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Primeiros parágrafos

«Os media e as instâncias oficiais estão a avisar-nos: muito em breve, vai-se desencadear uma nova crise financeira, e será pior que em 2008. Fala-se abertamente das “catástrofes” e dos “desastres”. Mas o que vai acontecer depois? Como serão as nossas vidas depois de um colapso em larga escala dos bancos e das finanças públicas? A Argentina já passou por essa experiência em 2002. À custa de um empobrecimento em massa, a economia desse país pôde em seguida voltar a subir de novo um pouco a encosta: mas nesse caso, tratava-se de um único país. Agora, a totalidade das finanças europeias e norte-americanas estão em risco de sucumbir em conjunto, sem salvador possível.
Em que momento o crash da bolsa deixará de ser uma notícia que conhecemos pelos media para ser um facto perceptível mal saímos à rua? Resposta: quando o dinheiro perder a sua função habitual. Quer tornando-se raro (deflação), quer circulando em quantidades enormes, mas desvalorizadas (inflação). Nos dois casos, a circulação das mercadorias e dos serviços desacelerará até eventualmente parar por completo: os seus proprietários não encontrarão quem as possa pagar em dinheiro, em dinheiro “válido” que lhes permita, por sua vez, comprar outras mercadorias e serviços. Por isso, eles vão guardá-las. Teremos armazéns cheios, mas sem clientes, fábricas em condições de funcionar perfeitamente, mas sem ninguém que nelas trabalhe, escolas onde os professores deixam de comparecer, porque ficaram durante meses sem salário. Dar-nos-emos então conta de uma verdade que é de tal modo evidente que não a víamos: não existe nenhuma crise na produção em si. A produtividade de todos os sectores aumenta continuamente, as superfícies cultiváveis da terra poderiam alimentar toda a população do globo, e as oficinas e fábricas produzem até muito mais do que é necessário, desejável e sustentável. As misérias do mundo não se devem, como na Idade Média, a catástrofes naturais, mas a uma espécie de feitiço que separa os homens dos seus produtos.
O que já não funciona é a “interface” que se ergue entre os humanos e o que eles produzem: o dinheiro. Na modernidade, o dinheiro tornou-se a “mediação universal” (Marx). A crise confronta-nos com o paradoxo fundador da sociedade capitalista: a produção de bens e serviços não é para ela um fim, mas apenas um meio. O único fim é a multiplicação do dinheiro, é investir um euro para conseguir dois. E quando esse mecanismo se avaria, é toda a produção “real” que sofre e que pode mesmo bloquear por completo. Então, como o Tântalo do mito grego, encontramo-nos perante riquezas que, quando lhes queremos deitar a mão, se afastam: porque não podemos pagá-las. Esta renúncia forçada foi sempre a sina dos pobres. Mas agora, situação inédita, isso poderia chegar a toda a sociedade, ou quase. A última palavra do mercado é assim a de nos deixar morrer de fome rodeados de alimentos empilhados por todo o lado, a apodrecer, mas em que ninguém deve tocar.»

[in Sobre a Balsa da Medusa - Ensaios acerca da decomposição do capitalismo, de Anselm Jappe, Antígona, 2012]

Primeiros parágrafos

«No princípio Lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem árvores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra vermelha, como um borrão saltitante.
E o sol.
Meio-dia, talvez.
Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distinguia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protuberâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar.
— É ali.
Aminha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me:
— é ali.
Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me.
Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sabem morrer.
O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:
— Vais.
Mas espera-te o mesmo. De vez em quando, abre-se uma nesga na indiferença do mundo e um freixo torna-se claro, uma sebe, uma ponte, um muro, a pena de uma rola, os lábios, uma palavra. Deus. É ali. E eu vou. Olhos abertos para a desolação de uma casa no meio de um ermo, de um vento cor de barro. De uma voz. E não se abria uma porta, nem se dava um passo. Só a voz tinha princípio e fim. É ali. O braço esticado à minha frente. E o dedo indicador, cheio de nódulos, a apontar.
E os meus olhos.
Que se lembram.
Lembram-se de ver.»

[in Barro, de Rui Nunes, Relógio d'Água, 2012]

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

Primeiros parágrafos

«Mudei de clube num dia de Novembro. O sol jorrava sobre Lisboa, que o recebia com um misto de gratidão e rancor – e, no entanto, nem o mês em curso, nem as condições meteorológicas vigentes, extraordinárias mas não inéditas, tiveram o que quer que fosse a ver com a minha decisão.
O que aconteceu, no essencial, foi o que sempre acontecia às segundas-feiras: estávamos os três, eu, Pedro e Alberto, prolongando o almoço muito para lá do devido sob o sol tardio de um daqueles outonos ferventes após os quais só podia vir chuva, muita chuva, muito mais chuva do que era suposto um Deus misericordioso derramar sobre as suas criaturas – e, naturalmente, falávamos de futebol. Até que, ao concluir outra das suas habituais dissertações sobre as origens de nova e inexorável série de derrotas do Sporting, a fé que nos unia e nos puxava para baixo e nos tornava a unir lá no fundo, Alberto ergueu o terceiro uísque:
– Que se lixe. Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca. Portanto, viva o Sporting!
E eu, como se não pudesse evitá-lo, dei por mim de repente:
– Mas não muda porquê?
E logo a seguir, incapaz de conter-me ainda:
– Uma merda é que não muda… Pois escreve aí direitinho, que é para depois não te esqueceres: eu agora sou do Benfica.
Dei por mim a dizê-lo e, ainda por cima, a gostar de ouvir-me dizê-lo:
– Aí tens. Sou do Benfica. Mudei para o Benfica. Mudei para o Benfica e agora quero é que o Sporting vá morrer longe.»

[in Os Sítios Sem Resposta, de Joel Neto, Porto Editora, 2012]

Primeiros parágrafos

«Começou da maneira habitual, na casa de banho do Hotel Lassimo. Sasha estava ao espelho, a retocar a sombra amarela nos olhos, quando reparou num saco pousado no chão por baixo do lavatório e que deveria pertencer à mulher cuja mijadela ela ouvia tenuemente através da porta em arco de uma das latrinas. Por dentro da orla do saco, mal se vendo, estava uma carteira de couro verde-claro. Para Sasha foi fácil reconhecer, em retrospetiva, ter sido aquela cega confiança da mulher que estava a mijar o que a provocara: Vivemos numa cidade onde as pessoas até nos roubam os cabelos da cabeça se lhes dermos oportunidade para isso, mas você deixa as suas coisas por aí à mostra e acha que elas ainda vão estar à sua espera quando voltar? Aquilo dera-lhe vontade de ensinar uma lição à mulher. Mas esse desejo somente camulflara o sentimento mais íntimo que Sasha sempre tinha: aquela carteira gorda e macia, a oferecer-se à sua mão – parecia tão aborrecido, tão banal, deixá-la ali onde estava, em vez de aproveitar o momento, aceitar o desafio, dar o salto, pirar-se, lançar ao ar as cautelas, viver o perigo (“Estou a perceber”, disse Coz, o terapeuta dela), e pegar no raio da coisa.
“Você quer dizer roubá-la.”
Ele estava a tentar que Sasha utilizasse essa palavra, o que era mais difícil de evitar no caso de uma carteira do que nos das inúmeras coisas que ela surripiara ao longo do último ano, quando a condição dela (era assim que Coz se referia àquilo) começara a acelerar: cinco molhos de chaves, catorze óculos de sol, o cachecol às riscas de uma criancinha, um binóculo, um ralador de queijo, um canivete, vinte e oito sabonetes e oitenta e cinco canetas, entre as esferográficas baratas que usara para assinar talões dos cartões de débito e a Visconti cor de beringela que custava duzentos e sessenta dólares na internet, e que ela surripiara ao advogado do seu anterior patrão durante uma reunião contratual. Sasha já não tirava nada de lojas – os frios e inertes bens destas não a tentavam. Somente de pessoas.
“Está bem”, disse ela. “Roubá-la.”»

[in A Visita do Brutamontes, de Jennifer Egan, trad. de Jorge Pereirinha Pires, Quetzal, 2012; nas livrarias a partir de dia 14 de Abril]

A mãe e o fim da União Soviética

«Tendo em conta que era sábado, levantou-se cedo: oito horas e quinze minutos. Vestiu-se: calças de ganga, blusa vermelha, sandálias. Penteou-se: rabo-de-cavalo a descair ligeiramente sobre o ombro esquerdo. Comeu um iogurte natural. Comeu metade de uma banana. Lavou os dentes. Saiu de casa. Chamou o elevador, mas a luz do botão não se acendeu. Esperou seis segundos, voltou a carregar no botão. Nada. Desceu as escadas: três andares. A porta do prédio escapou-lhe das mãos, fechou-se num estrondo. Pôs os óculos escuros. Entrou no café. Tomou uma bica. Pediu uma caixa de chicletes verde. Saiu do café. Foi à praça. Comprou maçãs: um quilo e cem gramas. Peras: um quilo e setecentos gramas. Bananas: novecentos e cinquenta gramas. Morangos: um quilo. Cerejas: um quilo e quinhentos gramas. Carapaus: doze. Pescadas: duas. Robalos: quatro. Bacalhau: um. Abóbora: uma talhada. Nabos: dois. Espinafres: um molho. Cenouras: dez. Batatas: quatro quilos. Agriões: um molho. Brócolos: quatrocentos gramas. Flores: gerberas. Pão: dois de Mafra e doze carcaças. Tremoços: meio litro. Saiu da praça. Voltou a pôr os óculos escuros. Pousou cinco vezes os sacos no chão para descansar os braços. Entrou no prédio. Chamou o elevador. A luz do botão não acendeu. Subiu as escadas: três andares. Pousou duas vezes os sacos no chão: no primeiro andar e entre o segundo e o terceiro. Pousou novamente os sacos no chão para abrir a porta de casa. Largou os sacos na cozinha. Sentou-se. Esticou os braços. Esticou os dedos. Bebeu um copo de água. Levantou-se para ir à casa de banho. Mijou. Lavou as mãos. Voltou para a cozinha. Arrumou as compras: no frigorífico o que era do frigorífico, na despensa o que era da despensa. Colocou as flores numa jarra com água. Colocou a jarra sobre a mesa da sala. Saiu de casa. Desceu as escadas sem chamar o elevador. Segurou a porta do prédio com cuidado. Pôs os óculos escuros. Atravessou dois quarteirões. Entrou no supermercado. Pegou num carrinho. Comprou leite: quatro litros, meio gordo. Café: cem gramas, moagem média. Arroz: carolino, uma embalagem de um quilo. Esparguete: duas embalagens de quinhentos gramas. Fiambre: da perna extra, duzentos gramas. Queijo flamengo: duzentos gramas fatiados. Queijo fresco: embalagem de seis unidades. Feijão encarnado: uma lata de oitocentos e quarenta e cinco gramas. Feijão frade: uma lata de oitocentos e quarenta e cinco gramas. Grão de bico: uma lata de oitocentos e cinquenta gramas. Atum: seis latas. Ovos: classe L, doze unidades. Sacos do lixo: trinta litros, quarenta unidades. Detergente para a loiça: um litro. Detergente para a máquina da loiça: em pó, embalagem de dois quilos e quinhentos gramas. Detergente para a máquina da roupa: quarenta doses. Sabão azul e branco: barra de quatrocentos gramas. Sabonete líquido: duas embalagens de trezentos mililitros. Pasta de dentes: duas embalagens. Champô: uma embalagem para cabelos normais. Amaciador: uma embalagem para cabelos normais. Iogurtes: oito naturais, oito de pedaços de morango, quatro sabor tuti-fruti. Sumos naturais: maçã, um litro, pêra, um litro. Água das pedras: quatro garrafas de trinta e três centilitros. Saiu do supermercado. Atravessou dois quarteirões. Abriu a porta do prédio. Subiu as escadas. Entrou em casa. Arrumou as compras: no frigorífico o que era do frigorífico, na despensa o que era da despensa. Fechou-se na casa de banho. Abriu a torneira da água quente. Sentiu a temperatura. Aguardou uns segundos. Abriu ligeiramente a torneira da água fria. Sentiu a temperatura. Tapou o ralo da banheira. Despiu-se. Olhou-se ao espelho. Os dois pés. As duas pernas. As duas mãos. Esticou os dedos das mãos. Fletiu os braços. Baixou os braços. Olhou os seios. Apalpou-os. Sentiu-lhes o volume. A firmeza. O peso. Acariciou os mamilos. Primeiro o esquerdo. Depois o direito. Os mamilos reagiram de imediato. Sorriu. Desfez o rabo-de-cavalo. Sacudiu o cabelo. Colocou-se em cima da balança: cinquenta e dois quilos. Fechou as torneiras. Mergulhou na ba- nheira. Deixou-se ficar. Submersa. Acima da linha de água: apenas o nariz e os dedos grandes dos pés. Abaixo da linha de água: o silêncio. Às vezes um pulsar. O coração. Depois, de novo o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Até que, com a mão direita, procurou o ralo por baixo da nuca e destapou-o. O corpo começou a emergir lentamente. Primeiro os olhos. A testa. Depois a boca. O queixo. As orelhas. Os mamilos. A barriga. Os pés. As pernas. Os ombros. Os braços. As mãos. Os dedos. Toda. Levantou-se. Cobriu-se de champô e sabonete. Abriu as torneiras. Sentiu a temperatura. Abriu mais um pouco a torneira da água fria. Segurou o chuveiro sobre a cabeça. Sobre o peito. Sobre as costas. Saiu da banheira. Enrolou-se numa toalha branca. Abriu a porta de um armário. Tirou lá de dentro uma gilete. Levantou os braços e passou a gilete pelas axilas. Primeiro a esquerda, depois a direita. Sentou-se no tampo da sanita. Pousou os pés na borda do bidé. Abriu as pernas. Passou a gilete pelas virilhas. Espalhou creme pelo corpo. Vestiu-se: vestido branco de algodão. Saiu da casa de banho. Entrou na cozinha. O marido estava a tomar o pequeno-almoço: sopas de café com leite. O filho estava a tomar o pequeno-almoço: leite simples e uma carcaça com manteiga. Trocaram bons-dias. Estendeu a toalha do banho. Disse ao marido que o elevador estava avariado. O marido disse-lhe que talvez não estivesse avariado, talvez a porta estivesse mal fechada em algum dos andares. Saiu novamente. Voltou a chamar o elevador. A luz do botão não se acendeu. Subiu ao quarto andar e verificou a porta do elevador. Subiu ao quinto andar e verificou a porta do elevador. Desceu as escadas. No segundo andar, verificou a porta do elevador. No primeiro andar, verificou a porta do elevador e carregou no botão. A luz não se acendeu. No rés do chão, verificou a porta do elevador. Saiu para a rua. Pôs os óculos escuros. Tirou os óculos escuros. Entrou no salão de cabeleireiro. A empregada que a costumava atender e que, para além de cabeleireira, era vidente e cartomante e lançava os búzios e lia as palmas das mãos, viu-a entrar e disse: “Ai, dona Paula, mas que luz, que bom astral. A senhora hoje anda rodeada de anjos.” Ela riu-se e disse: “Minha querida, é o branco que me fica bem, mais nada.” Depois, sentou-se na cadeira giratória, reclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e acrescentou: “Olha, Daniela, hoje vou fazer-te a vontade. Quero que me ponhas loira. Podes cortar, podes escolher o tom, podes pentear como achares melhor. Quando acabares, avisa-me.” A empregada deixou escapar uma risada de contentamento e lançou-se na desafiante empreitada. Não trocaram uma palavra durante todo o tempo. Os olhos mantiveram-se fechados, não tanto como os de quem aguarda, com expectativa, uma surpresa, mas sobretudo como os de quem se entrega, de corpo e alma, a uma volúpia. As mãos de Daniela, auxiliadas por uma parafernália de utensílios, pareciam não ter dúvidas sobre o caminho a seguir, como se a estratégia de intervenção já há muito estivesse delineada. Na verdade, desde que Daniela começara a trabalhar naquele salão de cabeleireiro que se criara, imediatamente, uma empatia entre as duas. Daniela fazia-lhe confidências, pedia-lhe conselhos. Em troca, lia-lhe a mão, lançava-lhe as cartas e não só lhe previa o futuro, como lhe adivinhava o passado. O passado anterior ao passado: “Dona Paula, a senhora, noutra vida, já foi loira. Tenho a certeza. Temos de experimentar.” “Eu já fui loira e tu és doida.” Andaram nisto durante anos: “A senhora, um dia, vai dar-me razão.” “E o meu marido vem cá dar-te uma tareia.” Daniela deu os últimos retoques e virou a cadeira para o espelho, suspirou fundo, ganhou coragem, anunciou: “Já está, dona Paula.”
“Só volto a abrir os olhos se me prometeres que nunca mais me tratas por dona.”
Daniela prometeu e ela abriu os olhos. E o que viu diante de si foi o rosto da mãe, tal como o recordava. Ao seu lado, por cima do seu ombro, as lágrimas da Daniela esborratavam-lhe os olhos e desenhavam-lhe, nas faces ainda adolescentes, dois riscos de rímel. Olharam-se através do espelho. Apertaram as mãos. Abraçaram-se. Daniela disse: “Desejo-lhe as maiores felicidades. Fico a rezar por si.”
Pôs os óculos escuros e saiu do salão de cabeleireiro. Entrou no café. Pediu uma bica e um pastel de nata. Cumprimentou um vizinho que estava sentado a uma das mesas a resolver palavras cruzadas. Perguntou-lhe se ele já se apercebera de que o elevador estava avariado. O vizinho lembrou-a de que morava no rés do chão e que por isso nunca utilizava o elevador. Tomou a bica. Comeu o pastel de nata. Pagou. Disse até logo ao vizinho e ao empregado do café. Entrou na papelaria do senhor Sabino. Comprou o jornal. Abriu a porta do prédio. Subiu as escadas: três andares. Entrou em casa. O filho perguntou: “O pai já viu?” Ela respondeu: “Não, ainda não.” Percorreu a casa. Apanhou cuecas do chão. Meias. Pijamas. Lenços de papel. Abriu as janelas. Mudou os lençóis. Ligou a máquina de lavar roupa. Vestiu o avental. Descascou oito batatas. Colocou-as dentro de um tacho com água. Juntou sal. Acendeu o bico maior do fogão. Lavou os robalos. Encheu uma panela com água. Acendeu o bico médio do fogão. Juntou sal e pimenta. Uma rodela de limão. Um pouco de leite. Assim que a água começou a ferver, mergulhou, com cuidado, os robalos. Pôs o lume no mínimo. Olhou o relógio. Deixou cozer. Ligou o forno. Untou com margarina um tabuleiro de pirex. Pousou os robalos no tabuleiro. Juntou as batatas cozidas. Polvilhou tudo com pimenta. Regou com sumo de limão. Cobriu com natas. Colocou o tabuleiro no forno. Olhou o relógio. O marido entrou na cozinha e disse: “Já chamaram o piquete dos elevadores, deve vir ainda hoje.” Reparou no cabelo loiro da mulher. Quatro segundos a olhar para o cabelo loiro da mulher. Esteve quase para dizer “Fazes-me lembrar alguém”. Disse: “Oh, cum caralho.” Depois, espreitou para dentro do forno. Ela pediu-lhe que pusesse a mesa. O marido pôs a mesa. Ela olhou o relógio. Espreitou para dentro do forno. Chamou o filho. Tirou o tabuleiro de dentro do forno. Pousou-o sobre a mesa. Polvilhou com salsa picada. Sentaram-se a almoçar. O marido perguntou-lhe se queria vinho. Respondeu que sim. O marido encheu-lhe o copo. “O que é que te deu na cabeça?”, perguntou-lhe o marido. “Apeteceu-me”, respondeu. Comeram cerejas. No final, o marido acendeu um cigarro. O filho levantou-se. Ela disse: “Não vou tomar café. Já bebi dois hoje de manhã.” O marido apagou o cigarro no molho do prato. Ela levantou a mesa. Arrumou a cozinha. Estendeu a roupa. Ligou a máquina de lavar loiça. Sentou-se no sofá. O filho fechou-se no quarto. Ela fechou os olhos. Lembrou-se de um poema de Cesário Verde. Levantou-se. Procurou o livro de Cesário Verde. Retirou-o da estante. Sentou-se no sofá com o livro nas mãos. Sem o abrir. Deixou-o ficar no colo. Fechou os olhos. Na memória desenhou-se-lhe o rosto de Cesário Verde. Nem bonito nem feio. Uma soturnidade. Uma melancolia. Recordou-se do pai que não gostava de Cesário Verde. Demasiado doente. Demasiado confuso. O pai que recitava sonetos de Shakespeare de cor, com a mãe a corrigir-lhe a pronúncia. Ele a responder: “Às vezes esqueces-te de que sou de Torres Vedras. Saber quem foi Shakespeare já é um milagre.” “De prédios sepulcrais, com dimensões de montes”, era assim o poema de que se lembrara. Talvez tenha adormecido. Sobressaltou-se com o barulho do telefone. O filho saiu disparado do quarto, a dizer que ia começar o jogo. Sentaram-se em frente da televisão. O filho a torcer pela Holanda. Ela a torcer pela União Soviética. O marido a torcer para que alguém se aleijasse, para que houvesse invasão de campo, para que viessem os tanques de Moscovo, para que fossem a penaltis e falhassem todos para sempre, o resto da eternidade a marcarem penaltis e a falharem, ao fim de não sei quantas horas, as pessoas a abandonarem o Estádio Olímpico de Munique, as televisões a interromperem as transmissões em direto, e os jogadores, abandonados no relvado, a falharem penaltis. O assunto a ser discutido em Assembleia Geral das Nações Unidas. Até que o Van Basten, do bico da pequena área, a cruzamento de Mühren, remata de primeira, e a bola, numa trajetória improvável – que, como o filho, perspicazmente, observou, não era compatível com a velocidade do remate e das duas uma: ou, por breves momentos, a força gravítica exercida pela Terra aumentara, ou então o fenómeno não podia ser descrito pelas três leis fundamentais de Newton e tinha de ser entendido à luz da mecânica quântica –, passa por cima do Dasayev e entra na baliza. Uma coisa linda de se ver, admitiu ela. Um soviético jamais marcaria um golo assim, admitiu ela. O resultado estava feito, admitiu ela. Setenta anos de socialismo científico, de ditadura do proletariado, de democracia avançada, e nem a merda de um campeonato da Europa, admitiu ela. Pronto, ganharam um há não sei quantos anos. Mas agora é que era preciso. Milhões de mortos congelados na Sibéria e o cabrão do Van Basten, sozinho no bico da pequena área do Estádio Olímpico de Munique, admitiu ela. Uma coisa linda de se ver. O filho aos pulos a gritar golo. O marido a garantir que havia fora de jogo. O filho a dizer que o pai estava maluco, qual fora de jogo, qual quê. Até que o pai se rendeu às evidências das múltiplas repetições proporcionadas de diversos ângulos a várias velocidades e disse que o cruzamento do Mühren era uma vergonha de cruzamento, que o remate do Van Basten era um charuto, que o Dasayev tinha sido mal batido, e que desde o Beckenbauer que não se via futebol a sério. E que a única coisa de jeito que os Soviéticos tentaram fazer foi acabar com os padres, e que não conseguia entender como é que ela, uma beata, era capaz de torcer pela União Soviética. Ela não respondeu. Foi para a cozinha. Já não quis ver o resto do jogo. Nem a entrega da taça. Nem a distribuição das medalhas. Não queria ver mais nada. Fechou-se na cozinha. Fez sopa. Fez bacalhau com natas. Fez mousse de chocolate. Preparou o jantar: bifes com batatas fritas e ovos estrelados. Sentaram-se à mesa. Comeram. O marido acendeu um cigarro. Fumou o cigarro. Apagou o cigarro na tigela suja de mousse. Ela disse: «Tenho um cancro.» Encostou a mão ao seio esquerdo e disse: “Aqui.” Depois disse: “Vou ser operada na segunda-feira, amanhã dou entrada no hospital.” Depois disse: “A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa.” Depois disse: “No congelador também há bifes e hambúrgueres e costeletas.” Depois disse: “Devo ficar internada, pelo menos, uma semana, depois logo se vê.” Não disse mais nada. O filho começou a dividir pedacinhos de pão em pedacinhos cada vez mais pequenos. Quando já eram demasiado pequenos para os voltar a dividir, mesmo com a ponta da unha, juntava-os num montinho que ia crescendo com o passar dos minutos. O marido acendeu um cigarro. Tocaram à campainha. Ninguém se levantou.»

[in O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, LeYa, 2012]

Primeiros parágrafos

«Naquela noite tinha havido uma tempestade em St. Louis. A água quedava-se em negros charcos fumegantes na calçada fronteira ao aeroporto, e, do banco traseiro do táxi, eu via a agitação dos ramos dos carvalhos sobre um fundo de nuvens citadinas baixas. Era sábado e as estradas estavam saturadas de uma sensação de extemporaneidade, de atraso – a chuva não caía, já tinha caído.
A casa da minha mãe, em Webster Groves, estava às escuras, à exceção de uma lâmpada com temporizador na sala de estar. Entrei, fui direito à prateleira das bebidas e servi-me de uma boa dose que já vinha a prometer a mim próprio desde antes do primeiro dos meus dois voos. Invadia-me o sentido de posse de um viquingue em relação a tudo a que pudesse deitar a mão. Estava prestes a entrar na casa dos quarenta, e os meus irmão mais velhos tinham-me confiado a missão de viajar até ao Missuri e escolher um agente imobiliário que se encarregasse de vender a casa. Enquanto estivesse em Webster Groves, a trabalhar em prol do património familiar, a prateleira das garrafas seria minha. Minha! Idem para o ar condicionado, que regulei para uma temperatura glacial. Idem para o frigorífico da cozinha, que achei necessário abrir imediatamente e vasculhar até ao fundo, na esperança de descobrir umas salsichas de pequeno-almoço, um guisado caseiro, alguma coisa cheia de gordura e de sabor que pudesse aquecer e comer antes de ir para a cama. A minha mãe tinha sempre o cuidado de etiquetar a comida com a data em que a tinha congelado. Debaixo de múltiplos sacos de mirtilos, descobri um saco com uma perca que um vizinho tinha pescado três anos antes. Debaixo da perca estava um pedaço de peito de vaca com nove anos.»

[in A Zona de Desconforto, de Jonathan Franzen, trad. de Francisco Agarez, Dom Quixote, 2012]

Primeiros parágrafos

«Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler romances somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio de acontecimentos e pessoas imaginários que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos entregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana. Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pelos romances, ou pelo menos que confundimos a realidade do romance com a da vida real. Mas nunca nos queixamos, nunca nos arrependemos dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando temos certos sonhos, queremos que o romance que estamos a ler continue e esperamos que essa vida paralela provoque em nós um sentido sólido, consistente de realidade e de autenticidade. Apesar de tudo o que conscientemente sabemos sobre ficção, ficamos contrariados e dececionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver.»

[in O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk, Presença, 2012]

Primeiros parágrafos

«Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. Esquece a morte e segue-me.
Sete e meia da manhã em agosto. Gosto do cheiro de jasmim pela manhã no pátio de Karim. Ainda não o conheço, está no Brasil, chega em dezembro: Karim Farah. Nome estranho para um brasileiro, mas o amigo do amigo que nos pôs em contacto disse-me que há milhões de descendentes sírio-libaneses no Brasil. Não sei nada do Brasil, sabemos pouco do Brasil na Catalunha. Por acaso o amigo do meu amigo foi tocar ao Rio de Janeiro, conheceu Karim e ele contou-lhe que tinha uma casa em Damasco onde recebia músicos. Eu andava a estudar cantigas do Al Andaluz, precisava de ver arquivos em Damasco. Escrevi a Karim, respondeu que viesse. Mesmo na sua ausência a casa era minha.
No dia marcado foram buscar-me a Bab Sharqi, o portão oriental da Cidade Velha. Entrámos ao crepúsculo, com o souk a acelerar na cacofonia dos últimos pregões. Tudo foi ficando cada vez mais estreito, até acabar num beco onde se ouvia o eco de cada passo. Ao fundo uma pequena porta abriu um clarão. Achei-me entre laranjeiras, fontes de azulejo e madrepérola. Era o próprio Al Andaluz.»

[in E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2012]

Primeiros parágrafos

«A primeira vez aconteceu depois de todas as outras, numa tarde que parecia vulgar. Foi há uns meses, a cidade afastava-se do frio. Havia um certo torpor, meu e dela. Eu caminhava ao sol, devagar, ela acolhia, confiante. Avenida da Liberdade, sétima esquina a contar do rio. No semáforo, verde e vermelho. Um autocarro a travar, mulher a cruzar a passadeira, os canteiros na meninice. Uma pastilha elástica em voo picado, pombo aterrado em pata manca, as primeiras flores. A avenida inteira, gente a viver-se.»

[in Como Carne em Pedra Quente, de Ana Sofia Fonseca, Clube do Autor, 2012]

Primeiros parágrafos

«No troço de céu que vai de Madrid a Lisboa, verifica-se um estranho fenómeno de tráfico aéreo. Se um avião parte, por exemplo, do aeroporto de Barajas às 19:30 de um dia qualquer, aterra no aeroporto da Portela às 19:45 do mesmo dia. A viagem dura, portanto, um quarto de hora, embora o tempo do trajecto seja, na realidade, de uma hora e quinze minutos.
O que significa que, a partir de certo ponto no espaço-tempo, uma hora inteira, no exacto instante em que começa, é absorvida pelo rasto branco que atravessa o ar.
Nem todos os passageiros dão importância ao facto, mas alguns, os mais perspicazes, aproveitam para condensar nesses sessenta minutos de vácuo tudo o que o fuso horário é capaz de devorar.
Deitam nesse vácuo recordações tristes, encontros de trabalho falhados, precisões inúteis, por vezes amigos envelhecidos, conhecidos pouco discretos, mais raramente filhos indesejados.
E há uma nuvem, naquele rasgão de céu, dentro da qual vão parar todos os pensamentos contidos na hora ausente. É uma nuvem espessa, grande, com os contornos levemente amarelecidos, feita de círculos e semicírculos que se interceptam e por instantes parecem sujos, pintados de negro como que traçados no smog, mas luminosos, nunca opacos, desenhados em geral com precisão, excepto nos dias de muito vento.
Não pode dizer-se que o cenário seja despojado, está antes cheio de prateleiras, de cantos e caixotes, tem o ar de uma velha casa de campo habitada por pintores ou fotógrafos vagabundos, há de tudo um pouco entre os alçapões e o pavimento. Só não há um verdadeiro tecto, mas uma espécie de vago toldo que se diria inconsistente, se não fossem as coisas cujo voo embate contra a sua barreira.
É aqui que eu trabalho, no interior da nuvem.»

[in Este Frio e outras histórias de amor, de Paola d'Agostino, Fenda, 2011]

Primeiros parágrafos

«Sempre me assustaram e fascinaram as figuras da maternidade, as noivas, as mulheres que rodearam a minha infância. Era algo como um terror arcaico. Quando era criança levaram-me ao casamento da minha tia e eu chorei sem parar, durante horas, porque estava assustada com o seu vestido de noiva. Aquela brancura, aquele vulto, o que quer que fosse, tinha esse efeito em mim. Mais tarde, eram aqueles silos brancos que se vêem da linha do comboio, já próximos de Lisboa, e que eu vejo todos os dias quando venho trabalhar e quando volto para casa. Esses silos enormes e brancos assombram a paisagem. Causavam-me medo. Costumava pensar que eram como as noivas, mulheres gigantes vestidas de branco. Ainda hoje, se me deixo levar, sinto um calafrio quando os vejo do comboio.»

[in Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado, Dom Quixote, 2012; nas livrarias a partir de 25 de Fevereiro]

Primeiros parágrafos

«Todas as tardes, quando as andorinhas rodopiam no céu cor de malva, um homem de cabelo grisalho transpõe a porta de um pequeno hotel da Rua Mirza Mansûr, vira à direita na Harb, depois à esquerda na Sabir, encimada por belas varandas de madeira, por vezes envoltas numa trepadeira e ornamentadas com peças de roupa. Vindo de um minarete próximo do Palácio dos Shirvanshahs, o apelo de um muezim – tão discreto, quase melancólico, que se torna comovente – suspende no ar frágeis arabescos sonoros. O deus que essa voz de violoncelo invoca não tem um ar terrível, seríamos capazes de o convidar para a mesa, e justamente jantamos sós esta noite, como quase todas as noites. As folhas das figueiras recortam mãos verdes e trémulas no céu. Em volta de Kiçik Qala desprendem-se das paredes os tapetes de cores e ritmos de vitral. O passeante transpõe agora a porta dupla rasgada na muralha de Isheri Sheher, a Cidade Velha (ou, traduzindo com mais exatidão, a Cidade Interior). As torres esguias parecem peças de um jogo de xadrez, ou pimenteiros (Alexandre Dumas, em 1858, observava que as fortificações de Baku eram feitas para deter ataques com armas brancas e não para resistir à artilharia). Hesita por momentos antes de atravessar o fluxo de alta cilindrada – luxuosos automóveis alemães, enormes todo-o-terreno, carros monumentais de um negro lustroso, cujos condutores carregam nervosamente na embraiagem, perto das muralhas. Turbilhão de carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban

[in Baku - últimos dias, de Olivier Rolin, tradução de Manuela Torres, Sextante, 2012]

Primeiros parágrafos

«O meu amigo António – aquele que, em miúdo, com dez ou doze anos, ficava horas a fio, num descampado, de saco na mão, à espera dos gambozinos: um homem bom, incapaz de matar uma mosca ou de maltratar um gato – quarenta e quatro anos, figura esguia, uma farta cabeleira a esbranquiçar, uns óculos de aros redondos, o que lhe dava um ar de “intelectual de esquerda”, imagem que cultivava com requintado deleite, estava sentado a uma mesa, no Pavilhão Chinês, numa madrugada de sábado para domingo, a matutar à volta de uma cerveja, enquanto ia coçando a barba crescida mas bem aparada.
António tinha a cabeça num rodopio. O cansaço dilatava a vertigem em que se afundara na última meia hora, o que lhe dava um ar esgazeado. Refugiara-se ali para pensar, mas ainda não conseguira sair do vazio que o esfarrapava. Fixou o olhar na pintura do tecto: observou o soldado soviético, no seu uniforme cinzento, a espingarda a tiracolo, a subir a escadaria do Palácio de Inverno, numa tarde de Outubro. O soldado soviético e o Palácio de Inverno avivaram-lhe a memória dos muitos anos passados com a Joana, com quem viveu até há trinta minutos, talvez por ela continuar uma ortodoxa comunista.»

[in Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, Abysmo, 2011]

Primeiros parágrafos

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»

[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]

Primeiros parágrafos

«A meio do jantar, eu sabia que iria reviver todo o serão pela ordem inversa – o autocarro, a neve, a subida pelo ligeiro declive, a catedral a erguer-se à minha frente, a desconhecida no elevador, a sala de estar enorme e amontoada onde rostos iluminados por velas resplandeciam com gargalhadas e premonições, a música de piano, o cantor de voz roufenha, o odor a pinheiro por toda a parte enquanto eu vagueava de divisão em divisão, a pensar que talvez naquela noite devesse ter chegado muito mais cedo, ou um pouco mais tarde, ou nem sequer devia ter ido, as clássicas águas-fortes a sépia na parede junto da casa de banho onde uma porta giratória se abria para um corredor longo de acesso a zonas privadas não abertas a convidados mas que dava outra curva para o corredor e depois, por milagre, voltava a conduzir à mesma sala de estar, onde mais pessoas se tinham reunido, e onde, junto da janela onde pensei ter encontrado um lugar tranquilo atrás da enorme árvore de Natal, alguém se virou de repente para mim, estendeu a mão e disse:
– Sou a Clara.
Sou a Clara, dito num ápice, como se fosse o facto mais óbvio do mundo, como se eu sempre o tivesse sabido, ou o devesse saber, e, vendo que não a reconhecera, ou talvez estivesse a tentar não o fazer, ela me ajudasse a acabar com o fingimento e a dar um rosto ao nome que decerto já todos tinham mencionado muitas vezes.»

[in Oito Noites Brancas, de André Aciman, trad. de Maria João Freire de Andrade, Matéria Prima, 2012]

Primeiros parágrafos

«O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão.
Vieram moscas varejeiras e aves de rapina. Seguidas pelos lobos e as raposas, apoiadas nas patas de trás. As formigas procuraram-no atordoadas pelo cheiro. Garantiu-lhes a sobrevivência, pouco a curiosidade.
À noite, os vizinhos trancavam as portas e tapavam os ouvidos e vendavam os olhos. O caso recortava-se na loucura. Ninguém dormia, ninguém falava. Era o estandarte das armas indesejadas, desfraldado numa árvore velha. Descalço.
E começou o exílio. E a suspeita, entre os que ficavam.»

[in A Mulher Descalça, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2011]

Primeiros parágrafos

«Mal Rassul ergueu o machado para o abater na cabeça da velha, a história de Crime e Castigo passa-lhe pela cabeça. Fulmina-o. Os seus braços estremecem, as suas pernas vacilam. E o machado escapa-se-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher, penetra-o. Sem soltar um grito, a velha cai no tapete vermelho e negro. O seu véu, decorado com motivos de flores de macieira, flutua no ar antes de cair em cima do seu corpo flácido e rechonchudo. É agitada por espasmos. Mais um sopro, talvez dois. Os seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio da sala, respiração cortada, mais lívido do que um cadáver. Ele treme, o seu patu a cai-lhe dos ombros salientes. O seu olhar assustado absorve-se no jorro de sangue que, brotando do crânio da velha, se confunde com o vermelho do tapete, cobrindo os seus traçados negros, escorrendo depois, lentamente, para a mão carnuda dela, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.»

[in Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, 2011]

Primeiros parágrafos

«Tom aprendera com José Quintero que não se deve roubar pão – o motivo é de ordem religiosa; e que dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e de interior, escondido nos bosques do nosso ser.
Era o começo do Outono e as folhas desprendiam-se das árvores; à noite fazia frio. No teatro, fazia sempre frio. Tom tinha visto tantas raparigas a lerem o papel, que começava a sentir-se aborrecido. Uma das actrizes profissionais do primeiro dia…
A rapariga foi a última da tarde. Ele viu-a atravessar a sala e subir para o palco sem grande interesse. Era bonita, o cabelo louro comprido, o corpo magro, vestia um casaco preto de cabedal que tirou antes de sentar-se. Por baixo vestia uma T-shirt branca, sem mangas, e uma saia preta que lhe ficava alguns centímetros acima do joelho. Botas pretas. Parecia cansada.
Tom conhecia aquele cansaço. Não era o cansaço de quem trabalhara muito naquele dia, de quem trabalhara muito na véspera, mas a simples dor de estar vivo. Devia ter vinte e nove ou trinta anos. Ele conseguia ver a sua história nos olhos cor de avelã. O trabalho num bar para pagar os estudos, um ou dois bons papéis, inúmeras audições e depois nada. Pequenos papéis em peças que saíam de cartaz ao fim de umas semanas e nada.»

[in O Lago, de Ana Teresa Pereira, Relógio d'Água, 2011]

Primeiros parágrafos

«Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.»

[in Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, Quetzal, 2011]

Primeiros parágrafos

«Foi na Primavera de há três anos, no princípio da crise que abalou este lado do mundo, que visitei a terra onde mataram Catarina Eufémia. Aconteceu por acaso; foi também por acaso que, nessa mesma viagem, ouvi falar pela primeira vez do homem que saltara do topo de um edifício com um manuscrito amarrado ao peito. Naquela altura, estas duas figuras – tão distantes no tempo e na geografia, porém tão próximas naquilo que incompreensivelmente as acabou por unir – diziam‑me menos do que nada. Começarei por aí. Nesses tempos, dificilmente a história de um mártir me suscitaria interesse ou, o que é mais exacto e verdadeiro, dificilmente qualquer história que não fosse a minha me suscitaria interesse; era também exacto e verdadeiro que eu andava adormecido – num sentido quase literal do termo –, uma vez que a vida decorria na sua boçal normalidade: a minha carreira ainda tinha importância, o meu pai ainda não enlouquecera e eu ainda não compreendera nada, isto é, ainda não me dera conta de que a nossa existência era indissociável da memória dos mortos. Também desconhecia que, paradoxalmente, só ignorando os mortos poderíamos passar incólumes por esta vida, uma vez que, ao procurar resgatá‑los, eles acabariam por assombrar o resto dos nossos dias. Naquele tempo, portanto, tudo era mais simples porque eu me esquivava a despertar e, talvez por isso – porque qualquer despertar é doloroso e nos obriga a ver e porventura a tentar compreender a realidade –, não podia sequer desconfiar da maneira como Catarina (e a sua história confusa, cruel e fascinante) seria, ao mesmo tempo, a origem da minha libertação e de todos os meus equívocos.»

[in Anatomia dos Mártires, de João Tordo, Dom Quixote, 2011]

11 aforismos de Nuno Costa Santos

O melancómico anuncia
Quando morrer vou deixar a luz acesa para as pessoas pensarem que ainda estou por cá.

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Receita para o optimismo
Para fazer nascer o optimismo só há duas hipóteses: pensar nos filhos ou beber tequila.

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Crescimento: uma definição
Passar dos terrores nocturnos para os terrores diurnos.

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O importante é a pose
Ela vai ao Lidl de Xabregas, mas comporta-se como se estivesse a comprar uns sapatos Prada em Nova iorque.

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Assim acontece
O seu saldo não lhe permite consultar o seu saldo.

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Márcio interrompe o jantar para fazer uma pergunta
Em que categoria das Finanças está Deus inscrito?

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Márcio tem uma reflexão
O mundo divide-se entre sentimentais cínicos e cínicos sentimentais.

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Dona Bina folheia a imprensa
Ser pessimista é a profissão mais antiga do mundo.

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Dona Bina acha que já não há gente decente
O “maluquinho da aldeia” foi substituído pelo “normalzinho da cidade”.

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Definição havaiana de poeta
O poeta é um surfista que tem medo das ondas.

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Nunca tinha ouvido esta
Você é muito mais interessante ao vivo do que na internet.

[in Melancómico - o livro, Escrit'orio, 2011]

Primeiros parágrafos

«– Não, o outro.
A bejeca deixou uma fímbria de branco poroso a ferver no lábio de Abreu. O ar de desdém, basófio e curto, derivava agora, nasalado, pela fresta da comissura:
– Alguém mandou olhar?
Dois velhos pasmados a uma mesa de canto, queixos pendidos sobre chávenas de café. Não era o da boina de xadrez, de beiço torto. Era o de bochechas lassas, e olhos aguados, como um buldogue.
Abreu ia explicar tudo, mas dava muito trabalho e desistiu. Mordiscou um tremoço, rilhou-o com os molares, em jeito de enjoo, e removeu a vista para o estaladiço do tecto, precisado de pintura. E sempre a dar-lhe, num sussurro bocejado:
– Não sabia que o gajo vinha aqui.
Tinha ouvido dizer – «quanto vale a aposta?» – que naquela cervejaria de madeirames polidos aviavam torresmos com a imperial. Mas nem pevides davam e os tremoços eram à parte.
Bartlo encolheu os ombros e atacou a cerveja. Era altarrão e composto, lábia solta, mas pouca gramática. Tinha gastado uma hora a fazer o relatório de dois namoros, um perdido emprego e uma mãe. Fartava-se logo da conversa quando não era o próprio a falar. Mas o outro afincava. O droguista! Não o reconhecia? Era preciso ser muito desprevenido da ideia para não marcar o narigonço e as belfas dançantes, pá.
– A drogaria Esmpampanante, ao começo da rampa, quando a rua dobra para baixo.
– Estou a ver – Batlo vagava, desconcentrado.
– Estás a ver uma ova.
Mas Bartlo começava a lembrar-se, fazia o jeito:
– Tinha vassouras à porta. E jerricans amarelos. Vassouras novinhas de palha cinzenta. Até se podiam lamber. Dava dó usar aquilo prò chão.
– Isso agora não interessa. Vassouras são vassouras.
– Eu lembro-me, camandro.
– Mas entravas lá, entravas? Ah, pois, a minha mãe mandava-me à cera. Cem gramas de cera. Em papel-manteiga, com uma espátula. Havia um livro comprido pròs fiados.
– Nunca lá o vi.
– O livro?
– O velho.
– Tinha praí quatro ou cinco drogarias, ou mais, e dava a volta por cada uma, à semana. Sempre com uma bata de surrobeco, toda sebenta. Espreitava assim, por cima dos óculos.
Abreu imitava com os dedos esticados debaixo do nariz a fingir lúzios dardejantes. Caso para rir.»

[in Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, Tinta da China, 2011]

Primeiros parágrafos

«Estava a descer as escadas de um prédio de cinco andares um pouco mais para leste da cidade; acabara de fazer uma visita à minha irmã mais velha e não fora uma visita agradável, pois ela tinha demasiados problemas, grande parte deles imaginários, o que não contribuía de modo algum para melhorar a sua situação. Eu nunca nutri especial afecto por ela, ela nunca me teve a estima que devia. Decidi fazer-lhe uma visita porque um dos seus problemas era bastante real: a minha irmã tinha caído e partido o fémur esquerdo.
Saí de casa dela com um misto de sentimentos contraditórios: por um lado, feliz por me escapar dali; por outro, irritado porque a minha irmã me tinha feito prometer que voltaria no dia seguinte.
Como referi, estava a descer as escadas e, exactamente entre o terceiro e o segundo andar, dei com um homem de alguma idade sentado a meio de um dos degraus, impedindo-me de passar. Tinha colocado um grande saco de compras entre ele e o corrimão, e, como prefiro não descer as escadas sem ter onde me agarrar, parei atrás dele. Dava a impressão de que não me tinha ouvido chegar, por isso passados alguns instantes disse-lhe eu:
– Posso ajudá-lo com alguma coisa?
Como não respondeu nem se virou, pensei que talvez fosse surdo ou, quando muito, duro de ouvido, pelo que repeti a pergunta, desta vez mais alto.
– Não, obrigado, não me parece.
Fiquei espantado, não pelo que respondeu, mas pela sua voz, que me soou familiar; era absolutamente característica, ao mesmo tempo grave e aguda, e muito expressiva. E contrastava de forma extraordinária com o aspecto gasto, quase esfarrapado das suas roupas.
Como a sua voz me levou a crer que o conhecia, e por isso que ele me conhecia a mim, sucumbi a um capricho de vaidade. Não lhe quis pedir que mudasse o saco de sítio, revelando assim como me tornara débil, de modo que larguei o corrimão e passei pelo outro lado. Correu bem, mas quando voltei a agarrar-me ao corrimão e me virei para ele, descobri que me equivocara. Nunca tinha visto aquele homem.»

[in Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen, tradução de Mário Semião, Ahab, 2011]

Primeiros parágrafos

«Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.»

[in Claraboia, de José Saramago, escrito em 1953 e editado pela Caminho em 2011]

Primeiros parágrafos

«Naquele dia 25 de Junho, por volta das quatro da tarde, tudo parecia pronto para a coroação de Talu VII, imperador do Ponukelé, rei do Drelchkaff.
Apesar do Sol declinante, o calor sufocava naquela região de África, vizinha do Equador, e cada um de nós sentia-se duramente incomodado pela tempestuosa temperatura que a brisa não conseguia alterar.
Diante de mim, estendia-se a enorme Praça dos Troféus, situada no coração de Ejur, imponente capital composta por inúmeras palhotas e banhada pelo Oceano Atlântico, cujos longínquos bramidos podia ouvir à minha esquerda.
O quadrado perfeito da esplanada estava delimitado por uma fileira de sicómoros centenários; as armas, profundamente enterradas na casca de cada tronco, sustinham cabeças cortadas, ouropéis, adornos de todos os géneros, ali amontoados por Talu VII ou pelos seus antepassados no regresso de muitas campanhas triunfais.»

[in Impressões de África, de Raymond Roussel, trad. de Júlia Ferreira e José Cláudio, Relógio d'Água, 2011]

Primeiros parágrafos

«Nada a não ser de tempos a tempos um arrepio nas árvores e cada folha uma boca numa linguagem sem relação com as outras, ao princípio faziam cerimónia, hesitavam, pediam desculpa, e a seguir palavras que se destinavam a ela e de que se negava a entender o sentido, há quantos anos me atormentam vocês, não tenho satisfações a dar-vos, larguem-me, isto em criança, em África, e depois em Lisboa, a mãe chegava-se ao armário da cozinha onde guardava os remédios
– São as vozes Cristina?
aqui na Clínica silêncio, com as injecções as coisas desinteressam-se de mim, uma frase, às vezes, mas sem ameaças nem zangas, o nome apenas
– Cristina
uma amabilidade pressurosa
– Como estás Cristina?
ou uma queixa
– Nunca mais nos ligaste
a cama, a mesa e as cadeiras quase objectos de novo, embora se perceba um ressentimento à espera, não se atrevia a tocar-lhes, deitava-se pesando o menos possível na esperança que a almofada ou os lençóis não a sentissem e pode ser que se distraiam e não sintam, não devem sentir porque nenhum
– Como estás Cristina?
desde há semanas, tirando as folhas num capricho do vento e as bocas de regresso um instante, o que me incomodam as bocas, o director da Clínica
– Ando a pensar dar-lhe uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos
e no interior do
– Ando a pensar dar-lhe uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos
não havia a sombra de uma sugestão, um conselho, a ordem
– Tens de matar o teu pai com a faca
graças a Deus ausente, quase paz se houvesse paz e não há, há pretos a correrem em Luanda, camionetas de soldados, tiros, gritos numa ambulância a arder na praia, sob pássaros que se escapavam, e ao terminar de arder nenhum grito, o pai foi padre, não era padre já e a mãe zangada
– Quem te contou isso miúda? (…)»

[in Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes, Dom Quixote, 2011]

Primeiros parágrafos

«Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito.
Eu nunca tinha sentido aquele cheiro pungente antes, aquele cheiro que ficaria para sempre misturado ao cheiro das outras mulheres, das que conheci na intimidade, que invadiria o cheiro de outras mulheres e que para sempre me levaria de volta a ela. Aquela mistura de perfume doce, carne cortada, suor, sangue e – o mais próximo que consegui perceber, até hoje – sal. Como se sente quando próximo do mar. Como quando adere à pele. Não os grãos de sal – mas a poeira invisível e olorosa do sal em dias húmidos.»

[in Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre, Planeta, 2011]

Primeiros parágrafos

«Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.
Ou, para ser mais exacto, como Oscar Schidinski diz que ele a escreveu.
É assim:
Polvorosa é um pueblo semelhante a tantos outros deste país de bananeiras e matas de cacau. Consiste apenas numa rua poeirenta, perpendicular à estrada de terra que vem de Insolación e segue para o Norte. De um lado e do outro dessa rua desamparada estão alinhados quinze ou vinte edifícios de madeira, decrépitos quase todos, desbotados e consumidos pela canícula. Há uma venda na qual, de modo irregular, se podem comprar alguns produtos essenciais: velas e querosene, carne seca, arroz e feijão, aguardente de cana, pregos, alguma roupa e sabão. Pouco mais. À direita de quem chega, a meio da fileira de edifícios, fica uma casa menos precária do que as outras, em alvenaria, caiada, com dois pisos e uma varanda assente em pilaretes de ferro forjado. É a residência dos Fuentes. Os Fuentes foram os primeiros colonos desta parte do país e são os proprietários de todas as coisas que aqui vivem e estão imóveis, incluindo as pessoas que, de algum modo, não estão ligadas à família por algum tipo de parentesco. Para lá dos limites da área construída existe um pequeno rio e, depois, estão os campos dos cacaueiros, os quais constituem, ainda assim, a única fonte de rendimentos do pueblo. Polvorosa seria, pois, um sítio sem nada que valesse a pena ser visto ou contado, se não houvesse aqui um homem diferente de todos os outros homens conhecidos. Chamam-lhe o homem-zebra — e é um indivíduo tão extraordinário que, se o pueblo não estivesse tão longe de tudo, tão perdido no mundo, já teria, decerto, vindo gente de outros lados, bacharéis e cientistas, médicos e curiosos por aberrações, apenas para poderem vê-lo e confirmar que existe, e que é exactamente como vai ser dito.»

[in Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011]

Parênteses

«Às vezes de noite – meditava naquela ocasião a Pulga – quando a insónia não me deixa dormir como agora e leio, faço um parênteses na leitura, penso no meu ofício de escritor e, olhando fixamente o tecto, por breves instantes imagino que sou, o que poderia ser se a isso me propusesse com seriedade desde manhã, como Kafka (claro que sem a sua existência miserável), ou como Joyce (sem a sua vida cheia de trabalhos para sobreviver com dignidade), ou como Cervantes (sem os inconvenientes da pobreza), ou como Catulo (ainda que contra o seu prazer em sofrer pelas mulheres, ou talvez por isso mesmo), ou como Swift (sem a ameaça da loucura), ou como Goethe (sem o seu triste destino de ganhar a vida no Palácio), ou como Bloy (apesar da sua firme inclinação para se sacrificar pelas putas), ou como Thoreau (apesar de nada), ou como Sóror Juana (apesar de tudo); nunca Anónimo; sempre Lui Même, o cúmulo dos cúmulos de qualquer glória terrestre.»

[in A Ovelha Negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, tradução de Ana Bela Almeida, Angelus Novus, 2008]

Primeiros parágrafos

«You could see the blood. It was darker than you thought. It was all on the ground outside Chicken Joe’s. It just felt crazy.
Jordan: ‘I’ll give you a million quid if you touch it.’
Me: ‘You don’t have a million.’
Jordan: ‘One quid then.’
You wanted to touch it but you couldn’t get close enough. There was a line in the way:

POLICE LINE DO NOT CROSS

If you cross the line you’ll turn to dust.
We weren’t allowed to talk to the policeman, he had to concentrate for if the killer came back. I could see the chains hanging from his belt but I couldn’t see the gun.
The dead boy’s mamma was guarding the blood. She wanted it to stay, you could tell. The rain wanted to come and wash the blood away but she wouldn’t let it. She wasn’t even crying, she was just stiff and fierce like it was her job to scare the rain back up into the sky. A pigeon was looking for his chop. He walked right in the blood. He was even sad as well, you could tell where his eyes were all pink and dead.»

[in Pigeon English, de Stephen Kelman, Bloomsbury, 2011]

Um soco no estômago do mundo

«Como o próprio nome do conjunto de torres sugere (centro de negócios do mundo), o ataque foi um soco no estômago do mundo, não apenas no umbigo da América. Gostaria de vos contar certos detalhes deste dia num ambiente de absoluta tranquilidade. Nunca pessoalmente, claro. Teria de ser um filme com planos fechados e uma banda sonora pungente. Não um livro calado. Recorreria a violinos para legitimar as vossas lágrimas e, em simultâneo, o nosso orgulho patriótico. Todas aquelas pessoas, companheiros de salto ou não, foram soldados, bravos soldados, verdadeiros heróis, e nem por um momento divisei neles ou nos seus actos o mais leve rasto de cobardia. Não faz sentido classificar os seres humanos pelo tipo de morte que tiveram. Mais tarde perceberão, mesmo que vos custe, que não há diferença entre as pessoas que voaram, como eu, e as que morreram queimadas, intoxicadas ou esmagadas. Houve os que caíram desmaiados por não terem suportado o fumo ou a pressão dos corpos que se empilhavam à janela sobre eles, houve os que tentaram descer pelo exterior do prédio e também caíram, os que voaram acreditando até ao fim num milagre, os que lutaram por algo que os amparasse (uma peça de roupa a servir de pára-quedas? Deus?) e os que simplesmente se atiraram para fugir da morte que o destino para eles escolhera, assumindo o fim e voando em paz. À janela, em pilha, a escolha pareceu óbvia. À janela, em pilha, com dezenas de pessoas atrás a empurrar para conquistar uma nesga de ar livre, e atrás delas o fumo negro e espesso, e atrás dele as línguas alaranjadas do fogo, a escolha foi óbvia.»

[in A Manhã do Mundo, de Pedro Guilherme-Moreira, D. Quixote, 2011]

Primeiros parágrafos

«Bunny não acordou de uma só vez. Um som (de quê, não sabia) atingiu a superfície do seu sono e afundou-se como uma pedra. O sonho esvaeceu, deixando-o desperto, preso, na cama. Virou-se, impotente, e enfrentou o tecto. Tinha rebentado um cano durante o Inverno anterior, e agora via-se o contorno de um lago amarelo. Enquanto Bunny o observava, o lago transformou-se numa ave de cabeça emplumada e penas dispersas na cauda. Quando as mudanças cessaram, os olhos de Bunny vaguearam pelo papel de parede azul e branco até à outra cama, onde Robert ainda dormia. Demoraram-se por momentos nos lábios apartados de Robert, no seu rosto esgotado e vazio do sono.»

[in Vieram Como Andorinhas, de William Maxwell, trad. de Rita Almeida Simões, Sextante, 2011]

Primeiros parágrafos

«Estava morta há cinco anos, a mãe de Isaac, mas ele não parara de pensar nela. Vivia sozinho na casa com o velho, vinte anos, pequeno para a idade, facilmente confundido com um miúdo. Era o fim da manhã, e ele avançava rapidamente pela floresta em direção à cidade – uma pequena figura magra de mochila às costas, a tentar manter-se longe da vista. Tirara quatro mil dólares da secretária do velho; roubara, corrigiu-se. A fuga da prisão dos malucos. Se alguém te vê, é Silas solta os cães.»

[in Ferrugem Americana, de Philipp Meyer, tradução de Ester Cortegano, Bertrand, 2011]

Primeiros parágrafos

«No jardim zoológico de Berlim, ao lado da piscina que contém a morsa viva, há uma exposição invulgar. Num mostruário de vidro estão todas as coisas encontradas no estômago de Roland, a Morsa, que morreu a 21 de Agosto de 1961. Ou, mais precisamente:

um isqueiro cor-de-rosa, quatro paus de gelados (de madeira), um broche de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de água de plástico de criança, uma faca de plástico, óculos de sol, uma pequena corrente, uma mola (pequena), um anel de borracha, um pára-quedas (brinquedo infantil), uma corrente de aço com cerca de 46 cm de comprimento, quatro pregos (grandes), um carro de plástico verde, um pente de metal, um distintivo de plástico, uma bonequinha, uma lata de cerveja (Pilsener, 2,84 decilitros), uma caixa de fósforos, um sapato de bebé, uma bússola, uma pequena chave de carro, quatro moedas, uma faca com cabo de madeira, uma chucha, um molho de chaves (5), um cadeado, um saquinho de plástico com agulhas e linha.

O visitante fica de pé, diante da exposição invulgar, mais encantado do que horrorizado, como se estivesse perante achados arqueológicos. O visitante sabe que a sua sorte como exposição-de-museu foi determinada pelo acaso (o caprichoso apetite de Roland) mas ainda assim não consegue resistir ao pensamento poético de que com o tempo os objectos adquiriram algumas ligações secretas, mais subtis. Arrebatado por este pensamento, o visitante tenta então estabelecer coordenadas semânticas, reconstruir o contexto histórico (ocorre-lhe, por exemplo, que Roland morreu uma semana após a construção do Muro de Berlim), e por aí adiante.
Os capítulos e fragmentos que se seguem devem ser lidos de forma semelhante. Se o leitor sentir que não existem ligações significativas ou firmes entre eles, seja paciente: as ligações estabelecer-se-ão por si próprias de acordo com a sua vontade. E mais uma coisa: a questão de saber se este romance é autobiográfico poderia, a certa altura hipotética, dizer respeito à polícia, mas não ao leitor.»

[in O Museu da Rendição Incondicional, de Dubravka Ugrešić, tradução de Sofia Castro Rodrigues, Cavalo de Ferro, 2011]

Primeiros parágrafos

«Tudo isto aconteceu, mais ou menos. As partes da guerra são, em grande medida, verdadeiras. Um tipo que conheci foi mesmo morto em Dresden por ter levado um bule que não era seu. Outro tipo que conheci ameaçou de facto contratar pistoleiros para matar os seus inimigos pessoais depois de terminada a guerra. E por aí fora. Mudei todos os nomes.
Regressei mesmo a Dresden com dinheiro da Guggenheim (Deus a tenha na sua graça) em 1967. Parecia-se muito com Dayton, no Ohio, mas com mais espaços abertos. Deve haver carradas de farinha de ossos humanos no solo.
Voltei lá com Bernard V. O’Hare, um velho companheiro de guerra, e travámos amizade com um taxista que nos levou ao matadouro onde nos fechavam à noite enquanto prisioneiros de guerra. Chamava-se Gerhard Müller. Contou-nos que fora prisioneiro dos americanos algum tempo. Perguntámos-lhe como era viver num regime comunista, e ele disse que, no início, fora horrível, porque tinha de se trabalhar imenso e havia poucos abrigos, comida e roupa. Mas agora as coisas estavam muito melhores. Tinha um pequeno apartamento muito simpático, e a instrução da filha era excelente. A mãe dele foi incinerada na tempestade de fogo em Dresden. E é assim.»

[in Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut, trad. de Rosa Amorim, Bertrand, 2011]

Biblioteca omnívora

«No meu pied-à-terre cultivei uma expansiva austeridade. Pilhas de livros e de papéis convivem lado a lado com o meu computador e outras biologias dependentes da eletricidade. Neste soberbo cenário, apenas a minha biblioteca omnívora conserva um território preferencial, dominando, majestosa, o resto dos íncubos. Enfim, estava eu a alimentar o bom do Yorick (o meu peixinho encarnado), quando reparei que a gatinha Montaigne miava com ar matreiro ao pé da estante dos livros. Fiel ao seu espírito polémico, a pequena Montaigne entretivera-se a mordiscar os letreiros que classificavam as distintas secções da minha biblioteca, como “Frenesim Hobbesiano”, “Sonho de um Noite de Engenharia Social” ou “Loucademia Positivista”, só para nomear algumas – ainda desconheço quantas serão.
Eis os factos. Peguei num livro ao acaso (uma antiga edição do Walden, de Skinner) e esfreguei-lho com força no focinho, uma técnica popular que serve para introduzir novos dados no comportamento dos animais pequenos. Conservo certas reservas em relação à efetividade deste método, uma vez que, quando Montaigne tentou comer Yorick, repliquei o procedimento contra o vidro do aquário. (Ando sempre com um pequeno caderno de bitácula, o Jornal dos Pequenos Animais, onde anoto as minhas apreciações intempestivas sobre o reino animal.) Com efeito, a vizinhança do peixe dilatou de maneira formidável o interesse predatório da gatinha. O seu comportamento ameaçador acentuou-se: rondava, de pelo eriçado, o icticentrismo de Yorick, espiando todos os seus movimentos através da penumbra cristalina. Quando deixei os meus animais para me abandonar a tarefas que celebravam mais condignamente o divino no humano, ou vice-versa, Montaigne Michelle miou, qual carpideira, e enovelou-se ao calor do computador, onde eu continuava a teclar até altas horas da alvorada.»

[in As Teorias Selvagens, de Pola Oloixarac, tradução de Margarida Amado Acosta, Quetzal, 2011]

Primeiros parágrafos

«I remember, in no particular order:
- a shiny inner wrist;
- steam rising from a wet sink as a hot frying pan is laughingly tossed into it;
- gouts of sperm circling a plughole, before being sluiced down the full length of a tall house;
- a river rushing nonsensically upstream, its wave and wash lit by half a dozen chasing torchbeams;
- another river, broad and grey, the direction of its flow disguised by a stiff wind exciting the surface;
- bathwater long gone cold behind a locked door.
This last isn’t something I actually saw, but what you end up remembering isn’t always the same as what you have witnessed.»

[in The Sense of an Ending, de Julian Barnes, Jonathan Cape, 2011]

Primeiros parágrafos

«I was born twice. First in a wooden room that jutted out over the black water of the Thames, and then again eight years later in the Highway, when the tiger took me in his mouth and everything truly began.
Say Bermondsey and they wrinkle their noses. Still, it was the home before all other homes. The river lapped beneath us as we slept. Our door looked out over a wooden rail into the channel at the front, where dark water heaved up an odd sullen grey bubble. If you looked down through the slats, you could see things moving in the swill below. Thick green slime, glistening in the slosh that banged up against it, crept up the crumbling wooden piles.»

[in Jamrach's Managerie, de Carol Birch, Canongate, 2011]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges