Voltar a Borges
Aconteceu-me com Jorge Luis Borges algo que não voltou a acontecer com mais ninguém. Quando o escritor argentino morreu, em Junho de 1986, eu tinha 14 anos e uma apetência voraz por tudo o que fosse «matéria escrita». Lia muitos livros (aproveitando as tardes infinitas dos infinitos verões do início da adolescência), mas também lia de ponta a ponta todos os jornais que me fossem parar às mãos. Para o vespertino Diário de Lisboa nunca reservava menos do que duas ou três horas diárias (quando finalmente o dobrava e ia lavar as mãos, antes do jantar, o lavatório enchia-se de tinta negra); os sábados, passava-os até meio da tarde a devorar com método, sempre pela mesma ordem, os vários suplementos do Expresso, não suspeitando que um dia viria a escrever naquelas páginas. Creio que foi pelo DL que soube da morte de Borges. Na altura eu acompanhava religiosamente o Mundial de Futebol no México (Portugal fora eliminado por Marrocos três dias antes), mas de súbito passou a existir outro argentino prodigioso, para além de Maradona.
Nos obituários e textos evocativos, eram recordados o génio literário, a erudição, a vida rodeada de livros por todos os lados, a cegueira, os temas obsessivos (bibliotecas, tigres, eternos retornos), bem como as sinopses de alguns dos melhores contos. Lembro-me de pensar: «Eu tenho de ler isto. Eu tenho de ler Borges.» Ao mesmo tempo, evitei os ímpetos do entusiasmo. Não sei porquê, meti na cabeça que era demasiado cedo para entrar em tão fabuloso labirinto. Inconscientemente, estava a tentar fugir à melancolia de Bernardo Soares, que no Livro do Desassossego admite: «ter já lido os Pickwick Papers é uma das grandes tragédias da minha vida». Tragédia porque nunca mais voltamos a ler pela primeira vez um livro amado (como nunca mais voltamos a ouvir pela primeira vez os últimos quartetos de Beethoven). Não quis desperdiçar a abordagem inicial a um autor que poderia vir a ocupar um lugar importantíssimo, senão o lugar cimeiro, no meu panteão literário (como veio a acontecer). Por isso adiei Borges. Senti a urgência de o ler aos 14 anos, mas esperei pelos 18, como quem aguarda a maioridade para descobrir os grandes prazeres.
Já na Faculdade de Ciências, um amigo do curso de Biologia andava pelos corredores da Escola Politécnica com Borges debaixo do braço, não escondendo um sorrisinho metafísico. Não aguentei mais. Atirei-me de cabeça. Pedi-lhe emprestada a Nova Antologia Pessoal (Difel), depois o Ficções na edição da Livros do Brasil (o maior choque térmico intelectual da minha vida). Fiquei apanhado de vez, irremediavelmente convertido à causa borgesiana. Depois, só descansei quando devorei tudo, primeiro livro a livro (em edições baratas da Alianza, compradas nas idas a Espanha), mais tarde nos quatro volumes das Obras Completas, publicadas pela Teorema (1998-1999). Borges é daqueles autores a que podemos sempre regressar, uma e outra vez ao longo da vida, porque a sua escrita – ou a percepção que dela temos – evolui connosco, vai reflectindo aquilo que em nós se altera com a acumulação de experiências, de leituras e conhecimentos entretanto adquiridos. Ler Borges aos 40 anos não é a mesma coisa do que ler Borges aos 18 (ou, claro está, aos 14). Tal como não será lê-lo aos 86.
Agora que a Quetzal inaugurou uma colecção Jorge Luis Borges, O Livro de Areia voltou à minha mesa de cabeceira. Há dias reli o primeiro conto: O Outro. É uma variação sobre o célebre Borges e Eu (de O Fazedor). Em 1972, o narrador Borges senta-se em Cambridge (Boston), diante do rio Charles, e encontra-se consigo mesmo, isto é, com o Borges de 1918, sentado num banco em Genebra, «a uns passos do Ródano». Heraclito e o rio do tempo são evocados, claro. O Borges de 72, maduro e reaccionário, olha com benigna condescendência para o jovem cujos versos adolescentes pretendem cantar «a fraternidade de todos os homens», essa «abstracção». E remata: «Só os indivíduos existem, se é que alguém existe. “O homem de ontem não é o homem de hoje”, sentenciou certo grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou de Cambridge, somos talvez a prova disso.» Nós quatro, diria eu.
[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]
Aproximações ao Assis
1. Ainda hoje não me perdoo por não ter conhecido o Assis. O Assis Pacheco. O Fernando Assis Pacheco. No princípio da década de 90, ele era mais do que uma referência para quem ia aprendendo, pela tarimba (como então se dizia), os rudimentos do ofício. Ele era a própria ideia do repórter: o homem capaz de arrancar histórias à realidade quotidiana e transformá-las em crónicas brilhantes – ou em notícias que eram sempre mais do que uma pirâmide invertida. Diziam-me: «Tu tens de conhecer o Assis.» O Assis bom garfo, o Assis leitor omnívoro, o Assis atento ao que fazem os mais novos, o Assis camarada, tão lúcido e generoso. «Tu tens de conhecer o Assis.» E eu queria conhecer o Assis. Trabalhávamos a uma distância de poucos quarteirões, na mesma avenida lisboeta. Houve almoços colectivos apalavrados, promessas de copos no Bairro Alto, outras oportunidades para um encontro que fui adiando para um dia destes. O dia nunca chegou. E eu, sei-o bem, não fiz tudo para que chegasse. Depois, no final de 1995, deixou mesmo de poder chegar. Ainda hoje não me perdoo por não ter conhecido o Assis, o Assis Pacheco, o grande Fernando Assis Pacheco.
2. Mas a poesia. Ele escreveu tantas outras coisas, quase todas magníficas (como Walt ou Os Trabalhos e Paixões de Benito Prada). Mas a poesia. Volto à Musa Irregular (ASA, 1996). Ninguém como o Assis trouxe para o poema, tão crua e horrenda, a Guerra Colonial: «Li tudo sobre a morte. / Escrevi sobre a minha / e depois embebedei-me. / A bala vem pelo ar / (ruído onomatopaico) e / crava-se, cava, ceva-se / nessas carnes. Era a minha. / Tive uma bala marcada: / à última hora telefonei / a desistir. ‘da-se!». Que desassombro brutal diante do inominável. Que retrato à queima-roupa de uma sombra, de uma «luz negra» que voltaria a rondar, anos mais tarde, sem necessitar de balas, o corpo subitamente frágil, a mais falível das máquinas. E depois o amor. Dito assim, em três versos que resumem tudo: «Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo / da escuridão do mundo. / Porque tudo se escreve com a tua letra.»

3. Quando me lembro do Assis, lembro-me de uma fotografia. Ele de pé, no meio de uma estrada de terra, ao fundo erva e arbustos, um céu imenso por cima. Encostada, tem-te-não-caias, uma bicicleta das antigas, pasteleira de enrijecer os músculos das pernas. O Assis: enorme, barba a embranquecer, um sorriso de gozo a iluminar-lhe a cara toda, o punho direito muito fechado, os braços a fazerem um manguito daqueles. Um manguito com tudo o que um manguito deve ter: força, determinação, amplitude, bravura. Um manguito de quem ainda sabe muito bem, ou nunca deixou de saber, como se manda dar uma curva.
4. Assis morreu à porta da Buchholz, de repente. Vinha a sair, feliz, com um saco de livros comprados após a sua habitual ronda pelas novidades editoriais. Meses mais tarde, uma associação de existência efémera (chamava-se Locomotiva Azul) organizou uma homenagem ao Assis no Bairro Alto, numa tasca, como tinha de ser. Uns dias antes, aproveitando a estadia em Lisboa de Gonzalo Torrente Ballester, fui ao hotel onde se hospedava o escritor galego recolher um depoimento de viva voz, para ser ouvido na homenagem. Recordo-me perfeitamente de Don Gonzalo, no silêncio sábio dos seus oitenta e muitos anos, à procura das palavras certas. Ficou quieto, as mãos tremendo ligeiramente, olhos fechados atrás das lentes espessas de míope. Por fim, pigarreou e disse: «Morreu numa livraria não foi? Então teve a morte mais bela a que um escritor pode aspirar. Morreu junto aos livros, no seu posto, como o soldado morre no campo de batalha.»
5. À noite, os meus filhos gostam de ouvir audiolivros na cama, enquanto esperam o sono. Da vasta colecção, um dos discos mais pedidos é o das Memórias de um Craque (Boca), as crónicas de futebol e nostalgia que o Assis publicou em 1972 no jornal Record – e que o Nuno Moura lê de forma insuperável. A Alice recita de cor deliciosos excertos («De como fiz a minha iniciação desportiva, hesitando entre a arte de guarda-redes e a de pedróbolo da quinta do Lopes…»), mas os meus filhos ainda não sabem quem foi o Assis. Um dia destes, conto-lhes. Mas conto mesmo.
[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]
Uma entrevista com E. L.
Foi em Março de 1998, poucas semanas antes da abertura da Expo’98. Num domingo à tarde, sentei-me à conversa com Eduardo Lourenço, então prestes a fazer 75 anos. Pretexto: uma entrevista de fundo para o suplemento DNA, do Diário de Notícias. Lembro-me perfeitamente do átrio do hotel lisboeta, com cadeirões confortáveis, à média luz. Em surdina, chegava da recepção um relato de futebol. O professor recebeu-me com um aperto de mão firme, rosto ameno, gestos cordiais. Vestia casaco castanho, calças cinzentas, gravata malva. Antes de nos sentarmos a uma mesa do canto, enquanto eu testava o gravador e a microcassete de fita castanha, apoquentou-se. Apalpando os bolsos, admitiu não saber dos óculos: «Acho que os deixei no Vá-Vá» (o café da Avenida de Roma onde passara parte da manhã). Ao aperceber-se da agitação, um empregado aproximou-se, lembrando que vira «o senhor professor» a subir para o quarto com os óculos postos. Eduardo Lourenço pediu desculpa, dirigiu-se rapidamente para o elevador e demorou um quarto de hora a voltar ao átrio. Já a luz vermelha do gravador se acendera, quando rematou: «Uma parvoíce, isto dos óculos, na verdade não precisava deles para falar, pois não?»
A bonomia do primeiro contacto prolongou-se pelas quatro horas seguintes. Quatro horas de discurso contínuo, de elocubrações e memórias, de inteligência e lucidez. O mais espantoso de tudo foi ver como Eduardo Lourenço, nunca se assumindo como filósofo (apenas como «pensador»), exercia à minha frente a arte de reflectir. As suas frases tinham uma frescura inesperada, como se estivessem a ser ditas pela primeira vez (e algumas estariam mesmo). Entre ideias mais fortes, havia por vezes longas pausas, como se os nexos entre elas requeressem o tempo de serem devidamente ponderados. Coisa extraordinária, esta: ouvir um pensador no acto de pensar. Aqui e ali, um sorriso sublinhava as palavras que se arredondavam em soundbytes. Por exemplo: «Portugal não sairá nunca de si.» Ou: «Este é um país pequeno mas que tem um imaginário hiperbólico.» Ou ainda: «A Arte, se virmos bem, acaba sendo a verdadeira Internet de Deus. É o lugar onde ao mesmo tempo navegamos e somos navegados.»
Lourenço falou de Camões e Pessoa, de Husserl e Kierkegaard, as suas grandes referências literárias e filosóficas. Lamentou não ter sido médico ou historiador, em vez de transportar em si a consciência de um trabalho interminável: «A minha vida é não produzir sentido. É uma vontade de dar essa ideia de sentido, algo de que me aproximo como de um objecto quase idolátrico. Era Hegel que dizia ter sido condenado por Deus a ser filósofo. Condenado porquê? Porque é uma tarefa infinita.» E lembrou a infância, «esse espaço dentro do qual se coloca algo de parecido com a felicidade», os primeiros anos na aldeia beirã onde nasceu, S. Pedro de Rio Seco, e que hoje em nada se assemelha ao que era na década de 20. «Entre as diversas temporalidades, a mais difícil de pensar é a do nosso próprio tempo, porque de algum modo é ele que nos pensa a nós», resumiu, vagamente comovido.
Houve também espaço para pequenas surpresas. A confessada admiração por Corto Maltese, «que andou pelo mundo fora em viagem»; admiração com um toque de inveja («infelizmente sou pouco aventureiro»). Ou o entusiasmo ao evocar o «erotismo platonizante» de Ingrid Bergman: «Além da beleza inacreditável, há nela uma espécie de inocência, uma espécie de aura, qualquer coisa que se assemelha a uma aparição.» O cinema, de resto, tem uma carga simbólica tão poderosa que Lourenço lhe atribui a origem do domínio cultural americano: «Foi no grande ecrã que os americanos criaram a América. Atribuíram-se um imaginário e um passado que não tinham.»
No fim das quatro horas de conversa, enquanto agradecia a generosidade do tempo dispensado, perguntei-me: «Caramba, como é que um homem de quase 75 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» Catorze anos depois, a pergunta mantém-se: «Caramba, como é que um homem de quase 89 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» A resposta também se mantém: não sei. Não sei mesmo. Mas assistir à persistência de tamanho brilho intelectual é um consolo para quem vê diariamente a estupidez a ganhar terreno em todo o lado.
[Texto publicado no número de 2012 da revista Correntes d'Escritas]
Os dias balcânicos
3 de Abril de 2002
Entre Lisboa e Zagreb, o aeroporto de Frankfurt. Passadeiras rolantes intermináveis, multidões que arrastam malas com rodinhas. Em muitos rostos, o pânico apressado de quem teme perder uma ligação. Sigo as setas, entro em elevadores, saio de elevadores, viro aqui, contorno ali, não me perco uma única vez. Ainda assim, chego ao gate B31 mesmo em cima da hora. Já chamam os retardatários do voo para a capital croata. E se tivesse errado uma curva do percurso? Onde estaria agora?
Ao meu lado, junto à janela, um eslavo: olhos claros, bigode, inglês rudimentar, anel com pedra vermelha, relógio dourado. Observa-me. Eu também o observo. Igual desprendimento. É um olhar de soslaio, sem curiosidade suficiente para tentar imaginar de onde vem e o que vai fazer o outro. No meu caso, não quero verdadeiramente saber se ele pertence a uma organização criminosa responsável por tráfico humano ou a um departamento do Ministério do Turismo. Assim que o avião descola, ele adormece e ressona baixinho, enquanto eu leio uma reportagem sobre um violador vampiro, no USA Today que oferecem a bordo.
À minha espera, o José Luís Peixoto. Depois de trocar euros por kunas (a kuna é uma marta, animal cuja pele servia de moeda para pagar impostos na Idade Média), dirigimo-nos para a casa de Vanja, a namorada croata do JLP, amiga comum. Deixo as malas no apartamento pequeno da rua Bleiweisova e saímos para um primeiro passeio. O eléctrico azul deixa-nos no centro. Andamos a pé, sem rumo, durante meia hora. Depois, esperamos a Vanja numa esplanada da Trg Marsala Tita (Praça Marechal Tito). Ela chega sorridente, senta-se, bebe connosco. Como sempre, falamos em inglês. Explica que Zagreb quer dizer «behind the hill», atrás da colina. Assim que pomos a conversa em dia, leva-me à Algoritam, uma das melhores livrarias da cidade. Os meses que passou em Portugal foram suficientes para saber quais são as minhas prioridades.
4 de Abril de 2002
Céu cinzento. Visita à Catedral. Sandes de panado com molho tártaro. Consulta dos e-mails no cibercafé Sublink. Mercado de flores em Splavnica. Na praça principal, debaixo do relógio, um grupo de peruanos tocava a música do filme Titanic em flautas de pã.
5 de Abril de 2002
Sexta-feira. Num rent-a-car, alugamos um Opel Astra verde até segunda, ao meio-dia. Pela auto-estrada são 120 quilómetros até Karlovac, a cidade dos quatro rios, onde a Vanja nasceu. Durante a viagem comemos chocolates e ouvimos, no rádio mal sintonizado, um equivalente croata da música pimba. Na paisagem, marcas da guerra: casas em ruínas, arrasadas por obuses; muros cravados de balas. Ninguém esqueceu a operação Tempestade de 1995, durante a qual o exército croata expulsou a minoria sérvia da Krajina.
Em Karlovac, tomamos a estrada para o parque natural de Plitvice. É ali, perto do maravilhoso emaranhado de lagos e cascatas, que fica a casa da mãe da Vanja. Boa anfitriã, oferece-nos o jantar e, antes disso, aguardente de ameixa. Com típico humor eslavo, deixa a garrafa aberta em cima da mesa da cozinha: «Se ficarem já bêbedos, não tenho de os aturar.» À refeição, comemos cevapi (uma espécie de kebab) e folhados de cogumelos. Sobremesa: um delicioso bolo de creme e chocolate. Ao serão, TV polaca e o filme Carrie, dobrado em croata.
6 de Abril de 2002
Destino: Bósnia. Saímos em direcção à fronteira, com Bihac no horizonte. Na janela do carro, cerejeiras em flor. A seguir à montanha, planície. Para lá da fronteira, começamos a ver os minaretes das mesquitas. Almoço na margem do rio Una. Uma varanda sobre as águas, borrego assado com batatas e vinho esloveno (Quercus). Dragana, a irmã de Vanja, acompanha-nos no passeio e conta a história de como os sérvios de Banja Luka alteraram a composição química do rio, de forma a que este ficasse azul e não verde (a cor dos muçulmanos). Já na estrada, cruzamo-nos com um casamento: 20 carros em fila, os capots cobertos de flores, todos a apitar freneticamente. Na Croácia, onde estão flores estariam bandeiras nacionais.
Em Bihac, há papéis necrológicos pendurados nas árvores: verdes para os muçulmanos; pretos para os católicos. No supermercado, recebemos o troco em convertible marks. Muitos buracos de balas nas paredes, entre placas que lembram os partizans caídos em combate na II Guerra Mundial. Numa rua do centro, duas meninas de dez anos, ou talvez menos, passam de mão dada, a cantar. É uma melodia alegre, saltitante, infantil. Peço à Vanja que me traduza a cantilena. Quando ela traduz, estremeço. O refrão só diz isto: «Viola-me / Mata-me / É tudo a mesma coisa.»
8 de Abril de 2002
Regressámos a Zagreb ontem à noite. Hoje de manhã, antes de entregar o carro, ainda fomos dar umas voltas pela cidade. No cemitério onde fica a campa do muito amado e muito odiado presidente Tudjman, Vanja fala-me da situação política e do peso sufocante do nacionalismo doentio.
Às 19h30, uma experiência daquelas que nunca mais se esquecem. Numa sala apinhada com perto de 2000 pessoas, Cesária Évora dá um concerto. Ritmo creoulo, melancolia na voz rouca da diva descalça (como será que se diz «diva descalça» em croata?). Por um acaso da sorte, oferecem-nos algumas das poucas cadeiras instaladas no palco, sob uma luz violeta. De onde estamos, vemos os músicos de costas, a enorme Cesária abanando as ancas de cá para lá, o maravilhamento de um público que se rendeu e no fim, em apoteose, aplaudiu durante mais de 15 minutos.
9 de Abril de 2002
Dia feio, sombrio. Pombos a planar sobre a praça. Chapéus-de-chuva. Na livraria Algoritam, descubro um poema de Bukowski no livro The Last Night of the Earth. Começa assim: «it / takes / a lot of // desperation // dissatisfaction // and / disillusion // to / write // a / few / good / poems.» Não me sinto desesperado, nem insatisfeito, nem desiludido. Mas também não escrevo poemas. Olho pela janela ampla do Kavana Dubrovnik. O empregado, um careca rezingão, traz-me um café duplo quando lhe pedi apenas um trivial kava espresso, uma bica normal. Quando desfaço o equívoco, fica furioso e murmura palavras cheias de sílabas que parecem arestas (também devem ferir pelo seu significado, suspeito).
10 de Abril de 2002
Continua a chuva. Vou aos museus. Deambulo pela cidade. Nos bairros do centro, paira ainda a atmosfera do império austro-húngaro. Estou sempre à espera de me cruzar com senhores de jaqueta e bigode torcido, acompanhados por senhoras de sombrinha com o cãozinho pela trela, casais de braço dado, caminhando airosos ao som de valsas de Strauss. As praças são largas; os jardins, geométricos (cercados de plátanos). É uma espécie de Viena com pátina, decadente mas sedutora. Aqui não se detectam sinais da guerra, mas há fachadas enegrecidas, paredes periclitantes. A pobreza existe, só que discreta. Ontem apercebi-me de que ainda não vi um único arrumador de automóveis.
11 de Abril de 2002
Viagem de um só dia à Eslovénia. Algumas horas de comboio até Ljubljana, uma capital-miniatura, belíssima. Faço a ronda das livrarias. Numa delas, com os tectos muito altos, compro uma edição eslovena de Alice no País das Maravilhas, a pensar na colecção lewiscarrolliana de uma amiga. No cimo de um monte, o castelo é omnipresente e tem qualquer coisa que me faz pensar em Kafka. Bebo um chá quente no Café Nostalgia (cheio de ícones da antiga Jugoslávia). Compro seis CDs de música clássica a baixo preço e fico meia hora a comer amêndoas junto à ponte tripla. Regressamos de noite. No comboio escrevo um poema para a Vanja. Começa assim: «Dentro da escuridão / há uma paisagem / submersa: árvores, / ossos, rios, pedras, / a memória dos mortos, / o fogo gasto de uma estrela».
12 de Abril de 2002
Volto à Algoritam, descubro a Mladost. É estranho percorrer as bancadas cheias de livros escritos numa língua que desconheço. Volto ao Sublink e passo por outros cibercafés: o Charlie’s, o @vip. Volto ao Kavana Dubrovnik, ao Mala Kavana. Ainda não passaram dez dias sobre a minha chegada a Zagreb e já tenho hábitos, rotinas, lugares a que me sabe bem regressar. Num dos cafés, desafio outra vez Bukowski: «Eu sei que o poema / se faz de ar e fumo, / arquitectura abstracta, / gestos cegos de tão lúcidos.» É um esboço que continua por mais uma dezena de versos. Hesito: amarroto o papel ou guardo-o? [Quase uma década mais tarde, a hesitação mantém-se.]
13 de Abril de 2002
Amanhã, voo para Lisboa. A viagem está a chegar ao fim. «Não te podes ir embora sem subir ao Sljeme», diz-me a Vanja. O Sljeme é a montanha que fica junto a Zagreb, a tal «colina» atrás da qual a cidade se esconde. O bilhete do teleférico custa 15 kunas. Subimos devagar, suspensos, encosta acima. Lá no topo, fotografias que provarão, um dia, que estivemos aqui. Aqui em Zagreb. Aqui em 2002. Supostamente, a vista da cidade é ampla, bela, de tirar a respiração. Mas hoje há nevoeiro. Um nevoeiro denso, placa branca a meia altura da montanha. Zagreb está lá em baixo, escondida, invisível, como se já tivesse dito adeus muito baixinho, como quem se esconde no último minuto porque não gosta de despedidas.
[Diário de viagem publicado na última página da edição de hoje do Jornal de Letras]
Boswell em Utrecht
Em Agosto de 1763, aos 22 anos, James Boswell partiu de Inglaterra no navio Prince of Wales, com destino à Holanda, onde se matricularia em estudos de Direito na cidade universitária de Utrecht, por insistência de Lorde Auchinleck, seu pai. Na verdade, o desterro na Europa representava um castigo pelo facto de Boswell, no ano anterior, ter dado largas à sua propensão para a vida dissoluta e o comércio carnal com prostitutas. Ainda na flor da idade, impunha-se que James moldasse o seu carácter, afastando-se das más tentações com o empenho e o estoicismo de um verdadeiro gentleman. Curiosamente, poucos meses antes de partir dera-se o encontro fundamental da sua vida, quando conheceu Samuel Johnson, o brilhantíssimo homem de letras, ensaísta, crítico literário e lexicógrafo, 31 anos mais velho, de quem se tornaria amigo e, algumas décadas depois, biógrafo (deixando para a posteridade The Life of Samuel Johnson, considerada uma das melhores biografias de todos os tempos, se não a melhor).
Ainda em Londres, sob a orientação de Johnson, Boswell quis dedicar-se seriamente ao estudo e à escrita, como forma de aperfeiçoamento moral, mas também para controlar a libido e os ataques de tristeza, ou langor, que por vezes o deixavam prostrado. A perspectiva de uma vida nova na Holanda provocou-lhe alguma ansiedade e talvez por isso Johnson acompanhou-o até Harwich, ficando na praia a despedir-se daquele rapaz instável, até que o navio desapareceu para lá da linha do horizonte. Após o desembarque em Roterdão, Boswell começou a sentir-se deprimido mal chegou a Leyden. O sentimento não melhorou durante as nove horas da viagem até Utrecht, no ritmo lento de uma barcaça puxada por cavalos. A primeira coisa em que reparou, ao chegar à cidade, foi na torre da catedral, separada do corpo do templo por uma pilha de escombros. Quase um século antes, a nave colapsara e ninguém se dera ao trabalho de a reconstruir. Contemplando as ruínas, do seu quarto no outro lado da praça, Boswell foi dominado pela melancolia – um sentimento que haveria de o acompanhar durante todo o período holandês, talvez ampliado pela solidão.
No livro Hipocondria – Nove Vidas Atormentadas (Texto), Brian Dillon detém-se sobre este episódio da vida de Boswell para mostrar como os seus padecimentos o transformaram num escritor. Em cartas e memorandos matinais, é possível assistir ao espectáculo de uma mente em luta contra a procrastinação. Obcecado pelo planeamento, James impunha-se horários rígidos – «das 7 às 8, Ovídio; (…) das 10 às 11, Tácito; (…) das 6 às 7, Direito Civil; (…) das 8 às 10, Voltaire» – mas as intenções escritas no papel, logo ao acordar, esbarravam invariavelmente na sua incapacidade de as cumprir. Esta falência do autocontrolo acentuava a melancolia, da qual tentava fugir com o planeamento de novas rotinas, que voltavam a falhar, e assim sucessivamente, num ciclo vicioso que corresponde a um quadro hipocondríaco. Escreve Dillon: «Boswell pensava que a sua obsessão pelo tempo – por planos, projectos e prospectos – era uma forma de controlar a sua hipocondria, de se libertar da letargia e de acalmar os medos. Mas talvez seja mais correcto concluir que a hipocondria era, ela própria, uma forma de organizar o seu tempo.» Ou seja, uma forma de direccionar um impulso que se tornou aos poucos uma compulsão. A compulsão para a escrita que lhe permitiu redigir, a partir de 1777, uma série de ensaios que o celebrizaram, e, mais tarde, a genial biografia do Dr. Johnson.
A tristeza contínua de Boswell, durante os 11 meses que viveu na Holanda, ficou registada em 500 páginas de diário, infelizmente perdido. Quase no fim da sua estadia, ele foi certa tarde passear nos arredores de Utrecht. Com a torre da catedral erguendo-se na paisagem, desembainhou a espada, caiu de joelhos e aceitou para si mesmo o fardo de ser «incuravelmente melancólico». Depois subiu à torre, de onde contemplou, muito lá em baixo, o lugar da epifania e da libertação. Ao regressar a Inglaterra, já estava reconciliado com a sua natureza e pronto para o lugar que a história da literatura lhe reservava, à sombra iluminada de Johnson.
[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]
Uma bíblia laica
Em frente a uma papelaria do aeroporto de Frankfurt, vários editores portugueses faziam o balanço da maior Feira do Livro do mundo, que decorreu entre 12 e 16 de Outubro. Os mais veteranos lembravam o frenesi de outros tempos com uma certa nostalgia, inquietos com os sinais da crise, traduzida em menos visitantes, menos stands, menos negócios. «Viram o pavilhão dos americanos? No primeiro dia estava às moscas. Eles quase não fizeram compras – só trouxeram agentes, para vender.» Encolhendo os ombros, os editores portugueses admitiam que também compraram pouco: só títulos muito escolhidos, apostas seguras. «Desta vez nem sequer houve um livro da Feira, daqueles que toda a gente fazia loucuras para comprar», resumiu José Prata, responsável pelo catálogo da Lua de Papel e pelo maior sucesso editorial dos últimos anos em Portugal (O Segredo, de Rhonda Byrne, que vendeu quase meio milhão de exemplares).
Enquanto caminhávamos para o nosso gate, arrastando as malas, Prata falou-me então de um livro recente que lhe encheu as medidas. «Não vai vender muito, claro.» Mas se para alguma coisa servem as Rhondas Byrnes, é para isto: permitir, em paralelo, a edição de um calhamaço de 700 páginas que brilha como uma pérola no meio do lixo esotérico. Título: O Livro dos Livros (The Good Book na versão original, lançada em Abril deste ano no Reino Unido). Autor: o filósofo inglês A. C. Grayling, que dá aulas actualmente na Universidade de Londres, depois de ter ensinado em Oxford, e é visto como o menos virulento dos intelectuais que compõem uma pouco santa trindade de ateus militantes em terras de Sua Majestade – os outros dois, escusado será dizer, são Richard Dawkins e Christopher Hitchens. «Quando o livro sair, dá-lhe uma olhadela, porque acho que vais gostar», avisou o Prata, já na zona de embarque. Assim que foi publicado, em meados de Novembro, dei-lhe a prometida olhadela. Aliás, várias olhadelas. E, de facto, gostei do que li.

O conceito desta obra imensa, fruto de um trabalho de três décadas, é tão simples quanto poderoso: fazer uma espécie de Bíblia, com uma estrutura semelhante, mas em que Deus está ausente. Tal como a original, esta bíblia é composta por vários livros (Génesis, Parábolas, Provérbios, Epístolas, etc.), divididos em capítulos e versículos, mas com fontes seculares, em vez de religiosas. O processo de construção é o mesmo – a colagem de textos de diferentes origens, que criam uma genealogia, uma doutrina e uma ética para a vida humana – só que muito mais abrangente. A ideia surgiu a Grayling quando ainda era estudante universitário e se apercebeu de que os editores da Bíblia, ao escolherem apenas fontes religiosas, estavam implicitamente a renunciar à riquíssima tradição humanista dos gregos e romanos, alguma da qual estava ao seu alcance. No Livro dos Livros, o que Grayling faz é justamente uma compilação dessa outra sabedoria, a que foi excluída da matriz judaico-cristã, num arco que vai dos filósofos pré-socráticos ao século XIX e reúne citações – nunca atribuídas directamente – de pensadores e poetas como Plutarco, Epicteto, Xenofonte, Confúcio, Cícero, Rumi, Petrarca, Hume, D’Alembert, Goethe, Kant, Darwin, Emerson ou Rimbaud. Nas palavras de Grayling, que começou a ler Platão aos 12 anos e acredita que toda a gente pode compreender conceitos filosóficos (desde que devidamente explicados), esta obra é «uma destilação do melhor que foi pensado e dito por pessoas que experimentaram realmente o que é viver, e reflectiram sobre essa experiência».
A principal vantagem de uma estrutura semelhante à da Bíblia está na possibilidade de abrir o livro aleatoriamente e ler versículos soltos. É precisamente isso que faço agora. Livro das Lamentações, Capítulo 10, versículo 28: «Se as crianças viessem ao mundo através de um acto puramente racional, poderia a raça humana ter continuado até hoje?». Livro dos Provérbios, Capítulo 43, versículo 12: «Ao crime bem-sucedido chamamos virtude.» Livro das Epístolas, 5.ª Epístola, primeiro versículo: «O dia, se bem aproveitado, dá para tudo.» Dá para tudo, sim. Até para uma pessoa se perder no labirinto de sabedoria desta obra admirável.
[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]
Imagens translúcidas
O que mais me impressionou foi a súbita explosão de alegria. O anúncio do Nobel costuma ser uma cerimónia circunspecta. Abre-se uma porta numa sala cheia de dourados, o secretário permanente da Academia Sueca faz uma curtíssima declaração, ouvem-se os disparos das máquinas fotográficas e um ligeiro burburinho (geralmente um «quem é?» em várias línguas, quando o premiado sai das trevas do anonimato). Este ano foi diferente. Quando Peter Englund, visivelmente satisfeito, revelou que o Nobel ficaria em casa, na Suécia, nas mãos do venerado poeta Tomas Tranströmer, a sala rejubilou. E eu também. A sala rejubilou porque ao fim de 37 anos acabava o tabu provocado pela polémica atribuição do Nobel a dois suecos em 1974, Harry Martinson e Eyvind Johnson, ambos membros do comité do prémio. Eu porque o Nobel voltava a ser atribuído a um poeta, 15 anos depois. Pelo meio houve Saramago e Pinter, que também escreveram poemas, mas foram premiados pelos seus romances (o primeiro) e peças de teatro (o segundo). Poeta-poeta, o último fora a polaca Wislawa Szymborska, em 1996, há uma eternidade.
Alguém devia fazer um dia, se já não foi feito, um estudo sobre as justificações lapidares da Academia Sueca, reduzidas quase sempre a uma frase generalista, redonda e abrangente, que pode ser perfeita para a lógica dos soundbytes da comunicação social, mas é curta para quem deseja perceber o que distingue o autor premiado. No caso de Tranströmer, foram evocadas as suas «imagens condensadas e translúcidas» que permitem «novas formas de acedermos à realidade», um elogio que em bom rigor pode aplicar-se a dezenas de outros poetas. Houve, apesar de tudo, alguma exactidão na referência às «imagens translúcidas», porque é precisamente o refinadíssimo trabalho metafórico de Tranströmer, a capacidade de vermos através das imagens por ele convocadas, que torna a sua poesia tão arrebatadora.
Os poemas que conheço deste autor foram vertidos para inglês, castelhano e (poucos) para português. Se a poesia é o que se perde na tradução, como defendia Robert Frost, eu de cada vez que os leio fico com pena de não saber sueco. Pressinto neles uma delicadeza que o trânsito para outras línguas deforma. O poema traduzido é a sombra do poema original: tem o seu contorno, a sua silhueta, mas falta-lhe espessura. Ainda assim, encontrei belíssimas sombras. Como a de Madrigal, traduzido por Alexandre Pastor no Jornal de Letras: «Herdei uma floresta sombria onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que mortos e vivos mudarão de lugar. A floresta começará então a mover-se. (…) Eu herdei uma floresta sombria, mas hoje passeio numa outra, plena de claridade. Tudo o que está vivo e canta, serpenteia, acena, rasteja! É primavera, e o ar que se respira é fortíssimo. Tenho um diploma da universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.» Releio o poema e as imagens acendem-se: a floresta que se move, como no quinto acto de Macbeth; a explosão da primavera; a universidade do esquecimento; as mãos vazias agitadas pela ventania que não precisa de ser nomeada.
Este poema surgiu num livro de 1989 e há justamente uma imagem – a da camisa pendurada na corda – que rima com outro poema, de 1966, intitulado Pássaros Matinais (aqui em tradução do poeta português João Luís Barreto Guimarães, a partir de uma versão castelhana): «(…) Por uma parte de trás da paisagem / chega a gralha / negra e branca. Pássaro agoirento. / E o melro que se move em todas as direcções / até que tudo seja um desenho a carvão, / salvo a roupa branca na corda de estender: / um coro da Palestina: // Não há vazios por aqui. // É fantástico sentir como cresce o meu poema / enquanto me vou encolhendo / Cresce, ocupa o meu lugar. // Desloca-me. / Expulsa-me do ninho. / O poema está pronto.» A imagem translúcida, aqui, é a do poema que se desenvolve à custa do poeta, o crescimento de um fazendo-se do encolhimento do outro, o poema ocupando o lugar do poeta, expulsando-o do ninho. Uma lição essencial. Quem ganhou o Nobel este ano não foi Tranströmer, mas a poesia.
[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]
O caminho que interessa
A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»
[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]
Eu & Bobby Fischer
No final dos anos 80, a minha grande paixão era o xadrez. Todos os sábados, apanhava um autocarro da Rodoviária Nacional com destino ao subúrbios de Almada (isto é, a periferia da periferia), onde participava em campeonatos fracos, mas disputadíssimos, no humilde Clube Recreativo do Feijó. Não se pode dizer que as condições para a prática da modalidade fossem as melhores: lembro-me de um “torneio interno” ter coincidido com um campeonato de tiro, em salas contíguas. Ao regressarem aos tabuleiros, vindos da casa de banho, os xadrezistas tinham de esperar que os atiradores baixassem as armas. E o som dos disparos minava, tarde adentro, a capacidade de concentração de quem temia perder-se nos labirintos teóricos da Defesa Siciliana.
Nessa época, o meu herói era Garry Kasparov, cujas partidas acompanhava nas páginas inteiras que o vespertino A Capital dedicava todas as semanas ao xadrez, cheias de diagramas e análises do mestre Luís Santos (hoje recordo esse espaço de inteligência como um oásis efémero, rapidamente devorado pelo deserto da vulgaridade jornalística). Muitos anos mais tarde, pude jogar contra o mítico “ogre de Baku” numa simultânea no Estoril e o meu único prazer consistiu em adiar o golpe de misericórdia, a estocada final do antigo campeão, já na reforma mas ainda ferozmente competitivo. Antes de Kasparov, admirei Anatoly Karpov, cerebral campeão-tipo da escola soviética (li de fio a pavio o livro de capa verde, editado pela Caminho, com as “32 lições de xadrez” do match Karpov-Korchnoi pelo título mundial de 1978); e antes dele rendi-me a Alexandre Alekhine (russo branco que morreu em Portugal, engasgado com um pedaço de carne), capaz dos mais estrepitosos sacrifícios de peças, mesmo em jogos às cegas; e, antes ainda de Alekhine, houve o cubano elegantíssimo, José Raúl Capablanca, autor daquele que foi o meu primeiro livro de xadrez.
Deste panteão, curiosamente, nunca constou Bobby Fischer, talvez porque o único campeão mundial norte-americano acabou por sair de cena assim que venceu Spassky em Reiquejavique, poucos meses depois do meu nascimento, em 1972. Quando comecei a jogar mais a sério, Fischer era um fantasma, uma assombração, um paranóico incapaz de se encaixar no mundo. Reconhecia-lhe o talento puro e deleitava-me com as suas melhores partidas, mas não era capaz de o venerar. Depois veio o 11 de Setembro e as célebres afirmações de regozijo com os ataques aos EUA – a alegria de um sociopata ressentido com a pátria que renegou. Risquei-o de vez do meu mapa mental, até saber da sua morte na Islândia, em 2008, no fim de um longo processo de decadência e fuga que o levou até ao lugar onde conheceu a glória desportiva, esse zénite estupidamente desperdiçado.

Embora não seja grande leitor de biografias, algo me atraiu para o livro Endgame, de Frank Brady (Crown, 402 páginas, 2011). Talvez o quilométrico subtítulo: Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness. Quem não gosta de histórias de ascensão e queda? Quem resiste a figuras que estão no fio da navalha, entre génio e loucura? Em muitos aspectos, Bobby Fischer é como uma personagem de romance: grandiosa, iníqua, trágica. E a trajectória da sua vida – minuciosamente recuperada por Brady (um árbitro internacional de xadrez que conheceu de perto o objecto da sua biografia e teve acesso a vasta documentação) – mostra-nos como o rapazinho brilhante de Brooklyn, que respirou xadrez da infância à idade adulta, obcecado em tornar-se um dos melhores jogadores de sempre, descarrilou assim que cumpriu o seu desígnio, deixando-se levar por megalomanias insensatas, pela torpeza das teorias da conspiração e por um ódio anti-semita que o tornou, para sempre, odioso. O xadrez era a sua vida e ele desperdiçou ambos: o xadrez (que na prática abandonou antes de fazer 30 anos) e a vida. É uma história triste, tristíssima, mas atravessada por fugazes momentos de luz intensa. Como aquela partida maravilhosa que jogou aos 13 anos contra Donald Byrne (chamaram-lhe o “Jogo do Século”) e que está entre as coisas mais belas que alguma vez contemplei.
[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]
Os e-books não mordem
Éramos seis naquela mesa redonda. Editores, romancistas, críticos literários, consultores. Tema da conversa: «Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?» Como se o facto de podermos trazer centenas de romances num aparelho fininho implicasse necessariamente uma guia de marcha para as estantes lá de casa. Quando me deram a palavra, pousei no colo os vários gadgets pelos quais distribuo as minhas leituras digitais (Kindle, iPad e iPhone), o que me fez sentir uma espécie de José Magalhães nos seus tempos de guru da pré-história da internet em Portugal (lembram-se?), e sublinhei uma evidência: o e-book não vai assassinar o livro em papel (pelo menos nas próximas décadas), nem substituir a experiência da leitura tradicional. Mas os dois suportes podem perfeitamente coexistir, com as respectivas vantagens e limitações. Pela minha parte, a adaptação foi imediata e leio agora e-books naturalmente, como se eles sempre tivessem existido. Uma das vantagens, para além de os poder descarregar no próprio instante em que estão a ser lançados nos EUA ou no Reino Unido, é o acesso instantâneo ao dicionário de inglês, ao Google e à Wikipedia. Basta carregar na palavra que nos suscita dúvidas e a definição correspondente aparece na base do ecrã (ou o link para os sites referidos). E uma pessoa habitua-se tão depressa que já me aconteceu, ao ler livros em papel, sentir o impulso de carregar numa palavra que desconheço ou no nome de alguém que gostaria de pesquisar.
No debate, havia quem estivesse disponível para experimentar, mas também quem jurasse a pés juntos que desta água não há-de beber. O discurso típico de quem só vê na emergência do digital os seus perigos (que existem, entre eles o da rápida obsolescência tecnológica) mas nenhuma das suas virtudes. A questão, porém, é que os e-books não são uma fantasia futurista. Eles são a realidade de hoje. Ou, para os mais renitentes, de amanhã. Foi aliás muito curiosa a resposta que obtive à pergunta: «Mas algum de vocês já leu um e-book?» Pois. Nenhum dos outros cinco participantes no debate tinha alguma vez lido um e-book. Ou seja, estiveram duas horas a falar de uma coisa que nunca experimentaram. Daqui a um ano ou dois, acreditem, a proporção vai inverter-se. Recordam-se da resistência inicial aos telemóveis? Alguns dos que se riam da hipótese de vir a andar com um aparelhómetro colado ao ouvido, que horror, agora não prescindem dos modelos de última geração, com internet e tudo. Mais: daqui a vinte anos o título do debate («Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?») vai parecer tão anacrónico como um debate que há vinte anos tivesse discutido «Vem aí o e-mail… Deito fora os meus postais?».
Parte do preconceito contra o livro digital nasce do facto de muita gente pensar que este é um mero clone dos livros em papel. Nada mais errado. Embora ainda só estejamos no início, já começam a aparecer livros-aplicação (a pensar nos tablets) que levam a literatura digital para outros patamares. Veja-se o caso da versão para iPad do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, nascida da parceria entre uma editora de vanguarda tecnológica (a Touch Press) e a prestigiadíssima Faber & Faber (detentora dos direitos). O resultado é avassalador. Além dos versos, com as anotações de Eliot integradas, podemos ver em sincronia a interpretação do poema pela actriz Fiona Shaw, registos áudio de outras leituras (Ted Hughes, Viggo Mortensen, o próprio Eliot), vídeos com comentários de várias personalidades (de Jeanette Winterson a Seamus Heaney) e imagens da versão original com notas manuscritas de Ezra Pound. No momento em que escrevo, acabo de comprar outra aplicação igualmente espantosa: a «edição amplificada» do On the Road, de Jack Kerouac (Penguin), com mapas das suas viagens pelos EUA, biografias dos escritores da Beat Generation, documentos de arquivo, comparações entre rascunhos e versão definitiva, capas das edições internacionais (incluindo a da Ulisseia), etc. Já imaginaram o que se pode fazer com o Ulisses, com a Divina Comédia, com os livros do Pynchon, com os do Georges Perec? As possibilidades são infinitas. E eu mal vejo a hora de as poder desfrutar.
[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]
Nietzsche nos Anjos
O primeiro a falar foi o Adelino, Lino para os amigos. E foi o que falou menos. Escondeu o jogo. Os outros contaram em detalhe os seus problemas. O Hélder falou das temporadas no inferno por causa da droga, histórias terríveis mas que ficaram para trás («há mais de um ano que deixei a metadona, não vou arriscar outra recaída»). O Daniel explicou como é que perdeu a vista direita (uma facada) e se lhe pedisse muito mostrava-me a cicatriz que assinala o lugar por onde um dia lhe entrou uma bala. O João Miguel contou como «as drogas e a night» lhe estragaram o futuro de ponta-de-lança com jeito para marcar golos de cabeça; mais a longa peregrinação por centros de apoio e comunidades terapêuticas, em Portugal e no estrangeiro. O José Manuel lembrou um piano-bar em Nampula, durante a guerra colonial, e a experiência de emigrante em Inglaterra, numa fábrica de bacon na Cornualha, seguido de um regresso súbito a Lisboa para tratar da mãe, que depois morreu e o deixou à deriva. Apenas o Lino se fechou em copas. Houve descaminhos e «percalços» que o levaram para trás das grades, muitas vezes. Só isso. Os livros ajudavam-no a sair dali, mentalmente. Leu Hemingway, Umberto Eco, mas também os calhamaços de José Rodrigues dos Santos. «Até se comem bem», resumiu – sorriso irónico à frente das palavras, como um biombo. Estávamos os seis, eu e aqueles cinco homens a quem a vida trocou as voltas, na cave do Centro de Apoio Social dos Anjos, em Lisboa, também conhecido como «a sopa dos pobres». Começávamos assim mais uma “Leitura Furiosa”, iniciativa que leva escritores ao encontro de leitores zangados com a leitura ou com o mundo, leitores ou ex-leitores que não têm dinheiro para os livros e que partilham as suas histórias, as suas raivas, e depois as vêem transformadas num texto que é lido numa sessão pública, com actores e músicos.
Foi só no dia seguinte, ao almoço, já o texto escrito, aprovado pelo grupo e ilustrado por um escultor, que Lino se expôs um pouco mais. Cenário: um restaurante na Mouraria. Sopa de entulho, pataniscas, língua de vaca, vinho carrascão. O João Miguel explicava que em alguns dos centros por onde passou havia uma componente religiosa, católica, muito forte. «Eu cá não me sujeitava a nada disso», replicou o Lino, «a mim não me fazem lavagens ao cérebro nem me chateiam com beatices». E de repente, virando-se para mim: «Já leu Nietzsche? Eu agora queria mesmo é ler Nietzsche.» Estive tentado a dizer que o Nietzsche não se come tão bem como o Rodrigues dos Santos, mas calei-me. O Lino tímido da véspera dera lugar a um Lino afirmativo. «E o Joyce? Conseguiu ler o Ulisses? Olhe que eu não. Esforcei-me, aguentei umas 50 páginas, mas depois larguei. Não tinha pedalada para aquilo. Acho que ele não precisava de ser assim tão complicado, tão obscuro. Do que eu gostei mesmo foi do outro Ulisses, do verdadeiro, o da Odisseia, o do Homero. Li tudo de uma ponta à outra. Que maravilha.»
Apeteceu-me reescrever o texto, começar de novo. Mas suspeito que o Lino não gostaria da aura de intelectual. A sua luta é outra. Sobreviver, seguir em frente, manter-se de pé. À tarde, fomos à Feira do Livro. Havia sol, calor, milhares de pessoas a deambular entre os pavilhões e as praças coloridas. No túnel da Babel, o Lino parou em frente dos livros de capa verde da Guimarães. Lá estava Nietzsche: Assim Falava Zaratustra; Para Além do Bem e do Mal; A Gaia Ciência. Cada volume a três euros. Senti o impulso da generosidade mas contive-me (nada de paternalismos). Lino sabe que pode requisitar Nietzsche nas bibliotecas públicas. Expliquei-lhe quais as mais próximas dos Anjos (onde, além de fazer fila para as refeições gratuitas, também dorme). No dia seguinte, reencontrámo-nos os seis na Casa da Achada. Ouvimos as palavras deles e as minhas, ditas em voz alta. Não os voltei a ver. Mas agora, sempre que passo em frente da igreja dos Anjos, recordo este aforismo escrito em alemão há mais de um século: «E se tu olhares muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também olhará para dentro de ti.»
[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]
Um tal de Aurelino
Quando aterrei no Aeroporto de Santa Catarina, ainda tinha muitas dúvidas quanto à intervenção que faria na primeira mesa do Festival Literário da Madeira, marcada para a manhã do dia seguinte. Ao contrário do que acontece noutros encontros do mesmo género, o tema da mesa era objectivo: «Os escritores que fogem da fama». À espera da mala, revi os nomes óbvios que trazia anotados no moleskine: Herberto Helder, J. D. Salinger, Thomas Pynchon, William Gaddis, Pascal Quignard, mais uns quantos. Todos eles fugiram da fama, cada um à sua maneira. E todos devem parte dessa fama de que escaparam, com maior ou menor êxito, justamente ao facto de fugirem dela. «Explorar este paradoxo», rabisquei.
À noite, antes de me deitar, olhei uma última vez para os tópicos que balizariam o meu improviso e percebi que teria de fazer outra coisa. O quê ao certo, ainda não sabia. Lembro-me de ter adormecido com a imagem de uma mesa larga em que Herberto passava uma garrafa de vinho a Salinger, que servia Pynchon e Gaddis, enquanto Quignard se abstinha, com a mão pairando acima do copo vazio. Às cinco da manhã, acordei. Lá fora ainda estava escuro e deixei-me estar uns minutos na varanda, a contemplar o vulto escuro de uma rocha que se ergue, desafiadora, no meio do oceano. Voltei ao quarto, liguei o computador e pus-me a escrever. Foi então que apareceu, vindo do nada, Aurelino Sousa Gomes, o autêntico escritor em fuga da fama porque, para não correr riscos, nem sequer chegou a escrever uma linha que fosse. A distingui-lo de outros escritores ágrafos, o facto de todos os seus projectos literários virtuais se cingirem a um só tema: precisamente o do debate em que eu participaria dentro de poucas horas.
Era ele então quem se devia sentar nos sofás, em vez de mim. À medida que lhe inventava uma amizade com o meu avô, Aurelino começou a ganhar forma, peso, espessura. Na sua biografia sumária, imaginei uma ida a Barcelona num Fiat 600 para ameaçar Enrique Vila-Matas, que teria pensado nele para o lote dos «escritores do Não» convocados em Bartleby & Companhia. Ao recuar nesse propósito, o escritor catalão livrou-se de uns bons socos e pontapés, mas nada me garantia que essa violência física não pudesse agora ser dirigida para mim, caso Aurelino, sentindo-se desmascarado, quisesse tirar desforço das minhas inconfidências. Apesar de octogenário, Sousa Gomes continua a ser um homem vigoroso e terminei a intervenção dizendo que me parecera tê-lo visto entre os espectadores do debate, o que me deixara assustado e de sobreaviso.
Inventar personagens de ficção supostamente reais é um jogo. Por muito que finjamos que existem, elas não existem. Estão na mesma categoria dos amigos imaginários. Podemos garantir a toda a gente que naquele espaço vazio está uma pessoa de carne e osso, mas não está. As pessoas olham para o vazio, sorriem, dizem «és sempre o mesmo», dão pancadinhas nas costas, seguem em frente. O problema é quando as personagens de ficção supostamente reais são mesmo reais. Não sei se o Bernard Quiriny alguma vez deu de caras com o omnipresente Pierre Gould (uma espécie de avatar que circula por quase todos os seus textos, nomeadamente os Contos Carnívoros, recentemente editados pela Ahab), mas sei que o Aurelino Sousa Gomes me bateu à porta do quarto, naquela mesma noite. O verdadeiro Aurelino Sousa Gomes. O real.
Vinha zangado, com um bafo alcoólico e uma brusquidão de gestos ameaçadora. Disse-me que eu não era digno do meu avô. Disse-me que via em mim apenas um patife, um pulha, um literato de meia tijela. E depois começou a bater. À saída, avisou-me: «Mencionas outra vez o meu nome e repito a dose, mas em dobro.» Na manhã seguinte apareci com o rosto feito num oito, inchadíssimo, uma desgraça. Improvisei uma desculpa esfarrapada, que metia uma alergia aos pólens, ou talvez às lapas comidas num restaurante típico do Funchal, durante o copioso jantar da véspera. Toda a gente acreditou. Agora, estupidamente, reincidi. Voltei a falar dele. Do Aurelino. Sei por isso o perigo que corro. Ele vai continuar a fugir da fama. E eu vou continuar a fugir dele.
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]
Hotel pós-moderno
Ainda no restaurante, vi-o atarefado sobre o bloco A4, fazendo desenhos e riscando, com força, as letras maiúsculas. Depois, aquelas dezenas de pessoas acabaram os seus cafés, abandonaram as mesas e as conversas, entraram no autocarro e voltaram ao Auditório para mais uma sessão, a sexta, das Correntes d’Escritas. Ele, o valenciano Alberto Torres Blandina (n. 1976), seria pouco depois o primeiro a intervir num debate com o verso «Espalho sobre a página a tinta do passado» (Nuno Júdice) como mote.
Lá apareceu o bloco A4, transformado por Blandina num powerpoint manual, sucessão de imagens em torno de uma ideia: a de que o século XX, ao contrário do que geralmente se pensa, não foi o século de Pablo Picasso, mas sim o de Marcel Duchamp. Picasso revolucionou a pintura, é certo, mas não deixa de ser o ponto de chegada, o corolário, do que havia antes. Já Duchamp virou tudo de pernas para o ar (incluindo o urinol que se tornou Fonte e objecto de museu), reinventando o próprio conceito de arte e antecipando as formas de criação do século XXI. Para Blandina, depois de tudo já ter sido feito, só faz sentido fazer de novo, fazer de outra maneira. O remake, tão comum no cinema, está ainda por explorar devidamente em literatura. É certo que Borges criou o extraordinário Pierre Menard, um escritor moderno que volta a escrever Dom Quixote, um Dom Quixote igualzinho ao de Cervantes (coincidem palavra por palavra) mas ao mesmo tempo radicalmente distinto, porque os séculos que os viram nascer em nada se assemelham. Outros exemplos de remake, como os pastiches de Jane Austen com zombies, são literariamente menos interessantes, mas as possibilidades que se abrem são ilimitadas. Nas Correntes, o escritor espanhol, que também é dramaturgo e vocalista da banda Niñamala, defendeu ainda que os ficcionistas actuais devem olhar para os livros do passado como os rapazes suburbanos olham para os seus Citröen Saxo: vendo neles a base para todo o tipo de upgrades tecnológicos e estéticos, ao gosto do utilizador. Para Blandina, vai sendo tempo de abrir alas ao tunning literário, por muito que esta expressão nos pareça um oxímoro.
Uns dias depois, noutro almoço, fiquei sentado ao lado de Alberto e ele mostrou-me o último romance de Agustín Fernández Mallo: El Hacedor (de Borges). Remake (Alfaguara, 2011). Remake, lá está. «Vim a lê-lo no avião. Corresponde àquilo que eu mencionei: a estrutura é igual à do livro do Borges, o número de textos e os títulos são os mesmos, mas a partir daí o Mallo construiu o seu universo próprio.» Menino bonito da crítica espanhola, Mallo assume a escrita como experimentação. Já Blandina, surpreendentemente, nem por isso. O romance que publicou recentemente em Portugal (Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio), apesar da escassa verosimilhança das suas histórias, não deixa de ser uma narrativa convencional. «Sim, como escritor em nome próprio não arrisco muito», admitiu. «Deixo os vanguardismos para as criações colectivas.»
Falou-me então do Hotel Postmoderno, um projecto que nasceu na Internet, a várias mãos. Quatro amigos abriram um blogue e começaram a erguer um romance em conjunto, nunca se sabendo quem escrevia o quê e menos ainda quem corrigia os textos colocados online. Adeus autoria, olá contaminação. «Trabalhamos como uma banda de rock na fase do improviso.» Surgiram depois um romance histórico «com estrutura de DVD» (De La Habana, un Barco) e uma narrativa multimédia em forma de reality show, com seis concorrentes em busca de um prémio que é a morte (Suicídame). No território da literatura digital (a «digiteratura», como lhe chamam) exploram-se as potencialidades da tecnologia e integram-se outras artes, outras formas de expressão: teatro, música, fotografia, rádio, vídeo, interactividade com os leitores através das redes sociais.
Isto é só o princípio. No grande hotel da pós-modernidade não faltam quartos, infinitos quartos, à espera de quem os queira ocupar. Pela minha parte, gostava de ver este afã do lado de cá da fronteira. E nem precisava de ser um hotel. Já me contentava com uma pensão de três estrelas.
[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]
Uma droga benigna
Na fotografia, eu e o meu irmão estamos encostados a uma grande janela, olhando directamente para a câmara, com um livro aberto nas mãos (consigo perceber que o meu é um clássico qualquer da literatura inglesa, em edição de bolso; o do Manel um exemplar da colecção ‘Ficções’, da Estampa; mas é impossível discernir os respectivos títulos e autores). Lembro-me bem das circunstâncias em que a foto se fez. Num corredor do Conservatório Nacional de Música, minutos antes de uma aula a que o meu irmão tinha de assistir, o João Francisco Vilhena a dizer «isso, isso, encostem-se ao vidro e agora olhem para mim». Aconteceu em 1996, há quase década e meia. Examino a imagem e de repente aquele rapaz de 24 anos que eu fui está a olhar-me nos olhos, lá do momento parado em que o João Francisco o aprisionou.
É sempre cruel, este exercício. Porque eu sei muito mais do que ele. Eu sei tudo o que se passou de lá para cá: as voltas da vida, as grandes catástrofes e prodígios, os descaminhos do mundo. Ele ficou em 1996, segurando uma edição barata de um clássico qualquer da literatura inglesa, exibindo um meio sorriso junto à janela cheia de luz. Dirão que quinze anos não é assim tanto tempo. Mas aquele José Mário parece-me agora infinitamente distante. Aquele José Mário estava casado com outra mulher, ainda não tinha filhos, vivia em Santo António da Caparica, num quinto andar por onde deambulava uma gatinha persa (foi antes da alergia o afastar dos felinos) e de onde se via uma nesga de oceano, conduzia um Renault 5 GTL de cor cinza, assistia aos jogos do Figo no Barcelona enquanto passava camisas a ferro nas tardes de domingo, e, curiosamente, lia muito menos do que lê hoje. Curiosamente, repito, porque a fotografia no Conservatório serviu para ilustrar uma reportagem longa de Ana Margarida de Carvalho sobre «grandes leitores», publicada na Ler (também a revista era então muito diferente: no formato, na espessura, no grafismo, no papel).
Em 1996, eu lia bastante mas não fazia da leitura a minha actividade principal, como faço hoje. Naquela época, talvez admitisse vir a ser um dia o leitor que sou agora. Ao falar enquanto «grande leitor», era do José Mário de 2011, um José Mário futuro, finalmente bafejado pela sorte (ser pago para devorar livros, em vez de escrever sobre tudo e mais alguma coisa, em suplementos do Diário de Notícias que já ninguém recorda), era do José Mário actual que o José Mário de 1996 falava. Por isso, as citações que leio no texto de Ana Margarida de Carvalho não perderam validade. Exemplo: «Eu não tenho essa visão sacralizada da leitura. Leio sempre que me apetece, nem que seja em pé na paragem de autocarro. E Beckett não me sabe pior lá por estar debaixo de chuva.» Ou ainda: «A leitura, para mim, é talvez a droga mais saudável que existe. Traz-nos euforia, cria-nos dependência, mas o único risco que corremos é ampliar a nossa visão do mundo. E isso, que eu saiba, não tem contra-indicações.» Passados quinze anos, continuo a achar que a leitura tem o efeito de uma droga (felizmente benigna), mas encaro a frase com a bonomia de um velho consumidor de ópio diante do súbito entusiasmo de quem começou ontem a fumar charros.
Diga-se que há muitos aspectos do José Mário de 1996 que permanecem no José Mário de 2011. No núcleo central das preferências literárias, estavam quatro nomes (Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Herberto Helder e Georges Perec) que nunca abandonaram o panteão particular, antes o partilham com outros autores (como Roberto Bolaño ou W. G. Sebald) que só vim a descobrir mais tarde. A bem dizer, a principal diferença entre os dois eus não é física, nem psicológica, nem sequer intelectual. A principal diferença está nas muitas centenas (ou talvez milhares) de livros que o segundo leu entretanto, cumprindo em parte o vago desejo do primeiro (habitar um dia a secção menos aleatória da Biblioteca de Babel). Bem vistas as coisas, o primeiro é um fragmento da memória do segundo. E o segundo é o sonho cumprido do primeiro. Um e outro coexistiam já na fotografia daquele número antigo da Ler. E, como Borges, não sei qual dos dois escreveu esta página.
[Texto publicado no n.º 100 da revista Ler]
Seguindo escritores
A 14 de Dezembro de 2010, Neil Gaiman disse-nos que estava a escrever noite dentro, no seu anexo, com um frio impossível lá fora. Ou melhor, anunciou-o no Twitter, transformando o «nós» majestático numa imensa multidão que viu a mesma fotografia: a secretária com o Mac, folhas espalhadas, paredes revestidas de madeira e um cão branco deitado no chão (o Cabal, se a Wikipedia estiver certa). Aparentemente, o autor de Sandman e Deuses Americanos estava mais interessado na descida rápida do mercúrio no termómetro do que no texto em curso. Durante meia hora, foi actualizando os valores da temperatura exterior, até chegar aos 29 graus negativos. Mesmo muito frio, terão pensado os seus seguidores (mais de um milhão e meio, em todos os fusos horários), antes de assistirem ao remate poético da experiência meteorológica de Gaiman: «Antes de voltar ao trabalho, enchi uma chávena com água a ferver, saí de casa, lancei-a para a neve e fiquei a ver como o vapor resultante rapidamente se transformava em pó.»
Esta exposição pode parecer frívola, mas é um meio de o escritor corresponder, de forma controlada, ao voyeurismo dos seus admiradores, humanizando-se perante quem o lê. É uma outra narrativa: a que mostra como é ser Neil Gaiman na era da Web 2.0. Não se pense, porém, que @neilhimself resvala em demasia para o reality show. Por exemplo, o badalado casamento com Amanda Palmer, no início de Janeiro, mereceu o devido recato. Na maior parte do tempo, ele narra as suas andanças pelo mundo (viagens, estadias, regressos), anuncia sessões de autógrafos, sugere leituras e chama a atenção para boas causas. O segredo está no estilo (telegráfico mas divertido), no facto de responder a muitas pessoas que não conhece pessoalmente e na capacidade de adequar a sua verve às limitações do meio: «Isto é o Twitter. Dão-me 140 caracteres. E eu uso todos e cada um deles.» Os fãs adoram esta interatividade e não se cansam de o elogiar. Houve mesmo quem o nomeasse para um Shorty Award (os Oscares do Twitter) «porque ele é bestial» e «tem um cabelo que parece desenhado por uma criança».
Ainda mais popular é Stephen Fry. Omnipresente no sistema mediático britânico, o actor, argumentista, realizador, humorista e escritor tem neste momento mais de dois milhões de seguidores no Twitter. Como alguém notou, o número de pessoas que o lê diariamente na internet é superior à tiragem dos cinco grandes jornais de referência do Reino Unido. E de que fala Stephen Fry nos seus tweets? Da sua vida, claro, filtrada por doses generosas de distanciamento crítico. Nas últimas semanas, vem narrando a rodagem de um documentário sobre linguagem que está a fazer para a BBC. Se num dia aprendeu escrita cuneiforme no British Museum, noutros foi à procura do calão em rima dos taxistas londrinos ou da pronúncia impecável dos actores shakespearianos. Mas há também muito futebol (Fry é adepto ferrenho do Norwich City, um clube da segunda liga), muitas imagens (no Quénia fez uma verdadeira reportagem fotográfica) e muitos apontamentos do quotidiano. Como este: «Domingo. Snooker. Chocolates. Sofá. Felicidade.»
Procurando bem, não é difícil seguir outros escritores no Twitter: Margaret Atwood, que dialoga animadamente com os leitores; Douglas Coupland, que faz muitos links para o YouTube e gosta de listas (por exemplo, a das palavras que pronunciou mal até aos vinte anos); Bret Easton Ellis, que escreve pouco (só três ou quatro tweets por mês); Chuck Palahniuk, que não escreve nada (é o webmaster do seu site oficial quem trata do assunto); Alain de Botton, que exerce bem a arte do aforismo («Um simples problema de aritmética: há muito mais ambições do que grandes destinos disponíveis»); ou Steve Martin, que continua a ser o mesmo Steve Martin de sempre («Férias, dia 2: Roma parece “arruinada”. Por que é que ninguém endireita as colunas?»). Lusófonos activos também há, sobretudo brasileiros, mas o espaço da crónica – apesar de quase trinta vezes superior ao de um tweet – esgotou-se. Desculpem, mas terão de procurá-los, e segui-los, por vossa conta.
[Texto publicado no n.º 99 da revista Ler]
Escrever no século XXI
Olhemos à nossa volta. Os aparelhos que permitem ler e-books multiplicam-se, sofisticam-se, democratizam-se. Cada vez mais pessoas têm uma biblioteca ambulante no Kindle, no iPad, no iPhone. A tecnologia progride todos os dias. As novidades sucedem-se. Há umas semanas, por exemplo, foi lançado o Google eBooks, que promete revolucionar os nossos hábitos de leitura. Em vez de ficarem alojados num determinado hardware, os ficheiros com livros passarão a existir virtualmente numa «nuvem» online, à qual acederemos em qualquer lado e em qualquer suporte físico, através de uma simples ligação à internet. Ou seja, um romance pode ser começado no computador lá de casa, ao pequeno-almoço; prosseguindo depois a leitura num tablet, durante a viagem de comboio até ao emprego; ou na fila do Multibanco, quando se aproveita os minutos de espera para despachar mais um capítulo no smartphone. Neste sistema, a desmaterialização do livro é levada ao limite: o livro passa a existir só na tal «nuvem» abstracta, algures na rede de informação, como se fosse uma entidade supraterrena, um arquétipo que desce a pedido aos nossos vários ecrãs (depois de pago com o cartão de crédito, claro).
Por enquanto, esta potencial mudança dos hábitos de leitura ainda não é acompanhada por quem produz os livros, pelo menos no nosso país. Para as editoras tradicionais, o mundo digital continua a representar uma ameaça, mais do que um desafio ou uma oportunidade. Mesmo os grandes grupos, que teriam meios para investir a sério nas novas tecnologias, avançam a medo, timidamente, receando apostar em modelos de negócio que ainda não passaram o teste do tempo. É sintomático que os debates sobre o futuro do livro se resumam quase sempre ao fantasma de um medo apocalíptico: será que o livro físico, em papel, com textura e cheiro a pó, vai desaparecer de vez? Provavelmente não. Provavelmente continuará a existir, porque há uma experiência de leitura associada aos livros-livros que é inimitável e para muita gente, sobretudo as gerações que aprenderam a ler com eles, insubstituível. Contudo, mesmo quem prefere o papel tenderá a ler cada vez mais em suportes digitais. Já para não falar das crianças que nascem agora, na era do multitasking, e que previsivelmente pensarão dos livros-livros o mesmo que nós pensamos das calculadoras: «Mas afinal só fazem isto?»
Pela minha parte, o que me preocupa não é o meio (se vamos ler na parede da sala, no tecto da cozinha ou no tablier do carro); é o conteúdo. Que literatura o século XXI tem para nos oferecer e de que forma será capaz de se sintonizar com os tempos que vivemos. Os primeiros sinais, devo dizer, são preocupantes. Ao fim de uma década, contam-se pelos dedos os romances que são especificamente deste século, com narrativas que reflictam e incorporem o zeitgeist, dos novos paradigmas sociais à interconectividade global. A maior parte das ficções que se escrevem e publicam hoje podiam ter sido criadas em qualquer das décadas do século anterior – e muitas são meras variações, serôdias e gastas, dos romances oitocentistas. Enquanto outras artes souberam integrar a pulsação da criatividade contemporânea (veja-se os graffiti expostos em museus ou o uso dos samples na música, tanto popular como erudita), a literatura parece ter dificuldade em reinventar-se, em descobrir modos narrativos que estejam à altura da complexidade do mundo actual. É deprimente entrar numa livraria e perceber que 90% dos romances disponíveis obedecem a uma lógica linear, com os mesmos esquemas, mil vezes repetidos. Em 2011, exige-se que certos géneros literários (sobretudo o romance) façam o necessário upgrade. David Shields, no seu brilhante ensaio-manifesto que mistura ideias próprias e alheias em 618 fragmentos (Reality Hunger, Hamish Hamilton), mostra como é vasto o campo das possibilidades ainda por explorar. Na verdade, espero que o romance do século XXI não seja escrito só no século XXII. Porque gostava mesmo de o ler – seja em papel, a partir da «nuvem» ou noutro sistema qualquer que ainda esteja por inventar.
[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]
A camisola de Schlee

Os fios do acaso que levam duas pessoas a encontrar-se num dado lugar, num dado momento, são insondáveis. Quando me sentei numa esplanada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no recinto da maior feira do livro a céu aberto do continente americano, não imaginei que aquele escritor septuagenário de sorriso aberto e longo cabelo grisalho pelos ombros – Aldyr Garcia Schlee, apresentado ali mesmo pelo nosso editor comum (Alfredo Aquino, da ARdoTEmpo) – se converteria, poucos dias depois, num velho amigo. Mas foi isso que aconteceu.
Logo naquela primeira tarde, à sombra dos jacarandás e ipês floridos, a dois passos das barraquinhas com livros pendurados por cordéis, não falámos de literatura mas de futebol. Acompanhado pela mulher, Marlene, tão fanática pelo jogo quanto ele e capaz de recordar, com minúcia, factos ou lugares perdidos no tempo, Aldyr apresentou-me enciclopedicamente o mundo das grandes equipas brasileiras, sem esquecer as mais antigas, algumas das quais relegadas para divisões secundárias, como o time de que é torcedor: o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas, já perto da fronteira com o Uruguai.
Estava dado o mote. Primeiro em Porto Alegre, depois nos três dias que passámos juntos em São Paulo, falámos bastante dos seus «contos gardelianos» (Os limites do impossível) e do imponente romance, com mais de 500 páginas, que escreveu sobre a vida extraordinária do General Fructuoso Rivera (Don Frutos), mas os olhos deste homem que tem exactamente o dobro da minha idade, embora não se note (conversou sempre tu cá tu lá, com aquela intimidade dos colegas de liceu que se reencontram muitos anos depois), os olhos deste homem ganhavam outro brilho ao resgatar da memória certos estádios, os nomes dos craques e o que eles faziam dentro de campo, o clamor das arquibancadas.
Por trás desta paixão, esconde-se uma história incrível que logo veio à tona. Além de escritor, Schlee já foi muitas coisas: desenhista, homem da imprensa, professor universitário. O primeiro momento de glória, porém, aconteceu quando tinha apenas 19 anos. Em 1953, para apagar de vez o trauma provocado pela derrota na final do Campeonato do Mundo de 1950, frente ao Uruguai, no Maracanã, um jornal carioca decidiu lançar um concurso para mudar o equipamento da selecção nacional brasileira, uma vez que o branco parecia ser funesto. Das centenas de candidaturas recebidas, a escolha recaiu na proposta de um tal Aldyr Garcia Schlee. Ou seja, a célebre canarinha (camisola amarela e calção azul), um dos maiores ícones do desporto mundial, é nem mais nem menos do que uma criação do meu companheiro de tournée literária.
Já em São Paulo, antes de visitarmos o MASP (com os seus Van Gogh, Renoir, Modigliani, Velázquez, Turner e outras maravilhas da pintura europeia), fomos ao Museu do Futebol, instalado por baixo do Estádio Pacaembu. Logo à entrada, uma imagem de Barbosa ainda desperta comentários ressentidos nos visitantes. Ele é o mais odiado dos guarda-redes (no Brasil diz-se goleiro), o bode expiatório da Copa perdida no Maracanã. Aldyr ri-se deste ódio que persiste há mais de meio século. Até porque ele, ó ironia, torce desde sempre pelo Uruguai (país que quase vê das janelas da sua casa-biblioteca e cujos principais escritores vem traduzindo para português). Quando Ghiggia marcou o 2-1 fatal, ele estava num cinema em Montevideu. Lembra-se de o filme ser interrompido e de ouvir, emocionado, o hino uruguaio. Como se lembra de quase tudo o que as fotografias, filmes e hologramas do museu documentam. A história do Brasil reflectida no verde da relva.
Talvez para selar uma viagem feliz e uma amizade inesperada, o nosso editor encontrou uma camisola da canarinha, em algodão, modelo de 1954 (sem as modernices estéticas e têxteis da Nike, que Schlee detesta). É para ela que olho agora, já deste lado do Atlântico. A gola verde, o emblema grandão, junto ao qual a firme caligrafia de Aldyr evoca «Pelé & cia». Depois arrumo-a no saco e vou ler Don Frutos.
[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]
A esferográfica de Herberto Helder

E de repente, na página 607 de Ofício Cantante (Assírio & Alvim, 2009), cruzo-me com os versos, «bic cristal preta doendo nas falangetas, / papel sobre a mesa, / a luz que vibra por cima, por baixo / a cadeira eléctrica que vibra, / e é isto: / electrocutado, luz sacudida no cabelo, / a beleza do corpo no centro da beleza do mundo: / pontos de ouro nas frutas, / frutas na luz escarpada, / clarões florais atrás de paredões de água, / água guardada no meio das fornalhas / – isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica, / entra a corrente por mim adentro e abala-me, / e com perícia artífice deixa no papel / o nexo estilístico entre / o terso, vívido, caótico e doce: / e o escrito, o carbonífero, o extinto, / o corpo», e os versos não me deixam em paz, acendem-se um a um como lâmpadas intermitentes num barracão cheio de coisas assombrosas, eu imagino o poeta escrevendo desvairado noite dentro (ah, as mitologias românticas), o rosto barbudo reflectindo-se na janela escura, os dedos agarrando com força a caneta barata, a esferográfica de plástico doendo nas falangetas, enquanto as palavras sobre o papel brilham como magma, aquele brilho quase branco da lava antes de ser basalto, a bic cristal preta abrindo caminho na noite, tal como a minha neste papel sobre a mesa, um rosto liso nesta outra janela escura, ao longe as luzes da ponte, o Tejo negro, o Ofício Cantante aberto junto às folhas brancas, sob a luz que vibra por cima e não é eléctrica porque vem de dentro do livro, do intervalo entre as letras, o gesto é o mesmo, quase sincronizado, uma vibração dos dedos e do pulso, dentro da noite duas esferográficas, a minha bic cristal preta e a dele, dois rastos negros como o Tejo, e é isto: um dos rastos a perseguir o outro, este texto a tentar devorar os versos que descobriu no livro, como se fosse possível chegar assim à beleza do corpo no centro da beleza do mundo, não é, não é, por isso o refluxo, o voltar atrás, as emendas furiosas a montante da frase-rio, e de repente a memória como uma luz escarpada, memória de todas as bic cristal preta que houve no passado, uma sucessão de tubos transparentes com cargas que eram como veias cheias de um sangue perigoso, a tinta das respostas nem sempre convictas na folha de ponto, das aulas transcritas a custo, das tardes adolescentes à espera da inspiração poética no meio das fornalhas, e depois as tampas perdidas, as marcas do uso, os riscos e mordidelas, a explosão dentro do bolso das calças, o embaraço na cantina, eh pá, o que é que te aconteceu aí em baixo?, risos, imagens soltas, estilhaços que se cravam no corpo do texto cada vez mais desfocado à falta de uma perícia artífice, na janela imagino o perfil barbudo que vi um dia na rua, perto da Avenida da Liberdade, era ele, não era, ainda hoje duvido, porque apesar das fotografias e da óbvia existência civil é como se ele fosse imaterial (ah, as mitologias românticas), o perfil barbudo talvez se reflicta noutra janela agora mesmo, embora não nesta, a distância aqui mede-se em anos-luz, nunca haverá um nexo estilístico entre a minha bic cristal preta e a bic cristal preta dele, por muito que eu idealize, num exercício borgesiano, não ser eu a escrever isto mas a minha bic cristal preta, ser dela a força que arrasta a mão sobre o papel, como uma sua irmã arrastaria a mão de Herberto, eu e ele escravos da mesma energia, eu e ele servos do império caótico e doce das bic cristal pretas, entidades mágicas que nos elevam (a graça de um verso a brilhar como magma, aquele brilho quase branco da lava antes de ser basalto) ou nos humilham (a mancha de tinta preta a alastrar nas calças, para gáudio da cantina), até que o devaneio se dissolve com as primeiras luzes da manhã, a aurora sobre os contornos dos prédios e o Tejo emergindo das trevas, o reflexo da janela a esmorecer, deste lado só o corpo inclinado sobre as folhas escritas à mão, inúteis, a bic cristal preta pousada sobre a mesa, vencida, e o Ofício Cantante ali ao lado, como um buraco negro.
[Texto publicado no n.º 96 da revista Ler]
Vida subterrânea
No início da década de 90, eu era aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa e cumpria quase diariamente um percurso de vinte minutos no metropolitano, entre o Rossio e a Cidade Universitária. Quando não tinha a sorte de encontrar um lugar sentado, que me permitisse um prolongamento da sessão de leitura iniciada no barco que me trazia da outra margem do Tejo, entretinha-me a observar os outros passageiros, olhando para eles como um escritor olha para as suas personagens. Na forma como se sentavam, como inclinavam a cabeça, como bocejavam ou sacudiam uma mosca, via sinais do que poderiam ser as suas vidas, as suas tristezas e alegrias, as suas personalidades. E imaginava histórias para aqueles corpos, tantas vezes ligeiramente encolhidos (por se sentirem observados?). Os outros passageiros eram páginas em branco, portas de entrada para ficções à espera de serem escritas, mas os seus rostos esfumavam-se mal saía da carruagem e subia em passo rápido as escadas, procurando lá fora, por trás da Aula Magna, o perfil do edifício C2.

Uma das grandes virtudes dos desenhos de António Jorge Gonçalves, reunidos no volume Subway Life (edição Assírio & Alvim), é esta: os rostos dos passageiros não se esfumam. Muito pelo contrário. O pequeno jogo que eu fazia (e que provavelmente toda a gente faz nas mesmas circunstâncias) foi elevado pelo co-criador de Filipe Seems a uma forma de arte súbita. Quando vivia em Londres, estes retratos instantâneos da primeira pessoa que se sentasse à sua frente no metro, feitos nos poucos minutos dos trajectos entre estações, funcionavam como um exercício de rapidez e acaso, com o qual se obrigava «a desenhar aquilo que não podia escolher». Mas depois a coisa foi ficando séria, à medida que o projecto se estendeu a outras cidades, em vários continentes, e o respectivo site se tornou um lugar de referência na Internet, com mais de cinco milhões de visitas desde 2002.
Dos cerca de 3000 desenhos que enchem os seus cadernos, Gonçalves revela-nos agora cerca de 400, divididos cronologicamente pelas nove cidades em que foram feitos: Londres, Lisboa, Berlim, Estocolmo, Nova Iorque, São Paulo, Tóquio, Atenas, Moscovo e Cairo. Os modelos involuntários (a quem nunca foi pedida autorização) aparecem literalmente arrancados da carruagem em que seguiam. Não há bancos nem portas nem argolas penduradas do tecto. Só corpos (estranhamente suspensos no vazio) e o modo como se expõem. Dá ideia que o objectivo é encontrar, para cada um deles, o punctum barthesiano: uma inclinação das pernas, o ângulo do cotovelo, os objectos pousados sobre os joelhos, um pé em cima do outro, certa expressão facial melancólica ou galhofeira.
Em tempo de globalização, constatamos sem surpresa que são mais as semelhanças do que as diferenças entre os passageiros das várias cidades. Mas ainda assim as diferenças existem, mesmo se a escassez da amostra aleatória não permita fazer extrapolações estatísticas. Por exemplo: a cidade com mais pessoas adormecidas é Londres (7); aquela em que mais se lê é Moscovo (17); o maior número de passageiros com óculos está em Atenas (22); o maior número de crianças transportadas ao colo junta Estocolmo e São Paulo (2); enquanto a única máscara anti-germes surge, previsivelmente, em Tóquio; e a única sósia de Zita Seabra surge, também previsivelmente, em Lisboa.
Gonçalves nunca explica nem contextualiza. Limita-se a mostrar-nos, em bruto, a humanidade dispersa por vários continentes. E a resumir as suas experiências em breves linhas, com a concisão de um haiku: «tudo chega, tudo parte. como podemos ter fé no meio de tanto trânsito» (Atenas); «os meus modelos ignoram-me, mas às vezes é como se sentisse as cócegas que lhes faço com a minha caneta sobre o papel» (Londres).
[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]
A cor da memória

1. Sempre gostei de escritores que escrevem sobre escritores, romancistas no rasto de outros romancistas. As paisagens de Hemingway, Kawabata ou Nabokov percorridas por Olivier Rolin. O prestidigitador Vila-Matas perseguindo as sombras de Kafka, Robert Walser, James Joyce. W. G. Sebald em busca do fantasma de Stendhal no local onde se deu a batalha de Marengo.
2. Daniel Blaufuks não é um escritor-escritor, mas antes um fotógrafo que escreve, um fotógrafo literário. Os seus livros de imagens contam sempre histórias, mesmo quando não têm palavras. Há nele uma atracção fortíssima pela literatura, que já o aproximou de Paul Bowles (My Tangier, 1991) ou mais recentemente de Cesare Pavese. Em Terezín (edição Steidl/Tinta da China), o desafio vem de Sebald. Ou melhor, de uma fotografia que ocupa as páginas 262 e 263 do romance Austerlitz, na edição portuguesa da Teorema (2004).

3. A fotografia, supostamente tirada em Theresienstadt, mostra uma sala deserta, um escritório arrumadíssimo, estantes até ao tecto cheias de pastas e nem uma folha solta em cima das mesas, o relógio com os ponteiros alinhados nas seis em ponto. Há uma estranheza nesta imagem, uma perfeição exagerada, como se estivéssemos, diz Blaufuks, diante de um «cenário para uma peça incompleta».
4. Obcecado com a fotografia, Blaufuks procurou-a por todo o lado. Em vão.
5. Entretanto, por uma «estranha série de coincidências», ficou na posse dos diários que Ernst K., um empregado de escritório judeu, foi escrevendo entre 1926 e 1930. Blaufuks fotografou essas agendas e mostra-nos a caligrafia do cidadão anónimo, a sua vida banal: namoros, sonhos de se tornar escritor, postais, notas soltas, uma madeixa de cabelo embrulhada em celofane. Mais tarde, descobriu que Ernst K. foi transferido para Theresienstadt em 1942, quando a cidade checa já se transformara num lugar de morte.
6. De entre as páginas das agendas de Ernst K., surge uma fotografia que é ao mesmo tempo um aviso e uma metáfora.
7. Aviso: as imagens podem enganar. Vemos, de perfil, dois homens e uma mulher. Aparentemente estão na praia, segurando papagaios de papel, enquanto passam barcos muito ao longe, no horizonte. Mais de perto, porém, constatamos que o mar afinal é uma parede, os barcos ao longe talvez chaminés para lá do muro. E os papagaios de papel? Lâminas de gelo, apanhadas do chão num dia de Inverno.
8. Metáfora: as lâminas de gelo, matéria que se desfaz e queima as mãos que a seguram.
9. Theresienstadt. Terezín, em checo. A história é conhecida. Sebald conta-a no seu livro. Blaufuks repete-a e acrescenta pormenores. A cidade fortificada que os nazis decidiram, em 1941, transformar em gueto para os judeus da Boémia e Morávia, entreposto antes do envio para os campos de extermínio, mais a Leste. Muitos morreriam antes da viagem, porque Theresienstadt, com capacidade para sete mil pessoas, chegou a ter 50 mil dentro das muralhas, à mercê da fome, da sede e da exaustão provocada pelos trabalhos forçados.
10. Em 1944, os nazis aceitaram uma visita da Cruz Vermelha, transformando-a num dos maiores embustes propagandísticos de que há memória. Cumprido o plano de embelezamento da cidade (lojas abertas, cafés cheios, crianças a brincar nos jardins floridos, bibliotecas, jogos de futebol, concertos de música clássica), os inspectores elogiaram o simulacro de normalidade e a Cruz Vermelha desistiu de visitar outros campos de concentração.
11. Entusiasmados com este sucesso, os alemães fizeram um documentário sobre a falsa Theresienstadt edénica, habitada por judeus sorridentes – uma ficção abjecta de tão cínica, apogeu do cinema como mentira. No fim da guerra, o filme perdera-se mas foram descobertos vários fragmentos.
12. Quando por fim visitou Terezín, Blaufuks descobriu facilmente a sala que aparece no livro de Sebald e fotografou-a do mesmo ângulo. A estranheza mantém-se, só que agora muito mais nítida.

13. Num DVD que vem com o livro, o fotógrafo concretiza uma ideia do protagonista do romance de Sebald: desacelerar as imagens do filme nazi, para que «as coisas e pessoas até então ocultas» se tornem visíveis. Austerlitz buscava em câmara lenta o rosto perdido de sua mãe; Blaufuks um rasto de Ernst K. Nem um nem outro tiveram sorte.
14. Blaufuks conferiu às imagens do sórdido filme um ténue tom avermelhado. É a «cor da memória», diz ele. Nada de sépia, nada da nostálgica aura das fotografias antigas. Um tom avermelhado. Como o do sangue seco. Como o da ferrugem.
[Versão ampliada de um texto publicado no n.º 94 da revista Ler]
Duas mulheres
Duas mulheres atravessam o nevoeiro denso que desceu sobre Lisboa, uma brancura estranha e leitosa, quase palpável, um véu que esconde as coisas e lhes apaga os contornos, como o princípio de uma cegueira ou o esquecimento a roer a memória do que já foi. As duas mulheres não se conhecem, nunca se viram, mantêm uma certa distância de segurança, dez metros que o nevoeiro cerrado reduz à percepção de uma sombra, um vulto, uma presença que caminha pelas mesmas ruas e praças, aparentemente com o mesmo destino, Quem será aquela mulher, pergunta-se uma, Quem será aquela mulher, cogita a outra, ambas perplexas com a sua própria caminhada numa cidade que não reconhecem. Sem querer ainda revelar tudo, posso dizer que a primeira mulher, a de aparência humilde, a que se assusta com os poucos automóveis que circulam, faróis varrendo a brancura suspensa, a que se espanta com as montras das lojas, essa mulher muito direita e digna e de antes quebrar que torcer vem do passado, enquanto a outra, a de aparência mais distinta, a que segue atrás, a dez metros de distância, reparando nos poucos automóveis que circulam, faróis varrendo a brancura suspensa, como quem recorda um filme antigo, a preto-e-branco, essa mulher muito direita e digna e de antes quebrar que torcer vem do futuro. O agora é Lisboa, inverno de 1941, cidade triste, tristíssima, mas preservada do horror que anda à solta pelo resto da Europa, cidade-câmpanula-de-vidro-frágil que estremece com o fragor da guerra lá muito ao longe, como as porcelanas num louceiro quando passa o eléctrico. Ao fim de uma hora de caminhada, as duas mulheres param junto ao portão de um hospital, as duas agora próximas, as duas olhando a fachada do edifício para não se olharem uma à outra. Não me perguntem como se orientaram sem mapa e sem perguntar o caminho a um qualquer transeunte, como atravessaram com tanta certeza esta Lisboa que desconhecem, ou que pelo menos não reconhecem, não me perguntem porque também não sei. A mulher de aparência mais humilde ergue a mão para tocar na campainha mas depois hesita, a mão fica no ar, paralisada, incapaz, e então a outra, a de aparência mais distinta, chega-se à frente e toca. As duas ouvem o som, uma espécie de badalada àspera, as duas ficam à espera. São só elas, ali, dentro do nevoeiro, perto do débil lago de luz desenhado no chão por um candeeiro. Diz a mais distinta, Ai que frio, meu deus, devia ter trazido um casaco mais grosso, e a outra, aconchegando o xaile, Podia ser pior, podia ser pior. Batem os pés, pigarreiam, a mais distinta volta a carregar no botão da campainha, depois aproxima-se e murmura, Desculpe-me a indelicadeza, mas preciso de saber o que a trouxe aqui, O que me trouxe aqui, Sim, A verdade, minha senhora, é que não sei, Como é que não sabe, se eu vinha atrás de si e nunca a vi hesitar no caminho, Não sei, é como lhe digo, levantei-me esta manhã, deixei o meu marido dormindo, saí para a rua, estava um nevoeiro ainda mais denso do que este e uma força qualquer me conduziu os passos, fiquei até com a impressão de que isto é só um sonho e o meu corpo verdadeiro ainda está na enxerga, tremendo de frio entre os lençóis, Se calhar é mesmo um sonho, Deve ser porque não reconheço quase nada do que vejo, ainda agora nos cruzámos com máquinas mais estranhas do que a passarola do Padre Bartolomeu, E quem é esse Padre Bartolomeu, Isso agora teria muito que lhe contar, Ainda não nos apresentámos, Tem razão, minha senhora, mil perdões, o meu nome é Blimunda, Blimunda Sete-Luas, e digo-lhe já uma coisa, para que não se espante depois, em jejum consigo ver por dentro das pessoas, vejo tanto as tripas como as vontades, mas não se preocupe que antes de sair de casa comi uma côdea de pão, não lhe vou devassar as entranhas, A mim chamam-me a mulher do médico, Só mulher do médico, Só mulher do médico, Pensava que toda a gente tinha direito a um nome próprio, ao menos isso, Lá de onde venho é mesmo assim, E o seu marido, trata que maleitas, O meu marido é oftalmologista, Cruzes credo, que vem isso a ser, Trata dos olhos das pessoas, A mim não precisaria ele de curar, que até vejo mais do que devia, há quem diga que tenho olhos excessivos, E o que procura neste hospital, Para ser sincera, não sei lá muito bem o quê nem porquê, a força que me conduziu os passos formou na minha cabeça a imagem de um rapaz alto, com óculos, não mais do que vinte anos, chama-se José, trabalha aqui e a dita força meteu-me na ideia que ele precisa de saber que eu existo, para se lembrar de mim um dia que se ponha a escrever livros, Comigo foi quase igual, a mesma força, a mesma ideia, só não imaginei que viria acompanhada. Quando a mulher do médico se prepara para tocar mais uma vez, a porta abre-se, deixando ver a cabeça de um homem calvo e de má cara, O que desejam, Queríamos falar com o Sr. José, Qual deles, aqui há muitos, É um rapaz novo, alto, usa óculos, Dito assim parece o Zé das oficinas, o serralheiro, o que anda sempre com os livros atrás, Se calhar também escreve, Isso já não sei, mas que lê muito, lê, Então deve ser ele, será que o pode chamar, Vou ver se ele está, as oficinas ainda não fecharam mas pode ter saído mais cedo, esperem só um pouco, Está bem, E quem devo anunciar, Diga que são duas amigas que lhe querem bem. O porteiro virou-lhes costas e encostou a porta, afastando-se pelo corredor fora, murmurando para si mesmo, Logo duas, olha o magano, logo duas, não faz a coisa por menos.
[Versão ampliada de um texto publicado no n.º 93 da revista Ler]
Novalis à flor da relva
Andava eu mergulhado na leitura do Submundo de Don DeLillo, seguindo com os olhos, através das páginas e das décadas, a trajectória de uma bola de basebol, esfera de couro com coração de cortiça, pré-Sputnik que ao invés de entrar em órbita caiu na bancada de um estádio nova-iorquino numa tarde de Outubro de 1951, invertendo a lógica desportiva, protagonizando um home run mítico, perdendo-se no meio do público até que um escritor, quase meio século mais tarde, fez dela o MacGuffin de um romance que tenta agarrar por vários lados a América desse quase meio século, andava eu mergulhado na leitura do Submundo de Don DeLillo quando dei por mim a pensar que não existe nenhuma obra de ficção que cruze desta forma a História de Portugal com o desporto mais importante do país (o futebol, claro), ainda para mais um desporto que exclui praticamente todos os outros, o que não acontece nos EUA, onde DeLillo podia ter escolhido tranquilamente outra modalidade, basquetebol, futebol americano, até hóquei no gelo.
Assim de repente, lembro-me de El-Rei no Porto, de Fernando Venâncio (ASA, 2001), ficção que imagina Portugal dividido ao meio, reino a Norte, república a Sul, e termina com um jogo entre as respectivas selecções, equipada de azul e branco a primeira, de verde e vermelho a segunda, partida que tem como palco o Estádio Nacional, na Cruz Quebrada, e acaba em 3-3, empate sumariamente descrito num parágrafo de dez linhas, mera antecâmara do desenlace narrativo que desemboca numa última palavra – bizarra coincidência – que é também a última palavra do Submundo de DeLillo («paz»). Há ainda O Suplente, de Rui Zink (Publicações Europa-América, 2000), com descrições bastante realistas do jogo e um uso intensivo do futebolês, sempre desconstruído pela ironia (por exemplo, um avançado que às tantas sai por lesão, especialista em bolas paradas, chama-se Hipérbato). Mas o romance que melhor se apropria do futebol como matéria narrativa, de entre os que por cá se foram publicando, continua para mim a ser Alma, de Manuel Alegre (Dom Quixote, 1995). Logo no primeiro capítulo, o narrador, ainda criança, depara-se com um dilema. «Republicano e revolucionário» por influência da avó, ele é esperado no comício da oposição. Só que à mesma hora o Beira-Rio joga com o Vista Alegre no campo de S. Cristóvão. Cidadania ou futebol? O coração de adepto fala mais alto e ele acaba por ir ao jogo, mas antes do fim lá o arrastam para o Cine-Teatro onde o comício decorre, prestes a ser perturbado pelas provocações dos situacionistas, pequena multidão que à pergunta «Quem manda?» responde «Salazar, Salazar, Salazar». Tanto de um lado como do outro, acaba tudo em pancadaria. E a descrição dos golos, dos penalties defendidos e da invasão de campo, em paralelo com os discursos inflamados, a surra nos salazaristas e os gritos de «Viva a República!», ocupa umas quinze páginas que estão entre as melhores da literatura portuguesa dos últimos anos.
Por muito vibrantes que sejam, estes episódios de Alma são remotos (fim da II Guerra Mundial). Falta quem escreva sobre factos mais próximos. A final da Taça de Portugal de 1969, por exemplo, perdida pela Académica diante do Benfica (1-2), mas aproveitada para um prolongamento da luta dos estudantes contra o regime. Ou a final do Euro 2004, espécie de castigo grego pelo desperdício de dinheiros públicos em estádios que depois ficaram vazios. Eu diria que um romancista à altura da tarefa é Rui Cardoso Martins, autor de uma peça teatral que já se aproxima bastante do anti-clímax de há seis anos. Intitula-se Apanha-Bolas (edição Culturgest, 2010), resultou de uma encomenda do projecto Panos (que associa a nova dramaturgia ao teatro escolar/juvenil) e parte de um conflito moral: será que devemos fazer o que está certo quando o que está certo (não atrasar a entrega da bola ao adversário) pode ser entendido como uma traição à pátria? Mais do que da História, o futebol aproxima-se aqui da Filosofia, por entre referências ao YouTube e os palavrões das claques. Reconfortante é ouvir um apanha-bolas citar Novalis logo na primeira fala: «A virtude deve desaparecer de novo e tornar-se inocência.»
[Texto publicado no n.º 92 da revista Ler]
Toldados pelo toldo

Bastou uma nota de duas linhas, colocada por Joaquim Manuel Magalhães (JMM) no final de O Toldo Vermelho (Relógio d’Água, 2010), para criar uma inusitada agitação nos habitualmente tranquilos círculos da poesia portuguesa. Por vontade expressa do autor, o novo livro, com menos de 200 páginas, «exclui e substitui» toda a sua obra poética anterior. O que despertou logo o sobressalto, com laivos de escândalo, não foi o acto de reescrita em si mesmo (JMM, como outros poetas, entrega-se ciclicamente à junção e revisão dos livros anteriores), mas a natureza desta reescrita – tão drástica, violenta e inesperada que deixou a maior parte dos críticos em estado de choque.
Antes ainda de me chegar às mãos, fui lendo o muito que se escreveu sobre Um Toldo Vermelho na imprensa e na blogosfera. Em prosa longa e fundamentada com exemplos (privilégio raro para quem faz crítica literária nos jornais), Luís Miguel Queirós mostrou-se inconsolável, no suplemento ípsilon do Público, diante do «estranho caso do poeta que destruiu a sua própria obra», agora reduzida a uma «deprimente mediocridade». No número de Abril da Ler, Jorge Reis-Sá garantia, num texto de dimensões igualmente generosas, no qual en passant ajustava contas com os poetas «sem qualidades» (Manuel de Freitas et al.), que o livro é «mau» e «sem sentido». Por seu lado, o poeta João Luís Barreto Guimarães, no blogue Poesia & Lda., ficou «atónito» com um «gesto de vanguarda» que troca o célebre regresso ao real por uma «aura herbertiana», agreste e hermética. Após cotejar alguns poemas, mostrando-os na versão original e na sua nova forma, Barreto Guimarães conclui que «já se deve ter percebido que me sinto pessoalmente ofendido com Joaquim Manuel Magalhães por ele me ter feito isto» (nos comentários ao post, Rui Lage, também ele poeta e admirador de JMM, afirma que Um Toldo Vermelho é «uma lástima»). Houve ainda quem falasse, noutras paragens da Internet, em «deriva niilista» e em «epifania de uma incongruência». De fora da quase unânime recusa ficou António Guerreiro (Expresso), que viu no livro «a mais radical operação poética – e a mais cheia de consequências – da literatura portuguesa das últimas décadas», ao desactivar «os princípios em que se baseou a poesia do autor» e ao desfazer-se corajosamente do belo «como quem esconjura uma ameaça».
A principal acusação dos detractores é que estes poemas só fazem sentido quando lidos à luz dos originais. Se JMM assassinou conscientemente a sua obra anterior, subentende-se, é forçoso voltar ao corpo vivo para compreender o cadáver. A mim, parece-me que o problema está justamente na suposta necessidade da leitura de uns a partir dos outros. Funcionando os actuais poemas como sínteses abruptas dos primeiros, a comparação entre eles gerará sempre uma perplexidade e um desconforto, nascidos da intuição de que algo se perdeu neste trânsito e reduzindo as novas formas ao mero efeito de uma energia destrutiva.
Para fugir a este enviesamento, tentei ler Um Toldo Vermelho às cegas, como se nunca tivesse ouvido falar de JMM. O resultado foi avassalador. Esta é uma poesia da rasura e da cesura, um magnífico mecanismo verbal que torce a linguagem até ao limite e nos agride, mas que não abdica da beleza, antes a procura nas linhas de fractura da própria escrita. Veja-se o poema da página 28: «Num ápice, dourado, / adulterava-se década e meia. // A coleira da emoção não acudia, / um interruptor a cessara. / A alcova da merenda / funde a siderúrgica missão. // Atroou-me um filho. / Ligarei adiante, / implodi. // Garotos ajudam / pela soma na ranhura / o carrinho. / A ventania joeira cotão e maravalha. // Oráculo do encerramento. / Todos ao reduto. / E muito cedo limpam à pressa / pó e lavam a cara / e se arranjam vagar / a porca louça da ceia.» Sendo um poema que nasce de um poema antigo, é um poema absolutamente novo. E nele podemos até descobrir pistas para a radicalidade do gesto de JMM. Reparem: «a siderúrgica missão»; «implodi»; «a ventania joeira cotão e maravalha». Está lá tudo. Basta colocar entre parêntesis a desconfiança automática diante de algo que nos escapa.
[Texto publicado no n.º 91 da revista Ler]
Alguém quer fazer uma pergunta?
Nos últimos anos, tenho aceitado muitos convites para moderar mesas-redondas literárias e apresentações de livros. Dessa minha experiência retirei um ensinamento: ao contrário do que seria legítimo esperar, não é o debate em si que levanta dificuldades. Salvo raras excepções, os oradores com quem partilho a mesa costumam ser pessoas inteligentes, articuladas, que sabem falar e têm coisas interessantes para dizer. Eu apresento-as, resumo os seus percursos, lanço tópicos para a conversa, vou gerindo os tempos, provoco aqui e ali, contextualizo, estabeleço pontes entre as principais ideias discutidas e esboço, no fim, uma síntese. Isto, com a prática, torna-se fácil. Complicado é o que vem depois. O momento fatal em que olho para o relógio, confirmo que faltam dez minutos para acabar a sessão e dirijo ao público o desafio da praxe: «Alguém quer fazer uma pergunta?»
Primeiro, instala-se o silêncio. Um silêncio desconfortável, tenso, cheio de silêncios mais pequenos, como bolhas prestes a rebentar. Varrendo a sala com os olhos, descarto logo os espectadores adormecidos (ou em vias de adormecer) e os espectadores que nunca jamais em tempo algum seriam capazes de pedir a palavra (basta ver a forma como se afundam na cadeira), e concentro-me naqueles que embora não levantem, ainda, o dedo que assinala a resposta ao meu repto, já se agitam e soerguem os corpos, traindo a loquacidade que dentro deles fervilha. Eu repito a pergunta, acrescento «Já se sabe que a primeira é a mais difícil», volto a varrer a sala com o olhar, insisto («Alguém?»), olho para os convidados, viro-me para a plateia com cara de «falem agora ou calem-se para sempre», e então uma mãozinha lá se digna a acenar, quase a medo, como quem não quer a coisa (mas quer, mas quer).
Enquanto o microfone não chega ao dono da mãozinha, preparo-me para o embate. É agora que o meu trabalho verdadeiramente começa. Cabe-me ouvir com atenção as primeiras frases, detectar padrões de linguagem, traçar um perfil, enquadrá-lo na taxinomia dos frequentadores-de-debates-que-fazem-sempre-perguntas-no-fim e agir em conformidade. O mais problemático destes espécimes (tratemo-los assim sem desprimor) é o que se apropria do microfone sem intenções de o largar. Se o deixassem, ficaria ali, perorando sobre tudo e mais alguma coisa (menos o tema do debate, claro) até à manhã seguinte. Ou até começar o Forum TSF, onde deve ter lugar cativo, seja qual for o assunto em discussão. A este tipo de opinador verborreico não é fácil cortar a palavra, mas uma frase como «peço-lhe que faça, caro senhor, uma pergunta concreta à mesa, caso contrário vou ter de passar a outra pessoa» costuma ser remédio santo e ele depressa assume que na realidade já disse o que queria dizer.
Há depois um sem número de categorias capazes de dar água pela barba ao Lineu que decidisse estudá-las. Entre outras, os perguntadores confusos, que se atropelam e enrolam e gaguejam e continuam a ser incompreensíveis mesmo depois do quinto «importa-se de repetir?»; os perguntadores complexados, que protestam contra o elitismo da mesa («eu não percebi nada do que disseram, mas também nunca andei na universidade, trabalho desde miúdo», etc.); os perguntadores zangados, que se sentem pessoalmente ofendidos por algo que foi dito sobre a classe a que pertencem (profissional, etária, económica) e lavam a honra com muita verve e pouca capacidade de síntese; os perguntadores agradecidos, que apenas querem sublinhar o «enorme prazer» que tiveram ao ouvir comunicações «tão excepcionais»; os perguntadores alucinados, que vivem num universo paralelo e ainda não se aperceberam (nas Correntes d’Escritas há um que até fala em alemão); e os perguntadores poetas, que insistem em partilhar com o resto da sala os seus embaraçosos versos de pé quebrado.
Justiça lhes seja feita, há também perguntadores normais, os que colocam questões sucintas e directas aos intervenientes, mas parece-me que são uma minoria. Quando pergunto se alguém quer fazer perguntas, é dos outros que eu estou sempre à espera. E é por isso que às vezes fico aliviado quando ninguém levanta a mãozinha e eu remato com um «então ficamos por aqui».
[Texto publicado no n.º 90 da revista Ler]
As primeiras 20 páginas
Talvez porque venho adiando há demasiado tempo o impulso de começar um romance (mais por receio de ser incapaz de escrever um, admito, do que pela simples tendência para a procrastinação), gosto muito de ler o que os romancistas estabelecidos nos revelam sobre o seu ofício: diários, reflexões ensaísticas, conferências académicas, livros com títulos como Aspects of the Novel ou The Art of Fiction, chamo-lhes um figo. E leio de fio a pavio, tentando perceber não as regras gerais mas os casos particulares, a forma como os vários autores resolveram os seus problemas específicos, consciente de que em muitos casos permanecemos no território da ficção – ou da mitomania. Aliás, de um escritor não espero nunca sinceridade absoluta (se é que isso existe), mas agrada-me que seja generoso.
Encontrei o mais recente exemplo deste tipo de generosidade no número de Janeiro da revista Prospect: um artigo de quatro páginas, assinado por Zadie Smith, sobre a sua experiência de romancista. O texto, incluído no volume Changing my Mind: Occasional Essays (Hamish Hamilton, 2009), é uma versão de uma aula dada a estudantes da Universidade de Columbia, em Março de 2008. Ao longo de dez secções curtas, Smith aborda os vários estádios que o escritor atravessa durante a escrita de um romance. Ou, melhor dito, os vários estádios que ela, Zadie Smith, atravessa durante a escrita dos seus romances. Não há aqui generalizações, só as euforias e desesperos de uma experiência pessoal muito concreta, materializada em livros que têm visto a luz com intervalos consideráveis. A Dentes Brancos (2000), a apoteótica estreia aos 24 anos, seguiram-se apenas O Homem dos Autógrafos (2002) e Uma Questão de Beleza (2005).
Zadie começa por explicar que existem dois tipos de romancistas: os que programam tudo ao milímetro, fixando logo de início cada detalhe da estrutura narrativa e até a evolução do enredo (chama-lhes «Macro Planners»); e os que não prevêem nada à partida, os que começam na primeira frase e acabam na última, só avançando para um novo capítulo quando o anterior ficou definitivamente fechado (os «Micro Managers»). Ela pertence à segunda categoria e reconhece os riscos inerentes. «Quando começo um romance, sinto que ele não existe fora das frases que vou pondo no papel. Por isso tenho de ser muito cautelosa: toda a natureza da coisa pode mudar devido à escolha de umas quantas palavras.» No caso de Smith, esta responsabilidade desperta um estado obsessivo que se manifesta sobretudo nas primeiras 20 páginas, trabalhadas e retrabalhadas até definirem uma certa perspectiva, uma voz, um tom. O arranque é difícil, moroso, uma tortura, mas o esforço compensa porque a energia acumulada (como quando se dá corda a um carrinho de brincar) acaba por fazer o resto do romance. Em Uma Questão de Beleza, as fatídicas primeiras 20 páginas exigiram-lhe quase dois anos; as restantes quatrocentas e tal, uns meros cinco meses.
Há autores que preferem não ler nada enquanto escrevem. Smith, pelo contrário, alimenta-se das palavras alheias. Cola citações de Pynchon na porta do escritório, põe uma frase de Derrida no screen saver do computador, pega em Kafka, Nabokov ou Dostoievski como combustível para o seu próprio estilo. Depois, sem saber bem como, chega ao «meio do romance», esse inexplicável «estado de espírito» próximo do pensamento mágico, alienante, capaz de colapsar o tempo, acelerar a escrita e puxar a realidade do mundo para dentro do livro, resolvendo de repente os seus nós e dilemas. Já perto do fim, impõe-se um regresso às primeiras 20 páginas, para torná-las menos densas, menos explicativas, menos paternalistas em relação ao leitor. Daí para a frente, é só retirar os andaimes narrativos que foram ficando presos ao edifício, preparando a chegada do dia final, a libertação e a sua felicidade «sem adjectivos».
Da última vez que chegou a este ponto, Zadie abriu uma garrafa de Sancerre e deitou-se no quintal, a chorar, no meio das maçãs caídas. Foi há mais de cinco anos. Onde estará ela agora? Ainda às voltas com as 20 primeiras páginas ou já mais perto de tirar a rolha ao próximo vinho do Loire?
[Texto publicado no n.º 89 da revista Ler]
Professor Nabokov
E se de repente me colocassem à frente uma máquina do tempo sofisticadíssima, capaz de transportar num ápice o viajante, eu, para o centro de um qualquer acontecimento histórico à escolha? Que indicações dar ao taxista da quarta dimensão? Eis um exercício especulativo dos mais inúteis, tendo em conta que a probabilidade de uma tal geringonça vir um dia a existir, assim disponível para o cidadão comum, é dez elevado a muitos zeros inferior à probabilidade de ganhar cinco vezes seguidas o totoloto.
De qualquer das formas, não vá o diabo tecê-las, ando com uma listinha no bolso. Por questões de feitio, exclui à partida as grandes batalhas (Aljubarrota, Lepanto, Waterloo, o Dia D) e aqueles outros momentos que mudaram de facto o rumo da História (tratados, concílios, armistícios, revoluções). O que me interessa é a escala humana, o feito individual. Seguir Sócrates pelas ruas de Atenas, entrar no atelier de Piranesi, ver a maçã de Newton a cair (se é que houve maçã) e Beethoven às voltas com o opus 132. Ou então, coisas mais simples e públicas: assistir à escandalosa estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, em Paris, 1913. Ou ainda mais modestas: partilhar, num anfiteatro repleto de alunos, as lições de um grande professor. A Física explicada por Richard Feynman. Ou a grande literatura sob a lupa de Vladimir Nabokov.

Neste último caso, à falta de tecnologia que me transporte meio século para trás, para o passado, posso sempre valer-me das Aulas de Literatura (Relógio d’Água, 2004), um volume que reúne as palestras sobre Ficção Europeia dadas pelo autor de Pnin na Universidade de Cornell, entre 1953 e 1958 (o ano de Lolita, cujo enorme sucesso lhe deu estabilidade económica, permitindo que se afastasse definitivamente do ensino académico). Na sua cadeira, Nabokov propunha-se «analisar com amor, em pormenor dedicado e vagaroso, algumas obras-primas europeias». A saber: Mansfield Park, de Jane Austen; Bleak House, de Charles Dickens; Madame Bovary, de Gustave Flaubert; O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson; Do Lado de Swann, de Marcel Proust; A Metamorfose, de Franz Kafka; e Ulisses, de James Joyce.
Os textos que Fredson Bowers editou, a partir das intrincadas notas de Nabokov (quase todas manuscritas), não correspondem a um trabalho literário final, devidamente polido. Ao contrário das aulas sobre Almas Mortas e O Capote, que foram integradas no ensaio dedicado ao «mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia» (Nikolai Gógol, Assírio & Alvim, 2007), estas «prosas faladas» aparecem-nos em estado bruto, tal como eram transmitidas oralmente aos seus alunos, mas nem por isso deixam de ser um testemunho da inteligência analítica e subtileza argumentativa de Nabokov. Fiel às suas premissas enquanto autor, não lhe interessa discutir o que está «à volta» dos livros (generalizações e enquadramentos sociopolíticos) mas apenas o «coração vivo do assunto», a «essência» de uma obra, que para ele se resume a dois aspectos: o estilo e a estrutura. Recorrendo ao close reading, Nabokov ilumina os alicerces da escrita romanesca alheia com a sabedoria e intuição de quem conhece os segredos do ofício, procurando a «tessitura interior», a verdade última que se esconde nos pequenos detalhes. Para compreender Jane Austen, diz-nos, é preciso visualizar as mobílias do quarto de Fanny Price, protagonista de Mansfield Park. Em Ulisses, convém traçar no mapa de Dublin as deambulações de Leopold Bloom e Stephen Dedalus. O estudo do texto de Kafka passa por diagramas (a planta do apartamento dos Samsa) e por desenhos entomologicamente correctos do protagonista transformado em insecto.
Nabokov começava cada semestre com um aviso: «Não falem, não fumem, não façam tricot, não leiam o jornal, não durmam e, por amor de Deus, tirem apontamentos.» A julgar pelas evocações de antigos alunos que John Updike cita no prefácio, ninguém dormia nas aulas (muito pelo contrário). A própria mulher de Updike, que chegou a assistir às palestras a arder de febre, recorda: «Sentia que ele me podia ensinar a ler. Acreditava que ele me poderia dar algo que duraria toda uma vida – e deu.»
[Texto publicado no n.º 88 da revista Ler]
Lydia Davis, miniaturista

Fotografia de Gregory Boyd
Sobre ela, já houve quem afirmasse que é «um dos gigantes tranquilos no mundo da ficção americana». Onde se lê tranquilos, leia-se secretos. Lydia Davis só publicou um romance (The End of the Story, 1995) e por isso é quase invisível no meio editorial generalista, embora os leitores dos seus dez livros de histórias curtas, muito curtas ou extremamente curtas (aquilo a que se costuma chamar micronarrativa) a coloquem, em termos literários, nos píncaros dos píncaros. Davis (n. 1947) é professora de escrita criativa na Universidade de Albany e destacou-se como tradutora do francês (Proust, Blanchot, Pierre Jean Jouve, Sade, Michel Butor; a lista é longa). Para quem gosta de trivialidades, registe-se ainda que esteve casada, na década de 70, com Paul Auster, de quem tem um filho (Daniel Auster).
Entre os maiores entusiastas da sua obra estão alguns escritores da nova geração, adeptos como ela de formas narrativas experimentais. É o caso de Dave Eggers. Na revista McSweeney’s, o autor de O Que é o Quê (Casa das Letras, 2009), escreveu o seguinte: «Quem conhece a escrita de Lydia recorda provavelmente a primeira vez que a leu. (…) Eu li-a no comboio F, entre a Sexta Avenida e Park Slope – uma longa viagem para um livro que não é assim tão grande – e quando cheguei ao fim senti-me liberto.» No meu caso, mesmo conhecendo boa parte da escrita de Lydia, não recordo exactamente onde a li pela primeira vez. Sei que foi na Internet (talvez no site da McSweeney’s, mas não tenho a certeza), depois de um amigo escritor me ter dito, com aquela convicção que os amigos escritores costumam exibir: «Tu tens que ler Lydia Davis, ouviste? Tens que ler MESMO» (as maiúsculas correspondem a um enfático crescendo). E eu fui ler. Aventurei-me no Google, saltei de página em página e cheguei a uma história com meia dúzia de linhas em que não se passava nada; isto é, em que se passava tudo. A arte da elipse levada ao extremo, um prodígio de understatement e sugestão. Como Eggers, também me senti liberto. E talvez seja para isso que serve a literatura: para nos libertar.
No final de Setembro, foi editado nos EUA The Collected Stories of Lydia Davis (Farrar, Straus and Giroux), um tijolo de 750 páginas com todas as histórias que a escritora foi publicando em revistas e em livros nas últimas três décadas. Enquanto uma tal preciosidade não me chega às mãos, vou lendo e relendo os quatro volumes que a nada linear descoberta de Davis na Internet me fez comprar de rajada (Break it Down, 1986; Almost no Memory, 1997; Samuel Johnson is Indignant, 2001; Varieties of Disturbance, 2007). A cada leitura, a cada releitura, mais me convenço da singularidade, beleza e perfeição formal desta obra que parece erguer-se de um lugar único, um lugar criado pela própria prosa de Davis no momento em que é escrita, lá numa fronteira remota onde as distinções clássicas entre ficção, poesia e pensamento filosófico se esbatem. Reduzidos ao essencial, abdicando de artifícios e ornamentos, sem uma palavra a mais (ou a menos), o que estes textos captam, na maior parte dos casos, são aqueles elementos mais oblíquos da realidade que nós, comuns mortais, muitas vezes intuimos mas somos incapazes de verbalizar. Ou seja, Davis descreve as epifanias como se fossem factos e os factos como se fossem epifanias.
Assim de repente, há várias histórias que me vêm à cabeça. Uma grande parte delas são variações sobre o mais complexo, irónico, absurdo, sublime e paradoxal dos acontecimentos terrenos. A saber, tudo aquilo que se passa (ou pode passar) entre um homem e uma mulher. Mas também me ocorrem pequenas maravilhas como a biografia ultraconcisa de Marie Curie, ou a descrição angustiada e muito kafkiana de um jantar que Franz Kafka prepara para Milena, ou a divertidíssima análise académica das 27 cartas que uma turma de alunos da quarta classe escreve para um dos colegas, internado no hospital devido a uma osteomielite. Geniais, estes textos mais longos. Geniais, as miniaturas.
O que me leva à singela e inevitável pergunta final: não haverá por aí quem queira editar, em português, os livrinhos (ou, pelo menos, uma antologia) de Lydia Davis?
[Texto publicado no n.º 87 da revista Ler]
O estagiário de Virginia Woolf

Mão amiga – adoro esta expressão com o seu quê de metonímia – fez-me chegar certo volume fininho, de páginas amarelecidas mas em bom estado, obtido ao preço da chuva (um dólar, creio) num qualquer leilão de pechinchas na Internet: A Boy at the Hogarth Press, de Richard Kennedy, «illustrated by the author» (Penguin Books, 104 páginas, 1978; editado pela primeira vez em 1972, na Whittington Press). Richard Kennedy (1910-1989) tornou-se conhecido como ilustrador de livros infantis, mas o seu momento de glória chegou cedo, aos 16 anos, quando teve a oportunidade de trabalhar perto de Virginia Woolf e do seu marido, Leonard Woolf, durante os anos de ouro da mítica Hogarth Press. É esse contacto próximo com o célebre casal que este livro evoca, para deleite de todos os leitores que gostam, como eu, de conhecer os meandros mais secretos do mundo literário.
Uma nota inicial esclarece que «estas reminiscências, organizadas na forma de um diário, foram escritas cerca de quarenta anos após os acontecimentos descritos». A ressalva é importante. O texto que lemos não resulta da transcrição de notas redigidas, entre 1926 e 1931, por um rapazito ingénuo, mais interessado em catrapiscar miúdas do que em aprender a arte de fazer e vender livros, mas sim do esforço de memória de um sexagenário que recorda, com impressionante exactidão (extensiva aos seus etéreos desenhos), os longínquos tempos da juventude – sem que a distância arredonde as arestas das histórias vividas, ou esconda os defeitos próprios e alheios.
A principal qualidade deste livrinho está no facto de Kennedy se colocar, enquanto narrador, na pele do rapaz que foi. Ele escreve como se tivesse outra vez 16 anos e repetisse, um a um, cada um dos seus passos na cave de Tavistock Square, em Londres, onde funcionava a editora dos Woolf. Aceite como estagiário à experiência, por via de um tio que conhecia Leonard do Cranium Club, ele encara o novo trabalho como uma «segunda oportunidade», depois de ter falhado completamente os seus estudos em Marlborough. Embrulhar remessas de livros, fazer entregas aos distribuidores e dactilografar cartas de recusa são algumas das tarefas que lhe atribuem, mas a falta de jeito nunca lhe permite completá-las com o esmero desejado. Um dia, monta com afinco uma estante e aparafusa-a à parede, só para vê-la desabar no preciso momento em que Leonard recebia uma visita importante (Lord Oliver).
Além das incidências próprias de uma aprendizagem nunca muito convicta, contadas com leveza e humor, o relato de Kennedy oferece-nos uma descrição bastante minuciosa da atmosfera laboral da Hogarth Press. O corrupio dos autores que aparecem para saber como vão as coisas; Virginia Woolf a compor livros à mão; a ira de Leonard quando descobre erros nas contas do fundo de maneio; Virginia Woolf com a máquina de escrever pousada nos joelhos, junto a uma braseira, fumando cigarros que ela própria enrola; os serões com membros do Bloomsbury Group; as discussões em torno do grafismo das capas ou de um anúncio no Observer; o enorme sucesso de Orlando, romance de Mrs. Woolf que Kennedy é encarregado de vender, livraria a livraria, pelas cidades de província (de Nottingham a Edimburgo), etc.
De início, o estagiário acumula gaffes. Confunde D. H. Lawrence com T. E. Lawrence e é gozado pela patroa quando pronuncia mal o nome de Proust. Mas aos poucos vai-se aclimatando. Lê Turgenev, o À la Recherche…, as críticas literárias nos jornais, e ganha um pouco do verniz necessário para enfrentar a superioridade intelectual dos seus mestres. A admiração que sente pelos Woolf, porém, nunca lhe tolhe o sentido crítico. Leonard grita muito, tem ataques de fúria, é por vezes mesquinho e arrogante. Virginia ridiculariza uma das secretárias. E Richard comenta: «Rir dos próprios empregados é de muito mau gosto.» Sobre Virginia, diz ainda: «Acho que ela é bastante cruel, por trás do ar sonhador com que nos olha.»
Sobre os Woolf e o Bloomsbury Group escreveram-se já milhares de páginas (só a autobiografia de Leonard tem cinco volumes), mas duvido que existam muitas com o grau de inocência e verdade desarmante que estas revelam.
[Texto publicado no n.º 86 da revista Ler]
Coetzee aos trinta e tal anos
A cada um a sua loucura. Há quem se atire de uma ponte com um elástico preso aos pés. Há quem durma várias noites ao relento para ficar junto ao palco nos concertos da Madonna. Há quem se feche com os amigos um fim-de-semana inteiro, disputando campeonatos de futebol virtuais na PlayStation. E há quem decida ler de uma assentada, em duas ou três semanas (no intervalo entre o anúncio da shortlist e o anúncio do vencedor), os seis finalistas do Man Booker Prize. Foi o meu caso em 2008. Foi o meu caso este ano. Em menos de 20 dias, mais de 2600 páginas. Uma espécie de suplício de Sísifo auto-infligido. Um desporto radical em versão literária. Uma maratona de leitura que começa por invadir todos os espacinhos livres da vida diária e depois também invade os espacinhos que não estavam livres. Um interregno de pura imersão narrativa, impossível de levar a bom termo sem uma disciplina draconiana e alvoradas às cinco da manhã.
Quando o último envelope da Amazon chegou, a pilha em cima da mesa metia respeito. Não só devido à espessura dos volumes; também pelo que os nomes dos autores prometiam. Toda a gente falava de uma colheita vintage, de um dos melhores Bookers dos últimos anos, e a expectativa não foi defraudada. Comecei por atacar The Glass Room, de Simon Mawer, um sólido romance sobre arquitectura, sexo, famílias, traições e o que acontece a uma casa perfeita quando os tempos não acompanham essa perfeição. Do autor mais jovem, Adam Foulds (também poeta), apreciei a elegância da escrita e o modo como explora, em The Quickening Maze, o tema da loucura (sem cair nas armadilhas que lhe estão associadas). A longa saga cheia de ramificações narrativas de A.S. Byatt (The Children’s Book) e o relato literalmente fantasmagórico de Sarah Waters (The Little Stranger) cumpriram o que deles esperava: perfeição estilística e domínio da forma romanesca. Mas não me empolgaram.
O primeiro sobressalto de entusiasmo aconteceu com Wolf Hall, a magnífica reconstituição que Hilary Mantel fez da corte de Henrique VIII, e da trajectória ascendente de um homem maquiavélico e ardiloso (Thomas Cromwell), saído da miséria em Putney para os bons ofícios do cardeal Wolsey, e mais tarde para o círculo mais íntimo do rei. Mantel escreve tão bem que chega quase a ser ofensiva e reconciliou-me com um género que há muito deixara de me interessar (o romance histórico). Por isso, o prémio final assenta-lhe que nem uma luva, além de fazer justiça a uma das mais subavaliadas escritoras inglesas. Se dependesse de mim, porém, teria escolhido J.M. Coetzee, fazendo dele o primeiro autor a ganhar três vezes o Booker.
Summertime (Harvill Secker, 266 páginas) é o livro com que Coetzee fecha a sua trilogia de memórias ficcionadas, iniciada com Boyhood (1997) – sobre a infância na Cidade do Cabo, no final dos anos 40 e início dos 50 – e Youth (2002), que descreve a sua vida em Londres, no início da década de 60, e as suas primeiras tentativas poéticas. Nessas duas obras, Coetzee fala de si mesmo na terceira pessoa e esse distanciamento reflecte o extremo cuidado com que o escritor sul-africano, conhecido pelo zelo posto na protecção da sua privacidade, aborda os materiais biográficos no processo de os transformar em literatura. Mesmo quando os factos são reais, o protagonista nunca é o verdadeiro Coetzee mas uma personagem em tudo semelhante, o seu reflexo no espelho da ficção.

Ilustração de Pedro Vieira
Em Summertime, esta ambiguidade é levada ao extremo, pelo recurso a uma estrutura narrativa fragmentada e potenciadora das incertezas meta-literárias que Coetzee tanto aprecia. Em vez de uma história linear, o que o livro nos oferece é um conjunto de materiais que o biógrafo de Coetzee, um tal Mr. Vincent, reúne após a sua morte, tentando fixar uma certa época (os anos de 1972 a 1977), quando o escritor, então com trinta e poucos anos, ainda não era o escritor que veio a ser mas para lá caminhava. Vincent transcreve entrevistas com várias pessoas que terão conhecido Coetzee na altura (uma amante, uma prima, a mãe brasileira de uma das suas alunas, colegas do meio académico), além de excertos dos seus cadernos de notas. O retrato que emerge destes depoimentos em bruto – cheios de incongruências, animosidades, contradições – é de uma crueza devastadora. Coetzee surge-nos como um homem emocionalmente opaco, incapaz de se relacionar com os outros, um corpo estranho fechado sobre si mesmo (a amante acusa-o de autismo sexual), um feixe de ideias confusas à deriva numa África do Sul em pleno apogeu do apartheid. O Coetzee de hoje não doura a pílula ao Coetzee trintão, nunca contemporiza com as suas fragilidades e falhanços. Mas, paradoxalmente, isso só o torna mais humano.
O resto é a arte da linguagem. Ou seja, o esplendor da língua inglesa, elevada aos céus por um dos seus melhores cultores.
[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 85 da revista Ler]
Bolaño à beira-mar
Conheço muitos leitores que têm horror da praia. O vento, a areia, as famílias que falam muito alto, o barulho irritante das raquetas, poc-poc, poc-poc, os vendedores de bolas de Berlim e línguas-da-sogra não autorizadas pela ASAE, os rapazes loiros que projectam sombras nas páginas com as suas pranchas, as criancinhas que se perderam dos pais ou querem fazer chichi, os homens barrigudos que se põem a discutir o Benfica, Record debaixo do braço, a menos de um metro de distância. Eu, por mim, não me queixo. Quem se habituou a ler nos cafés da Graça, alheio ao tilintar da loiça, às canções foleiras da RFM e aos lamentos das velhinhas a caminho (ou no regresso) do centro de saúde, aguenta tudo. Com os anos, e após a passagem por várias redacções de jornal em open space, aprendi a criar uma espécie de capacete imaginário à volta da cabeça, uma redoma que me isola do mundo e me permite ler, ou escrever, como se estivesse na cela mais silenciosa de um mosteiro.

Na praia não é diferente. Chego, escolho um lugar que me parece mais abrigado (o sopé de uma duna, por exemplo), monto a cadeira de lona comprada num bazar de Aljezur, seguro no livro de forma a poder espreitar, por cima dele, a pequena lagoa onde os meus filhos chapinham, e entrego-me ao prazer da leitura sem hora marcada, ignorando olimpicamente o que os meus vizinhos fazem ou deixam de fazer. Depois, quando acabo um capítulo e não me apetece logo começar outro, pouso o livro, levanto-me, reparo enfim numa família que devora talhadas de melancia à minha esquerda, no casal estrangeiro com bonés de pala que se imagina em Roland Garros, poc-poc, poc-poc, poc-puf, na menina que perdeu o balde de plástico, na avioneta que arrasta uma faixa com publicidade a um clube nocturno, e estico os braços, flicto as pernas, aproximo-me da água, afiro a temperatura das ondinhas, desafio os miúdos para um passeio até às rochas lá ao fundo, ou deixo-me estar, pés afundados na areia molhada, a olhar para o horizonte. Sei que os tais leitores com horror da praia farão uma careta, mas isto, para mim, se não é o paraíso, anda lá perto.
Há um outro aspecto que me leva a gostar muito das leituras na praia. Se na cidade interrompemos o romance que estávamos a ler, é geralmente porque alguém nos telefonou e precisa da nossa atenção, ou porque chegámos à paragem de metro onde alguém nos espera, ou porque a assistente do dentista nos chamou para a cadeira da tortura. O telefonema, a conversa com o amigo ou o ruído da broca ocupam então o palco da nossa consciência e o que estávamos a ler fica remetido para um difuso segundo plano, como que atrás de cortinas pesadas, até termos de novo disponibilidade para pegarmos no livro, voltarmos atrás umas quantas páginas e retomarmos o fio da história. Na praia, pelo contrário, com os pés enterrados na areia molhada e a contemplar o horizonte, continuamos imersos na narrativa e recapitulamos diálogos, relembramos detalhes, estabelecemos nexos entre as cenas e, no limite, até projectamos certas personagens em certos banhistas que avançam mar adentro, com as costas vermelhas do escaldão da véspera e água pelo joelho. Aquele ali, por exemplo, podia perfeitamente ser o Senhor Palomar (o de Italo Calvino, entenda-se; não confundir com o blogger homónimo que anda a baralhar o meio literário português com o seu misterioso anonimato). E aqueloutro, muito alto e com pinta de alemão, talvez seja o fugidio Benno von Archimboldi, o escritor que se torna a obsessão de quatro académicos, na primeira parte do romance 2666, de Roberto Bolaño. E por falar nos quatro académicos, ainda agora, ao olhar por cima do ombro, vi um grupinho a olhar para o homem alto com pinta de alemão e era capaz de jurar que o grupinho, agora a fingir que contempla um castelo de areia, é composto por Jean-Claude Pelletier, Piero Morini (em cadeira de rodas e tudo, não faço ideia de como a transportaram até ali), Manuel Espinoza e Liz Norton, que transporta na mão direita um volume cujo título, se a vista não me atraiçoa, é Bifurcaria bifurcata.
O sol vai alto, propício a miragens de calor e alucinações literárias. Regresso à toalha, onde o Sony Reader me aguarda, espalmadinho, com as mil páginas de 2666 lá dentro. Num dos cantos do ecrã de e-ink, um grão de areia. Depois do regresso a Lisboa, verifico: ainda lá está. É a testemunha melancólica das férias que chegaram ao fim.
[Texto publicado no n.º 84 da revista Ler]
Da escrita como obsessão

A verdade é que já não me lembro onde comprei este livro, nem porquê. Estava ali na estante, fininho, à espera, com a sua capa sombria (uma toupeira coberta de insectos, pendurada de um ramo por uma corda) e o seu título misterioso: Évocation de Matthias Stimmberg suivi de Six notes autour de l’écriture et de l’obsession (Bibliophane-Daniel Radford, 93 págs., 2003). Hoje peguei-lhe. E apercebi-me que fui traído pelo nome do autor, Alain-Paul Mallard, que julguei francês. Na verdade é mexicano, nasceu em 1970 e vive actualmente em Paris, onde trabalha como realizador de cinema. A sua bibliografia resume-se a este livro, cuja primeira parte já tinha sido publicada no México, em 1995, e a Recels, outro volume de prosas curtas, editado já este ano por L’Arbre Vengeur.
Uma rápida consulta ao Google desfaz uma dúvida: e se Mallard, como o Matthias Stimmberg evocado nestas ficções, fosse um escritor imaginário? Não é. A informação online revelou-se escassa, mas encontrei um vídeo, fotos, algumas recensões e uma nota biográfica que menciona a «lenda familiar» segundo a qual o seu nome proveio de um soldado, participante na expedição militar francesa ao México (1861-1867), que se terá perdido nas margens do rio Papaloapan, no sul do estado de Veracruz.
Comecemos pelas notas «em volta da obsessão e da escrita», preparadas para um colóquio internacional de «jovens narradores», em que Mallard se cruzou, entre outros, com o dominicano Junot Díaz, autor de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, excelente romance de estreia que ganhou o Pulitzer de Ficção em 2008. Na sua intervenção, Mallard começa por lembrar uma célebre frase de Freud – «a cultura engendra a neurose» – com a intenção de a inverter, mostrando que a neurose também pode engendrar a cultura; ou, mais especificamente, a literatura. Pelo simples facto de que «complicam o problema humano», os desequilíbrios (psicológicos ou de personalidade) serão sempre propícios à criatividade literária. Mallard concentra-se sobretudo no modo como o comportamento obsessivo condiciona, desbloqueia ou alimenta o trabalho de escrita de alguns autores. Francis Ponge, por exemplo. Durante quase um terço da sua vida, de 1942 a 1967, o autor de O Partido Tomado Pelas Coisas procurou fixar com palavras a natureza escorregadia e evanescente do sabão, até que reuniu em livro o somatório de todas essas tentativas e «ângulos de ataque», as «declinações sucessivas» de um mesmo tema, com «intuições, avanços, naufrágios, contra-sensos». Houve no projecto de Ponge tanto de obsessão como de perseverança, resume Mallard, mas acima de tudo houve uma «lição de escrita».
Caso distinto é o de Juan Rulfo, em que o temperamento obsessivo, mais do que conduzir à persistência num tema, é um «garante da forma». Entre a primeira e a segunda edição de A Planície em Chamas (edição portuguesa da Cavalo de Ferro), Rulfo introduziu pequenas variantes lexicais que são exemplos do mot juste flaubertiano, reflectindo uma vontade de levar até ao limite a coerência textual e de fixar «definitivamente» a prosa literária. O que Mallard pretende, em última análise, é estabelecer para si mesmo uma praxis da escrita que passa pela máxima exigência estética. Um texto só deve ser publicado quando as partes que o constituem encontraram a sua forma final. E isso implica uma «batalha contra a linguagem». Uma batalha sem tréguas. E das duas uma: ou se consegue dominá-la, ou se acaba dominado por ela. Seja como for, para Mallard escrever é sempre «servir a linguagem», porque «desde que Borges demonstrou a existência da página perfeita» temos o dever de aspirar a essa perfeição.
Costuma dizer-se que entre a teoria e a prática há sempre uma certa distância, mas isso não se aplica a Alain-Paul Mallard. Em Évocation de Matthias Stimmberg, ele cumpre à risca o que defende nas notas. Máximo rigor verbal, máximo depuramento, máximo efeito literário. A primeira versão destes contos tinha 200 páginas; a final, pouco mais de 50. A reescrita foi tão furiosa que o escritor colombiano Alvaro Mutis terá dito: «é preciso arrancar-lhe o livro antes que ele desapareça». Como o sabão de Francis Ponge.
[Texto publicado no n.º 83 da revista Ler]
Bibliomanias

As pessoas obcecadas por livros tendem a gostar de livros sobre outras pessoas obcecadas por livros. A bibliofilia não é apenas uma doença crónica; é também contagiosa. Ao lermos sobre as grandes bibliotecas pessoais – com dezenas ou centenas de milhares de volumes – aspiramos a uma igual desmesura, subitamente embaraçados com a pequenez, a desordem e as lacunas da dúzia e meia de estantes lá de casa. Melhor dito: as pessoas obcecadas por livros tendem a gostar de livros sobre outras pessoas ainda mais obcecadas por livros do que elas. E foi por isso que devorei de uma assentada o ensaio breve de Jacques Bonnet intitulado Des bibliothèques pleines de fantômes (Denoël, 2008, 138 páginas).
Editor, tradutor e autor de livros sobre pintura, Bonnet é um bibliómano que nos escancara a sua bibliomania, não escondendo um certo exibicionismo e uma certa ostentação (nalguns casos até uma certa vaidade), próprios de qualquer bibliómano que se preze. Por muito que mencione as bibliotecas dos outros, ele regressa sempre à sua, minuciosamente descrita em dezenas de páginas que chegam assemelhar-se a um catálogo bibliográfico. Através dos seus livros, é a sua vida, é a sua biografia que se desenha. Nada de muito espantoso, diga-se. Faz parte da natureza das bibliotecas tornarem-se um espelho do seu proprietário. E quem as saiba «descodificar com subtileza» encontrará nelas, mais ou menos escondida, «a natureza profunda do seu bibliotecário».
Ao recordar a forma como chegou a certos livros, Bonnet revela, de facto, alguns aspectos da sua personalidade, como a perseverança e a extrema atenção aos detalhes. Por exemplo, a abrir o ensaio, aborda o célebre episódio em que Fernando Pessoa se candidatou ao lugar de conservador-bibliotecário do museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, corria o ano de 1932. Como se sabe, o poeta dos heterónimos acabaria por ser recusado, em favor de um «pintor obscuro». Ao citar a carta de candidatura de Pessoa, com a sua «retórica insólita», Bonnet explica que a encontrou reproduzida na Fotobiografia de Maria José de Lencastre (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por si comprada em 1983, por 500 escudos, numa livraria de Coimbra, cidade em que se lembra de ter visto uma mulher a andar na rua com uma máquina de costura equilibrada sobre a cabeça.
Na linha do que sugeriram Borges e Bachelard, para Bonnet a biblioteca é o que mais se aproxima da ideia de paraíso terrestre. Ela é um «concentrado de tempo e de espaço», protege da «hostilidade exterior», como se fosse um útero, e confere «um sentimento de poder absoluto». Rodeado pelos seus livros, o bibliómano nunca se sente desamparado. Sabe que tem, sempre ao seu alcance, os instrumentos necessários para interpretar a realidade. E não lhe falem da Internet e suas infinitas reservas de informação. Por muito que se encontre por lá tudo o que se queira saber, quase instantaneamente, ela é «desprovida de fantasmas», diz Bonnet, falta-lhe a dimensão «divina».
A maior parte do ensaio centra-se nas alegrias e tormentos de quem possui uma biblioteca «monstruosa», com dezenas de milhares de livros. E não faltam histórias incríveis. Como a de Antoine-Marie-Henri Boulard (1754-1825), que encheu nove prédios, adquiridos expressamente para receberem os seus 600 mil livros – após a sua morte, ao venderem a colecção, os filhos inundaram o mercado, baixando durante muitos anos os preços nos alfarrabistas. Ou a de Charles-Valentin Alkan, pianista virtuoso que morreu esmagado por uma estante, em 1888, o que o habilita ao estatuto de «santo mártir» dos bibliófilos. Ou a daquele condenado à guilhotina que continuou a ler enquanto o conduziam ao cadafalso e, chegada a hora, marcou a página onde estava, antes de entregar o pescoço à lâmina.
Além de analisar as complexas questões logísticas e imobiliárias associadas às bibliotecas proliferantes, Bonnet dedica muito espaço ao bicudo problema da classificação e arrumação, multiplicando hipóteses, sistemas e estratégias. Eu, à minha reduzida escala, também conheço o dilema. Não sei, por exemplo, onde colocar, agora que acabei de o ler, este livrinho a abarrotar de livros (e de fantasmas) lá dentro.
[Texto publicado no n.º 82 da revista Ler]
Continuidade dos parques
São cinco da tarde e eu releio, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. É sobre dois mundos que de repente se tocam e quebram, não sabemos bem como, uma barreira. No início, o protagonista retoma a leitura de um romance que encetara uns dias antes. No regresso à sua quinta, de comboio, após resolver assuntos urgentes, começa a «interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho das personagens». Logo que pode, fecha-se no escritório. Não está para ninguém. Afundado na sua poltrona preferida, enquanto a mão esquerda acaricia «uma e outra vez o veludo verde» do cadeirão, mergulha nos últimos capítulos do livro. Mergulhar é o verbo certo para descrever o que se passa. Embora ainda esteja consciente da suavidade do veludo e dos cigarros ali por perto, ele experimenta um «prazer quase perverso»: o de sentir que a realidade à sua volta se afasta (ou dissolve) gradualmente. Linha a linha, palavra a palavra, ele está cada vez menos no escritório e cada vez mais dentro da história, «deixando-se ir de encontro às imagens que se concertavam e adquiriam cor e movimento». Dentro da história, há uma mulher e o seu amante, determinados a viverem até às últimas consequências uma paixão que as circunstâncias mantiveram em segredo. As circunstâncias resumem-se a um obstáculo: o marido dela. Escondidos numa cabana, os amantes discutem. A mulher tenta evitar o crime (há um punhal escondido que espera a sua hora), procura enredar o amante com os gestos do amor, mas essas carícias apenas desenham «abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir». O destino está traçado; tanto o deles como o da vítima. Ajustam-se os pormenores, planeia-se cada acto, previnem-se os acasos. À porta da cabana, despedem-se e separam-se. Ela segue por um caminho, ele pelo caminho oposto, correndo através dos bosques até distinguir, na bruma do crepúsculo, a alameda que leva à casa. Tudo acontece como previsto: os cães não ladram, o mordomo está ausente. Ele entra em casa e segue as instruções. Atravessa a sala azul, a galeria. Sobe uma escada. Lá em cima, no primeiro andar, uma porta aberta. Punhal na mão, ele apercebe-se da luz que entra pelas janelas, vê um cadeirão de veludo verde e sentado, de costas, infinitamente vulnerável, o homem que lê, absorto, um romance. O marido. O leitor. A dupla vítima.
São cinco e picos da tarde. Acabei de reler, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. Estou sentado numa cadeira de plástico cor-de-laranja, diante de uma mesa de plástico cor-de-laranja, num dos topos da Feira do Livro de Lisboa. Na mesa, duas pilhas de livros de capa preta. Tenho a esferográfica a postos, à espera dos meus leitores (essa vaga categoria). Será que aquela rapariga de óculos? Não. O rapaz com o suplemento cultural debaixo do braço? Não. Aquela senhora com cara de quem vai à Gulbenkian todas as semanas? Também não. As pessoas passam, espreitam, seguem. Os adolescentes, carregando grossos volumes de Stephenie Meyer que devem fazer mal à coluna (fora o resto), nem olham. A poucos metros, António Lobo Antunes e uma fila gigantesca dos seus fiéis leitores (uma categoria nada vaga). O céu ameaça chuva, mas não cumpre. De mesa para mesa, os autores que não se chamam Lobo Antunes trocam piadas. Sempre se passa o tempo. Nos seus campeonatos particulares de autógrafos, o resultado final é sempre 1-0, 1-1 ou 0-0. Antes do meu golo de honra, antes do meu prémio de consolação, penso no conto de Cortázar. A continuidade dos parques. A ficção que entra na realidade porque a realidade está já dentro da ficção. No Parque Eduardo VII, ponho-me a escrever mentalmente um texto: é sobre alguém que está numa sessão de autógrafos, sem dar uso à caneta, e esboça uma crónica em que um leitor, como o assassino de Cortázar, atravessa Lisboa e vai ter com ele, ao exacto local onde os Parques (o verdadeiro e o imaginado) se tocam. Contra todas as evidências, o leitor aparece mesmo. E o texto, a crónica real sobre a crónica inventada, também.
[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]
As invenções de Morell
Livros de fotografia há muitos. Fotografias de livros há ainda mais. Já livros com fotografias de livros (isto é, livros preenchidos exclusivamente por imagens de lombadas e texturas de papel coberto de signos negros, obsessões de fotógrafo bibliófilo) não serão tantos assim. Eu, pela minha parte, só conheço um: o magnífico A Book of Books, de Abelardo Morell (Bulfinch Press, 2006; versão reduzida do volume original, em grande formato, de 2002).

O volume é composto por 52 imagens a preto-e-branco, irrepreensivelmente enquadradas, que funcionam como uma declaração de amor aos livros e à sua natureza física, à sua robustez e à sua precariedade, ao seu poder e ao seu mistério, sublinhada a espaços por citações de escritores (Emily Dickinson, Nathaniel Hawthorne, Jane Austen, Jean Cocteau, Stéphane Mallarmé, entre outros) que glorificam o lugar do livro no mundo.
Curiosamente, a epígrafe de A Book of Books é uma frase célebre de Jorge Luis Borges («I have always imagined that Paradise will be a kind of library», em inglês), frase cuja tradução desastrada fez com que a Byblos ostentasse durante a sua curta vida, numa das paredes, a ideia de que o Paraíso, para Borges, seria semelhante a uma «livraria». Talvez estivesse desde logo neste lapsus linguae, nesta confusão entre venda de livros e partilha de livros (a biblioteca em que pensava o autor de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius), o prenúncio do desastre em que a Byblos, menos de um ano após abrir as portas, se tornou.

Book Damaged by Water, 2001
Se viesse a Lisboa hoje, Morell encontraria decerto, nos três mil metros quadrados daquela que chegou a ser a maior livraria portuguesa (neste momento a ganhar pó enquanto se aguarda o desfecho de um complexo processo de insolvência), o tipo de material que mais gosta de fotografar. Refiro-me aos livros que exibem, como cicatrizes ou tatuagens, as marcas da violência que os meios hostis lhes provocam. Volumes em que as manchas de humidade parecem veios no mármore, livros carcomidos, molhados ou sujos de lama, encadernações antigas transformadas em ruínas. Muitas vezes, a câmara de Morell parece um olho que deambula pelo que sobrou de um naufrágio. E o fim da Byblos foi isso mesmo: um naufrágio. Um naufrágio cujos restos podem ser entrevistos, nas Amoreiras, pelas janelas e montras da loja nunca desfeita.

1841 Book of Proverbs for the Blind, 1995

Book with Wavy Pages, 2001
Se quisermos resumir tudo numa palavra, é a materialidade dos livros que fascina Morell. Além da visão, estas imagens convocam essencialmente o sentido do tacto. Apetece tocar nas palavras em relevo de um livro de provérbios para cegos, editado em 1841 (antes da adopção oficial do Braille). Ou seguir com a ponta do dedo as circunvoluções de um livro com páginas tão onduladas que parecem um perfil estratigráfico. Noutros casos, a fisicalidade é mais subtil ou irónica: veja-se o abraço entre os livros de Charles Dickens e Ellen Ternan (amantes na vida real):

Two Open Books, 2000

Two Books of Astronomy, 1996
De uma forma ou de outra, há sempre um grau de encenação nestas imagens. Na fotografia intitulada Dois livros de astronomia, por exemplo, o telescópio da gravura de um deles observa a galáxia representada no outro. Junto a uns versos de Samuel Butler, que falam dos livros como «almas aprisionadas», à espera de que alguém as retire da prateleira e as liberte, vemos um retrato, feito por Raphael, de um homem que espreita por entre páginas ligeiramente entreabertas, como de uma cela. E de uma passagem qualquer de O Adeus às Armas, de Hemingway, o foco da máquina resgata apenas algumas palavras («inside», «felt», «my hand», «went», «my», «very», «afraid», «however»), lembrando a existência dessas palavras por si mesmas, independentemente da sua função utilitária no interior do texto.

Portrait of Inghirami by Raphael, 1993
Há também a solidão dos livros, evocada por Nicholson Baker no prefácio: «A maior parte das vezes, as páginas vivem as suas longas vidas na escuridão, mantendo escondidos os fardos de tinta que cada uma delas carrega, muito apertadas umas contra as outras, não comunicando seja o que for, até que de repente, como a lâmpada do frigorífico que parece estar sempre ligada mas quase nunca está, a uma delas é dada a oportunidade de falar. E ela fala.» É esse momento em que a página se acende que Morell capta, com a delicadeza própria dos amantes.
[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]
Um leitor de e-books, please
Para quem faz da leitura intensiva a sua actividade principal, há nos dias que correm uma tentação tecnológica quase óbvia: o leitor de e-books. Eu até nem sou muito de gadgets. Nunca me deslumbrei com os telemóveis topo de gama, tipo BlackBerry à la Barack Obama ou iPhone com trezentas aplicações diferentes (dos programas que permitem controlar o orçamento mensal, cheios de gráficos e dicas, ao miraculoso Brushes, que nos torna Picassos instantâneos e «deu» a Jorge Colombo a sua primeira capa da New Yorker). Nunca pedi ao Pai Natal o último portátil da Apple nem um GPS para me orientar nas ruas de Lisboa ou nas rotundas da província. Contento-me com o que é básico, com o que é elementar, com o que é mais simples. Tanto assim que comprei um smartphone há cerca de um mês – com ecrã táctil, mais as milhentas funções que os smartphones hoje nos oferecem (mesmo os baratuchos) – e ainda mal o utilizei. A verdade, confesso, é que não tive tempo de ler o manual de instruções. E porquê? Porque a minha profissão é ler intensivamente, sim, mas livros, não manuais de aparelhos electrónicos.
E isto leva-me de volta à questão dos e-books. Com a quantidade de livros que as editoras me fazem chegar todos os dias, a minha casa assemelha-se cada vez mais a um labirinto de papel. Estantes ajoujadas, pilhas periclitantes no corredor, caos bibliográfico. Por muito que goste de me sentir uma ilha rodeada de livros por todos os lados, há um limite físico para esta invasão imparável (sobretudo quando não posso dispor, como alguns felizardos, de um apartamento à parte para a biblioteca pessoal). Um dia, deixará de haver espaço. Mesmo. E antes que esse dia chegue, tenho que tomar medidas. Uma é ser mais selectivo quanto ao que entra. Outra é expulsar o que nem sequer devia ter entrado. E a terceira, a mais simples, é justamente comprar um leitor de e-books. Para fazer download das obras que me interessam mas não faço questão de ter nas prateleiras, claro. Mas sobretudo para evitar um crime ecológico: a impressão, em resmas de folhas A4, dos ficheiros pdf com que as editoras revelam aos críticos literários os romances que só vão para a gráfica umas semanas depois.
Mais do que uma tentação, o leitor de e-books transformou-se para mim numa necessidade. Espero aliás levar um, carregadinho, já nas próximas férias (com a vantagem adicional de diminuir substancialmente o peso das bagagens).
[Texto publicado na secção "A minha tentação" do Semanário Económico]
O que ela andou a ler

«Este livro é uma grande ideia – e uma das coisas mais interessantes e frustrantes que alguma vez fiz», explica Ali Smith, logo no início da introdução a The Book Lover (Anchor Books, 467 páginas, 2006). Para sermos mais precisos, a «grande ideia» partiu de uma amiga, Becky Hardie, editora experiente com quem Smith trabalhou numa colecção de ficção breve da Granta Books. «E se agarrássemos nas leituras preferidas de alguns escritores, não só as leituras actuais mas de toda uma vida, e fizéssemos uma antologia com isso?»
Ali Smith ofereceu-se logo como cobaia. A princípio com o entusiasmo infantil de quem abre a porta do sótão, há muito fechado à chave. Depois com o pânico da escolha e da necessidade de preterir textos, autores, épocas inteiras. Porquê este e não aquele? O clássico dilema do antologiador. «Veja-se o caso de [Virgínia] Woolf, por exemplo, e todos os seus livros ali na estante, à minha frente. Como poderia eu escolher entre a sua ficção e os seus textos críticos, entre os seus diários e as suas cartas?» Mesmo imaginando que optava pela ficção, a dúvida permaneceria: qual dos romances? Ou qual dos contos? «Nunca deixaria de ser um compromisso.»
Para dificultar ainda mais as coisas, Smith decidiu seleccionar, com uma ou duas excepções, apenas textos editados pela primeira vez no século XX, o que levantou o sempre delicado problema dos direitos autorais. A negociação com os detentores destes direitos equivale muitas vezes a um labirinto burocrático, demorado e dispendioso, razão pela qual não encontramos nesta antologia uma só palavra de James Joyce, Raymond Carver, Alice Munro, Susan Sontag ou Flannery O’Connor. «Este livro acaba por ser uma liturgia de ausências», assume a autora de Hotel Mundo, mas isso deve servir apenas como um desafio para o leitor «pôr mãos à obra e reler os escritores que não estão aqui».
Dito isto, os autores presentes chegam e sobram para as encomendas. Durante dois dias, Smith fechou-se em casa e espalhou livros no chão da sala da frente, recriando o puzzle dos momentos essenciais da sua vida de leitora, um percurso que começou precocemente (aos três anos) e conheceu vários momentos de autêntico frenesi bibliófilo. Depois, encaixou os 89 textos seleccionados em seis categorias: “Raparigas” (de Jane Austen a Virginia Woolf, passando por Angela Carter, Marina Tsvetayeva, Marilynne Robinson e Margaret Atwood), “Diálogos” (que inclui poemas de John Keats, Czeslaw Milosz, Margaret Tait, W. G. Sebald), “Viagens” (secção tão heterogénea que junta John Donne, Katherine Mansfield, Joseph Roth, Kate Atkinson, W. B. Yeats e Louise Brooks; sim, a actriz), “O Mundo” (Wallace Stevens, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Philip Larkin, Gertrude Stein, Jeanette Winterson), “Histórias” (William Blake, Joyce Carol Oates, Anne Frank) e “Crenças” (Shakespeare, Simone de Beauvoir, e. e. cummings, Italo Calvino, Rainer Maria Rilke).
O principal mérito desta antologia é a sua imprevisibilidade. Ou seja, mesmo quando os escritores escolhidos são canónicos, os textos citados geralmente não o são. De Katherine Mansfield, por exemplo, podemos ler uma entrada do seu diário (15 de Dezembro de 1919), de Shakespeare uma passagem do quarto acto de Cymbeline e de Sebald uns versos sobre o rosto desconhecido do pintor Grünewald, que dialogam com um texto de John Berger sobre a Crucificação de Cristo, feita pelo artista germânico num retábulo em Colmar.

Como se vê pela amostra, a escocesa Ali Smith é capaz de misturar tudo e mais alguma coisa. Lado a lado, perfilam-se clássicos absolutos e compatriotas obscuros, um excerto biográfico da cantora Billie Holiday e uma crónica de Clarice Lispector (Estado de Graça), nomes quase esquecidos (J.M. Synge) e autores de outras latitudes (Dubravka Ugresic, Amos Tutuola). O resultado não podia ser mais idiossincrático. Se cada escritor é também o somatório das leituras que foi fazendo ao longo da vida, então este The Book Lover oferece-nos um mapa possível para aceder ao território literário de Smith. Um mapa estranho, cheio de curvas inesperadas e acidentes na paisagem, mas por isso mesmo desafiador e fascinante.
[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]
A banana de Scliar
No início do século XX, um rapazinho russo foge, com a família, da revolução bolchevique e chega a Porto Alegre (Rio Grande do Sul), no porão de um navio de carga. Durante a viagem de cinco semanas através do Atlântico, o futuro imigrante passou fome. Está muito frágil, esquelético, subnutrido. No cais, ao ver o seu estado, um gaúcho hospitaleiro oferece-lhe uma banana. O miúdo compreende que se trata de uma coisa de comer, embora não saiba como. Português não fala, por isso mexe no fruto esquisito, experimenta-o. «Até descobrir que a banana se descasca. Ele sabia que a laranja se descascava, porque na Rússia, nos dias de festa, costumava haver uma laranja para distribuir pela família inteira (um gomo para cada um). E ele sabia que a laranja tinha casca e caroços. Ao descascar a banana, apareceu uma coisa que ele julgou ser o caroço da banana. Deitou fora esse caroço e, para surpresa do gaúcho, comeu a casca de banana até ao fim.» Muitos anos mais tarde, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, seu filho, que é quem fala dentro destas aspas, haveria de pegar na história e contá-la «mais de mil vezes». A última foi no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, e o desenlace voltou a despertar gargalhadas e aplausos na plateia: «Meu pai morreu com mais de 80 anos e nunca deixou de me dizer: “sabe, filho, casca de banana não é tão ruim assim como a gente pensa.”»
É disto, sobretudo, que se fazem as Correntes. Das histórias contadas por autores sentados à mesa, diante de um auditório sempre cheio, mesmo nas sessões que começam às dez e meia da manhã. Ninguém sabe como explicar isto, mas a verdade é que o fenómeno se repete anualmente, sem atrasos nem sobressaltos, e todos os escritores se rendem à organização quase invisível, mas extraordinariamente eficaz, de Manuela Ribeiro e Francisco Guedes, os coordenadores que gerem com cordelinhos mágicos uma equipa e um encontro exemplares.
Este ano, na muito concorrida 10.ª edição, além da história do autor de Os leopardos de Kafka, houve outras que maravilharam os espectadores. Por exemplo, a de Joaquim Arena, um autor cabo-verdiano que cresceu numa casa onde havia apenas quatro livros: Lady L., de Romain Gary; O Barão Trepador, de Italo Calvino; um outro de que não se recorda e a Bíblia. Quando escrevia cartas aos familiares, a avó fechava-se com a biblioteca mínima numa sala e Arena sempre supôs que ela precisasse dos livros como caução literária. A verdade era mais prosaica: «Um dia descobri que a minha avó usava os livros, sim, mas para guardar selos: os para a Europa dentro do Barão Trepador, os para a América dentro de Lady L. e os para Cabo Verde dentro da Bíblia, claro.»
Se o espaço desta crónica fosse elástico, caberiam aqui ainda outras belas histórias (as de Juan José Millás, Héctor Abad Faciolince, Paulina Chiziane, Andrea Blanqué, António Orlando Rodriguez, Luandino Vieira, etc.). Como não é elástico, o «caroço» comestível tem que ser deitado fora. Fica uma ideia ténue do que por lá se passou. A casca. Talvez não tão ruim assim.
[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]
Grandes Ideias
Jeff VanderMeer é um talentoso e hiperactivo escritor norte-americano, com uma obra ficcional que pode ser arrumada – embora este tipo catalogação seja sempre redutora – no género Fantástico. Aos 40 anos, tem já uma razoável bibliografia (quatro romances, oito volumes de contos e a assinatura em várias antologias), além de colaborações regulares na imprensa e vários poisos na blogosfera. A Portugal chegou apenas, por enquanto, a novela com que ganhou um World Fantasy Award em 2000 (A Transformação de Martin Lake, Livros de Areia, 2006).
No ano passado, Jeff decidiu concentrar-se no seu último romance (Finch, com edição prevista para Outubro, na Underland Press) e durante seis meses desligou-se praticamente do mundo, reduzindo ao mínimo o tempo passado na Internet. Quando acabou esta maratona literária, para descomprimir, decidiu oferecer-se «um pequeno desafio». Ou seja, outra maratona literária. Num e-mail enviado a Colin Brush, da Penguin Books, propôs: «Se me enviar os 60 volumes da vossa série Great Ideas, escreverei as respectivas recensões em 60 dias.» Leram bem: 60 textos sobre 60 livros, em 60 dias. Dito de outro modo: em dois meses, o trabalho que um crítico literário costuma fazer em dois anos.
Os amigos de VanderMeer oscilaram entre considerá-lo «louco» e «parvo», mas Colin Brush gostou da ideia e enviou-lhe pelo correio as ditas seis dezenas de livrinhos com obras maiores de grandes autores que «mudaram o mundo» – Platão, Cícero, Maquiavel, Rousseau, Darwin, Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Voltaire, Marco Polo, Sun-Tzu, O Manifesto Comunista de Marx e Engels, etc. – «resumidas» a 128 páginas e sem extratextos. Desde 15 de Dezembro, Jeff ainda não fraquejou: todas as noites lê um livro, por vezes razoavelmente denso, sobre o qual escreve na manhã seguinte, com uma pontualidade exemplar e imune a circunstâncias que costumam distrair os outros humanos, como os feriados do Natal e Ano Novo.
A estrutura dos posts não varia. Começa com uma citação memorável; a seguir vem a sinopse; logo depois meia dúzia de parágrafos em que VanderMeer discute os principais argumentos do livro, muitas vezes partindo da experiência concreta da leitura ou de pequenas histórias pessoais; por fim a conclusão telegráfica e uma pergunta provocadora, geralmente capaz de gerar debates profícuos na caixa de comentários. Exemplo de uma sinopse (Confissões, de Santo Agostinho): «Uma viagem do pecado à epifania e à redenção, no contexto de uma fé palpável na fisicalidade de Deus, mas também no mundo enquanto realidade abstracta». Sobre Séneca, Jeff conclui que o filósofo romano, se vivesse hoje, «não desperdiçaria tempo a procurar referências ao seu nome no Google». Já quanto a Montaigne, uma certeza: «nunca seria companheiro de copos de Dylan Thomas».
Embora recorra muitas vezes ao humor, VanderMeer aborda esta «constelação de livros», como lhe chamaria Gabriel Zaid, da forma mais séria possível. O resultado, quase sempre brilhante, pode ser lido no seu blogue – Ecstatic Days – até 19 de Fevereiro.
PS – Devido a compromissos profissionais, VanderMeer ainda não acabou a sua odisseia livresca. Mas, como ele próprio explica aqui, o projecto não foi abandonado, apenas suspenso.
[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]
Pen Clube
A primeira vítima foi o Arnaldo, que na primavera de 1981 costumava aparecer na tasca do Cardoso com um sorriso de satisfação mal contida. Uma noite, encostámo-lo à parede e ele lá se descoseu. Andava a escrever um romance gigantesco, mais de 800 páginas, uma coisa nunca vista, «melhor do que o Mau Tempo no Canal e o Sinais de Fogo juntos». E acrescentava: «O que Nemésio fez pelo Faial e Sena pela Figueira da Foz, vou eu fazer pela Cova da Piedade.» Infelizmente, nunca chegámos a ler o tão promissor Margem Sul. No dia em que ele se deslocou a Lisboa para entregar o manuscrito, impecavelmente dactilografado, aconteceu aquilo. À entrada do cacilheiro, pousou as folhas para apertar os atacadores e uma súbita rajada de vento destruiu-lhe a vida literária. Ainda hoje os olhos de Arnaldo se embaciam, quando se lembra das páginas a esvoaçar sobre o Tejo, como gaivotas aturdidas.
A segunda vítima foi a Madalena, já no tempo das disquetes. Depois de um verão fechada em casa, conseguiu finalmente terminar o volumoso ensaio sobre Pessoa e a «pré-pós-modernidade», arrojadíssima teoria que nunca chegou a explicar muito bem, mas com a qual tencionava agitar os meios académicos e provocar taquicardias nos pessoanos mais ortodoxos. Quando um professor da Faculdade de Letras mostrou interesse na obra, ela não se deu ao trabalho de imprimir as 458 páginas. Apanhou o metro para a Cidade Universitária e só depois de entregar o pequeno objecto azul, em mão, é que descobriu o significado do verbo desmagnetizar.
A terceira vítima foi o Rafael. No seu portátil, tinha instalado um software especialmente concebido para a escrita de poemas visuais. Ele dizia que a sua linguagem estava a meio caminho entre Ana Hatherly e Ernesto Melo e Castro, mas não pudemos confirmar, porque a muito aguardada Lira Digital desapareceu para sempre na terra dos documentos informáticos irrecuperáveis, quando o disco rígido deu o berro.
De então para cá houve mais umas quinze vítimas. Eu fui das últimas e poupo-vos à descrição da minha miséria. Posso ser infoexcluído, mas tenho vergonha na cara. O que interessa é que decidimos formar – o Arnaldo, a Madalena, o Rafael e os outros – uma espécie de confraria para exorcizar e precaver tragédias pessoais deste jaez. Todas as quintas-feiras, marcamos mesa num restaurante da moda (o Arnaldo às vezes tem saudades da tasca do Cardoso, mas com o tempo, já se sabe, aburguesamo-nos). Então, no fim do jantar, erguemos as nossas Pen Drives de oito gigas como se fossem espadas de mosqueteiros. Um de nós pergunta: «E de que é que não nos podemos esquecer?» Resposta em coro: «Do backup, do backup, do backup».
Tendo sido eleito porta-voz do grupo, queria aproveitar esta crónica para fazer um convite público ao conhecido escritor de bestsellers a quem roubaram recentemente um computador com dois livros dentro. Nós já estivemos na sua posição, Miguel. Sabemos o que custa. Por isso, se aceitar ser nosso membro honorário, recebê-lo-emos de braços abertos. E teremos uma Pen para lhe oferecer, com o seu nome gravado e tudo.
[Texto publicado no número 75 da revista Ler]
O verbo é tuítar
«What are you doing?» A pergunta aparece assim, de chofre, brusca, impertinente. «O que estás a fazer?», questiona o Twitter mal acedemos à página. E temos 140 caracteres, o equivalente a uma SMS, para a resposta – sabendo que será lida por uma rede de pessoas que também se ligam para dizer, em duas ou três frases, ao que andam. Tal como nas outras ferramentas da Web 2.0, o essencial aqui não está no meio de comunicação – bastante simples e imediato – mas antes no que quisermos, ou soubermos, fazer com ele. O Twitter é uma espécie de cruzamento entre um microblogue e um chat, plataforma de uma flexibilidade espantosa, que tanto pode servir uma comunidade fechada (por exemplo, donas-de-casa que trocam entre si receitas e notícias sobre os filhos) como pôr em contacto pessoas com interesses semelhantes espalhadas pelo planeta.
Mais importante ainda, o Twitter é cada vez mais um poderoso instrumento de trabalho. Com meia dúzia de cliques no rato, podemos passar a «seguir» tudo o que escrevem ou sugerem, em tempo real, algumas figuras de referência da nossa área, receber notícias em primeira mão, reacções instantâneas ao que se passa no mundo, etc. Para um jornalista, é um maná. Para quem quiser informar os jornalistas, também. E já há quem tenha percebido isso no mercado editorial português. No momento em que escrevo, apenas uma editora (Porto Editora) e uma livraria (Pó dos Livros) se chegaram à frente, mas em breve ninguém vai querer ficar de fora, não só porque o número de utilizadores está a crescer exponencialmente mas porque o serviço é gratuito, o que em tempos de crise económica não é de desprezar.
Outra área em que o Twitter revela um enorme potencial é a da criação literária. Aquele rectângulo fininho reservado à escrita reduz ao mínimo a ideia de folha em branco. Em vez da janela, temos um postigo ou menos ainda: um intervalo entre as persianas. Lençóis de prosa não entram, mas os microcontos, os haikus, os aforismos, os epigramas são bem-vindos. No Brasil, já foi organizado um concurso literário para utilizadores do Twitter que teve mais de 1800 trabalhos inscritos (conferir aqui) e em Portugal, onde a micronarrativa se vem afirmando como género, creio que haverá bastante receptividade a uma iniciativa deste tipo.
Mais do que um mero veículo, o Twitter pode ser ainda um lugar de experimentação formal. O escritor brasileiro Paulinho Assunção, por exemplo, além de ter cunhado um verbo que aportuguesa a coisa (tuítar), inventou uma linguagem poética para descrever coisas minúsculas do seu quotidiano, como ver a Lua erguer-se no céu sobre Belo Horizonte. E se ainda agora dei pela falta destas vinhetas líricas (o Paulinho não escreve nada há vários dias) é porque tenho o Twitter aberto e vou vendo o que aparece. Daqui a dois minutos, deixarei esta mensagem: «Acabo de escrever uma crónica para a revista ‘Ler’ sobre o Twitter. Sai no próximo número, que vai para as bancas em inícios de Novembro.» Sobram três letras e eu uso-as deste lado, ao jeito do cinema antigo: «fim».
[Texto publicado no número 74 da revista Ler]
PS – As minhas actualizações no Twitter podem ser seguidas aqui.
PS2 – Entretanto, houve pelo menos mais uma editora portuguesa a aparecer no Twitter: a Presença.


Receba por e-mail





