Provador de sons

No mais recente livro de Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre Música (Relógio d’Água), encontrei, logo a abrir, este fragmento:

«Pensar em provadores de música semelhantes aos provadores de vinho. Provam com a orelha: trinta segundos de som e rapidamente percebem o essencial.
Sete orquestras em sete salas diferentes, salas fechadas. O provador de sons abre, uma após outra, cada uma das portas e inclina o seu sistema auditivo na direcção do som durante trinta segundos. Durante trinta segundos de vida nada existe senão trinta segundos de música. Ou seja, não são trinta segundos de vida, são trinta segundos de música. Já está. O provador segue para a sala seguinte. No fim, diz: escolho aquela sala, aquela música.»

Ora aí está uma profissão que eu não me importava de ter.

O livro sem princípio nem fim

«He found several shelves full of old editions of classical writers and began vaguely browsing, hoping to find a cheap edition of Virgil’s Aeneid, which he had only ever read in a borrowed copy. It wasn’t really the great poem of antiquity that Dorrigo Evans wanted though, but the aura he felt around such books – an aura that both radiated outwards and took him inwards to another world that said to him that he was not alone.
And this sense, this feeling of communion, would at moments overwhelm him. At such times he had the sensation that there was only one book in the universe, and that all books were simply portals into this greater ongoing work – an inexhaustible, beautiful world that was not imaginary but the world as it truly was, a book without beginning or end.»

[in The Narrow Road to the Deep North, de Richard Flanagan, Chatto & Windus, 2014]

Uma breve melodia

«(…) Da rua, além das portadas, sobe o ruído do arranque dos carros. Às vezes alguém chama um nome, um carro buzina. Em breve começarão as chuvas do Outono, e haverá o som da água nos vidros e nos parapeitos, trovões, algum granizo, e a surdina que a chuva provoca aos sons da cidade. Há o silêncio das paredes, da escuridão; os meus passos no corredor. Ando contigo de um lado para o outro, e canto para ti em voz baixa: Mache dich, mein Herze, rein.
Sempre esta ária da Paixão segundo Mateus. A última ária, para baixo, tão solene e íntima, com as cordas tão doces a envolverem a voz. Não sei o que as palavras querem dizer. Bastaria abrir o caderno que acompanha o CD, ler o texto, as traduções para inglês, para francês, compreender o texto da ária. Mas não procuro o caderno, não o abro; não quero saber o significado das palavras, só cantá-la assim, em voz baixa, verter a melodia desta música sobre o silêncio que nos toma, sobre o teu corpo a adormecer.
(…) Canto em voz baixa: Mache dich, mein Herze, rein. Vibração da minha voz, batimento do teu sangue, agitação nos meus tímpanos cansados do dia. E do teu sono, que começa, sobe uma aura de calor. Contra o meu peito, sinto as tuas pulsações mais lentas: gestos, sonhos de sons e perfumes, o conhecimento do corpo – sem palavras. Afastas-te nesse mundo interior, que eu não conheço, ou que já conheci e esqueci.
A mim, a vigília. Narrativas, teorias. A andar no escuro, a pensar no trabalho e a lembrar tantas coisas, textos que não tenho tempo de escrever. Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach, ainda procurarei durante muitos anos. Penso no tempo. Penso na memória dolorosa das imagens. Penso na tua fragilidade, e no cerco do mundo; a tua respiração, e a violência que empurra os corpos até ao vazio. A tua fragilidade nas minhas mãos e o mundo lá fora contra nós.
Mas murmuro sempre, continuo a murmurar para ti, sempre, Mache dich, mein Herze, rein…, como se estas notas de música pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos. Uma breve melodia, no meio da noite, tudo o que temos, tudo o que existe em nós.»

[in Bach, de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2014]

Quatro poemas de Vítor Nogueira

REFÚGIO

Seja como for, só te podes culpar a ti mesmo.
De algum modo, sempre foste fascinado
pelas estrelas. Mas um céu nebuloso decidiu
juntar-se a ti, sombras opacas num jogo
complicado. Já não é como um vestido,
não podes espreitar por baixo. Setembro
traz consigo os dias curtos. Tens de encontrar
um refúgio, por mais pequeno que seja.

***

PAREDES

De repente não te sentes muito bem.
És a única pessoa numa sala cheia,
uma sala cheia de rostos que não se dissipam.
Estes retratos antigos deixam-te pouco à-vontade.
Ninguém sobe, ninguém desce, ninguém entra,
ninguém sai. E contudo, caro amigo,
todas as regras gerais têm excepções.
Talvez possas destruir o sistema só por gozo,
deixar os pregos sem nada, repartidos como estão
pelas paredes da sala. A memória, no entanto
(dentes grandes, aparelhos de colheita),
é mais forte e corajosa do que tu. Sentir isso
nas entranhas produz um grande vazio.

***

SEMENTES

É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

***

FORMOL

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre
a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre
o mundo. À volta desta praça, quis o tempo
conservados em formol os edifícios, esquinas
de onde surgem cada vez mais perguntas
sem aviso. Escondida pela fachada do liceu
há-de estar ainda a velha biblioteca
onde Ulisses veio sentar-se à tua frente,
cotovelo esquerdo alicerçado no tampo
da secretária, braço servindo de coluna,
rematado em capitel pelo punho semicerrado
que lhe amparava o queixo e, acima do queixo,
o olhar e as ideias. Eras demasiado novo
para todos aqueles livros, todos aqueles ossos
arrumados nas estantes. Livros como este,
que se fecha sobre si e só dói a quem o escreve.

[in Segunda Voz, Averno, 2014]

Primeiros parágrafos

«Abro os olhos e não sei onde estou nem quem sou. Não é nada de incomum, passei metade da minha vida sem saber. Ainda assim, parece diferente. Esta confusão é mais assustadora, mais absoluta.
Olho para cima. Estou deitado no chão, ao lado da cama. Já me lembro. Passei da cama para o chão a meio da noite. Faço-o a maior parte das noites. É melhor para as minhas costas. Demasiadas horas num colchão macio provocam-me um sofrimento atroz. Conto até três e dou início ao longo e penoso processo de me levantar. Viro-me de lado, a tossir e a gemer, depois enrolo-me em posição fetal; por fim fico de bruços. Agora espero, e espero, até que o sangue volte a circular.
Sou relativamente jovem. Trinta e seis anos. Mas, quando acordo, sinto-me como se tivesse noventa e seis. Depois de três décadas de sprints, paragens bruscas, saltos constantes e aterragens rudes, o meu corpo já não parece ser o meu corpo, sobretudo pela manhã. Por conseguinte, a minha mente também não parece ser a minha mente. Quando abro os olhos, sou um estranho para mim mesmo e, embora isso, uma vez mais, não seja nada de novo, é mais pronunciado de manhã. Revejo rapidamente os factos básicos. O meu nome é Andre Agassi. Sou casado com Stefanie Graf. Temos dois filhos, um menino e uma menina, de cinco e três anos de idade. Vivemos em Las Vegas, no estado de Nevada, mas, de momento, estamos instalados numa suíte do hotel Four Seasons de Nova Iorque, porque estou a participar no Open dos Estados Unidos de 2006. O meu último Open dos Estados Unidos. Na verdade, a última competição na qual participarei na vida. Ganho a vida a jogar ténis, embora odeie o ténis; odeio-o com uma paixão secreta e sombria, sempre o odiei.»

[in Open – A minha história, de Andre Agassi, Cavalo de Ferro, 2014]

Primeiros parágrafos

«Havia noventa e sete publicitários no hotel e, pelo modo como monopolizavam as linhas de longa distância, a rapariga do 507 teve de esperar do meio-dia até quase às duas e meia para lhe passarem uma chamada. Mas não ficou sem fazer nada. Leu um artigo numa revista feminina de bolso, intitulado “O Sexo é o Paraíso… ou o Inferno”. Lavou o pente e a escova. Tirou a nódoa da saia do fato bege. Mudou o botão da blusa da Saks. Arrancou dois pelos que havia pouco lhe tinham aparecido num sinal. Quando a telefonista finalmente ligou para o quarto, estava sentada no banco da janela e quase a acabar de pôr verniz nas unhas da mão esquerda.
Era daquelas pessoas a quem um telefone a tocar não faz com que larguem tudo. Era como se o telefone dela tivesse estado a tocar continuamente desde que atingira a puberdade.
Pegando no pequeno pincel do verniz, enquanto o telefone tocava, acabou a unha do dedo mindinho, acentuando o con- torno da meia-lua. Colocou então a tampa no frasco de verniz e, levantando-se, agitou a mão esquerda — ainda húmida — de um lado para o outro. Com a mão seca, pegou num cinzeiro a abarrotar do banco da janela e levou-o para a mesinha de cabeceira, onde estava o telefone. Sentou-se numa das camas e — era o quinto ou sexto toque — levantou o auscultador.
— Está — disse ela, mantendo os dedos da mão esquerda esticados e afastados do roupão de seda branca, que era tudo o que tinha vestido, além dos chinelos — deixara os brincos na casa de banho.
— Tenho aqui a sua chamada para Nova Iorque, senhora Glass — disse a telefonista.
— Obrigada — disse a rapariga, e arranjou um lugar para o cinzeiro em cima da mesa de cabeceira.»

[in Nove Histórias, de J. D. Salinger, trad. de José Lima, Quetzal, 2014]

Quatro poemas de Daniel Jonas

NOSTALGIA

Perder uma fotografia
é perder
um momento
duas vezes.

***

beslan

OSSÉTIA

Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.

Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.

De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.

O inconsolável.

O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.

***

SPLEEN

Cemitério de todos os sóis
o mar, cinza
onde habita o beemote do tempo,
a grande baleia do oblívio
sob socalcos de aço,
na chapa recurva,
sucata de toda a metáfora.

Porquê dizê-lo?
Cansaço de o dizer…

O mar é uma maçada.

***

CANTONEIROS

A pura simetria dos cantoneiros
concordes na sintonia clássica
da sua dança, no modo como desmantelam
a embriaguez, induzem o vómito a caixotes
ou dispõem de bolas de plástico
e as lançam para a baliza ruminativa
sem tempo para comemorarem os golos.

Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.

Acrobatas da morosidade
fúnebre do seu curso,
a cidade ignora-os
ou execra aquele féretro deletério
se apanhada no cortejo de ocasião.

[in Passageiro frequente, Língua Morta, 2013]

Primeiros parágrafos

«A estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, contra todas as aparentes probabilidades, não se fez na Ópera da Corte de Viena. Os censores imperiais, e portanto a direcção do teatro, acharam-na imoral por utilizar a personagem bíblica e, sobretudo, pela volúpia que emanava do tema e da música. Começou por ser produzida em Dresden, portanto na Alemanha, e na Áustria só em Linz viu a luz da cena. Foi um acontecimento. Na estreia compareceu muito público vindo de Viena; havia grande excitação por toda a Áustria e à laia de piada um jornal anunciou que os caminhos-de-ferro até podiam chegar a preparar comboios especiais, para ser possível chegar a tempo de assistir a um dos dois espectáculos anunciados. Entre os assistentes curiosos encontravam-se Mahler, a sua bela mulher Alma e o jovem Schoenberg; Puccini e os seus amigos tinham reservado um camarote.
Hoje também se sabe que o jovem Hitler arranjou dinheiro para poder participar na grande festa musical. Aliás, Hitler gostou muito de voltar a Linz; não era a sua terra natal, mas tinha ali passado alguns anos da sua mocidade, que ele relembrava com muita saudade. Nessa época, a cidade era menos industrial do que chegou a ser; era tipicamente austríaca, e como então se dizia o rio Danúbio gostava ali de todos os seus trezentos mil habitantes, ao passo que em Viena o danúbio era apenas folclore.
Hitler levava uma mochila de viagem cheia de pão com manteiga e queijo, para conseguir sobreviver. Uma vez em Linz sentiu-se feliz e infeliz. Feliz por estar “em casa”, infeliz porque não tinha bilhete para assistir a Salomé. Nem bilhete, nem dinheiro para o bilhete, se ainda houvesse algum disponível. A sua queixa chegou aos ouvidos de Alma Mahler. Teve pena dele; falou com o marido, que não recusava nada à sua amada esposa, e ele arranjou uma entrada para Hitler, embora só fosse um strapontin (strapuntino, em italiano). Hoje em dia, os grandes teatros raramente dispõem desse banco rebatível, de facto um assento auxiliar utilizado em ocasiões especiais e normalmente mantido dobrado. Como não é um lugar normal, é claro que só serve quando há extrema necessidade de o utilizar, e também para os polícias se sentarem. Hitler começou por agradecer a Gnädige Frau, mas ainda sem saber que não ia ocupar um lugar idêntico ao dos outros. Uma vez sentado começou a pensar se ia ficar nesse lugar humilhante, se deveria sair ainda antes do início da abertura de Salomé, ou, pelo contrário, se sairia provocatoriamente um pouco antes do fim.»

[in Remington, de Jorge Listopad, Cavalo de Ferro, 2013]

Primeiros parágrafos

«Assusta‐a a rudeza do mais velho, o seu rosto de ratazana esgalgada; o olhar indecifrável do outro, o gago. São os seus cunhados. Chegados há uma semana a Maputo para o enterro do seu marido.
Não param de manducar, de clamar por bebida, de vasculhar tudo na casa, metediços. A ocupação da casa de banho ficou vitalícia (o mais novo penteia o bigode com a sua escova de dentes), nos intervalos de emporcalharem lençóis, toalhas de mesa, sofás, de ranho e merda e vinho e esperma. Mal acorda, ainda enevoada, vê que adejam pela casa, sem decoro, os maxilares infatigáveis com que retalham o dia, enquanto plangem guitarras nas marrabentas («k’há n’pfa ndy nga psi tive / Eh psaku ku unandi ka Mandjólò»), e o movimento dos lábios suplica por reforço: «“ma‐ma‐mã” tou‐tou a pe‐pe‐dî…»
A sua mãe, farta daqueles modos, resolvera voltar para casa e levar as crianças, advertindo‐a na porta, esta gente não presta, se armarem confusão fala com o polícia do sétimo. E fora, as crianças de olhos pisados pelo choro. O polícia do sétimo – sentira um arrepio – e veio‐lhe à cabeça: o homem que prendeu o meu marido. — “Ma‐mamã”… — repisa o menos abrutalhado — me me dá vi‐nho!
O outro, na varanda, fuma, desconcerta a paisagem. Assim que chegaram, gabaram a vista, «“ouvera” dizer que a casa do mano ficava no alto, mas este alto, chi, é graúdo», explicou o Ratazana, expondo pela primeira vez as gengivas em sangue, que a arrepiavam; depois, ficou claro que os animavam mais os dois vasos de erva que o marido pusera na varanda do que a vista. Só vira duas vezes aqueles irmãos do marido. Quando fora apresentada à família dele, no casamento, e na segunda vez que subiram à Beira, nascida a mais nova, para mostrar a miúda. Nem lhes conseguiu fixar o nome, queria era esquecê‐los. Sempre a incomodaram, aquelas gengivas em sangue, o verdete daquele canino talhado a meio. Na Beira, o Ratazana, tinha duas mulheres, nove filhos, e vivia de biscates. O outro, professor primário, fora deixado pela mulher, depois de a surrar quase até à morte, aos sete meses de gravidez. Por ciúmes do pastor, «ele te‐tem aque‐la fala li‐lisa e mulher go‐gosta», desculpou‐se. O marido ao pé deles era um príncipe, articulado, elegante, perfumado. O tio Alberto, empregado na farmácia da Polana, até comentara, «Chi, aquele moço nem parece ndau, é um machope de ventre enganado…»
Conhecera‐o numa festa da McCel que assinalava o arranque da reabilitação da Feira Popular de Maputo. Ele era o chefe dos seguranças. Adorava vê‐lo a dar orientações pelo walkie‐talkie. Excitava‐a o ar decidido dele, o seu fluido dizer, sem espinha ou caroço. Só muito depois, já nascera o segundo filho, soube que o seu verdadeiro negócio era o tráfico. O esquema. Vário. Que importava, se a metera a estudar, se graças a ele tinha feito a 11.a classe, se era bom com a criança? Já se tinha matriculado na 12.a quando ele foi preso. Na ocasião nem aparecera, mas de certeza que o polícia do sétimo estava metido. Um mês depois, o marido envolveu‐se num motim na prisão e foi abatido. Há dez dias. Separada do seu homem há dez dias, por uma bala que lhe engarrafou a alma. Dez dias separam a memória fresca do marido daqueles lábios grossos de sangue coagulado, que agora, de viés, pedem, insistentes: — “Ma‐ma‐mã”, pe‐pe‐ço sardinha!»

[in A Maldição de Ondina, de António Cabrita, Abysmo, 2013]

Primeiros parágrafos

«Nós, os mirones, praticamos, às vezes, formas muito rebuscadas do nosso vício. Não nos basta espiar e ser indiscretos, não nos contentamos em indagar a vida dos outros – necessitamos absolutamente de ver para além do que pode ser visto, aquilo que a aparência oculta, e até de construir acontecimentos mesmo quando e onde nada parece existir. É por isso que, enquanto caminho pela cidade, gosto de fotografar dissimulada e aleatoriamente as pessoas à minha volta, a ver se, por acaso, o disparo da máquina capta algum movimento interessante, um gesto ou um meneio de cabeça que, uma vez congelados numa só fracção de segundo, mereçam, depois, que perca tempo a reenquadrar e redistribuir as sombras e a luz até ao ponto em que uma imagem banal e desinteressante se transforma num instantâneo fotográfico que possa vender a alguma revista de actualidades (ou de mexericos).
O mais comum é que as imagens assim captadas sejam totalmente desinteressantes e que fiquem tremidas ou desfocadas, sem nenhum préstimo. Quase sempre as apago logo a seguir, assim que as vejo no pequeno monitor da parte de trás da máquina e confirmo que não há ali nada que se aproveite. Mas não esta manhã. A fotografia que tirei perto do mercado, quando aquela moça bonita atravessou a rua entre o movimento das carrinhas para o Tarrafal e para a Assomada, ou para a Cidade Velha, acabou por me baralhar o dia, por esticá-lo e torcê-lo como se as horas tivessem adquirido uma qualidade elástica, mole, semelhante à massa de um bolo quando termina de ser batida. Isto, porém, só o percebi mais tarde, muito mais tarde, depois que regressei a casa, descarreguei as imagens para o computador e comecei a perceber as coisas que me tinham acontecido, e que talvez não fosse tudo um acaso e tivesse existido, afinal, um nexo qualquer entre factos aparentemente sem importância nenhuma.»

[in Zero à Esquerda, de Manuel Jorge Marmelo, edição do autor, 2013]

Primeiros parágrafos

«Antes de mais, repara, Almodôvar, tu não estavas cá.
As coisas ficaram muito difíceis muito depressa. Ou talvez tenha sido sempre assim, talvez o mundo tenha sido sempre um lugar complicado. Não creio que tenha começado quando foste preso, ainda que, de alguma forma, isso me pareça o início de tudo. E a tua ausência reforçou as nossas dores, a tua decisão de não quereres ver ninguém teve consequências. O que é o mesmo que dizer: não estávamos preparados para não te ter
aqui. Deixaste demasiado espaço vazio e nenhum de nós sabia muito bem mover-se na amplitude desse abandono. Mas tu não estavas cá, nós não podíamos fazer mais do que tentar. Ainda não sei se falhámos. Sei apenas isto: não serás tu a decidir sobre os nossos fracassos. Em algum momento da história, a coerência do teu silêncio tornou-se uma condição.
Imagino-te aí dentro. Um lugar que não é teu, no qual tiveste de aprender a encaixar o corpo e entender leis que estão escritas apenas nos olhos dos homens à tua volta. Foi difícil? Doeu-te a força das paredes em redor? Sentiste o terror de encarar o olhar armado dos teus novos companheiros? Cá fora, todos crêem que sim. Na primeira semana que passaste aí, a Clara ligava -me todas as noites, depois do jantar, a chorar, a respiração destravada, quase a sufocar, a chamar-te “coitadinho” como se estivesse a falar de uma criança ainda leve de culpas, como se tivesse enviuvado cedo demais, a suspirar “o meu amor”, a perguntar-me “e se lhe fazem mal?”. O teu filho, o pequeno Vasco que já é mais alto do que eu, chegava a casa da escola e trancava-se no quarto a tocar violino, as pautas espalhadas pelo chão, o vibrar agudo das cordas a subir pelas paredes do prédio. E o Xavier a estudar os códigos penais na Internet, à procura de uma cláusula qualquer que te tirasse daí, a repetir “o gajo não aguenta, Daniel, o Almodôvar não foi feito para estar atrás
das grades”. Os teus amigos reunidos à mesa em cafés, restaurantes, cozinhas, a chocarem os copos com entusiasmo em tua honra para disfarçarem o pressentimento de que alguma coisa má te estava para acontecer. Ninguém entendia nada. Como é que aquilo podia ser? Um homem bom, sorriso honesto, palavras sempre justas. Marido. Pai. Amigo. Qualquer explicação parecia uma fantasia. E eu passava a vida a desculpar-te diante de todos, a dizer “ele teve os seus motivos, nós conhecemo-lo, ele não é outra pessoa por estar numa prisão”. Nessa altura eu ainda não estava zangado contigo.»

[in Índice Médio de Felicidade, de David Machado, D. Quixote, 2013]

Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.
Foi na biblioteca, a 30 de Julho de 1943. Atingiu-o na cabeça um grande vaso que um administrador achara por bem colocar na estante por trás da sua secretária. Quando estava só, John tinha a tentação de se espreguiçar, um gesto que por pudor só se permitia uma vez por dia. Impusera-se esse cilício da única espreguiçadela diária, mas o calor amolecia-lhe a fé e tornava o indolente, como ele dizia na catequese acerca dos negros, falando às crianças de Gorton, advertindo-as para o terrível pecado da preguiça, fazendo-o com verdadeira convicção, mas sem nunca lhes lembrar, apesar de tantas lições ter dado nessa paróquia, que era vítima de um pecado semelhante àquele de que dominicalmente acusava os africanos. Bocejou com vigor e começou a erguer os braços de forma tímida. Esticou-os com languidez, prolongando o bocejo. Nesse momento, as pernas traseiras do seu banco, gastas pelo muito tempo que John passava sentado, escorregaram numa zona do soalho que durante a limpeza matinal fora esfregada com maior vigor do que o habitual e que depois de almoço — quando os ditos factos se deram — permanecia ainda algo húmida. O acidente apanhou a espreguiçadela numa sorte de momento descendente. Os dedos entrelaçados do diácono tinham atingido o zénite da preguiça e preparavam-se para a descida. Assustou-se com o brusco movimento para diante do seu banco.
As suas mãos procuraram o amparo da estante, mas não encontraram senão o rebordo do naperão colocado sob o vaso, uma tentativa para salvar-se que outro efeito não teve senão fazer o vaso precipitar-se sobre a sua cabeça, o que aconteceu já depois de ter chegado ao chão, onde primeiro bateu com a nuca, fracturando de imediato o occipital e partes do parietal. No vaso crescia o que teria sido um esplêndido philodendron, que o administrador insistira em plantar ele próprio após mandar vir a semente do Brasil por posta aérea. Tinha achado a planta bela ao vê-la num catálogo, sabendo de antemão e de fonte segura que a mesma não se daria naquele clima, trazendo-a então por capricho e plantando-a, num segundo e ainda mais terrível capricho, por trás da secretária do diácono John Heel, no qual poderia depois pousar a culpa que o assolaria por a planta não ter medrado, insinuando talvez que o outro não a teria regado como era próprio, mas não se imaginando capaz de o punir com tão temível morte por tão magra ofensa, o crânio esmagado pelo pesado vaso que continha o amarelecido e raquítico philodendron e os poucos quilos de terra que o mantinham.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]

Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]

Primeiros parágrafos

«Tocaram. Abri. Nunca o fizera. No patamar das escadas, com o olhar feroz e o gesto intrépido adquiridos após longos anos de disciplina férrea sob o comando de sargentos desumanos, um funcionário dos correios brandia uma carta registada dirigida à minha pessoa e à minha morada. Antes de receber o envelope, confirmar a minha identidade e assinar o talão, tentei safar-me alegando que ali não vivia tal pessoa, que se tivesse vivido ali estaria agora morta e que, como se isso fosse pouco, o defunto tinha ido de férias na semana anterior. Nem assim.»

[in O Enredo da Bolsa e da Vida, de Eduardo Mendoza, trad. de João Pedro George, Sextante, 2013]

Primeiros parágrafos

«Billy Gray era o meu melhor amigo e eu perdi-me de amores pela mãe dele. “Amor” é capaz de ser uma palavra demasiado forte, mas não conheço nenhuma mais fraca que sirva. Tudo isto aconteceu há meio século. Eu tinha quinze anos e Mrs. Gray trinta e cinco. Estas coisas são fáceis de dizer, visto que as palavras não sentem vergonha e são imunes à surpresa. Se calhar, ela ainda é viva. Teria… quê?, oitenta e três, oitenta e quatro? Nada de especial nos tempos que correm. E se eu tentasse encontrá-la? Isso é que seria uma grande façanha. Gostaria de estar de novo apaixonado, gostaria de voltar a apaixonar-me, só mais uma vez. Podíamos fazer um tratamento à base de injeções de glândulas de macaco, ela e eu, e ficávamos como há cinquenta anos, rendidos a êxtases passionais. Pergunto-me como é que ela estará, quer dizer, partindo do princípio de que ainda habita este mundo. Ela era tão infeliz naquela época, só pode ter sido infeliz, apesar da sua corajosa e persistente boa disposição, e espero do fundo do coração que as coisas tenham melhorado.»

[in Luz Antiga, de John Banville, trad. de José Vieira Lima, Porto Editora, 2013]

Primeiros parágrafos

«Receoso do ímpeto da sua montada, um orgulhoso baio espanhol, Pierre Roger de Beaufort pôs pé em terra queixando-se do mau tempo. É estimulante ouvir como blasfema num latim puríssimo e diáfano um dos homens mais poderosos da cristandade, sobretudo se considerarmos que este servidor de Deus tem apenas vinte anos. Embora, com efeito, a queixa do cardeal diácono, futuro Gregório XI, não pareça desproporcionada, porque chove ininterruptamente há duas semanas, concretamente desde que De Robertis se trancou na torre de menagem do castelo de Sansepolcro para completar a sua última obra.
Beaufort entrega a um fâmulo as rédeas do seu cavalo com mão habituada a conceder e a tirar. É a mão de um príncipe da Igreja, órgão que unge e condena, sinédoque do objetivo ecuménico que representa, mão que no futuro será recordada nos livros de texto como a do último francês que guardou entre os mortais as chaves do Céu.
Entretanto, na parede norte da torre de menagem do castelo de Sansepolcro, como uma oferenda inscrita num cubo de pedra, outras mãos, as de De Robertis, concluíram o fresco que, ocupando apenas quatro metros quadrados, ameaça derrubar um antigo mundo de princípios.
Aos pés da pintura, vestígios de uma tarefa tão humilde como imperecível, podem ver-se pedaços de parede, cachos de uvas e caroços de cerejas, umas sandálias rebentadas, uma ânfora com azeite grego que destila lágrimas perfumadas.»

[in A Luz é Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Assírio & Alvim, 2013]

Primeiros parágrafos

«1.
Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve.»

[in Diário da Queda, de Michel Laub, Tinta da China, 2013]

Primeiros parágrafos

«(…) Claro que eu, como leitor incansável, tinha as minhas ambições. Também queria escrever um livro. Sentava-me frequentemente em frente de uma máquina de escrever e escrevia coisas que deitava fora. Raramente ia além da segunda página. Cheguei mesmo a pensar escrever um livro só com inícios. Inícios de romances. Sempre gostei dos primeiros parágrafos dos livros e até achei que poderia ser uma boa ideia: um livro feito de inúmeros livros que não acabavam, um livro feito de começos. No fundo, um livro como a nossa vida. Sabemos mais ou menos como começou, mas não fazemos ideia de como acaba. Seria mais realista se escrevêssemos a vida só com primeiros parágrafos, pois os finais, no que respeita a nós mesmos, são uma fantasia.»

[in Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2013]

Óscar Lopes por ele próprio

«Eu sei que não sou Napoleão, nem talvez doido, nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguísta ou político, assim como nunca me revejo, num estilo ou numa visão pessoal do mundo, a não ser pelas limitações ou pontos mortos a que se sujeita tudo aquilo a que temos o ensejo e a gana de fazer algum dia. Não confio em qualquer título de auto-reconhecimento, porque tanto as nossas imagens a um espelho polido como as nossas imagens que os olhos alheios nos devolvem estão, não apenas erradas na sua simetria axial, mas medusadas pelo reflexo inverso do nosso próprio olhar que fita, e fixa, essas imagens.
Nunca me senti a fazer crítica: apenas se trata de obedecer a uns impulsos, sempre complicados e em conflito, no sentido de continuar, de algum modo, os movimentos também conflituais de que um texto é feito, ou de que mais evidentemente participa. Não faço linguística: trata-se apenas de, com a mais rigorosa metodologia disponível, reflectir sobre certos gestos do nosso espontâneo modo de falar, gestos que têm que ver com relações especiais de tempo, de atitude e de referência da comunicação social possível. Também não sou político por vocação: apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há precisamente seis séculos ardiam em fidelidade dinástica castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império pluricontinental dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmados por uma Europa problemática, uma Europa muito diferente daquela que, no Canto III d’Os Lusíadas, avança, em 15 estrofes, desde os Urales até “onde a terra acaba e o mar começa”, ao passo que a nova Europa, a que afinal ainda não pertencíamos detém-se no Oder e ainda parece ter a capital militar no Pentágono.»

[Excerto da alocução na entrega do Prémio Jacinto do Prado Coelho (1984), atribuída pela Associação de Críticos Literários em Maio de 1985, transcrita e actualizada in Cifras do Tempo, editorial Caminho, 1990; roubado ao Rui Almeida, que o partilhou no Facebook]

Primeiros parágrafos

«Era uma vez um homem chamado Albinus que vivia em Berlim, na Alemanha. Era rico, respeitável, feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma amante jovem; amava; não era amado; e a sua vida acabou em desastre.
Isto é a história toda e podíamos tê-la deixado por aqui se não fosse o proveito e o prazer no contar; e embora haja numa pedra tumular espaço de sobra para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem-vindos.»

[in Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov, trad. de Telma Costa, Relógio d’Água, 2013]

Primeiros parágrafos

«Esta vai ser uma história de terror. Vai ser uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que a conto. Sou eu que falo e por isso não parecerá. Mas no fundo é a história de um crime atroz.
Eu sou a amiga de todos os mexicanos. Podia até dizer: eu sou a mãe da poesia mexicana, mas o melhor é não dizê-lo. Conheço todos os poetas e todos os poetas me conhecem a mim. Por isso podia até dizê-lo. Podia dizer: sou a mãe e sopra um zéfiro danado há séculos, mas o melhor é não dizer. Podia dizer, por exemplo: conheci Arturito Belano quando ele tinha dezassete anos e era um menino tímido que escrevia peças de teatro e poesia e não sabia beber, mas seria de alguma forma uma redundância e a mim ensinaram-me (com um chicote ensinaram-me, com uma vara de ferro) que as redundâncias sobram e que o argumento por si só é suficiente.
O que eu posso dizer, sim, é o meu nome.
Chamo-me Auxilio Lacouture e sou uruguaia, de Montevideu, mas quando me dá a pancada, a pancada da saudade, digo que sou charrúa, o que acaba por ser a mesma coisa, embora não seja a mesma coisa, e que confunde os mexicanos e, por conseguinte, os latino-americanos. Mas o importante é que um dia cheguei à Cidade do México sem saber muito bem porquê, nem para quê, nem como, nem quando.»

[in Amuleto, de Roberto Bolaño, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2013]

Primeiros parágrafos

«Não sou má pessoa. Eu sei que isto soa defensivo, pouco escrupuloso, mas é verdade. Sou como toda a gente: fraco, cheio de falhas, mas basicamente bom. A Magdalena, porém, não tem a mesma opinião. Acha que eu sou um dominicano típico: um sucio, um cabrão. É assim, há uns bons meses, quando estava ainda com a Magdalena e vivia quase sem preocupações nenhumas, enganei-a com uma miúda que tinha um penteado anos oitenta e uma tonelada de cabelo. Pior, não contei à Magda. Vocês sabem como estas coisas são. Um esqueleto malcheiroso como esse, mais vale enterrá-lo no quintal da nossa vida e pronto. Ela só descobriu porque a tipa lhe escreveu uma puta duma carta. Uma carta cheia de pormenores. Com merdas que uma pessoa não conta sequer aos amigos numa noite de copos.»

[in É Assim Que a Perdes, de Junot Díaz, trad. de José Miguel Silva, Relógio d’Água, 2013]

Primeiros parágrafos

«”O facto é que sempre tive mais dúvidas do que certezas.”
“Tem a certeza?”
“O quê? Ah, está a ser irónico. Mas é verdade. E sempre achei que essa talvez seja a minha melhor qualidade. Notou o talvez, espero.”
A noite prometia ser longa. Mas eu tinha dito que sim, que viesse. E até, se necessário, que poderia dormir na saleta-quarto lá em cima. Sofá japonês dos que se puxam as costas para a frente, depois para trás, e fica cama. Casa de banho minúscula mas isto não é hotel nem residência de diplomata. “Não vai ser necessário. Terei de ir antes. Devo ter de ir. Por isso é melhor que você saiba tudo. Não, mas é verdade. O que lhe disse das dúvidas.”
Obviamente ia continuar até não haver amanhã. Ou para conseguir que não houvesse amanhã. Afinal conhecendo‐nos pouco, de início só de encontros ocasionais em funções públicas aqui e além. É certo que ao longo de vários anos. Na Embaixada em Londres, duas ou três vezes em Lisboa, uma vez na Gulbenkian em Paris. Ambos evitando grupos grandes onde ninguém ouve
ninguém, gostos semelhantes, boas conversas, mas nada de exageradamente pessoal. Depois passou a telefonar‐me antes de vir a Londres, para saber de óperas e teatro que valesse a pena. Tornámo‐nos tão amigos quanto é possível ser a partir de certa idade. E tinha lido alguns dos meus livros, o que sempre afaga o narcisismo. A dizer que gostava dos meus romances por serem inconclusivos. Não me pareceu grande recomendação mas ele explicou. Era como se as vidas das personagens continuassem depois de o livro acabar. Ou como se só então pudessem começar. Considerava que deveria ser essa a função dos escritores. Libertar as personagens. Propiciar‐lhes futuros. Dar‐lhes o livre‐arbítrio que não têm. Não sei se é verdade ou não mas tanto faz, o que importa é que era elogio. Em todo o caso, como geralmente acontece quando se fala dos outros, devia ser de si próprio que estava a falar. De ele próprio querer ser inconclusivo.»

[in Tão Longo Amor Tão Curta a Vida, de Helder Macedo, Presença, 2013]

Primeiros parágrafos

«A tragédia do Largo do Rato conduziu a que muitos jornalistas e outras pessoas tenham insistido comigo para os ajudar a compreender aquilo que se passou. Profissionalmente não devo – e pessoalmente não quero – trazer a público elementos do meu trabalho que possam permitir mais especulação acerca do comportamento, da personalidade e das motivações do meu paciente. O Verão de 2012 foi terrível para ele. Aquilo que o atormentava estava, receio bem, muito para além dos meus fracos poderes, dos diálogos que oriento ou acompanho, dos remédios que prescrevo. Dividido como estava entre a vontade de ver claro em si e a tendência neurótica para perceber em tudo uma conjugação maléfica de factores independentes da sua vontade, o meu paciente não conseguiu integrar ou dar conta do sofrimento. Tomei muitas notas daquilo que ele me disse, do que não me disse mas adivinhei, recebi dele fragmentos de um texto, talvez uma espécie de romance, que estava a escrever e nunca terminou, palavras que acredito terem tido relação directa ou indirecta com o seu mal e com aquilo que sucedeu no decorrer do Verão. Vou utilizar aqui os textos que ele me enviou e as notas que tirei das sessões realizadas com ele, mas sem me ocupar de aspectos terapêuticos, porque o seu mapa psíquico e os meus procedimentos para navegar nesse mapa e para o ajudar a fazer o mesmo apenas podem interessar aos meus colegas, e não é a eles que este livro se dirige.»

[in O Verão de 2012, de Paulo Varela Gomes, Tinta da China, 2013]

Primeiros parágrafos

«Velhinho,
Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.
Há uma série de coisas que são um problema:

1. A tua pessoa;
2. A tua pessoa nunca estar cá;
3. Não termos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
4. Não termos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
5. Andarmos totalmente putas da vida porque não temos orgamos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
6. Não falarmos porque não temos as nossas conversas depois dos orgasmos que não temos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá.

Por mais que tentemos, não conseguimos perceber porque é que continuas em Armação a fazer turistas por vinte e cinco euros, em vez de estares aqui a cumprir o teu dever com a cabeça entalada no meio das nossas pernas.
Vamos abrir outra garrafa e cheirar o que ainda aí houver, para clarear as ideias. Esperamos que não tenhas tomado tudo, como fazes sempre. E essa é a outra coisa que nos deixa ainda mais fodidas. Nós às vezes também fumamos os restos do chocolate ou damos o último tirinho. Mas sentimo-nos mal. Sabemos que não o devíamos fazer. Tu não. Tu nem pensas nisso. Quando vês uma carreirinha de sobra, se for preciso até vais para a cozinha só para não teres de a dividir, como aconteceu no mês passado.
qué que tás a fazer?
tava a cheirar o restinho
vieste cheirar e não me chamaste?
era o meu resto
e não podias dividir?
já tínhamos dividido, tu ficaste com quase tudo e sobrou meia linha pra mim
metade dessa meia dava na boa pra mim
tu fizeste as outras três cavia
isso foi antes
era só um tirinho, nem deu pra nada
deu pra ti, podia ter dado pra mim
mas tu já tinhas dado, dama
tu não me dames
amanhã há mais, prometo, era só uma miséria
é bom caja, pobre
não me chames pobre
preto
mulato, se fosse preto matava-me.»

[in Maria dos Canos Serrados, de Ricardo Adolfo, Alfaguara, 2013]

Primeiros parágrafos

«His children are falling from the sky. He watches from horse-back, acres of England stretching behind him; they drop, gilt-winged, each with a blood-filled gaze. Grace Cromwell hovers in thin air. She is silent when she takes her prey, silent as she glides to his fist. But the sounds she makes then, the rustle of feathers and the creak, the sigh and riffle of pinion, the small cluck-cluck from her throat, these are sounds of recognition, intimate, daughterly, almost disapproving. Her breast is gore-streaked and flesh clings to her claws.
Later, Henry will say, ‘Your girls flew well today’. The hawk Anne Cromwell bounces on the glove of Rafe Sadler, who rides by the king in easy conversation. They are tired; the sun is declining, and they ride back to Wolf Hall with the reins slack on the necks of their mounts. Tomorrow his wife and two sisters will go out. These dead women, their bones long sunk in London clay, are now transmigrated. Weightless, they glide on the upper currents of the air. They pity no one. They answer to no one.
Their lives are simple. When they look down they see nothing but their prey, and the borrowed plumes of the hunters: they see a flittering, flinching universe, a universe filled with their dinner. All summer has been like this, a riot of dismemberment, fur and feather flying; the beating off and the whipping in of hounds, coddling of tired horses, the nursing, by the gentlemen, of contusions, sprains and blisters. And for a few days at least, the sun has shone on Henry. Sometime before noon, clouds scudded in from the west and rain fell in big scented drops; but the sun re-emerged with a scorching heat, and now the sky is so clear you can see into Heaven and spy on what the saints are doing.
As they dismount, handing their horses to the grooms and waiting on the king, his mind is already moving to paperwork: to dispatches from Whitehall, galloped down by the post routes that are laid wherever the court shifts. At supper with the Seymours, he will defer to any stories his hosts wish to tell: to anything the king may venture, tousled and happy and amiable as he seems tonight. When the king has gone to bed, his working night will begin.»

[in Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel, Fourth Estate, 2012]

Primeiros parágrafos

«No dia 16 de novembro, Paulo abriu os olhos e voltou-se para a nesga de luz que passava pelas duas cortinas — a mais pesada, de um plástico cinza, e a mais leve, de um tecido branco transparente que ficava por cima da outra. Permaneceu assim por alguns momentos, antes de iniciar o preparo para que o resto todo de seu corpo pudesse acompanhar os olhos e sair do quarto escuro, pequeno e já cheio de ruídos: alguém que ligava a televisão no quarto ao lado; o carrinho da arrumadeira, ameaçador, no hall; o tlim do elevador. Primeiro, fez uma inspeção mental básica no estômago e na boca. Não, nenhum vestígio do mal-estar da noite anterior, em que, depois de comer um x-tudo no bar da esquina, vomitou e cagou a alma. E, ao falar para si mesmo essa frase, poderia ter achado engraçado: a alma. Seria oportuno, rá, rá, se livrar da alma na véspera. Mas Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões. Isso normalmente. Naquela hora, então, é que não havia de fato lugar para elas. Depois do estômago foi a vez do joelho, e, nesse, a inspeção não poderia ser apenas mental. Então Paulo esticou a perna, dobrou e tornou a esticar. Nada de muito ruim. A dor nas costas com a hérnia de disco, estava como sempre quando ele acordava: existente. Mas, no decorrer do dia, com os movimentos, tendia a se estabilizar. E, depois disso, como se já se sentisse cansado — e o motivo do cansaço seria, então, o simples fato de ter joelhos, estômago e costas —, ele ainda ficou, os olhos agora mirando a escuridão, a ouvir o tique-taque do relógio grande, feio, da mesinha de cabeceira. Ficou ouvindo o tique e o taque e o tique e o taque, em sua previsibilidade, enquanto dava um tempo para que a arritmia se manifestasse. Esse era o único sintoma de sua cardiopatia, para a qual tomava quilos de remédios cotidianamente.»

[in Nada a Dizer, de Elvira Vigna, Quetzal, 2013]

Primeiros parágrafos

«Senhor Ministro, Excelência

Apenas a minha vontade de em tudo vos agradar, nunca esquecendo a temporada, aliás desafortunadamente curta, que juntos vivemos na minha querida cidade natal de Veneza, e o favor e mercês com que me haveis acolhido em Paris, nos primeiros meses deste ano, me poderia levar a pegar na pena para vos descrever as peripécias que levaram à minha inesperada viagem a esta desgraçada cidade de Lisboa, varrida por um atroz terramoto há cerca de dois anos. Asseguro-vos, Excelência, que, por muitos desconcertos da Natureza que me tenha sido dado ver, ou que ainda verei, nenhum me parece de mais incompreensível extensão ou gravidade. De tal forma que, não fosse acreditar nas obscuras justificações derivadas da vontade divina – que, a manifestar-se assim, seria de maior malevolência que os castigos de Sodoma e Gomorra –, seria tentado a admitir que apenas os muitos pecados e desmandos de um povo podem explicar a desgraça que sobre o seu destino se abateu. Aliás, os jesuítas e o povo miúdo acreditam nesta explicação e, ignorantes das causas naturais que a recta ratio é capaz de identificar, espalham aos quatro ventos a notícia de outras calamidades que a persistência do governo temível do ministro do Rei, Sebastião de Carvalho, não deixará de provocar.»

[in Cartas de Casanova – Lisboa 1757, de António Mega Ferreira, Sextante, 2013]

Primeiros parágrafos

«O corpo da mulher rola para dentro de casa como um embrulho, as roupas encardidas pela humidade. O cabelo está de tal modo entrelaçado que nem a água quente o conseguirá desembaraçar com a lavagem. Estende-se no chão da sala, exausta. O primeiro movimento que faz é mostrar as cicatrizes dos braços e apontar para alguns sinais junto do umbigo. A carpete fica molhada ao contacto com a roupa, desenhando uma pequena silhueta, uma mancha que há-de ficar para sempre gravada naquele espaço do chão. Mateus está de pé junto a ela, descalço, incapaz de dizer ou fazer o que quer que seja. Sente o calor subir-lhe pelas pernas e as mãos trémulas. Deixa a porta aberta. Das escadas vêm uns grunhidos, alguém grita para que acendam a luz, alguém apanhado na escuridão entre dois andares. Um dos vizinhos abre a porta e pergunta se querem que ele desça com uma pilha. Quem grita é a mesma mulher que ali passa diariamente cheia de sacos de plástico e que agora ameaça deitar fogo ao prédio.»

