Diário do Booker 2009 (3)
Embora tenha acabado de ler ontem The Glass Room, de Simon Mawer (já na tradução portuguesa: A Sala de Vidro, a editar pela Civilização em Novembro), ainda não consegui sentar-me a escrever um texto com pés e cabeça sobre o que li. Talvez amanhã. Entretanto, posso dizer que o livro é bastante bom (certamente não tão extraordinário como sugerem algumas críticas publicadas no Reino Unido, mas ainda assim bastante bom). E porque o tempo aperta, já me lancei na leitura do vastíssimo Wolf Hall, de Hilary Mantel, apontado como o grande favorito à vitória. Durante o fim-de-semana prolongado, no intervalo das longas jornadas de leitura que ainda tenho pela frente, espero dedicar a este Diário o tempo e o espaço que merece e não tem tido.
Diário do Booker 2009 (2)
«Rainer von Abt no local de construção: é o final de um dia de Abril com uma chuva fina e irritante a cair. A lama é ainda a característica principal do lugar, lama a colar-se às pernas e a tentar arrastar as pessoas para o buraco. Von Abt, de sapatos de couro grosso enlameados, encontra-se sobre uma passagem de pranchas. Vestido como está, de fato cinzento-escuro, sobretudo preto e chapéu mole de feltro, seria facilmente confundido com o proprietário. A seu lado, de botas de borracha, está o capataz da obra, enlameado, desgrenhado e incomodado. De momento não existe forma concreta na construção para que estão a olhar. Não é mais do que um esboço de traços vigorosos, registado na mente de Von Abt, transferido para folhas de papel, depois revisto, reconsiderado, discutido ao mínimo detalhe, e agora prolongado nas horizontais e verticais vigorosas de aço avermelhado, um labirinto em três dimensões erguido no meio da atmosfera enevoada. No passado, as casas cresceram naturalmente, como plantas, do solo para cima. Mas esta casa é diferente: ela cresce da estrutura para fora, como uma ideia a transformar-se numa obra de arte a partir do âmago central de inspiração para o facto material da realização. As betoneiras agitam-se e vomitam. Os homens andam para a frente e para trás com cochos de pedreiro sobre os ombros. Escadas erguem-se como diagonais pronunciadas face ao esqueleto rectilíneo da estrutura.
O capataz da obra desdobra uma cópia heliográfica e faz um gesto para cima em direcção ao andar do topo onde um trabalhador se equilibra ao longo de uma viga como uma criança pelo rebordo de um passeio.
– O senhor pretende que paredes bem resistentes dêem à obra alguma estabilidade – afirma ele.
– Eu não pretendo nada disso – responde Von Abt com notável bom humor. – A estabilidade é a última coisa que eu quero. Esta casa deve pairar em luz. Deve cintilar e brilhar. Não deve ser estável!
O homem funga.
– Parece mais uma máquina do que uma casa.
– É o que ela é, uma máquina para se viver lá dentro.
O capataz abana a cabeça perante a ideia de uma tal máquina. Ele quer quatro paredes à sua volta, feitas de pedra. Nada deste disparate de estrutura de vigas de aço. Se aquilo serve para alguma coisa é para edifícios de escritórios – estão a construir um edifício semelhante em Jánská, neste mesmo momento, mas vai ser um grande armazém, graças a Deus, não uma casa particular.
– Le Corbusier – diz Von Abt.
– O quê?
– O que eu disse não é original. Não posso colher os louros. Le Corbusier chegou lá primeiro. La machine à habiter.
– O que é isso?
– É francês.
– Quem precisa do francês? Já é suficientemente mau ter de lidar com o alemão e o checo.»
[in A Sala de Vidro, de Simon Mawer, trad. de Helena Lopes, Civilização, Outubro de 2009]
Diário do Booker 2009 (1)

Aos poucos, lá foram chegando os seis finalistas do Man Booker Prize deste ano (só falta The Children’s Book, de A.S. Byatt). Com algum atraso, começo agora a aventura, atacando um dos outsiders: Simon Mawer, cujo romance The Glass Room vou ler já na tradução portuguesa (a publicar em Novembro, mas que a Civilização me cedeu em pdf).


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