Pré-publicação: ‘O Meu Irmão - Théo e Vincent Van Gogh’
«Os pássaros desapareceram sobre os ramos de amendoeira pintados por Vincent. Já não assobio as melodias deles, à noite, para adormecer o meu filho. Ainda há pouco tempo, eu convocava para ele toutinegras, rouxinóis e estorninhos na tela azul pendurada por cima do piano. Agora, limito-me a depositar mecanicamente um beijo na sua testa e passo para a sala ao lado. Instalo-me diante da minha mesa de trabalho, aflorando ao sentar-me a gaveta central. É a que contém as cartas de Vincent. Nunca a abro.
Acontece que o corpo tem os seus hábitos. E eu tenho o de escrever ao meu irmão. Aparentemente, nada se alterou. Continuo a ser o mesmo: cotovelo esquerdo assente no rebordo da mesa, testa à procura do apoio da mão, maxilares apertados, têmporas que latejam, os olhos a fecharem-se enquanto procuro as palavras, a minha pluma mergulhando no tinteiro negro… Estes gestos são uma forma de enganar a morte e eu um simples figurante no teatro de sombras. Mas antes escrever do que permitir que a voz de Vincent cresça, essa voz que troveja desde que se tornou uma recordação. Vou respondendo às últimas condolências.
Jo deixa-se ficar no quarto do nosso filho mesmo depois de ele ter adormecido. Passeia a sua mão pela colcha como para endireitar as dobras, as ondas invisíveis. Diz “o pequeno” porque sempre tivemos dificuldade em chamar-lhe Vincent. A minha mãe escreveu num destes últimos dias: “Fizeram muito bem em chamar Vincent Willem ao vosso filho.” Neste momento, já não tenho assim tanta certeza. Não há como as pessoas mais velhas para acarinharem a ideia do recomeço, acreditando que as duas extremidades do tempo podem encontrar-se.
Gostava apenas que o meu filho fosse tão perseverante e corajoso como o meu irmão. São qualidades que não possuo.
Jo vigia-me, sinto o seu olhar inquieto pousado em mim através da porta entreaberta. Sei que descreve o meu boletim clínico aos seus pais, sei que lança alarmes e marca prazos, sei que fica gelada com o movimento incessante da minha pluma, sei que os meus ombros e nuca curvados a fazem sentir-se sozinha, sei que a minha tosse a preocupa. Arreliante, a tosse voltou a raspar a minha garganta, torna-se cada dia mais cavernosa e em breve começará a dar-me náuseas. Certa vez disse a Jo que nunca mais tossira desde o dia em que a conheci e quisemos acreditar nessa ilusão, oferecida pelo amor, de que há um antes e um depois, mas a doença, como todos os segredos escondidos, voltou à superfície. Sinto-a a saquear o meu corpo, esta goela da minha desgraça. E vou calculando frequentemente os seus progressos. Leio a mesma pergunta nos olhos de Jo: o grau último da dor já foi atingido ou será que a temperatura do meu corpo amputado vai ainda ser capaz de subir?
***
Esta manhã, cerca das dez horas, Durand-Ruel passou por cá. Insisti para que o apartamento fosse limpo de uma ponta à outra e alguém tomasse conta do nosso filho. Não queria que nada interferisse com esta visita que solicitara por correio. Ele entrou como se fosse um dignitário das artes, todo aperaltado. A sua rigidez e arrogância compensam o facto de ser baixo. Este grande galerista parisiense ocupa uma posição de força no mercado, é agressivo nos negócios, um católico fervoroso que nunca se deixou levar pela Revolução mas foi ainda assim conquistado para a causa renovadora dos impressionistas. Soube acumular as telas deles quando nada valiam, pagou-lhes avenças, esteve à beira da falência e da degraça, mas regressou triunfante da sua viagem à América. Ele é uma síntese bem sucedida do comércio com a arte.
Depois de andar em passo lento pelo nosso apartamento inteiramente dedicado a Vincent, observou algumas das telas de forma mais demorada, mas sem deixar transparecer o que pensava. No seu rosto, a máscara fria dos comerciantes que passam o negócio de pai para filho. Eu fiquei sempre um passo atrás dele, perscrutando o mínimo franzir do sobrolho, a mínima contracção da comissura dos lábios. Nunca tentei louvar as telas. Prescindi da eloquência para não revelar o meu estado febril. Dei-lhe apenas algumas indicações sobre os períodos e os lugares, avancei algumas das teorias da cor tão caras a Vincent e sublinhei o seu movimento em direcção à luz. Fui um irmão mascarado de negociante e defendi a mais audaciosa, a mais livre de todas as pinturas que alguma vez me foi dado mostrar. Enquanto falava, fixei as mãos enluvadas do visitante. Esperava, se não um gesto, pelo menos um estremecimento, um reflexo, porque muitas telas subestimadas obtiveram, ao passarem por aqueles dedos, o merecido reconhecimento.
Mas Durand-Ruel nunca chegou a tirar as luvas.
Ele não gosta de mim, apercebi-me logo, porque sou um assalariado da concorrência, um caçador furtivo que invadiu os seus domínios, tanto assim que Monet e Picasso também me entregam alguns dos seus quadros. Podia ter negligenciado a minha carta, mas nela afirmava-se que qualquer audácia artística passa forçosamente por ele.
A dada altura, o visitante parou de forma brusca e disse: “Tudo isto é muito interessante.” A escolha de palavras tinha mais de educação polida do que de entusiasmo, mas eu propus-lhe logo organizar uma exposição na sua galeria da rue Laffitte. Estranhamente, já não tinha medo, já não tinha medo das minhas palavras e das minhas escolhas, já não tinha medo de nada, nem de mim nem dos outros. Quero que me julguem pela minha capacidade de dar a conhecer o valor da pintura de Vincent.
Durand-Ruel tossicou, visivelmente surpreendido com a minha reacção, e acrescentou quase por meias-palavras: “Compreendo esse desejo de irmão, mas é preciso pensar melhor no assunto. Tudo isto pode vir a dar polémica. E não quero responsabilizar-me por uma exposição que corra o risco de não ser compreendida.”
Quis prolongar a visita e por isso propus-lhe uma passagem pela galeria de Tanguy, onde poderíamos descobrir outras telas pintadas em Auvers, mas Durand-Ruel disse dispor de pouco tempo, estendeu-me a mão que não chegou a sair da luva, como se já soubesse que estava apenas de passagem, e foi-se embora prometendo voltar na semana seguinte.»
[A narrativa O Meu Irmão - Théo e Vincent van Gogh, de Judith Perrignon, traduzido por mim e editado pela 90º, chega esta semana às livrarias]
Ciclo dedicado a Luiz Pacheco
Em Beja, teatro, cinema e conferências no Teatro Municipal Pax Julia (antigo cinema). Até dia 9.
É já amanhã
Estou mortinho para saber quantas câmaras de TV é que estarão presentes, a captar imagens para o minuto e meio da praxe no telejornal da meia-noite. Isto descontando a RTP, claro, que por razões óbvias não deve faltar.
Apresentação de ‘Rayuela’
Daqui a pouco (18h30), na Fnac do Chiado, será lançada a edição portuguesa da obra-prima de Julio Cortázar: Rayuela (O Jogo do Mundo). Só agora, 45 anos depois, é que alguém decidiu colmatar a escandalosa lacuna (e por isso tiro o meu chapéu à Cavalo de Ferro). Como se costuma dizer, antes tarde do que nunca.
Depois da leitura a mata-cavalos, numa espécie de transe, das 631 páginas e 155 capítulos deste romance desvairado, vou tentar dizer alguma coisa que seja digna de tão transcendente experiência, assim como quem lança uma pedra para a figura desenhada a giz no chão e sobe ao pé coxinho da Terra ao Céu.
Ela está a chegar
Assentai, ó gentes, nas vossas agendas (uma amostra do livro pode ser lida aqui). Aos mais tímidos, ou a quem partiu uma perna e não pode sair de casa, aconselha-se o inovador serviço de “apresentação ao domicílio”.
Já agora, espreitem também o belo clip promocional da Microcosmos (colecção de micronarrativa da Angelus Novus), com fragmentos manuscritos dos contos mínimos do Rui Manuel Amaral e do Augusto Monterroso espalhados por tudo o que é sítio:
A viagem que não fiz (a Matosinhos)
E tenho pena.
A primeira capa da nova ‘Ler’
Depois de revelada em fragmentos (aqui e aqui), eis a versão completa.
O lançamento da revista é na próxima terça-feira, dia 22, às 21h30, no BBC (Belém Bar Café).
BiblioFilmes (agora a doer)
Já começou a “votação popular” para escolher o melhor BiblioFilme, de entre 17 candidatos. A urna virtual fica aberta até 23 de Abril, Dia Mundial do Livro.
Lembrete
Daqui a pouco, pelas 18h30, a Fnac Chiado acolhe uma “Evocação de Ruy Belo” nos 30 anos da sua morte, organizada pela editora Assírio & Alvim. José Tolentino Mendonça e Duarte Belo, filho do poeta, participam na homenagem.
Às 19h00, na Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão, n.º 58), será a vez do lançamento simultâneo de quatro livros, todos também da Assírio: Esteves!, do holandês René Huigen; Último Minuete em Lisboa, de Fernando Venâncio; Bilhetes de Colares, de A. B. Kotter; e O Cavalo e o Sentimento, Pedro Emauz Silva.
Maio em Abril
Todas se apaixonam por ele (diz ele)

Quarta-feira, 2 de Abril, José Pinto Carneiro lança a “comédia (quase) romântica” Todas se Apaixonam por Mim (Guerra e Paz). A apresentação estará a cargo de Francisco José Viegas e Carla Hilário Quevedo. É às 18h30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos (Campo Grande, 10 B).
Teaser
A modelo e actriz Inês Castel-Branco lê uma passagem do romance Rosa Vermelha em Quarto Escuro, de Pedro Paixão (Bertrand). O lançamento do livro acontecerá no dia 2 de Abril, às 18h30, na livraria Bertrand do Chiado.
Lembrete
Logo à noite, pelas 21h30, a Casa Fernando Pessoa acolhe mais uma sessão dos “Livros em Desassossego”. Tema: os limites e obrigações da crítica literária. Convidados: Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia e o autor deste blogue. Moderação: Carlos Vaz Marques. Na mesa, estarão ainda Nuno Júdice, para apresentar o seu novo livro de poesia (A Matéria do Poema, Dom Quixote), e a editora Maria da Piedade Ferreira (Oceanos), que falará de três livros recentes que gostaria de ter publicado.
‘Labirinto de letras’
Eis um belo exemplo da poesia visual de Ana Hatherly, autora que celebra este ano cinco décadas de carreira literária e que publicou recentemente, na &Etc, um livrinho provocador e irónico, onde prova que não se deixou amolecer pela consagração (lá iremos ao livrinho, lá iremos).
A Biblioteca Nacional dedica-lhe uma mostra evocativa, até 5 de Abril.
[Imagem encontrada aqui]
Mais dois teasers (desta vez feitos pela editora Angelus Novus)
Um mais directo (leitura em voz off do micro-conto Possibilidade de aguaceiros):
Outro mais elíptico (a jogar com um conhecido adágio):
O livro intitula-se Caravana e é a estreia literária de Rui Manuel Amaral.
Marcar na agenda
No próximo dia 27, pelas 21h30, a Casa Fernando Pessoa acolhe mais uma sessão dos “Livros em Desassossego”. Tema: os limites e obrigações da crítica literária. Estarão presentes Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia e o autor deste blogue, numa conversa moderada por Carlos Vaz Marques. Na mesa, sentar-se-ão ainda Nuno Júdice, para apresentar o seu novo livro de poesia (A Matéria do Poema, Dom Quixote) e a editora Maria da Piedade Ferreira (Oceanos), que falará de três livros recentes que gostaria de ter publicado.
Lembrete
Hoje, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa, é lançado o número 21 da revista Relâmpago, no qual se homenageia Jorge de Sena, com um dossier que reúne textos de Eduardo Lourenço, Fernando Pinto do Amaral, Margarida Braga Neves ou João Bénard da Costa, entre outros. Além da apresentação da revista, por Jorge Fazenda Lourenço, e da leitura de poemas de Sena, pelos actores Luís Lucas e Eurico Lopes, será feita a entrega a Pedro Tamen do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2007, atribuído ao livro Analogia e Dedos (Oceanos). Em nome do júri, Pedro Mexia explicará as razões da escolha.
Lembrar o Olímpio
É logo à noite, pelas 22h00, na Cooperativa Padaria do Povo (Rua Luís Derouet, 20, 1º, Campo de Ourique, Lisboa). Um grupo de amigos do Olímpio Ferreira vai evocá-lo com textos, versos e outras formas de memória. Será igualmente posto a circular um pequeno livro de homenagem, para o qual contribuí com este poema:
O. F.
Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que já foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.
Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.
Apareçam e dêem um abraço à Mariana por mim, que hoje estou demasiado longe (mas não me esqueço).
Lembrete
— Hoje, pelas 17h00, o fotógrafo Daniel Blaufuks conversa sobre os seus livros com o crítico de arte Nuno Crespo, na biblioteca do Arquivo Fotográfico Municipal (R. da Palma, 246, Lisboa)
— Segunda sessão do ciclo Asas sobre a América (organizado por Filipa Melo): Philip Roth por Gonçalo M. Tavares. Às 18h30, no auditório da FLAD (R. do Sacramento à Lapa, 21, Lisboa)
Vamos ajudar a aguasfurtadas a sair do impasse?
Por dificuldades financeiras, a excelente revista aguasfurtadas tem vindo a adiar a publicação do seu número 11. Uma lástima, uma grande lástima, mas que não abateu o ânimo dos industriosos animadores do projecto. Vai daí, decidiram organizar uma venda de trabalhos oferecidos por vários artistas, ao “preço comum” de 20 euros. Sim, isso mesmo, uma daquelas notas azuis que desaparecem em três tempos numa noite de copos. Fica então o desafio: poupem no álcool e ajudem a aguasfurtadas.
A venda abre sábado (1 de Março) na Galeria Espaço JUP, R. Miguel Bombarda, 187, Porto. E sosseguem os mais copofónicos: será servido vinho tinto.
Lembrete

Os 50 anos de On the Road, de Jack Kerouac, são evocados logo à noite, a partir das 23h30, no Maxime (Lisboa). Tiago Gomes, director da revista Bíblia, lê excertos. Tó Trips, músico dos Dead Combo, improvisa à guitarra.
À atenção das editoras (e são muitas, e são muitas) que continuam a publicar livros cheios de gralhas
Oficina de Introdução à Revisão de Texto. É na BookTailors. Começa a 3 de Março.
Palavra Ibérica 2008
Já há programa para o Palavra Ibérica 2008, III Encontro Hispano-Luso de Escritores, que decorrerá em Punta Umbría, a 7 e 8 de Março. Eis alguns destaques:
Sexta-feira, 7 de Março
19h00 - Inauguração na Sala Polivalente, com Antonia Hernández Galloso (Vereadora da Cultura do Ayuntamiento de Punta Umbría), José Carlos Barros (Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Real de Sto. António) e Fernando Esteves Pinto (Círculo Literário do Algarve “Sulscrito”; co-coordenador Palavra Ibérica), Uberto Stabile (Coordenador do Encontro Hispano-Luso de Escritores Palavra Ibérica)
19h30 - Acto de entrega e apresentação dos Prémios Internacionais de Poesia Palavra Ibérica 2007, atribuídos a El sitio justo, de Rafael Camarasa (Valencia), e Sobre as imagens, de Amadeu Baptista (Viseu)
20h30 - “Cara a cara, verso a verso: outros tempos para a lírica”, com José Mário Silva (Lisboa) e Manuel Moya (Fuenteheridos, Huelva)
Sábado, 8 de Março
11h30 - Apresentação do livro Lo que cayó del Conquero (Antologia de Narradores Onubenses), com apresentação de Marcos Gualda e Uberto Stabile, seguida de intervenções de Rafael Delgado, Francis Vaz, Manuel Garrido Palacios e Manuel Moya
13h00 - “Cara a cara, verso a verso: espaços para a poesia”, com Manuela Ribeiro (directora do encontro “Correntes d’Escritas”, Póvoa de Varzim, Portugal) e Antonio Orihuela (director do encontro “Voces del Extremo” de Moguer, España)
18h00 - Apresentação dos livros e recitais poéticos dos autores da colecção Palavra Ibérica: Las moradas inútiles, de José Carlos Barros (Vila Real de Sto. António), Só mais uma vez, de Uberto Stabile (Valencia) e Pequeña antología para el cuerpo, de Luis Filipe Cristóvão (Torres Vedras)
20h00 - “No feminino plural”, com Margarida Vale de Gato (Lisboa), Josefa Virella (Huelva), Ana Mafalda Leite (Moçambique), María Gómez (Isla Cristina), Diana Almeida (Lisboa), Rosario Pérez Cabaña (Sevilla)
Lembrete
Começa hoje (18h30), na FLAD, com uma conferência de Eduardo Lourenço (Imagens da América), o ciclo Asas Sobre a América, coordenado pela jornalista e escritora Filipa Melo. A ideia é discutir “os trânsitos literários ocorridos entre Portugal e os EUA”. Para a sessão desta tarde, a FLAD decidiu convidar “um painel de editores de blogues que escrevem regularmente sobre arte e literatura” e é nessa qualidade que aparecerei na Rua do Sacramento à Lapa, n.º 21.
A entrada é gratuita.
Lembrete

Mais logo, pelas 18h00, o novo livro de Ana Hatherly (A Neo-Penélope, &Etc) vai ser apresentado, no Salão Nobre da Universidade Aberta, por Teresa Joaquim e Anabela Galhardo Couto. Ainda não li o livro mas o entusiasmo do Rui Almeida é um excelente sinal.
Vou lá visitar Ruy Duarte de Carvalho

Ao CCB, onde até dia 17 se podem descobrir os rastos do seu “exaustivo labor”.
António Lobo Antunes em Paris
Le Cul de Judas, uma versão teatral do romance Os Cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes, estreada em 2005 no Festival Off de Avignon, vai ser reposta na Grande Salle da Maison de la Poèsie de Paris, de 3 de Abril a 25 de Maio. François Duval adapta, encena e interpreta o segundo livro do escritor português, que descreve a sua experiência enquanto médico durante a Guerra Colonial, em Angola. O DVD do espectáculo pode ser encomendado aqui, por menos de 20 euros.
Ano Vieirino
Destaques das ‘Correntes’
Já está completo o programa da 9.ª edição do Correntes d’Escritas, que tem início na próxima quarta-feira e se prolonga até sábado, na Póvoa de Varzim. Das muitas actividades previstas e que tentarei acompanhar (consciente de não possuir o dom da ubiquidade), destaco para já estas:
Dia 14
- 10h30 — mesa redonda “A meu favor tenho a Poesia”, com Amadeu Baptista, José Emílio-Nelson, Lêdo Ivo, Uberto Stabile e Vicente Martín Martín (moderação de Virgílio Alberto Vieira)
- 15h00 — mesa redonda “A Lenta Volúpia de Escrever”, com Almeida Faria, Francisco José Viegas, Ivo Machado, J. J. Armas Marcelo e José Manuel Saraiva (moderação de José Carlos Vasconcelos)
- 17h15 — Sessão fotográfica multimedia de Daniel Mordzinski
Dia 15
- 15h00 — mesa redonda “A Literatura rasga a Realidade”, com Eduardo Halfon, Ignacio del Valle, João Paulo Cuenca, Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe (moderação de Rui Zink)
- 22h00 — mesa redonda “Sou do tamanho do que escrevo”, com Carme Riera, Eduardo Mendoza, Isabel da Nóbrega, José Eduardo Agualusa e Miguel Real (moderação de José Manuel Vasconcelos)
Dia 16
- 10h30 — mesa redonda “Cada Homem é uma Língua”, com Leonardo Padura, Mia Couto, Onésimo Teotónio de Almeida, Pepetela e Tabajara Ruas (moderação de Maria João Seixas)
O muito esperado crocodilo
Está finalmente a sair do prelo a aguardadíssima compilação de entrevistas dadas por Luiz Pacheco, com organização e introdução de João Pedro George. Editado pela Tinta da China, o volume (cuja capa aqui se divulga em primeira mão) tem para já um excelente blurb, com uma citação da última entrevista de Pacheco, publicada pelo semanário Sol: «Está para sair um livro com entrevistas suas… Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras.»
Laboratório de Escrita para crianças
Começa depois de amanhã, no Porto.
[via blogue do Serviço Educativo do Teatro do Campo Alegre]
Cardoso Pires, uma antecipação
No Da Literatura, o João Paulo Sousa conseguiu um exclusivo: a pré-publicação de Lavagante — Encontro Desabitado, um inédito que vai marcar a estreia, lá mais para o fim do mês, da nova editora de Nelson de Matos.
Eis o final do primeiro capítulo:
«Fresco e impecável, o barman, está do outro lado do balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça diante duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.
— Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?
Cala-se. Depois espalma a mão diante dos olhos, mirando-a com raiva, quase com espanto:
— A minha mão medrosa — anuncia. Volta‑a e torna a voltá-la, como se a não reconhecesse, como se a denunciasse em público.
— Está viciada, amigos, escreve com medo… Não há dinheiro no mundo que pague uma desgraça destas. Dinheiro nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum…
— Acredito — diz o dono do bar. E virando‑se para mim: — E tu? Não falas, não contas nada?»
Manuel Alegre representa Portugal no ‘Printemps des Poètes’
O Poema com h Pequeno, do livro O Canto e As Armas, de Manuel Alegre, foi escolhido para representar Portugal na décima edição do “Printemps des Poètes”, um festival cultural que se realiza em Lyon, França, entre 3 e 16 de Março. A edição deste ano tem como tema “O Elogio do Outro” e os organizadores escolheram o poema de Manuel Alegre por o considerarem “uma bela homenagem ao homem na sua diversidade”. Poema com h Pequeno será traduzido nas diversas línguas participantes no encontro, incluindo o árabe e o crioulo da Guiana.
Lembrete
Lançamento do livro 1908, um olhar sobre o Regicídio, de Margarida Magalhães Ramalho (Sextante), com apresentação de António Pedro Vicente. Às 18h00, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa. Antes, às 16h00, haverá uma visita guiada aos “locais do Regicídio”, conduzida por Elizabete Rocha, da Hemeroteca Municipal (a concentração é junto à estátua de Dom José, no Terreiro do Paço, com partida assim que se juntem 25 pessoas).
(Des)acordo ortográfico

É daqui a nada: Malaca Casteleiro (membro da Academia de Ciências de Lisboa), Vasco Graça Moura (escritor e eurodeputado), José Eduardo Agualusa (escritor) e Ivo Castro (linguista) discutem a ratificação do famoso e polémico Acordo Ortográfico, na Casa Fernando Pessoa (21h30), com moderação de Carlos Vaz Marques. O editor convidado a falar dos livros alheios é Nelson de Matos.
Lembrete
Esta noite, pelas 21h00, lançamento do livro Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, com apresentação de Prisca Agustoni e Ozias Filho, na Casa da América Latina (Av. 24 de Julho, 118-B, Lisboa).
18 lançamentos em quatro dias
Durante o encontro Correntes d’Escritas, que decorrerá de 13 a 16 de Fevereiro na Póvoa do Varzim, serão apresentados os seguintes livros:
- A Neblina do Passado, de Leonardo Padura (ASA)
- Admirável Diamante Bruto e outros contos, de Waldir Araújo (Livrododia)
- Bricabraque e Horismós, de Mário Pinheiro (edição de autor)
- Eis a dor, o que me resta, de Vicente Martin Martin (Bitrúbio)
- Maurício ou as Eleições Sentimentais, de Eduardo Mendoza (ASA)
- Música de Viagem, de Cristino Cortes (Papiro)
- No Último Azul, de Carme Riera (Teorema)
- O Amante Albanês, de Susana Fortes (ASA)
- O Anjo Literário, de Eduardo Halfon (Cavalo de Ferro)
- O Homem na Cozinha — Seduções e Volúpias, de Luís Machado (Parceria AMP)
- O Segredo da Trapezista, de Oscar Málaga Gallegos (Teorema)
- O Sorriso de Mona Lisa, de Pedro Teixeira Neves (Deriva)
- O Tempo dos Imperadores Estranhos, Ignacio del Valle (Porto Editora)
- Obras Completas de Nemésio — Poesia vol. 1 (1916-1940) e vol. 2 tomo 1 (1950-1959) / Caderno de Caligraphia, vol. III, de Luiz Fagundes Duarte (INCM)
- Olá, eu sou um Livro, de Rui Grácio (Pé de Página)
- Pecados de Intención, de Janet Nuñez (Dyagones)
- Quilómetro Zero, de Ivo Machado (6 Dias 7 Noites)
- Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique (Teorema)
Lembrete
Amanhã, na Casa Fernando Pessoa, a partir das 9h30, colóquio “Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais”, sobre a narrativa contemporânea marcada pelo fim do império e o que se lhe seguiu. Programação completa aqui.
A sopa
Duas semanas após a morte de Luiz Pacheco, o programa Câmara Clara (RTP2, 22h30) vai lembrar hoje “o escritor, o editor, o provocador, o último dos grandes insurrectos”. Os convidados são Alberto Pimenta e Vítor Silva Tavares, que falarão do que é “estar à margem”, “dos criadores que fazem obras que jamais agradarão a uma maioria” e da “deliciosa” sopa que Paula Moura Pinheiro lhes mandou servir, por suspeitar que estavam “esfaimados”.
A ceia no plateau pode aliás servir de trailer:
É ou não é um fabuloso momento de televisão?
Nem de propósito
Nem de propósito, devido a um desaire futebolístico do Sporting, há precisamente uma semana, os rapazes do post anterior viram a sua entrevista com Francisco José Viegas, no programa Escrita em Dia (RDP Antena 1, 95.7 FM), adiada para hoje, às 23.
É daqui a menos de uma hora. Estejam atentos porque tenho a certeza de que valerá a pena ouvi-los em discurso directo.


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