30 anos

[Nota prévia: escrevi esta crónica ao fazer 30 anos; agora cheguei aos 41, tenho dois filhos, mas tenciono adiar o mais possível a resposta à última pergunta]

1. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. No eléctrico, à mesa de um café, numa esquina qualquer, alguém desdobrou as folhas enormes do Diário de Notícias. E leu. No topo da primeira página, os caracteres góticos do cabeçalho, o preço (1$50), o número da edição (38.068), o nome do director (Fernando Fragoso) e o anúncio das máquinas de costura Vigorelli («as melhores do mundo»). Na segunda página, alguns avisos: a Joalharia Mergulhão lembra aos seus Exmos. Clientes (com maiúscula) que passa a encerrar aos sábados de tarde; enquanto o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreram, em combate na Guiné, um soldado e um primeiro-cabo. Há também muita publicidade a espectáculos: no cinema Vox, O Mensageiro, de Joseph Losey, vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, está há nove semanas em cartaz; o Teatro Villaret acolhe Tartufo, com Raul Solnado no papel principal, às 21 e às 23 horas; e quem não gostar de Molière pode sempre ir ao Capitólio, onde José Viana encabeça o elenco da revista Ora Bolas P’ró Pagode. Na secção cultural, Natércia Freire escreve sobre Fernanda Botelho, João Gaspar Simões sobre Fernando Namora e João Bigotte Chorão sobre Maria Eulália de Macedo. Do folhetim Um Gesto de Amor, escrito por Daniel Gray, publica-se o 28.º capítulo. Mas é lá mais para diante, nos anúncios das últimas páginas, que está um retrato do país. Lado a lado, a grande empresa de urbanização que procura um topógrafo para trabalhar no Algarve e o particular que vende palha. Os andares de duas a três assoalhadas (a partir de 260 contos) e a requisição de um ardina para distribuir jornais ao domicílio. Repito: alguém leu isto tudo, numa esquina qualquer, à mesa de um café, no eléctrico. Talvez a meio da manhã, no exacto instante em que nasceu uma criança, milhares de quilómetros para norte. Ou no momento preciso em que foi lançada uma sonda da NASA, rumo a Júpiter e mais além.

2. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. Em Cabo Kennedy, depois de vários adiamentos por causa do mau tempo, a sonda Pioneer-10 é enviada para o Espaço no topo de um foguetão Atlas Centauro. Custou 68 milhões de dólares, mede três metros (se contarmos com as antenas), pesa 270 quilos e carrega 11 instrumentos científicos. Pela primeira vez, um objecto fabricado pelo Homem aponta para um destino mais longínquo do que Marte. Os cientistas, apesar de temerem que a Cintura de Asteróides seja intransponível, sonham com a chegada da Pioneer-10 a Júpiter. Se sobreviver, a frágil estrutura que viaja a 44.579 kms/h poderá enviar informações preciosas sobre os limites exteriores do sistema solar. Há mesmo quem ponha a hipótese de um eventual contacto com extraterrestres. Presa à chapa da sonda, uma placa de alumínio com banho de ouro, concebida por Carl Sagan, mostra um homem (a mão direita levantada em sinal de boa vontade) e uma mulher, cujas formas correspondem a uma média computorizada da compleição física da espécie humana. A escala é conferida pelo desenho da própria sonda, ao lado daquele casal que faz lembrar Adão e Eva. No canto superior esquerdo, a representação de um átomo de Hidrogénio, o elemento mais comum no Universo, prova que conhecemos a matéria das estrelas. E os vários símbolos dispostos na base do esquema, representando o Sol e os planetas que giram à sua volta, explicam de onde partiu esta «casca de noz». A placa é o nosso espelho. É uma súmula, um gesto de aproximação, a primeira palavra de um diálogo. É também um mapa a indicar o caminho até este canto do cosmos onde existe vida, inteligência, civilização. Compreensivelmente, nada se diz sobre a outra face dos seres humanos: a cupidez, o ódio, a barbárie. Afinal, se os extraterrestres alguma vez descobrirem a sonda, não vamos querer assustá-los, pois não? A verdade é que ninguém espera uma resposta. O tempo de vida previsto para a missão é muito curto. Três anos, na melhor das hipóteses.

3. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. A minha mãe está deitada, a barriga enorme, o suor, as contracções. Na sala, vários alunos tomam notas. O médico-obstetra, talvez o mais conceituado da Maternidade de Port Royal, em Paris, decidiu fazer do parto uma aula. Porque este não é um caso simples – a cabeça do bebé, muito grande, tem dificuldade em sair. É demasiado estreito, o corpo da mulher. E por isso sofrem. Os dois. Aida contrai os músculos, uma e outra vez, e outra ainda, sente o filho dentro de si, o movimento dele, o esforço dele. A dor cresce como um incêndio, alastra, concentra-se num ponto, reflui e depois regressa. A dor. Cada vez mais intensa. A dor. De olhos fechados, Aida pensa só no filho que vem aí, através da carne. E ao pensar nele a dor fica como que suspensa. Já não importa. Tal como não importa o que ficou para trás. A estupidez de uma injecção que retardou o nascimento até de manhã, para que médico e alunos pudessem aparecer de camisa lavada e pequeno-almoço tomado a horas. A travessia da noite, olhos postos na lua. A espera longa, longa, longa, sem líquido amniótico, o feto em risco de sufocar. A rudeza das enfermeiras. Tudo isso já não interessa. Aida pensa no filho, os músculos contraídos, uma e outra vez, e outra ainda. A respiração ofegante. O suor na testa. O grito. O seu grito. Depois um outro, mais ténue. O grito do filho. O meu grito. Eu, tão pequeno. Ali, sobre a barriga exausta. Espreitando entre os seios, Aida vê a cabeça ainda achatada do filho, onde já desponta uma espiral de cabelo, um caracol. E antes de o levarem, antes de me levarem, sente os batimentos daquele coração pequenino, tão perto do seu.

4. Passaram 30 anos. Dentro de um Diário de Notícias muito diferente, na página nove do suplemento com nome de código genético, narram-se factos ocorridos num mesmo dia: 2/3/1972. Seria fácil estabelecer ligações entre o nascimento de uma criança e a viagem de uma sonda até aos confins do universo. A criança que acaba de nascer não sabe nada, parte para o desconhecido, para a incerteza. À sua maneira, ela também é uma sonda – só que avança no tempo, enquanto a outra avança no espaço. Ocorre-me a ideia de unir os dois rumos, de filosofar sobre o destino de um homem versus o destino do Homem. Mas não vou por aí, embora a coincidência me perturbe. E a perturbação acentua-se porque a sonda, o primeiro objecto construído por humanos a sair do sistema solar, resistiu muito mais do que estava previsto. Ainda hoje, cinco anos após o encerramento oficial da missão, ela mantém-se «viva» e em contacto com a Terra, apesar da distância inimaginável (mais de 10.000 milhões de quilómetros) e das 22 horas que os sinais de rádio levam a chegar ao nosso planeta. Ainda hoje, continua a afastar-se, em direcção a uma estrela vermelha, da constelação do Touro, que alcançará (se não se desfizer pelo caminho) dentro de dois milhões de anos. A Pioneer-10 passou por Marte quando eu ainda mamava (três meses), por Júpiter quando eu ainda pedia colo (ano e meio), por Saturno quando andava na pré-primária (quatro anos) e abandonou o sistema solar quando comecei a escrever poemas (16 anos). Onde estará quando nascer o meu primeiro filho? E quando eu morrer?

[Texto publicado no suplemento DNA do Diário de Notícias, a 2 de Março de 2002]

O Festival

Eu estava sentado na terceira fila. Por baixo de mim, a dureza do banco de madeira, a ser mais um degrau da grande plateia erguida na Escola D. António da Costa, desde há muitos anos o «coração» do Festival de Teatro de Almada. Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite. À minha volta, o silêncio do público. O silêncio de quem está preso ao que se passa em cima do palco e gosta de se sentir assim: preso. À minha frente, o palco. O palco iluminado. Luzes de projectores como se fossem o sol na Inglaterra do séc. XVI. O palco sem nada. Nenhum cenário, nada, nem sequer uma cadeira. Só um homem e a sua mala. Um homem mais a sua mala (de vez em quando pousada no chão; de vez em quando aberta para tirar, lá de dentro, um pano ou uma máscara). E as palavras. As palavras de Tubal – a personagem – ditas por Manel Barceló, o actor.
Eu não conhecia Tubal e creio que o público silencioso – muitas cabeças no escuro, à minha volta – também não. Porque Tubal é uma das mais obscuras personagens de Shakespeare, com um papel ainda menos importante, no enredo do Mercador de Veneza, do que o de Rosencrantz e Guildenstern na trama de Hamlet. Antes de ser resgatada por este brilhante monólogo de Gareth Armstrong, Tubal era uma sombra fugaz que durava oito réplicas. Oito frases num diálogo com Shylock, o judeu que empresta dinheiro a António, o mercador, exigindo uma libra da carne deste como penhor. Tubal não é apenas o melhor amigo de Shylock. «Sou o único», diz com orgulho, uma e outra vez. É talvez por ser seu amigo que tenta mostrar-nos outra imagem do «judeu maldoso», livrando-o do labéu diabólico e aproveitando para fazer a exegese desta peça de Shakespeare (devidamente enquadrada na restante obra do bardo, bem como no contexto do teatro isabelino), isto enquanto narra as desventuras e tragédias da História dos judeus na Europa.

Estava portanto sentado na terceira fila, contemplando Tubal a desmultiplicar-se em narrativas dentro de narrativas, transfigurando-se em 43 personagens diferentes – actores, bispos, soldados, o próprio rei – quando aquilo aconteceu. E não sei sequer explicar o que cabe na palavra «aquilo». Foi talvez uma frase dita num murmúrio, um gesto brusco, uma risada, o som da enorme mala a poisar nas tábuas. Foi qualquer coisa que accionou subitamente os mecanismos da memória, uma versão teatral da madalena de Proust. Sei apenas que me ausentei por momentos dali, da terceira fila. E regressei aos meus 12 anos.
Em 1984, eu tinha 12 anos e assisti ao primeiro Festival de Teatro de Almada. Era outra coisa, muito mais pequena, muito mais modesta. Um palco diminuto, ao fundo do Beco dos Tanoeiros, cadeiras de café em ferro (emprestadas daqui e dali), cem pessoas no máximo a assistir, mais as que espreitavam das janelas. Grupos amadores, erros e ingenuidades, uma alegria imensa de ver o mundo a ganhar forma sobre o palco. Depois, fui crescendo e o Festival também. Recordo todos os lugares por onde passou, por onde passámos: o Pátio do Prior do Crato (sempre à cunha; e mais ainda quando lá foi o Mário Viegas), o Largo da Boca do Vento (com as primeiras companhias estrangeiras), o Palácio da Cerca (inclinado sobre Lisboa, recebendo as brisas frescas que sobem do Tejo), o Teatro Municipal e, por fim, a Escola D. António da Costa. A minha antiga escola, a escola onde fiz o ensino preparatório. Abre-se uma memória dentro da memória e revejo as tropelias, as corridas, os cromos com as caras feias dos futebolistas, o jogo do alho, o cerco às raparigas (na fase dos apalpões), as conversas com o meu amigo Prakash Pratapsi Udeshi, um matulão indiano que viera de Moçambique (às vezes ainda tomava banho com leite de cabra, dizia ele) e que foi o meu adversário, vencido, na final do campeonato escolar de xadrez.
Recordo-me depois dos espectáculos que me marcaram. E foram tantos. De alguns perdi as referências: aqueles quatro actores que simulavam um quarteto de cordas (como se chamava a peça? de onde vinham eles?) ou o grupo que interpretou magistralmente a peça O Aumento, de Georges Perec. De outros lembro-me bem: o actor Rafael El Brujo Alvarez a levar ao rubro o Palácio da Cerca, com o seu esfomeado Lazarillo de Tormes; os Touros, Majas y otras Zarandajas, do colectivo Margen (Oviedo), a incendiarem as ruas de Almada; a hipnótica Viagem ao Centro da Terra no comboio transfigurado dos chilenos La Troppa; a poesia de Lorca dita por Núria Espert; as principais peças das grandes companhias portuguesas; ou os trabalhos recentes dos melhores encenadores europeus (Peter Brook, Joan Font, Bernard Sobel; a lista é longa).
Em todos estes anos – sou testemunha credível, porque não falhei uma edição que fosse – há uma figura que permanece no centro das operações e é a própria essência do Festival, mesmo quando se esconde atrás das cortinas para dar a ribalta aos actores. É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos. Chama-se Joaquim Benite e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras. Quando o encontro, junto ao portão da escola, dando as boas-vindas aos espectadores, orgulhoso das peças que lhes vai oferecer logo a seguir, percebo que nem todos os caminhos da cultura estão condenados a terminar no deserto da frustração. Eu vi a barba deste homem a ficar branca com o passar do tempo, esse rio feito de júbilos, sustos, dúvidas, esperanças, inquietações. Mas vi também que o brilho dos seus olhos nunca esmoreceu. É hoje mais intenso do que nunca.
Intenso como a voz – agora triste, agora carregada de melancolia – do actor Manel Barceló, aliás Tubal. A peça está a terminar e ele acaba de explicar-nos a forma repentina como Shylock desaparece dos diálogos finais do Mercador de Veneza. O judeu, vencido no tribunal, mergulha no seu próprio infortúnio, cai na sombra da perdição. E eu desperto da minha viagem no tempo, enquanto Tubal se afasta com a sua mala, desaparecendo aos poucos na penumbra do palco. À minha volta, o silêncio do público desfaz-se. Aplausos, pessoas de pé, mais aplausos. Eu continuo na terceira fila, levanto-me, grito «bravo». Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite.

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em Julho de 2003]

Entrevista com Vítor Silva Tavares, tirada do baú (parte 2)

[Nota prévia – Esta conversa foi publicada no suplemento DNA, do Diário de Notícias, a 24 de Fevereiro de 2001. Primeira parte, aqui]


Vítor Silva Tavares ao centro, com Rui Caeiro à esquerda e Alberto Pimenta à direita (clique para aumentar a imagem)

Como é o relacionamento com os autores que vai publicando?
O que é que acha?

Eu consigo imaginar, mas preferia que me dissesse.
São relações de enorme companheirismo, que às vezes evoluem para amizades que valem uma vida. Amizades fortíssimas, tão fortes como certas paixões. Firmes, sólidas, à prova de bala.

E que tipo de contacto é que mantém com as outras editoras portuguesas?
É um contacto muito esporádico. Conheço alguns editores e às vezes cruzo-me com eles, embora não faça vida social. Não tenho nada contra as editoras comerciais. Eu próprio, muitos anos antes de ter entrado nesta aventura, já estive à frente de uma casa editora prestigiada e bem implantada no mercado.

A Ulisseia.
Exacto. Era uma editora que funcionava nos moldes tradicionais. Eu, ao ir para lá, é que não sei se funcionava nos moldes tradicionais, mas isso é outra história. Fui para lá com o mesmo espírito com que estou aqui. Para fazer só aquilo que me dava na gana. E foi o que fiz…

Permitiram-lhe assim tanta liberdade?
Permitiram, sim senhor. Gozei de toda a liberdade para fazer o que muito bem entendia. Olhe, a liberdade era tanta que tive a PIDE sempre à perna…

Quanto tempo durou essa passagem pela Ulisseia?
Não sei ao certo, tenho fraca memória para datas, mas admito que entre dois e três anos.

E qual foi a razão para sair?
Saí porque estava muito tempo sentado, tinha gravata e para publicar os livros nem precisava de os ler. Quer dizer, o sistema estava a rodar por si mesmo e eu já não estava lá a fazer nada.

Na & Etc, pelos vistos ao contrário do que se passava na Ulisseia, não há programação nem um calendário para as obras a publicar. Como é que faz a escolha? É caso a caso?
É caso a caso. E acaso a acaso. A porta está aberta a esses acasos. Nós lemos sempre todos os manuscritos. E quando gosto de um determinado livro, atiro-me imediatamente de cabeça, avanço logo de olhos fechados. Muitas vezes, ainda nem sequer conheço o autor. Ou melhor, passei a conhecê-lo a partir daquilo que está escrito. É uma coisa que acontece com bastante frequência.

Disse que nasceu num meio pobre. Mais propriamente no bairro da Madragoa…
Exacto. Sou lisboeta da Madragoa, onde ainda vivo.

E como é que o lisboeta da Madragoa olha para a sua cidade?
É uma relação de amor-ódio. Amo muito a minha cidade, sobretudo os bairros populares. E, vá lá, também a zona da Lisboa romântica: Chiado, Bairro Alto. O resto, para mim, já é estrangeiro.

Consegue imaginar-se a viver fora de Lisboa?
Não, não me concebo fora dela nem longe das suas gentes, das suas pessoas. Nada me tira a minha bicazinha, de manhã, na pequena leitaria da Rua da Esperança. Agora, à força de amar tanto esta minha cidade, é evidente que sofro tremendamente com ela, nomeadamente com os atentados a que tem sido submetida, quase sempre em nome de falsas noções de modernidade e do bimbismo dos decisores.

Inclui o projectado elevador para o Castelo de S. Jorge no rol desses atentados?
Claro que sim. É inconcebível. Como é que isto pôde passar pela cabeça de alguém? Porque isto teve que nascer nalguma cabeça, não é?

Sim. Nasceu numa cabeça mas depois passou por outras…
Pois, nasceu numa e depois alastrou, já se vê, um mal nunca vem só. É inconcebível. Como é possível que em plena baixa pombalina se vá erguer aquela torre de betão, com uma passerelle, que nos vai roubar a vista das muralhas do castelo? E o que acontecerá às pessoas que agora podem contemplar, das suas janelas, toda a baixa e o convento do Carmo na outra colina? Vão ficar emparedadas por aquela porcaria, é o que é.

Que outros atentados o têm chocado?
Histórias destas são às montanhas, são umas atrás das outras. Veja o bimbismo nacional da roda gigante: só porque Paris e Londres também têm, então punha-se aquela porcaria ali ao alto do Parque Eduardo VII, a dar cabo do jardim do Ribeiro Teles e tornando o monumento-pilinha do Cutileiro ainda mais pequenino, por causa da escala. E há mais: entra na cabeça de alguém que o largo do Chiado tenha ido para o maneta por causa da bocarra do metropolitano? A lista é interminável, infelizmente. E eu fico a ferver com estas coisas. Anda para aqui um desvario qualquer.

No seu discurso existe sempre, de forma latente ou explícita, um impulso de rebeldia…
Sim, sim, mas atenção, só assumo essa rebeldia se acrescentar que é uma rebeldia com causa.

Muito bem. E quando é que essa rebeldia com causa começou a manifestar-se na sua vida?
Quando li os primeiros livros do Alves Redol, do Maximo Gorki, do Zola. Com eles, comecei a ter consciência de um mundo cruel e injusto, feito de poderosos e de miseráveis. Nascia assim um movimento de rebeldia para o qual não podia dar vazão. O meu pai era marítimo e, como andava sempre em viagem, gostava de ler e comprava indistintamente as «Selecções do Reader’s Digest» e romances dos autores que estavam em voga na altura: Blasco Ibañez, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro. Eu, lá em casa, mal comecei a gostar de ler, devorei essa literatura toda.

Era mais parecido com o seu pai ou com a sua mãe?
Era uma mistura de ambos. A minha mãe era uma espécie de Ana Magnani, uma magnífica fera, de uma frontalidade a toda a prova, sem qualquer verniz ou diplomacia. O meu pai era um ser muito mais interiorizado, mais reflexivo, mais diplomata. A minha natureza mais profunda vem mais da minha mãe, até porque eu vivi sempre num universo de mulheres.

O que é que ela fazia?
Tinha um trabalho medonho, de carga e descarga de peixe e de carvão. Também trabalhou na fábrica de anchovas, no outro lado do rio. De modo que eu ficava em tudo quanto era casa de vizinhas e sobretudo com a minha avó, mãe dela, que praticamente me criou. Mas a extrema miséria, miséria mesmo, em que eu nasci e cresci, nunca a senti enquanto miúdo. Era muito protegido por ser magrinho, na altura as crianças morriam como tordos e aquelas que não morriam – a mim aconteceu-me não morrer – eram extremamente acarinhadas. Eu vivia na rua, a brincar com os outros putos do bairro, e lembro-me da dificuldade tremenda que tive em calçar os primeiros sapatos.

E essa avó protectora, que imagem guarda dela?
Essa minha avó era uma maravilha de mulher, não houve nada que ela não fizesse e eu acompanhava-a sempre. Desde empalhar cadeiras até lavar roupa no lavadouro municipal da Travessa do Pasteleiro, passando pelo fado, cantado pelas tabernas com um irmão. Às cantorias noite dentro não me levava, claro, mas cheguei a assistir a cegadas. E participei, ao colo dela e de umas tias, nas marchas populares. Ainda hoje, quando a Madragoa ganha, eu rejubilo. Estou à janela, olho para baixo, está a marcha a passar e lá fico todo contente.

Não renega, portanto, o seu passado.
Pelo contrário, tenho muito orgulho. Ao fim e ao cabo, e depois de tantos anos no meio artístico, sei de ciência certa que onde encontro mais carácter, solidariedade e bondade humana é entre a gente pobre do meu bairro. Isto apesar da invasão dos bárbaros. E chamo bárbaros àquela gentalha, normalmente com popó, que entra no bairro para frequentar os bares e as discotecas. Este bairro que tinha má fama – de gente agressiva, muito putedo, artistas e outras coisas que tais – era, meu deus, um autêntico eden comparado com o que se passa agora. Esses novos bárbaros partem tudo, instalam a violência onde ela não havia e até reacenderam os conflitos raciais.

Embora seja um lisboeta dos sete costados, houve uma época em que viveu em África, mais propriamente em Angola. Como é que foi lá parar?
É uma longa história. Olhe, passados aí uns seis ou sete meses do meu primeiro casamento, vejo-me metido no porão de um navio, ao lado de ciganagem, tipo Tarzan a caminho das Áfricas. Isto foi em finais dos anos 50, à volta de 1959. Eu ia lá ter com um amigo que comprara uma máquina Paillard, de 16 mm. Eu queria fazer filmes e também, se possível, formar um pequeno grupo de teatro itinerante. A aposta principal era nos documentários, no cinema de levantamento antropológico. Acontece que levava pouco dinheiro e mesmo esse foi roubado no barco. Ou seja, chego a Luanda sem conhecer ninguém e sem um tostão no bolso.

Não tinha combinado encontrar-se com um amigo?
Tinha. Mas esse amigo, que era suposto estar à minha espera em Luanda, falhou, não estava. Passei logo ali um primeiro susto, porque ele era de Benguela e aquilo é um país enorme, a distância de Luanda a Benguela é como daqui a Paris. Mas lá acabei por chegar.

E os projectos que levava na cabeça, sempre se concretizaram?
Não. Em pouco tempo, os sonhos desfizeram-se. Por exemplo, a máquina Paillard estava lá mas não havia película. Depois, o tal amigo acabou por morrer, foi dos primeiros portugueses a morrer no norte de Angola, ainda a guerra mal começara. Aliás, ou morreu ou suicidou-se. Parece que se suicidou, não aguentava ser militar.

O que é que decidiu fazer, nessa altura?
Fiquei para ali transplantado, longe de tudo. Entretanto o casamento foi à vida, já se sabe, e eu peguei no que havia, porque precisava de comer. Foi assim que, durante dois ou três meses, o meu trabalho consistiu em dactilografar o cadastro de tudo o que era carro entrado na colónia desde mil novecentos e troca o passo. Por ordem alfabética, AB-59-63, AC-24-72, etc, etc, etc. E lá estive eu a fazer aquela porcaria, com uma temperatura média de quarenta e tal graus centígrados e pelo menos 90% de humidade. Era o chamado «cemitério dos brancos».

As actividades culturais ficaram entre parênteses?
Não, não. Paralelamente, lá fui animar o cineclube local e comecei a escrever, à borla, no jornal de esquerda do sítio, que se chamava «O Intransigente». Às tantas, um camarada lá da repartição vai de férias, ou transferem-no, e é aí que durante alguns meses vou ocupar o lugar dele como examinador das cartas de condução. Logo eu, que não tenho carta nem nunca soube guiar!

Devia ser complicado.
Nem por isso. É que a maior parte dos candidatos que apareciam eram gajos com aqueles camiões enormes que levavam peixe seco para o interior, gajos que quando nasceram já sabiam conduzir. Esses tipos estavam automaticamente passados e íamos depois comemorar para o restaurante, comendo uns baldes de camarão, bebendo umas cervejolas, etc. Era uma festa.

Presumo que a festa não durou muito…
Claro que não durou muito. Estava eu descansadinho a fazer esta vida quando vem o engenheiro da repartição e diz que finalmente me ia tirar dali, para me colocar noutra sala qualquer. Percebi logo tudo e saí porta fora, sem dizer boa tarde. A não ser aos colegas, claro, para os quais me virei dizendo: «Até já, a gente encontra-se ali na esplanada». Ou seja, nunca mais voltei a pôr lá os pés.

Tinha para onde ir?
Não, não tinha. Durante uns quatro ou cinco dias fui para a praia, deitava-me, comia uns caranguejos e pensava: agora vou morrer aqui. Não morri. Voltei a não morrer. Ao sexto dia, o director do tal jornal onde eu já escrevia à borla, velho republicano maçon, convidou-me: «Oh Vitorzinho, gostava muito que viesses trabalhar comigo mas o jornal é pobre, só te posso pagar cinco contos». Eu nem hesitei. Pedi-lhe logo que me indicasse onde ficava a minha secretária. E assim fui parar à vida de jornalista.

[Continua]

Entrevista com Vítor Silva Tavares, tirada do baú (parte 1)

[Nota prévia – Esta conversa foi publicada no suplemento DNA, do Diário de Notícias, a 24 de Fevereiro de 2001. Na altura, Vítor Silva Tavares tinha 63 anos; agora, tem 75.]

Cercado de livros, chega a parecer um anjo rendido, um animal feliz. Chama-se Vítor Silva Tavares, é um tímido expansivo, tem 63 anos e o dom da conversação. A sua vida é fazer livros – na cave da & Etc – mas não gosta que lhe chamem editor. Não gosta, aliás, de muitas outras coisas, como as liberdades ilusórias e as leis do mercado. É também um intelectual de uma estirpe antiga, sempre à margem – por princípio e por vocação. Quase com pudor, concedeu esta entrevista, gravada numa tarde de chuva, entre baldes, alguidares e pingos de água que caíam do tecto

Vítor Silva Tavares não costuma dar entrevistas, muito menos quando são longas, como as do DNA. A razão é simples. Acha que não tem nada de relevante para dizer, «nada que possa interessar às pessoas». Além disso, é avesso à exposição pública e receia sempre que a conversa seja entendida como uma forma de se promover – logo ele, que abomina a lógica comercial, os lobbies e os esquemas de marketing que impõem gostos, tendências e modas.
Talvez por isso, fizemos um acordo. Antes da entrevista propriamente dita, falaríamos sem gravadores por perto. Para quebrar o gelo. Para conhecermos os gestos, a voz um do outro. Para aferirmos caminhos possíveis, áreas reservadas, zonas de cumplicidade. E assim aconteceu. No fim, já com a entrevista marcada, deixou-se a porta aberta ao eventual recuo de uma das partes. «Vamos a isto», disse Vítor Silva Tavares. «Se ficar bem, publica-se. Se não ficar, amigos como dantes.» A verdade é que a entrevista está aqui, à espera de olhos que a percorram, embora o último julgamento seja sempre do leitor.
A editora & Etc fica numa cave, ao Bairro Alto, na Rua da Emenda (uma toponímia plena de sugestões). Lá em baixo, à porta, Vítor Silva Tavares espera de esfregona, limpando a água do chão. Espaço minúsculo, não mais de 30 metros quadrados sob um tecto em abóbada, o subterrâneo assistiu a todas as pequenas glórias e angústias que a & Etc viveu ao longo de 27 anos. Ali se desenharam os livros, ali se discutiu até altas horas da noite (política, literatura e o que mais houvesse para discutir), ali se fumou e sonhou e sofreu e, tantas vezes, se dormiu.
Os livros da & Etc – no seu formato pouco ortodoxo (15,5 por 17,5 centímetros) – ocupam as enormes estantes de ferro encostadas às paredes, ou não fosse este igualmente o armazém da editora. Vítor Silva Tavares faz questão de explicar que ali ninguém recebe tostão: nem os escritores, nem os artistas gráficos, nem nenhuma das muitas pessoas que fazem com que os livros existam (em edições nunca inferiores a 300 e nunca superiores a 500 exemplares). É uma outra forma de dizer que as obras da & Etc são fruto de uma generosidade colectiva. São livros feitos com amor. Únicos. E por isso nunca reeditados – tal como não se reedita um filho, faz-se outro.
Finalmente, o gravador começa a enrolar a fita castanha (ficará assim durante quase três horas). Eu sabia que poderíamos começar de muitas maneiras. Calhou ser assim.

A & Etc funciona numa cave, esta cave onde conversamos agora, rodeados de livros, e que a morada torna ainda mais enigmática, ao chamar-lhe subterrâneo 3. Será que este é, literalmente, um espaço para a literatura underground?
Enquanto rótulo, não. Não é. Podemos obviamente extrair uma quantidade de conotações símbólicas do facto de estarmos instalados num subterrâneo – ainda por cima o 3, número mágico. Mas o que aconteceu com a descoberta deste espaço foi aquilo que eu poderia chamar uma teoria dos acasos. Que quer dizer mais ou menos o seguinte: o acaso nunca acontece por acaso. Talvez por isso, viemos parar aqui, ao sítio certo. Para nós, que nunca pretendemos qualquer tipo de visibilidade ou mediatismo, é evidente que um espaço desta natureza, colocado onde ele está, corresponde perfeitamente ao nosso gosto e à nossa maneira de ser.

Ao espaço do subterrâneo pode associar-se também uma certa ideia de subversão: fazer as coisas pela calada, na sombra, de forma clandestina, um pouco contra o que se passa cá fora, à superfície.
A verdade é que não houve determinação da nossa parte, porque nesse caso íamos também cair no rótulo. Era um rótulo ao contrário, mas ainda um rótulo. Aconteceu assim porque somos assim. Não foi preciso refugiarmo-nos neste subterrâneo e fazer disso uma bandeira.

E o espírito com que estão aqui, hoje, é o mesmo que vos animava quando fundaram a editora, nos finais de 1974?
Exactissimamente o mesmo.

Como é que se trabalha nesta editora? Quais são as regras de funcionamento?
É melhor irmos pela ausência de regras. Como é que funciona? Vamos lá ver: às vezes não funciona.

Mas, ao fim de 26 anos, este espaço mantém-se e continuam a sair livros…
Sim, o espaço existe, a renda paga-se, os livros fazem-se. No entanto, se virmos a coisa em termos do que é uma actividade regular – industrial, comercial, etc, etc –, ah bom, então digo-lhe que nesse aspecto não funciona. Vai funcionando. Há livros quando pode haver, não há livros quando não pode haver. Trabalhamos quando nos apetece; quando não nos apetece, não trabalhamos. Não há programa. Se me perguntar agora que livros é que vou fazer em Maio, Junho ou Julho, não sei responder. Não faço a mínima ideia. Só sei uma coisa: hão-de sair livros. Isso sei. Agora, que livros e exactamente quando? Logo se verá.

E se não aparecerem livros que o entusiasmem?
Não há problema nenhum. Ficamos à espera. Normalmente o que obriga as editoras a publicarem de forma contínua são encargos, responsabilidades, dívidas, empréstimos, por aí fora. É o mercado que obriga. É o mercado que puxa. É o mercado o motor. Aqui não é o mercado o motor. Nem pensar. O motor é a nossa vontade e disponibilidade, ou a ausência delas.

É possível subsistir assim?
A prática prova-o. É claro que temos de levar em linha de conta a minúscula dimensão da editora. É mesmo minúscula: não tem encargos, não tem pessoal. Deve ser concerteza das mais pequenas editoras do mundo. E é a nossa própria pequenez que nos livra dessa escravidão do mercado. Se não sair, não sai. Assim como assim, tudo parece indicar que é muito maior a oferta de livros do que a procura. E é óbvio que o tipo de obras que nós publicamos não se destinam a públicos alargados. São livros para uma minoria das minorias das minorias. Por vezes entra aqui alguém que diz: «Ah, lá comprei aquele livro do não sei quantos que tu publicaste». E eu respondo sempre: «Ah, foste tu!?»

Isso não o inquieta?
Nada.

Quer dizer que escolheram ficar fora do sistema? Foi essa a vossa opção?
Foi uma opção e é uma aptidão.

Mas como é que dois ou três «saudáveis malucos» podem pretender ficar do lado de fora e resistir tanto tempo, coisa que algumas das editoras que estão dentro do sistema não conseguiram?
Está a falar de economia?

Em última análise, sim.
Como está a falar de economia, não lhe sei responder em economês. Porque nós recusamos toda e qualquer forma de subordinação aos ditames da economia. Quando faço um livro, faço-o porque gosto dele, mais nada. Haja leitores ou não haja. Depois, se se vender, óptimo, porreiro, posso fazer mais. Se não se vender, não me arrependo nada de o ter feito. Na pior das hipóteses, olhe, em vez de fazer outro logo a seguir, espero mais algum tempo. Não nos vergamos, não senhor, a essa nova ditadura que invade tudo, que esmaga tudo.

Se, por absurdo, só fosse possível vender 50 exemplares de uma obra…
Sim senhor, se eu achasse que valia a pena… (Toca o telefone. Pára o gravador. Três minutos de conversa, a despachar). Sabe quem era?

Quem?
O João César Monteiro. Ligou-me para dizer que recebeu ainda agora um livro em que o João de Deus, seu «alter ego», aparece como personagem. Um livrinho publicado por uma pequena editora francesa, numa tiragem de 303 exemplares. Portanto, como vê, à escala global nem sequer estou sozinho.

À escala de França, até diria que essa editora consegue ser ainda mais pequena que a & Etc.
Pois é.

O não estar sozinho, como disse ainda agora, traz-lhe alguma espécie de conforto?
Sim. E é preciso acentuar o seguinte: a & Etc não é, nem deseja ser, uma editora profissional. Aqui nós somos amadores, no sentido primeiro da palavra.

No sentido em que amam os livros.
Exactamente. Somos amadores. A parte profissional é entendida do ponto de vista meramente técnico. Ou seja, sabemos trabalhar o lado material dos livros, mas o espírito com que as coisas são feitas, o espírito com que estamos dentro disto, é um espírito amador. Fazemos isto por gozo. Embora o gozo tenha a outra face da moeda. Passamos por muitos tormentos e angústias, porque a debilidade económica faz com que o nosso trabalho esteja permanentemente em risco. Sei que, a curtíssimo prazo, posso ter que fechar a porta. Mas admiti isso desde a primeira hora e a verdade é que já temos quase 30 anos disto.

Uma das características do mercado é que nunca vê com bons olhos gestos de rebeldia como o vosso.
Eu também não vejo com bons olhos o mercado, pá. E amor com amor se paga!

É um ódio mútuo?
Não lhe chamarei ódio, não é preciso chegar a tanto. Ou se calhar é. Se estivermos a falar do mercado como sistema, e até como ideologia, então sim, ponha aí a palavra ódio. Há uma recusa tão compulsiva que pode tomar as características do ódio.

A hipotética falência da & Etc não lhe tira o sono?
Repare numa coisa: mesmo se vendesse todos os livros de cada edição, nunca teria lucros. À partida, os livros estão condenados a dar prejuízo. Mas atenção, é um prejuízo calculado. Quer que lhe dê um exemplo, com números? Lá vamos nós falar economês. Supunhamos que esta casa chega ao fim do ano e tem um prejuízo de 1200 contos. Dividido por 12, dá 100 contos por mês. Bom, somos aqui uns tantos, podemos sempre repartir os gastos. Não era uma pena fecharmos a porta por tão pouco? Esse dinheiro não podia ser gastos numas quantas noitadas nas Docas, hum? Então pronto, em vez de gastarmos 100 contos nesses alegres vícios, gastamos os mesmos 100 contos neste outro alegre vício, nesta nossa amante. Porque a & Etc é uma amante.

Das exigentes?
Das exigentes, é verdade. Daquelas que puxam por muita lágrima.

Já lhe deu alguns desgostos?
Muitos, muitos. Tantos. Há sempre uma ilusão e sempre uma grande tristeza, quando sabemos que fizemos uma coisa bela e a vemos entrar no mais absoluto dos silêncios. Isso custa muito. Mas já lá dizia o Camões: aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes.

Não teme ser visto como um D. Quixote, alguém que luta contra gigantes mesmo quando já se percebeu que não passam de moinhos?
Bom, eu não entendo o D. Quixote como um tonto.

Nem era isso que eu queria dizer.
Eu sei, mas não me importo de aplicar a mim mesmo o termo de idiota. E há aí uma componente que em parte justifica esta maneira de estar e de ser. A verdade é que eu li desde bastante cedo, li muito e à maluca, li tudo o que me vinha parar à mão. E mercê dessas leituras, de miúdo e depois de adolescente, criou-se em mim um idealismo fortíssimo. Andando a pé ou de eléctrico, exactamente como hoje, eu levava sempre comigo livrinhos e romances que me emocionavam e me faziam olhar para a cidade como se ela estivesse dentro de uma ficção, uma aprazível ficção. Por um lado tinha que enfrentar a dureza da vida – aos 13 anos já era paquete de um escritório –, mas por outro lado refugiava-me nesses outros universos imaginários.

Tal e qual como D. Quixote, que também se refugiava nos livros…
Exacto. O que acontece é que as pessoas, quando têm de entrar na chamada idade adulta, com responsabilidades, mulher, filhos, essas coisas todas, deixam esses idealismos escondidos algures, como o Mário Soares deixou o socialismo dele na gaveta. Nesse aspecto, posso afirmar que não cresci. Não me vejo como um adulto cheio de responsabilidades. Posso até dizer que o meu trabalho é de uma muito alegre irresponsabilidade. Além do mais, pude garantir com isto um estatuto económico muito idêntico àquele que tinha quando nasci e cresci. Nasci pobre, muito pobre. E hoje continuo a ser pobre.

Provavelmente nunca quis ser rico.
Nunca quis, nem pensar nisso. Nunca tive tal apetência. Não senhor. São parcas as minhas necessidades e estou couraçado contra vícios aos quais sei que jamais poderei chegar.

Uma dessas parcas necessidades é viver com livros à volta, não é?
Sim, isso sim. E não apenas os livros. Longe disso. Olhe, eu também faço a minha comida e gosto muito de ir comprar os carapaus e de arranjá-los, fritá-los, isso tudo. E viver com as pessoas de que osto, com as pessoas que amo. E conversar. E se não me apetecer pôr aqui o pé, nem ponho. Esta casa não me obriga a nada, nem a mim nem a ninguém. É outra coisa espantosa: da porta para dentro, aqui vive-se em liberdade. E desta porta para fora, não.

Essa falta de liberdade de que forma é que o atinge?
Angustia-me. Não esqueça que tenho 63 anos e que comecei a ser lúcido, politicamente, a partir dos meus 17, 18 anos. Portanto, pude sofrer com a situação da ditadura política que tínhamos em Portugal. A sensação que eu tenho hoje, é de que se saíu dessa ditadura, política e policial, para uma outra ditadura. E como ditadura que é, ela oprime multidões e multidões e multidões, que até podem não dar por isso.

Porque existe uma ilusão de liberdade, é isso?
Existe uma ilusão de liberdade, chama-se-lhe democracia como um processo formal, mas as pessoas continuam obviamente oprimidas. Se é evidente que se garantiram uma quantidade de liberdades, ao mesmo tempo criaram-se novas formas, ainda mais complexas, de escravização das sociedades. No que é fundamental, acho que não se têm dado tantos passos como isso no sentido da libertação do homem.

Olhando para o seu caso, eu diria que há uma espécie de teimosia, uma persistente recusa de baixar os braços…
Talvez tenha alguma teimosia. Mas vejamos: acho que nunca tive a pretensão de mudar o mundo. Não quero é que o mundo, o mundo de que eu não gosto, me mude a mim. Ai isso não deixo. A haver teimosia, é só esta.

Por que é que a & Etc nunca tentou obter apoios financeiros do Estado? Foi para não ficar refém?
Olhe, foi por vergonha e por orgulho. Teria vergonha de estender a mão. E tenho orgulho em não o fazer.

[Continua]

A mecânica da coisa

A funcionária primeiro ficou calada, com os olhos muito esbugalhados, depois tamborilou os dedos e encolheu os ombros. Eu limitara-me a fazer uma pergunta. Uma simples pergunta, logo repetida para criar ênfase oratória. «Minha senhora, acha que isto tem alguma lógica? Vá lá, ponha-se no meu lugar e diga-me: acha que isto faz algum sentido?». Após o encolher de ombros, a funcionária esbugalhou ainda mais os olhos e dignou-se finalmente a dar uma resposta. «Eu cá não sei se tem lógica ou não tem lógica, eu estou aqui para cumprir ordens e as ordens que me deram foram estas.»
Recuemos um passo e expliquemos melhor o contexto deste diálogo de surdos. O palco é o balcão de uma junta de freguesia, a freguesia para a qual me mudei recentemente. Temendo ser multado pela EMEL, ao estacionar perto da nova casa, encetei uma verdadeira odisseia burocrática com vista à substituição do «selo de residente». Coisa complicadíssima, está bom de ver. Entre outras obrigações, tinha que alterar o domicílio fiscal nas Finanças e a morada em todos os meus documentos (BI, carta de condução e contrato de ALD). Depois de muito esforço – duas sessões de três horas de espera na DGV e cinco idas à repartição de Finanças, porque «o sistema continua em baixo» – lá juntei a papelada. Faltava, porém, um item: o atestado de residência.
Se há burocracia que me põe os nervos em franja, é esta. A burocracia que só serve para nos arreliar e nos fazer perder tempo, a burocracia preguiçosa, inútil e estúpida. Eu bem que tentei mostrar o contrato de arrendamento, com o meu nome e a nova morada lá escarrapachados, mais o recibo dos dois primeiros meses. Mas nada disso, ao que percebi, é suficiente. «O que o senhor tem que fazer», disse-me a tal funcionária, «é pedir o carimbo e a assinatura de dois comerciantes da zona, está a ver?». Eu não estava a ver. E foi então que fiz a tal pergunta. E obtive a tal resposta. Resumindo: o contrato de arrendamento não chega como prova, mas a assinatura de duas pessoas que nunca vi – e que nunca me viram antes, uma vez que acabo de chegar ao bairro – serve perfeitamente. Repeti argumentos, esbracejei, indignei-me uns bons minutos. A funcionária continuou de olhos esbugalhados e voltou a encolher os ombros. «São as ordens que tenho, o que é que quer que eu faça?» «Não faça nada», disse em voz baixa enquanto descia as escadas, «não faça nada que realmente não é preciso».
Enervações à parte, é óbvio que voltei dois dias depois, com todos os carimbos e assinaturas bem legíveis. Mas não foi fácil. A princípio, olharam-me de lado num café e num oculista, aparentemente «escaldados» com más experiências anteriores. No mini-mercado, disseram logo que não tinham tempo nem paciência para me atenderem. O que me safou foi o ar de bom rapaz, acho eu. Isso e a compreensão do gerente de uma loja de móveis da minha rua, bem como a simpatia do dono de uma boutique de roupa que fica mesmo ao lado. Safei-me com sorrisos e muitos salamaleques. «Por favor, é mesmo aí que tem de assinar, obrigadinho, afinal de contas vamos ser vizinhos, não é?». Pois é. E se eu tivesse outra cor de pele, um aspecto menos composto, umas olheiras de toxicodependente, um sotaque ucraniano? Será que conseguiria os malditos carimbos? Não perguntei isto à funcionária, claro, mas tenho a certeza que ela encolheria, mais uma vez, os ombros.
A odisseia não ficou por aqui, talvez porque existe uma espécie de lei de Murphy a pairar na minha relação com os trâmites burocráticos: o que pode correr mal, corre mesmo mal. Veja-se o caso da nova carta de condução. Quando me chegou às mãos, vinha errada: mantendo a minha morada antiga (aquela que eu pedi para mudar) mas com o código postal da nova! E casos destes repetem-se com uma frequência assustadora. Ao abrir conta num banco, por exemplo, pedi o respectivo cartão. As semanas passaram; nada. Fez-se uma segunda via e uns dias depois chegaram, quase ao mesmo tempo, os dois cartões: o pedido e o perdido. Ou seja, houve mais plástico cunhado em vão, mais desperdício, mais lixo e mais energias desperdiçadas, a juntar à nova carta de condução que não chegou a servir para coisa nenhuma.
Só porque a paciência tem limites, poupo-vos aos detalhes de outras desventuras porque passei, desde a transferência bancária que ficou bloqueada porque alguém digitou mal o meu número de conta (mas por que raio haveremos de arcar sempre com a incompetência dos outros?) ao mês e picos que fiquei à espera de gás – com manhãs e tardes perdidas por conta das equipas de peritos que estudaram, pormenorizadamente, a fuga oculta, e das empresas sub-contratadas para fazerem outra canalização, e das fiscalizações que nunca, mas nunca, podem ser para o dia seguinte.
Talvez eu tenha muito azar. Ou então uma espécie de malapata com os aspectos materiais da vida. Não me parece, contudo, que seja o único. À minha volta, ouço muitas histórias semelhantes. Histórias de pessoas perdidas em labirintos de papel, lutando pela sobrevivência em notários, repartições e conservatórias, abrindo garrafas de champanhe sempre que conseguem resolver o mais insignificante e mínimo dos assuntos. Histórias de desespero perante a máquina pesada do Estado, histórias da fúria legítima de cidadãos cumpridores a que ninguém dá ouvidos, histórias dos muitos dias que se esfumam com a senha n.º 578 na mão.
Certa vez, para me acalmar, um zeloso manga-de-alpaca apelou ao meu bom-senso, ao meu conformismo: «A mecânica da coisa é mesmo assim, amigo, não vale a pena exaltar-se.» Acontece que o problema é precisamente esse. Existe uma mecânica da coisa pública que serve apenas para esmagar o cidadão. Uma mecânica perversa, alimentada há muitos anos por um desleixo congénito que só conduz à mediocridade e ao imobilismo. Uma mecânica capaz de castigar quem não preencheu convenientemente – e com tinta preta – a alínea f) do modelo B («alto lá, olhe que assim não lhe posso dar seguimento ao processo»); ao mesmo tempo que fecha os olhos aos mais inconcebíveis crimes de colarinho branco (recorde-se o escândalo das prescrições judiciais ou a nunca travada evasão fiscal, que deixa impunes os que ganham muito e nada declaram).
Quando se lêem os relatórios da Comissão Europeia sobre as fragilidades da economia portuguesa, quando se questiona o porquê da baixa produtividade nacional e da lentidão com que respondemos às crises, era bom que alguém se lembrasse desta «mecânica da coisa», terrível e oculta como a fuga de gás da minha casa. Enquanto não se fizer algo que a elimine de vez, bem podem os candidatos a primeiro-ministro passear-se pela Europa, orgulhando-se da pronúncia de Tony Blair quando os chama pelos nomes próprios. Não conseguirão absolutamente nada. Portugal é como a funcionária da junta de freguesia. Não quer chatices, só cumpre ordens. No intervalo para almoço, faz malha enquanto debica uma carcaça com queijo e descasca as três tangerinas guardadas num saco de plástico, dentro da gaveta. Pica o ponto às cinco em ponto, Portugal. Só não quer que o chateiem. E se alguém reclama ou lhe pede satisfações, encosta-se ao balcão e repete que a «mecânica da coisa, amigo, é mesmo assim».

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

Uma volta pela cidade

O rapaz que vende figos. Estava encostado à parede, na esquina da Praça de Londres com a Av. de Paris. Cabelos longos, barba rala, pernas bambas, roupa imunda, o olhar baço, as mãos a tremer. Ao passar por ele, as pessoas viravam a cara, seguiam em frente, diziam «coitado, mais um farrapo humano». Eu nunca o tinha visto por ali. À distância, do outro lado da rua, pus-me a observar. Vi as manchas de sujidade no casaco, os sapatos com as solas amarradas por cordéis, o saco de plástico cheio de beatas, a ligadura amarela (de pus?) no tornozelo esquerdo. Vi o rosto destruído sabe-se lá porque infernos, doses maradas, repentinas saudades de casa, insónias, crises de abstinência. Não vi nada de novo: só o cenário da degradação absoluta, só um fantasma igual a todos os outros fantasmas que se cruzam connosco na rua ou nos pedem uma moeda quando estacionamos o carro, um daqueles fantasmas que aprendemos a ignorar. Mas vi outra coisa: junto aos seus pés, um cesto. Um daqueles cestos como já não se encontram nas cidades. Um cesto de vime, com figos lá dentro. Figos pretos, maduros, deitados num tapete de folhas muito verdes. Em papel pardo, escrito com letra infantil, o preço: 50$00/kg. Houve qualquer coisa que me comoveu naquela figura cambaleante, naquele rapaz que tentava, apesar de tudo, oferecer algo em troca da piedade alheia. Aproximei-me, ainda a pensar como é que ele pesaria os figos sem balança. Mas não cheguei a pedir nada. À minha frente, o rapaz adormecera, em pé. Baixei-me e encostei o cesto à sua perna direita, para que sentisse o toque, para que não se deixasse roubar. Os figos cheiravam bem. Virei costas e afastei-me.

Diálogo escutado numa rua da Baixa. «Este ano vai ser diferente, garanto-te»; «Diferente porquê?»; «Vou pôr ordem na minha vida, vou deixar-me de loucuras, vou emagrecer, vou rectificar as asneiras que fiz no passado»; «Pois, pois, isso é o que toda a gente diz e depois ninguém cumpre. O que é que fizeste de concreto?»; «Olha, comecei por mudar de casa»; «Não me parece mal, não senhor. E em que zona da cidade fica a casinha?»; «Aqui em cima, no Bairro Alto»; «Porreiro. Mas vê lá se não é ao pé dos bares…»; «Já te disse que vou deixar-me de loucuras, não te preocupes»; «’Tá bem, estou para ver. Qual é a rua?»; «É a rua da Emenda»; «A rua da Emenda?» «Sim, a rua da Emenda. Porquê?» «Tem graça»; «O que é que tem graça?»; «Rua da Emenda, não percebes? Queres corrigir a tua vida e vais morar para a rua da Emenda»; «Hmmm, não tinha pensado nisso. Se calhar é um sinal…»; «Se calhar é»; «Ainda bem que me chamaste a atenção. Rua da Emenda. É curioso, sim senhor. Não tinha pensado nisso».

Naftalina. O homem entrou na carruagem do metro e sentou-se à minha frente. Talvez 60 anos, bom porte, óculos de aros finos, mãos delicadas. No rosto, a expressão feliz de quem se exibe ao mundo. Um contentamento secreto, uma espécie de júbilo atirado à cara dos outros. Olhei melhor, tentando perceber a razão daquele sorriso. Se calhar este é o dia mais feliz da sua vida, por motivos que nunca conhecerei: o casamento de um filho, o nascimento de um neto, outra coisa qualquer. Ou então acabou de descobrir o amor verdadeiro, passados tantos anos, e vai agora ao encontro da amante, sentindo que renasce só por estar ao pé dela. Ou então… Foi nessa altura que senti o cheiro a naftalina, muito forte. Olhei outra vez para o homem e para a sua roupa. Com as mãos, ele endireitava, orgulhoso, as lapelas do sobretudo de couro preto. Um sobretudo com estilo e bom corte, antigo. Era dali que vinha o cheiro, tive a certeza. Mas o homem, talvez por habituação, já nem o sentia. Continuava feliz, em estado de graça, sorridente, enquanto o resto da carruagem não escondia o incómodo. Era para ele que toda a gente olhava. Para ele não, para o sobretudo. O homem sorriu mais ainda, compreensivo. Ao sair, três paragens depois, indiferente aos suspiros de alívio nas suas costas, quase aposto que murmurou baixinho: «Cambada de invejosos».

Azul-turquesa. Num jardim, dois velhotes lêem o jornal. Um deles dobra as folhas e diz: «Ouve esta, ó Lopes, parece que os cientistas descobriram que a cor do universo é azul-turquesa.» Olhando para a copa das árvores, o sr. Lopes responde: «Grande coisa, isso já eu sabia há muito tempo.» O outro parece espantado: «Já sabias?» O sr. Lopes levanta-se e sacode as calças: «Claro que sabia.» O amigo encolhe os ombros e fica a vê-lo caminhar na direcção de uma senhora muito frágil. É a sua mulher, adivinha-se. Tem uns setenta anos, cabelo todo branco e olhos claros. Olhos azul-turquesa.

[Textos publicados no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

O afegão intranquilo

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, em contraponto, um comerciante gentil capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio que secou de vez (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.

Terra e Cinzas. É este o título do livro que narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema, uma editora com um enorme sentido de oportunidade. Ou será de oportunismo? Se não fosse Bin Laden e o mullah Omar, se não fosse a guerra e as reportagens em directo de Cabul, se não fosse esta curiosidade mórbida por tudo o que se passa naquela calcinada waste land, o que aconteceria a este livrinho precioso? Estaria agora na banca das novidades, em todas as livrarias?
Rahimi, o autor, exilou-se aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. Chegada a altura, pôde escolher o objecto dos seus estudos universitários: literatura e cinema. Pelos vistos, não os desperdiçou. Além de um segundo romance, As Mil Casas do Sonho e do Terror, que será publicado na próxima primavera (na editora francesa P.O.L), assinou já diversos documentários. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de dizer que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Yassin, a criança filha da guerra, surda num mundo que se calou, é a imagem perfeita de um povo martirizado. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

Do baú

Para além de todas as outras funções, este blogue tem servido como arquivo dos trabalhos que vou publicando na imprensa. Quando preciso de saber em que data entrevistei determinado escritor, ou reler a crítica a um livro editado há quatro anos, vou à memória do blogue e encontro tudo num instante. Antes de entrar para a blogosfera, em 2003, os meus textos perdiam-se na existência efémera do papel e jazem hoje soterrados em hemerotecas, no fundo de dossiers que provavelmente ninguém compulsa. É esse aliás o destino da maioria das prosas de jornal: existir fugazmente e desaparecer para sempre. Na maior parte dos casos, não se perde grande coisa. Poucas são as palavras impressas que resistem ao crivo do tempo. A arqueologia será sempre uma ciência do futuro. A ciência de alguém que observa, lá ao longe, de um século inimaginável, dando valor ao que nos parece comum, banal, sem importância.
O certo é que às vezes me apetece resgatar textos que escrevi com outra idade, noutra década, pode até dizer-se noutra vida. Um dia, esforcei-me para lhes dar forma. E eles depois escaparam-me, ficaram para trás, condenados a uma penumbra que a cada dia se torna mais escura, até à aniquilação definitiva que é o esquecimento. Na maior parte dos casos, admito sem falsa humildade, não merecerão melhor sorte. Mas há algumas prosas que talvez possam voltar à superfície, nem que seja para mostrar como sobreviveram (ou não) à passagem dos anos.
Tudo isto para dizer que inauguro hoje uma nova secção, Do baú, justamente com textos antigos (sobretudo crónicas), publicados maioritariamente no antigo suplemento DNA, nos primeiros anos deste século. Eu próprio, no processo de os recuperar, em vetustos ficheiros informáticos, acabarei por redescobri-los com o distanciamento que não tive quando os escrevi.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges