Primeiros parágrafos
«Sempre me assustaram e fascinaram as figuras da maternidade, as noivas, as mulheres que rodearam a minha infância. Era algo como um terror arcaico. Quando era criança levaram-me ao casamento da minha tia e eu chorei sem parar, durante horas, porque estava assustada com o seu vestido de noiva. Aquela brancura, aquele vulto, o que quer que fosse, tinha esse efeito em mim. Mais tarde, eram aqueles silos brancos que se vêem da linha do comboio, já próximos de Lisboa, e que eu vejo todos os dias quando venho trabalhar e quando volto para casa. Esses silos enormes e brancos assombram a paisagem. Causavam-me medo. Costumava pensar que eram como as noivas, mulheres gigantes vestidas de branco. Ainda hoje, se me deixo levar, sinto um calafrio quando os vejo do comboio.»
[in Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado, Dom Quixote, 2012; nas livrarias a partir de 25 de Fevereiro]
Primeiros parágrafos
«Todas as tardes, quando as andorinhas rodopiam no céu cor de malva, um homem de cabelo grisalho transpõe a porta de um pequeno hotel da Rua Mirza Mansûr, vira à direita na Harb, depois à esquerda na Sabir, encimada por belas varandas de madeira, por vezes envoltas numa trepadeira e ornamentadas com peças de roupa. Vindo de um minarete próximo do Palácio dos Shirvanshahs, o apelo de um muezim – tão discreto, quase melancólico, que se torna comovente – suspende no ar frágeis arabescos sonoros. O deus que essa voz de violoncelo invoca não tem um ar terrível, seríamos capazes de o convidar para a mesa, e justamente jantamos sós esta noite, como quase todas as noites. As folhas das figueiras recortam mãos verdes e trémulas no céu. Em volta de Kiçik Qala desprendem-se das paredes os tapetes de cores e ritmos de vitral. O passeante transpõe agora a porta dupla rasgada na muralha de Isheri Sheher, a Cidade Velha (ou, traduzindo com mais exatidão, a Cidade Interior). As torres esguias parecem peças de um jogo de xadrez, ou pimenteiros (Alexandre Dumas, em 1858, observava que as fortificações de Baku eram feitas para deter ataques com armas brancas e não para resistir à artilharia). Hesita por momentos antes de atravessar o fluxo de alta cilindrada – luxuosos automóveis alemães, enormes todo-o-terreno, carros monumentais de um negro lustroso, cujos condutores carregam nervosamente na embraiagem, perto das muralhas. Turbilhão de carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban.»
[in Baku - últimos dias, de Olivier Rolin, tradução de Manuela Torres, Sextante, 2012]
Primeiros parágrafos
«O meu amigo António – aquele que, em miúdo, com dez ou doze anos, ficava horas a fio, num descampado, de saco na mão, à espera dos gambozinos: um homem bom, incapaz de matar uma mosca ou de maltratar um gato – quarenta e quatro anos, figura esguia, uma farta cabeleira a esbranquiçar, uns óculos de aros redondos, o que lhe dava um ar de “intelectual de esquerda”, imagem que cultivava com requintado deleite, estava sentado a uma mesa, no Pavilhão Chinês, numa madrugada de sábado para domingo, a matutar à volta de uma cerveja, enquanto ia coçando a barba crescida mas bem aparada.
António tinha a cabeça num rodopio. O cansaço dilatava a vertigem em que se afundara na última meia hora, o que lhe dava um ar esgazeado. Refugiara-se ali para pensar, mas ainda não conseguira sair do vazio que o esfarrapava. Fixou o olhar na pintura do tecto: observou o soldado soviético, no seu uniforme cinzento, a espingarda a tiracolo, a subir a escadaria do Palácio de Inverno, numa tarde de Outubro. O soldado soviético e o Palácio de Inverno avivaram-lhe a memória dos muitos anos passados com a Joana, com quem viveu até há trinta minutos, talvez por ela continuar uma ortodoxa comunista.»
[in Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, Abysmo, 2011]
Primeiros parágrafos
«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»
[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]
Primeiros parágrafos
«A meio do jantar, eu sabia que iria reviver todo o serão pela ordem inversa – o autocarro, a neve, a subida pelo ligeiro declive, a catedral a erguer-se à minha frente, a desconhecida no elevador, a sala de estar enorme e amontoada onde rostos iluminados por velas resplandeciam com gargalhadas e premonições, a música de piano, o cantor de voz roufenha, o odor a pinheiro por toda a parte enquanto eu vagueava de divisão em divisão, a pensar que talvez naquela noite devesse ter chegado muito mais cedo, ou um pouco mais tarde, ou nem sequer devia ter ido, as clássicas águas-fortes a sépia na parede junto da casa de banho onde uma porta giratória se abria para um corredor longo de acesso a zonas privadas não abertas a convidados mas que dava outra curva para o corredor e depois, por milagre, voltava a conduzir à mesma sala de estar, onde mais pessoas se tinham reunido, e onde, junto da janela onde pensei ter encontrado um lugar tranquilo atrás da enorme árvore de Natal, alguém se virou de repente para mim, estendeu a mão e disse:
– Sou a Clara.
Sou a Clara, dito num ápice, como se fosse o facto mais óbvio do mundo, como se eu sempre o tivesse sabido, ou o devesse saber, e, vendo que não a reconhecera, ou talvez estivesse a tentar não o fazer, ela me ajudasse a acabar com o fingimento e a dar um rosto ao nome que decerto já todos tinham mencionado muitas vezes.»
[in Oito Noites Brancas, de André Aciman, trad. de Maria João Freire de Andrade, Matéria Prima, 2012]
Primeiros parágrafos
«O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão.
Vieram moscas varejeiras e aves de rapina. Seguidas pelos lobos e as raposas, apoiadas nas patas de trás. As formigas procuraram-no atordoadas pelo cheiro. Garantiu-lhes a sobrevivência, pouco a curiosidade.
À noite, os vizinhos trancavam as portas e tapavam os ouvidos e vendavam os olhos. O caso recortava-se na loucura. Ninguém dormia, ninguém falava. Era o estandarte das armas indesejadas, desfraldado numa árvore velha. Descalço.
E começou o exílio. E a suspeita, entre os que ficavam.»
[in A Mulher Descalça, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2011]
Primeiros parágrafos
«Mal Rassul ergueu o machado para o abater na cabeça da velha, a história de Crime e Castigo passa-lhe pela cabeça. Fulmina-o. Os seus braços estremecem, as suas pernas vacilam. E o machado escapa-se-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher, penetra-o. Sem soltar um grito, a velha cai no tapete vermelho e negro. O seu véu, decorado com motivos de flores de macieira, flutua no ar antes de cair em cima do seu corpo flácido e rechonchudo. É agitada por espasmos. Mais um sopro, talvez dois. Os seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio da sala, respiração cortada, mais lívido do que um cadáver. Ele treme, o seu patu a cai-lhe dos ombros salientes. O seu olhar assustado absorve-se no jorro de sangue que, brotando do crânio da velha, se confunde com o vermelho do tapete, cobrindo os seus traçados negros, escorrendo depois, lentamente, para a mão carnuda dela, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.»
[in Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, 2011]
Primeiros parágrafos
«Tom aprendera com José Quintero que não se deve roubar pão – o motivo é de ordem religiosa; e que dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e de interior, escondido nos bosques do nosso ser.
Era o começo do Outono e as folhas desprendiam-se das árvores; à noite fazia frio. No teatro, fazia sempre frio. Tom tinha visto tantas raparigas a lerem o papel, que começava a sentir-se aborrecido. Uma das actrizes profissionais do primeiro dia…
A rapariga foi a última da tarde. Ele viu-a atravessar a sala e subir para o palco sem grande interesse. Era bonita, o cabelo louro comprido, o corpo magro, vestia um casaco preto de cabedal que tirou antes de sentar-se. Por baixo vestia uma T-shirt branca, sem mangas, e uma saia preta que lhe ficava alguns centímetros acima do joelho. Botas pretas. Parecia cansada.
Tom conhecia aquele cansaço. Não era o cansaço de quem trabalhara muito naquele dia, de quem trabalhara muito na véspera, mas a simples dor de estar vivo. Devia ter vinte e nove ou trinta anos. Ele conseguia ver a sua história nos olhos cor de avelã. O trabalho num bar para pagar os estudos, um ou dois bons papéis, inúmeras audições e depois nada. Pequenos papéis em peças que saíam de cartaz ao fim de umas semanas e nada.»
[in O Lago, de Ana Teresa Pereira, Relógio d'Água, 2011]
Primeiros parágrafos
«Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.»
[in Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, Quetzal, 2011]
Primeiros parágrafos
«Foi na Primavera de há três anos, no princípio da crise que abalou este lado do mundo, que visitei a terra onde mataram Catarina Eufémia. Aconteceu por acaso; foi também por acaso que, nessa mesma viagem, ouvi falar pela primeira vez do homem que saltara do topo de um edifício com um manuscrito amarrado ao peito. Naquela altura, estas duas figuras – tão distantes no tempo e na geografia, porém tão próximas naquilo que incompreensivelmente as acabou por unir – diziam‑me menos do que nada. Começarei por aí. Nesses tempos, dificilmente a história de um mártir me suscitaria interesse ou, o que é mais exacto e verdadeiro, dificilmente qualquer história que não fosse a minha me suscitaria interesse; era também exacto e verdadeiro que eu andava adormecido – num sentido quase literal do termo –, uma vez que a vida decorria na sua boçal normalidade: a minha carreira ainda tinha importância, o meu pai ainda não enlouquecera e eu ainda não compreendera nada, isto é, ainda não me dera conta de que a nossa existência era indissociável da memória dos mortos. Também desconhecia que, paradoxalmente, só ignorando os mortos poderíamos passar incólumes por esta vida, uma vez que, ao procurar resgatá‑los, eles acabariam por assombrar o resto dos nossos dias. Naquele tempo, portanto, tudo era mais simples porque eu me esquivava a despertar e, talvez por isso – porque qualquer despertar é doloroso e nos obriga a ver e porventura a tentar compreender a realidade –, não podia sequer desconfiar da maneira como Catarina (e a sua história confusa, cruel e fascinante) seria, ao mesmo tempo, a origem da minha libertação e de todos os meus equívocos.»
[in Anatomia dos Mártires, de João Tordo, Dom Quixote, 2011]
11 aforismos de Nuno Costa Santos
O melancómico anuncia
Quando morrer vou deixar a luz acesa para as pessoas pensarem que ainda estou por cá.
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Receita para o optimismo
Para fazer nascer o optimismo só há duas hipóteses: pensar nos filhos ou beber tequila.
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Crescimento: uma definição
Passar dos terrores nocturnos para os terrores diurnos.
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O importante é a pose
Ela vai ao Lidl de Xabregas, mas comporta-se como se estivesse a comprar uns sapatos Prada em Nova iorque.
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Assim acontece
O seu saldo não lhe permite consultar o seu saldo.
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Márcio interrompe o jantar para fazer uma pergunta
Em que categoria das Finanças está Deus inscrito?
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Márcio tem uma reflexão
O mundo divide-se entre sentimentais cínicos e cínicos sentimentais.
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Dona Bina folheia a imprensa
Ser pessimista é a profissão mais antiga do mundo.
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Dona Bina acha que já não há gente decente
O “maluquinho da aldeia” foi substituído pelo “normalzinho da cidade”.
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Definição havaiana de poeta
O poeta é um surfista que tem medo das ondas.
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Nunca tinha ouvido esta
Você é muito mais interessante ao vivo do que na internet.
[in Melancómico - o livro, Escrit'orio, 2011]
Primeiros parágrafos
«– Não, o outro.
A bejeca deixou uma fímbria de branco poroso a ferver no lábio de Abreu. O ar de desdém, basófio e curto, derivava agora, nasalado, pela fresta da comissura:
– Alguém mandou olhar?
Dois velhos pasmados a uma mesa de canto, queixos pendidos sobre chávenas de café. Não era o da boina de xadrez, de beiço torto. Era o de bochechas lassas, e olhos aguados, como um buldogue.
Abreu ia explicar tudo, mas dava muito trabalho e desistiu. Mordiscou um tremoço, rilhou-o com os molares, em jeito de enjoo, e removeu a vista para o estaladiço do tecto, precisado de pintura. E sempre a dar-lhe, num sussurro bocejado:
– Não sabia que o gajo vinha aqui.
Tinha ouvido dizer – «quanto vale a aposta?» – que naquela cervejaria de madeirames polidos aviavam torresmos com a imperial. Mas nem pevides davam e os tremoços eram à parte.
Bartlo encolheu os ombros e atacou a cerveja. Era altarrão e composto, lábia solta, mas pouca gramática. Tinha gastado uma hora a fazer o relatório de dois namoros, um perdido emprego e uma mãe. Fartava-se logo da conversa quando não era o próprio a falar. Mas o outro afincava. O droguista! Não o reconhecia? Era preciso ser muito desprevenido da ideia para não marcar o narigonço e as belfas dançantes, pá.
– A drogaria Esmpampanante, ao começo da rampa, quando a rua dobra para baixo.
– Estou a ver – Batlo vagava, desconcentrado.
– Estás a ver uma ova.
Mas Bartlo começava a lembrar-se, fazia o jeito:
– Tinha vassouras à porta. E jerricans amarelos. Vassouras novinhas de palha cinzenta. Até se podiam lamber. Dava dó usar aquilo prò chão.
– Isso agora não interessa. Vassouras são vassouras.
– Eu lembro-me, camandro.
– Mas entravas lá, entravas? Ah, pois, a minha mãe mandava-me à cera. Cem gramas de cera. Em papel-manteiga, com uma espátula. Havia um livro comprido pròs fiados.
– Nunca lá o vi.
– O livro?
– O velho.
– Tinha praí quatro ou cinco drogarias, ou mais, e dava a volta por cada uma, à semana. Sempre com uma bata de surrobeco, toda sebenta. Espreitava assim, por cima dos óculos.
Abreu imitava com os dedos esticados debaixo do nariz a fingir lúzios dardejantes. Caso para rir.»
[in Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, Tinta da China, 2011]
Primeiros parágrafos
«Estava a descer as escadas de um prédio de cinco andares um pouco mais para leste da cidade; acabara de fazer uma visita à minha irmã mais velha e não fora uma visita agradável, pois ela tinha demasiados problemas, grande parte deles imaginários, o que não contribuía de modo algum para melhorar a sua situação. Eu nunca nutri especial afecto por ela, ela nunca me teve a estima que devia. Decidi fazer-lhe uma visita porque um dos seus problemas era bastante real: a minha irmã tinha caído e partido o fémur esquerdo.
Saí de casa dela com um misto de sentimentos contraditórios: por um lado, feliz por me escapar dali; por outro, irritado porque a minha irmã me tinha feito prometer que voltaria no dia seguinte.
Como referi, estava a descer as escadas e, exactamente entre o terceiro e o segundo andar, dei com um homem de alguma idade sentado a meio de um dos degraus, impedindo-me de passar. Tinha colocado um grande saco de compras entre ele e o corrimão, e, como prefiro não descer as escadas sem ter onde me agarrar, parei atrás dele. Dava a impressão de que não me tinha ouvido chegar, por isso passados alguns instantes disse-lhe eu:
– Posso ajudá-lo com alguma coisa?
Como não respondeu nem se virou, pensei que talvez fosse surdo ou, quando muito, duro de ouvido, pelo que repeti a pergunta, desta vez mais alto.
– Não, obrigado, não me parece.
Fiquei espantado, não pelo que respondeu, mas pela sua voz, que me soou familiar; era absolutamente característica, ao mesmo tempo grave e aguda, e muito expressiva. E contrastava de forma extraordinária com o aspecto gasto, quase esfarrapado das suas roupas.
Como a sua voz me levou a crer que o conhecia, e por isso que ele me conhecia a mim, sucumbi a um capricho de vaidade. Não lhe quis pedir que mudasse o saco de sítio, revelando assim como me tornara débil, de modo que larguei o corrimão e passei pelo outro lado. Correu bem, mas quando voltei a agarrar-me ao corrimão e me virei para ele, descobri que me equivocara. Nunca tinha visto aquele homem.»
[in Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen, tradução de Mário Semião, Ahab, 2011]
Primeiros parágrafos
«Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.»
[in Claraboia, de José Saramago, escrito em 1953 e editado pela Caminho em 2011]
Primeiros parágrafos
«Naquele dia 25 de Junho, por volta das quatro da tarde, tudo parecia pronto para a coroação de Talu VII, imperador do Ponukelé, rei do Drelchkaff.
Apesar do Sol declinante, o calor sufocava naquela região de África, vizinha do Equador, e cada um de nós sentia-se duramente incomodado pela tempestuosa temperatura que a brisa não conseguia alterar.
Diante de mim, estendia-se a enorme Praça dos Troféus, situada no coração de Ejur, imponente capital composta por inúmeras palhotas e banhada pelo Oceano Atlântico, cujos longínquos bramidos podia ouvir à minha esquerda.
O quadrado perfeito da esplanada estava delimitado por uma fileira de sicómoros centenários; as armas, profundamente enterradas na casca de cada tronco, sustinham cabeças cortadas, ouropéis, adornos de todos os géneros, ali amontoados por Talu VII ou pelos seus antepassados no regresso de muitas campanhas triunfais.»
[in Impressões de África, de Raymond Roussel, trad. de Júlia Ferreira e José Cláudio, Relógio d'Água, 2011]
Primeiros parágrafos
«Nada a não ser de tempos a tempos um arrepio nas árvores e cada folha uma boca numa linguagem sem relação com as outras, ao princípio faziam cerimónia, hesitavam, pediam desculpa, e a seguir palavras que se destinavam a ela e de que se negava a entender o sentido, há quantos anos me atormentam vocês, não tenho satisfações a dar-vos, larguem-me, isto em criança, em África, e depois em Lisboa, a mãe chegava-se ao armário da cozinha onde guardava os remédios
– São as vozes Cristina?
aqui na Clínica silêncio, com as injecções as coisas desinteressam-se de mim, uma frase, às vezes, mas sem ameaças nem zangas, o nome apenas
– Cristina
uma amabilidade pressurosa
– Como estás Cristina?
ou uma queixa
– Nunca mais nos ligaste
a cama, a mesa e as cadeiras quase objectos de novo, embora se perceba um ressentimento à espera, não se atrevia a tocar-lhes, deitava-se pesando o menos possível na esperança que a almofada ou os lençóis não a sentissem e pode ser que se distraiam e não sintam, não devem sentir porque nenhum
– Como estás Cristina?
desde há semanas, tirando as folhas num capricho do vento e as bocas de regresso um instante, o que me incomodam as bocas, o director da Clínica
– Ando a pensar dar-lhe uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos
e no interior do
– Ando a pensar dar-lhe uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos
não havia a sombra de uma sugestão, um conselho, a ordem
– Tens de matar o teu pai com a faca
graças a Deus ausente, quase paz se houvesse paz e não há, há pretos a correrem em Luanda, camionetas de soldados, tiros, gritos numa ambulância a arder na praia, sob pássaros que se escapavam, e ao terminar de arder nenhum grito, o pai foi padre, não era padre já e a mãe zangada
– Quem te contou isso miúda? (…)»
[in Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes, Dom Quixote, 2011]
Primeiros parágrafos
«Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito.
Eu nunca tinha sentido aquele cheiro pungente antes, aquele cheiro que ficaria para sempre misturado ao cheiro das outras mulheres, das que conheci na intimidade, que invadiria o cheiro de outras mulheres e que para sempre me levaria de volta a ela. Aquela mistura de perfume doce, carne cortada, suor, sangue e – o mais próximo que consegui perceber, até hoje – sal. Como se sente quando próximo do mar. Como quando adere à pele. Não os grãos de sal – mas a poeira invisível e olorosa do sal em dias húmidos.»
[in Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre, Planeta, 2011]
Primeiros parágrafos
«Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.
Ou, para ser mais exacto, como Oscar Schidinski diz que ele a escreveu.
É assim:
Polvorosa é um pueblo semelhante a tantos outros deste país de bananeiras e matas de cacau. Consiste apenas numa rua poeirenta, perpendicular à estrada de terra que vem de Insolación e segue para o Norte. De um lado e do outro dessa rua desamparada estão alinhados quinze ou vinte edifícios de madeira, decrépitos quase todos, desbotados e consumidos pela canícula. Há uma venda na qual, de modo irregular, se podem comprar alguns produtos essenciais: velas e querosene, carne seca, arroz e feijão, aguardente de cana, pregos, alguma roupa e sabão. Pouco mais. À direita de quem chega, a meio da fileira de edifícios, fica uma casa menos precária do que as outras, em alvenaria, caiada, com dois pisos e uma varanda assente em pilaretes de ferro forjado. É a residência dos Fuentes. Os Fuentes foram os primeiros colonos desta parte do país e são os proprietários de todas as coisas que aqui vivem e estão imóveis, incluindo as pessoas que, de algum modo, não estão ligadas à família por algum tipo de parentesco. Para lá dos limites da área construída existe um pequeno rio e, depois, estão os campos dos cacaueiros, os quais constituem, ainda assim, a única fonte de rendimentos do pueblo. Polvorosa seria, pois, um sítio sem nada que valesse a pena ser visto ou contado, se não houvesse aqui um homem diferente de todos os outros homens conhecidos. Chamam-lhe o homem-zebra — e é um indivíduo tão extraordinário que, se o pueblo não estivesse tão longe de tudo, tão perdido no mundo, já teria, decerto, vindo gente de outros lados, bacharéis e cientistas, médicos e curiosos por aberrações, apenas para poderem vê-lo e confirmar que existe, e que é exactamente como vai ser dito.»
[in Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011]
Parênteses
«Às vezes de noite – meditava naquela ocasião a Pulga – quando a insónia não me deixa dormir como agora e leio, faço um parênteses na leitura, penso no meu ofício de escritor e, olhando fixamente o tecto, por breves instantes imagino que sou, o que poderia ser se a isso me propusesse com seriedade desde manhã, como Kafka (claro que sem a sua existência miserável), ou como Joyce (sem a sua vida cheia de trabalhos para sobreviver com dignidade), ou como Cervantes (sem os inconvenientes da pobreza), ou como Catulo (ainda que contra o seu prazer em sofrer pelas mulheres, ou talvez por isso mesmo), ou como Swift (sem a ameaça da loucura), ou como Goethe (sem o seu triste destino de ganhar a vida no Palácio), ou como Bloy (apesar da sua firme inclinação para se sacrificar pelas putas), ou como Thoreau (apesar de nada), ou como Sóror Juana (apesar de tudo); nunca Anónimo; sempre Lui Même, o cúmulo dos cúmulos de qualquer glória terrestre.»
[in A Ovelha Negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, tradução de Ana Bela Almeida, Angelus Novus, 2008]
Primeiros parágrafos
«You could see the blood. It was darker than you thought. It was all on the ground outside Chicken Joe’s. It just felt crazy.
Jordan: ‘I’ll give you a million quid if you touch it.’
Me: ‘You don’t have a million.’
Jordan: ‘One quid then.’
You wanted to touch it but you couldn’t get close enough. There was a line in the way:
POLICE LINE DO NOT CROSS
If you cross the line you’ll turn to dust.
We weren’t allowed to talk to the policeman, he had to concentrate for if the killer came back. I could see the chains hanging from his belt but I couldn’t see the gun.
The dead boy’s mamma was guarding the blood. She wanted it to stay, you could tell. The rain wanted to come and wash the blood away but she wouldn’t let it. She wasn’t even crying, she was just stiff and fierce like it was her job to scare the rain back up into the sky. A pigeon was looking for his chop. He walked right in the blood. He was even sad as well, you could tell where his eyes were all pink and dead.»
[in Pigeon English, de Stephen Kelman, Bloomsbury, 2011]
Um soco no estômago do mundo
«Como o próprio nome do conjunto de torres sugere (centro de negócios do mundo), o ataque foi um soco no estômago do mundo, não apenas no umbigo da América. Gostaria de vos contar certos detalhes deste dia num ambiente de absoluta tranquilidade. Nunca pessoalmente, claro. Teria de ser um filme com planos fechados e uma banda sonora pungente. Não um livro calado. Recorreria a violinos para legitimar as vossas lágrimas e, em simultâneo, o nosso orgulho patriótico. Todas aquelas pessoas, companheiros de salto ou não, foram soldados, bravos soldados, verdadeiros heróis, e nem por um momento divisei neles ou nos seus actos o mais leve rasto de cobardia. Não faz sentido classificar os seres humanos pelo tipo de morte que tiveram. Mais tarde perceberão, mesmo que vos custe, que não há diferença entre as pessoas que voaram, como eu, e as que morreram queimadas, intoxicadas ou esmagadas. Houve os que caíram desmaiados por não terem suportado o fumo ou a pressão dos corpos que se empilhavam à janela sobre eles, houve os que tentaram descer pelo exterior do prédio e também caíram, os que voaram acreditando até ao fim num milagre, os que lutaram por algo que os amparasse (uma peça de roupa a servir de pára-quedas? Deus?) e os que simplesmente se atiraram para fugir da morte que o destino para eles escolhera, assumindo o fim e voando em paz. À janela, em pilha, a escolha pareceu óbvia. À janela, em pilha, com dezenas de pessoas atrás a empurrar para conquistar uma nesga de ar livre, e atrás delas o fumo negro e espesso, e atrás dele as línguas alaranjadas do fogo, a escolha foi óbvia.»
[in A Manhã do Mundo, de Pedro Guilherme-Moreira, D. Quixote, 2011]
Primeiros parágrafos
«Bunny não acordou de uma só vez. Um som (de quê, não sabia) atingiu a superfície do seu sono e afundou-se como uma pedra. O sonho esvaeceu, deixando-o desperto, preso, na cama. Virou-se, impotente, e enfrentou o tecto. Tinha rebentado um cano durante o Inverno anterior, e agora via-se o contorno de um lago amarelo. Enquanto Bunny o observava, o lago transformou-se numa ave de cabeça emplumada e penas dispersas na cauda. Quando as mudanças cessaram, os olhos de Bunny vaguearam pelo papel de parede azul e branco até à outra cama, onde Robert ainda dormia. Demoraram-se por momentos nos lábios apartados de Robert, no seu rosto esgotado e vazio do sono.»
[in Vieram Como Andorinhas, de William Maxwell, trad. de Rita Almeida Simões, Sextante, 2011]
Primeiros parágrafos
«Estava morta há cinco anos, a mãe de Isaac, mas ele não parara de pensar nela. Vivia sozinho na casa com o velho, vinte anos, pequeno para a idade, facilmente confundido com um miúdo. Era o fim da manhã, e ele avançava rapidamente pela floresta em direção à cidade – uma pequena figura magra de mochila às costas, a tentar manter-se longe da vista. Tirara quatro mil dólares da secretária do velho; roubara, corrigiu-se. A fuga da prisão dos malucos. Se alguém te vê, é Silas solta os cães.»
[in Ferrugem Americana, de Philipp Meyer, tradução de Ester Cortegano, Bertrand, 2011]
Primeiros parágrafos
«No jardim zoológico de Berlim, ao lado da piscina que contém a morsa viva, há uma exposição invulgar. Num mostruário de vidro estão todas as coisas encontradas no estômago de Roland, a Morsa, que morreu a 21 de Agosto de 1961. Ou, mais precisamente:
um isqueiro cor-de-rosa, quatro paus de gelados (de madeira), um broche de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de água de plástico de criança, uma faca de plástico, óculos de sol, uma pequena corrente, uma mola (pequena), um anel de borracha, um pára-quedas (brinquedo infantil), uma corrente de aço com cerca de 46 cm de comprimento, quatro pregos (grandes), um carro de plástico verde, um pente de metal, um distintivo de plástico, uma bonequinha, uma lata de cerveja (Pilsener, 2,84 decilitros), uma caixa de fósforos, um sapato de bebé, uma bússola, uma pequena chave de carro, quatro moedas, uma faca com cabo de madeira, uma chucha, um molho de chaves (5), um cadeado, um saquinho de plástico com agulhas e linha.
O visitante fica de pé, diante da exposição invulgar, mais encantado do que horrorizado, como se estivesse perante achados arqueológicos. O visitante sabe que a sua sorte como exposição-de-museu foi determinada pelo acaso (o caprichoso apetite de Roland) mas ainda assim não consegue resistir ao pensamento poético de que com o tempo os objectos adquiriram algumas ligações secretas, mais subtis. Arrebatado por este pensamento, o visitante tenta então estabelecer coordenadas semânticas, reconstruir o contexto histórico (ocorre-lhe, por exemplo, que Roland morreu uma semana após a construção do Muro de Berlim), e por aí adiante.
Os capítulos e fragmentos que se seguem devem ser lidos de forma semelhante. Se o leitor sentir que não existem ligações significativas ou firmes entre eles, seja paciente: as ligações estabelecer-se-ão por si próprias de acordo com a sua vontade. E mais uma coisa: a questão de saber se este romance é autobiográfico poderia, a certa altura hipotética, dizer respeito à polícia, mas não ao leitor.»
[in O Museu da Rendição Incondicional, de Dubravka Ugrešić, tradução de Sofia Castro Rodrigues, Cavalo de Ferro, 2011]
Primeiros parágrafos
«Tudo isto aconteceu, mais ou menos. As partes da guerra são, em grande medida, verdadeiras. Um tipo que conheci foi mesmo morto em Dresden por ter levado um bule que não era seu. Outro tipo que conheci ameaçou de facto contratar pistoleiros para matar os seus inimigos pessoais depois de terminada a guerra. E por aí fora. Mudei todos os nomes.
Regressei mesmo a Dresden com dinheiro da Guggenheim (Deus a tenha na sua graça) em 1967. Parecia-se muito com Dayton, no Ohio, mas com mais espaços abertos. Deve haver carradas de farinha de ossos humanos no solo.
Voltei lá com Bernard V. O’Hare, um velho companheiro de guerra, e travámos amizade com um taxista que nos levou ao matadouro onde nos fechavam à noite enquanto prisioneiros de guerra. Chamava-se Gerhard Müller. Contou-nos que fora prisioneiro dos americanos algum tempo. Perguntámos-lhe como era viver num regime comunista, e ele disse que, no início, fora horrível, porque tinha de se trabalhar imenso e havia poucos abrigos, comida e roupa. Mas agora as coisas estavam muito melhores. Tinha um pequeno apartamento muito simpático, e a instrução da filha era excelente. A mãe dele foi incinerada na tempestade de fogo em Dresden. E é assim.»
[in Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut, trad. de Rosa Amorim, Bertrand, 2011]
Biblioteca omnívora
«No meu pied-à-terre cultivei uma expansiva austeridade. Pilhas de livros e de papéis convivem lado a lado com o meu computador e outras biologias dependentes da eletricidade. Neste soberbo cenário, apenas a minha biblioteca omnívora conserva um território preferencial, dominando, majestosa, o resto dos íncubos. Enfim, estava eu a alimentar o bom do Yorick (o meu peixinho encarnado), quando reparei que a gatinha Montaigne miava com ar matreiro ao pé da estante dos livros. Fiel ao seu espírito polémico, a pequena Montaigne entretivera-se a mordiscar os letreiros que classificavam as distintas secções da minha biblioteca, como “Frenesim Hobbesiano”, “Sonho de um Noite de Engenharia Social” ou “Loucademia Positivista”, só para nomear algumas – ainda desconheço quantas serão.
Eis os factos. Peguei num livro ao acaso (uma antiga edição do Walden, de Skinner) e esfreguei-lho com força no focinho, uma técnica popular que serve para introduzir novos dados no comportamento dos animais pequenos. Conservo certas reservas em relação à efetividade deste método, uma vez que, quando Montaigne tentou comer Yorick, repliquei o procedimento contra o vidro do aquário. (Ando sempre com um pequeno caderno de bitácula, o Jornal dos Pequenos Animais, onde anoto as minhas apreciações intempestivas sobre o reino animal.) Com efeito, a vizinhança do peixe dilatou de maneira formidável o interesse predatório da gatinha. O seu comportamento ameaçador acentuou-se: rondava, de pelo eriçado, o icticentrismo de Yorick, espiando todos os seus movimentos através da penumbra cristalina. Quando deixei os meus animais para me abandonar a tarefas que celebravam mais condignamente o divino no humano, ou vice-versa, Montaigne Michelle miou, qual carpideira, e enovelou-se ao calor do computador, onde eu continuava a teclar até altas horas da alvorada.»
[in As Teorias Selvagens, de Pola Oloixarac, tradução de Margarida Amado Acosta, Quetzal, 2011]
Primeiros parágrafos
«I remember, in no particular order:
- a shiny inner wrist;
- steam rising from a wet sink as a hot frying pan is laughingly tossed into it;
- gouts of sperm circling a plughole, before being sluiced down the full length of a tall house;
- a river rushing nonsensically upstream, its wave and wash lit by half a dozen chasing torchbeams;
- another river, broad and grey, the direction of its flow disguised by a stiff wind exciting the surface;
- bathwater long gone cold behind a locked door.
This last isn’t something I actually saw, but what you end up remembering isn’t always the same as what you have witnessed.»
[in The Sense of an Ending, de Julian Barnes, Jonathan Cape, 2011]
Primeiros parágrafos
«I was born twice. First in a wooden room that jutted out over the black water of the Thames, and then again eight years later in the Highway, when the tiger took me in his mouth and everything truly began.
Say Bermondsey and they wrinkle their noses. Still, it was the home before all other homes. The river lapped beneath us as we slept. Our door looked out over a wooden rail into the channel at the front, where dark water heaved up an odd sullen grey bubble. If you looked down through the slats, you could see things moving in the swill below. Thick green slime, glistening in the slosh that banged up against it, crept up the crumbling wooden piles.»
[in Jamrach's Managerie, de Carol Birch, Canongate, 2011]
Primeiros parágrafos
«Bill is gone.
What is the sound of an eighty-nine-year-old heart breaking? It might not be much more than silence, and certainly a small slight sound.
When I was four I owned a porcelain doll given me by a strange agency. My mother’s sister, who lived down in Wicklow, had kept it from her own childhood and that of her sister, and gave it to me as a sort of keepsake of my mother. At four such a doll may be precious for other reasons, not least her beauty. I can still see the painted face, calm and oriental, and the blue silk dress she wore. My father much to my puzzlement was worried by such a gift. It troubled him in a way I had no means to understand. He said it was too much for a little girl, even though the same little girl he himself loved with a complete worship.»
[in On Canaan's Side, de Sebastian Barry, Faber and Faber, 2011]
Primeiros parágrafos
«She’d been lying in the hammock reading poetry for over an hour. It wasn’t easy: she was thinking all the while about George coming back with Cecil, and she kept sliding down, in small half-willing surrenders, till she was in a heap, with the book held tiringly above her face. Now the light was going, and the words began to hide among themselves on the page. She wanted to get a look at Cecil, to drink him in for a minute before he saw her, and was introduced, and asked her what she was reading. But he must have missed his train, or at least his connection: she saw him pacing the long platform at Harrow and Wealdstone, and rather regretting he’d come. Five minutes later, as the sunset sky turned pink above the rockery, it began to seem possible that something worse had happened. With sudden grave excitement she pictured the arrival of a telegram, and the news being passed round; imagined weeping pretty wildly; then saw herself describing the occasion to someone, many years later, though still without quite deciding what the news had been.»
[in The Stranger’s Child, de Alan Hollinghurst, Picador, 2011]
Primeiros parágrafos
«Há trinta anos que Simón Cardoso tinha morrido quando Emilia Dupuy, sua mulher, o encontrou à hora do almoço na sala reservada do Trudy Tuesday. Dois desconhecidos falavam com ele num dos compartimentos do fundo. Emilia julgou que tinha entrado no lugar errado e o seu primeiro impulso foi retroceder, afastar-se, voltar à realidade de onde vinha. Ficou com falta de ar, com a garganta seca, e teve de se apoiar no balcão do bar. Procurava-o há toda uma vida e tinha imaginado a cena inúmeras vezes, mas agora que a vivia apercebia-se de que não estava preparada. Os olhos enchiam-se-lhe de lágrimas, queria gritar o nome dele, correr até à mesa e abraçá-lo. No entanto, só tinha forças para não cair redonda no meio do restaurante, chamando a atenção como uma tonta. Mal conseguiu andar até ao compartimento contíguo ao de Simón, onde se sentou em silêncio à espera de que ele a reconhecesse. Enquanto isso, teria de fingir indiferença e de ficar calada, embora o sangue lhe latejasse nas fontes e o coração lhe saísse pela boca. Fez sinal para que lhe servissem um brandy duplo. Precisava de se acalmar, de deixar de recear que os seus sentidos se confundissem, tal como acontecia à sua mãe. Às vezes alguns sentidos traíam-na, perdia o olfacto, desorientava-se em ruas que conhecia de cor e deitava-se ouvindo canções idiotas que não sabia como chegavam à sua aparelhagem.»
[in Purgatório, de Tomás Eloy Martínez, trad. de Helena Pitta, Porto Editora, 2011]
Nova Iorque
«É muito grande, Nova Iorque. Por todo o lado há edifícios altos como casas sobre casas. É uma cidade excessiva e áspera, onde se encontram mais ângulos rectos do que em qualquer outro lugar. É também cheia de brilho e de ruído, de máquinas e corpos e milhões de verbos conjugados no presente. Uma cidade de aldeias empilhadas trazidas de longe, da Europa, de África, da Ásia, homens pobres e desesperados que dão a vida por pouco, que gastam os corpos pelas esquinas afiadas da cidade e à noite se deitam nas suas entranhas.
Quem acorda na cidade desculpa-se por ter dormido. Lá fora há já multidões que correm atrás de uma coisa qualquer que lhes diga que existem. O direito ao nome ganha-se a cada dia e não é certo, nada é certo nesta cidade. O tempo, o pouco tempo de alguns, é o avanço de quem chegou primeiro e não chega para terminar um cigarro.
Quem não sabe para onde ir vai indo sem saber para onde. A cidade empurra, a multidão empurra, a fome empurra, o desejo empurra. Quando alguém pergunta “quem és?” está na realidade a perguntar “o que fazes?”, a resposta deve ser rápida e sem hesitações, um verbo e um substantivo. Daí se escolhem afinidades ou a indiferença, nesta cidade um homem é uma máquina de fazer coisas, um verbo, uma função que prescinde de tudo o resto.»
[in No meu peito não cabem pássaros, romance de estreia de Nuno Camarneiro, D. Quixote, 2011]
Primeiros parágrafos
«Numa noite de Setembro, na escuridão do Abbey Theatre em Dublin, Kate encontrou a sua personagem. Com os olhos fixos no palco, no corpo magro do actor, sentiu que o livro começava a tomar forma, as palavras e as imagens, a ternura e o terrível.»
[in A Pantera, de Ana Teresa Pereira, Relógio d'Água, 2011]
Os homens escavam para fazer crescer
«Dali de cima viam as trincheiras que pareciam cobras, e de vez em quando morriam dezenas de soldados. Ou centenas. Ou milhares. Dali de cima, sem o cheiro das trincheiras, sem o sangue, sem os gases, sem o fumo e a lama e sem o pó, nada parecia condenável. Eram pontinhos, coisas pequeninas, que apareciam e desapareciam. Aquela era a visão de Deus. Se Ele se baixasse, veria outras coisas.
Ao final do dia foram atacados pela aviação inimiga. Soucek, quando ouviu os motores a aproximarem-se, levantou-se e pulou para fora do balão. O pesado para-quedas abriu de seguida. Sors ficou a vê-lo cair, sem reagir. Quando o avião mais próximo disparou uma primeira rajada sobre o balão, Sors ainda estava agarrado às cordas. O fogo alastrou de imediato e um pedaço de pano a arder passou-lhe pela cara. Sors soltou as cordas onde se agarrava e caiu em direcção ao chão. Abriu o para-quedas com uma calma que não julgava possuir e reparou mais uma vez nas trincheiras lá em baixo, escavadas aos esses como um bêbado.
Os homens escavam para fazer crescer. Desde casas a couves. Tudo nasce de buracos. A criatividade prefere a penumbra do interior dos nossos cérebros. Os fetos preferem o útero. Mas não é só a vida que gosta do invisível, a morte também é feita de coisas que não se veem, de emboscadas, de disfarces. E de buracos como as trincheiras. Esses buracos nunca servirão para fazer alicerces de edifícios. Porém, serviram para Sors sonhar com Františka, com beijos que sabem a janelas embaciadas.»
[in O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz, Caminho, 2011]
Emil
«Há corredores que parecem voar, outros que parecem dançar, outros que dão a impressão de desfilar, outros, ainda, dão ares de avançar sentados sobre as pernas. E há quem pareça apenas ir o mais rapidamente possível para onde acabam de os chamar. Emil não é nada de tudo isto.
Longe dos cânones académicos e de qualquer preocupação de elegância, Emil progride de uma maneira pesada, descomposta, torturada, toda aos repelões. Não esconde a violência de um esforço que se lê no seu rosto crispado, contraído, deformado, continuamente torcido por um esgar penoso de se ver. Os traços do seu rosto são alterados, são quase rasgados por um sofrimento horroroso, como se tivesse um escorpião alojado em cada sapatilha. Tem um ar ausente quando corre, terrivelmente alheado, tão concentrado que não parece ali estar, excepto que está lá mais do que ninguém e, recolhida entre os ombros, sobre o seu pescoço sempre inclinado para o mesmo lado, a sua cabeça oscila incessantemente, bamboleia-se e sacode-se da direita para a esquerda.
Punhos fechados, rodando caoticamente o torso, Emil também faz sempre qualquer coisa diferente com os seus braços. E toda a gente sabe que corremos com os braços. Para propulsionarmos melhor o corpo, devemos utilizar os membros superiores para aligeirar as pernas do seu próprio peso: nas provas de distância, reduzindo os movimentos da cabeça e dos braços obtém-se um melhor rendimento. Porém, Emil faz completamente o contrário, ele aparenta correr sem se preocupar com os braços, cuja impulsão convulsiva parte de uma posição demasiado alta e os quais descrevem curiosas deslocações, por vezes erguidos ou rejeitados, para trás, pendurados ou abandonados numa gesticulação absurda, os seus ombros também se meneiam, e os seus cotovelos, também esses exageradamente levantados, vão como se ele transportasse uma carga demasiado pesada. Durante a corrida parece-se com um pugilista que combate a sua sombra, todo o seu corpo assemelha-se a um mecanismo avariado, deslocado, doloroso, exceptuando a harmonia das suas pernas, que mordem e mastigam a pista com voracidade. Resumindo, faz tudo de modo diferente dos outros, que por vezes acham que ele faz coisas absurdas.»
[in Correr, de Jean Echenoz, tradução de Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2011]
‘Retrato de uma senhora’
«Uma jovem senhora, uma rapariga de cerca de vinte anos, está sentada numa cadeira lendo um livro. Ou talvez tenha acabado de ler avidamente e reflicta agora sobre aquilo que leu. Acontece muitas vezes que aquele que lê tenha de parar, de repente, por todo o tipo de ideias relacionadas com o livro o ocuparem intensamente. A leitora sonha; talvez compare o conteúdo do livro com as suas próprias experiências de vida, pensa nos heróis do livro sentindo-se ela própria quase como uma heroína.
O quadro é estranho e a pintura delicada e subtil, já que o pintor ultrapassou as fronteiras habituais, num impulso de beleza ousada, superando livremente os limites da perspectiva. Pintando o retrato da jovem senhora, representa também os seus sonhos encantadores e secretos, o seu pensamento e as suas fantasias, a sua imaginação bela e feliz. Pinta também sobre a cabeça ou a cabecinha da leitora, um horizonte distante, leve e delicado, como se fosse precisamente uma construção da fantasia, um relvado verde, rodeado por uma coroa de imponentes castanheiros, sobre a qual está deitado um pastor, que, por sua vez, parece estar a ler um livro, já que não tem mais nada que fazer. O pastor traz vestida uma saia azul escura e em volta deste mandrião satisfeito pastam os cordeiros e as ovelhas e ao alto, no céu limpo desta manhã de verão, voam andorinhas. Vêem-se algumas pontas de abetos erguer-se das copas exuberantes e redondas das árvores de folha larga. O verde do relvado é intenso e quente e fala uma linguagem romântico-aventurosa e este quadro alegre apela-nos a uma contemplação atenta e tranquila. O pastor ali, distante, no seu pedaço de relva verde, é, sem dúvida, feliz. Será que a rapariga que lê o livro é igualmente feliz? Certamente o mereceria. Todo o ser e todas as vidas na terra deveriam ser felizes. Ninguém deveria ser infeliz.»
[in Histórias de Imagens, de Robert Walser, trad. de Pedro Sepúlveda, Cotovia, 2011]
Primeiros parágrafos
«Sábado, 5 de Fevereiro
O voo para o Cairo está atrasado oito horas. No aeroporto de Amesterdão as televisões mostram uma carrinha da polícia egípcia numa corrida louca para atropelar o máximo de gente. Manifestantes contam como foram presos e espancados e levaram choques eléctricos. Imagens de tanques debaixo dos viadutos à volta da praça Tahrir, chuva de pedras em frente do Museu Egípcio, pandeiretas resistindo na noite. E os líderes ocidentais falam em transição, pedem calma, acautelam o futuro, porque sabe-se lá se o partido dos Irmãos Muçulmanos não vai tomar conta de tudo.
Um clássico ocidental: o presente dos outros pode sempre esperar um pouco mais.»
[in Tahrir - Os Dias da Revolução, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2011]
Primeiros parágrafos
«Na ladeira, que era duma bruteza íngreme, o chão esfarelava-se em pedrinhas mínimas que rolavam debaixo dos nossos pés, obrigando-nos a jogos de equilíbrio ridículos, com apoio de mãos. Por isso, Mussa, à minha frente, voltava-se para trás, parado à nossa espera, e ria com descaro. Ele parecia um espeque negro, cravado na escorrência de areias ferrosas, a projectar uma sombra esguia, quebrada, pouco mais grossa que a da vara a que se arrimava. “É lá adiante!”, dizia, entre casquinadas agudas, e apontava para o cimo penhascoso, de alcantis avermelhados, muito erodidos, com protuberâncias que lembravam inchaços bulbosos. Perguntava-me eu se Mussa saberia o que estava a fazer e não nos prepararia um rebate falso, como havia acontecido com o amontoado de pedras na margem do ued, que se viu depois ser uma marcação de caravaneiros com menos de oito dias.»
[in O Homem do Turbante Verde e outras histórias, de Mário de Carvalho, Caminho, 2011]
Primeiros parágrafos
«No final de Novembro de 1974, um amigo ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário. As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.
O que escrevi pelo caminho não foi pensado para leitores. Agora, quase quatro anos volvidos, senti uma estranha comoção ao segurar novamente no pequeno caderninho, e o desejo de mostrar o texto a outras pessoas, a desconhecidos, impôs-se ao pudor em abrir a porta ao olhar de estranhos. Omiti apenas algumas passagens demasiado privadas.»
[in Caminhar no Gelo, de Werner Herzog, trad. de Isabel Castro Silva, Tinta da China, 2011]
Primeiros parágrafos
«O poeta épico começa habitualmente a sua narrativa pelo meio. Os romancistas estão também aptos a fazê-lo, podendo classificar-se um décimo do seu trabalho como prosa poética. Deste modo, o herói, surja ele deitado numa cave ou num palácio, num divã ou numa chaise longue, confronta-se com a inevitabilidade de recordar tudo o que passou em benefício da sua amada. “Tendo provocado o amor grandes sacrifícios…” etc. Enfim, já conhecem a história.
Tal é o método habitual, tão elogiado pelos críticos. Mas apesar de eu próprio ser um partidário das regras, prefiro o método do escritor de sagas ou do procurador que, quando chegam à altura de descrever um herói ou um tratante, agarram-no no berço, se assim se pode dizer, e acompanham-no cronologicamente até à imortalidade ou até à forca. A minha narrativa vê-se assim obrigada a começar pelo princípio, e quem preferir uma desordem clássica pode começar por ler as últimas páginas, e deixar as primeiras para o fim; transformará assim uma história simples e linear num texto épico.»
[in Papisa Joana, de Lawrence Durrell (adaptado do grego de Emanuel Royidis), trad. de Mário Avelar, Guerra & Paz, 2011]


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