[in A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha, Relógio d’Água, 2012]

Primeiros parágrafos

«Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda. Primeiro os olhos, depois o coração – ou os nervos ou aquilo a que os antigos chamavam alma – e finalmente, as mãos.

***

As primeiras notas que tiro são sobre um homem que nasceu, cresceu, trabalhou, casou, teve uma filha, envelheceu e morreu na mesma aldeia. Na verdade, as notas não são sobre o homem ou sobre a sua vida mas sobre a sua morte. Assim:
A vida da casa e da família acontece toda nesta sala térrea, fresca e escura de uma maneira agradável, com uma grande mesa, um escanho – o típico banco corrido de madeira de Trás-os-Montes –, um fogão e uma porta para o armazém onde se guardam os produtos da terra.
Era Abril, a lareira não estava acesa, mas era junto da lareira que o homem costumava contar histórias, e contou nessa noite, subitamente animado. Despediu-se da família – a filha e a neta tinham vindo da cidade –, disse-lhes boa-noite. À mulher com quem esteve casado sessenta anos disse que não se esquecesse de tomar os medicamentos.
A aldeia onde o homem nasceu, cresceu, trabalhou, casou, teve uma filha, envelheceu e morreu é bonita, com as suas casas de pedra recuperadas e um belo cruzeiro talhado. É bem arranjada, limpa. Está quieta, muito vazia. Parece um museu.
A viúva, com o seu lenço preto e o rosto fechado, move-se devagar, curvada pela artrose. Anda pelas ruas como uma sombra. Ela sabe que vive no fim de uma época, de um modo de vida. Quando nos formos todos, diz, querendo dizer os velhos, as sombras, lentamente as casas, desertas, caem, e não haverá mais aldeia.»

[in Agora e na Hora da Nossa Morte, de Susana Moreira Marques, Tinta da China, 2012]

Primeiros parágrafos

«A mulher está nua, o que neste instante a ocupa é mais prático sem roupa – quando tocam à campainha.
A mulher fica transida. Imóvel: veado encadeado por faróis na estrada. O coração acelera. A mulher pensa. Ou tenta pensar.
Tocam novamente à campainha. A primeira coisa que ocorre à mulher é que tem de se calçar. Não de se vestir; de se calçar. É estúpido? É assim. Uma pessoa nunca sabe como reage. E é ainda nua, e descalça, que vai espreitar.
A mulher não sabe o que fazer. Será publicidade? Um vizinho? O carteiro? Pior: serão eles?
O menino. A mulher vai buscá-lo ao quarto, acorda-o, põe-lhe um dedo nos lábios. Chiu, meu querido, vais ter de ficar em silêncio. Achas que consegues? Como já fizemos das outras vezes.
A mulher sorri perante o assentimento obediente da criança e diz-lhe para se esconder na casa de banho. E, sobretudo, não fazer barulho. A mulher quase se perde num banho de ternura, mas esta não é a ocasião. Tocam novamente à campainha. Depois de assegurar que ele está escondido e que não irá fazer barulho, a mulher hesita e pega num pé-de-cabra e encosta-o à dobra da porta. Depois vai pé ante pé à cozinha, encontra uma bata e um avental, veste a bata e coloca o avental por cima, à cintura. Depois percebe que é redundante e tira o avental. A campainha toca de novo, desta vez mais insistente. A mulher vai para abrir. Lembra-se de que está descalça. A campainha toca de novo. A mulher corre a pôr uns chinelos e espreita pelo óculo.
Ainda tinha esperanças de que estivessem lá em baixo, mas não, estão já cá em cima. Alguém lhes abriu a porta do prédio. Ou terão uma chave-mestra, para abrir as portas da rua? Tudo é possível, a mulher sabe por experiência própria. Tudo é possível, nos tempos que correm. O mundo está de pernas para o ar. E não é para proceder a uma simpática cópula carnal que está de pernas para o ar. O mundo está de pernas para o ar porque está de pernas para o ar.
A campainha toca uma vez mais. Há um bater de nós dos dedos na porta. Como que a dizerem, os nós dos dedos na porta:
Abra, sabemos que está em casa, tudo o que disser pode ser usado contra si…»

[in A instalação do medo, de Rui Zink, Teodolito, 2012]

Cinco fragmentos felinos de João Paulo Cotrim

A minha gata faz-se equilibrista em mim.
Ainda não caiu, mas guardo a memória
dos arranhões.

***

A minha gata sabe ser só um olho, rente ao chão,
ao dobrar de uma esquina. E de nada faz uma
esquina.

***

A minha gata enche-nos de pêlo.
Acha estranho que, pertencendo à
mesma família, tenhamos tão pouco.

***

A minha gata abre as garras como navalhas
em flor. Sabe fazê-lo surgindo do nada.

***

A minha gata não dorme nunca sem deixar
activa uma pequena orelha trémula, periscópio
das sonolências. E o meu olhar não a protege,
incomoda-a.

[in A minha gata, Companhia das Ilhas, 2012]

Primeiros parágrafos

«Em boa verdade, eu deveria estar a narrar os acontecimentos que ocorreram após 1979, mas os meus pensamentos não param de me levar para aquela tarde do Outono de 1969, em que o sol brilhava intensamente, os crisântemos dourados estavam em plena flor e os gansos selvagens cumpriam a sua migração para sul. Sempre que chego a esse ponto, não consigo desenredar-me dos meus pensamentos. As minhas memórias carregam o meu “eu” daquela época, um rapaz solitário que fora expulso da escola mas que se sentiu atraído pelo alarido que chegava do recreio. Eu esgueirara-me por entre o portão sem vigilância, com o coração na garganta, e atravessara aquele corredor comprido e melancólico para aceder ao quadrângulo central da escola, um pátio rodeado de edifícios. À esquerda ficava um poste de carvalho com uma trave presa por arame, na qual se pendurava um ferrugento sino de ferro. Mais para a esquerda, duas pessoas iam jogando pingue-pongue numa simples mesa de betão com base de tijolos, sob o olhar ávido de uma multidão que era a fonte do tal alarido. Estávamos na interrupção de Outono das aulas e, embora a maior parte dos espectadores fossem professores, também lá estava uma mão-cheia desses belos colegas que constituíam a equipa de pingue-pongue e que eram o orgulho da escola. Estavam a treinar para um campeonato distrital que fazia parte das festividades do Dia Nacional do Primeiro de Outubro, pelo que, em vez de abandonarem a escola durante as férias, tinham ficado para praticar. Sendo filhos de quadros do Partido Comunista que trabalhavam na quinta estatal, possuíam boa compleição e pele clara, tudo graças a uma dieta nutritiva. Para além disso, andavam com roupas de cores garridas, bastando um olhar para se perceber que pertenciam a uma classe diferente da nossa, miúdos pobres. Nós admirávamo-los, mas eles não nos passavam cartão.»

[in Mudanças, de Mo Yan, trad. de Vasco Gato (a partir da versão em inglês), Divina Comédia, 2012]

Primeiros parágrafos

«Eu entendia o ódio com que o guarda da alfândega me olhava. Era um oficial de farda nova e completa, botas engraxadas, patentes brilhantes, talvez sessenta anos, talvez pai de alguém da minha idade. O compartimento tinha quatro lugares. A minha mala estava sobre a cama de cima, à esquerda. Eu estava à espera no corredor do comboio, entre toda a gente que também esperava. Quando chegou a minha vez, entrei. Ele estava de pé, a segurar o meu passaporte aberto à sua frente, como se me comparasse com a fotografia mas sem olhar para ela, apenas a fixar-me, severo, de ferro.
O seu olhar punha o meu corpo inteiro em tensão. Eu entendia essa tensão. Ali, significava ordem. Esse era também o motivo para o aparente ódio, ou desprezo, com que me olhava. Afinal, não era ódio, era disciplina.»

[in Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto, Quetzal, 2012]

Primeiros parágrafos

«Estou sentado numa sala, rodeado de cabeças e de corpos. A minha postura é conscientemente congruente com a forma da minha dura cadeira. É uma sala fria do edifício da Administração da Universidade, com paredes apaineladas em que havia quadros à maneira de Remington e janelas duplas que a defendiam do calor de novembro, protegida de sons administrativos pela zona de receção na qual o tio Charles, o senhor DeLint e eu tínhamos sido recebidos.
Eu estou aqui.
Três caras ocuparam lugar em cima de casacos desportivos de verão e largas gravatas de seda do outro lado de uma mesa de conferências de pinho polido que brilha com a luz – que parece uma teia de aranha – do meio-dia do Arizona. São os três deões: o das Admissões, o dos Assuntos Académicos e o dos Assuntos Desportivos. Não sei a qual corresponde cada cara.»

[in A Piada Infinita, de David Foster Wallace, trad. de Salvato Telles de Menezes e Vasco Teles de Menezes, Quetzal, 2012]

Entrevista com Vítor Silva Tavares, tirada do baú (parte 3 e última)

[Nota prévia – Esta conversa foi publicada no suplemento DNA, do Diário de Notícias, a 24 de Fevereiro de 2001. Primeira parte, aqui; segunda, aqui]

Em que circunstâncias se deu o regresso a Portugal?
Bom, é preciso ver que eu chego a Angola em 1959. As eleições presidenciais tinham sido em 58, sendo que em Benguela, e também no Lobito, o Humberto Delgado ganhara nas urnas, oficialmente. Quer isto dizer que havia um grupo de activistas políticos muito forte. Às duas por três, vejo-me enfronhado até à raíz dos cabelos na política local. Por causa disso, sofro dissabores e mais dissabores que culminam naquilo que poderia apelidar de rico pontapé no cu cá do vosso amigo. Certamente para evitar males maiores, chutaram-me para dentro de um navio, recambiado para a metrópole.

Foi difícil, o reencontro com a «pátria»?
Foi, muito. Quando chego ao meu país, tenho uma grande dificuldade de adaptação. Mas vinha com uma convicção, uma só, inabalável: nunca mais, na puta da vida, vou fazer aquilo que não quero e aquilo de que não gosto; nunca mais, na puta da vida, vou ter um patrão. Se para isso tiver que morrer depois de amanhã, não me importo: conheço já a cor e o cheiro da morte. Sim, conheço já a cor e o cheiro da morte. (pausa longa) Esta convicção inabalável permaneceu – e permanece – inabalável.

Estávamos portanto em Lisboa, no princípio dos anos 60. Qual era o seu ganha-pão? Escrevia para os jornais
Sim senhor, começo a escrever nos jornais e não só. Colaborava na Flama, do Rolo Duarte, com críticas de cinema. Escrevia contos para o Diário Popular, crónicas à borla para o República e até textos para a Crónica Feminina – a troco de ir comer umas bifanas e um caldinho do dia aos Irmãos Unidos, ali na Praça da Figueira. Era um pardal, andava por todo o lado.

É então que surge a oportunidade de trabalhar na Ulisseia?
Sim. É aí que funciona a tal teoria dos acasos. De um momento para o outro, deixo uma situação de vagabundagem e passo a dirigir uma editora como a Ulisseia. Mero acaso. Comecei então a fazer o gosto ao dedo, publicando quem eu gostava. Tenho muito orgulho de ter publicado o Mário Cesariny de Vasconcellos, o Herberto Helder, o Alexandre O’ Neill, o Pacheco e por aí fora. Mais tarde, saí pelas circunstâncias que já lhe disse, numa altura em que até ganhava bastante bem.

E então surge o suplemento & Etc?
Exacto. É aí que começa a nascer o primeiro & Etc. Porque o primeiro & Etc foi um magazine de artes, letras e espectáculos do Jornal do Fundão. O que é que se tinha passado? Aquando da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco ao Luandino Vieira, a PIDE prendeu os membros do júri, além de ter destruído a sede da Associação Portuguesa de Escritores. Ora bem, um dos membros do júri era o Alexandre Pinheiro Torres, que paralelamente era o responsável pelo suplemento cultural do Jornal do Fundão. Depois do escândalo, é óbvio que o Pinheiro Torres fez publicar, no dito jornal, o que muito bem entendeu sobre o assunto. Foi o suficiente para a censura mandar fechar aquilo tudo durante seis meses. E é então que o António Paulouro e o José Cardoso Pires pensam em retomar um suplemento de cultura, assim que a censura permitisse a reabertura do jornal. O Cardoso Pires falou comigo e começou a nascer a ideia de um suplemento com outro espírito, um magazine mais abrangente onde podia caber tudo: um filme (no primeiro número foi o Pierrot, le Fou, do Godard), um fadista (o Alfredo Marceneiro, por exemplo) ou um bar que tivesse acabado de abrir (na altura, foi o Snob). Era um outro conceito de cultura. E naquele suplemento, chamado & Etc, já estava presente muito do espírito do que veio a ser, mais tarde, esta casa.

Pode dizer-se que o suplemento foi uma aventura relativamente efémera?
Depende. Eu não sei as datas precisas do início e fim da publicação, sei apenas que durou 25 números (o que não é tão pouco como isso) e que morreu de morte macaca. De 15 em 15 dias, eu ia para o Fundão fazer o suplemento. Metia-me na auto-motora da Covilhã, inverno ou verão, e lá fazia o caminho. Lembro-me que por vezes chegava muito tarde, duas ou três horas da manhã, já com as instalações fechadas, e o Paulouro deixava-me uma porta da oficina aberta para eu entrar. Depois, no gabinete dele, dentro de um cestinho, estava sempre um bife com ovo a cavalo ou coisa parecida, para eu matar a fome. Na manhã seguinte, começava a compor o jornal na tipografia.

E a tal morte macaca, como é que se deu?
Ora bem, um dia o suplemento foi à censura de Castelo Branco e quando o contínuo voltou trazia as oito páginas do suplemento cortadas. Além disso, tinha havido umas fricções causadas pela acusação de que atacávamos os escritores de esquerda. Pudera, dos de direita nem sequer falávamos! Agora, com os de esquerda éramos exigentes, lá isso éramos. A associação das duas coisas ‑ por um lado a censura, por outro as tais fricções – precipitou a morte do projecto. Disse ao Paulouro que é preciso saber pôr pontos finais, mas acrescentei: «eu seja cão se não for para Lisboa fazer um escabeche do caraças na censura, para que se salve alguma coisa e então que este seja o último & Etc». Foi.

Logo a seguir, passa a coordenar o suplemento literário do Diário de Lisboa.
Sim. Pouco depois, o Cardoso Pires convida-me para o DL e como ele foi ocupar um lugar de leitor de português numa universidade inglesa, deixou-me aquele filho nos braços. É na passada desse trabalho que nasce a ideia, minha e de mais 15 pessoas, de fazer então uma revista cultural autónoma, também chamada & Etc, e que foi a mãe, digamos assim, da editora. Era aquilo a que nós chamávamos «folheca cultural q.b.». A revista durou o que durou, com uma periodicidade muito irregular: saía quando saía. Ou seja, quase nunca saía.

Voltando um pouco atrás. Nunca escondeu a sua admiração por Almada Negreiros, a quem dedicou um belíssimo texto na revista «Ler». É verdade que chegou a trabalhar com ele?
Com ele e com o dr. Fernando Amado.

Em que circunstâncias?
No teatrinho da Casa da Comédia, que era uma antiga carvoaria. Começámos com uma adaptação do Regresso ao Paraíso, de Teixeira de Pascoaes, encenado pelo dr. Fernando Amado, sendo eu o cenógrafo, figurinista, carpinteiro, mulher-a-dias, isso tudo. O dr. Fernando Amado era um grande amigo do Almada Negreiros. É então que nasce a ideia de se levar pela primeira vez à cena o Deseja-se Mulher, do Almada. Foi uma aventura extraordinária. Vou dar-lhe um exemplo. Eu era o cenógrafo e figurinista. E aquela peça tinha tudo: sereias, anjos, pombas, essas coisas. Com pouco orçamento, quase nenhum, tínhamos que improvisar. Se não há dinheiro para tule, compra-se rede de pescador, ali no Cais do Sodré. Já se sabe, a dificuldade aguça o engenho. Ora bem, um dos meus problema era como fazer os anjos. O Almada não queria daqueles anjinhos com asas, das procissões. Queria estar sentado em frente ao palco, ver uma coisa a passar da esquerda para a direita e perceber logo que aquilo só podia ser um anjo. Eu andava às voltas com o problema quando um dia vejo, ali para os lados do Conde Barão, um homenzinho a vender cabides. Olhei para os cabides e vi logo que eram anjos. Porquê? Com cartolina faz-se uma cabeça, pega-se em papel cortadinho à tesoura, mais uns bocadinhos de prata e lantejoulas e já temos vestido. Depois, desenham-se asas enormes feitas de cartolina, aplica-se no cabide e já está. O actor só tinha que se agachar dentro do vestido de papel e atravessar o palco a correr. Tudo aquilo abanava e brilhava, era uma visão feérica. Isto é só para lhe dar uma ideia do clima em que decorreu todo o erguer daquele espectáculo. Com um Almada e um Fernando Amado hiper-excitados, muitas vezes zangados, trocando diálogos interessantíssimos entre eles. O Almada a berrar: «oh, Fernando, tu desculpa mas não percebes nada disto». E o Fernando Amado a responder: «oh, Zé, tu é que não percebes nada daquilo que escreveste». Foi um momento triunfal. O espírito da Casa da Comédia era, também ele, um espírito maravilhosamente amador. Com uma exigência ética e estética total. Uma pureza absoluta.

E, parece-me, com uma atenção enorme ao lado humano…
Evidentemente que sim. Com toda a gama de alegrias, de emoções, de medos, de angústias. Era uma actividade totalmente humana, é evidente que sim. Sentíamos muito o lado sagrado do teatro, da representação, do verbo, da palavra, do corpo do actor.

Almada era considerado um artista de vanguarda. Que importância é que poderiam ter as vanguardas, hoje?
O problema é que as manifestações artísticas que passam por vanguardistas também estão sujeitas a uma lógica do espectáculo que lhes retira a independência e o voluntarismo, sem os quais não entendo que possa haver verdadeira vanguarda. Existem certos movimentos espontâneos que querem romper com cânones, tradições, etc, mas em breve são absorvidos pelo próprio sistema e entram na lógica do sistema. Então passam por vanguardas mas não o são. Chamemos-lhes vanguardas virtuais.

Acha que ainda há espaço para uma ruptura?
Eu queria é que houvesse uma ruptura com a subordinação da própria arte à ditadura económica. Que houvesse uma ruptura sobretudo aqui. Depois logo se veria o que é que iria dar, que forma iria assumir.

Quer dizer que, apesar das ressacas todas, das desilusões, das esperanças perdidas, ainda faz sentido acreditar em algo a que possamos chamar revolução?
Tudo o que possa contribuir para a ideia de revolução é útil. Mas por revolução não estou tanto a pensar num sistema social, mas muito mais numa revolução do espírito e, já agora, do espírito de cada qual. Porque revoluções sem revolucionários, já vimos no que deram.

Também há revolucionários sem revolução. É o seu caso?
Só me posso considerar revolucionário por comparação com aqueles que não o são de todo. O mais natural é não revolucionar coisa nenhuma. No entanto, percebi desde as minhas primeiras indignações que a luta contra a injustiça é uma progressão revolucionária. Não sei é se através do meu trabalho eu consigo ver estendida aos demais esta pulsão, este desejo. Não me imagino enquadrado em partidos políticos, mas apelo, isso sim, para a transformação da mentalidade do homem, no sentido em que o leve a fazer da sua vida aquilo que entende que deve fazer. E a recuperar toda a sua dignidade de homem, a sua palavra de homem. De homem livre.

Aquela convicção inabalável que assumiu no regresso a Portugal, vindo de Angola, vai continuar a ser cumprida?
Não faço retrospectivas nem penso demasiado no futuro, mas acho que tenho sido coerente com esses propósitos iniciais. As sinuosidades da minha vida não têm impedido essa coerência de base. Posso mesmo afirmar que não me tenho traído. Não traí o puto que fui, o puto que dentro do eléctrico lia Dostoievski e Zola. Não, nunca traí esse miúdo.

[Fim]

Primeiros parágrafos

«Era uma vez um menino
que não era nada feio.
O que tinha de extraordinário
era um feitiço no meio.

Foram estes os primeiros versos que se conhecem do menino Rómulo Vasco da Gama Carvalho. Tinha cinco anos quando os escreveu. Nessa altura ainda estava longe, muito longe o nascimento do seu amigo António Gedeão. Desse ser imaginado, amigo tão verdadeiro que um dia nasceu e um dia, ainda novo, morreu. Rómulo deu-lhe a vida suficiente, amou-o, fê-lo crescer. E ele cresceu e rondou-lhe os passos mais secretos, a sua vida mais íntima; a seu lado conheceu o dia e conheceu a noite, sussurrou-lhe as mais belas palavras, invadiu-lhe o pensamento a ponto de fazer com que algo mais que letras e palavras o acompanhassem de perto. Vigiou-o. Lembrou-lhe o que devia fazer e fez com que ele, Rómulo, se deixasse envolver por ele, António, a ponto de, nesses momentos, se esquecer de si. Mas, realmente, não era fácil esse esquecimento. Era um e era o outro, indissociáveis, unos. Até um dia. Até um certo dia em que um, o primeiro, declarou a morte do outro, o segundo.»

[in Rómulo de Carvalho/António Gedeão – Príncipe Perfeito, de Cristina Carvalho, Estampa, 2012]

Os pés pelas mãos

«Só que eu, e não é para contrariar, sou um muito mau (vamos, nada de exageros: um medíocre) trabalhador da escrita. Não tenho paciência. Não aprendi técnica literária. Não percebo puto de semiologia, nossa senhora. Chateei-me sempre de ler os professores de linguística e o como-deve-ser dos gramáticos. Não consigo levar um texto direito do princípio ao fim. Distraio-me, sabem? Brinco e falo a sério, meto os pés pelas mãos, já não sei onde vou, que burrices deixei atrás, que asneiras direi daqui a bocado. Acresce que não me importo nada com tais defeitos, se trejeitos ou efeitos do risco. Não sei, nesta instabilidade, se sou um anarquista ou um desesperado ou ambas as coisas ou mais ainda, como por exemplo um homem dividido por tantas multiplicações. À falta de melhor, direi que sou um poeta – embora o texto o não comprove devidamente. Sou um poeta que não sabe escrever mas escreve o seu não saber. (O leitor não tem nada com isso e o compositor, esse, compõe. Compõe isto, ó sorte malvada! Vai daqui um abraço para o senhor compositor. Amigo que estás aí com os dedos nas teclas, cautela com as gralhas, não te enganes. Para enganos, basta este.) Aqui para nós, estou-me nas tintas para a literatura, ou melhor, para as belas-letras. Artifício por artifício, prefiro o meu. Sempre é mais limpo. Digamos que tem os truques mais à vista. Até escrevo na primeira pessoa do singular, eu que sou uma pessoa do plural! Que fazer? Arrumar a bic, ir lá fora ver se chove? Isso faço eu quando não suporto mais o ridículo da situação, tal como ouço a rádio e almoço na Dona Felicidade e discuto política com os amigos e desço a pé a Avenida da Liberdade e atravesso o rio e vou ao cinema e subo no elevador a Calçada da Glória e paro nos Restauradores a ver as pessoas muito atarefadas e assim formiga vivo no monstruoso intestino urbano, tão poluídos ele e eu. Cumpro a minha dose de “realidade” e sei não houvera de saber que há um caixão desconhecido que espera por mim (lagarto lagarto lagarto). Mas cumprir a “realidade” é uma coisa e cumprir a escrita outra.»

[in Para já, Para já, de Vítor Silva Tavares, Dois Dias edições, 2012]

Primeiros parágrafos

«– Não – disse Golder.
Levantou com um gesto brusco o quebra-luz, para toda a claridade do candeeiro dar em cheio no rosto de Simon Marcus sentado à sua frente, do outro lado da mesa. Durante um momento olhou para os vincos, as rugas que por toda a longa face morena corriam como numa água escura agitada pelo vento, logo que os lábios ou as pálpebras se mexessem. Mas os olhos pesados e adormecidos de oriental permaneciam calmos, entediados, indiferentes. Um rosto fechado como uma parede. Golder baixou com precaução a haste de metal flexível que dava apoio ao candeeiro.
– A cem, Golder? Já fizeste bem as contas? É um preço – disse Marcus.
Golder voltou a murmurar:
– Não.
E acrescentou:
– Não quero vender.
Marcus riu-se. Os seus dentes compridos e brilhantes, revestidos a ouro, cintilavam esquisitamente na sombra.»

[in David Golder, de Irene Nemirowsky, trad. de Aníbal Fernandes, Sistema Solar, 2012]

Primeiros parágrafos

«Estava sentado no meu escritório, o contrato de arrendamento tinha chegado ao fim e o McKelvey tinha dado início ao processo de despejo. Estava um dia de calor infernal e o ar condicionado estava avariado. Uma mosca arrastava-se pelo tampo da secretária. Estiquei a palma da mão aberta e mandei-a para o galheiro. Limpava a mão à perna direita das calças quando o telefone tocou.
Antendi.
– Eh, estou. – disse eu.
– Costuma ler Céline? – perguntou uma voz feminina.
A voz possuía uma sonoridade sensualíssima. Eu já estava sozinho há algum tempo. Décadas.
– Céline – disse eu –, hummmmm…
– Eu quero o Céline – disse ela. – Tenho de o apanhar.
Aquela voz tão sensual começava realmente a mexer comigo.
– Céline? – disse eu. – Dê-me alguns dados, cara senhora. Vá falando…
– Feche a braguilha – disse ela.
Eu olhei para baixo.
– Como é que percebeu? – perguntei eu.
– Esqueça lá isso. Quero o Céline.
– O Céline está morto.
– Não está nada morto. Gostaria que o encontrasse. Eu quero-o.
– Talvez possa encontrar as ossadas dele.
– Não, seu palerma, ele está vivo!
– Onde?
– Em Hollywood. Ouvi dizer que tem frequentado a livraria do Red Koldowsky.
– Mas então porque é que não vai lá a senhora à procura dele?
– Porque primeiro gostaria de saber se ele será o verdadeiro Céline. Preciso de ter a certeza, uma certeza consistente.
– Mas porque é que recorreu a mim? Há centenas de detectives por essa cidade fora.
– Foi o John Barton quem mo recomendou.
– Ah, o Barton, exacto. Ouça, vou precisar de uma espécie de adiantamento. E teremos de nos encontrar pessoalmente.
– Estarei aí dentro de minutos – disse ela.
E desligou. Eu subi o fecho.
E fiquei à espera.»

[in Pulp, de Charles Bukowski, tradução de Vasco Gato, Alfaguara, 2012]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges