Diário do Goncourt (9)

Ao vasculhar em ficheiros antigos, guardados em pastas do Windows que já nem me lembrava de ter criado, encontrei uma crónica de 2001 em que escrevi sobre o primeiro livro de Atiq Rahimi, Terra e Cinzas, publicado em Portugal pela Teorema, sete anos antes da recente consagração do escritor de origem afegã, vencedor do Goncourt 2008.
Eis o essencial dessa prosa perdida num suplemento DNA, agora com folhas amarelecidas e cheio de pó:

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto e descomposto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, o contraponto é dado por um comerciante gentil, capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio seco desde sempre (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, repentinos delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.
Terra e Cinzas narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema. Rahimi exilou-se, aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. A seu tempo, pôde escolher o objecto dos estudos universitários: literatura e cinema. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de afirmar que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

Balanço final do Goncourt 2008

Tal como os homens não se medem aos palmos, os livros não se medem pelo número de páginas. Que o diga Atiq Rahimi, o escritor franco-afegão que ganhou a semana passada o Goncourt, o mais importante dos prémios literários franceses, com Syngué sabour – Pierre de patience (P.O.L.), um romance de apenas 155 páginas, deixando para trás Une éducation libertine, de Jean-Baptiste Del Amo (Gallimard, 431 págs.), La Beauté du Monde, de Michel Le Bris (Grasset, 679 págs.), e Là où les tigres sont chez eux, de Jean-Marie Blas de Roblès (Zulma, 766 págs.).
O triunfo do David sobre os Golias foi anunciado dia 10, em Paris, como sempre depois de um almoço que reuniu, no restaurante Drouant, os dez membros da Academia Goncourt – conclave de que passaram a fazer parte Tahar Ben Jelloun e Patrick Rambaud, em substituição de François Nourissier e Daniel Boulanger, que se demitiram no início deste ano, por razões de saúde.
Rahimi venceu com sete votos, contra três para Michel Le Bris. A presidente do júri, Edmonde Charles-Roux, justificou a atribuição com «as qualidades literárias, o rigor, a precisão e a recusa da ênfase». Enquanto mulher, mostrou-se ainda tocada pelo solilóquio de uma afegã desamparada. «É um livro que defende a causa feminina e o Goncourt também quis recompensar uma obra com mensagem social.»
Ao contrário de outros grandes prémios literários, como o Man Booker Prize (Reino Unido), o Prémio LeYa (Portugal) ou o Planeta (Espanha), o Goncourt não oferece dezenas ou centenas de milhares de euros ao vencedor. Neste caso, o cheque é apenas simbólico (dez euros), mas o impacto mediático do prémio acaba por lançar o livro distinguido para o topo das listas de vendas, durante meses a fio.
Ao saber que tinha ganho, Atiq Rahimi, que esperava pela decisão no célebre Café de Flore, sublinhou o facto de o prémio distinguir o primeiro livro que escreveu directamente em francês: «Para mim, o que é extraordinário é que durante os meus muitos anos de exílio aqui em França [chegou em 1985, hoje tem dupla nacionalidade] nunca me senti capaz de escrever na minha língua de adopção. Foi preciso regressar ao meu país para conseguir isso. No fundo, torno-me mais francês quando estou no Afeganistão, como antes me tornava mais afegão ao vir para Paris.» E sublinhou a sua condição bilingue: «Estou sempre à procura de algo de misterioso que acontece entre estes dois idiomas magníficos.»
Rahimi mostrou-se ainda espantado com o facto de muitos leitores associarem de imediato Syngué sabour ao seu país de origem, quando, ao contrário do que acontecia nos dois primeiros romances (editados em português pela Teorema), «nenhuma das personagens é nomeada, nem a guerra em causa, nem o território». Efectivamente, logo no início do livro há uma frase que localiza a narrativa «algures no Afeganistão ou noutro lugar qualquer», mas, por muito que Rahimi procure uma universalidade para aquilo que conta, a atmosfera do livro remete sempre para uma Cabul em escombros e a dedicatória (a uma «poeta afegã selvaticamente assassinada pelo marido») legitima a associação feita pelos primeiros leitores da obra.
Syngué sabour é, acima de tudo, um «tour de force» narrativo. Muito ao seu estilo, elíptico e poético, Rahimi descreve o quotidiano repetitivo de uma mulher que trata, com mais zelo que compaixão, do seu marido – um herói de guerra que tem uma bala enfiada na nuca e está numa espécie de coma. Embora continue a respirar, não ouve, não vê, não reage a estímulos, nem mesmo quando o quarto é invadido por soldados que lhe esmagam o peito com a bota. A mulher lava-o, alimenta-o à base de água açucarada, enfrenta o silêncio dele e os tiroteios em volta, foge com as filhas para casa de uma tia, mas volta sempre. Volta sempre porque ele transformou-se na sua «syngué sabour», uma «pedra da paciência». Segundo a mitologia persa, esta pedra mágica absorveria, como uma esponja, todos os segredos, misérias e sofrimentos de quem lhe dirige a palavra. Um dia, a pedra racha e com ela desaparecem os segredos, misérias e sofrimentos confessados.
Diante do marido, que a maltratava por princípio e nunca se deixou amar, a protagonista desfia ressentimentos, revoltas sufocadas ao longo dos anos e muitos pormenores da sua sexualidade, com que ele nem sequer sonharia. No fim, a pedra racha, como era suposto, mas a libertação é só ilusória e o livro acaba em tragédia. Uma tragédia teatral, de uma violência explosiva, pouco realista, e que deixa o leitor entre a melancolia e o desconsolo.
Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, já tinha comprado os direitos de Syngué sabour há uns meses, antes ainda de o livro ser seleccionado para as fases finais do Goncourt. A tradução portuguesa, já em curso (por Carlos Correia Monteiro de Oliveira), será publicada no início de 2009.

Os finalistas derrotados:


La Beauté du Monde, de Michel Le Bris

Na reunião final da Academia Goncourt, o único dos quatro romances finalistas que deu luta a Syngué Sabour foi esta sólida abordagem ficcional à vida de Martin e Osa Johnson, um famoso casal de exploradores norte-americanos que fizeram furor, nos anos 20 e 30, com uma série de filmes sobre as suas expedições em África e no Bornéu — precursores dos melhores documentários sobre a vida animal. Com uma fluidez narrativa impressionante, Le Bris mergulha-nos no mundo dos «amantes da aventura», obcecados com a descoberta de regiões inexploradas mas também com a glória pessoal que esses feitos lhes podiam trazer. A história é contada por Winnie, uma escritora inexperiente que é contratada para redigir a biografia de Osa, em 1937, logo após a morte de Martin num acidente. Além da minuciosa reconstituição das viagens e deambulações pelo Quénia, à procura de uma beleza essencial e edénica, escondida em paisagens intocadas pelo homem, o livro vale sobretudo pela épica evocação de Nova Iorque nos anos 1920-1921, com o jazz a explodir nos clubes do Harlem e as míticas tertúlias intelectuais do Hotel Algonquin, em que pontificavam Dorothy Parker e Zelda Fitzgerald, a fogosa mulher de F. Scott Fitzgerald.


Une éducation libertine, de Jean-Baptiste del Amo

Quando Gaspard, um jovem bretão de 19 anos, chega pela primeira vez a Paris, no Verão de 1760, encontra um cenário dantesco. Derretida pela canícula, a cidade é o «umbigo imundo e mal cheiroso da França», mas o campónio de Quimper, habituado a criar porcos, não se incomoda por aí além, mesmo quando é forçado a dormir num beco, à mercê de ratos e pulgas. A sua intenção é subir na escala social, o que consegue aos poucos, passando do trabalho mais duro que se possa imaginar, enterrado no lodo do Sena, para o relativo conforto do atelier de um fazedor de perucas, e daí para o convívio com os muito ricos, no fausto fútil e extravagante dos salões aristocratas. Uma ascensão nem sempre fácil, que o leva muitas vezes por ínvios caminhos, incluindo descidas aos infernos do bas fond parisiense, reino dos bordéis manhosos, e uma entrega consciente à prostituição de luxo (pondo o corpo ao serviço da lascívia de condes e barões casados). Surpreendente primeiro romance de um jovem autor de 26 anos, que vive em Montpellier, Une Éducation Libertine revela um enorme talento literário, denso e torrencial. Numa época de conformismos, Del Amo arrisca escrever no fio da navalha, sem medo de perder o pé (o que por vezes acontece). Este desassombro, porém, é o sinal de que pode vir a ser um grande escritor.


Là où les tigres sont chez eux, de Jean-Marie Blas de Roblès

O título do romance gigantesco de Roblès, um especialista em arqueologia submarina que lhe dedicou dez anos da sua vida, foi retirado de uma citação de Goethe usada como epígrafe: «É forçoso que as nossas ideias mudem num país onde os elefantes e os tigres se sentem em casa.» O país onde a acção decorre — o Brasil — não tem elefantes nem tigres, mas a forma como o pensamento se altera nos trópicos está no centro desta engenhosa máquina ficcional, em que as linhas narrativas se multiplicam, nunca deixando de formar um todo coeso. Eléazard von Wogau, um jornalista desterrado nos confins do Nordeste (onde é correspondente de uma agência de notícias francesa), vê um dia cair-lhe nas mãos uma biografia inédita de Athanase Kircher, jesuíta alemão do século XVII, um homem genial que desbravou caminhos em várias áreas do saber. À medida que mergulha no universo fascinante do padre barroco, Eléazard vai-se relacionando com uma vasta galeria de personagens que reflectem as grandezas, contradições e zonas sombrias do Brasil contemporâneo, das favelas de Pirambú aos negócios sujos da política local. Ao contrário dos outros romances finalistas, Là où les tigres sont chez eux não se limita a contar uma história o melhor possível, antes desafia, com erudição e sentido lúdico, os limites do género — razão pela qual lhe atribuiríamos o Goncourt, se nos coubesse votar. De qualquer modo, os vários prémios recebidos pelo livro até agora — Médicis, Jean Giono e Prémio de Romance da Fnac — servirão certamente de consolo.

[Textos publicados no suplemento Actual do Expresso]

Diário do Goncourt (7)

Na mesmíssima semana em que ficámos a conhecer o vencedor do Goncourt 2008, a Esfera do Caos lança o Goncourt 2007: Alabama Song, de Gilles Leroy. Por já fazer parte do catálogo da Teorema, Atiq Rahimi terá mais sorte. A tradução portuguesa de Syngué sabour – Pierre de patience deve estar nas livrarias no início de 2009.

Diário do Goncourt (5)

O que tinha de acontecer, aconteceu. Ou seja, à entrada do quarto livro, capitulei. Daqui a nada é anunciado o vencedor do Goncourt 2008 e eu só li 133 das 766 páginas de Là où les tigres sont chez eux, de Jean-Marie Blas de Roblès. Há missões impossíveis que são mesmo impossíveis. Eu avisei.
Agora que já não há nada a fazer, porém, arrependo-me de ter deixado este romance para o fim. Porque, dos quatro finalistas, parece-me o mais consistente, o mais bem urdido, o que mais desafia e questiona os limites do género romanesco. Apesar das suas diferenças e peculiaridades, os outros três são narrativas razoavelmente lineares. Já Roblès aposta numa espécie de palimpsesto em que várias histórias convergem e divergem através de saltos quânticos para os quais, com cinco sextos do caminho por fazer, ainda não discerni um sentido.
Seja como for, do que li até agora, parece-me que este imenso mosaico ficcional, com epicentro no Nordeste brasileiro mas com recuos à era barroca (pela «intromissão» dos capítulos de uma biografia de Athanase Kircher, um genial padre jesuíta germânico), tem tudo para ser o «meu» candidato.
A abertura, com a fala impertinente de um papagaio chamado Heidegger, deixou-me logo preso pelo beicinho:

«– L’homme a la bite en pointe! Haarrk! L’homme a la bite en pointe! fit la voix aiguë, nasillarde et comme avinée de Heidegger.
Brusquement excédé, Eléazard von Wogau leva les yeux de sa lecture; pivotant à demi sur sa chaise, is se saisit du premier livre qui lui tomba sous la main et le lança de toutes ses forces vers l’animal. À l’autre bout de la pièce, dans un puissant e multicolore ébouriffement, le perroquet se souleva au-dessus de son perchoir, juste assez pour éviter le projectile. Les Studia Kircheriana du père Reilly allèrent s’écraser un peu plus loin sur une table, renversant la bouteille de cachaça à demi pleine qui s’y trouvait. Elle se brisa sur place, inondant aussitôt le livre démantelé.»

Diário do Goncourt (4)

Michel Le Bris é um autor bretão que se tem mantido afastado, por vontade própria, dos salões literários parisienses. O seu fascínio pela literatura de viagens materializa-se em vários ensaios sobre o tema – por exemplo, Le Grand Dehors (1992) ou o volume colectivo Pour une «Littérature-Monde» (2007) – e no facto de dirigir o festival Étonants Voyageurs, que acontece todos anos em Saint-Malo, no final de Maio. Além disso, Le Bris não esconde uma obsessão pela figura de Robert Louis Stevenson, sobre o qual já publicou cinco livros, nomeadamente o primeiro tomo de uma monumental biografia.
No seu segundo romance, La Beauté du Monde, que também não prima pela concisão (679 páginas), Le Bris empreende uma abordagem ficcional à vida de Martin e Osa Johnson, um famoso casal de exploradores norte-americanos que fizeram furor, nos anos 20 e 30, com uma série de filmes sobre as suas expedições em África e no Bornéu — precursores dos documentários sobre a vida animal que a National Geographic e a BBC, mais tarde, levaram a extremos de sofisticação com os quais as limitações técnicas da época nem sequer permitiam sonhar.
Com uma fluidez narrativa impressionante, Le Bris mergulha-nos no mundo dos «amantes da aventura», obcecados com a descoberta de regiões inexploradas mas também com a glória pessoal que esses feitos lhe podiam trazer. Embora reconstitua à sua maneira os jantares de gala, os debates científicos e os diálogos acalorados no seio do nova-iorquino Explorers’ Club, a maioria das personagens evocadas existiram mesmo, a começar pelo casal Martin/Osa e a acabar nos dois grandes rivais que dividiam as hostes: Carl Akeley, com a cabeça em África e no projecto insano de uma galeria para o American Museum of Natural History que mostrasse, em todo o seu esplendor, a fauna e os vários ecossistemas do continente; e Roy Chapman, mais novo, dinâmico (há quem diga que foi ele o molde para Indiana Jones) e disposto a obter, a todo o custo, os apoios financeiros do museu para uma expedição à Mongólia, para ele inequivocamente «o berço da Humanidade».
A saga exultante e trágica destes homens é contada por Winnie, uma escritora inexperiente que um editor ganancioso contrata para redigir a biografia de Osa, em 1937, logo após a morte de Martin num acidente. Além da minuciosa reconstituição das viagens e deambulações pelo Quénia, à procura de uma beleza essencial e edénica, escondida em paisagens intocadas pelo homem, este belo romance de Le Bris vale também por uma cuidada e divertida evocação de Nova Iorque nos anos 1920-1921, com o jazz a explodir nos clubes do Harlem e as míticas tertúlias intelectuais do Hotel Algonquin, em que pontificavam Dorothy Parker e Zelda Fitzgerald, a fogosa mulher de F. Scott Fitzgerald.

Diário do Goncourt (3)

Une éducation libertine é a belíssima estreia literária de um escritor que conseguiu, aos 26 anos, três feitos de monta: 1) publicar na muito selectiva colecção Blanche da Gallimard; 2) obter um bom acolhimento da crítica, que nalguns casos chegou a apontá-lo como a grande revelação da rentrée 2008; 3) resistir às várias fases de selecção do Prémio Goncourt e ficar entre os quatro finalistas.
Impõe-se dizer, desde já, que este reconhecimento é inteiramente merecido. Não sendo uma obra perfeita (há arestas estilísticas por limar), sente-se em Une éducation libertine a respiração de um escritor com voz própria e bastante confiança nas suas capacidades. Escolher para primeira obra um romance de época (séc. XVIII) que se estende por mais de 400 páginas parece, de facto, uma receita para o desastre. Mas Jean-Baptiste Del Amo (pseudónimo de Jean-Baptiste Garcia) conseguiu transformar a catástrofe iminente num triunfo.
Logo nas primeiras páginas, encontramos Gaspard, um bretão de Quimper recém-chegado a Paris, descendo a Rue de Saint-Denis como quem recomeça a vida do zero, aos 19 anos. O que ele deixa para trás não se recomenda: vida no campo, estúpida e parada, a tratar dos porcos, com uma mãe obtusa e um pai severo que na sua memória nem sequer tem rosto, é apenas uma silhueta em contra-luz diante de uma porta aberta. Mas o que está diante dele também não se recomenda: a Paris de 1760, «umbigo imundo e mal-cheiroso da França», uma cidade asfixiada por miasmas, suor e podridão, debaixo de um sol inclemente que tudo derrete e calcina. Os capítulos iniciais do romance formam um denso e muitas vezes penoso inventário escatológico, que dará a volta ao estômago de muitos leitores e fará as delícias do mais exigente dos abjeccionistas.
Sem referências nem conhecimentos, Gaspard começa por se instalar no degrau mais baixo da escadaria social. Para não dormir na rua, mordido pelos ratos e pelas pulgas, aceita um trabalho de escravo, mergulhado todo o dia no lodo do Sena, à espera de toros de madeira que é preciso içar para a margem. Além de inflecções na pele e do cheiro nauseabundo que não o larga, o que o emprego lhe dá são meia dúzia de tostões (que mal pagam o apartamento infecto, partilhado com um amigo) e a oportunidade de ver os horrores que o rio arrasta consigo: dejectos de toda a espécie e os cadáveres dos suicidados.
Ao contrário dos seus companheiros, porém, Gaspard não se resigna a uma vida miserável. O seu plano é subir os restantes degraus da tal escadaria social e chegar ao conforto, ao brilho e ao luxo dos salões aristocráticos. É uma longa viagem, mas ele está determinado a cumpri-la, mesmo que para isso tenha que completar um processo de desumanização. Quem o ajuda a equipar-se com as armas certas – cinismo, hipocrisia, falta de escrúpulos – é Etienne de V., um nobre libertino que o descobre no momento em que ele já progrediu alguma coisa e trabalha para Justin Billod, um fabricante de perucas da rive gauche.
Às mãos de Etienne, Gaspard parece feito de barro e o libertino molda-o à sua vontade. Ao iniciá-lo sexualmente, porém, oferece-lhe o instrumento decisivo para a sua ascensão. Porque é através do sexo, primeiro como prostituto barato num bordel de terceira categoria, mais tarde como objecto da concupiscência de aristocratas envelhecidos e sentimentais, que Gaspard vai conhecer os extremos da sua existência, a miséria absoluta e o esplendor dos jantares em que se discute a filosofia das Luzes (estamos em 1760), antes de ver a sua identidade dissolvida pelas imposturas com que engana os outros e a si mesmo.
Bildungsroman negro, Une éducation libertine é também, em mais do que um sentido, um roman-fleuve, ou não fosse o Sena o centro gravítico da narrativa, para onde tudo conflui e de onde tudo reflui. Basta atentar no título das quatro partes em que se divide o livro: Le Fleuve (com maiúscula); Rive Gauche; Rive Droite; e novamente Le Fleuve. Encurralado entre as margens, sinuoso e sombrio, carregado de morte (chega a ser comparado ao Estinge), o Sena é o espelho do protagonista trágico desta história. Como se diz em certo momento: «S’il était parvenu à flotter au-dessus du Fleuve, songeait Gaspard, il aurait perçu dans ces éclats, le reflet de son véritable visage.»

Diário do Goncourt (2)

De Atiq Rahimi, um escritor afegão radicado em França desde 1985, já conhecia os dois romances publicados em Portugal pela Teorema: Terra e Cinzas (2001) e As Mil Casas do Sonho e do Terror (2004). Em ambos recordo um estilo muito lírico, entrecortado e cinematográfico, com cenas curtas e descrições precisas. Rahimi é também cineasta, tendo adaptado e filmado o seu primeiro romance, que apresentou no Festival de Cannes de há quatro anos.
Syngué sabour – Pierre de patience (P.O.L.), embora escrito directamente em francês (os outros foram traduzidos do persa), não traz grandes novidades estilísticas, mas revela um domínio ainda mais apurado das formas narrativas, que em Rahimi estão sempre enraízadas nas tradições, sobretudo orais, do seu país de origem.
Dedicado a uma «poeta afegã selvaticamente assassinada pelo seu marido», este romance é quase um manifesto feminista, um grito de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as mulheres no mundo inteiro – e não apenas nas sociedades islâmicas. Rahimi coloca, de resto, a acção da história «algures no Afeganistão ou noutro lugar».
A narrativa começa com uma espécie de zoom. Estamos num quarto pequeno, rectangular e vazio. Na parede, um punhal (kandjar) e o retrato de um homem jovem, de bigode. Deitado no chão, sob o retrato, está o mesmo homem, mas velho, esquelético, inerte e com um catéter espetado no braço, por onde corre um líquido incolor. Finalmente, surge uma mão feminina, pousada sobre o peito do homem, acompanhando a sua respiração, enquanto a outra mão se atarefa com as contas de um rosário. A mulher lê o Corão e repete, como um mantra, o décimo sexto nome de Deus: «Al-Qahhâr». E é o décimo sexto nome porque faz dezasseis dias que o homem, o seu marido, está naquele estado catatónico, entre a vida e a morte, com uma bala enfiada na nuca.
Definido o huis clos, Rahimi narra com uma minúcia que chega a ser exasperante o quotidiano da mulher: lavar o marido, pôr-lhe as gotas de colírio nos olhos, mudar as embalagens de soro (e, quando este acaba, enchê-las com água açucarada), tratar das duas filhas pequenas que não compreendem o silêncio e a imobilidade do pai.
À volta da casa, a cidade está em guerra. Explosões aleatórias, bombardeamentos, rajadas de Kalashnikov. E a mulher tenta ignorar esse caos, acertando os seus gestos e movimentos pela respiração cadenciada do marido. Mas aos poucos a dedicação feminina ao herói ferido, ao homem brutal que sempre preferiu a frente de batalha à vida familiar, vai sendo minada pelo desespero e pelo desamparo. A mulher começa a partilhar as suas memórias, os seus segredos, os seus pesadelos e a ajustar contas com o homem, dizendo o que nunca lhe seria permitido dizer se ele estivesse acordado e lúcido.
Na mitologia persa, chama-se syngué sabour a uma pedra mágica diante da qual as pessoas confessam as suas infelicidades e sofrimentos. A pedra escuta o que lhe é dito, absorve toda a tristeza e um dia parte-se, libertando quem a ela se entregou. É isso que acontece aqui. O marido catatónico é o syngué sabour da mulher, o pretexto para reflectir sobre as violências que sobre ela foram exercidas, sobre a memória de um casamento falso e sobre as faces mais secretas da sua vida íntima (incluindo a sexualidade). No fim, previsivelmente, a pedra parte-se. Isto é, o marido regressa do limbo onde vegetava, mas o desenlace é tudo menos libertador.
Com uma toada encantatória, Rahimi consegue erguer uma história cheia de simbolismos. Demasiados, até – pelo menos para o meu gosto. E não é só a saturação lírica que se torna por vezes cansativa. Há nesta escrita um voluntarismo demasiado centrado na urgência da denúncia e menos no equilíbrio dramático da obra, um problema que já detectara nos anteriores romances. Syngué sabour não é ainda o grande livro que Rahimi pode um dia vir a escrever, mas está mais próximo.

Diário do Gouncourt (1)

Pois é. Depois de me ter aventurado na leitura da shortlist do Man Booker Prize, impunha-se que desse o mesmo tratamento aos finalistas do Goncourt. Afinal, não posso deixar a minha francofilia por mãos alheias, não é? O problema, hélas, volta a ser o mesmo: muitas páginas para tão poucos dias (com a agravante de não me poder dedicar em exclusivo a estas leituras).
Como já anunciei aqui, a selecção final da Academia Goncourt recaiu sobre estes quatro romances:

Ou seja:


Syngué sabour, de Atiq Rahimi (P.O.L.) – 155 páginas


Une éducation libertine, de Jean-Baptiste del Amo (Gallimard) – 434 páginas


La Beauté du Monde, de Michel Le Bris (Grasset) – 679 páginas


Là où les tigres sont chez eux, de Jean-Marie Blas de Roblès (Zulma) – 775 páginas

Ora deixa cá fazer as contas. Bem me parecia: são mais de duas mil páginas (2023).
Caramba, alguém devia apelar ao espírito de síntese dos romancistas contemporâneos. Eles que ponham os olhos no Rahimi, por exemplo. Se todos fossem igualmente comedidos, tenho a certeza que conseguiria ler tudo dentro do prazo.
Assim, é muito difícil, até porque o anúncio do vencedor será feito no dia 10, ao início da tarde. Depois da outra missão impossível, eis uma missão mais impossível ainda. Resta-me dizer, como os futebolistas antes dos jogos grandes, que darei o meu melhor.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges