. Eu não peço tanto, claro, mas as águas precisam mesmo de ser agitadas.

[Texto publicado no n.º 121 da revista Ler]

Benite

1. Quando penso no Joaquim, a primeira coisa que recordo é a voz. Ao contrário da fisionomia, na minha memória a sua voz nunca mudou. Era uma voz escura, ao mesmo tempo áspera e de veludo, uma voz de tabaco. Voz teatral, das que se fazem ouvir no outro lado do palco, voz a erguer-se do fundo da plateia, a encher a sala quando é preciso avisar o actor de que a marcação não é assim, de que falta qualquer coisa num gesto, de que o silêncio naquela cena de Tchékhov devia durar mais (ou menos). Agora, o silêncio durará para sempre. A voz calou-se. E ainda não me habituei à sua ausência.

2. Em Julho de 1984, eu tinha 12 anos. A poucos metros de minha casa, no coração de Almada Velha, ficava o Beco dos Tanoeiros. Chão empedrado, casas baixas, janelas abertas, bancos corridos, um palco de madeira ao fundo da rua estreita. Por cima, o céu de verão. Eu já sabia o que era o teatro, já vira algumas peças, mas foi ali que me tornei espectador. Ali, no berço do Festival de Teatro de Almada, esse projecto que cresceu como uma planta ávida de luz, alastrando pela cidade, ganhando corpo e dimensão internacional, até se tornar um dos maiores acontecimentos da cultura deste país. Na minha cabeça, acende-se um mapa: Pátio do Prior do Crato, Palácio da Cerca (de onde se aprecia a mais bela vista de Lisboa, Tejo e tudo), o minúsculo Teatro Municipal antigo (de colunas vermelhas à entrada), o moderníssimo e amplo Teatro Azul, as bancadas íngremes da Escola António da Costa (onde em tempos fiz o chamado Ciclo Preparatório). Em todos esses lugares fui assistindo ao milagre da criação de um público, essa «obra-prima» do Joaquim, como lhe chamou Jorge Silva Melo, e não podia estar mais certo. Quando trocou Campolide pela margem Sul, Benite seguiu de certa forma o que Bernard Sobel fizera nos anos 60 em Paris, ao sair do centro para a periferia suburbana (Gennevilliers), com o propósito de começar do zero um teatro que nascesse da comunidade, ao serviço da comunidade. Era uma tarefa difícil, muito difícil, mas passo a passo cumpriu-se.

3. Ao longo dos anos, nos convívios após os espectáculos, quando os actores já haviam deixado as personagens e a adrenalina cénica nos camarins, aparecendo à nossa frente como quem sai cansado do emprego e bebe um copo com os amigos, nesses encontros em que o Joaquim sorria muito, feliz de ver a máquina do teatro a mostrar as suas entranhas, falei muitas vezes com ele sobre o que acabara de acontecer no palco. Nem sempre estávamos de acordo e creio que isso o animava. Perdia-se em discussões longas, argumentativas, apaixonadas, porque não entendia o teatro como um lugar de consensos. Exigente por natureza, consigo e com os outros, agradecia a exigência do seu público. Respeitava-a. E partilhava a sua visão dramatúrgica, explicava as suas escolhas, justificava a vinda de um determinado encenador ou daquela companhia andaluza. Sempre tive a sensação de que para ele o teatro começava muito antes do primeiro ensaio e continuava muito depois da última representação. O teatro era a própria matéria dos dias, uma forma de respirar.

4. Quando olho para trás, vejo uma amálgama de espectáculos. Personagens de Brecht num cenário de Beckett. Monólogos e coros gregos. A história dos homens, contada do princípio, uma e outra vez. Palavras ditas à boca de cena, murmúrios e gritos. O mundo inteiro atrás da cortina que se abre, interrompe a vida, reinventa a vida, e depois se fecha. Lá atrás, na sombra, o Joaquim.

5. Na tarde em que desci a alameda do cemitério, uma multidão enterrava os pés na lama, por baixo de um céu diluviano. Eram centenas de pessoas: amigos, companheiros de ofício, espectadores agradecidos. Houve quem falasse do Joaquim, quem lembrasse a sua obra. Não consegui ouvir essas despedidas. Ao sair do Alto de São João, debaixo da chuva, acompanhou-me a voz de veludo e tabaco: «Depois apagam-se as luzes e tudo acaba, não é?»

[Texto publicado no n.º 120 da revista Ler, Janeiro de 2012]

Missão em Washington

Para além de tudo o resto, havia uma missão a cumprir em Washington. Uma missão à antiga: procurar um certo livro, comprá-lo, trazê-lo para Portugal. Aceitei o desafio porque gosto de desafios (mais ainda se envolvem livros) e porque havia uma certa aura analógica em torno daquela demanda. Na era da internet, dos sites que disponibilizam tudo e mais alguma coisa, dos motores de busca poderosíssimos, das aplicações multimédia nos smartphones e tablets, andar de livraria em livraria à procura de um romance em papel, ainda por cima obscuro, esgotado, quase clandestino, pareceu-me uma aventura mais estimulante do que percorrer outro museu da Smithsonian Institution, ou assistir às sempre animadas partidas que os xadrezistas de Dupont Circle, transidos de frio, insistem em jogar mesmo depois do cair da noite.
O livro era um romance mastodôntico (quase 1200 páginas): Women and Men, de Joseph McElroy, «tão esquisito» que «nem a Amazon o vende». Isto garantiu-me o amigo que escreveu um e-mail assim que soube da minha estadia na capital dos EUA. Fui verificar. Efectivamente, junto dos vendedores sugeridos pela maior livraria online do mundo, os preços oscilavam entre os 126 e os 317 dólares. «Enfim, és a terceira pessoa a quem faço o pedido, sem grande esperança: se tropeçares nele em algum alfarrabista a menos de 50 dólares, prometo reembolsar-te ao câmbio actual e ainda acrescentar um café, um bagaço, e um agradecimento histérico», concluía ele. Pela minha parte, prometi apenas dar o meu melhor.
Comecei a procura pela Kramerbooks & Afterwords, na Connecticut Avenue. É uma livraria simpática. Todas as novidades expostas em destaque, mas com critério. Numa sala lateral podem encontrar-se bons livros de poesia e teatro. Na parte de trás, um café: atmosfera vagamente europeia, raparigas loiras barrando doce de morango nos scones, rapazes de sobretudo a que associamos imediatamente a palavra hipster. Quando lhe perguntei por McElroy, a funcionária da caixa principal foi sincera: «Nunca ouvi falar desse autor, mas deixe-me ver se temos algum exemplar.» Não tinham. Depois, antes de atender outro cliente, fez-me um sinal com a cabeça: «Pergunte na caixa da outra sala.» A tal da poesia, do teatro, da literatura underground. Segui o conselho. Atrás da máquina registadora, um negro muito cool, com óculos de massa e uma boina a cobrir a carapinha encanecida, ergueu as sobrancelhas: «O Women and Men, do McElroy? Esse livro é extraordinário.» Fez uma pausa, como se recordasse ali mesmo, no meio da azáfama, as longas noites de leitura até o sol raiar. «Infelizmente, está fora de circulação, o melhor é encomendá-lo na internet ou procurar em alfarrabistas.» Não muito longe, numa esquina da P Street Northwest, há um, disse-me ele. «Experimente.» E eu experimentei.
Na montra, escrito a néon azul: Second Story Books. Livros em segunda mão, com uma segunda história, uma segunda vida. Estantes de madeira clara, altas, labirínticas. Frases nas paredes («There are worse crimes than burning books. One is not reading them», Joseph Brodsky). Ao fundo, num poster, Lenine de boina e laço vermelho, em tamanho real, a 650 dólares. Perguntei mais uma vez por McElroy. Um sorriso cúmplice: «Esse é dos difíceis. Já o tivemos. Agora não temos.» O computador confirmou: o último exemplar foi vendido em Novembro de 2011, por 24 dólares.
Dias depois, andava eu pelo bairro de Georgetown, à procura de uma mesa de voto na Duke Ellington School of the Arts (foi na terça-feira em que os americanos reelegeram Obama), deparei com a Books Used & Rare, uma cave poeirenta a abarrotar de livros antigos. McElroy? O dono da loja abanou a cabeça e encolheu os ombros. «Sabe, o melhor é mesmo procurar na internet.» Eu também encolhi os ombros, finalmente vencido. Sem ser histérico, o agradecimento do meu amigo não deixou de ser um agradecimento. E ele sempre encontrou consolo no facto de um negro muito cool achar que o tão desejado livro é mesmo uma maravilha. Quanto ao resto, digo apenas que há um certo prazer na demanda pela demanda. Assim como assim, eu nem gosto de bagaço.

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler, Dezembro de 2012]

30 anos

[Nota prévia: escrevi esta crónica ao fazer 30 anos; agora cheguei aos 41, tenho dois filhos, mas tenciono adiar o mais possível a resposta à última pergunta]

1. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. No eléctrico, à mesa de um café, numa esquina qualquer, alguém desdobrou as folhas enormes do Diário de Notícias. E leu. No topo da primeira página, os caracteres góticos do cabeçalho, o preço (1$50), o número da edição (38.068), o nome do director (Fernando Fragoso) e o anúncio das máquinas de costura Vigorelli («as melhores do mundo»). Na segunda página, alguns avisos: a Joalharia Mergulhão lembra aos seus Exmos. Clientes (com maiúscula) que passa a encerrar aos sábados de tarde; enquanto o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreram, em combate na Guiné, um soldado e um primeiro-cabo. Há também muita publicidade a espectáculos: no cinema Vox, O Mensageiro, de Joseph Losey, vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, está há nove semanas em cartaz; o Teatro Villaret acolhe Tartufo, com Raul Solnado no papel principal, às 21 e às 23 horas; e quem não gostar de Molière pode sempre ir ao Capitólio, onde José Viana encabeça o elenco da revista Ora Bolas P’ró Pagode. Na secção cultural, Natércia Freire escreve sobre Fernanda Botelho, João Gaspar Simões sobre Fernando Namora e João Bigotte Chorão sobre Maria Eulália de Macedo. Do folhetim Um Gesto de Amor, escrito por Daniel Gray, publica-se o 28.º capítulo. Mas é lá mais para diante, nos anúncios das últimas páginas, que está um retrato do país. Lado a lado, a grande empresa de urbanização que procura um topógrafo para trabalhar no Algarve e o particular que vende palha. Os andares de duas a três assoalhadas (a partir de 260 contos) e a requisição de um ardina para distribuir jornais ao domicílio. Repito: alguém leu isto tudo, numa esquina qualquer, à mesa de um café, no eléctrico. Talvez a meio da manhã, no exacto instante em que nasceu uma criança, milhares de quilómetros para norte. Ou no momento preciso em que foi lançada uma sonda da NASA, rumo a Júpiter e mais além.

2. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. Em Cabo Kennedy, depois de vários adiamentos por causa do mau tempo, a sonda Pioneer-10 é enviada para o Espaço no topo de um foguetão Atlas Centauro. Custou 68 milhões de dólares, mede três metros (se contarmos com as antenas), pesa 270 quilos e carrega 11 instrumentos científicos. Pela primeira vez, um objecto fabricado pelo Homem aponta para um destino mais longínquo do que Marte. Os cientistas, apesar de temerem que a Cintura de Asteróides seja intransponível, sonham com a chegada da Pioneer-10 a Júpiter. Se sobreviver, a frágil estrutura que viaja a 44.579 kms/h poderá enviar informações preciosas sobre os limites exteriores do sistema solar. Há mesmo quem ponha a hipótese de um eventual contacto com extraterrestres. Presa à chapa da sonda, uma placa de alumínio com banho de ouro, concebida por Carl Sagan, mostra um homem (a mão direita levantada em sinal de boa vontade) e uma mulher, cujas formas correspondem a uma média computorizada da compleição física da espécie humana. A escala é conferida pelo desenho da própria sonda, ao lado daquele casal que faz lembrar Adão e Eva. No canto superior esquerdo, a representação de um átomo de Hidrogénio, o elemento mais comum no Universo, prova que conhecemos a matéria das estrelas. E os vários símbolos dispostos na base do esquema, representando o Sol e os planetas que giram à sua volta, explicam de onde partiu esta «casca de noz». A placa é o nosso espelho. É uma súmula, um gesto de aproximação, a primeira palavra de um diálogo. É também um mapa a indicar o caminho até este canto do cosmos onde existe vida, inteligência, civilização. Compreensivelmente, nada se diz sobre a outra face dos seres humanos: a cupidez, o ódio, a barbárie. Afinal, se os extraterrestres alguma vez descobrirem a sonda, não vamos querer assustá-los, pois não? A verdade é que ninguém espera uma resposta. O tempo de vida previsto para a missão é muito curto. Três anos, na melhor das hipóteses.

3. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. A minha mãe está deitada, a barriga enorme, o suor, as contracções. Na sala, vários alunos tomam notas. O médico-obstetra, talvez o mais conceituado da Maternidade de Port Royal, em Paris, decidiu fazer do parto uma aula. Porque este não é um caso simples – a cabeça do bebé, muito grande, tem dificuldade em sair. É demasiado estreito, o corpo da mulher. E por isso sofrem. Os dois. Aida contrai os músculos, uma e outra vez, e outra ainda, sente o filho dentro de si, o movimento dele, o esforço dele. A dor cresce como um incêndio, alastra, concentra-se num ponto, reflui e depois regressa. A dor. Cada vez mais intensa. A dor. De olhos fechados, Aida pensa só no filho que vem aí, através da carne. E ao pensar nele a dor fica como que suspensa. Já não importa. Tal como não importa o que ficou para trás. A estupidez de uma injecção que retardou o nascimento até de manhã, para que médico e alunos pudessem aparecer de camisa lavada e pequeno-almoço tomado a horas. A travessia da noite, olhos postos na lua. A espera longa, longa, longa, sem líquido amniótico, o feto em risco de sufocar. A rudeza das enfermeiras. Tudo isso já não interessa. Aida pensa no filho, os músculos contraídos, uma e outra vez, e outra ainda. A respiração ofegante. O suor na testa. O grito. O seu grito. Depois um outro, mais ténue. O grito do filho. O meu grito. Eu, tão pequeno. Ali, sobre a barriga exausta. Espreitando entre os seios, Aida vê a cabeça ainda achatada do filho, onde já desponta uma espiral de cabelo, um caracol. E antes de o levarem, antes de me levarem, sente os batimentos daquele coração pequenino, tão perto do seu.

4. Passaram 30 anos. Dentro de um Diário de Notícias muito diferente, na página nove do suplemento com nome de código genético, narram-se factos ocorridos num mesmo dia: 2/3/1972. Seria fácil estabelecer ligações entre o nascimento de uma criança e a viagem de uma sonda até aos confins do universo. A criança que acaba de nascer não sabe nada, parte para o desconhecido, para a incerteza. À sua maneira, ela também é uma sonda – só que avança no tempo, enquanto a outra avança no espaço. Ocorre-me a ideia de unir os dois rumos, de filosofar sobre o destino de um homem versus o destino do Homem. Mas não vou por aí, embora a coincidência me perturbe. E a perturbação acentua-se porque a sonda, o primeiro objecto construído por humanos a sair do sistema solar, resistiu muito mais do que estava previsto. Ainda hoje, cinco anos após o encerramento oficial da missão, ela mantém-se «viva» e em contacto com a Terra, apesar da distância inimaginável (mais de 10.000 milhões de quilómetros) e das 22 horas que os sinais de rádio levam a chegar ao nosso planeta. Ainda hoje, continua a afastar-se, em direcção a uma estrela vermelha, da constelação do Touro, que alcançará (se não se desfizer pelo caminho) dentro de dois milhões de anos. A Pioneer-10 passou por Marte quando eu ainda mamava (três meses), por Júpiter quando eu ainda pedia colo (ano e meio), por Saturno quando andava na pré-primária (quatro anos) e abandonou o sistema solar quando comecei a escrever poemas (16 anos). Onde estará quando nascer o meu primeiro filho? E quando eu morrer?

[Texto publicado no suplemento DNA do Diário de Notícias, a 2 de Março de 2002]

Mrs. Booker

1. Vejam a alegria desta mulher. Tentem compreender a alegria desta mulher. Chama-se Hilary Mantel. Aos 60 anos, rosto redondo, corpo enorme sob a túnica, não pertence ao grupo das escritoras que aliam, ao talento da escrita, os tão apreciados good looks. Ela não quer saber dos good looks para nada. Ela não é um rosto que se fotografa, em pose. Ela é uma escritora que escreve. Ponto. Creio aliás que a sua alegria ao receber o Man Booker Prize deste ano, pelo romance Bring Up the Bodies, não teve a ver com aquilo que todos os jornais destacaram: o ser a primeira mulher e o primeiro autor britânico a ganhar duas vezes o cobiçado prémio (os anteriores foram o australiano Peter Carey e o sul-africano Coetzee), ainda por cima no intervalo mais curto (apenas três anos depois de Wolf Hall). Nem teve a ver com o prémio de 50 mil libras, quase 62 mil euros, ou com o mais que previsível acréscimo exponencial de vendas deste livro e, por arrasto, dos anteriores. Quando agradeceu a distinção, no palco do Guildhall, em Londres, Mantel disse: «Esperas vinte anos para vencer o Booker e depois vêm logo dois de seguida.» Dois que até podem vir a ser três, quando for publicado o volume final da sua trilogia sobre Thomas Cromwell e o tempo dos Tudor, The Mirror and the Light, sobre o qual já se fazem todo o tipo de apostas. Agora que se tornou quase consensual, uma espécie de Mrs. Booker a pairar, soberana, etérea, sobre o mundo das letras inglesas («Não creio ter lido nos últimos tempos nenhum outro autor anglófono que controle tão completamente a linguagem para conseguir o que pretende fazer», resumiu Sir Peter Stothard, presidente do júri do Man Booker, além de editor do The Times Literary Supplement), agora que se instalou no trono do establishment, o que se deve sublinhar é a primeira parte da sua frase: «Esperas vinte anos…» Foi longo o caminho. Um caminho com travessias do deserto e zonas de sombra que a escritora evidentemente não esqueceu.

2. No final dos anos 70, Mantel entregou-se à escrita da sua primeira narrativa, um romance histórico de 800 páginas sobre a Revolução Francesa (A Place of Greater Safety), obra que foi recusada e só viu a luz muito mais tarde, em 1992. Enquanto o escrevia, aconteceu algumas vezes enganar-se ao datar os cheques: em vez de 1978, escrevia 1798. Era a História a impor-se na sua vida, mesmo se literariamente acabou a circular por outros lados, mudando de estilo e género de livro para livro, até se fixar novamente, em 2009, na ficção histórica, seguindo os passos do maquiavélico conselheiro do rei Henrique VIII.

3. Antes de chegar aos trinta anos, quando vivia no Botswana com o marido, geólogo, Hilary descobriu por si mesma, lendo livros de Medicina e fazendo autodiagnóstico, a explicação para o seu estado de constante sofrimento: uma doença chamada endometriose. As células do útero migram para outras partes do corpo e provocavam hemorragias. Operada em Inglaterra, na mesma altura em que A Place of Greater Safety era recusado, saiu do hospital sem ovários, sem útero, desfeito o desejo de ser mãe. Depois, ganhou peso devido a um tratamento hormonal intenso, a forma do corpo que nunca mais perdeu. No seu lugar, muita gente colapsaria. Mantel seguiu em frente, reinventou-se, atravessou o deserto, esperou o que teve de esperar. «Agora levanta-te», a primeira frase de Wolf Hall, é talvez um dos mandamentos da sua vida.

4. No começo do livro que lhe deu o primeiro Booker, o protagonista, Thomas Cromwell, ainda criança, está a ser espancado pelo pai. Pontapés, murros, sangue por todo o lado. Antes de perder os sentidos, deitado por terra, ele sente uma espécie de movimento, o «chão nojento» a tornar-se líquido como o Tamisa. O resto do romance é extraordinário, mas bastaram-me aquelas páginas iniciais para saber que descobrira uma grande escritora. Dois Bookers depois, ela sabe que muitos partilharam esta descoberta. Será essa, mais do que a glória efémera, a razão da sua alegria.

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler, Novembro de 2012]

Mäelstrom

1. No meio do mar, um vórtice. É como um buraco negro, um monstro de boca imensa e sôfrega, capaz de devorar navios de quatro mastros. Mesmo quando se inspiram em fenómenos verdadeiros, como o Moskstraumen (nas ilhas Lofoten, Noruega), remoinhos deste calibre só existem na ficção. O mäelstrom que ali se forma, uma conjunção de correntes fortes com marés de grande amplitude, é deveras impressionante mas nada tem a ver com as descrições bíblicas que dele fizeram Jules Verne, em 1870, nas Vinte Mil Léguas Submarinas (já perto do fim, quando o capitão Nemo permite que o Nautilus seja apanhado pela imensa espiral aquática), ou Edgar Alan Poe, muito antes, em 1841, num conto literalmente vertiginoso intitulado Uma Descida ao Mäelstrom.

2. No início da história, Poe coloca o seu narrador no topo de uma falésia altíssima, frente às Lofoten, junto a um velho marinheiro que três anos antes «desceu» ao coração do mäelstrom e sobreviveu para contar. Logo descobrimos que este segundo narrador afinal não é velho, antes viu o cabelo enbranquecer em poucas horas devido ao impacto de uma experiência-limite, como «a nenhum mortal alguma vez foi dado viver». Velejador corajoso, ele costumava pescar com os dois irmãos em águas a que poucos se atreviam, nomeadamente nas proximidades do mäelstrom, a que sempre escapavam por saberem a hora certa em que o dito se formava e ganhava ímpeto. Uma tarde, porém, as circunstâncias propiciam a catástrofe. Um furacão aparecido do nada deixa-os à deriva e ao alcance do remoinho. Um dos irmãos é logo projectado borda fora, enquanto os outros dois assistem, transidos de horror, ao modo como o que resta do seu navio vai percorrendo circularmente as paredes do grande vórtice. A dado momento, acontece uma espécie de suspensão do pânico. Consciente de que não se vai salvar, perdida a esperança, o marinheiro ganha uma súbita lucidez: «Comecei a pensar em como era magnífico morrer desta maneira, (…) diante de uma tão maravilhosa manifestação do poder de Deus». Entrega-se então à beleza assustadora do mäelstrom, quando a lua cheia (aparecendo numa súbita clareira entre as nuvens) ilumina as lisas paredes de água e forma um arco-íris no ar saturado de vapor e espuma, bem no fundo do turbilhão.

3. É esse desprendimento que o salvará. O irmão que restava faz o que se espera de um ser humano normal. Agarra-se ao que pode, incapaz de raciocinar, paralisado de medo, e acaba por ir ao fundo com o navio. O sobrevivente, esse, surpreende-nos com a sua frieza e capacidade de discernir o que se passa à sua volta. Enquanto assiste, resignado, ao modo como as águas giram em torno de um eixo, apercebe-se do diferente comportamento dos objectos apanhados pelo remoinho. Os maiores descem mais depressa, o que é questão de bom senso. Menos óbvia será a dedução decisiva: para objectos de massa igual, os de forma esférica descem mais depressa; os de forma cilíndrica, mais devagar. Ele agarra-se então a um barril e lança-se às águas, o que lhe permite aguentar o tempo suficiente para o mäelstrom perder a força, trazendo-o de novo, exausto mas vivo, até à superfície refeita do mar. O detective Dupin resolvia os casos assim: atento aos detalhes, deduzindo, raciocinando. Que o narrador consiga a mesma coisa, sobretudo em circunstâncias tão extremas, já desafia a imaginação e a verosimilhança. Nas linhas finais, ele admitirá que ninguém acreditou na sua história e que também não espera que o primeiro narrador acredite. Tem razão. Nós, leitores, que assistimos a tudo pelo olhar tíbio desse ouvinte assustado, nunca chegamos a acreditar. Mas a força da história e das suas esmagadoras imagens não é menor por causa disso.

4. É irresistível ver no mäelstrom uma metáfora. O caos que não controlamos e nos devora. Um país em crise, um amor falhado, a ausência de futuro. Queríamos todos perceber o que nos pode salvar. Os barris estão talvez ali, à nossa frente, mas não os vemos, cegos com a perspectiva do abismo.

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]

São Pedro do Sul

Eu devia ter uns oito ou nove anos. Era Verão e os meus avós paternos levavam-me com eles para as termas, no Norte. Pelo caminho, lembro-me perfeitamente de ir no banco de trás do Peugeot 204, tomando nota dos automóveis estrangeiros que nos ultrapassavam. Todos os miúdos têm as suas manias e a minha era contar matrículas. Durante a viagem, fazia relatórios de dez em dez minutos: «Vinte e dois franceses, quinze espanhóis, onze alemães, oito holandeses, cinco luxemburgueses, quatro italianos, dois ingleses, um suíço.» Era no tempo em que a padronização comunitária ainda não tinha uniformizado as cores das placas e os porta-bagagens ostentavam autocolantes ovais com as iniciais dos países (levei algum tempo a associar a Suíça ao misterioso CH, da designação latina Confoederatio Helvetica). Quando entrávamos em São Pedro do Sul, ao fim de longas horas por estradas nacionais (ainda estava para chegar a fúria do asfalto cavaquista), eu anunciava orgulhoso o meu balanço final: «Setenta e nove franceses, trinta e quatro espanhóis, vinte alemães, quinze holandeses, oito luxemburgueses, seis italianos, três ingleses, um suíço.» O que mais me intrigava era a superioridade dos franceses face aos espanhóis, geograficamente mais próximos, até que a minha avó me explicou que a maioria daqueles franceses eram afinal portugueses como eu, só que emigrantes em Paris ou Toulouse, de regresso à terra nas suas bagnoles de alta cilindrada.
Na imagem que guardo do Hotel Vouga, havia um toldo azul sobre a porta de entrada, uma cadeira de verga cá fora, no passeio estreito (onde me sentava por vezes a olhar os carros que passavam, contendo-me para não dar início a outra obsessiva contabilidade de matrículas), um muro baixo com vasos de loiça branca, um portão de ferro com pontas afiadas, um telheiro escondido por uma buganvília. Ficávamos sempre neste hotel e creio que sempre no mesmo quarto. Fecho os olhos e vejo a minha avó estendida na cama, a dormir a sesta. As tardes longas. O silêncio. Eu ia buscar os meus livros e durante umas horas perdia-me na ilha do tesouro de Stevenson, nas aventuras dos heróis de Júlio Verne, nas corridas imparáveis do Michel Vaillant, nas histórias divertidíssimas da dupla Astérix/Obélix (cuja piada só apreciei devidamente mais tarde). Outras vezes, acompanhava o meu avô ao café, no centro, para lá da ponte. O tempo esticava muito, mas eu nunca me aborrecia. Gostava especialmente dos passeios junto ao rio, de atirar pedrinhas à água lisa, de comer as sandes de queijo e marmelada que a minha avó preparava à mesa do pequeno-almoço e trazia na mala de mão, embrulhadas em guardanapos de papel.
Os restantes hóspedes deviam andar pelos cinquenta, sessenta anos, e pareciam-me muito velhos. Ao serão, os meus avós socializavam um pouco com eles, à espera, entre outras coisas, de ouvir os louvores que me eram dirigidos, enquanto menino ajuizado e paciente, que sabia esperar, não fazia barulho a comer no restaurante do hotel, não corria pelos corredores, nem mostrava repugnância quando as senhoras muito maquilhadas o enchiam de beijos e festinhas no cabelo. Havia um senhor que sabia truques com palitos aos saltos debaixo de um guardanapo e um outro que era especialista em adivinhas. «Vais a conduzir um carro, como fazes para virar?» Se eu respondesse «uso o volante», ele dizia «não, abres a janela» (para «vir ar»). Se eu respondesse «abro a janela», ele dizia «não, usas o volante» (para «virar»).
Ignoro porquê, mas sou incapaz de recordar o edifício onde se faziam os tratamentos. Recordo-me é do jardim que tinha no centro uma taça circular – cheia de água borbulhante e vapores – de que eu me aproximava a medo. Penso nela e o cheiro fortíssimo, como de enxofre, regressa para me atordoar, e atrás dele vem a nitidez das noites cálidas, naqueles verões dos meus oito, nove anos. Entretanto, o meu avô Mário morreu. Entretanto, a minha avó Lucinda morreu. Nunca mais voltei a São Pedro do Sul. Há dias, fui procurar os livros do Astérix e do Michel Vaillant. Não os encontrei. No seu lugar, quase esvaecidas, estavam estas memórias.

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

A mecânica da coisa

A funcionária primeiro ficou calada, com os olhos muito esbugalhados, depois tamborilou os dedos e encolheu os ombros. Eu limitara-me a fazer uma pergunta. Uma simples pergunta, logo repetida para criar ênfase oratória. «Minha senhora, acha que isto tem alguma lógica? Vá lá, ponha-se no meu lugar e diga-me: acha que isto faz algum sentido?». Após o encolher de ombros, a funcionária esbugalhou ainda mais os olhos e dignou-se finalmente a dar uma resposta. «Eu cá não sei se tem lógica ou não tem lógica, eu estou aqui para cumprir ordens e as ordens que me deram foram estas.»
Recuemos um passo e expliquemos melhor o contexto deste diálogo de surdos. O palco é o balcão de uma junta de freguesia, a freguesia para a qual me mudei recentemente. Temendo ser multado pela EMEL, ao estacionar perto da nova casa, encetei uma verdadeira odisseia burocrática com vista à substituição do «selo de residente». Coisa complicadíssima, está bom de ver. Entre outras obrigações, tinha que alterar o domicílio fiscal nas Finanças e a morada em todos os meus documentos (BI, carta de condução e contrato de ALD). Depois de muito esforço – duas sessões de três horas de espera na DGV e cinco idas à repartição de Finanças, porque «o sistema continua em baixo» – lá juntei a papelada. Faltava, porém, um item: o atestado de residência.
Se há burocracia que me põe os nervos em franja, é esta. A burocracia que só serve para nos arreliar e nos fazer perder tempo, a burocracia preguiçosa, inútil e estúpida. Eu bem que tentei mostrar o contrato de arrendamento, com o meu nome e a nova morada lá escarrapachados, mais o recibo dos dois primeiros meses. Mas nada disso, ao que percebi, é suficiente. «O que o senhor tem que fazer», disse-me a tal funcionária, «é pedir o carimbo e a assinatura de dois comerciantes da zona, está a ver?». Eu não estava a ver. E foi então que fiz a tal pergunta. E obtive a tal resposta. Resumindo: o contrato de arrendamento não chega como prova, mas a assinatura de duas pessoas que nunca vi – e que nunca me viram antes, uma vez que acabo de chegar ao bairro – serve perfeitamente. Repeti argumentos, esbracejei, indignei-me uns bons minutos. A funcionária continuou de olhos esbugalhados e voltou a encolher os ombros. «São as ordens que tenho, o que é que quer que eu faça?» «Não faça nada», disse em voz baixa enquanto descia as escadas, «não faça nada que realmente não é preciso».
Enervações à parte, é óbvio que voltei dois dias depois, com todos os carimbos e assinaturas bem legíveis. Mas não foi fácil. A princípio, olharam-me de lado num café e num oculista, aparentemente «escaldados» com más experiências anteriores. No mini-mercado, disseram logo que não tinham tempo nem paciência para me atenderem. O que me safou foi o ar de bom rapaz, acho eu. Isso e a compreensão do gerente de uma loja de móveis da minha rua, bem como a simpatia do dono de uma boutique de roupa que fica mesmo ao lado. Safei-me com sorrisos e muitos salamaleques. «Por favor, é mesmo aí que tem de assinar, obrigadinho, afinal de contas vamos ser vizinhos, não é?». Pois é. E se eu tivesse outra cor de pele, um aspecto menos composto, umas olheiras de toxicodependente, um sotaque ucraniano? Será que conseguiria os malditos carimbos? Não perguntei isto à funcionária, claro, mas tenho a certeza que ela encolheria, mais uma vez, os ombros.
A odisseia não ficou por aqui, talvez porque existe uma espécie de lei de Murphy a pairar na minha relação com os trâmites burocráticos: o que pode correr mal, corre mesmo mal. Veja-se o caso da nova carta de condução. Quando me chegou às mãos, vinha errada: mantendo a minha morada antiga (aquela que eu pedi para mudar) mas com o código postal da nova! E casos destes repetem-se com uma frequência assustadora. Ao abrir conta num banco, por exemplo, pedi o respectivo cartão. As semanas passaram; nada. Fez-se uma segunda via e uns dias depois chegaram, quase ao mesmo tempo, os dois cartões: o pedido e o perdido. Ou seja, houve mais plástico cunhado em vão, mais desperdício, mais lixo e mais energias desperdiçadas, a juntar à nova carta de condução que não chegou a servir para coisa nenhuma.
Só porque a paciência tem limites, poupo-vos aos detalhes de outras desventuras porque passei, desde a transferência bancária que ficou bloqueada porque alguém digitou mal o meu número de conta (mas por que raio haveremos de arcar sempre com a incompetência dos outros?) ao mês e picos que fiquei à espera de gás – com manhãs e tardes perdidas por conta das equipas de peritos que estudaram, pormenorizadamente, a fuga oculta, e das empresas sub-contratadas para fazerem outra canalização, e das fiscalizações que nunca, mas nunca, podem ser para o dia seguinte.
Talvez eu tenha muito azar. Ou então uma espécie de malapata com os aspectos materiais da vida. Não me parece, contudo, que seja o único. À minha volta, ouço muitas histórias semelhantes. Histórias de pessoas perdidas em labirintos de papel, lutando pela sobrevivência em notários, repartições e conservatórias, abrindo garrafas de champanhe sempre que conseguem resolver o mais insignificante e mínimo dos assuntos. Histórias de desespero perante a máquina pesada do Estado, histórias da fúria legítima de cidadãos cumpridores a que ninguém dá ouvidos, histórias dos muitos dias que se esfumam com a senha n.º 578 na mão.
Certa vez, para me acalmar, um zeloso manga-de-alpaca apelou ao meu bom-senso, ao meu conformismo: «A mecânica da coisa é mesmo assim, amigo, não vale a pena exaltar-se.» Acontece que o problema é precisamente esse. Existe uma mecânica da coisa pública que serve apenas para esmagar o cidadão. Uma mecânica perversa, alimentada há muitos anos por um desleixo congénito que só conduz à mediocridade e ao imobilismo. Uma mecânica capaz de castigar quem não preencheu convenientemente – e com tinta preta – a alínea f) do modelo B («alto lá, olhe que assim não lhe posso dar seguimento ao processo»); ao mesmo tempo que fecha os olhos aos mais inconcebíveis crimes de colarinho branco (recorde-se o escândalo das prescrições judiciais ou a nunca travada evasão fiscal, que deixa impunes os que ganham muito e nada declaram).
Quando se lêem os relatórios da Comissão Europeia sobre as fragilidades da economia portuguesa, quando se questiona o porquê da baixa produtividade nacional e da lentidão com que respondemos às crises, era bom que alguém se lembrasse desta «mecânica da coisa», terrível e oculta como a fuga de gás da minha casa. Enquanto não se fizer algo que a elimine de vez, bem podem os candidatos a primeiro-ministro passear-se pela Europa, orgulhando-se da pronúncia de Tony Blair quando os chama pelos nomes próprios. Não conseguirão absolutamente nada. Portugal é como a funcionária da junta de freguesia. Não quer chatices, só cumpre ordens. No intervalo para almoço, faz malha enquanto debica uma carcaça com queijo e descasca as três tangerinas guardadas num saco de plástico, dentro da gaveta. Pica o ponto às cinco em ponto, Portugal. Só não quer que o chateiem. E se alguém reclama ou lhe pede satisfações, encosta-se ao balcão e repete que a «mecânica da coisa, amigo, é mesmo assim».

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

Uma volta pela cidade

O rapaz que vende figos. Estava encostado à parede, na esquina da Praça de Londres com a Av. de Paris. Cabelos longos, barba rala, pernas bambas, roupa imunda, o olhar baço, as mãos a tremer. Ao passar por ele, as pessoas viravam a cara, seguiam em frente, diziam «coitado, mais um farrapo humano». Eu nunca o tinha visto por ali. À distância, do outro lado da rua, pus-me a observar. Vi as manchas de sujidade no casaco, os sapatos com as solas amarradas por cordéis, o saco de plástico cheio de beatas, a ligadura amarela (de pus?) no tornozelo esquerdo. Vi o rosto destruído sabe-se lá porque infernos, doses maradas, repentinas saudades de casa, insónias, crises de abstinência. Não vi nada de novo: só o cenário da degradação absoluta, só um fantasma igual a todos os outros fantasmas que se cruzam connosco na rua ou nos pedem uma moeda quando estacionamos o carro, um daqueles fantasmas que aprendemos a ignorar. Mas vi outra coisa: junto aos seus pés, um cesto. Um daqueles cestos como já não se encontram nas cidades. Um cesto de vime, com figos lá dentro. Figos pretos, maduros, deitados num tapete de folhas muito verdes. Em papel pardo, escrito com letra infantil, o preço: 50$00/kg. Houve qualquer coisa que me comoveu naquela figura cambaleante, naquele rapaz que tentava, apesar de tudo, oferecer algo em troca da piedade alheia. Aproximei-me, ainda a pensar como é que ele pesaria os figos sem balança. Mas não cheguei a pedir nada. À minha frente, o rapaz adormecera, em pé. Baixei-me e encostei o cesto à sua perna direita, para que sentisse o toque, para que não se deixasse roubar. Os figos cheiravam bem. Virei costas e afastei-me.

Diálogo escutado numa rua da Baixa. «Este ano vai ser diferente, garanto-te»; «Diferente porquê?»; «Vou pôr ordem na minha vida, vou deixar-me de loucuras, vou emagrecer, vou rectificar as asneiras que fiz no passado»; «Pois, pois, isso é o que toda a gente diz e depois ninguém cumpre. O que é que fizeste de concreto?»; «Olha, comecei por mudar de casa»; «Não me parece mal, não senhor. E em que zona da cidade fica a casinha?»; «Aqui em cima, no Bairro Alto»; «Porreiro. Mas vê lá se não é ao pé dos bares…»; «Já te disse que vou deixar-me de loucuras, não te preocupes»; «’Tá bem, estou para ver. Qual é a rua?»; «É a rua da Emenda»; «A rua da Emenda?» «Sim, a rua da Emenda. Porquê?» «Tem graça»; «O que é que tem graça?»; «Rua da Emenda, não percebes? Queres corrigir a tua vida e vais morar para a rua da Emenda»; «Hmmm, não tinha pensado nisso. Se calhar é um sinal…»; «Se calhar é»; «Ainda bem que me chamaste a atenção. Rua da Emenda. É curioso, sim senhor. Não tinha pensado nisso».

Naftalina. O homem entrou na carruagem do metro e sentou-se à minha frente. Talvez 60 anos, bom porte, óculos de aros finos, mãos delicadas. No rosto, a expressão feliz de quem se exibe ao mundo. Um contentamento secreto, uma espécie de júbilo atirado à cara dos outros. Olhei melhor, tentando perceber a razão daquele sorriso. Se calhar este é o dia mais feliz da sua vida, por motivos que nunca conhecerei: o casamento de um filho, o nascimento de um neto, outra coisa qualquer. Ou então acabou de descobrir o amor verdadeiro, passados tantos anos, e vai agora ao encontro da amante, sentindo que renasce só por estar ao pé dela. Ou então… Foi nessa altura que senti o cheiro a naftalina, muito forte. Olhei outra vez para o homem e para a sua roupa. Com as mãos, ele endireitava, orgulhoso, as lapelas do sobretudo de couro preto. Um sobretudo com estilo e bom corte, antigo. Era dali que vinha o cheiro, tive a certeza. Mas o homem, talvez por habituação, já nem o sentia. Continuava feliz, em estado de graça, sorridente, enquanto o resto da carruagem não escondia o incómodo. Era para ele que toda a gente olhava. Para ele não, para o sobretudo. O homem sorriu mais ainda, compreensivo. Ao sair, três paragens depois, indiferente aos suspiros de alívio nas suas costas, quase aposto que murmurou baixinho: «Cambada de invejosos».

Azul-turquesa. Num jardim, dois velhotes lêem o jornal. Um deles dobra as folhas e diz: «Ouve esta, ó Lopes, parece que os cientistas descobriram que a cor do universo é azul-turquesa.» Olhando para a copa das árvores, o sr. Lopes responde: «Grande coisa, isso já eu sabia há muito tempo.» O outro parece espantado: «Já sabias?» O sr. Lopes levanta-se e sacode as calças: «Claro que sabia.» O amigo encolhe os ombros e fica a vê-lo caminhar na direcção de uma senhora muito frágil. É a sua mulher, adivinha-se. Tem uns setenta anos, cabelo todo branco e olhos claros. Olhos azul-turquesa.

[Textos publicados no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

O afegão intranquilo

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, em contraponto, um comerciante gentil capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio que secou de vez (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.

Terra e Cinzas. É este o título do livro que narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema, uma editora com um enorme sentido de oportunidade. Ou será de oportunismo? Se não fosse Bin Laden e o mullah Omar, se não fosse a guerra e as reportagens em directo de Cabul, se não fosse esta curiosidade mórbida por tudo o que se passa naquela calcinada waste land, o que aconteceria a este livrinho precioso? Estaria agora na banca das novidades, em todas as livrarias?
Rahimi, o autor, exilou-se aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. Chegada a altura, pôde escolher o objecto dos seus estudos universitários: literatura e cinema. Pelos vistos, não os desperdiçou. Além de um segundo romance, As Mil Casas do Sonho e do Terror, que será publicado na próxima primavera (na editora francesa P.O.L), assinou já diversos documentários. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de dizer que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Yassin, a criança filha da guerra, surda num mundo que se calou, é a imagem perfeita de um povo martirizado. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

Caixa negra

Esta crónica podia perfeitamente ter a forma de uma crónica normal: frases mais longas, frases mais curtas, quatro ou cinco parágrafos. / A ideia era reflectir sobre Black Box, o conto que Jennifer Egan publicou no recente número da New Yorker dedicado à Ficção Científica. / Acontece que às vezes os textos sobre os quais escrevemos desafiam-nos e provocam-nos, empurrando-nos para uma espécie de mimetismo. / Foi o caso desta narrativa, dividida pela autora em blocos curtos, capazes de encaixar no limite de 140 caracteres do Twitter. / A meio da leitura, já decidira que a minha prosa também se fragmentaria em frases curtas – embora menos engenhosas e trabalhadas, claro. / Quando escrevi sobre A Visita do Brutamontes (Quetzal), que deu a Egan o Pulitzer, também sonhei esquematizar a crítica num PowerPoint. / No agora famoso 12.º capítulo desse romance, uma rapariga pré-adolescente reduz a vida familiar a gráficos, tópicos, setas e fluxogramas. / Pode parecer mero exibicionismo técnico meta-literário, mas a verdade é que o dispositivo narrativo funciona e faz todo o sentido. / Egan está muito atenta ao impacto das novas tecnologias de comunicação na vida contemporânea e gosta de as integrar no processo de escrita. / Era quase inevitável que se decidisse, mais tarde ou mais cedo, a experimentar o efeito de serialização permitido pelo Twitter. / Fê-lo agora, consciente de que não estava a inventar a pólvora – muitos, antes dela, já criaram histórias a pensar no site do passarinho. / A diferença é que a esses outros escritores, mais obscuros, ninguém se lembraria de convidar para números especiais da New Yorker. / Antes de surgir em papel e na edição para iPad, o conto foi sendo publicado na conta de Twitter da revista, literalmente a conta-gotas. / Durante dez dias, entre as oito e as nove da noite (hora de Manhattan), o folhetim digital avançou à razão de um tweet por minuto. / Eu só o li depois de publicado na íntegra, por isso perdi o efeito da descoberta gradual, embora não a sensação de fluxo constante. / Narrada na segunda pessoa, a história é o relato aventuroso de uma missão secreta, cumprida por uma espia, algures no futuro. / Esta agente sem nome (que a autora diz ser Lulu, personagem de A Visita do Brutamontes) é uma mulher normal em circunstâncias excepcionais. / Heroína voluntária, como centenas de outras iguais a ela, o seu objectivo é zelar pela segurança dos EUA, prevenindo acções terroristas. / Destacada para o sul de França, cabe-lhe vigiar de perto um suspeito (o «Designated Mate»/«Par Designado»), homem rude e violento. / O seu papel é o da beldade que circula nas villas luxuosas sobre o Mediterrâneo, entre criminosos, como jóia que se exibe à cobiça alheia. / A acção vai sendo descrita através de instruções precisas: faz isto, evita aquilo, age desta maneira, não te distraias, regista tudo. / No fundo, trata-se de informação guardada num chip, sob o couro cabeludo, uma espécie de diário que servirá de guia para quem vier depois. / Aprendemos assim como se deve seduzir, a melhor forma de passar despercebida numa festa, como estar perto das conversas que interessam. / Ou, ainda, como suportar o sexo forçado e brutal (através de uma Técnica de Dissociação que permite separar a consciência do corpo). / Às agentes pede-se, acima de tudo, uma demonstração de amor ao seu país através do sacrifício, a «mais alta forma de patriotismo». / Nos seus corpos desejáveis foram implantados gravadores e câmaras que podem, se usados com a devida discrição, salvar muitas vidas. / O risco é enorme, mas se conseguirem sobreviver (ou se os seus corpos forem resgatados), terão lugar no panteão do «novo heroísmo». / Em si mesma, a história não tem nada de muito singular: está no domínio do thriller de espionagem, com algumas pitadas de ficção científica. / Interessante é a escrita: frases impecavelmente cinzeladas, de ritmo perfeito e discreto lirismo, as ideias aglomerando-se como células. / Todo o contrário das frases desta crónica, também elas aquém do limite twitteriano, mas incapazes, coitadas, de sobreviverem sozinhas. / A não ser esta que te envia, caro leitor, para o sítio certo: http://www.newyorker.com/fiction/features/2012/06/04/120604fi_fiction_egan.

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]

Uma piscina na Riviera

De vez em quando, faço um pequeno exercício. Levanto-me do sofá, olho para as estantes da sala e tento lembrar-me do que me levou até um determinado livro, ou do que o trouxe até mim. Há romances enviados pelas editoras; volumes de poesia comprados em livrarias independentes (algumas já falidas); literatura estrangeira que chegou um dia pelo correio, embrulhada no cartão castanho da Amazon. Mas o que me levou concretamente a escolher aquela obra, aquele autor? Na maior parte dos casos, a resposta é óbvia. Escolhi-os porque sim. Porque um clássico é um clássico. Porque dos escritores preferidos queremos sempre a obra completa. Porque alguém nos diz, à mesa do café: «Tens mesmo de ler isto.» Mas também há livros que não sei de onde vieram, que caminho percorreram, por que raio acabaram cá em casa, no meio dos outros. Alguém mos emprestou? Não faço ideia. Quando dou por eles, têm o ar comprometido dos passageiros clandestinos.
Swimming Home, de Deborah Levy, não é um desses aliens. Pertence a uma outra categoria: a dos livros que se atravessam à minha frente, que se impõem de súbito, sem que os procure, e me fazem dar graças pelos insondáveis mecanismos da serendipidade.

A primeira coisa em que reparei foi na capa. Simples, gráfica – como eu gosto. Em fundo branco, uma barra azul sugerindo a superfície da água e o título na diagonal, amarelo. Depois, intrigou-me o nome da editora: and other stories. Bom nome. Trata-se de um projecto muito recente, lançado no Outono de 2011, e que funciona por subscrição dos leitores. Quem subscreve tem direito ao nome na lista de agradecimentos, a um exemplar numerado da primeira edição de cada livro e pode ainda fazer sugestões para o plano editorial. É uma forma inteligente de criar um catálogo alternativo, capaz de assumir os riscos que as editoras mainstream não estão dispostas a correr. Por fim, o factor decisivo para lhe pegar na livraria: um texto introdutório de Tom McCarthy, sucinto mas entusiástico. Acontece que um dos romances que mais me encheu as medidas nos últimos tempos, e ao qual também cheguei por portas travessas, foi Remainder, de McCarthy (do qual já falei nesta crónica), pelo que o elogio funcionou como aqueles algoritmos dos sites que vendem livros on-line: se gostou deste, também vai gostar deste. Se o Tom diz que é bom, deve ser bom. E lá trouxe o livro de Deborah Levy, um pouco às cegas, disponível para descobrir uma autora nascida na África do Sul em 1959, igualmente dramaturga e poeta, bastante respeitada no Reino Unido mas pouco conhecida no resto da Europa.
Na verdade não me arrependi, muito pelo contrário. Sem saber ao que ia, entrei a medo, como quem experimenta a água de uma piscina. Ao fim de umas páginas, porém, quase sem dar por ela, já estava completamente mergulhado na linguagem sofisticada de Levy. A piscina, de resto, é o lugar e a metáfora central do livro. É na piscina de uma villa da Riviera francesa que se joga o equilíbrio de forças entre as personagens. De um lado, uma família inglesa de férias (Joe, o pai, poeta consagrado e bem na vida; Isabel, jornalista e mãe muito ausente, porque enviada para cenários de guerra; e Nina, a filha que aos 14 anos está prestes a ter a primeira menstruação), mais o casal amigo (patuscos donos de uma loja de antiguidades) e uma velha médica que vive na casa ao lado e assiste a tudo da varanda. Do outro, Kitty Finch, uma rapariga escultural que pinta as unhas de verde, estuda botânica, tem aspirações poéticas (veio ao sul de França para mostrar um poema a Joe) e toma banho nua na piscina insalubre, perfilando-se como uma ameaça erótica que só Isabel, ao convidá-la a ficar num quarto vago, aparentemente não vislumbrar. Dito assim, parece uma colecção de estereótipos. E é. Só que Levy pega nesses estereótipos, um a um, para os fazer implodir, vira a lógica narrativa do avesso, espalha o caos dentro e fora das personagens (sobretudo dentro). As coisas acabam mal, sabemo-lo desde as primeiras páginas, mas a forma como a tragédia se desenrola é tudo menos linear.
E os outros livros de Levy, serão tão bons como este? É o que tenciono descobrir em breve, já sem precisar dos acasos da sorte para nada.

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Um barco perdido no deserto

Descobri Craig Thompson há uns meses, quando a Biblioteca de Alice – uma nova editora de BD, chancela da Devir – arriscou a publicação em Portugal de Blankets, a muito extensa (591 páginas) e celebrada novela gráfica que mereceu os principais prémios atribuídos a este género de livro nos EUA (três Harvey, dois Eisner e dois Ignatz), elogios ditirâmbicos da crítica e o acolhimento entusiástico de mestres mais velhos (entre os quais Art Spiegelman). Como muitas das novelas gráficas mais interessantes surgidas na última década (e estou a pensar em Persépolis, de Marjane Satrapi), esta também parte das experiências autobiográficas do autor. Nascido no Michigan, em 1975, Thompson mudou-se em criança para o Wisconsin, onde viveu até sair de casa para a universidade, no final da adolescência. Em traços gerais, Blankets é um bildungsroman passado no interior de uma comunidade rústica que faz do fundamentalismo cristão o único cimento social. O protagonista, Craig, atravessa os dilemas próprios da idade, confrontando-se com os êxtases e desilusões do primeiro amor, mas sobretudo com uma crise de fé que altera a percepção do seu lugar no mundo. Nada disto é novo, nada disto é raro. Novo e raro é o modo como Thompson nos conta esta história quase anódina – criando uma estrutura narrativa em forma de mosaico (à semelhança da manta de retalhos que dá título ao livro) – e o esmero com que desenha os mínimos detalhes de cada página, explorando de forma brilhante os limites e as potencialidades da representação numa prancha de BD.

Entretanto, chegou-me às mãos Habibi (Faber & Faber, 671 páginas), publicado nos países anglo-saxónicos em finais de 2011 – ainda sem edição portuguesa, embora a Biblioteca de Alice tenha em vista o seu lançamento por cá, talvez no próximo Natal. Se Blankets já era um festim para os olhos, que dizer desta extraordinária prova do virtuosismo obsessivo de Thompson? Apostando desta vez na ficção pura e dura, Craig conduz-nos a um imaginário país oriental, onde se desenrola uma intrincada saga de amor e sacrifício, que une, afasta e volta a unir dois órfãos: Dodola e Zam. Juntando voluptuosamente as curvas da caligrafia árabe aos padrões geométricos da arte islâmica, Thompson consegue efeitos plásticos poderosíssimos e eleva a ideia de requinte gráfico a uma outra dimensão. Iniciado na ressaca do 11 de Setembro, tendo como objectivo mostrar ao público norte-americano a riqueza cultural e estética da religião muçulmana (abundam as transcrições do Corão e os exemplos das raízes comuns entre o Islão e o Antigo Testamento), Habibi é sobretudo um livro de uma inteligência visual assombrosa. Se algumas soluções nos esmagam pela sua força expressiva (caso do mergulho/fuga na página 429), outras fascinam-nos por serem tão simples. Quase no início, há uma prancha em que Dodola tenta iluminar a noite cerrada com a sua lanterna. Ela e Zam olham para a escuridão na proa de um barco e tudo nos leva a crer que estão algures no mar alto. A página seguinte, porém, mostra-nos que o navio está perdido num imenso deserto, «à tona num oceano de areia».


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É nesse abrigo que eles viverão nove anos, durante os quais Dodola, quase uma década mais velha, passa de figura maternal a irmã substituta de Zam, e depois a objecto de um desejo que as circunstâncias rocambolescas da narrativa nunca permitirão que se cumpra. Antes de ser raptada, vendida como escrava, violada e entregue ao harém de um sultão, Dodola aprende do pai, escriba, a arte de contar histórias. Não por acaso, há algo da atmosfera e desmesura ficcional das 1001 Noites neste livro que nos baralha as referências (coexiste um orientalismo paródico, fora do tempo, com visões concretas da sociedade contemporânea, em que as grandes cidades criam à sua volta um rasto de miséria humana e ambiental). Mais ambicioso do que Blankets, Habibi também está dividido em nove capítulos. Mas em vez de imitarem os retalhos de uma manta, eles correspondem aos elementos que compõem o místico quadrado mágico. Apurada e abrangente, a arte de Thompson, essa, continua essencialmente a mesma.

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

Haja Esperança!

À porta do hotel, entrámos num táxi amarelo. O motorista levou alguns segundos a perceber para onde queríamos ir e depois lá se fez ao caminho, do Lido para o centro do Funchal. Sem dizermos nada uns aos outros, pensámos que a Esperança talvez conste dos guias turísticos – afinal, trata-se de uma das maiores livrarias do mundo, com uma área superior à de um estádio de futebol e mais de 100 mil exemplares expostos – e por isso os taxistas a incluam nas paragens obrigatórias para quem visita a cidade. Engano nosso, claro. Chegados ao centro, o motorista virou-se para trás, perplexo, como quem perdeu de repente o sinal do GPS. «Acho que é por aqui», murmurou. Mas não era. Lá lhe dissemos para nos deixar perto da Universidade, algo desiludidos por se ter desfeito a inesperada história do taxista que até sabe onde fica uma livraria mítica. O resto do percurso, ao longo da rua dos Ferreiros, fizemo-lo a pé.
Entrar na Esperança é entrar num labirinto. Eu já conhecia fotografias das suas muitas salas forradas de livros até ao tecto, mas deambular por ali é outra coisa. A todo o momento, temos a sensação de que não vamos conseguir, ou querer, sair daquele dédalo de papel. Livraria de fundos no verdadeiro sentido da expressão, a Esperança não obedece às leis da rotatividade vertiginosa, que reduz o tempo de vida das novidades a poucas semanas e expulsa os clássicos para a solidão dos armazéns ou para o pó dos alfarrabistas. Tanto podemos encontrar um romance lançado há poucos dias como aquela antologia poética de um autor obscuro dos anos 70 que julgávamos esgotadíssima. E se a arrumação por ordem alfabética do primeiro nome do autor propicia desafios até a bibliófilos experientes, a melhor estratégia é uma pessoa deixar-se perder entre as estantes, à mercê dos acasos da serendipidade literária. Aqueles que colocam, por exemplo, os Objectos Sexuais no Espaço, de Maria Regina Louro, a poucos metros dos Objectos Sexuais nos Céus, de Paula Kane e Christopher Chandler. Ou As Mãos e as Luvas, de João Gaspar Simões, relativamente perto de A Mão e a Luva, de Machado de Assis.
Na Esperança, os livros não ficam escondidos. Todos mostram a cara, que é como quem diz a capa, de frente para o futuro leitor. Ora isto exige o recurso a um sofisticado aparelho tecnológico chamado mola. Paredes acima, ou nas superfícies laterais das estantes metálicas, os livros sustêm-se – e por vezes parecem levitar – presos por molas que deixam marcas na superfície do papel, discretas «tatuagens» (como lhes chamou Paulo Sérgio BEJu numa das sessões do Festival Literário da Madeira) que passam a ser marcas de água, invisíveis carimbos que assinalam a proveniência. Vejo agora, já em Lisboa, esse vinco no exemplar de Conto é como quem diz (Europress), a narrativa curta publicada por Isabela Figueiredo em 1988, quando ainda assinava Isabel de Almeida Santos, mais de vinte anos antes do Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novus). Também o vejo no Garden Party de Katherine Mansfield (Relógio d’Água, 1985) e na edição brasileira de A Morte do Leão – Histórias de Artistas e Escritores (Companhia das Letras, 1993), um volume com cinco contos de Henry James e um título de mau augúrio para o Sporting Clube de Portugal, que naquela mesmíssima noite jogava em Manchester, contra o poderoso City, a passagem à eliminatória seguinte da Liga Europa.
À saída, ao pagar os livros, reparei num folheto em que dezenas de livreiros prestam homenagem a Jorge Figueira de Sousa, neto do fundador da Esperança e actual gestor deste espaço único. Aos 80 anos, ele continua a defender com unhas e dentes um modelo de livraria que a mera lógica comercial sugere ter os dias contados. O fecho recente da Livraria Portugal, no Chiado, paira ainda na memória como uma ameaça. Resta-nos então esperar que a Esperança se aguente, que a Esperança seja mesmo a última a morrer; ou melhor, que não morra de todo. Na verdade, os maus augúrios nem sempre se cumprem: umas horas após a visita à labiríntica Esperança, contra todas as expectativas (menos as minhas), o Sporting sobreviveu a uma equipa multimilionária e encontrou-se com a glória em Manchester.

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

Voltar a Borges

Aconteceu-me com Jorge Luis Borges algo que não voltou a acontecer com mais ninguém. Quando o escritor argentino morreu, em Junho de 1986, eu tinha 14 anos e uma apetência voraz por tudo o que fosse «matéria escrita». Lia muitos livros (aproveitando as tardes infinitas dos infinitos verões do início da adolescência), mas também lia de ponta a ponta todos os jornais que me fossem parar às mãos. Para o vespertino Diário de Lisboa nunca reservava menos do que duas ou três horas diárias (quando finalmente o dobrava e ia lavar as mãos, antes do jantar, o lavatório enchia-se de tinta negra); os sábados, passava-os até meio da tarde a devorar com método, sempre pela mesma ordem, os vários suplementos do Expresso, não suspeitando que um dia viria a escrever naquelas páginas. Creio que foi pelo DL que soube da morte de Borges. Na altura eu acompanhava religiosamente o Mundial de Futebol no México (Portugal fora eliminado por Marrocos três dias antes), mas de súbito passou a existir outro argentino prodigioso, para além de Maradona.
Nos obituários e textos evocativos, eram recordados o génio literário, a erudição, a vida rodeada de livros por todos os lados, a cegueira, os temas obsessivos (bibliotecas, tigres, eternos retornos), bem como as sinopses de alguns dos melhores contos. Lembro-me de pensar: «Eu tenho de ler isto. Eu tenho de ler Borges.» Ao mesmo tempo, evitei os ímpetos do entusiasmo. Não sei porquê, meti na cabeça que era demasiado cedo para entrar em tão fabuloso labirinto. Inconscientemente, estava a tentar fugir à melancolia de Bernardo Soares, que no Livro do Desassossego admite: «ter já lido os Pickwick Papers é uma das grandes tragédias da minha vida». Tragédia porque nunca mais voltamos a ler pela primeira vez um livro amado (como nunca mais voltamos a ouvir pela primeira vez os últimos quartetos de Beethoven). Não quis desperdiçar a abordagem inicial a um autor que poderia vir a ocupar um lugar importantíssimo, senão o lugar cimeiro, no meu panteão literário (como veio a acontecer). Por isso adiei Borges. Senti a urgência de o ler aos 14 anos, mas esperei pelos 18, como quem aguarda a maioridade para descobrir os grandes prazeres.
Já na Faculdade de Ciências, um amigo do curso de Biologia andava pelos corredores da Escola Politécnica com Borges debaixo do braço, não escondendo um sorrisinho metafísico. Não aguentei mais. Atirei-me de cabeça. Pedi-lhe emprestada a Nova Antologia Pessoal (Difel), depois o Ficções na edição da Livros do Brasil (o maior choque térmico intelectual da minha vida). Fiquei apanhado de vez, irremediavelmente convertido à causa borgesiana. Depois, só descansei quando devorei tudo, primeiro livro a livro (em edições baratas da Alianza, compradas nas idas a Espanha), mais tarde nos quatro volumes das Obras Completas, publicadas pela Teorema (1998-1999). Borges é daqueles autores a que podemos sempre regressar, uma e outra vez ao longo da vida, porque a sua escrita – ou a percepção que dela temos – evolui connosco, vai reflectindo aquilo que em nós se altera com a acumulação de experiências, de leituras e conhecimentos entretanto adquiridos. Ler Borges aos 40 anos não é a mesma coisa do que ler Borges aos 18 (ou, claro está, aos 14). Tal como não será lê-lo aos 86.
Agora que a Quetzal inaugurou uma colecção Jorge Luis Borges, O Livro de Areia voltou à minha mesa de cabeceira. Há dias reli o primeiro conto: O Outro. É uma variação sobre o célebre Borges e Eu (de O Fazedor). Em 1972, o narrador Borges senta-se em Cambridge (Boston), diante do rio Charles, e encontra-se consigo mesmo, isto é, com o Borges de 1918, sentado num banco em Genebra, «a uns passos do Ródano». Heraclito e o rio do tempo são evocados, claro. O Borges de 72, maduro e reaccionário, olha com benigna condescendência para o jovem cujos versos adolescentes pretendem cantar «a fraternidade de todos os homens», essa «abstracção». E remata: «Só os indivíduos existem, se é que alguém existe. “O homem de ontem não é o homem de hoje”, sentenciou certo grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou de Cambridge, somos talvez a prova disso.» Nós quatro, diria eu.

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Aproximações ao Assis

1. Ainda hoje não me perdoo por não ter conhecido o Assis. O Assis Pacheco. O Fernando Assis Pacheco. No princípio da década de 90, ele era mais do que uma referência para quem ia aprendendo, pela tarimba (como então se dizia), os rudimentos do ofício. Ele era a própria ideia do repórter: o homem capaz de arrancar histórias à realidade quotidiana e transformá-las em crónicas brilhantes – ou em notícias que eram sempre mais do que uma pirâmide invertida. Diziam-me: «Tu tens de conhecer o Assis.» O Assis bom garfo, o Assis leitor omnívoro, o Assis atento ao que fazem os mais novos, o Assis camarada, tão lúcido e generoso. «Tu tens de conhecer o Assis.» E eu queria conhecer o Assis. Trabalhávamos a uma distância de poucos quarteirões, na mesma avenida lisboeta. Houve almoços colectivos apalavrados, promessas de copos no Bairro Alto, outras oportunidades para um encontro que fui adiando para um dia destes. O dia nunca chegou. E eu, sei-o bem, não fiz tudo para que chegasse. Depois, no final de 1995, deixou mesmo de poder chegar. Ainda hoje não me perdoo por não ter conhecido o Assis, o Assis Pacheco, o grande Fernando Assis Pacheco.

2. Mas a poesia. Ele escreveu tantas outras coisas, quase todas magníficas (como Walt ou Os Trabalhos e Paixões de Benito Prada). Mas a poesia. Volto à Musa Irregular (ASA, 1996). Ninguém como o Assis trouxe para o poema, tão crua e horrenda, a Guerra Colonial: «Li tudo sobre a morte. / Escrevi sobre a minha / e depois embebedei-me. / A bala vem pelo ar / (ruído onomatopaico) e / crava-se, cava, ceva-se / nessas carnes. Era a minha. / Tive uma bala marcada: / à última hora telefonei / a desistir. ‘da-se!». Que desassombro brutal diante do inominável. Que retrato à queima-roupa de uma sombra, de uma «luz negra» que voltaria a rondar, anos mais tarde, sem necessitar de balas, o corpo subitamente frágil, a mais falível das máquinas. E depois o amor. Dito assim, em três versos que resumem tudo: «Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo / da escuridão do mundo. / Porque tudo se escreve com a tua letra.»

3. Quando me lembro do Assis, lembro-me de uma fotografia. Ele de pé, no meio de uma estrada de terra, ao fundo erva e arbustos, um céu imenso por cima. Encostada, tem-te-não-caias, uma bicicleta das antigas, pasteleira de enrijecer os músculos das pernas. O Assis: enorme, barba a embranquecer, um sorriso de gozo a iluminar-lhe a cara toda, o punho direito muito fechado, os braços a fazerem um manguito daqueles. Um manguito com tudo o que um manguito deve ter: força, determinação, amplitude, bravura. Um manguito de quem ainda sabe muito bem, ou nunca deixou de saber, como se manda dar uma curva.

4. Assis morreu à porta da Buchholz, de repente. Vinha a sair, feliz, com um saco de livros comprados após a sua habitual ronda pelas novidades editoriais. Meses mais tarde, uma associação de existência efémera (chamava-se Locomotiva Azul) organizou uma homenagem ao Assis no Bairro Alto, numa tasca, como tinha de ser. Uns dias antes, aproveitando a estadia em Lisboa de Gonzalo Torrente Ballester, fui ao hotel onde se hospedava o escritor galego recolher um depoimento de viva voz, para ser ouvido na homenagem. Recordo-me perfeitamente de Don Gonzalo, no silêncio sábio dos seus oitenta e muitos anos, à procura das palavras certas. Ficou quieto, as mãos tremendo ligeiramente, olhos fechados atrás das lentes espessas de míope. Por fim, pigarreou e disse: «Morreu numa livraria não foi? Então teve a morte mais bela a que um escritor pode aspirar. Morreu junto aos livros, no seu posto, como o soldado morre no campo de batalha.»

5. À noite, os meus filhos gostam de ouvir audiolivros na cama, enquanto esperam o sono. Da vasta colecção, um dos discos mais pedidos é o das Memórias de um Craque (Boca), as crónicas de futebol e nostalgia que o Assis publicou em 1972 no jornal Record – e que o Nuno Moura lê de forma insuperável. A Alice recita de cor deliciosos excertos («De como fiz a minha iniciação desportiva, hesitando entre a arte de guarda-redes e a de pedróbolo da quinta do Lopes…»), mas os meus filhos ainda não sabem quem foi o Assis. Um dia destes, conto-lhes. Mas conto mesmo.

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Uma entrevista com E. L.

Foi em Março de 1998, poucas semanas antes da abertura da Expo’98. Num domingo à tarde, sentei-me à conversa com Eduardo Lourenço, então prestes a fazer 75 anos. Pretexto: uma entrevista de fundo para o suplemento DNA, do Diário de Notícias. Lembro-me perfeitamente do átrio do hotel lisboeta, com cadeirões confortáveis, à média luz. Em surdina, chegava da recepção um relato de futebol. O professor recebeu-me com um aperto de mão firme, rosto ameno, gestos cordiais. Vestia casaco castanho, calças cinzentas, gravata malva. Antes de nos sentarmos a uma mesa do canto, enquanto eu testava o gravador e a microcassete de fita castanha, apoquentou-se. Apalpando os bolsos, admitiu não saber dos óculos: «Acho que os deixei no Vá-Vá» (o café da Avenida de Roma onde passara parte da manhã). Ao aperceber-se da agitação, um empregado aproximou-se, lembrando que vira «o senhor professor» a subir para o quarto com os óculos postos. Eduardo Lourenço pediu desculpa, dirigiu-se rapidamente para o elevador e demorou um quarto de hora a voltar ao átrio. Já a luz vermelha do gravador se acendera, quando rematou: «Uma parvoíce, isto dos óculos, na verdade não precisava deles para falar, pois não?»
A bonomia do primeiro contacto prolongou-se pelas quatro horas seguintes. Quatro horas de discurso contínuo, de elocubrações e memórias, de inteligência e lucidez. O mais espantoso de tudo foi ver como Eduardo Lourenço, nunca se assumindo como filósofo (apenas como «pensador»), exercia à minha frente a arte de reflectir. As suas frases tinham uma frescura inesperada, como se estivessem a ser ditas pela primeira vez (e algumas estariam mesmo). Entre ideias mais fortes, havia por vezes longas pausas, como se os nexos entre elas requeressem o tempo de serem devidamente ponderados. Coisa extraordinária, esta: ouvir um pensador no acto de pensar. Aqui e ali, um sorriso sublinhava as palavras que se arredondavam em soundbytes. Por exemplo: «Portugal não sairá nunca de si.» Ou: «Este é um país pequeno mas que tem um imaginário hiperbólico.» Ou ainda: «A Arte, se virmos bem, acaba sendo a verdadeira Internet de Deus. É o lugar onde ao mesmo tempo navegamos e somos navegados.»
Lourenço falou de Camões e Pessoa, de Husserl e Kierkegaard, as suas grandes referências literárias e filosóficas. Lamentou não ter sido médico ou historiador, em vez de transportar em si a consciência de um trabalho interminável: «A minha vida é não produzir sentido. É uma vontade de dar essa ideia de sentido, algo de que me aproximo como de um objecto quase idolátrico. Era Hegel que dizia ter sido condenado por Deus a ser filósofo. Condenado porquê? Porque é uma tarefa infinita.» E lembrou a infância, «esse espaço dentro do qual se coloca algo de parecido com a felicidade», os primeiros anos na aldeia beirã onde nasceu, S. Pedro de Rio Seco, e que hoje em nada se assemelha ao que era na década de 20. «Entre as diversas temporalidades, a mais difícil de pensar é a do nosso próprio tempo, porque de algum modo é ele que nos pensa a nós», resumiu, vagamente comovido.
Houve também espaço para pequenas surpresas. A confessada admiração por Corto Maltese, «que andou pelo mundo fora em viagem»; admiração com um toque de inveja («infelizmente sou pouco aventureiro»). Ou o entusiasmo ao evocar o «erotismo platonizante» de Ingrid Bergman: «Além da beleza inacreditável, há nela uma espécie de inocência, uma espécie de aura, qualquer coisa que se assemelha a uma aparição.» O cinema, de resto, tem uma carga simbólica tão poderosa que Lourenço lhe atribui a origem do domínio cultural americano: «Foi no grande ecrã que os americanos criaram a América. Atribuíram-se um imaginário e um passado que não tinham.»
No fim das quatro horas de conversa, enquanto agradecia a generosidade do tempo dispensado, perguntei-me: «Caramba, como é que um homem de quase 75 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» Catorze anos depois, a pergunta mantém-se: «Caramba, como é que um homem de quase 89 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» A resposta também se mantém: não sei. Não sei mesmo. Mas assistir à persistência de tamanho brilho intelectual é um consolo para quem vê diariamente a estupidez a ganhar terreno em todo o lado.

[Texto publicado no número de 2012 da revista Correntes d’Escritas]

Os dias balcânicos

3 de Abril de 2002
Entre Lisboa e Zagreb, o aeroporto de Frankfurt. Passadeiras rolantes intermináveis, multidões que arrastam malas com rodinhas. Em muitos rostos, o pânico apressado de quem teme perder uma ligação. Sigo as setas, entro em elevadores, saio de elevadores, viro aqui, contorno ali, não me perco uma única vez. Ainda assim, chego ao gate B31 mesmo em cima da hora. Já chamam os retardatários do voo para a capital croata. E se tivesse errado uma curva do percurso? Onde estaria agora?
Ao meu lado, junto à janela, um eslavo: olhos claros, bigode, inglês rudimentar, anel com pedra vermelha, relógio dourado. Observa-me. Eu também o observo. Igual desprendimento. É um olhar de soslaio, sem curiosidade suficiente para tentar imaginar de onde vem e o que vai fazer o outro. No meu caso, não quero verdadeiramente saber se ele pertence a uma organização criminosa responsável por tráfico humano ou a um departamento do Ministério do Turismo. Assim que o avião descola, ele adormece e ressona baixinho, enquanto eu leio uma reportagem sobre um violador vampiro, no USA Today que oferecem a bordo.
À minha espera, o José Luís Peixoto. Depois de trocar euros por kunas (a kuna é uma marta, animal cuja pele servia de moeda para pagar impostos na Idade Média), dirigimo-nos para a casa de Vanja, a namorada croata do JLP, amiga comum. Deixo as malas no apartamento pequeno da rua Bleiweisova e saímos para um primeiro passeio. O eléctrico azul deixa-nos no centro. Andamos a pé, sem rumo, durante meia hora. Depois, esperamos a Vanja numa esplanada da Trg Marsala Tita (Praça Marechal Tito). Ela chega sorridente, senta-se, bebe connosco. Como sempre, falamos em inglês. Explica que Zagreb quer dizer «behind the hill», atrás da colina. Assim que pomos a conversa em dia, leva-me à Algoritam, uma das melhores livrarias da cidade. Os meses que passou em Portugal foram suficientes para saber quais são as minhas prioridades.

4 de Abril de 2002
Céu cinzento. Visita à Catedral. Sandes de panado com molho tártaro. Consulta dos e-mails no cibercafé Sublink. Mercado de flores em Splavnica. Na praça principal, debaixo do relógio, um grupo de peruanos tocava a música do filme Titanic em flautas de pã.

5 de Abril de 2002
Sexta-feira. Num rent-a-car, alugamos um Opel Astra verde até segunda, ao meio-dia. Pela auto-estrada são 120 quilómetros até Karlovac, a cidade dos quatro rios, onde a Vanja nasceu. Durante a viagem comemos chocolates e ouvimos, no rádio mal sintonizado, um equivalente croata da música pimba. Na paisagem, marcas da guerra: casas em ruínas, arrasadas por obuses; muros cravados de balas. Ninguém esqueceu a operação Tempestade de 1995, durante a qual o exército croata expulsou a minoria sérvia da Krajina.
Em Karlovac, tomamos a estrada para o parque natural de Plitvice. É ali, perto do maravilhoso emaranhado de lagos e cascatas, que fica a casa da mãe da Vanja. Boa anfitriã, oferece-nos o jantar e, antes disso, aguardente de ameixa. Com típico humor eslavo, deixa a garrafa aberta em cima da mesa da cozinha: «Se ficarem já bêbedos, não tenho de os aturar.» À refeição, comemos cevapi (uma espécie de kebab) e folhados de cogumelos. Sobremesa: um delicioso bolo de creme e chocolate. Ao serão, TV polaca e o filme Carrie, dobrado em croata.

6 de Abril de 2002
Destino: Bósnia. Saímos em direcção à fronteira, com Bihac no horizonte. Na janela do carro, cerejeiras em flor. A seguir à montanha, planície. Para lá da fronteira, começamos a ver os minaretes das mesquitas. Almoço na margem do rio Una. Uma varanda sobre as águas, borrego assado com batatas e vinho esloveno (Quercus). Dragana, a irmã de Vanja, acompanha-nos no passeio e conta a história de como os sérvios de Banja Luka alteraram a composição química do rio, de forma a que este ficasse azul e não verde (a cor dos muçulmanos). Já na estrada, cruzamo-nos com um casamento: 20 carros em fila, os capots cobertos de flores, todos a apitar freneticamente. Na Croácia, onde estão flores estariam bandeiras nacionais.
Em Bihac, há papéis necrológicos pendurados nas árvores: verdes para os muçulmanos; pretos para os católicos. No supermercado, recebemos o troco em convertible marks. Muitos buracos de balas nas paredes, entre placas que lembram os partizans caídos em combate na II Guerra Mundial. Numa rua do centro, duas meninas de dez anos, ou talvez menos, passam de mão dada, a cantar. É uma melodia alegre, saltitante, infantil. Peço à Vanja que me traduza a cantilena. Quando ela traduz, estremeço. O refrão só diz isto: «Viola-me / Mata-me / É tudo a mesma coisa.»

8 de Abril de 2002
Regressámos a Zagreb ontem à noite. Hoje de manhã, antes de entregar o carro, ainda fomos dar umas voltas pela cidade. No cemitério onde fica a campa do muito amado e muito odiado presidente Tudjman, Vanja fala-me da situação política e do peso sufocante do nacionalismo doentio.
Às 19h30, uma experiência daquelas que nunca mais se esquecem. Numa sala apinhada com perto de 2000 pessoas, Cesária Évora dá um concerto. Ritmo creoulo, melancolia na voz rouca da diva descalça (como será que se diz «diva descalça» em croata?). Por um acaso da sorte, oferecem-nos algumas das poucas cadeiras instaladas no palco, sob uma luz violeta. De onde estamos, vemos os músicos de costas, a enorme Cesária abanando as ancas de cá para lá, o maravilhamento de um público que se rendeu e no fim, em apoteose, aplaudiu durante mais de 15 minutos.

9 de Abril de 2002
Dia feio, sombrio. Pombos a planar sobre a praça. Chapéus-de-chuva. Na livraria Algoritam, descubro um poema de Bukowski no livro The Last Night of the Earth. Começa assim: «it / takes / a lot of // desperation // dissatisfaction // and / disillusion // to / write // a / few / good / poems.» Não me sinto desesperado, nem insatisfeito, nem desiludido. Mas também não escrevo poemas. Olho pela janela ampla do Kavana Dubrovnik. O empregado, um careca rezingão, traz-me um café duplo quando lhe pedi apenas um trivial kava espresso, uma bica normal. Quando desfaço o equívoco, fica furioso e murmura palavras cheias de sílabas que parecem arestas (também devem ferir pelo seu significado, suspeito).

10 de Abril de 2002
Continua a chuva. Vou aos museus. Deambulo pela cidade. Nos bairros do centro, paira ainda a atmosfera do império austro-húngaro. Estou sempre à espera de me cruzar com senhores de jaqueta e bigode torcido, acompanhados por senhoras de sombrinha com o cãozinho pela trela, casais de braço dado, caminhando airosos ao som de valsas de Strauss. As praças são largas; os jardins, geométricos (cercados de plátanos). É uma espécie de Viena com pátina, decadente mas sedutora. Aqui não se detectam sinais da guerra, mas há fachadas enegrecidas, paredes periclitantes. A pobreza existe, só que discreta. Ontem apercebi-me de que ainda não vi um único arrumador de automóveis.

11 de Abril de 2002
Viagem de um só dia à Eslovénia. Algumas horas de comboio até Ljubljana, uma capital-miniatura, belíssima. Faço a ronda das livrarias. Numa delas, com os tectos muito altos, compro uma edição eslovena de Alice no País das Maravilhas, a pensar na colecção lewiscarrolliana de uma amiga. No cimo de um monte, o castelo é omnipresente e tem qualquer coisa que me faz pensar em Kafka. Bebo um chá quente no Café Nostalgia (cheio de ícones da antiga Jugoslávia). Compro seis CDs de música clássica a baixo preço e fico meia hora a comer amêndoas junto à ponte tripla. Regressamos de noite. No comboio escrevo um poema para a Vanja. Começa assim: «Dentro da escuridão / há uma paisagem / submersa: árvores, / ossos, rios, pedras, / a memória dos mortos, / o fogo gasto de uma estrela».

12 de Abril de 2002
Volto à Algoritam, descubro a Mladost. É estranho percorrer as bancadas cheias de livros escritos numa língua que desconheço. Volto ao Sublink e passo por outros cibercafés: o Charlie’s, o @vip. Volto ao Kavana Dubrovnik, ao Mala Kavana. Ainda não passaram dez dias sobre a minha chegada a Zagreb e já tenho hábitos, rotinas, lugares a que me sabe bem regressar. Num dos cafés, desafio outra vez Bukowski: «Eu sei que o poema / se faz de ar e fumo, / arquitectura abstracta, / gestos cegos de tão lúcidos.» É um esboço que continua por mais uma dezena de versos. Hesito: amarroto o papel ou guardo-o? [Quase uma década mais tarde, a hesitação mantém-se.]

13 de Abril de 2002
Amanhã, voo para Lisboa. A viagem está a chegar ao fim. «Não te podes ir embora sem subir ao Sljeme», diz-me a Vanja. O Sljeme é a montanha que fica junto a Zagreb, a tal «colina» atrás da qual a cidade se esconde. O bilhete do teleférico custa 15 kunas. Subimos devagar, suspensos, encosta acima. Lá no topo, fotografias que provarão, um dia, que estivemos aqui. Aqui em Zagreb. Aqui em 2002. Supostamente, a vista da cidade é ampla, bela, de tirar a respiração. Mas hoje há nevoeiro. Um nevoeiro denso, placa branca a meia altura da montanha. Zagreb está lá em baixo, escondida, invisível, como se já tivesse dito adeus muito baixinho, como quem se esconde no último minuto porque não gosta de despedidas.

[Diário de viagem publicado na última página da edição de hoje do Jornal de Letras]

Boswell em Utrecht

Em Agosto de 1763, aos 22 anos, James Boswell partiu de Inglaterra no navio Prince of Wales, com destino à Holanda, onde se matricularia em estudos de Direito na cidade universitária de Utrecht, por insistência de Lorde Auchinleck, seu pai. Na verdade, o desterro na Europa representava um castigo pelo facto de Boswell, no ano anterior, ter dado largas à sua propensão para a vida dissoluta e o comércio carnal com prostitutas. Ainda na flor da idade, impunha-se que James moldasse o seu carácter, afastando-se das más tentações com o empenho e o estoicismo de um verdadeiro gentleman. Curiosamente, poucos meses antes de partir dera-se o encontro fundamental da sua vida, quando conheceu Samuel Johnson, o brilhantíssimo homem de letras, ensaísta, crítico literário e lexicógrafo, 31 anos mais velho, de quem se tornaria amigo e, algumas décadas depois, biógrafo (deixando para a posteridade The Life of Samuel Johnson, considerada uma das melhores biografias de todos os tempos, se não a melhor).
Ainda em Londres, sob a orientação de Johnson, Boswell quis dedicar-se seriamente ao estudo e à escrita, como forma de aperfeiçoamento moral, mas também para controlar a libido e os ataques de tristeza, ou langor, que por vezes o deixavam prostrado. A perspectiva de uma vida nova na Holanda provocou-lhe alguma ansiedade e talvez por isso Johnson acompanhou-o até Harwich, ficando na praia a despedir-se daquele rapaz instável, até que o navio desapareceu para lá da linha do horizonte. Após o desembarque em Roterdão, Boswell começou a sentir-se deprimido mal chegou a Leyden. O sentimento não melhorou durante as nove horas da viagem até Utrecht, no ritmo lento de uma barcaça puxada por cavalos. A primeira coisa em que reparou, ao chegar à cidade, foi na torre da catedral, separada do corpo do templo por uma pilha de escombros. Quase um século antes, a nave colapsara e ninguém se dera ao trabalho de a reconstruir. Contemplando as ruínas, do seu quarto no outro lado da praça, Boswell foi dominado pela melancolia – um sentimento que haveria de o acompanhar durante todo o período holandês, talvez ampliado pela solidão.
No livro Hipocondria – Nove Vidas Atormentadas (Texto), Brian Dillon detém-se sobre este episódio da vida de Boswell para mostrar como os seus padecimentos o transformaram num escritor. Em cartas e memorandos matinais, é possível assistir ao espectáculo de uma mente em luta contra a procrastinação. Obcecado pelo planeamento, James impunha-se horários rígidos – «das 7 às 8, Ovídio; (…) das 10 às 11, Tácito; (…) das 6 às 7, Direito Civil; (…) das 8 às 10, Voltaire» – mas as intenções escritas no papel, logo ao acordar, esbarravam invariavelmente na sua incapacidade de as cumprir. Esta falência do autocontrolo acentuava a melancolia, da qual tentava fugir com o planeamento de novas rotinas, que voltavam a falhar, e assim sucessivamente, num ciclo vicioso que corresponde a um quadro hipocondríaco. Escreve Dillon: «Boswell pensava que a sua obsessão pelo tempo – por planos, projectos e prospectos – era uma forma de controlar a sua hipocondria, de se libertar da letargia e de acalmar os medos. Mas talvez seja mais correcto concluir que a hipocondria era, ela própria, uma forma de organizar o seu tempo.» Ou seja, uma forma de direccionar um impulso que se tornou aos poucos uma compulsão. A compulsão para a escrita que lhe permitiu redigir, a partir de 1777, uma série de ensaios que o celebrizaram, e, mais tarde, a genial biografia do Dr. Johnson.
A tristeza contínua de Boswell, durante os 11 meses que viveu na Holanda, ficou registada em 500 páginas de diário, infelizmente perdido. Quase no fim da sua estadia, ele foi certa tarde passear nos arredores de Utrecht. Com a torre da catedral erguendo-se na paisagem, desembainhou a espada, caiu de joelhos e aceitou para si mesmo o fardo de ser «incuravelmente melancólico». Depois subiu à torre, de onde contemplou, muito lá em baixo, o lugar da epifania e da libertação. Ao regressar a Inglaterra, já estava reconciliado com a sua natureza e pronto para o lugar que a história da literatura lhe reservava, à sombra iluminada de Johnson.

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Uma bíblia laica

Em frente a uma papelaria do aeroporto de Frankfurt, vários editores portugueses faziam o balanço da maior Feira do Livro do mundo, que decorreu entre 12 e 16 de Outubro. Os mais veteranos lembravam o frenesi de outros tempos com uma certa nostalgia, inquietos com os sinais da crise, traduzida em menos visitantes, menos stands, menos negócios. «Viram o pavilhão dos americanos? No primeiro dia estava às moscas. Eles quase não fizeram compras – só trouxeram agentes, para vender.» Encolhendo os ombros, os editores portugueses admitiam que também compraram pouco: só títulos muito escolhidos, apostas seguras. «Desta vez nem sequer houve um livro da Feira, daqueles que toda a gente fazia loucuras para comprar», resumiu José Prata, responsável pelo catálogo da Lua de Papel e pelo maior sucesso editorial dos últimos anos em Portugal (O Segredo, de Rhonda Byrne, que vendeu quase meio milhão de exemplares).
Enquanto caminhávamos para o nosso gate, arrastando as malas, Prata falou-me então de um livro recente que lhe encheu as medidas. «Não vai vender muito, claro.» Mas se para alguma coisa servem as Rhondas Byrnes, é para isto: permitir, em paralelo, a edição de um calhamaço de 700 páginas que brilha como uma pérola no meio do lixo esotérico. Título: O Livro dos Livros (The Good Book na versão original, lançada em Abril deste ano no Reino Unido). Autor: o filósofo inglês A. C. Grayling, que dá aulas actualmente na Universidade de Londres, depois de ter ensinado em Oxford, e é visto como o menos virulento dos intelectuais que compõem uma pouco santa trindade de ateus militantes em terras de Sua Majestade – os outros dois, escusado será dizer, são Richard Dawkins e Christopher Hitchens. «Quando o livro sair, dá-lhe uma olhadela, porque acho que vais gostar», avisou o Prata, já na zona de embarque. Assim que foi publicado, em meados de Novembro, dei-lhe a prometida olhadela. Aliás, várias olhadelas. E, de facto, gostei do que li.

O conceito desta obra imensa, fruto de um trabalho de três décadas, é tão simples quanto poderoso: fazer uma espécie de Bíblia, com uma estrutura semelhante, mas em que Deus está ausente. Tal como a original, esta bíblia é composta por vários livros (Génesis, Parábolas, Provérbios, Epístolas, etc.), divididos em capítulos e versículos, mas com fontes seculares, em vez de religiosas. O processo de construção é o mesmo – a colagem de textos de diferentes origens, que criam uma genealogia, uma doutrina e uma ética para a vida humana – só que muito mais abrangente. A ideia surgiu a Grayling quando ainda era estudante universitário e se apercebeu de que os editores da Bíblia, ao escolherem apenas fontes religiosas, estavam implicitamente a renunciar à riquíssima tradição humanista dos gregos e romanos, alguma da qual estava ao seu alcance. No Livro dos Livros, o que Grayling faz é justamente uma compilação dessa outra sabedoria, a que foi excluída da matriz judaico-cristã, num arco que vai dos filósofos pré-socráticos ao século XIX e reúne citações – nunca atribuídas directamente – de pensadores e poetas como Plutarco, Epicteto, Xenofonte, Confúcio, Cícero, Rumi, Petrarca, Hume, D’Alembert, Goethe, Kant, Darwin, Emerson ou Rimbaud. Nas palavras de Grayling, que começou a ler Platão aos 12 anos e acredita que toda a gente pode compreender conceitos filosóficos (desde que devidamente explicados), esta obra é «uma destilação do melhor que foi pensado e dito por pessoas que experimentaram realmente o que é viver, e reflectiram sobre essa experiência».
A principal vantagem de uma estrutura semelhante à da Bíblia está na possibilidade de abrir o livro aleatoriamente e ler versículos soltos. É precisamente isso que faço agora. Livro das Lamentações, Capítulo 10, versículo 28: «Se as crianças viessem ao mundo através de um acto puramente racional, poderia a raça humana ter continuado até hoje?». Livro dos Provérbios, Capítulo 43, versículo 12: «Ao crime bem-sucedido chamamos virtude.» Livro das Epístolas, 5.ª Epístola, primeiro versículo: «O dia, se bem aproveitado, dá para tudo.» Dá para tudo, sim. Até para uma pessoa se perder no labirinto de sabedoria desta obra admirável.

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Imagens translúcidas

O que mais me impressionou foi a súbita explosão de alegria. O anúncio do Nobel costuma ser uma cerimónia circunspecta. Abre-se uma porta numa sala cheia de dourados, o secretário permanente da Academia Sueca faz uma curtíssima declaração, ouvem-se os disparos das máquinas fotográficas e um ligeiro burburinho (geralmente um «quem é?» em várias línguas, quando o premiado sai das trevas do anonimato). Este ano foi diferente. Quando Peter Englund, visivelmente satisfeito, revelou que o Nobel ficaria em casa, na Suécia, nas mãos do venerado poeta Tomas Tranströmer, a sala rejubilou. E eu também. A sala rejubilou porque ao fim de 37 anos acabava o tabu provocado pela polémica atribuição do Nobel a dois suecos em 1974, Harry Martinson e Eyvind Johnson, ambos membros do comité do prémio. Eu porque o Nobel voltava a ser atribuído a um poeta, 15 anos depois. Pelo meio houve Saramago e Pinter, que também escreveram poemas, mas foram premiados pelos seus romances (o primeiro) e peças de teatro (o segundo). Poeta-poeta, o último fora a polaca Wislawa Szymborska, em 1996, há uma eternidade.
Alguém devia fazer um dia, se já não foi feito, um estudo sobre as justificações lapidares da Academia Sueca, reduzidas quase sempre a uma frase generalista, redonda e abrangente, que pode ser perfeita para a lógica dos soundbytes da comunicação social, mas é curta para quem deseja perceber o que distingue o autor premiado. No caso de Tranströmer, foram evocadas as suas «imagens condensadas e translúcidas» que permitem «novas formas de acedermos à realidade», um elogio que em bom rigor pode aplicar-se a dezenas de outros poetas. Houve, apesar de tudo, alguma exactidão na referência às «imagens translúcidas», porque é precisamente o refinadíssimo trabalho metafórico de Tranströmer, a capacidade de vermos através das imagens por ele convocadas, que torna a sua poesia tão arrebatadora.
Os poemas que conheço deste autor foram vertidos para inglês, castelhano e (poucos) para português. Se a poesia é o que se perde na tradução, como defendia Robert Frost, eu de cada vez que os leio fico com pena de não saber sueco. Pressinto neles uma delicadeza que o trânsito para outras línguas deforma. O poema traduzido é a sombra do poema original: tem o seu contorno, a sua silhueta, mas falta-lhe espessura. Ainda assim, encontrei belíssimas sombras. Como a de Madrigal, traduzido por Alexandre Pastor no Jornal de Letras: «Herdei uma floresta sombria onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que mortos e vivos mudarão de lugar. A floresta começará então a mover-se. (…) Eu herdei uma floresta sombria, mas hoje passeio numa outra, plena de claridade. Tudo o que está vivo e canta, serpenteia, acena, rasteja! É primavera, e o ar que se respira é fortíssimo. Tenho um diploma da universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.» Releio o poema e as imagens acendem-se: a floresta que se move, como no quinto acto de Macbeth; a explosão da primavera; a universidade do esquecimento; as mãos vazias agitadas pela ventania que não precisa de ser nomeada.
Este poema surgiu num livro de 1989 e há justamente uma imagem – a da camisa pendurada na corda – que rima com outro poema, de 1966, intitulado Pássaros Matinais (aqui em tradução do poeta português João Luís Barreto Guimarães, a partir de uma versão castelhana): «(…) Por uma parte de trás da paisagem / chega a gralha / negra e branca. Pássaro agoirento. / E o melro que se move em todas as direcções / até que tudo seja um desenho a carvão, / salvo a roupa branca na corda de estender: / um coro da Palestina: // Não há vazios por aqui. // É fantástico sentir como cresce o meu poema / enquanto me vou encolhendo / Cresce, ocupa o meu lugar. // Desloca-me. / Expulsa-me do ninho. / O poema está pronto.» A imagem translúcida, aqui, é a do poema que se desenvolve à custa do poeta, o crescimento de um fazendo-se do encolhimento do outro, o poema ocupando o lugar do poeta, expulsando-o do ninho. Uma lição essencial. Quem ganhou o Nobel este ano não foi Tranströmer, mas a poesia.

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

O caminho que interessa

A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Eu & Bobby Fischer

No final dos anos 80, a minha grande paixão era o xadrez. Todos os sábados, apanhava um autocarro da Rodoviária Nacional com destino ao subúrbios de Almada (isto é, a periferia da periferia), onde participava em campeonatos fracos, mas disputadíssimos, no humilde Clube Recreativo do Feijó. Não se pode dizer que as condições para a prática da modalidade fossem as melhores: lembro-me de um “torneio interno” ter coincidido com um campeonato de tiro, em salas contíguas. Ao regressarem aos tabuleiros, vindos da casa de banho, os xadrezistas tinham de esperar que os atiradores baixassem as armas. E o som dos disparos minava, tarde adentro, a capacidade de concentração de quem temia perder-se nos labirintos teóricos da Defesa Siciliana.
Nessa época, o meu herói era Garry Kasparov, cujas partidas acompanhava nas páginas inteiras que o vespertino A Capital dedicava todas as semanas ao xadrez, cheias de diagramas e análises do mestre Luís Santos (hoje recordo esse espaço de inteligência como um oásis efémero, rapidamente devorado pelo deserto da vulgaridade jornalística). Muitos anos mais tarde, pude jogar contra o mítico “ogre de Baku” numa simultânea no Estoril e o meu único prazer consistiu em adiar o golpe de misericórdia, a estocada final do antigo campeão, já na reforma mas ainda ferozmente competitivo. Antes de Kasparov, admirei Anatoly Karpov, cerebral campeão-tipo da escola soviética (li de fio a pavio o livro de capa verde, editado pela Caminho, com as “32 lições de xadrez” do match Karpov-Korchnoi pelo título mundial de 1978); e antes dele rendi-me a Alexandre Alekhine (russo branco que morreu em Portugal, engasgado com um pedaço de carne), capaz dos mais estrepitosos sacrifícios de peças, mesmo em jogos às cegas; e, antes ainda de Alekhine, houve o cubano elegantíssimo, José Raúl Capablanca, autor daquele que foi o meu primeiro livro de xadrez.
Deste panteão, curiosamente, nunca constou Bobby Fischer, talvez porque o único campeão mundial norte-americano acabou por sair de cena assim que venceu Spassky em Reiquejavique, poucos meses depois do meu nascimento, em 1972. Quando comecei a jogar mais a sério, Fischer era um fantasma, uma assombração, um paranóico incapaz de se encaixar no mundo. Reconhecia-lhe o talento puro e deleitava-me com as suas melhores partidas, mas não era capaz de o venerar. Depois veio o 11 de Setembro e as célebres afirmações de regozijo com os ataques aos EUA – a alegria de um sociopata ressentido com a pátria que renegou. Risquei-o de vez do meu mapa mental, até saber da sua morte na Islândia, em 2008, no fim de um longo processo de decadência e fuga que o levou até ao lugar onde conheceu a glória desportiva, esse zénite estupidamente desperdiçado.

Embora não seja grande leitor de biografias, algo me atraiu para o livro Endgame, de Frank Brady (Crown, 402 páginas, 2011). Talvez o quilométrico subtítulo: Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness. Quem não gosta de histórias de ascensão e queda? Quem resiste a figuras que estão no fio da navalha, entre génio e loucura? Em muitos aspectos, Bobby Fischer é como uma personagem de romance: grandiosa, iníqua, trágica. E a trajectória da sua vida – minuciosamente recuperada por Brady (um árbitro internacional de xadrez que conheceu de perto o objecto da sua biografia e teve acesso a vasta documentação) – mostra-nos como o rapazinho brilhante de Brooklyn, que respirou xadrez da infância à idade adulta, obcecado em tornar-se um dos melhores jogadores de sempre, descarrilou assim que cumpriu o seu desígnio, deixando-se levar por megalomanias insensatas, pela torpeza das teorias da conspiração e por um ódio anti-semita que o tornou, para sempre, odioso. O xadrez era a sua vida e ele desperdiçou ambos: o xadrez (que na prática abandonou antes de fazer 30 anos) e a vida. É uma história triste, tristíssima, mas atravessada por fugazes momentos de luz intensa. Como aquela partida maravilhosa que jogou aos 13 anos contra Donald Byrne (chamaram-lhe o “Jogo do Século”) e que está entre as coisas mais belas que alguma vez contemplei.

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Os e-books não mordem

Éramos seis naquela mesa redonda. Editores, romancistas, críticos literários, consultores. Tema da conversa: «Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?» Como se o facto de podermos trazer centenas de romances num aparelho fininho implicasse necessariamente uma guia de marcha para as estantes lá de casa. Quando me deram a palavra, pousei no colo os vários gadgets pelos quais distribuo as minhas leituras digitais (Kindle, iPad e iPhone), o que me fez sentir uma espécie de José Magalhães nos seus tempos de guru da pré-história da internet em Portugal (lembram-se?), e sublinhei uma evidência: o e-book não vai assassinar o livro em papel (pelo menos nas próximas décadas), nem substituir a experiência da leitura tradicional. Mas os dois suportes podem perfeitamente coexistir, com as respectivas vantagens e limitações. Pela minha parte, a adaptação foi imediata e leio agora e-books naturalmente, como se eles sempre tivessem existido. Uma das vantagens, para além de os poder descarregar no próprio instante em que estão a ser lançados nos EUA ou no Reino Unido, é o acesso instantâneo ao dicionário de inglês, ao Google e à Wikipedia. Basta carregar na palavra que nos suscita dúvidas e a definição correspondente aparece na base do ecrã (ou o link para os sites referidos). E uma pessoa habitua-se tão depressa que já me aconteceu, ao ler livros em papel, sentir o impulso de carregar numa palavra que desconheço ou no nome de alguém que gostaria de pesquisar.
No debate, havia quem estivesse disponível para experimentar, mas também quem jurasse a pés juntos que desta água não há-de beber. O discurso típico de quem só vê na emergência do digital os seus perigos (que existem, entre eles o da rápida obsolescência tecnológica) mas nenhuma das suas virtudes. A questão, porém, é que os e-books não são uma fantasia futurista. Eles são a realidade de hoje. Ou, para os mais renitentes, de amanhã. Foi aliás muito curiosa a resposta que obtive à pergunta: «Mas algum de vocês já leu um e-book?» Pois. Nenhum dos outros cinco participantes no debate tinha alguma vez lido um e-book. Ou seja, estiveram duas horas a falar de uma coisa que nunca experimentaram. Daqui a um ano ou dois, acreditem, a proporção vai inverter-se. Recordam-se da resistência inicial aos telemóveis? Alguns dos que se riam da hipótese de vir a andar com um aparelhómetro colado ao ouvido, que horror, agora não prescindem dos modelos de última geração, com internet e tudo. Mais: daqui a vinte anos o título do debate («Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?») vai parecer tão anacrónico como um debate que há vinte anos tivesse discutido «Vem aí o e-mail… Deito fora os meus postais?».
Parte do preconceito contra o livro digital nasce do facto de muita gente pensar que este é um mero clone dos livros em papel. Nada mais errado. Embora ainda só estejamos no início, já começam a aparecer livros-aplicação (a pensar nos tablets) que levam a literatura digital para outros patamares. Veja-se o caso da versão para iPad do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, nascida da parceria entre uma editora de vanguarda tecnológica (a Touch Press) e a prestigiadíssima Faber & Faber (detentora dos direitos). O resultado é avassalador. Além dos versos, com as anotações de Eliot integradas, podemos ver em sincronia a interpretação do poema pela actriz Fiona Shaw, registos áudio de outras leituras (Ted Hughes, Viggo Mortensen, o próprio Eliot), vídeos com comentários de várias personalidades (de Jeanette Winterson a Seamus Heaney) e imagens da versão original com notas manuscritas de Ezra Pound. No momento em que escrevo, acabo de comprar outra aplicação igualmente espantosa: a «edição amplificada» do On the Road, de Jack Kerouac (Penguin), com mapas das suas viagens pelos EUA, biografias dos escritores da Beat Generation, documentos de arquivo, comparações entre rascunhos e versão definitiva, capas das edições internacionais (incluindo a da Ulisseia), etc. Já imaginaram o que se pode fazer com o Ulisses, com a Divina Comédia, com os livros do Pynchon, com os do Georges Perec? As possibilidades são infinitas. E eu mal vejo a hora de as poder desfrutar.

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Nietzsche nos Anjos

O primeiro a falar foi o Adelino, Lino para os amigos. E foi o que falou menos. Escondeu o jogo. Os outros contaram em detalhe os seus problemas. O Hélder falou das temporadas no inferno por causa da droga, histórias terríveis mas que ficaram para trás («há mais de um ano que deixei a metadona, não vou arriscar outra recaída»). O Daniel explicou como é que perdeu a vista direita (uma facada) e se lhe pedisse muito mostrava-me a cicatriz que assinala o lugar por onde um dia lhe entrou uma bala. O João Miguel contou como «as drogas e a night» lhe estragaram o futuro de ponta-de-lança com jeito para marcar golos de cabeça; mais a longa peregrinação por centros de apoio e comunidades terapêuticas, em Portugal e no estrangeiro. O José Manuel lembrou um piano-bar em Nampula, durante a guerra colonial, e a experiência de emigrante em Inglaterra, numa fábrica de bacon na Cornualha, seguido de um regresso súbito a Lisboa para tratar da mãe, que depois morreu e o deixou à deriva. Apenas o Lino se fechou em copas. Houve descaminhos e «percalços» que o levaram para trás das grades, muitas vezes. Só isso. Os livros ajudavam-no a sair dali, mentalmente. Leu Hemingway, Umberto Eco, mas também os calhamaços de José Rodrigues dos Santos. «Até se comem bem», resumiu – sorriso irónico à frente das palavras, como um biombo. Estávamos os seis, eu e aqueles cinco homens a quem a vida trocou as voltas, na cave do Centro de Apoio Social dos Anjos, em Lisboa, também conhecido como «a sopa dos pobres». Começávamos assim mais uma “Leitura Furiosa”, iniciativa que leva escritores ao encontro de leitores zangados com a leitura ou com o mundo, leitores ou ex-leitores que não têm dinheiro para os livros e que partilham as suas histórias, as suas raivas, e depois as vêem transformadas num texto que é lido numa sessão pública, com actores e músicos.
Foi só no dia seguinte, ao almoço, já o texto escrito, aprovado pelo grupo e ilustrado por um escultor, que Lino se expôs um pouco mais. Cenário: um restaurante na Mouraria. Sopa de entulho, pataniscas, língua de vaca, vinho carrascão. O João Miguel explicava que em alguns dos centros por onde passou havia uma componente religiosa, católica, muito forte. «Eu cá não me sujeitava a nada disso», replicou o Lino, «a mim não me fazem lavagens ao cérebro nem me chateiam com beatices». E de repente, virando-se para mim: «Já leu Nietzsche? Eu agora queria mesmo é ler Nietzsche.» Estive tentado a dizer que o Nietzsche não se come tão bem como o Rodrigues dos Santos, mas calei-me. O Lino tímido da véspera dera lugar a um Lino afirmativo. «E o Joyce? Conseguiu ler o Ulisses? Olhe que eu não. Esforcei-me, aguentei umas 50 páginas, mas depois larguei. Não tinha pedalada para aquilo. Acho que ele não precisava de ser assim tão complicado, tão obscuro. Do que eu gostei mesmo foi do outro Ulisses, do verdadeiro, o da Odisseia, o do Homero. Li tudo de uma ponta à outra. Que maravilha.»
Apeteceu-me reescrever o texto, começar de novo. Mas suspeito que o Lino não gostaria da aura de intelectual. A sua luta é outra. Sobreviver, seguir em frente, manter-se de pé. À tarde, fomos à Feira do Livro. Havia sol, calor, milhares de pessoas a deambular entre os pavilhões e as praças coloridas. No túnel da Babel, o Lino parou em frente dos livros de capa verde da Guimarães. Lá estava Nietzsche: Assim Falava Zaratustra; Para Além do Bem e do Mal; A Gaia Ciência. Cada volume a três euros. Senti o impulso da generosidade mas contive-me (nada de paternalismos). Lino sabe que pode requisitar Nietzsche nas bibliotecas públicas. Expliquei-lhe quais as mais próximas dos Anjos (onde, além de fazer fila para as refeições gratuitas, também dorme). No dia seguinte, reencontrámo-nos os seis na Casa da Achada. Ouvimos as palavras deles e as minhas, ditas em voz alta. Não os voltei a ver. Mas agora, sempre que passo em frente da igreja dos Anjos, recordo este aforismo escrito em alemão há mais de um século: «E se tu olhares muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também olhará para dentro de ti.»

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

Um tal de Aurelino

Quando aterrei no Aeroporto de Santa Catarina, ainda tinha muitas dúvidas quanto à intervenção que faria na primeira mesa do Festival Literário da Madeira, marcada para a manhã do dia seguinte. Ao contrário do que acontece noutros encontros do mesmo género, o tema da mesa era objectivo: «Os escritores que fogem da fama». À espera da mala, revi os nomes óbvios que trazia anotados no moleskine: Herberto Helder, J. D. Salinger, Thomas Pynchon, William Gaddis, Pascal Quignard, mais uns quantos. Todos eles fugiram da fama, cada um à sua maneira. E todos devem parte dessa fama de que escaparam, com maior ou menor êxito, justamente ao facto de fugirem dela. «Explorar este paradoxo», rabisquei.
À noite, antes de me deitar, olhei uma última vez para os tópicos que balizariam o meu improviso e percebi que teria de fazer outra coisa. O quê ao certo, ainda não sabia. Lembro-me de ter adormecido com a imagem de uma mesa larga em que Herberto passava uma garrafa de vinho a Salinger, que servia Pynchon e Gaddis, enquanto Quignard se abstinha, com a mão pairando acima do copo vazio. Às cinco da manhã, acordei. Lá fora ainda estava escuro e deixei-me estar uns minutos na varanda, a contemplar o vulto escuro de uma rocha que se ergue, desafiadora, no meio do oceano. Voltei ao quarto, liguei o computador e pus-me a escrever. Foi então que apareceu, vindo do nada, Aurelino Sousa Gomes, o autêntico escritor em fuga da fama porque, para não correr riscos, nem sequer chegou a escrever uma linha que fosse. A distingui-lo de outros escritores ágrafos, o facto de todos os seus projectos literários virtuais se cingirem a um só tema: precisamente o do debate em que eu participaria dentro de poucas horas.
Era ele então quem se devia sentar nos sofás, em vez de mim. À medida que lhe inventava uma amizade com o meu avô, Aurelino começou a ganhar forma, peso, espessura. Na sua biografia sumária, imaginei uma ida a Barcelona num Fiat 600 para ameaçar Enrique Vila-Matas, que teria pensado nele para o lote dos «escritores do Não» convocados em Bartleby & Companhia. Ao recuar nesse propósito, o escritor catalão livrou-se de uns bons socos e pontapés, mas nada me garantia que essa violência física não pudesse agora ser dirigida para mim, caso Aurelino, sentindo-se desmascarado, quisesse tirar desforço das minhas inconfidências. Apesar de octogenário, Sousa Gomes continua a ser um homem vigoroso e terminei a intervenção dizendo que me parecera tê-lo visto entre os espectadores do debate, o que me deixara assustado e de sobreaviso.
Inventar personagens de ficção supostamente reais é um jogo. Por muito que finjamos que existem, elas não existem. Estão na mesma categoria dos amigos imaginários. Podemos garantir a toda a gente que naquele espaço vazio está uma pessoa de carne e osso, mas não está. As pessoas olham para o vazio, sorriem, dizem «és sempre o mesmo», dão pancadinhas nas costas, seguem em frente. O problema é quando as personagens de ficção supostamente reais são mesmo reais. Não sei se o Bernard Quiriny alguma vez deu de caras com o omnipresente Pierre Gould (uma espécie de avatar que circula por quase todos os seus textos, nomeadamente os Contos Carnívoros, recentemente editados pela Ahab), mas sei que o Aurelino Sousa Gomes me bateu à porta do quarto, naquela mesma noite. O verdadeiro Aurelino Sousa Gomes. O real.
Vinha zangado, com um bafo alcoólico e uma brusquidão de gestos ameaçadora. Disse-me que eu não era digno do meu avô. Disse-me que via em mim apenas um patife, um pulha, um literato de meia tijela. E depois começou a bater. À saída, avisou-me: «Mencionas outra vez o meu nome e repito a dose, mas em dobro.» Na manhã seguinte apareci com o rosto feito num oito, inchadíssimo, uma desgraça. Improvisei uma desculpa esfarrapada, que metia uma alergia aos pólens, ou talvez às lapas comidas num restaurante típico do Funchal, durante o copioso jantar da véspera. Toda a gente acreditou. Agora, estupidamente, reincidi. Voltei a falar dele. Do Aurelino. Sei por isso o perigo que corro. Ele vai continuar a fugir da fama. E eu vou continuar a fugir dele.

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

Hotel pós-moderno

Ainda no restaurante, vi-o atarefado sobre o bloco A4, fazendo desenhos e riscando, com força, as letras maiúsculas. Depois, aquelas dezenas de pessoas acabaram os seus cafés, abandonaram as mesas e as conversas, entraram no autocarro e voltaram ao Auditório para mais uma sessão, a sexta, das Correntes d’Escritas. Ele, o valenciano Alberto Torres Blandina (n. 1976), seria pouco depois o primeiro a intervir num debate com o verso «Espalho sobre a página a tinta do passado» (Nuno Júdice) como mote.
Lá apareceu o bloco A4, transformado por Blandina num powerpoint manual, sucessão de imagens em torno de uma ideia: a de que o século XX, ao contrário do que geralmente se pensa, não foi o século de Pablo Picasso, mas sim o de Marcel Duchamp. Picasso revolucionou a pintura, é certo, mas não deixa de ser o ponto de chegada, o corolário, do que havia antes. Já Duchamp virou tudo de pernas para o ar (incluindo o urinol que se tornou Fonte e objecto de museu), reinventando o próprio conceito de arte e antecipando as formas de criação do século XXI. Para Blandina, depois de tudo já ter sido feito, só faz sentido fazer de novo, fazer de outra maneira. O remake, tão comum no cinema, está ainda por explorar devidamente em literatura. É certo que Borges criou o extraordinário Pierre Menard, um escritor moderno que volta a escrever Dom Quixote, um Dom Quixote igualzinho ao de Cervantes (coincidem palavra por palavra) mas ao mesmo tempo radicalmente distinto, porque os séculos que os viram nascer em nada se assemelham. Outros exemplos de remake, como os pastiches de Jane Austen com zombies, são literariamente menos interessantes, mas as possibilidades que se abrem são ilimitadas. Nas Correntes, o escritor espanhol, que também é dramaturgo e vocalista da banda Niñamala, defendeu ainda que os ficcionistas actuais devem olhar para os livros do passado como os rapazes suburbanos olham para os seus Citröen Saxo: vendo neles a base para todo o tipo de upgrades tecnológicos e estéticos, ao gosto do utilizador. Para Blandina, vai sendo tempo de abrir alas ao tunning literário, por muito que esta expressão nos pareça um oxímoro.
Uns dias depois, noutro almoço, fiquei sentado ao lado de Alberto e ele mostrou-me o último romance de Agustín Fernández Mallo: El Hacedor (de Borges). Remake (Alfaguara, 2011). Remake, lá está. «Vim a lê-lo no avião. Corresponde àquilo que eu mencionei: a estrutura é igual à do livro do Borges, o número de textos e os títulos são os mesmos, mas a partir daí o Mallo construiu o seu universo próprio.» Menino bonito da crítica espanhola, Mallo assume a escrita como experimentação. Já Blandina, surpreendentemente, nem por isso. O romance que publicou recentemente em Portugal (Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio), apesar da escassa verosimilhança das suas histórias, não deixa de ser uma narrativa convencional. «Sim, como escritor em nome próprio não arrisco muito», admitiu. «Deixo os vanguardismos para as criações colectivas.»
Falou-me então do Hotel Postmoderno, um projecto que nasceu na Internet, a várias mãos. Quatro amigos abriram um blogue e começaram a erguer um romance em conjunto, nunca se sabendo quem escrevia o quê e menos ainda quem corrigia os textos colocados online. Adeus autoria, olá contaminação. «Trabalhamos como uma banda de rock na fase do improviso.» Surgiram depois um romance histórico «com estrutura de DVD» (De La Habana, un Barco) e uma narrativa multimédia em forma de reality show, com seis concorrentes em busca de um prémio que é a morte (Suicídame). No território da literatura digital (a «digiteratura», como lhe chamam) exploram-se as potencialidades da tecnologia e integram-se outras artes, outras formas de expressão: teatro, música, fotografia, rádio, vídeo, interactividade com os leitores através das redes sociais.
Isto é só o princípio. No grande hotel da pós-modernidade não faltam quartos, infinitos quartos, à espera de quem os queira ocupar. Pela minha parte, gostava de ver este afã do lado de cá da fronteira. E nem precisava de ser um hotel. Já me contentava com uma pensão de três estrelas.

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

Uma droga benigna

Na fotografia, eu e o meu irmão estamos encostados a uma grande janela, olhando directamente para a câmara, com um livro aberto nas mãos (consigo perceber que o meu é um clássico qualquer da literatura inglesa, em edição de bolso; o do Manel um exemplar da colecção ‘Ficções’, da Estampa; mas é impossível discernir os respectivos títulos e autores). Lembro-me bem das circunstâncias em que a foto se fez. Num corredor do Conservatório Nacional de Música, minutos antes de uma aula a que o meu irmão tinha de assistir, o João Francisco Vilhena a dizer «isso, isso, encostem-se ao vidro e agora olhem para mim». Aconteceu em 1996, há quase década e meia. Examino a imagem e de repente aquele rapaz de 24 anos que eu fui está a olhar-me nos olhos, lá do momento parado em que o João Francisco o aprisionou.
É sempre cruel, este exercício. Porque eu sei muito mais do que ele. Eu sei tudo o que se passou de lá para cá: as voltas da vida, as grandes catástrofes e prodígios, os descaminhos do mundo. Ele ficou em 1996, segurando uma edição barata de um clássico qualquer da literatura inglesa, exibindo um meio sorriso junto à janela cheia de luz. Dirão que quinze anos não é assim tanto tempo. Mas aquele José Mário parece-me agora infinitamente distante. Aquele José Mário estava casado com outra mulher, ainda não tinha filhos, vivia em Santo António da Caparica, num quinto andar por onde deambulava uma gatinha persa (foi antes da alergia o afastar dos felinos) e de onde se via uma nesga de oceano, conduzia um Renault 5 GTL de cor cinza, assistia aos jogos do Figo no Barcelona enquanto passava camisas a ferro nas tardes de domingo, e, curiosamente, lia muito menos do que lê hoje. Curiosamente, repito, porque a fotografia no Conservatório serviu para ilustrar uma reportagem longa de Ana Margarida de Carvalho sobre «grandes leitores», publicada na Ler (também a revista era então muito diferente: no formato, na espessura, no grafismo, no papel).
Em 1996, eu lia bastante mas não fazia da leitura a minha actividade principal, como faço hoje. Naquela época, talvez admitisse vir a ser um dia o leitor que sou agora. Ao falar enquanto «grande leitor», era do José Mário de 2011, um José Mário futuro, finalmente bafejado pela sorte (ser pago para devorar livros, em vez de escrever sobre tudo e mais alguma coisa, em suplementos do Diário de Notícias que já ninguém recorda), era do José Mário actual que o José Mário de 1996 falava. Por isso, as citações que leio no texto de Ana Margarida de Carvalho não perderam validade. Exemplo: «Eu não tenho essa visão sacralizada da leitura. Leio sempre que me apetece, nem que seja em pé na paragem de autocarro. E Beckett não me sabe pior lá por estar debaixo de chuva.» Ou ainda: «A leitura, para mim, é talvez a droga mais saudável que existe. Traz-nos euforia, cria-nos dependência, mas o único risco que corremos é ampliar a nossa visão do mundo. E isso, que eu saiba, não tem contra-indicações.» Passados quinze anos, continuo a achar que a leitura tem o efeito de uma droga (felizmente benigna), mas encaro a frase com a bonomia de um velho consumidor de ópio diante do súbito entusiasmo de quem começou ontem a fumar charros.
Diga-se que há muitos aspectos do José Mário de 1996 que permanecem no José Mário de 2011. No núcleo central das preferências literárias, estavam quatro nomes (Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Herberto Helder e Georges Perec) que nunca abandonaram o panteão particular, antes o partilham com outros autores (como Roberto Bolaño ou W. G. Sebald) que só vim a descobrir mais tarde. A bem dizer, a principal diferença entre os dois eus não é física, nem psicológica, nem sequer intelectual. A principal diferença está nas muitas centenas (ou talvez milhares) de livros que o segundo leu entretanto, cumprindo em parte o vago desejo do primeiro (habitar um dia a secção menos aleatória da Biblioteca de Babel). Bem vistas as coisas, o primeiro é um fragmento da memória do segundo. E o segundo é o sonho cumprido do primeiro. Um e outro coexistiam já na fotografia daquele número antigo da Ler. E, como Borges, não sei qual dos dois escreveu esta página.

[Texto publicado no n.º 100 da revista Ler]

Seguindo escritores

A 14 de Dezembro de 2010, Neil Gaiman disse-nos que estava a escrever noite dentro, no seu anexo, com um frio impossível lá fora. Ou melhor, anunciou-o no Twitter, transformando o «nós» majestático numa imensa multidão que viu a mesma fotografia: a secretária com o Mac, folhas espalhadas, paredes revestidas de madeira e um cão branco deitado no chão (o Cabal, se a Wikipedia estiver certa). Aparentemente, o autor de Sandman e Deuses Americanos estava mais interessado na descida rápida do mercúrio no termómetro do que no texto em curso. Durante meia hora, foi actualizando os valores da temperatura exterior, até chegar aos 29 graus negativos. Mesmo muito frio, terão pensado os seus seguidores (mais de um milhão e meio, em todos os fusos horários), antes de assistirem ao remate poético da experiência meteorológica de Gaiman: «Antes de voltar ao trabalho, enchi uma chávena com água a ferver, saí de casa, lancei-a para a neve e fiquei a ver como o vapor resultante rapidamente se transformava em pó.»
Esta exposição pode parecer frívola, mas é um meio de o escritor corresponder, de forma controlada, ao voyeurismo dos seus admiradores, humanizando-se perante quem o lê. É uma outra narrativa: a que mostra como é ser Neil Gaiman na era da Web 2.0. Não se pense, porém, que @neilhimself resvala em demasia para o reality show. Por exemplo, o badalado casamento com Amanda Palmer, no início de Janeiro, mereceu o devido recato. Na maior parte do tempo, ele narra as suas andanças pelo mundo (viagens, estadias, regressos), anuncia sessões de autógrafos, sugere leituras e chama a atenção para boas causas. O segredo está no estilo (telegráfico mas divertido), no facto de responder a muitas pessoas que não conhece pessoalmente e na capacidade de adequar a sua verve às limitações do meio: «Isto é o Twitter. Dão-me 140 caracteres. E eu uso todos e cada um deles.» Os fãs adoram esta interatividade e não se cansam de o elogiar. Houve mesmo quem o nomeasse para um Shorty Award (os Oscares do Twitter) «porque ele é bestial» e «tem um cabelo que parece desenhado por uma criança».
Ainda mais popular é Stephen Fry. Omnipresente no sistema mediático britânico, o actor, argumentista, realizador, humorista e escritor tem neste momento mais de dois milhões de seguidores no Twitter. Como alguém notou, o número de pessoas que o lê diariamente na internet é superior à tiragem dos cinco grandes jornais de referência do Reino Unido. E de que fala Stephen Fry nos seus tweets? Da sua vida, claro, filtrada por doses generosas de distanciamento crítico. Nas últimas semanas, vem narrando a rodagem de um documentário sobre linguagem que está a fazer para a BBC. Se num dia aprendeu escrita cuneiforme no British Museum, noutros foi à procura do calão em rima dos taxistas londrinos ou da pronúncia impecável dos actores shakespearianos. Mas há também muito futebol (Fry é adepto ferrenho do Norwich City, um clube da segunda liga), muitas imagens (no Quénia fez uma verdadeira reportagem fotográfica) e muitos apontamentos do quotidiano. Como este: «Domingo. Snooker. Chocolates. Sofá. Felicidade.»
Procurando bem, não é difícil seguir outros escritores no Twitter: Margaret Atwood, que dialoga animadamente com os leitores; Douglas Coupland, que faz muitos links para o YouTube e gosta de listas (por exemplo, a das palavras que pronunciou mal até aos vinte anos); Bret Easton Ellis, que escreve pouco (só três ou quatro tweets por mês); Chuck Palahniuk, que não escreve nada (é o webmaster do seu site oficial quem trata do assunto); Alain de Botton, que exerce bem a arte do aforismo («Um simples problema de aritmética: há muito mais ambições do que grandes destinos disponíveis»); ou Steve Martin, que continua a ser o mesmo Steve Martin de sempre («Férias, dia 2: Roma parece “arruinada”. Por que é que ninguém endireita as colunas?»). Lusófonos activos também há, sobretudo brasileiros, mas o espaço da crónica – apesar de quase trinta vezes superior ao de um tweet – esgotou-se. Desculpem, mas terão de procurá-los, e segui-los, por vossa conta.

[Texto publicado no n.º 99 da revista Ler]

Escrever no século XXI

Olhemos à nossa volta. Os aparelhos que permitem ler e-books multiplicam-se, sofisticam-se, democratizam-se. Cada vez mais pessoas têm uma biblioteca ambulante no Kindle, no iPad, no iPhone. A tecnologia progride todos os dias. As novidades sucedem-se. Há umas semanas, por exemplo, foi lançado o Google eBooks, que promete revolucionar os nossos hábitos de leitura. Em vez de ficarem alojados num determinado hardware, os ficheiros com livros passarão a existir virtualmente numa «nuvem» online, à qual acederemos em qualquer lado e em qualquer suporte físico, através de uma simples ligação à internet. Ou seja, um romance pode ser começado no computador lá de casa, ao pequeno-almoço; prosseguindo depois a leitura num tablet, durante a viagem de comboio até ao emprego; ou na fila do Multibanco, quando se aproveita os minutos de espera para despachar mais um capítulo no smartphone. Neste sistema, a desmaterialização do livro é levada ao limite: o livro passa a existir só na tal «nuvem» abstracta, algures na rede de informação, como se fosse uma entidade supraterrena, um arquétipo que desce a pedido aos nossos vários ecrãs (depois de pago com o cartão de crédito, claro).
Por enquanto, esta potencial mudança dos hábitos de leitura ainda não é acompanhada por quem produz os livros, pelo menos no nosso país. Para as editoras tradicionais, o mundo digital continua a representar uma ameaça, mais do que um desafio ou uma oportunidade. Mesmo os grandes grupos, que teriam meios para investir a sério nas novas tecnologias, avançam a medo, timidamente, receando apostar em modelos de negócio que ainda não passaram o teste do tempo. É sintomático que os debates sobre o futuro do livro se resumam quase sempre ao fantasma de um medo apocalíptico: será que o livro físico, em papel, com textura e cheiro a pó, vai desaparecer de vez? Provavelmente não. Provavelmente continuará a existir, porque há uma experiência de leitura associada aos livros-livros que é inimitável e para muita gente, sobretudo as gerações que aprenderam a ler com eles, insubstituível. Contudo, mesmo quem prefere o papel tenderá a ler cada vez mais em suportes digitais. Já para não falar das crianças que nascem agora, na era do multitasking, e que previsivelmente pensarão dos livros-livros o mesmo que nós pensamos das calculadoras: «Mas afinal só fazem isto?»
Pela minha parte, o que me preocupa não é o meio (se vamos ler na parede da sala, no tecto da cozinha ou no tablier do carro); é o conteúdo. Que literatura o século XXI tem para nos oferecer e de que forma será capaz de se sintonizar com os tempos que vivemos. Os primeiros sinais, devo dizer, são preocupantes. Ao fim de uma década, contam-se pelos dedos os romances que são especificamente deste século, com narrativas que reflictam e incorporem o zeitgeist, dos novos paradigmas sociais à interconectividade global. A maior parte das ficções que se escrevem e publicam hoje podiam ter sido criadas em qualquer das décadas do século anterior – e muitas são meras variações, serôdias e gastas, dos romances oitocentistas. Enquanto outras artes souberam integrar a pulsação da criatividade contemporânea (veja-se os graffiti expostos em museus ou o uso dos samples na música, tanto popular como erudita), a literatura parece ter dificuldade em reinventar-se, em descobrir modos narrativos que estejam à altura da complexidade do mundo actual. É deprimente entrar numa livraria e perceber que 90% dos romances disponíveis obedecem a uma lógica linear, com os mesmos esquemas, mil vezes repetidos. Em 2011, exige-se que certos géneros literários (sobretudo o romance) façam o necessário upgrade. David Shields, no seu brilhante ensaio-manifesto que mistura ideias próprias e alheias em 618 fragmentos (Reality Hunger, Hamish Hamilton), mostra como é vasto o campo das possibilidades ainda por explorar. Na verdade, espero que o romance do século XXI não seja escrito só no século XXII. Porque gostava mesmo de o ler – seja em papel, a partir da «nuvem» ou noutro sistema qualquer que ainda esteja por inventar.

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]

A camisola de Schlee

schlee

Os fios do acaso que levam duas pessoas a encontrar-se num dado lugar, num dado momento, são insondáveis. Quando me sentei numa esplanada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no recinto da maior feira do livro a céu aberto do continente americano, não imaginei que aquele escritor septuagenário de sorriso aberto e longo cabelo grisalho pelos ombros – Aldyr Garcia Schlee, apresentado ali mesmo pelo nosso editor comum (Alfredo Aquino, da ARdoTEmpo) – se converteria, poucos dias depois, num velho amigo. Mas foi isso que aconteceu.
Logo naquela primeira tarde, à sombra dos jacarandás e ipês floridos, a dois passos das barraquinhas com livros pendurados por cordéis, não falámos de literatura mas de futebol. Acompanhado pela mulher, Marlene, tão fanática pelo jogo quanto ele e capaz de recordar, com minúcia, factos ou lugares perdidos no tempo, Aldyr apresentou-me enciclopedicamente o mundo das grandes equipas brasileiras, sem esquecer as mais antigas, algumas das quais relegadas para divisões secundárias, como o time de que é torcedor: o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas, já perto da fronteira com o Uruguai.
Estava dado o mote. Primeiro em Porto Alegre, depois nos três dias que passámos juntos em São Paulo, falámos bastante dos seus «contos gardelianos» (Os limites do impossível) e do imponente romance, com mais de 500 páginas, que escreveu sobre a vida extraordinária do General Fructuoso Rivera (Don Frutos), mas os olhos deste homem que tem exactamente o dobro da minha idade, embora não se note (conversou sempre tu cá tu lá, com aquela intimidade dos colegas de liceu que se reencontram muitos anos depois), os olhos deste homem ganhavam outro brilho ao resgatar da memória certos estádios, os nomes dos craques e o que eles faziam dentro de campo, o clamor das arquibancadas.
Por trás desta paixão, esconde-se uma história incrível que logo veio à tona. Além de escritor, Schlee já foi muitas coisas: desenhista, homem da imprensa, professor universitário. O primeiro momento de glória, porém, aconteceu quando tinha apenas 19 anos. Em 1953, para apagar de vez o trauma provocado pela derrota na final do Campeonato do Mundo de 1950, frente ao Uruguai, no Maracanã, um jornal carioca decidiu lançar um concurso para mudar o equipamento da selecção nacional brasileira, uma vez que o branco parecia ser funesto. Das centenas de candidaturas recebidas, a escolha recaiu na proposta de um tal Aldyr Garcia Schlee. Ou seja, a célebre canarinha (camisola amarela e calção azul), um dos maiores ícones do desporto mundial, é nem mais nem menos do que uma criação do meu companheiro de tournée literária.
Já em São Paulo, antes de visitarmos o MASP (com os seus Van Gogh, Renoir, Modigliani, Velázquez, Turner e outras maravilhas da pintura europeia), fomos ao Museu do Futebol, instalado por baixo do Estádio Pacaembu. Logo à entrada, uma imagem de Barbosa ainda desperta comentários ressentidos nos visitantes. Ele é o mais odiado dos guarda-redes (no Brasil diz-se goleiro), o bode expiatório da Copa perdida no Maracanã. Aldyr ri-se deste ódio que persiste há mais de meio século. Até porque ele, ó ironia, torce desde sempre pelo Uruguai (país que quase vê das janelas da sua casa-biblioteca e cujos principais escritores vem traduzindo para português). Quando Ghiggia marcou o 2-1 fatal, ele estava num cinema em Montevideu. Lembra-se de o filme ser interrompido e de ouvir, emocionado, o hino uruguaio. Como se lembra de quase tudo o que as fotografias, filmes e hologramas do museu documentam. A história do Brasil reflectida no verde da relva.
Talvez para selar uma viagem feliz e uma amizade inesperada, o nosso editor encontrou uma camisola da canarinha, em algodão, modelo de 1954 (sem as modernices estéticas e têxteis da Nike, que Schlee detesta). É para ela que olho agora, já deste lado do Atlântico. A gola verde, o emblema grandão, junto ao qual a firme caligrafia de Aldyr evoca «Pelé & cia». Depois arrumo-a no saco e vou ler Don Frutos.

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

A esferográfica de Herberto Helder

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E de repente, na página 607 de Ofício Cantante (Assírio & Alvim, 2009), cruzo-me com os versos, «bic cristal preta doendo nas falangetas, / papel sobre a mesa, / a luz que vibra por cima, por baixo / a cadeira eléctrica que vibra, / e é isto: / electrocutado, luz sacudida no cabelo, / a beleza do corpo no centro da beleza do mundo: / pontos de ouro nas frutas, / frutas na luz escarpada, / clarões florais atrás de paredões de água, / água guardada no meio das fornalhas / – isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica, / entra a corrente por mim adentro e abala-me, / e com perícia artífice deixa no papel / o nexo estilístico entre / o terso, vívido, caótico e doce: / e o escrito, o carbonífero, o extinto, / o corpo», e os versos não me deixam em paz, acendem-se um a um como lâmpadas intermitentes num barracão cheio de coisas assombrosas, eu imagino o poeta escrevendo desvairado noite dentro (ah, as mitologias românticas), o rosto barbudo reflectindo-se na janela escura, os dedos agarrando com força a caneta barata, a esferográfica de plástico doendo nas falangetas, enquanto as palavras sobre o papel brilham como magma, aquele brilho quase branco da lava antes de ser basalto, a bic cristal preta abrindo caminho na noite, tal como a minha neste papel sobre a mesa, um rosto liso nesta outra janela escura, ao longe as luzes da ponte, o Tejo negro, o Ofício Cantante aberto junto às folhas brancas, sob a luz que vibra por cima e não é eléctrica porque vem de dentro do livro, do intervalo entre as letras, o gesto é o mesmo, quase sincronizado, uma vibração dos dedos e do pulso, dentro da noite duas esferográficas, a minha bic cristal preta e a dele, dois rastos negros como o Tejo, e é isto: um dos rastos a perseguir o outro, este texto a tentar devorar os versos que descobriu no livro, como se fosse possível chegar assim à beleza do corpo no centro da beleza do mundo, não é, não é, por isso o refluxo, o voltar atrás, as emendas furiosas a montante da frase-rio, e de repente a memória como uma luz escarpada, memória de todas as bic cristal preta que houve no passado, uma sucessão de tubos transparentes com cargas que eram como veias cheias de um sangue perigoso, a tinta das respostas nem sempre convictas na folha de ponto, das aulas transcritas a custo, das tardes adolescentes à espera da inspiração poética no meio das fornalhas, e depois as tampas perdidas, as marcas do uso, os riscos e mordidelas, a explosão dentro do bolso das calças, o embaraço na cantina, eh pá, o que é que te aconteceu aí em baixo?, risos, imagens soltas, estilhaços que se cravam no corpo do texto cada vez mais desfocado à falta de uma perícia artífice, na janela imagino o perfil barbudo que vi um dia na rua, perto da Avenida da Liberdade, era ele, não era, ainda hoje duvido, porque apesar das fotografias e da óbvia existência civil é como se ele fosse imaterial (ah, as mitologias românticas), o perfil barbudo talvez se reflicta noutra janela agora mesmo, embora não nesta, a distância aqui mede-se em anos-luz, nunca haverá um nexo estilístico entre a minha bic cristal preta e a bic cristal preta dele, por muito que eu idealize, num exercício borgesiano, não ser eu a escrever isto mas a minha bic cristal preta, ser dela a força que arrasta a mão sobre o papel, como uma sua irmã arrastaria a mão de Herberto, eu e ele escravos da mesma energia, eu e ele servos do império caótico e doce das bic cristal pretas, entidades mágicas que nos elevam (a graça de um verso a brilhar como magma, aquele brilho quase branco da lava antes de ser basalto) ou nos humilham (a mancha de tinta preta a alastrar nas calças, para gáudio da cantina), até que o devaneio se dissolve com as primeiras luzes da manhã, a aurora sobre os contornos dos prédios e o Tejo emergindo das trevas, o reflexo da janela a esmorecer, deste lado só o corpo inclinado sobre as folhas escritas à mão, inúteis, a bic cristal preta pousada sobre a mesa, vencida, e o Ofício Cantante ali ao lado, como um buraco negro.

[Texto publicado no n.º 96 da revista Ler]

Vida subterrânea

No início da década de 90, eu era aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa e cumpria quase diariamente um percurso de vinte minutos no metropolitano, entre o Rossio e a Cidade Universitária. Quando não tinha a sorte de encontrar um lugar sentado, que me permitisse um prolongamento da sessão de leitura iniciada no barco que me trazia da outra margem do Tejo, entretinha-me a observar os outros passageiros, olhando para eles como um escritor olha para as suas personagens. Na forma como se sentavam, como inclinavam a cabeça, como bocejavam ou sacudiam uma mosca, via sinais do que poderiam ser as suas vidas, as suas tristezas e alegrias, as suas personalidades. E imaginava histórias para aqueles corpos, tantas vezes ligeiramente encolhidos (por se sentirem observados?). Os outros passageiros eram páginas em branco, portas de entrada para ficções à espera de serem escritas, mas os seus rostos esfumavam-se mal saía da carruagem e subia em passo rápido as escadas, procurando lá fora, por trás da Aula Magna, o perfil do edifício C2.

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Uma das grandes virtudes dos desenhos de António Jorge Gonçalves, reunidos no volume Subway Life (edição Assírio & Alvim), é esta: os rostos dos passageiros não se esfumam. Muito pelo contrário. O pequeno jogo que eu fazia (e que provavelmente toda a gente faz nas mesmas circunstâncias) foi elevado pelo co-criador de Filipe Seems a uma forma de arte súbita. Quando vivia em Londres, estes retratos instantâneos da primeira pessoa que se sentasse à sua frente no metro, feitos nos poucos minutos dos trajectos entre estações, funcionavam como um exercício de rapidez e acaso, com o qual se obrigava «a desenhar aquilo que não podia escolher». Mas depois a coisa foi ficando séria, à medida que o projecto se estendeu a outras cidades, em vários continentes, e o respectivo site se tornou um lugar de referência na Internet, com mais de cinco milhões de visitas desde 2002.

Dos cerca de 3000 desenhos que enchem os seus cadernos, Gonçalves revela-nos agora cerca de 400, divididos cronologicamente pelas nove cidades em que foram feitos: Londres, Lisboa, Berlim, Estocolmo, Nova Iorque, São Paulo, Tóquio, Atenas, Moscovo e Cairo. Os modelos involuntários (a quem nunca foi pedida autorização) aparecem literalmente arrancados da carruagem em que seguiam. Não há bancos nem portas nem argolas penduradas do tecto. Só corpos (estranhamente suspensos no vazio) e o modo como se expõem. Dá ideia que o objectivo é encontrar, para cada um deles, o punctum barthesiano: uma inclinação das pernas, o ângulo do cotovelo, os objectos pousados sobre os joelhos, um pé em cima do outro, certa expressão facial melancólica ou galhofeira.

Em tempo de globalização, constatamos sem surpresa que são mais as semelhanças do que as diferenças entre os passageiros das várias cidades. Mas ainda assim as diferenças existem, mesmo se a escassez da amostra aleatória não permita fazer extrapolações estatísticas. Por exemplo: a cidade com mais pessoas adormecidas é Londres (7); aquela em que mais se lê é Moscovo (17); o maior número de passageiros com óculos está em Atenas (22); o maior número de crianças transportadas ao colo junta Estocolmo e São Paulo (2); enquanto a única máscara anti-germes surge, previsivelmente, em Tóquio; e a única sósia de Zita Seabra surge, também previsivelmente, em Lisboa.
Gonçalves nunca explica nem contextualiza. Limita-se a mostrar-nos, em bruto, a humanidade dispersa por vários continentes. E a resumir as suas experiências em breves linhas, com a concisão de um haiku: «tudo chega, tudo parte. como podemos ter fé no meio de tanto trânsito» (Atenas); «os meus modelos ignoram-me, mas às vezes é como se sentisse as cócegas que lhes faço com a minha caneta sobre o papel» (Londres).

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]

A cor da memória

1. Sempre gostei de escritores que escrevem sobre escritores, romancistas no rasto de outros romancistas. As paisagens de Hemingway, Kawabata ou Nabokov percorridas por Olivier Rolin. O prestidigitador Vila-Matas perseguindo as sombras de Kafka, Robert Walser, James Joyce. W. G. Sebald em busca do fantasma de Stendhal no local onde se deu a batalha de Marengo.

2. Daniel Blaufuks não é um escritor-escritor, mas antes um fotógrafo que escreve, um fotógrafo literário. Os seus livros de imagens contam sempre histórias, mesmo quando não têm palavras. Há nele uma atracção fortíssima pela literatura, que já o aproximou de Paul Bowles (My Tangier, 1991) ou mais recentemente de Cesare Pavese. Em Terezín (edição Steidl/Tinta da China), o desafio vem de Sebald. Ou melhor, de uma fotografia que ocupa as páginas 262 e 263 do romance Austerlitz, na edição portuguesa da Teorema (2004).

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3. A fotografia, supostamente tirada em Theresienstadt, mostra uma sala deserta, um escritório arrumadíssimo, estantes até ao tecto cheias de pastas e nem uma folha solta em cima das mesas, o relógio com os ponteiros alinhados nas seis em ponto. Há uma estranheza nesta imagem, uma perfeição exagerada, como se estivéssemos, diz Blaufuks, diante de um «cenário para uma peça incompleta».

4. Obcecado com a fotografia, Blaufuks procurou-a por todo o lado. Em vão.

5. Entretanto, por uma «estranha série de coincidências», ficou na posse dos diários que Ernst K., um empregado de escritório judeu, foi escrevendo entre 1926 e 1930. Blaufuks fotografou essas agendas e mostra-nos a caligrafia do cidadão anónimo, a sua vida banal: namoros, sonhos de se tornar escritor, postais, notas soltas, uma madeixa de cabelo embrulhada em celofane. Mais tarde, descobriu que Ernst K. foi transferido para Theresienstadt em 1942, quando a cidade checa já se transformara num lugar de morte.

6. De entre as páginas das agendas de Ernst K., surge uma fotografia que é ao mesmo tempo um aviso e uma metáfora.

7. Aviso: as imagens podem enganar. Vemos, de perfil, dois homens e uma mulher. Aparentemente estão na praia, segurando papagaios de papel, enquanto passam barcos muito ao longe, no horizonte. Mais de perto, porém, constatamos que o mar afinal é uma parede, os barcos ao longe talvez chaminés para lá do muro. E os papagaios de papel? Lâminas de gelo, apanhadas do chão num dia de Inverno.

8. Metáfora: as lâminas de gelo, matéria que se desfaz e queima as mãos que a seguram.

9. Theresienstadt. Terezín, em checo. A história é conhecida. Sebald conta-a no seu livro. Blaufuks repete-a e acrescenta pormenores. A cidade fortificada que os nazis decidiram, em 1941, transformar em gueto para os judeus da Boémia e Morávia, entreposto antes do envio para os campos de extermínio, mais a Leste. Muitos morreriam antes da viagem, porque Theresienstadt, com capacidade para sete mil pessoas, chegou a ter 50 mil dentro das muralhas, à mercê da fome, da sede e da exaustão provocada pelos trabalhos forçados.

10. Em 1944, os nazis aceitaram uma visita da Cruz Vermelha, transformando-a num dos maiores embustes propagandísticos de que há memória. Cumprido o plano de embelezamento da cidade (lojas abertas, cafés cheios, crianças a brincar nos jardins floridos, bibliotecas, jogos de futebol, concertos de música clássica), os inspectores elogiaram o simulacro de normalidade e a Cruz Vermelha desistiu de visitar outros campos de concentração.

11. Entusiasmados com este sucesso, os alemães fizeram um documentário sobre a falsa Theresienstadt edénica, habitada por judeus sorridentes – uma ficção abjecta de tão cínica, apogeu do cinema como mentira. No fim da guerra, o filme perdera-se mas foram descobertos vários fragmentos.

12. Quando por fim visitou Terezín, Blaufuks descobriu facilmente a sala que aparece no livro de Sebald e fotografou-a do mesmo ângulo. A estranheza mantém-se, só que agora muito mais nítida.

13. Num DVD que vem com o livro, o fotógrafo concretiza uma ideia do protagonista do romance de Sebald: desacelerar as imagens do filme nazi, para que «as coisas e pessoas até então ocultas» se tornem visíveis. Austerlitz buscava em câmara lenta o rosto perdido de sua mãe; Blaufuks um rasto de Ernst K. Nem um nem outro tiveram sorte.

14. Blaufuks conferiu às imagens do sórdido filme um ténue tom avermelhado. É a «cor da memória», diz ele. Nada de sépia, nada da nostálgica aura das fotografias antigas. Um tom avermelhado. Como o do sangue seco. Como o da ferrugem.

[Versão ampliada de um texto publicado no n.º 94 da revista Ler]

Duas mulheres

Duas mulheres atravessam o nevoeiro denso que desceu sobre Lisboa, uma brancura estranha e leitosa, quase palpável, um véu que esconde as coisas e lhes apaga os contornos, como o princípio de uma cegueira ou o esquecimento a roer a memória do que já foi. As duas mulheres não se conhecem, nunca se viram, mantêm uma certa distância de segurança, dez metros que o nevoeiro cerrado reduz à percepção de uma sombra, um vulto, uma presença que caminha pelas mesmas ruas e praças, aparentemente com o mesmo destino, Quem será aquela mulher, pergunta-se uma, Quem será aquela mulher, cogita a outra, ambas perplexas com a sua própria caminhada numa cidade que não reconhecem. Sem querer ainda revelar tudo, posso dizer que a primeira mulher, a de aparência humilde, a que se assusta com os poucos automóveis que circulam, faróis varrendo a brancura suspensa, a que se espanta com as montras das lojas, essa mulher muito direita e digna e de antes quebrar que torcer vem do passado, enquanto a outra, a de aparência mais distinta, a que segue atrás, a dez metros de distância, reparando nos poucos automóveis que circulam, faróis varrendo a brancura suspensa, como quem recorda um filme antigo, a preto-e-branco, essa mulher muito direita e digna e de antes quebrar que torcer vem do futuro. O agora é Lisboa, inverno de 1941, cidade triste, tristíssima, mas preservada do horror que anda à solta pelo resto da Europa, cidade-câmpanula-de-vidro-frágil que estremece com o fragor da guerra lá muito ao longe, como as porcelanas num louceiro quando passa o eléctrico. Ao fim de uma hora de caminhada, as duas mulheres param junto ao portão de um hospital, as duas agora próximas, as duas olhando a fachada do edifício para não se olharem uma à outra. Não me perguntem como se orientaram sem mapa e sem perguntar o caminho a um qualquer transeunte, como atravessaram com tanta certeza esta Lisboa que desconhecem, ou que pelo menos não reconhecem, não me perguntem porque também não sei. A mulher de aparência mais humilde ergue a mão para tocar na campainha mas depois hesita, a mão fica no ar, paralisada, incapaz, e então a outra, a de aparência mais distinta, chega-se à frente e toca. As duas ouvem o som, uma espécie de badalada àspera, as duas ficam à espera. São só elas, ali, dentro do nevoeiro, perto do débil lago de luz desenhado no chão por um candeeiro. Diz a mais distinta, Ai que frio, meu deus, devia ter trazido um casaco mais grosso, e a outra, aconchegando o xaile, Podia ser pior, podia ser pior. Batem os pés, pigarreiam, a mais distinta volta a carregar no botão da campainha, depois aproxima-se e murmura, Desculpe-me a indelicadeza, mas preciso de saber o que a trouxe aqui, O que me trouxe aqui, Sim, A verdade, minha senhora, é que não sei, Como é que não sabe, se eu vinha atrás de si e nunca a vi hesitar no caminho, Não sei, é como lhe digo, levantei-me esta manhã, deixei o meu marido dormindo, saí para a rua, estava um nevoeiro ainda mais denso do que este e uma força qualquer me conduziu os passos, fiquei até com a impressão de que isto é só um sonho e o meu corpo verdadeiro ainda está na enxerga, tremendo de frio entre os lençóis, Se calhar é mesmo um sonho, Deve ser porque não reconheço quase nada do que vejo, ainda agora nos cruzámos com máquinas mais estranhas do que a passarola do Padre Bartolomeu, E quem é esse Padre Bartolomeu, Isso agora teria muito que lhe contar, Ainda não nos apresentámos, Tem razão, minha senhora, mil perdões, o meu nome é Blimunda, Blimunda Sete-Luas, e digo-lhe já uma coisa, para que não se espante depois, em jejum consigo ver por dentro das pessoas, vejo tanto as tripas como as vontades, mas não se preocupe que antes de sair de casa comi uma côdea de pão, não lhe vou devassar as entranhas, A mim chamam-me a mulher do médico, Só mulher do médico, Só mulher do médico, Pensava que toda a gente tinha direito a um nome próprio, ao menos isso, Lá de onde venho é mesmo assim, E o seu marido, trata que maleitas, O meu marido é oftalmologista, Cruzes credo, que vem isso a ser, Trata dos olhos das pessoas, A mim não precisaria ele de curar, que até vejo mais do que devia, há quem diga que tenho olhos excessivos, E o que procura neste hospital, Para ser sincera, não sei lá muito bem o quê nem porquê, a força que me conduziu os passos formou na minha cabeça a imagem de um rapaz alto, com óculos, não mais do que vinte anos, chama-se José, trabalha aqui e a dita força meteu-me na ideia que ele precisa de saber que eu existo, para se lembrar de mim um dia que se ponha a escrever livros, Comigo foi quase igual, a mesma força, a mesma ideia, só não imaginei que viria acompanhada. Quando a mulher do médico se prepara para tocar mais uma vez, a porta abre-se, deixando ver a cabeça de um homem calvo e de má cara, O que desejam, Queríamos falar com o Sr. José, Qual deles, aqui há muitos, É um rapaz novo, alto, usa óculos, Dito assim parece o Zé das oficinas, o serralheiro, o que anda sempre com os livros atrás, Se calhar também escreve, Isso já não sei, mas que lê muito, lê, Então deve ser ele, será que o pode chamar, Vou ver se ele está, as oficinas ainda não fecharam mas pode ter saído mais cedo, esperem só um pouco, Está bem, E quem devo anunciar, Diga que são duas amigas que lhe querem bem. O porteiro virou-lhes costas e encostou a porta, afastando-se pelo corredor fora, murmurando para si mesmo, Logo duas, olha o magano, logo duas, não faz a coisa por menos.

[Versão ampliada de um texto publicado no n.º 93 da revista Ler]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges