Balanço final do Booker 2008

Na noite de terça-feira (14 de Outubro), quando a gala de entrega do Man Booker Prize chegou ao fim, o escritor indiano Aravind Adiga não cabia em si de contente. Aos 33 anos, o seu romance de estreia, The White Tiger (Atlantic Books), acabara de receber o mais prestigiado dos prémios literários de língua inglesa, a que podem concorrer obras publicadas no Reino Unido e na Commonwealth. Além do cheque de 50 mil libras (cerca de 64 mil euros) e da consagração precoce, a vitória no Booker garante-lhe um efeito multiplicador nas vendas capaz de transformar em poucos dias o seu livro, que até ao momento vendera apenas cinco mil exemplares, num bestseller.
Adiga é o segundo mais jovem vencedor de sempre – atrás de Ben Okri, que conseguiu o feito aos 32 anos, em 1991 – e apenas o quarto romancista a ganhar o Booker com uma primeira obra, depois de Keri Hulme (1985), Arundhati Roy (1997) e DBC Pierre (2003). Curiosamente, até chegar ao palco do Guildhall, em Londres, onde levantou o troféu, foi deixando sucessivamente para trás dois pesos-pesados da literatura indiana: primeiro Salman Rushdie, que não passou da longlist de 13 títulos, com A Feiticeira de Florença (já nas livrarias portuguesas, editado pela Dom Quixote); depois Amitav Ghosh, um dos seis finalistas, mas que viu o seu Sea of Poppies (Mar de Papoilas) ser devorado pelo tigre branco.
Ao contrário do que aconteceu noutros anos, esta não foi uma vitória por unanimidade. «Houve luta renhida até ao fim», admitiu Michael Portillo, presidente do júri – de que também fizeram parte Alex Clark, crítica literária e editora da revista Granta; a romancista Louise Doughty; James Heneage, fundador da rede de livrarias Ottakar; e o radialista Hardeep Singh Kohli. A última reunião do júri terá sido marcada por um «debate apaixonado» e «emocionalmente esgotante». Ombro a ombro com The White Tiger esteve «um outro romance», cujo título não foi divulgado, provavelmente A Fraction of the Whole, do australiano Steve Toltz, outro estreante, que para mim era o melhor dos seis romances a concurso. Mais consensual e acessível ao grande público, o livro de Adiga é, ainda assim, uma escolha que se compreende e aplaude.

A estrutura narrativa de The White Tiger não podia ser mais simples: um “empresário” espertalhão e sem escrúpulos, chamado Balram Halwai, escreve sete longas cartas ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, a poucos dias da sua visita oficial à Índia. Convicto de que os «amarelos» e os «castanhos» vão dominar em breve o mundo, pelo menos no plano económico, ele quer explicar a Jiabao as razões do sucesso dos «empreendedores» indianos, partindo da sua exemplar história de self made man. Exemplar é como quem diz. Halwai sobe a pulso na escala social, de motorista a dono de uma empresa de transportes (ao serviço dos grandes call centers de Bangalore), mas essa ascensão é feita à custa de todo o tipo de atropelos éticos, crimes e gestos amorais.
Nascido no coração da Índia, junto às margens negras do Ganges (negras por causa das cinzas que sobram das piras funerárias), Halwai cumpre o sonho que é negado a milhões de outros miseráveis como ele: sair da Escuridão («Darkness») – onde os búfalos trabalham nos campos, as pessoas morrem de tuberculose em hospitais sem médicos e os caciques fazem o que querem – a caminho da Luz representada pelas cidades modernas, a abarrotar de centros comerciais e empresas informáticas de ponta, cujas acções são negociadas na Bolsa de Nova Iorque.
São estas duas Índias, com os seus contrastes chocantes e os seus pontos de contacto (a corrupção, por exemplo, que surge em todos os níveis da sociedade), são estas imagens extremas de um país contraditório que Adiga explora com uma inteligência e uma subtileza raras, fazendo do seu livro uma parábola, ao mesmo tempo divertida e violenta, sobre o lado mais sombrio do milagre económico indiano.
Foi de resto esta capacidade de fugir à visão de uma Índia tradicionalista e exótica, trocando-a pelo choque frontal com a realidade dos nossos dias, que seduziu o júri do Booker. «Este é um livro que vai até ao limite, mostrando uma face da Índia que muitos leitores ocidentais talvez não conheçam», disse Portillo, destacando ainda o modo como Adiga aborda «temas sociais muito importantes», como o abismo entre ricos e pobres ou a questão das castas (que Halwai, o protagonista, simplifica ao dizer que só existem duas: a dos «homens com barriga grande» e a dos «homens com barriga pequena»).
Arvind Adiga nasceu em 1974, em Madras, viveu na Austrália e frequentou universidades norte-americanas (Columbia; Oxford). Como jornalista especializado em temas económicos, foi correspondente da revista Time e colaborador do jornal Financial Times. Numa entrevista dada ao site BookBrowse, Adiga explicou que a sua experiência profissional lhe permitiu perceber a infinita distância que separa o discurso economês hiper-optimista do quotidiano concreto dos indianos comuns. Ao viajar pelo país, passou horas e horas a ouvir o que as pessoas diziam nas estações de comboio e nas paragens de autocarro: «Quis fixar esse murmúrio contínuo que ninguém se dá ao trabalho de registar. A minha personagem, Balram Halwai, é uma mistura de vários homens que fui encontrando nessas viagens.»
Criado há 40 anos para ocupar no mundo anglófono um estatuto semelhante ao do prémio Goncourt, o Booker Prize é hoje muito mais importante, tanto em termos mediáticos como comerciais, do que o seu «rival» francês, ficando apenas aquém do Prémio Nobel. Esta influência, que reflecte o predomínio cada vez maior da língua inglesa num mundo globalizado, foi notório em 2007, quando metade da shortlist do Booker (Ian McEwan, Lloyd Jones e Mohsin Hamid) já estava editada em Portugal aquando do anúncio do prémio. Este ano, pelo contrário, nenhum dos seis finalistas teve essa sorte, embora se saiba que o livro de Linda Grant será publicado na Primavera (pela Civilização). Quanto aos direitos do romance de Adiga, alguém já os deve estar a negociar neste momento. E ainda bem.

Os finalistas derrotados:


A Fraction of the Whole, de Steve Toltz

O Man Booker Prize deste ano valeu sobretudo pelos dois estreantes. Além de Aravind Adiga, o vencedor, houve Steve Toltz, um genial australiano que resolveu fazer do seu primeiro romance um deslumbrante tour de force: caótico, filosófico, labiríntico, divertidíssimo e sem o mínimo sentido das proporções. Ao longo das suas 710 páginas, acompanhamos a complexa relação de Jasper Dean com o seu pai, Martin, e deste com o seu irmão, Terry (um criminoso que se torna o homem mais idolatrado da Austrália quando começa a assassinar, com requintes de malvadez, desportistas que se deixam corromper). No caso desta obra, qualquer tentativa de sinopse é vã, tantas são as linhas narrativas e os «livros dentro do livro» com que Toltz vai criando um universo proliferante e agónico, em que as tragédias se sucedem e cada uma consegue ser pior do que a anterior. Ostensivamente talentoso, capaz de oscilar entre a melancolia e o sarcasmo num décimo de segundo, Toltz tem uma concepção épica da literatura, como se esta fosse um lugar onde tudo pode ainda acontecer. Se tivesse feito parte do júri, era em The Fraction of the Whole que eu votaria.


The Secret Scripture, de Sebastian Barry

Num hospital psiquiátrico prestes a ser demolido, perto de Sligo (costa oeste da Irlanda), uma mulher centenária começa a desenrolar o longo novelo das suas memórias, um lento exorcismo que a transporta até aos anos duríssimos da guerra civil irlandesa, na década de 20 do século passado, e à raiz do seu trauma psicológico (uma terrível história de exclusão familiar). Em simultâneo, o médico que a acompanha atravessa o deserto do luto, provocado pela morte da mulher, e debate-se com um vazio existencial contra o qual não consegue lutar. No romance de Barry, estas duas vozes desoladas chegam-nos através dos respectivos diários, num processo de aproximação entre dois seres humanos – dois náufragos – que chega a ser arrebatador e comovente, mas perde alguma força devido a um desenlace tão inesperado quanto inverosímil. A escrita deste autor, que já fora finalista do Man Booker Prize em 2005 (com A Long Long Way), faz lembrar, pela limpidez e lirismo, a do seu compatriota John Banville. Seria uma pena que este romance não fosse traduzido, em breve, no nosso país.


The Clothes on their Backs, de Linda Grant

Na Londres dos anos 70, Vivien, uma rapariga que sempre viveu demasiado protegida pelos pais (um casal de imigrantes húngaros, tímidos e paranóicos), começa a acordar para a vida, para o sexo e para a política, centrada por aqueles dias no combate contra a intolerância racista da extrema-direita. Quase por acaso, reencontra um tio proscrito, Sandór Kovacs, em tempos condenado por explorar inquilinos, um homem fascinante e com uma história ainda mais fascinante para contar. Ao entrevistá-lo, com vista a escrever um livro biográfico, é todo o passado escondido da sua família que vem à superfície. Grant assina um ameno e subtil exercício de nostalgia.


Sea of Poppies, de Amitav Ghosh

Tendo como pano de fundo as Guerras do Ópio, Ghosh construiu um romance histórico à moda antiga, com uma investigação cuidada e um enorme rigor nas descrições (seja de uma cidade, ou da vida a bordo de um navio negreiro, ou do calão colonial oitocentista). Só que, por muito exactos e fiéis à realidade que sejam os factos em que Ghosh se apoia para criar a sua ficção, não creio que haja grandes razões para nos congratularmos. Um romance deve ser um espaço de liberdade criativa, não um manual de História. E liberdade criativa é aquilo que mais falta neste livro. Há algumas passagens que nos empolgam? Sim, há. Mas são poucas. O sentimento predominante é o tédio.


The Northern Clemency, de Philip Hensher

A primeira metade desta saga familiar em grande escala (738 páginas) dá a entender que Hensher é um bom escritor, digno do Booker Prize. A segunda metade mostra que Hensher não ganhará o prémio enquanto não tiver um editor mais exigente (capaz de cortar os excessos e as redundâncias da sua prosa torrencial). Centrado em Sheffield, com ramificações em Londres e na Austrália, o livro acompanha pessoas comuns através das suas pequenas e grandes tragédias, das suas alegrias e equívocos, num arco temporal que vai de 1974 a 1994, com os anos Thatcher (e as greves dos mineiros) pelo meio. Podia ser um clássico. Infelizmente, é só um flop.

[Versão revista de textos publicados no suplemento Actual do Expresso de 18 de Outubro]

Diário do Booker (14)

E o grande vencedor do Prémio Man Booker deste ano é:

Aravind Adiga, pelo seu romance de estreia: The White Tiger. Embora não fosse o meu favorito (estava em 2.º; ver lista), acho que o prémio fica muito bem entregue, como já tinha escrito aqui.
Segundo a notícia do The Guardian, a escolha foi muito renhida:

«Michael Portillo, the chair of the judges, talked of a final panel meeting characterised by “passionate debate”. Adiga’s book won by a “sufficient”, but by no means unanimous, margin.
“It was pretty close,” said Portillo, and in the last stages it was down to a battle between The White Tiger and one other book.»

Gostava muito que esse «other book» tivesse sido A Fraction of the Whole, de Steve Toltz.

Diário do Booker (13)

Eu bem disse que esta era uma missão impossível. Apesar do sprint final, não consegui ler os livros todos até ao anúncio do prémio, que deve acontecer por volta das 22h30. Eu ainda me lancei ao sexto livro, Sea of Poppies, de Amitav Ghosh, mas fiquei-me pela página 180. Não deu para mais, sorry. Mesmo assim, foram para cima de 2500 páginas devoradas em menos de três semanas, com quatro outros livros a intrometerem-se pelo caminho (a vida não pára) e uma série de circunstâncias agravantes (assuntos inesperados para resolver, uma filha com febre, etc.). Para o ano, começarei mais cedo e espero que os finalistas sejam menos volumosos (assim tipo 2007), a ver se consigo colocar a bandeira no topo desta espécie de Everest.

Sobre Sea of Poppies, só posso falar com propriedade quando acabar de ler, mas já percebi que não é «my cup of tea». Tendo como cenário de fundo as Guerras do Ópio e centrado na vida a bordo de um navio (o Ibis) onde se reúne uma tripulação babélica, Sea of Poppies é um daqueles romances históricos muito bem documentados, muito fiéis à linguagem da época, muito descritivos e… muitos chatos. Admito, porém, que o meu limiar de tolerância às grandes sagas tenha progressivamente diminuido nos últimos dias, com o cansaço acumulado, e por isso reservo a minha opinião para o textinho crítico que escreverei um dia destes (mas não me peçam datas).

***

Se eu fizesse parte do júri e me pedissem para ordenar os seis finalistas, a minha escolha seria esta:

  • 1) A Fraction of the Whole, de Steve Toltz
  • 2) The White Tiger, de Aravind Adiga
  • 3) The Secret Scripture, de Sebastian Barry
  • 4) The Clothes on Their Backs, de Linda Grant
  • 5) Sea of Poppies, de Amitav Ghosh
  • 6) The Northern Clemency, de Philip Hensher

Diário do Booker (12)

Confirma-se: A Fraction of the Whole, de Steve Toltz, é um romance ambicioso, divertido, complexo, caótico, filosófico, inventivo, transgressor, labiríntico, aforístico, quilométrico, quase sempre exasperantemente bom, às vezes genial. Do que li até agora (falta-me Sea of Poppies) parece-me, de longe, o melhor dos livros a concurso.

Diário do Booker (11)

Se o resto do livro mantiver o nível estratosférico das primeiras 300 páginas, não hesitarei um segundo: dêem o Booker a Steve Toltz (A Fraction of the Whole) e dêem-no já.
Um excerto:

«(…) Australia is like a lonely old woman dead in her apartment; if every living soul in the land suddenly had a massive coronary at the exact same time and if the Simpson Desert died of thirst and the rainforests drowned and the barrier reef bled to death, days might pass and only the smell drifting across the ocean to our Pacific neighbours would compel someone to call the police. Otherwise we’d have to wait until the Northern Hemisphere commented on the uncollected mail.»

Diário do Booker (10)

«The world begins anew with every birth, my father used to say. He forgot to say, with every death it ends. Or did not think he needed to. Because for a goodly part of his life he worked in a graveyard.»

Eis o melhor parágrafo de abertura dos livros que li até agora. The Secret Scripture não é, como o título ameaça, um enésimo sucedâneo d’ O Código Da Vinci. Muito pelo contrário, é um livro denso e sombrio sobre os traumas históricos da Irlanda (as guerras civis, o ódio entre as religiões) e sobre a falibilidade extrema da memória. Num hospital psiquiátrico prestes a ser demolido, uma mulher centenária procura o fio da sua história, atravessada por tragédias e abusos. Há também um médico que a acompanha e que procura lidar com a morte da mulher. Os dois escrevem diários, à procura de um sentido qualquer – tanto para o passado (no caso de Roseanne, a velha senhora) como para o presente (no caso do angustiado Dr. Grene).
A escrita é segura, oscilando entre o negrume da História, o lirismo das paisagens de Sligo sob a chuva constante e uma melancolia que devora tudo à sua passagem. Pontos fortes: o estilo cuidado, algumas passagens magníficas (a descrição de um orfanato em chamas, com dezenas de raparigas a atirarem-se das janelas; a passagem de uma esquadrilha de bombardeiros alemães, prontos para bombardear Belfast; o parto sobrenatural de Roseanne, na praia, sob uma tempestade bíblica). Pontos fracos: algum excesso de pathos e um desenlace que tem tanto de surpreendente como de improvável.
Embora sem me encher as medidas, The Secret Scripture é um belo romance e talvez, dos que li até agora, o candidato mais forte à vitória, mano a mano com The White Tiger.

Diário do Booker (9)

Tal como eu temia, a leitura dos candidatos ao Booker foi interrompida dezenas de vezes por compromissos inadiáveis, sobretudo trabalho e vida familiar (eu já sabia, mas confirmei novamente que dois filhos na categoria sub-4 arruínam qualquer tipo de planeamento rigoroso das actividades domésticas). Resultado: para cumprir a minha meta, partindo do princípio de que ainda é possível cumpri-la, terei que ler quase non-stop até terça-feira. Acordar às cinco da manhã e seguir em frente, com pausas apenas para as necessidade básicas. Quer isto dizer que reduzirei ao mínimo as actualizações do blogue e as próprias entradas deste diário. Mais para o fim da semana, ou quando tiver tempo, escreverei recensões sobre cada um dos seis livros finalistas. Por agora, limitar-me-ei a apontamentos muito breves, quase telegráficos. E mesmo esses, não garanto.

***

The Clothes on Their Backs é um romance que aparenta uma superficialidade que a leitura, pouco a pouco, desmente. A estrutura narrativa está longe de ser original, a história tem algumas fragilidades e desequilíbrios, mas Linda Grant consegue desenhar com mão firme personagens memoráveis (sobretudo Sandór Kovacs, um homem fascinante, complexo e contraditório, que a sobrinha reencontra e entrevista no final da década de 70, recuperando dessa forma a memória perdida da juventude dos seus pais, judeus húngaros que se refugiaram em Londres ainda antes da II Guerra Mundial).
Eis um livro simpático, muito bem escrito, literariamente acima da média mas sem estofo para ganhar o Booker, na minha opinião. Nesta altura, é o único dos finalistas com os direitos vendidos para Portugal. Será publicado na Primavera de 2009, pela Civilização.

Diário do Booker (8)

Depois do sabor amargo que o desfecho de The Northern Clemency me deixou, eis um livro galvanizante, muito mais selvagem e à beira do abismo (mas, por estranho que possa parecer, também muito mais consistente) do que o épico falhado de Philip Hensher.
Não tenho agora tempo para analisar como deve ser este primeiro romance de Aravind Adiga (n. 1974), um livro tão divertido quanto cruel, simultaneamente irónico e brutal, uma prosa negra como as margens do Ganges ou os esgotos a céu aberto dos bairros de lata indianos. O que posso dizer, quando ainda tenho outros quatro finalistas pela frente, é que o Man Booker Prize não lhe assentaria nada mal.
Eis um excerto:

«Everyone knows there is a butcher’s quarter somewhere in Old Dehli, but not many have seen it. It is one of the wonders of the old city – a row of open sheds, and big buffaloes standing in each shed with their butts towards you, and their tails swatting flies away like windshield wipers, and their feet deep in immense pyramids of shit. I stood there, inhaling the smell of their bodies – it had been so long since I had smelled buffalo! The horrible city air was driven out of my lungs.
A rattling noise of wooden wheels. I saw a buffalo coming down the road, pulling a large cart behind it. There was no human sitting on this cart with a whip; the buffalo just knew on its own where to go. And it was coming down the road. I stood to the side, and as it passed me, I saw that this cart was full of the faces of dead buffaloes; faces, I say – but I should say skulls, stripped even of the skin, except for the little black bit of skin at the tip of the nose from which the nostril hairs still stuck out, like last defiant bits of the personality of the dead buffalo. The rest of the faces were gone. Even the eyes had been gouged out.
And the living buffalo walked on, without a master, drawing its load of death to the place where it knew it had to go.
I walked along with that poor animal for a while, staring at the dead, stripped faces of the buffaloes. And then the strangest thing happened, Your Excellency – I swear the buffalo that was pulling the cart turned its face to me, and said, in a voice not unlike my father’s:
‘Your brother Kishan was beaten to death. Happy?’
It was like experiencing a nightmare in the minutes before you wake up; you know it’s a dream, but you can’t wake up just yet.
‘Your aunt Luttu was raped and then beaten to death. Happy? Your grandmother Kusum was kicked to death. Happy?’
The buffalo glared at me.
‘Shame!’ it said, and then it took a big step forward and the cart passed by, full of dead skinned faces, which seemed to me at the moment the faces of my own family.»

Diário do Booker (7)

Ao fim de 194 páginas lidas num ápice, é forçoso dar razão a Andrew Holgate, do Sunday Times (citado num dos blurbs da contracapa):

«Unlike almost any other Indian novel you might have read in recent years, this page-turner offers a completely bald, angry, unadorned portrait of the country as seen from the bottom of the heap; there’s not a sniff of saffron or a swirl of sari anywhere… The Indian tourist board won’t be pleased, but you’ll read it in a trice and find yourself gripped.»

É verdade que o livro se lê num abrir e fechar de olhos, é verdade que este retrato da Índia abdica do exotismo (ao ponto de fazer daquele adjectivo, «unadorned», um understatement), é verdade que não há por aqui referências ao açafrão (embora o mesmo não se possa dizer do caril e dos saris, que aparecem pouco, mas aparecem). O importante, porém, está no início da primeira frase. Ao contrário do típico romance indiano candidato ao Booker, esta não é uma história séria sobre as idiossincrasias culturais do sub-continente, nem uma reflexão sobre os traumas pós-coloniais, nem sequer a tão batida história de amor com casamentos por conveniência e segredos passados de geração em geração. Muito pelo contrário. The White Tiger é uma espécie de parábola, divertida e violenta, sobre o lugar da Índia no mundo de hoje. Ou, se quiserem, um olhar sobre o lado podre do suposto milagre tecnológico indiano. Que o protagonista seja um «empreendedor» sem escrúpulos e assassino confesso, tresloucado ao ponto de contar a sua história tortuosa, como se fosse um exemplo a seguir, ao primeiro-ministro chinês (of all people), diz tudo sobre o carácter burlesco da narrativa e o seu tom ostensivamente irónico, desapiedado e sarcástico.
Podia resumir-vos aqui os principais traços da aventura de Balram Halwai, desde as ruas miseráveis e escuras de Laxmangarh até aos néons de Nova Dehli e Bangalore, mas prefiro guardar a sinopse para amanhã. Agora, se me permitem, vou acabar o livro, que está ali a chamar por mim como qualquer page-turner que se preze.

Diário do Booker (6)

Não há nada mais frustrante do que chegar ao fim de um romance com 738 páginas e perceber que se trata, afinal, de um enorme castelo de cartas prestes a ruir ao mínimo sopro. No Livro Quatro desta saga familiar passada em Sheffield, fecha-se o arco narrativo: depois da chegada dos Sellers, em 1974; da era Thatcher e da greve dos mineiros (1984); é o tempo dos telemóveis, dos centros comerciais, das desilusões definitivas (1994). Philip Hensher mantém a sua estratégia ficcional, que consiste em multiplicar personagens, cenários e picos dramáticos. Infelizmente, essa proliferação é caótica. Estamos sempre à espera que os muitos fios soltos se atem no fim, mas esperamos em vão, porque as últimas 100 páginas, em lugar de esclarecerem o que havia por esclarecer, baralham tudo de novo. Ou então fecham as várias linhas do enredo com soluções óbvias, banais, deitando a perder as muitas subtilezas com que até ali Hensher moldara a vida das suas criaturas. Em dado momento, uma dessas criaturas, Francis, está a fazer as malas para uma viagem a Roma (que não chegará a acontecer) e tira da estante «one, then a second fat Russian novel». A saber: O Idiota e Almas Mortas. Nada disto acontece por acaso. Numa das badanas, afirma-se que o livro foi inspirado «by the expansive scale and webs of relationships of the great nineteenth-century Russian novels». O problema é que Hensher, já se percebeu, está muito longe de ser um Dostoiévski ou um Gógol.
Quem tudo quer, tudo perde. E o que poderia ser um belíssimo romance de 300 páginas, feitos os devidos cortes por um bom editor, transforma-se num épico pesadão que nem sequer cumpre as suas promessas (a crise dos mineiros, um dos supostos temas centrais, dissolve-se rapidamente e o “retrato” dos anos Thatcher acaba por não passar de uma fotografia tipo passe, tremida e com pouco contraste). Há personagens que ficam penduradas – Nick e, até certo ponto, Katherine –; outras transformam-se em caricaturas (Tim); perdem espessura (Daniel); desaparecem de vista (Jane); ou exibem a sua incongruência (Sandra). Mesmo os momentos mais fortes, como a magnífica abertura do Livro Quatro (a paixão obsessiva, para não dizer nabokoviana, de Nick pela filha adolescente do seu patrão) ou a comoventíssima passagem em que marido e filho acompanham Alice durante o seu coma (provocado por uma hemorragia cerebral), mesmo esses momentos em que Hensher mostra aquilo de que é capaz acabam por perder fulgor, ofuscados pelo final patético que o escritor escolheu para o seu mosaico de histórias.
O desastre começa na morte de Tim, que viaja até Sydney para confrontar Sandra com a memória de uma iniciação erótica que o traumatizou: ele, aos dez anos, rosto enfiado entre os seios da então melhor amiga de David, o irmão mais velho. Sandra nem sequer se lembra da cena e desvaloriza a dor de Tim (mas, felizmente para ela, não a sua raiva), conseguindo por milagre evitar um ataque sexual que parecia iminente. Destroçado, Tim caminha até à praia, entra nas águas e avança morte adentro. Se isto já era suficientemente déjà vu, Hensher vai ainda mais longe nas duas últimas páginas, quando Daniel, ao comprar livros a metro para o seu restaurante, encontra um romance novo no meio dos usados. A mulher pergunta-lhe «What’s it about?» e ele responde: «It’s sort of about people like us, I think.» Estão a ver onde é que isto vai parar, não estão? As palavras iniciais desse livro coincidem com as palavras iniciais de The Northern Clemency, claro. E eis de repente o livro dentro do livro, a autoreferencialidade, o mais estafado dos efeitos metaliterários de mise en abîme. Embora desiludido por ver o castelo de cartas ruir desta forma inglória, eu até gostava de ser mais clemente (para evocar o críptico título do livro) mas assim não dá.

***

Depois da surpresa de ver Salman Rushdie fora dos seis finalistas, a casa de apostas Ladbrokes colocou The White Tiger, do estreante Aravind Adiga, no topo da lista de favoritos, com o romance de Linda Grant logo atrás. E são justamente esses dois livros que vou ler a seguir.

Diário do Booker (5)

É durante a leitura do Livro Três (páginas 353 a 551) que se confirma o que a primeira parte do livro já deixava supor: quando comparado com a restante produção romanesca contemporânea, The Northern Clemency está uns bons furos acima da média. Não é um romance perfeito, longe disso, Hensher por vezes exagera na quantidade de elementos (psicológicos, sociais ou meramente geográficos) que pretende abarcar com a sua prosa elegante e meticulosa, mas há um sopro elegíaco que atravessa o livro, que nos empurra e nos faz vacilar, uma espécie de energia própria, um campo magnético activo, um je ne sais quois difícil de pôr em palavras mas que os leitores experimentados sabem ser a marca dos livros que não se esquecem ao fim de um mês.
Nesta longa secção do romance acontecem muitas coisas, grandes mudanças e crises existenciais, mas nem tentarei sequer resumi-las porque qualquer esforço para domesticar a complexidade desta trama narrativa, enfaixando-a no espartilho algo ridículo da sinopse com meia dúzia de linhas, seria tão ingrato quanto inútil. Quando avançar para a recensão do livro, tentarei dizer do enredo o que precisa de ser dito, em traços gerais, para situar a história. Se quiserem pormenores (e se os há, em avalanche) leiam directamente na fonte. Ou esperem pela tradução.
Ainda assim, deixo aqui alguns dos elementos principais. O estoicismo de Katherine vai ser posto à prova quando Nick, o antigo patrão e amante de uma só tarde, é acusado de ter montado um esquema de lavagem de dinheiro na sua loja. Chamada a depor em tribunal, a desesperada dona de casa teme que o julgamento traga à luz não tanto as golpaças de Nick, parte ínfima de uma engrenagem criminosa maior, mas sim a sua própria culpa (e tem razões para pensar isso). Hensher descreve magistralmente a forma como esta crise abala o casamento de Katherine com Malcolm. Mas melhor ainda é o retrato muitíssimo nítido do que foi a crise dos mineiros durante o governo de Margaret Thatcher, no Verão e Outono de 1984, vivida nos vários lados da barricada. Sem grande surpresa, vemos Tim, o filho rebelde dos Glover, mergulhar no activismo político: manhãs inteiras a ler Marx na biblioteca pública, t-shirts de apoio à greve dos mineiros e participação activa nos confrontos com a polícia.
É justamente uma dessas explosões de violência, à porta de uma mina de onde as autoridades «fascistas», como lhes chama Tim, tentam resgatar os trabalhadores fura-greves, que se acompanha na seguinte passagem:

«And as if in confirmation, the police – it might have been at a signal – seemed to break off their edgily cosy exchanges with the miners and, with not so much as a polite nod of farewell, drained away in one blue movement towards the gates and their heavy-sided vans. It was like the draining of a mass of water, the retreat of a sea before a tidal wave, and the miners, as if in shock and offence at the social affront, began to stand. First the miners at the front, the ones the police had been talking to, and then the whole crowd stood, rippling up the hill towards the back in a single wavelike movement. (…)
The police stand there, facing them in silence, and the men roar, and go on roaring; their weapons, if they thought to acquire them, now in their hands: half-bricks, stones, bottles, even a park railing like a javelin. They brandish them openly, and the police raise their hard plastic shields, each with a slash of sun reflected on it like a blazon.
(…) The hurling of rocks and bricks starts immediately, and even from Tim’s position the yelling, the thudding of bricks against the coaches is deafening; inside it must be terrifying. He catches himself, thinks again, yells louder. ‘Scabs! Scabs! Scabs!’ The police are moving forward, in their regimented way, pushing back the miners who are rushing forward to the vans; but the pressure is too much, the police are beeing pushed back themselves into the path of the coaches, which slow. There is redoubling of rage, fallen rocks and bricks being picked up and hurled again, and now the miners are at the sides of the vans, and starting to push and rock. In the hail of stones and rocks, Tim is pushed and pushes, the stink of – incredibly – the mineral stink of deodorant from a miner’s armpit in his nose, and all the time yelling in his ear. He is a few inches taller than most, and there are only three or four miners between him and the van’s side. All at once he sees, through perhaps a scratched-away patch of paint, a face – no, really just an eye, and one with clear terror deep in it.»

***

Vantagem de acordar, ainda de madrugada, para ler de candeeiro aceso enquanto a casa dorme: às tantas, olhar pela janela e ver o céu vermelho sobre Lisboa.

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Diário do Booker (4)

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Já chegou a segunda remessa da Amazon. Agora só fica a faltar o Sea of Poppies, de Amitav Ghosh. O dono da mercearia do rés-do-chão, onde o carteiro costuma deixar as encomendas que não cabem na caixa do correio, olhou para mim ainda mais admirado do que é costume: “Ena, isso é que é peso. Qualquer dia têm que instalar um monta-cargas no prédio só para você” (frase dita com um ligeiro sotaque brasileiro, que o Sr. João viveu nos arredores do Rio mais de 30 anos).

***

Ontem a leitura não avançou muito, porque tive que dar prioridade ao último número da revista Relâmpago, sobre a qual vou escrever para o Expresso. Ainda assim, cheguei à página 450 e estou a meio de um dos clímaxes dramáticos do livro.

Diário do Booker (3)

No Livro Dois (pág. 163 à pág. 303) assistimos aos vários estilhaços da cena capital da primeira parte: aquela em que Katherine espezinhou a cobra do filho, libertando nesse acesso de raiva uma série de tensões acumuladas durante anos de uma felicidade familiar que não passava, como em tantos outros casos, de um simulacro.
Entre os Glover, o mais afectado foi, previsivelmente, o pequeno Tim. Na escola, torna-se agressivo, participa em estranhos jogos de violência entre rapazes (com qualquer coisa de bullying à mistura) e mantém uma relação obsessiva com um colega que parte uma perna num desses jogos, descobrindo-se no hospital que a fragilidade do osso é sinal de uma doença sem cura. Visitando-o todos os dias, Tim quer acompanhar, com um interesse mórbido, o trabalho da morte num corpo demasiado jovem.
Quanto a Katherine, acaba por concretizar o adultério que começou por a destruir quando era apenas uma ameaça, uma possibilidade. A quimera romântica desfaz-se no próprio instante em que deixa de ser uma quimera e isso levanta-lhe um peso de cima, permitindo a recuperação gradual do contacto com os outros, principalmente com Alice Seller, a nova vizinha que a apoiou no dia do descontrolo, que ouviu as suas confidências em estado bruto e que por isso mesmo (pela vergonha de se ter exposto daquela maneira) deixara de conseguir olhar de frente, olhos nos olhos.
Fora isso, assistimos à dificuldade de integração escolar dos vários miúdos e à amizade estranha (feita só de passeios juntos no regresso a casa) entre o rapaz mais velho dos Glover, Daniel, e a rapariga mais velha dos Seller, Sandra. Há também cenas que tornam mais definido o contorno de certas personagens, como Anthea Arbuthnot, a bisbilhoteira-mor da rua, fanática pela Família Real (ao ponto de ter ido a Londres assistir aos principais casamentos e funerais de Estado); Jane Glover, que decide tornar-se vegetariana militante, só para chatear; ou Malcolm Glover, o marido desconfiado que foi incapaz de desaparecer quando supôs que a mulher lhe era infiel. A qualidade da escrita mantém-se, mas Hensher não precisava de se dispersar tanto. Há cenas que se arrastam para lá do razoável e algumas das descrições, virtuosísticas mas narrativamente supérfluas (como o longo relato de uma das batalhas encenadas em que Malcolm participa), podiam ter sido eliminadas no trabalho de edição.
O Livro Dois-e-Meio funciona como um parêntesis e um salto no tempo. Agora estamos em 1983 e Jane, depois de se formar em Oxford, trabalha em Londres, onde partilha o apartamento com dois australianos. Um deles morre em circunstâncias terríveis (enforcado enquanto se masturbava com um cinto em volta do pescoço) e ela anda à procura de um novo inquilino para ajudar a pagar a renda, o que dá azo a algumas das páginas mais divertidas do livro. Entretanto, reencontra Francis Seller, o filho mais novo dos vizinhos da frente, num concerto em que se toca Bruckner. Os dois passeiam junto ao Tamisa, relembrando os anos de Sheffield e as frustrações de quem não faz aquilo que gostava de fazer. Por momentos, ergue-se a hipótese de uma relação mais próxima, Jane chega a ponderar convidá-lo para ocupar a vaga no seu apartamento, mas ao imaginar-se vinte anos mais tarde, com três filhos e as fanfarras de Bruckner a estremecerem as paredes, desiste da ideia.
Estou agora na página 353.

Diário do Booker (2)

O mais difícil, já se sabe, é o arranque. Assim que a leitura entra em velocidade de cruzeiro, a coisa flui. Mas ao princípio a máquina leva algum tempo a aquecer. Talvez por isso, a minha meta para o primeiro dia só foi atingida ao fim de dois: chegar ao fim da primeira parte (Book One, como lhe chama o autor, Philip Hensher) de The Northern Clemency.
A designação “Livro Um” não é gratuita porque estas primeiras 160 páginas funcionam como um todo. Se o romance fosse apenas isto, já faria sentido. E embora ignore o que o resto da obra me reserva, esta abertura não engana: Hensher é um escritor de primeira água, com um domínio total das técnicas narrativas clássicas. Nada de pós-modernismos, nem uma sombra de invenções formais para encher o olho. Esta é uma ficção “old school”: sóbria, eficaz, de uma elegância estilística imaculada.
The Northern Clemency começa com uma festa, numa noite de Agosto de 1974, contada nos seus mais ínfimos detalhes. Uma festa para a qual a família Glover convida os seus vizinhos, sem que se perceba bem porquê. A mãe, Katherine, parece esperar alguém que acaba por não vir e é para esse alguém, percebe-se, que ela quis organizar a coisa. Eles vivem nos arredores de Sheffield (Norte de Inglaterra), numa rua de casas parecidas mas ligeiramente diferentes umas das outas, mesmo na fronteira entre o tecido urbano e o campo, neste caso charnecas desoladas e pântanos expostos ao vento. O principal tema de conversa, durante a festa, é a chegada iminente, um ou dois dias depois, dos novos proprietários da casa que fica diante da dos Glovers. Essa família chama-se Sellers, vem de Londres e depressa compreendemos que é entre eles e os Glover que a narrativa se estrutura, alternando as respectivas linhas narrativas.
Nesta primeira parte, porém, o foco está quase em permanência sobre os Glover. Há Katherine, a mãe que volta a trabalhar depois de anos de dedicação aos filhos, centro gravítico de uma família presa por arames. há Malcolm, o pai rezingão e fechado no seu casulo, funcionário de uma empresa de construção civil que só se realiza em actividades esdrúxulas, como a reconstituição de antigas batalhas (a cuja Sociedade pertence), ou supostamente pacificadoras, como a jardinagem (embora no seu caso o cuidar das plantas seja uma fonte de frustração). E há os filhos: Tim (nove anos), fanático por cobras, sobre as quais sabe tudo o que os livros lhe podem ensinar; Jane (14 anos), uma miúda à volta com as transformações da puberdade e o desejo de se tornar escritora (anda a escrevinhar um romance passado no século XIX); e Daniel (16), um rapazote que só pensa em sexo e em miúdas.
Sobre os Sellers sabemos muito menos. Bernie, o pai, convenceu Alice, a mãe, a trocar Londres pelo Norte, tendo em vista um excelente lugar na companhia eléctrica. Com eles vão os filhos: Sandra (14 anos) e Francis (11). A descrição da viagem num Simca verde (atrás da carrinha das mudanças) e dos contratempos por que passam até verem a sua mobília espalhada na rua, à porta da nova casa, numa cidade conhecida pelas suas metalurgias e minas de carvão, ocupa dezenas de páginas e chega a ser brilhante.
É justamente na manhã em que os Sellers se instalam que acontece a cena crucial, habilmente preparada por uns quantos flashbacks que nos mostram, por exemplo, o processo de fascinação de Katherine pelo seu patrão, um florista chamado Nick (o tal convidado que nunca chega a aparecer na festa). Embora nada de menos lícito aconteça entre eles, Malcolm convence-se de que a mulher está a ter um caso e sai de casa, sem dizer para onde. Transtornada, Katherine entra em desespero. Ao descobrir que Tim guarda uma cobra verdadeira debaixo da cama (segredo que não contara a ninguém), leva o réptil para a rua e esmaga-lhe a cabeça com o salto do sapato, à frente de toda a gente, sem se comover com os gritos do filho. Um dia depois, Malcolm volta para casa e tudo regressa aparentemente à normalidade (se é que podemos chamar normalidade à vida de uma família em piloto automático), embora seja óbvio que nada voltará a ser como era.

***

Na papelaria do bairro, pouso o livro na bancada enquanto peço o jornal. Olhando de lado, o rapaz diz-me: «Shiiii! Que livro tão grosso. Se tivesse que ler isso, levava a vida toda.» Digo-lhe que só tenho dois ou três dias para chegar ao fim e ele olha-me perplexo, um olhar não sei se de pena, se de admiração: «Isso para mim seria uma tortura maior do que sei lá o quê, até porque, sabe, vou dizer-lhe uma coisa: eu nunca consegui ler um livro até à última página, um único que fosse.»

Diário do Booker (1)

Este é o relato de uma missão impossível.
Uns dias depois de ser conhecida a shortlist do Man Booker Prize 2008, encomendei pela Amazon os seis livros finalistas. Objectivo: ler tudo antes da decisão do júri, a 14 de Outubro. Devorar os seis romances de enfiada e ir dizendo o que penso de cada um deles. Os entusiasmos, as desilusões, os pontos fortes e fracos de cada livro, os avanços e recuos das tramas narrativas, alguns excertos e, no fim, seis críticas que justificarão o meu veredicto, a minha escolha – coincidente ou não (veremos) com a do júri presidido por Michael Portillo.
Enfim, a ideia é fazer uma espécie de diário de leitura. Este diário de leitura.
Para terem uma ideia do que me espera, eis uma apresentação sucinta dos romances finalistas:

The White Tiger, de Aravind Adiga (Atlantic) – 322 páginas

The Secret Scripture, de Sebastian Barry (Faber & Faber) – 300 páginas

Sea of Poppies, de Amitav Ghosh (John Murray) – 471 páginas

The Clothes on Their Backs, de Linda Grant (Virago) – 294 páginas

The Northern Clemency, de Philip Hensher (Fourth Estate) – 738 páginas

A Fraction of the Whole, de Steve Toltz (Hamish Hamilton) – 710 páginas

Percebem agora o fatalismo com que iniciei este post? Ler 2835 páginas em língua inglesa, num período inferior a três semanas, é quase impossível. Agora, fazê-lo com outras leituras pelo meio, além de uma série de trabalhos que não posso suspender (mais a vida familiar, etc.), obriga-me a retirar o advérbio da última frase. Ainda assim, vou em frente. O mais certo é não conseguir, mas pelo menos tento.

***

O primeiro livro chegou ontem e é, nem de propósito, o mais volumoso.

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Algumas breves impressões:

– Na capa do livro já está a referência que acelera as vendas: “Shortlisted for the 2008 Man Booker Prize”.

– Na ficha técnica encontrei o selo da FSC, uma organização internacional sem fins lucrativos que promove a gestão responsável dos recursos florestais. Ou seja, o calhamaço que tenho em mãos foi feito com papel proveniente de árvores “that are managed to meet the social, economic and ecological needs of present and future generations”.

– Eis dois dos blurbs da contracapa: «Hensher is an anatomist of familial tensions and marshals his large cast of characters deftly. An engaging and hugely impressive novel» (The Times); «Hensher is fascinatingly good on how social transformation manifests itself in the textures, colours and manners of a culture… Extremely funny, but also deeply humane» (Sunday Times).

– O livro é composto por quatro livros e meio. Entre o segundo e o terceiro livros, há um “Book Two-and-a-Half”.

– Logo na página 4 encontrei este diálogo, curioso se tivermos em conta que acontece não no presente, mas em 1974:

«”People are busy in August, these days,” Mrs Arbuthnot said. “They go away, don’t they?”
“We were thinking about the Algarve,” Mrs Warner said.
“Oh, the Algarve,’ Mrs Arbuthnot said, encouraging and patronizing as a magazine.»

E agora vamos ver como isto avança.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges