As fronteiras do parágrafo
O livro intitula-se Passaporte (Cosac & Naify, São Paulo, 2001) e tem a forma de um verdadeiro passaporte. Capa dura, de um verde quase negro, cantos arredondados e uma lâmina de barbear no lugar do brasão de armas. Uma lâmina de barbear daquelas antigas, iguais às que os heróis românticos usavam para cortar os pulsos. Lá dentro estão 137 micronarrativas (duras, violentas, de uma nitidez que magoa), 137 «cartões-postais da desilusão», 137 relatos das viagens que Fernando Bonassi – escritor, «roteirista», dramaturgo e cineasta paulista – foi fazendo, durante a década de 90, pelo mundo. De Jiparaná a Cracóvia e à República Checa. De Londres ao México e a Berlim Oriental.
Passaporte não segue qualquer espécie de ordem, nem cronológica nem geográfica. Avançamos pelas situações adentro, numa progressão aleatória quer no tempo quer no espaço, para descobrir, ao fim de poucas páginas, que só podemos esperar bofetadas ou murros no estômago. Os textos de Bonassi constroem-se (ou desconstroem-se) nos antípodas do que nos habituámos a considerar literatura de viagens. Esqueçam a contemplação turística, as deambulações culturais, as aventuras cheias de adrenalina ou a procura do exotismo pelo exotismo. Não há nada disso aqui, felizmente.

As únicas fronteiras que o também cronista do jornal Folha de São Paulo parece respeitar são as do parágrafo. Tudo o que é preciso ser dito, é dito num único bloco: cerca de doze linhas de prosa concentrada, frases curtas, imagens fortíssimas e finais que mais parecem golpes de navalha, vindos de onde menos se espera. Um exemplo: «Jurgen enterrou a mãe e escapou de Varsóvia quando as crianças ainda conseguiam passar embaixo das cercas do gueto. Carregou irmão menor nas costas porque era a única coisa que tinha que o ligava ao passado da sua cabeça. Caiu muitos quilômetros depois e não sabe se dormiu mais que noite no lugar. Um casal de agricultores da Baviera, chamado pelo Reich pra cultivar o espaço vital, encontrou os dois. Deu água, pão e os ensinou a chamá-los de pais pelos dez anos seguintes. Nunca soube onde enfiar a raiva que seu pai polonês mandou ter da Alemanha e tornou-se actor.»
Jurgen é apenas uma das dezenas de figuras, reais ou imaginárias (nunca o saberemos), com que Bonassi se cruza. Há também homens à espera de mudar de sexo, famílias esmagadas pela História, cães suicidas, traficantes de droga com prisão de ventre (e «20 pequenas bolsas, dentro do estômago»), índios interesseiros, marginais, artistas, crimes, aberrações, cópulas em lugares públicos, casais problemáticos, imigrantes que não se adaptam, prostituição, «sacanagem», parábolas beckettianas, paisagens, fotografias, desespero e muitos exercícios de estilo (como a «autobiografia de pedro páramo» ou a «natureza-morta com são paulo»).
Para Fernando Bonassi, não há monumentos, nem aeroportos, nem hóteis. Só estações de metro sórdidas, ruas cheias de lixo, casas escavacadas. Ainda bem. Ele é a prova de que a literatura de viagens pode (e deve ser) sobretudo literatura.
[Texto publicado no número 73 da revista Ler]
Uma convergência de pássaros

A bibliofilia está longe de ser uma ciência exacta. Apesar dos muitos anos de deambulação por livrarias, continuo sem perceber os verdadeiros motivos que me levam a inclinar-me para um certo livro e não para outro. Por exemplo: este A Convergence of Birds – Original Fiction and Poetry inspired by the Work of Joseph Cornell (Penguin, 2001). Eu nunca ouvira sequer falar de Cornell, mas a capa do volume, que reproduz uma das obras do artista americano (caixa de madeira usada, com dezenas de gavetas a rodearem a silhueta de um papagaio colorido), obrigou-me a pegar na antologia, a folheá-la e a ler o prefácio na diagonal, numa avidez que ia impondo a compra como uma necessidade premente.
Mas não é da eficácia do design gráfico da capa que vos quero falar. É do livro propriamente dito. A Convergence of Birds nasceu do entusiasmo e persistência de Jonathan Safran Foer (n. 1977), um dos wonderboys da mais recente literatura made in USA. Acontece que Foer, em 2001, ainda era um ilustre desconhecido, um aspirante a escritor sem obra publicada. A explosão só se deu um ano mais tarde, quando a crítica recebeu com acessos de histeria hiperbólica o seu romance de estreia: Está Tudo Iluminado (edição portuguesa da Temas e Debates). Embora sem provocar tanto alarido, o segundo romance, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (Quetzal), uma abordagem experimentalista do 11 de Setembro, confirmou que o escritor nova-iorquino não é daqueles fenómenos que se esgotam na obra de estreia.

A Parrot for Juan Gris (1953-54)
Repito: em 2001 (ou melhor, em 1997, quando o projecto de A Convergence of Birds começou a ganhar forma), ainda ninguém sabia quem era Foer, então apenas um estudante universitário judeu com ambições literárias e um interesse obsessivo pelo trabalho de Joseph Cornell. [Vale a pena fazer um parêntesis para falar de Cornell. Nascido em 1903, saiu poucas vezes de Nova Iorque, onde vivia com a mãe e um irmão deficiente mental, em Utopia Parkway (Queens). Na cave, começou a construir caixas de madeira que funcionavam como pequenas instalações e, durante a década de 30, ganhou alguma reputação nas galerias de Manhattan, tendo conhecido pessoalmente artistas como Marcel Duchamp e Max Ernst. A sua série mais conhecida é a dos pássaros – periquitos, canários, corujas, papagaios – fechados dentro de caixas que tanto podem ser teatros em miniatura (ou hotéis), como gaiolas metafísicas de onde as aves por vezes se escapam, deixando visíveis as marcas da ausência. Cornell morreu em 1972, depois de uma exposição final dedicada às crianças, com as caixas colocadas à sua altura. Na vernissage não houve champanhe, mas bolo de chocolate e gasosas.]

Habitat Group for a Shooting Gallery (1943)
Saído de parte nenhuma, Foer convenceu alguns dos principais nomes da literatura americana (Joyce Carol Oates, Rick Moody, Siri Hustvedt, Lydia Davis, entre outros) a escreverem poemas e contos sobre os pássaros de Cornell. Hoje seria fácil; na altura, foi um milagre de perseverança. O facto de existir um livro assim – tão estranho, belo e fascinante como as caixas que o inspiraram – é um tributo a esse milagre.
[Texto publicado no número 72 da revista Ler]
Como eu escrevo
Não é tanto o como, é mais o quando. Fetichismos da escrita e rituais maçónicos da inspiração, passo bem sem eles. Para escrever um texto literário, nunca precisei de fazer vénias à imagem de São Flaubert ou de me ajoelhar virado para Stratford-upon-Avon. Também dispenso a caneta Montblanc herdada do bisavô e a máquina de escrever dos anos 40 (uma Royal Quiet DeLuxe Portable igualzinha à do Hemingway, por exemplo). Nada disso me interessa, porque escrever é tão somente alinhar ideias no papel. Ou no ecrã luminoso do computador. Importantes mesmo são as palavras. Para registá-las, o Microsoft Office Word 2003, instalado no meu portátil de gama baixa (Acer Aspire 5050), chega e sobra.
Mais complexa é a questão do tempo. O tempo para escrever ficção ou poesia. Com filhos pequenos (ela, três anos e meio; ele, quase dois) não é fácil. As janelas de oportunidade encolhem de um momento para o outro. Ser jornalista freelancer (isto é, trabalhar sem horários) também não ajuda. Há sempre assuntos urgentes a intrometerem-se. Por isso, a minha utopia é conseguir duas ou três horas de escrita diária para projectos literários. Como todas as utopias, ignoro quando é que esse estado de felicidade chegará, mas gostava que não fosse daqui a muitas décadas (ou nunca).
[Texto publicado na edição de hoje da revista Time Out Lisboa]
A biblioteca adolescente
Michele Gorman é o entusiasmo em pessoa. Enquanto aponta para as fotografias do seu Powerpoint com um laser vermelho, dá pulinhos, faz círculos no ar com os braços e pergunta muitas vezes “Isn’t that amazing?”. Michele Gorman tem a escola toda dos oradores norte-americanos: diz uma piada aqui, dá um exemplo concreto ali e de cinco em cinco minutos resume o essencial da sua experiência em tópicos muito bem arrumadinhos, coroados por uma frase-chave. Descrita assim, Michele Gorman até pode parecer uma qualquer vendedora de banha-da-cobra bem falante. Nada disso. Ela é apenas a responsável pelo ImaginOn, um projecto pioneiro nascido na Biblioteca Pública de Charlotte e Mecklenburg County (Carolina do Norte). O que se pretendeu fazer, naquela pequena cidade periférica, foi inventar um novo tipo de biblioteca para “uma nova geração de utilizadores”: os adolescentes, talvez a faixa etária mais problemática (em todos os sentidos) e aquela em que muitas vezes se perdem, de vez, os hábitos de leitura impostos pela escola.
O Powerpoint de Gorman, exibido em finais de Maio no encontro Oeiras a Ler, diante de uma plateia de bibliotecários portugueses, testemunha um improvável triunfo. Nele se constata a forma como os jovens se apropriaram de um espaço a que tradicionalmente votavam um temor reverencial. Ao ImaginOn, espécie de loft da referida biblioteca pública, só pode aceder quem tenha entre 12 e 18 anos. Ali, não há cartazes a exigir silêncio nem funcionárias míopes a requerer o preenchimento de não sei quantos impressos. Cada um pode fazer o que bem quiser, desde que “respeite o espaço”. Há quem leia debaixo das mesas, deitado no chão, pilhas e pilhas de BD japonesa (sim, a manga não é um género proibido). Há quem participe em sessões de Guitar Hero (sim, o jogo para a PlayStation em que se pode imitar o Eric Clapton). E há quem faça piqueniques com os amigos (sim, pode levar-se comida e bebidas lá para dentro, ó heresia das heresias).
A estratégia para cativar os adolescentes não se fica por aqui. Além de promover actividades paralelas todos os dias, o ImaginOn ainda disponibiliza um estúdio de som e outro de vídeo, workshops de fotografia digital e apoio à criação de páginas nas redes sociais da Internet, como o MySpace ou o Facebook. A biblioteca está ainda representada, com uma agenda própria que inclui encontros com escritores, no universo Second Life.
Tudo isto impressiona, tal como o brilho no olhar de Michele, quando mostra as imagens do seu espaço cool, onde os putos se sentem em casa (ou melhor do que em casa). Convém, no entanto, refrear tanto optimismo. Que os jovens vejam na biblioteca uma alternativa ao centro comercial, ou à alienação da TV, parece-me excelente. Mas já duvido um pouco que esta “geração de utilizadores”, com tanta oferta multimédia ao seu alcance, procure na biblioteca aquilo que ela deve, ainda, preservar e promover acima de tudo. Ou seja, essas coisas antigas, desligadas da corrente e sem versão 2.0 que são os livros feitos de papel e tinta impressa.
[Texto publicado no número 71 da revista Ler]
Rayuela, modo de usar
Logo no início do romance Rayuela, finalmente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro (com um atraso de quase meio século), Julio Cortázar oferece ao leitor uma “Tábua de orientação” onde explica que o seu livro “é muitos livros”. Os 155 capítulos desta narrativa não-linear podem ser percorridos como se queira: tudo de seguida, aos saltos, do fim para o princípio, aleatoriamente ou até deixando de lado uma parte inteira (há 99 capítulos considerados “prescindíveis” pelo autor). Não apenas por isto, mas também por isto, Rayuela – que se converteu em O Jogo do Mundo na excelente tradução de Alberto Simões – abre a porta a uma experiência literária singular e talvez única, porque a ordem da leitura que escolhermos (uma entre milhares de possibilidades) pode não ter sido escolhida por mais ninguém.
Para evitar que os leitores se assustem com o livre arbítrio, habituados que estão desde sempre a seguir um fluxo narrativo pré-determinado, Cortázar sugere desde logo duas opções: ou a leitura no modo tradicional até ao capítulo 56 (esquecendo os exercícios meta-literários da terceira parte) ou seguindo uma cábula que fixa uma espécie de ziguezague (começa-se no capítulo 73, depois vem o 1, o 2, o 116, o 3, o 84, o 4, o 71, etc.). Ao optar por este último, quis testar o caminho sugerido pelo autor mas o sistema trocou-me as voltas. No fim de cada capítulo, aparece entre parêntesis o número do capítulo para o qual se deve saltar. Por exemplo, ao acabar o 152, Cortázar envia-nos para o 143; mas eu, nem sei bem como, fui parar ao 144 e quando dei pelo lapso, mais à frente, a minha leitura já tinha divergido consideravelmente da pista oficial.
Histórias destas são comuns entre os leitores de Rayuela, essa imensa confraria de cúmplices que alguns fazem questão de transformar, abusivamente, em sociedade secreta – com rituais de iniciação e um culto quase religioso ao grande Cronópio Cortázar. Entre os exercícios a que os fãs se entregam, destaca-se a escolha do capítulo preferido. Há os que preferem a prosa poética do 7 (“Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão”), outros inclinam-se para o 68 (cena de sexo narrada em glíglico, um dialecto de palavras inventadas) ou para o terrível 28 (em que morre um bebé e os amigos adiam a revelação da notícia à mãe, mergulhando em discussões filosóficas durante 25 páginas). Por mim, escolho o 23. Não porque seja o capítulo em que Horacio Oliveira, o protagonista, primeiro depara com Morelli (escritor-guru e teórico da literatura, porta-voz das ideias de Cortázar), quando este ainda não passa de um velhote desconhecido, atropelado por um autocarro, nem porque nele se faz a mais deliciosa paródia à música contemporânea (através da figura de Berthe Trépat, pianista e compositora), mas antes porque abre com a meticulosa descrição do que Oliveira observa enquanto está “parado numa esquina” de Paris: pedreiros ao balcão do café, uma mulher à janela, um clochard, uma vendedora de lotaria no seu cubículo.
Lembrei-me imediatamente da Tentative d’épuisement d’un lieu parisien, texto em que Georges Perec enumera, como um entomólogo, tudo o que aconteceu na Place Saint-Sulpice, entre 18 e 20 de Outubro de 1974. E também me lembrei (lembrar é talvez o mais perequiano dos verbos) do monumental A Vida Modo de Usar. Publicado em 1978, quinze anos depois de Rayuela, eis um monumento com 99 capítulos (nenhum deles prescindível), que também se pode ler de várias maneiras e não é apenas um romance, mas sim muitos “romances”, como de resto Perec o subtitulou. Se Rayuela é um livro-mandala, que faz de Paris e Buenos Aires duas faces da mesma moeda, A Vida Modo de Usar é um prodigioso mosaico que cruza dezenas de histórias e personagens num prédio da imaginária rue Simon-Crubellier. Na estrutura de Rayuela paira a imagem do jogo da macaca (desenhado a giz no chão, entre a Terra e o Céu); no livro de Perec a do puzzle a que falta sempre uma peça. Ambas são ficções devoradoras da realidade inteira do mundo: ultra-romances, hiper-romances, supra-romances.
Sim, lembrei-me de Perec ao ler Cortázar. E perguntei-me se os dois alguma vez se terão encontrado por mero acaso, no Pont des Arts. Provavelmente não. Mas tenho a certeza que Horacio e a Maga, que nunca combinavam os seus encontros, foram várias vezes tocar às campainhas do n.º 11 da rue Simon-Crubellier, acompanhados das restantes personagens do argentino (o Clube da Serpente em peso). E alguém lhes abria a porta, sempre.
[Versão longa da crónica publicada no n.º 70 da revista Ler]
A melhor profissão do mundo
Sei que vou parecer exagerado. Ou ingénuo. Não importa. A verdade é esta: num mundo em que 99,99% das pessoas se queixam do emprego que lhes coube, eu posso gabar-me de ter a melhor profissão do mundo. Não estou na lista da Forbes, não tenho a vida de lorde do Cristiano Ronaldo em Manchester, não sou estrela pop, não pertenço a elites, não gozo as supostas vantagens da fama (nem sofro, já agora, com as respectivas desvantagens). Mas tenho a melhor profissão do mundo. Leio, leio, leio e depois escrevo, escrevo, escrevo. Leio para escrever. Escrevo sobre o que leio. Vivo rodeado de livros. E pagam-me, ainda por cima. Só o suficiente, mas pagam.
Para um bibliófilo compulsivo e sem grandes ambições materialistas, isto é o mais próximo da ideia de Paraíso a que se pode chegar. Um Paraíso borgesiano, claro: forradinho de estantes do Ikea, abauladas com o peso dos volumes em cujas páginas de rosto aparece, como um ferrete, o carimbo a dizer “oferta do editor”. Um Paraíso que se transforma em Inferno quando as novidades do mês, lá no topo dos vários estratos geológicos de papel que se debruçam das estantes, nos atiram à cara o facto de ainda não lhes termos dado a atenção de que se julgam merecedoras.
É um trabalho ao mesmo tempo sublime e ingrato. Ingrato porque ninguém, nem mesmo o mais voraz dos leitores, consegue acompanhar tudo o que de interessante se publica (magro consolo: saber que certos romancistas passam às vezes dois anos a escrever um livro que devoramos em dois dias). Sublime porque permite – aliás, exige – a entrega à leitura compulsiva, sem complexos de culpa nem distracções. Lembram-se daquele poema de Pessoa intitulado Liberdade? Pois é exactamente ao contrário: “Ai que prazer cumprir um dever. Ter um livro para ler e fazê-lo.”
Entretanto eles vão chegando, todos os dias ou quase, de mansinho. Formam pilhas cada vez mais altas, cada vez mais instáveis. Durante muitos anos, essa periclitante cordilheira dos Himalaias ocupou a minha mesa no jornal, para espanto e inveja dos camaradas de outras secções. Agora que trabalho por conta própria, as montanhas transferiram-se para o escritório lá de casa, para a sala de estar, para os corredores, para o quarto – lugares onde os livros vão disputando o meu interesse, numa comovente e darwiniana struggle for life. Refastelado no sofá, eu selecciono, elimino, premeio os mais aptos, sabendo que com o tempo acabarei por receber, em envelopes de papel pardo, uma biblioteca inteira a conta-gotas, enviada por uma espécie de Amazon ainda mais virtual que a Amazon virtual, uma Amazon que me impinge muito lixo (é verdade) mas nunca me pede o número do cartão de crédito.
O carteiro toca. Pelo intercomunicador diz “mais uma encomenda para si” e depois leva muito tempo a subir as escadas, como quem estica a corda da expectativa até ao limite. Encontra-me à porta de casa, sorridente e ansioso. Antes de o entregar, avalia o peso do pacote. Nunca precisei de lhe explicar o porquê do meu sorriso e da minha ansiedade.
[Crónica publicada no n.º 69 da revista Ler]


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