Um poema de Manuel Gusmão
A TERCEIRA MÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA
i
A primeira mão escreve com o tempo e contra
o tempo
a segunda reescreve o passado com o futuro e
por todo o lado instaura o presente do fim
depois a terceira mão vem e escova
e constela os tempos
ii
A primeira monta um cenário nocturno à espera
da noite que virá. A segunda traz a esse cenário
a noite glaciar. A terceira sobrepõe as noites
e revela o seu povoamento
comum: luz eléctrica, papel intensificado,
uma teoria da escrita, desolação.
iii
Uma segreda e comove-se
no espelho tempestuoso. Outra seca
o saco lacrimal e deduz de si mesmo o movimento
que faz a emoção: A terceira contribui
com o espelho das metamorfoses, a câmara
que filma a dedução
[e enlouquece numa só letra.
[in A Terceira Mão, Caminho, 2008]
Três poemas alcoólicos de Malcolm Lowry
OS BÊBADOS
O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no peróneo da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.
O ÚLTIMO HOMEM NO DÔME
Onde está o sublime bêbado? Será o grande bêbado?
Este pequeno mistério imponderável
Perturba-me sempre à meia-noite:
– Para onde foi, para onde levou a sua caneca?
Para onde foram eles, os meus amigos, os que não têm porto?
Já não se lamentam nos bares, já não se fazem ao mar;
Um estremecimento da vontade e então podem sonhar,
Vivendo enfim as vidas que sempre ansiaram –
Intermináveis corredores de botas para lamber,
Ou no fim de todos eles o Pope com a sua biqueira.
Onde estão os teus amigos, seu tolo?, só te resta um,
E também esse já te enjoa –
Embora muito menos que os outros; e isto sei muito bem,
Uma vez que sou o último bêbado: bebo sozinho.
UMA ORAÇÃO
Deus, dá de beber a estes bêbados que acordam ao amanhecer
Balbuciando sobre o peito de Belzebu, destroçados,
Espiando uma vez mais, através das janelas,
A vaga e terrível ponte quebrada do dia.
[in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, seleccionados e traduzidos por José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2008]
Capítulo 7
«Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.»
[in O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar, tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008]
Um poema de Armando Silva Carvalho
Transportaste os meus versos, e a prosa corrida e manuscrita
Chegava a descer ao nível dos pedais,
Amarfanhada.
Quando solta de mim, a prosa era uma crueldade
Meio oculta.
Sentias-me a tremer, nas minhas mãos
As lâminas
Degolavam as sílabas,
Era um sangue confuso, incongruente,
Que manchava os estofos e vinha, gota a gota,
Turvar a placenta do texto
Nascido no meu colo.
Loucura tão apertada em ti
E à nossa volta as árvores erguendo a nobreza vegetal
Que subia dos alicerces
Da terra,
Da água ao abandono pelas inclinações
Que eu dava à língua.
Anos e anos e dias que chegavam à noite ofegantes
Sem saber o que fazer às frases.
Um mistério indefeso, infante e natalício
Cruzava-se nos teus vidros
Com a névoa tensa, densa, cimentada.
Eu não sabia dizer, puxava devagar as linhas novas,
Nervosas, cordões umbilicais
Toda essa baba azul da esferográfica
Ao redor do produto, ali, parido,
Deitado no papel.
Lembro agora esse tempo acrobático,
Em que a cabeça reclinava
E declinava
Ao volante o lume, os nossos breves lumes
Nas paragens,
As palavras roxas, franzinas, às cegas, enrodilhadas no tempo,
Na tua paciência,
No parque maternal da minha escrita.
[in O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008]
Uma aranha no crânio
«Foi em Maio de 1976 que desembarquei pela primeira vez de um comboio na estação de Bonatz porque me tinham dito que o pintor Jan Peter Tripp, com quem tinha andado na escola em Oberstdorf, vivia na Reinburgstrasse, em Stuttgart. A visita que lhe fiz ficou a ocupar um lugar notável na minha memória, pois a admiração que de imediato me suscitou a obra de Tripp levou-me a pensar que também eu gostaria de fazer qualquer coisa para além de dar aulas e orientar seminários. Tripp deu-me nessa altura de presente uma das suas gravuras onde se vê o presidente do Senado Daniel Paul Schreber, doente mental, com uma aranha no crânio — que pode haver de mais medonho do que os nossos pensamentos em constante correria? — e muito do que mais tarde escrevi deve-se a essa gravura, até na maneira como procedo, adoptando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente, juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de uma nature morte.»
[in Campo Santo, de W. G. Sebald, trad. de Telma Costa, Teorema, 2008]
Estado do Tempo
«Uma zona de baixas pressões sobre o Atlântico deslocava-se para leste, em direcção a um anticiclone situado sobre a Rússia; não denunciava ainda qualquer tendência para o evitar, e dirigia-se para norte. Os isotermos e os isóteros cumpriam as suas obrigações. A temperatura do ar mostrava uma relação normal com a temperatura média anual, com as dos meses mais frio e mais quente e com a oscilação mensal aperiódica. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, as fases desta última, de Vénus, dos anéis de Saturno e muitos outros fenómenos significativos correspondiam às previsões dos anuários da astronomia. O vapor de água no ar tinha atingido a sua tensão máxima e a humidade relativa era fraca. Para usar uma expressão que, apesar de um tanto antiquada, serve na perfeição para dar a realidade dos factos: era um belo dia de Agosto do ano de 1913.»
Eis o célebre primeiro parágrafo meteorológico do romance O homem sem qualidades, de Robert Musil, agora finalmente disponível na tradução de João Barrento (Dom Quixote). Os dois volumes olham para mim, tentando-me, mas vão ter que esperar pelas férias.
Sobre esta obra-prima «inacabada e inacabável», nas palavras do tradutor, vale a pena ler este artigo de Isabel Lucas e o dossier que o suplemento ípsilon (sem link) preparou sobre o acontecimento editorial do ano.
Quatro ‘mínimas ficções’ de Ana Marques Gastão
bala
Cada batida do coração arrasta mais sangue. Não adianta descalçar os sapatos nem o gemido os abriga desse líquido espesso escorrendo pelas pernas. Nem mesmo. Nem mesmo vivemos algo semelhante a um romance vitoriano. Somente este não-sono profundo e forçado, o medo pisando folhas caídas sob o céu azul.
lírio
És uma lonjura sem nome, um lírio numa sebe de cactos.
clarão
A luz é poeirenta, magra. Vejo-te, vacilante, num voo rasante sobre as águas. Ao entrar em casa, detenho-me num clarão de contorno nítido. No quarto, vivem, silenciosas, estrelas-cadentes; no exterior o céu não se desmantela, vela por mim. Quando acordo, verifico que interior e exterior são afinal o mesmo tecto.
cintura
Deixo-te ir, dizendo palavras inabitadas, tenebrosas. Sou caruma, vento violento, borboleta esvaziada pela malignidade. Procuro, em minha perplexidade de asa, um outro coração. Na avidez do golpe, caminho com água pela cintura. Desapareço.
[in lápis mínimo, Oceanos, 2008]
Avondo
«Ao abrir a porta, para ouvir a chuva, escapando-se por breves momentos do calor do serão, os seus olhos tingiram-se de sangue – da cor do sangue que os sanguinhos escorrem dos troncos nos anos felizes. E de Tâmara começaram a cair memórias do ano que passara…
Eulípio, seu marido, a chegar a meio dos setenta anos, arrumava a carqueja de acender o lume, sobrara um bocadinho, a um canto da chaminé, tomando devagar conta de um grosso tronco de azinho, teria avondo para o serão, levantou os olhos para Tâmara, sua mulher, em estado de espanto, mas um estado de espanto natural. Queria ouvir cair as memórias, como agora podia ouvir cair a chuva. Ele que tanto gostava de ouvir a chuva a bater nas telhas…
Betuma, solteirão, homem dessas idades de Eulípio, atracado a umas pedras antigas, encontradas numas escavações, feitas a poder de braços e a pedido da sua tia Ágara, mulher viúva, quase da idade da pedra, que sonhava com iludidos tesouros, arrastou a cadeira até ficar, por pouco, dentro do lume. Depois, juntou os pés em cima de alguma cinza e preparou o corpo em cómodos convenientes no assento da cadeira (mais alta do que a das mulheres) para ouvir aquilo que lhe ia por dentro da sua terra, que era o mesmo que aquilo que lhe ia por dentro de si, e sentou o olhar em Tâmara. Ele que tanto pisara a dor no ano que passara, ele que tanto se metera à vereda, que calcorreara terrenos a direito, terrenos a subir, a procurar em vão estevas, pampilhos, sargaços, margaças, carrasqueiros, medronheiros, lentiscos, adernos, tojos, alecrim, rosmaninho. De quando em vez, lá lhe apareceram roselas. Folhas de roselas, pouco feitas, a lembrar as de hortelã, em terreno seco, ainda serviram para alguma coisa…
Ágara, a velha mais velha daquele monte, não demoraria muito para chegar aos cento e oito anos de vida, findos os lamúrios – como em todos os serões que ainda se faziam no monte dos Esquecidos de Cima à roda do lume – de que queria morrer, de que já bastava o tempo, de que já cá não estava a fazer nada (conversa fiada, isso lhe atentavam todos nas manhas e na saúde), acartou os olhos para junto dos de Tâmara, carregada com tão vasta genica que era ela muito superior à que lhe escasseava agora para acartar os cântaros de água do poço até à sua casa; mas ai de alguém que lhe viesse tentar acalmar o peso e a estafa. Se calhar, era mais certo uns moitanitos de sal a desfazerem-se, mesmo nos anos enguiçados, do que alguém fazer-lhe essa desfeita…»
[in A Ressurreição da Água, de Maria Antonieta Preto, QuidNovi, 2008]
Cena 3
«O HIPNOTIZADOR e o PAI estão de pé lado a lado. Lêem os dois de papéis na mão.
HIPNOTIZADOR Aquele fim de tarde. Crepúsculo.
PAI Aquele fim de tarde.
Ver a Claire a sair — o walkman ligado, as pautas enfiadas num saco. Cinco minutos a pé para a lição.
HIPNOTIZADOR O meu percurso era este. Uma festa de alguém que fazia 50 anos num pavilhão desportivo. Tive de telefonar a desmarcar. Disse que tinha havido um acidente, não dei pormenores.
PAI Aquela noite. Aquela noite tem uma cor, uma sensação ao tacto e um som. A Dawn tinha voltado. Esperámos pela Claire para jantar. A Marcy estava a ver os Simpsons.
Azul. Esperámos para jantar em azul. Tocámo-nos ao de leve em cinzento-ardósia. Olhámos para os relógios em amarelo.
HIPNOTIZADOR Eu estava a conduzir um Renault Laguna Estate. 1,6 Litros. Bom carro. Bons travões. ABS. Airbags. Lá atrás, colunas, mesa de som, microfones, figurinos. Tinha os faróis ligados. Novembro.
PAI Roxo. As nossas pulsações aceleraram em roxo. Telefonámos à professora de piano em castanho. Ficámos com um nó no estômago em verde. O polícia avançou pelo carreiro em cinzento. Vimo-lo da janela em cor-de-laranja. Tirou o chapéu em dourado. Branco. Os joelhos da Dawn cederam em branco.
HIPNOTIZADOR Este é o ponto no mapa. Esta é a referência na grelha do Instituto Geográfico. Esta é a curva na estrada. Estas são as folhas junto ao passeio.
PAI A morte. A morte entrou para o hall. Pôs o capacete no banco do piano, falou connosco em prateado. Proferiu depois dois blocos de cimento em preto e deixou-os pendurados na minha caixa torácica, a fazerem-me pressão nos pulmões. Ainda hoje lá estão. Há pouco tempo perguntei à Dawn se ela achava que eu devia ir ao médico e marcar uma operação para os tirar. “Onde é que está o meu homem?” gritou ela. “Para onde é que foi o meu marido, foda-se?”
HIPNOTIZADOR Estas são as linhas amarelas, as linhas brancas. Esta é a qualidade da luz. Esta é a árvore junto à berma. Esta é a vista do Norte. Esta é a vista do Sul. Esta é a minha mão, que vai buscar um cigarro. Por um segundo. Um segundo a 57, 58, 59, 60. Vinte metros. Ao crepúsculo. Esta é a rapariga. O walkman ligado. Música de piano. A caminho da lição.
Ouve-se o Bach, depois pára.
Ouve-se o Bach. O HIPNOTIZADOR fornece as seguintes instruções ao PAI:
“Fantástico. Excelente. Vem para aqui. Vamos voltar àquele momento em que eu estava de joelhos e continuamos a partir daí. Vou buscar mais um bocadinho de texto.”
O HIPNOTIZADOR vai buscar o texto apropriado.
“Agora trabalhamos juntos. Representamos juntos. Começamos quando a música parar.”
Continua a ouvir-se o Bach.
[Terceira cena de Um Carvalho, de Tim Crouch, editada juntamente com INGLATERRA, uma peça para galerias, do mesmo autor, na colecção Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos). Textos traduzidos por Francisco Frazão.]
Três histórias minúsculas de José Carlos Fernandes
ABRIL
Abril, já dizia o Poeta dos Três Leopardos Brancos, é o mais cruel dos meses. Para lhe sobreviver é preciso ser mais cruel ainda: magoe profundamente a pessoa de quem mais gosta.
JULHO
Já Julho é um mês propenso a descalabros. Desfaça-se quanto antes das acções que adquiriu com base em recomendações insensatas, afaste-se de torres, campanários e miradoiros, evite subir escadas e escadotes, mesmo que seja para uma operação aparentemente tão inócua como substituir uma lâmpada fundida. Claro que as viagens aéreas são vivamente desaconselhadas. Mais vale permanecer com os pés firmemente assentes na terra até que comece um novo mês. Nem os que possuem asas estarão a salvo da força da gravidade, pois o calor excepcional que se fará sentir alterará drasticamente a consistência da cera.
AGOSTO
Se adormecer ao som da água corrente, poderá ver-se mergulhada num estranho sonho: está suspensa no oceano, a algumas dezenas de metros de profundidade; abaixo, muito abaixo, por entre o negrume, cintilam miríades de pontos luminosos que se movem sem cessar. Um peixe-lua aproximar-se-á e explicará «são os peixes abissais, que esperam, esfaimados, por uma presa», «não gosto deste sonho, quero acordar», «para isso é necessário que me beijes», responderá o peixe. Ansiosa por sair daquele sonho inquietante, assentirá (os lábios do peixe-lua serão inesperadamente quentes e suaves), porém, nada acontecerá: continuará a pairar no oceano. Do peixe-lua, nem rasto. Lá em baixo, as luzes parecem agora mais próximas.
[in O que está escrito nas estrelas [anos I & II], Tinta-da-China, 2008]
Crianças indefesas contra um calafrio
«Era triste a atmosfera na sala do piano. Apenas tinham acendido um candeeiro, o que iluminava o cadeirão onde se encontrava Susan. Cinthia, Julius, Santiaguito e Bobby, elegantíssimos, enchiam um sofá que permanecia na penumbra. Fora, no corredor, os empregados sussurravam, como que deixando sentir a sua participação em tanta tristeza; calavam-se, e a ausência das suas vozes deixava as crianças indefesas contra um calafrio, pele de galinha no que dizia respeito à pobre Susan, muda; voltavam a começar, e os seus murmúrios eram como breves, frágeis pausas dum silêncio acumulado e total, um silêncio que gritava o seu nome, que avançou um pouco ou que se deteve ainda mais quando soaram as dez badaladas da noite num relógio, noutro salão, triste e obscuro também, porque no dia em que Cinthia partiu, desde o entardecer, as divisões do palácio tinham-se ido convertendo em vasos comunicantes de tristeza e profundidade. Vasos enormes como lagos para onde agora gotejavam lenta, desesperadamente, um por um, os tic-tac tic-tac tic-tac, meia hora mais para a partida; eles escutavam mudos, imóveis como o enfermo húmido de febre que descobre o caminho do sono na respeitosa aceitação da insónia, na mais atenta contabilidade das gotinhas duma torneira mal fechada, “esta noite não durmo, lixei-me”, diz e conta.
Assim, eles não se apercebiam que as malas iam passando para o Mercedes cor de ginja, lá fora, na noite. Susan suspirou funda, profundamente. A triste notícia tinha-a surpreendido numa época de particular beleza, de total elegância, e agora parecia um cisne ferido navegando, ou melhor, deixando-se levar pelo vento para uma margem que talvez alcançasse ao tocar o telefone para ela. “Pelo menos tu tens com que matar o tempo”, pensou Santiago, ao vê-la sair para o ir atender. Os serviçais aproveitaram a sua ausência, iam entrando em pontas de pés, Nilda diante, os outros seguiam-na, parece que ela ia falar por todos, Cinthia, Cintita, o resto não o sabiam dizer.»
[in Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique, trad. Miranda das Neves, Teorema, 2008]
Três micro-contos de Rui Manuel Amaral
O bibliotecário
Sempre ao fim da manhã e também ao fim da tarde, o bibliotecário recolhe os livros abandonados em cima das mesas. Aproveita para afagar as lombadas, ajeitar as folhas, limpar as capas, com gestos ternos e profissionais. Depois, e usando de todo o cuidado para não lhes causar algum desgosto ou perturbação, conduz cada livro ao seu exacto lugar. Com veemente paciência, procura então colocar cada volume na posição mais cómoda, alinhando a lombada com as restantes lombadas da mesma estante. As mãos tremem-lhe de tanto zelo.
No entanto, e apesar do cuidado com que o bibliotecário se entrega à sua meticulosa tarefa, os livros dedicam-lhe uma profunda inimizade. Conspiram e manobram nas suas costas, desde o primeiro dia.
O bibliotecário ouve-os falar e dá conta de tudo. Mas tanto se lhe dá porque ama verdadeiramente os livros. Porque ama-os apaixonadamente com todas as suas forças. Os livros, porém, não se deixam comover por estas demonstrações de afecto. Escarnecem do seu irritante desejo de agradar, lançam ofensas, urdem as piores armadilhas: os livros de história disfarçam-se de livros de botânica, os de medicina escondem-se sob as capas dos de teologia, e assim por diante.
Ora, os mais acérrimos inimigos do bibliotecário são os livros de poesia. Já vi livros de poesia enterrarem os dentes, sem cerimónias, nas mãos pequenas do bibliotecário. Mais do que isso: já vi clássicos da poesia puxarem-lhe a língua, cuspirem-lhe na cara, chamarem-lhe falso Judas e lambe-cus. Felizmente, são dos menos solicitados pelos leitores. De facto, apesar dos seus esforços para atraírem as atenções, com as suas capas escandalosamente azuis ou desmesuradamente grandes, raras são as vezes em que saem do lugar. Por isso, o ódio cresce a cada dia que passa. E à noite, colados à sua imensa imobilidade, os livros de poesia sonham com a morte do bibliotecário.
Os autocarros
De algum tempo a esta parte, dir-se-ia que os autocarros me tomaram de ponta. Quando estou numa paragem, aceleram ou passam ao largo. Ando a ler o “Inferno” de Strindberg nas minhas viagens entre casa e o escritório. Já ouvi as pessoas dizerem que os autocarros são muito perspicazes. E que, tal como certos animais, são capazes de prever toda a espécie de acontecimentos funestos. Amanhã vou tentar enganá-los com um romance muito lindo de…*
* Trata-se, de facto, de um romance muito lindo no qual se conta a história de três homens que decidem fazer uma viagem de barco, durante 15 dias, através do lago Léman. Obviamente, não sou tolo ao ponto de dizer o título.
Gregor Samsa
Um dia, Gregor Samsa decidiu visitar uma cigana famosa para que esta lhe lesse a sina.
A cigana pousou os dedos sobre a palma da mão dele e, depois de um breve prefácio de “huns” e “hans”, disse:
— Caro senhor, prepare-se. Em breve, vão crescer-lhe guelras e barbatanas.
Gregor Samsa considerou as palavras da cigana muito justas e sábias. Pagou e saiu.
Mais tarde, tentou reaver o dinheiro. A cigana, porém, mandou dizer pela secretária que não falava com insectos.
[in Caravana, Angelus Novus, colecção Microcosmos, 2008]
Dois poemas de Vicente Martín Martín
Já tenho o inventário das batalhas
ganhas e perdidas:
as ganhas,
guardadas à chave e em baús
de zinco; não suceda
que entre sonhos as nomeie sem querer
e acaso me desperte
o fedor que expelem seus cadáveres;
as perdidas,
de tanto acostumar-me à sua presença,
levo-as no bolso e recordam-me
que existo, que estou vivo,
nas vezes mesmo em que
me cai uma lágrima e ao cabo
de um tictac de silêncios
aparece,
solitária,
uma flor.
***
Sempre o suspeitei. Desde o dia em que
o poeta escreveu que as estrelas
não eram borboletas
abrigava o receio de que algo
tinha que falhar nos teoremas.
Viver não é caminhar para a morte.
Viver é construir-se a cada instante
um novo acontecer enquanto estalam
de riso pelo céu as pombas:
A vida, portanto, inventamo-la.
Mas a morte, não. A morte precede-nos,
como a luz ao tempo,
e a ela, por inércia, regressamos.
[in Eis a dor, o que me resta, tradução de Rui Costa, Ediciones Vitruvio, 2007]
Um poema de Ruy Belo (no dia em que faria 75 anos)
A FORÇA DAS COISAS
Passeio sob a sombra de mulheres frondosas
de uma infinitésima memória
Restam-me os limões doces da síria
já que me falta deus ó alpedrinha
ou súbito desejo de ficar na noite
dormindo o sono íntimo da terra
Foi-se o milagre das fontes pelo estio
e não sei que fazer das favas novas
pois abril é um mês que não conheço
Não mereço o barco encalhado de abidjan
após o nascer público do sol
sobre o ramo do cardo emblema da traição
Calmo com um pôr-do-sol vermelho
encerro a cerimónia quotidiana
Quantos fatos vesti quantos despi
nas ruas devassadas por domingos
perante a áspera censura do mar
ou a grande catástrofe do meio-dia
assinalando a morte da manhã
Não terei mesmo um céu sem privilégios
tão previsível como uma recordação
a arte embaladora das palavras
Eis que está próximo o funesto inverno
é o tempo de tudo abandonar
a começar no lençol branco destes dias
Os mortos nem dos vivos se alimentam
é essa a única verdade útil
tão deslumbrante como um grande vento natural
A vida é cada dia mais difícil de lidar
e um velho poeta refugia-se nas tábuas
A mim mulheres frondosas nulo mar
[in Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, 2.ª edição, 1990]
São João da Ribeira (Rio Maior), 27 de Fevereiro de 1933 – Queluz, 8 de Agosto de 1978
Cecília
«Assim, a sombra de Cecília paira sobre mim e o Meu Amigo, dois conversadores nocturnos sentados sob o alpendre duma casa de praia. É por enquanto uma sombra, um contorno de mulher, se quiserem. Esse contorno compõe-se de instantes de memória, deslocados no tempo e na distância, tal como sucede com os farolins das embarcações de pesca que andam ao largo: existem mas levantam-se e desaparecem ao sabor da ondulação. É necessária a memória (esse terceiro plano ou esse poder de recriar que é, ainda, memória, cheiro e reconhecimento) para situar os farolins dos barcos no verdadeiro lugar em que se encontram e construir, para além dos nossos olhos, todo um rosário de luzes boiando nas águas em trevas. Então poderemos traçar o desenho exacto de um cerco de pesca, uma companha de homens sonolentos, o enorme saco de rede que devora os peixes no próprio ventre do mar…»
[in Lavagante — encontro desabitado, de José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008]
Amanhece o que é feio no que é belo
«Copacabana amanhece isolada do resto do mundo por pedras e pelo mar. O Túnel Novo abre caminho pra onde a vida parece desenrolar sem culpa. O ressentimento dos duzentos mil moradores começa a escorrer pelos bueiros dos botecos em cada esquina, cinco por quarteirão. São poucos os que vêem o dia surgir vermelho. Vagabundos, garis, entregadores de jornais, meia dúzia de travas, putas cansadas, cachorros e alguns velhos andando na praia. Velhos de sono curto que surgem de todas as portas e escadas. O sono dos velhos é cada vez menor. Madrugam. Quando não têm mais o que acordar, morrem estampando avisos fúnebres no meu elevador. Toda semana um novo aviso — “COMUNICAMOS O FALECIMENTO DO EX-MORADOR DO APTO. 503″. A distância e o tempo que os velhos carregam fazem seus dias parecerem ainda mais iguais. E os dias em Copacabana não param de nascer iguais. Cada vez mais iguais.
O sol se desprende do mar, esquenta o sono das putas, gringos por trás de cortinas prateadas, mendigos e pivetes sob marquises, cobertores imundos. Ilumina janelões na Avenida Atlântica. Brilha em cada fresta de ar-condicionado, desenha o teto de conjugados porcos, superpovoados, ilumina quadros caros, coberturas e a piscina do Copacabana Palace, espia basculantes, esquenta as lágrimas de crioulas gostosas, cicatrizando feridas, pingando sangue pelo chão, a oração de beatas que rezam ajoelhadas em frente do espelho de cômodas gastas, o passeio de cachorrinhos estúpidos, o tédio dos porteiros, essa gente sem esperança que dorme cada vez menos enquanto seus dias somem num ralo comum. O sono dos velhos é cada vez menor. Amanhece em Copacabana, as crianças vendendo pó na Djalma Ulrich. Sonhos caindo do céu. Amanhece por trás dos prédios, amanhece o que é feio no que é belo. Amanhece até que não exista diferença.»
[in Corpo Presente, de João Paulo Cuenca, Planeta (Brasil), 2003]
Um poema de Inês Lourenço
SIRENE
Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afecto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhuns, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sénior
de vários prémios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.
[in A disfunção lírica, &etc, 2007]
Estilhaços orgânicos
«Alguém lhe removeu do rosto os cacos de vidro. O homem falou sem parar durante toda a operação, usando um minúsculo instrumento a que chamou pinça de pontas triangulares para extrair os pequenos fragmentos de vidro que não tinham penetrado profundamente na pele. Disse que a maior parte dos casos mais graves estava em hospitais da baixa ou no hospital de campanha montado num cais. Disse que estavam a receber bem menos sobreviventes do que o esperado. Os médicos e os voluntários cruzavam os braços, sem nada para fazer, disse, porque grande parte das pessoas de quem eles estavam à espera tinham ficado lá longe, nas ruínas. Disse que ia usar uma pinça maior para os fragmentos mais profundos.
— Quando há atentados cometidos por bombistas suicidas. Se calhar o senhor não quer ouvir isto.
— Não sei.
— Nos lugares onde isso acontece, os sobreviventes, as pessoas ali próximas que ficam feridas, por vezes, passados meses, desenvolvem inchaços, à falta de um termo melhor, inchaços esses que são causados por pequenos fragmentos, pedacinhos minúsculos do corpo do bombista suicida. O bombista fica literalmente feito em pedaços, e fragmentos da carne e dos ossos são projectados em todas as direcções com tal força e velocidade que ficam encravados, presos no corpo de qualquer pessoa que se encontre no seu raio de alcance. Custa a crer, não acha? Uma estudante está sentada num café. Sobrevive ao ataque. Depois, meses mais tarde, os médicos encontram estes bagozinhos de carne, como se fosse chumbo fino, grãozinhos de carne humana que mergulharam na pele. Chama-se a isto estilhaços orgânicos.»
[in O homem em queda, de Don DeLillo, tradução de Paulo Faria, Sextante, 2007]
Quatro poemas de Adília Lopes
Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada
***
No metro
cruzam-se as pessoas
como cartas de jogar
postas sobre a mesa
***
Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura
Mas a poesia
é noite escura
***
Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito
[in Caderno, & Etc, 2007]
Descida da cruz
Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio.
O demónio dir-me-ia que a morte é vital, mas nada ouvi, aqui,
nesta paixão, sendo que apurei o ouvido e nem o eco das montanhas
do Moab ouvi, só ouvi como é doce a paixão e como esta crucificação
rende preito à esperança dos homens, tal como, de mim para comigo,
disse tantas vezes, e à multidão dos homens repeti.
Há coisas que não ouço e que não vejo, o demónio não vi, eis o que sei,
ele, se me visse nesta cruz, por certo choraria, pelos seus mil olhos
eu sei que choraria, pelos seus mil demónios no olhar, enquanto
chega a morte para que tudo se perfaça sobre o sofrimento,
a esponja do vinagre, a lança no flanco, os gritos das mulheres,
o grave galope dos cavalos a reter a multidão na sua esperança aflita.
Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio, essa luz
tão diferente, esse asco assinalável, mas não menos amistoso
pela demoníaca presença se aqui tivesse vindo, sendo que não me negaria
como outros me negaram, ah, não, não me negaria o que me persegue,
diria quem eu sou e qual o meu nome, e como os maltrapilhos desta terra
exercem pelo seu nome o nome que eu tenho, todos quantos
só pela minha dor rejubilam e se podem salvar.
Não vi aqui o demónio, nem vi Deus, vi o cálice e vi o abandono,
e vi a terra toda ensanguentada e Adonai ausente, ausente em parte incerta,
enquanto as mulheres e os homens se enlaçavam,
e foi a manhã inicial,
e a coroa de espinhos perfurava as minhas têmporas,
e os homens e as mulheres se enlaçavam,
e foi a noite inicial,
e por amor se uniram e geraram filhos,
enquanto sobre o Gólgota ecoavam os oboés e as trompas.
[in Sobre as Imagens, de Amadeu Baptista, inédito]
‘Expiação’
«A peça — para a qual Briony tinha desenhado os cartazes, os programas e os bilhetes, construído a bilheteira com um biombo voltado de lado e debruado uma caixa com papel crepe vermelho para recolher donativos — tinha sido escrita por ela num assomo de criatividade que tinha durado dois dias e que a levara a perder um pequeno-almoço e um almoço. Depois de concluídos todos os preparativos, já não tinha mais nada a fazer a não ser rever o manuscrito e esperar pela chegada dos primos que vinham do norte. Só teriam tempo para um dia de ensaios antes de o irmão chegar. A peça, com passagens sinistras e outras desesperadamente tristes, era uma história de amor, cuja mensagem, transmitida num prólogo em verso, era a de que o amor que não estivesse assente numa base de bom-senso estaria condenado. A paixão louca da heroína, Arabella, por um maléfico conde estrangeiro é punida pelo infortúnio de ela contrair cólera durante uma ida impetuosa até uma vila à beira-mar com o namorado. Abandonada por ele, e por quase toda a gente, presa à cama numas águas-furtadas, descobre em si mesma um inesperado sentido de humor. A sorte dá-lhe uma segunda oportunidade, sob a forma de um médico pobre que, na verdade, é um príncipe disfarçado que escolheu trabalhar no seio dos mais necessitados. Arabella é curada por ele e, desta vez, faz uma escolha sensata, sendo recompensada pela reconciliação com a família e pelo casamento com o príncipe-médico “num dia de Primavera com muito sol e algum vento”.»
[Primeiro parágrafo de Expiação, de Ian McEwan, tradução de Maria do Carmo Figueira, Gradiva, 2002]

A adaptação cinematográfica do romance de McEwan chega hoje aos cinemas portugueses, realizada por Joe Wright, com Keira Knightley e James McAvoy nos principais papéis. Mais logo, pelas 19h00, o jornalista Carlos Vaz Marques entrevista o escritor inglês no programa Pessoal e… Transmissível, na TSF.
Marginais
«(…) Inaugurei uma secção OS MARGINAIS. Conhecem? São os filhos da noite quase todos, uma espécie de Máfia, topamo-nos todos uns aos outros, ajudamo-nos ou sacaneamo-nos conforme a disposição, as raivinhas do momento, as cervejolas, a necessidade premente da sobrevivência. No fundo, constituímos uma força, não coesa, o mais desorganizada e anárquica e libérrima no possível, mas de camaradagem segura, às vezes. Que funciona, tenho larga prática, episódios nem todos para rir (…).
Serão então: afidalgados, decaídos ou interditos pelas fidalgas sifilíticas e cobiçosas famílias, ciosas do seu dinheiro e mando; filhos de boas filhas, gente que estafou centenas e centenas de contos em mulheres, em estúrdia, na jogatana, boa-vai-ela; artistas em potência, irrealizados, por vezes com talento mas uma mola na cachola solta ou partida; ou fracassaram, porque lhes não deram a tempo asas, calor, confiança, possivelmente assim: “Um pouco mais de sol // e fora brasa. // Um pouco mais de azul // e fora além“, lamentou-se Mário de Sá-Carneiro, talvez, e também, um marginal da Bela-Época e viu-se o seu fim.(…)»
[in Textos de Guerrilha, de Luiz Pacheco, Ler Editora, 1979]
Leitores puros (de Cervantes a Joyce)

«Primeira questão: a leitura é uma arte da microscopia, da perspectiva e do espaço (não são só os pintores que se ocupam dessas coisas). Segunda questão: a leitura é um assunto de óptica, de luz, uma dimensão da física.
Joyce também sabia ver mundos múltiplos no minúsculo mapa da linguagem. Numa foto, vemo-lo vestido como um dândi, um olho tapado com uma pala, a ler com uma lupa de grande aumento.
O Finnegans Wake é um laboratório que submete a leitura à sua prova mais extrema. À medida que nos aproximamos, aquelas linhas baças convertem-se em letras e as letras encavalitam-se e misturam-se, as palavras transmutam-se, trocam-se, o texto é um rio, uma torrente múltipla, sempre em expansão. Lemos restos, pedaços soltos, fragmentos, a unidade do sentido é ilusória.
A primeira representação espacial deste tipo de leitura já está presente em Cervantes, sob a forma dos papéis rasgados que apanhava na rua. É essa a situação inicial do romance, o seu pressuposto, melhor dizendo: “Lia inclusive os papéis rasgados que encontrava na rua”, diz-se no D. Quixote (I, 5).

Poderíamos ver ali a condição material do leitor moderno: vive num mundo de sinais; está rodeado de palavras impressas (que, no caso de Cervantes, a imprensa tinha começado a difundir pouco tempo antes); detém-se no turbilhão da cidade para apanhar papéis espalhados no chão, quer lê-los.
Só que agora, diz Joyce no Finnegans Wake — quer dizer, na outra extremidade do arco imaginário que se abre com D. Quixote — estes papéis rasgados estão perdidos numa lixeira, debicados por uma galinha que esgravata. As palavras misturam-se, sujam-se, são letras corridas, mas ainda legíveis. Já se sabe que o Finnegans é uma carta perdida numa lixeira, uma “multidão de borrões e de manchas, de gritos e convulsões e fragmentos justapostos”. Shaum, o que lê e decifra no texto de Joyce, está condenado a “esgravatar para sempre cada vez mais até derreter a moleirinha e perder a cabeça, o texto destina-se a esse leitor ideal que sofre de uma insónia ideal” (by that ideal reader suffering an ideal insomnia).
O leitor dependente, o que não consegue deixar de ler, e o leitor insone, o que está sempre acordado, são representações extremas do que significa ler um texto, personificações narrativas da complexa presença do leitor na leitura. Chamar-lhes-ia leitores puros; para eles a leitura é não só uma prática, como uma forma de vida.»
[in O Último Leitor, de Ricardo Piglia, tradução de Jorge Fallorca, Teorema, 2007]


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