Primeiros parágrafos

«Era uma hora de carro, a maior parte do trajeto a subir através de uma chuva impregnada de fumo. Eu mantive uma fresta da minha janela aberta, esperando sentir uma qualquer fragrância, um travo de arbustos aromáticos. O nosso motorista abrandava nos troços em que a estrada era pior e nas curvas mais apertadas e quando surgiam carros lançados ao nosso encontro através da bruma. A espaços, a vegetação da berma tornava-se menos densa, e avistávamos então extensões de selva pura, vales inteiros a derramar-se entre os montes.
Jill ia lendo o seu livro acerca dos Rockefellers. Assim que se embrenhava numa tarefa, tornava-se inacessível, dir-se-ia atordoada por uma poderosa descarga elétrica, e, ao longo de todo o percurso, vi-a erguer os olhos da página somente uma vez, para lançar uma olhadela fugaz a uns garotos a brincar num campo.»

[in O Anjo Esmeralda, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Sextante, 2012]

Primeiros parágrafos

«É um mar de cores, vivas e húmidas, debicadas pelo zumbido dos insectos. O rosmaninho polvilha o verde, nódoa lilás salpicada pelo vermelho das papoilas e o amarelo dos malmequeres, ensombrada pelas nuvens que se precipitam para o rio, atrás do Sol.
De vez em quando, ouve-se um balido, uma voz, o estalido de um galho quebrado. E, no entanto, nenhum barulho de passos denuncia a presença de mais alguém – nem mesmo a dos animais que devem pastar algures, para justificar o texto que me impede de ouvir o silêncio que acabo de quebrar.»

[in O livro do fim, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2012]

Primeiros parágrafos

«Morar numa cidade acidentada pode ser divertido quando se é novo e rampas e ladeiras convocam os músculos juvenis ao exercício. Mas, à medida que a idade declina, aplica-se a cidade a lograr os velhos. E sempre que eles retomam o fôlego no fio das esquinas, oferece-lhes ela mais caminho, tropeços e cansaços, como se os punisse por insistirem nos dias.
Não é que o víuvo Zoltan Tremlich, com a idade, tivesse passado ao estado de ingratidão, com respeito à casa ampla, soberanda de vista sobre a enseada, legado tardio duma parente longínqua. Mas começava a ter pena de que a falecida tia, que não era, aliás, uma bondade de mulher, lhe não houvesse antes deixado em testamento um modesto rés-do-chão na Rua dos Lojistas, perto do cais e da praça, sobretudo do Clube dos Valetes de Paus, onde não era desagradável entreter umas tardes de doce subalternidade.»

[in O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, de Mário de Carvalho, Porto Editora]

Primeiros parágrafos

«”Ouviu ruídos e, de súbito atento, procurou o lamento mecânico. Aproximou‑se do armário, desacelerando a passada, até que descobriu um inesperado silêncio. Depois, ao afastar os cabides, viu uma passagem.” Mas, perdoem a interrupção, este romance não começa assim. Aliás, o parágrafo nem é meu, transcrevi‑o de um jornal. A notícia mencionava que, ao constatar que a sua obra fora plagiada e repetindo aquelas frases sem cessar, um escritor agredira várias pessoas. E fiquei tão impressionado com o episódio que, mal iniciei esta obra, decidi precaver‑me e instituir uma rotina diária. Guardava o manuscrito num disco externo e, em seguida, escondia‑o numa caixa em forma de livro. Explicaram‑me mais tarde como, apesar de eliminar o ficheiro do computador, era possível recuperá‑lo, bastava ter as ferramentas apropriadas. Mas, infelizmente, foi tarde demais.
Passo a explicar: certa noite, Paula, a minha mulher, acordou‑me. Disse‑me que ouvira ruídos e quis que eu investigasse. Ao entrar no escritório, vi que a clarabóia estava aberta e o portátil
desaparecera. Era estranho não terem levado mais nada e, por momentos, admiti que buscavam o romance – de qualquer forma, estava a salvo, pensei.
Pouco depois, contudo, descobri que Sandokan & Bakunine se encontrava disponível na Internet. Soube‑o pelo meu editor, que se pôs a discorrer, com optimismo despropositado (julgo que me tentava acalmar), sobre o potencial daquele tipo de publicação. E quem sabe o que diria a seguir, levando a minha paciência aos limites, se não tivéssemos sido interrompidos.
A bateria do meu telemóvel acabara de se esgotar. Estava no carro com a família, prestes a iniciar a viagem de férias e sem forma de aceder à Internet. Além do mais, começara a chover, o que acrescentaria uma hora ao caminho. Ou seja, teria de esperar bastante até esclarecer as palavras do meu editor e, conhecendo‑me, sabia como era importante não antecipar hipóteses. Porém, a minha imaginação pôs‑se logo a fabricar conspirações. De maneira que, no momento em que perdi o controlo do carro, matutava ainda no telefonema.»

[in Sandokan & Bakunine, de Bruno Margo, Teorema, 2012]

Primeiros parágrafos

«Sabia-se na terra que a Menina Florinda falava com as imagens da igreja. Havia muito quem tivesse ouvido. Nem ela se escondia de ninguém para o fazer: fazia-o com a maior das naturalidades. E o que dizia? Coisas geralmente amistosas, do género “ora vamos lá então acender esta velinha” ou “passaste bem a noite, Santa Catarina?”
Já isto, por si só, era caso para estranhezas. Mas alguns asseveravam que, quando estava mal-disposta, a Menina Florinda não se limitava a falar com elas, também ralhava. E era ainda fama que não só falava e ralhava, como, umas vezes por outras, em momentos de impaciência extrema, exacerbada pelas instabilidades da menopausa, lhes dava estaladas exactamente como fazia na catequese aos meninos mal comportados ou distraídos ou incapazes de papaguear a salve-rainha de fio a pavio. Mas isso já era claramente do domínio da fábula e não merecia crédito, nem de resto interessa muito a esta história verídica. Nunca ninguém viu.»

[in Os Anjos Nus, de A. M. Pires Cabral, Cotovia, 2012]

Primeiros parágrafos

«O Inverno de 1890 foi dos mais ásperos que flagelaram a Europa durante o século findo, e na Holanda, então — onde eu o passei quase todo —, país relativamente temperado e malissimamente preparado para as baixas temperaturas, morria-se de frio. Mas morria-se deveras, isto é: apareciam com frequência, nas ruas das cidades populosas, criaturas humanas inteiriçadas e mortas de frio.
O fleumático holandês clamava nos jornais contra a inclemência celeste, tal qual o exuberante napolitano — na desgraça todos se parecem —, anos depois vendo o Vesúvio toucar-se de gelo e a Riviera di Chiaia atascada em neve, se insurgia, também nas gazetas — como se a culpa fosse do governo —, contra a Providência que ordenava ou permitia aqueles rigores de temperatura em região a eles tão pouco afeita.
Foi o caso que nos Países Baixos todo o mês de Dezembro a temperatura se manteve entre 25º e 30º centígrados de frio; gelaram completamente os canais, os rios e até o Zuider-Zee, o seu pequeno Mediterrâneo. Mas os holandeses, em todo o caso melhor petrechados do que os napolitanos para resistir a semelhantes intempéries, aproveitaram a situação para dela tirarem algum partido, e metidos em peles, caras ou baratas conforme as posses de cada um, puseram-se na rua a patinar, e como grandes mestres que são nesse género de divertimento insensivelmente se transformaram de sorumbáticos, mazorros e grotescos em gente comunicativa, desempenada e alegre, dando ao país uma animação extraordinária e nunca atingida em Invernos normais.
Nos bairros populares das grandes cidades, como Amesterdão, o movimento durava, com intensidade quase igual, dia e noite, pois a qualquer hora o mesmo formigueiro humano cobria os canais, gente de todas as idades deslizando sobre o gelo em caprichosas evoluções e agitando os braços para atear o calor no corpo. Seria difícil encontrar-se alguém na rua que não levasse consigo um par de patins.»

[in Novelas Eróticas, de M. Teixeira-Gomes, Relógio d’Água, 2012]

Primeiros parágrafos

«Fillus de anima.
É desta forma que se chamam as crianças geradas duas vezes: da pobreza de uma mulher e da esterilidade de outra. Deste segundo parto era filha Maria Listru, fruto tardio da alma de Bonaria Urrai.
Quando a velha parou debaixo do limoeiro para falar com a sua mãe, Anna Teresa Listru, Maria tinha seis anos e era o erro depois de três coisas certas. As suas irmãs eram já umas senhoritas e ela brincava sozinha no chão a amassar um bolo de lama, recheado de formigas vivas, com o esmero de uma pequena mulher. Mexiam as patas avermelhadas na massa pastosa, morrendo lentamente debaixo dos enfeites de flores do campo e do açúcar feito de areia. Quando a menina levantou a cabeça, viu a seu lado, em contraluz, a Ti Bonaria Urrai, sorrindo com as mãos apoiadas no ventre magro, satisfeita com qualquer coisa que Anna Teresa Listru lhe tinha dado naquele momento. O que fora exatamente Maria apenas o soube mais tarde.
Partiu com a Ti Bonaria nesse mesmo dia, segurando o bolo de lama numa das mãos e, na outra, uma cesta cheia de ovos frescos e de salsa; miserável viático de agradecimento.»

[in Acabadora, de Michela Murgia, trad. de Diogo Madre Deus, Bertrand, 2012]

Primeiros parágrafos

«Filomeno Cuevas, lavrador crioulo, tinha planeado, para aquela noite, armar os seus peões com as armas escondidas num pantanal, e os grupos de índios avançavam, em linhas difusas, pelos esteiros de Ticomaipu. Lua clara, nocturnos horizontes, profundos sussurros e ecos.»

[in Tirano Banderas, de Ramón del Valle-Inclán, trad. de Carlos da Veiga Ferreira, Teodolito, 2012]

Primeiros parágrafos

«Eu abrira-me em confidência a Mrs Prest; e é verdade que poucos progressos teria feito sem ela, porque dos seus lábios amigos saiu a frutuosa ideia de todo este caso. Foi ela quem inventou a solução expedita, quem desatou o nó górdio. Acha-se, em geral, que não ascende da natureza feminina nenhuma vista larga nem dotada de grande liberalidade; refiro-me a uma solução prática; mas por vezes tive a sensação de que sabe afoitar-se a arrojadas concepções — de que nenhum homem seria capaz — e com singular serenidade. “Limite-se a pedir-lhe que o aceite na condição de hóspede.» — Sem ajuda, penso que não teria lá chegado. Eu andava com rodeios, esforçava-me por ser engenhoso, por pensar que combinação de artes seria capaz de fazer-me chegar a um relacionamento, quando me deu esta feliz sugestão: para chegar ao seu relacionamento eu teria, primeiro, de ser considerado um familiar da casa. Naquela altura ela não conhecia muito mais do que eu as Misses Bordereau; e eu até trouxera da Inglaterra alguns factos precisos que lhe eram desconhecidos. Em épocas remotas tinham tido o nome ligado a um dos maiores nomes do século, e naquela altura viviam obscuramente em Veneza e com muito reduzidos meios, sem visitas, inabordáveis num velho e degradado palácio de um canal retirado dos circuitos habituais: era o mais concreto que a seu respeito a minha amiga sabia. Há cerca de quinze anos ela própria se instalara em Veneza e tinha-se entregue a uma grande quantidade de obras caridosas; mas o círculo da sua benificência não incluía as duas americanas tímidas e misteriosas (era por assim dizer susposto que no seu longo exílio tivessem perdido todas as características nacionais; para além de terem na sua origem, como o nome denunciava, um qualquer ramo francês) que não pediam favores e desejavam passar despercebidas. Nos primeiros anos em que ali residiram, Mrs Prest fizera uma tentativa para as encontrar, mas só tivera êxito com a “pequena”, chamava assim à sobrinha, apesar de ser a maior das duas como verifiquei pouco depois. Soubera que Miss Bordereau estava doente e suspeitava de que vivesse com dificuldades; fora lá a casa oferecer os seus préstimos para não ficar, ao fim e ao cabo, com um caso de penúria (uma penúria americana) a pesar-lhe na consciência. A “pequena” recebeu-a na grande, fria e embaciada sala veneziana, a divisão central da casa com pavimento de mármore e tecto de escuras vigas cruzadas, e nem sequer lhe tinha dito para se sentar. Isto não me encorajava muito porque desejava lá ter com rapidez um assento e, tanto quanto pude, fi-lo saber a Mrs Prest. Foi no entanto com profunda argúcia que me respondeu: “Ah, mas toda a diferença está aí; eu ia fazer-lhes um favor, e o meu amigo vai pedir que lhe façam um. Se forem orgulhosas, surgir-lhes-á do lado favorável.” E começou por se oferecer para ir mostrar-me a casa — levar-me até lá na sua gôndola. Fiz-lhe saber que já tinha ido vê-la meia dúzia de vezes, mas aceitei o convite porque me encantava vaguear por aqueles sítios. Logo um dia depois de chegar a Veneza eu tinha lá ido (antes, na Inglaterra, fora-me descrita por um amigo, e fui convencido de que elas estavam na posse dos manuscritos), e com o olhar assaltara a casa enquanto meditava no plano de ataque. Que fosse do meu conhecimento, Jeffrey Aspern nunca lá estivera mas a sua voz parecia ter ali, como indirecta consequência, o eco fraco de uma ressonância.»

[in Os Manuscritos de Aspern, de Henry James, trad. de Aníbal Fernandes, Sistema Solar, 2012]

Primeiros parágrafos

«Isto que agora começo começou quando fui viver para o Parque de Laureles. Até esse momento eu não sabia que no terceiro andar do prédio em que me instalei vivia Bernardo Davanzati, talvez se lembrem dele, o escritor que na década de sessenta publicou um romance que não foi muito bem recebido pela crítica, Diário de um Impostor, e que anos mais tarde publicou outro livro que passou despercebido, Adeus à Juventude. O mais provável é não se lembrarem dele, pois o seu primeiro romance, embora tenha sido publicado por um editor comercial, praticamente não se vendeu, e os volumes que restaram (e que estavam a ser vendidos a preço de saldo, a mil pesos cada exemplar) ficaram sepultados sob o entulho da Feira do Livro quando o telhado do pavilhão das exposições desabou, num desastre que se deu há já alguns anos. Quanto ao Adeus à Juventude, devo dizer que em nenhuma biblioteca pública de Medellín se conserva um só exemplar do livro, e que este, se se encontrasse, seria uma verdadeira curiosidade bibliográfica, se é que se podem considerar curiosidades bibliográficas as obras desconhecidas de um desconhecido. Até onde pude averiguar, foi o próprio Davanzati que custeou a edição, limitadíssima, pois consistia apenas numas poucas dezenas de cópias (ignoro se impressas ou fotocopiadas) que o escritor distribuiu pelos amigos, vá-se lá saber quem são. Até ao dia de hoje nunca vi um só exemplar do Adeus à Juventude, mas várias pessoas garantiram-me que existe, que já o folhearam, e afiançaram-me mesmo que não carece de uma certa qualidade literária. Enfim.»

[in Os Dias de Davanzati, trad. de Margarida Amado Costa, Quetzal, 2012]

Primeiros parágrafos

«O nome do meu pai era Clevie Raymond Carver. A sua família chamava-lhe Raymond e os amigos chamavam-lhe C.R. Deram-me o nome de Raymond Clevie Carver Júnior, e sempre odiei a parte do “Júnior”. Quando era pequeno, o meu pai chamava-me Sapo, e disso eu gostava. Mas, mais tarde, como toda a gente na família, ele começou a chamar-me Júnior. E continuou a tratar-me assim até eu ter treze ou catorze anos, idade em que anunciei que não responderia mais por esse nome. Por isso começou a chamar-me Doc. A partir desse momento, e até ao dia em que morreu, a 17 de Junho de 1967, tratou-me por Doc, ou então por Filho.
Quando ele morreu, a minha mãe ligou à minha mulher para lhe dar a notícia. Eu encontrava-me afastado da minha família nessa altura, entre vidas, tentando entrar na Faculdade de Biblioteconomia da Universidade do Iowa. Quando a minha mulher atendeu o telefone, a minha mãe exclamou: “O Raymond morreu!” Por um instante a minha mulher julgou que a minha mãe lhe estava a dizer que eu tinha morrido. Depois a minha mãe explicou de qual dos Raymond estava a falar e a minha mulher disse: “Graças a Deus. Achei que estava a falar do meu Raymond.”»

[in Fogos, de Raymond Carver, trad. de João Tordo e João Luís Barreto Guimarães, Quetzal, 2012]

Primeiros parágrafos

«No Verão de 1917, Robert Grainier participou na tentativa de homicídio de um trabalhador chinês apanhado a roubar, ou pelo menos acusado disso, nos armazéns da Spokane International Railway, no Norte do Idaho.
Três funcionários da companhia ferroviária haviam deitado a mão ao larápio e arrastavam-no pela margem, num longo trajecto até à ponte em construção, quinze metros acima do rio Moyea. Um rápido salmodiar corria copiosamente da boca do chinês, que rabeava e se contorcia como uma doninha num saco, enquanto com a única mão livre desferia murros à retaguarda na direcção do homem que o prendia pelo pescoço. Ao ver os indivíduos a passar, e percebendo-os em dificuldades, Grainier dispôs-se a ajudá-los e deu por si agarrado a um dos pés descalços do réu. De frente para ele estava o Sr. Sears, da gerência da Spokane International, que sustinha o chinês por um dos sovacos, quase inutilmente, e que foi o único, para além do ininteligível prisioneiro, a falar durante a parte mais árdua do percurso. “Porra, não sei como vamos levá-lo até lá acima, rapazes!” A ideia era então transportá-lo todo o caminho? Foi o que Grainier teve vontade de perguntar, mas achou melhor poupar o fôlego. Sears soltou uma gargalhada, pálido de fadiga e horror. Os quatro caíram em bloco no chão e tornaram a levantar-se, caíram de novo, enquanto o chinês algaraviava e os aterrorizava de tal maneira que, independentemente do que houvessem planeado no início, os seus captores estavam agora decididos a limpar-lhe o sebo. Só lhes restava uma solução: atirá-lo da ponte abaixo.»

[in Sonhos e Comboios, de Denis Johnson, trad. de José Miguel Silva, Relógio d’Água, 2012]

Primeiros parágrafos

«Quando o velho acendeu a lamparina de petróleo, a escuridão pouco ou nada se alterou, mas o barco parecia ter recomeçado a baloiçar. No junco mesmo ao lado, alguém cozinhava peixe com alho e molho de soja. Reactivado pelos movimentos do velho, o cheiro, já de si poderoso, tornou-se ainda mais forte. As sombras não paravam de hesitar. Assim que o velho se voltou a sentar, a um metro do minúsculo círculo de luz difundido pela lamparina, o seu rosto arruinado de pescador, decorado por três reles torcidas de pêlo acinzentado, logo se desvaneceu.
As vigas da armação rangiam, ou talvez fosse apenas uma coisa qualquer que rangia contra o casco do barco, talvez uma das estacas da doca a raspar na madeira.
O velho fumava.»

[in Macau, de Antoine Volodine, trad. de Ana Isabel Sardinha Desvignes, Sextante, 2012]

Seis verbetes de Afonso Cruz

BABEL

A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua.
(Dovev Rosenkrantz)

***

(A) CONTRADIÇÃO DO SOBREIRO

A vida descreve-se pela contradição do sobreiro: o jovem não tem paciência para esperar meio século para que a árvore cresça e seja adulta. Por isso, não a planta. Quando chega a velho e, finalmente, tem paciência para esperar, planta-a, mas já não tem tempo para a ver crescer.

***

CORVOS

Aos homens que tentavam sedentarizar-se, os Ubitatã cortavam-lhes os pés: «se não caminham, não precisam deles». E davam os pés a comer aos corvos.
O rei da Assíria, Sardanapalo, pelo contrário, cortava os pés dos nómadas para que estes se tornassem sedentários. Depois, dava-os a comer aos corvos.
Em ambos os casos, os corvos é que ficavam a ganhar.

***

LER

Podem não existir livros a mais, mas existe tempo a menos.
(Wilhelm Möller)

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ÓCIO

O ócio não é o contrário de trabalho. A felicidade é que é o contrário de trabalho.
(Marian Bibin)

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(RELAÇÃO ENTRE O) TELHADO E A DÚVIDA

Por mais andares que uma casa tenha termina sempre no telhado. É assim a vida do homem: por mais certezas que tenha, termina sempre na dúvida.
(Malgorzata Zajac)

[in Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2012]

Primeiros parágrafos

«Estava a escrever um artigo sobre as últimas fusões empresariais, quando notei um tremor no bolso direito do roupão, de onde tirei, misturados com vários bocados de pão, quatro ou cinco homenzinhos que atirei para cima da mesa, por cuja superfície desataram a correr, à procura de um buraco para se esconderem. Nesse momento, entrou a minha mulher, que nesse dia não fora trabalhar, para me perguntar se me apetecia um café. Quando chegou ao pé de mim, já não havia nenhum homenzinho à vista, só os pedaços de pão e algumas migalhas.
– Que mania! – disse, referindo-se ao meu hábito de guardar nos bolsos bocadinhos de pão, cuja côdea roía com os mesmos efeitos relaxantes com que outros fumam, ou bebem um copo.
Este costume metia-lhe nojo, embora os meus bocados de pão não fizessem mal a ninguém e, a mim, me dessem prazer. Em geral, depois de escrever um parágrafo com que me sentisse satisfeito, tirava um do bolso e dava-lhe três ou quatro dentadas, enquanto pensava no seguinte. Por qualquer razão, associava o exercício de roer à produção de pensamento.»

[in O que Sei dos Homenzinhos, de Juan José Millás, Planeta, 2012]

Primeiros parágrafos

«As insónias assaltavam-no agora com mais frequência, não uma ou duas vezes por semana, mas quatro, cinco vezes. Que é que ele fazia nessas ocasiões? Não dava longos passeios à luz da alvorada, que subia no céu como um texto num ecrã de computador. Não tinha nenhum amigo de quem gostasse o suficiente para incomodar com um telefonema. Que é que havia para dizer? Era uma questão de silêncio, não de palavras.
Tentou ler até lhe vir o sono, mas a leitura deixava-o ainda mais desperto. Lia livros de ciência e poesia. Gostava de poemas concisos dispostos minuciosamente no espaço branco, fiadas de marcas alfabéticas gravadas a ferro em brasa no papel. Os poemas tornavam-no consciente da sua própria respiração. Um poema desvendava a cada momento coisas em que, normalmente, não estava preparado para reparar. Eis o subtil cambiante de cada poema, pelo menos para ele, de noite, durante aquelas longas semanas, um fôlego atrás do outro, no quarto rotativo no alto do triplex.
Uma noite tentou dormir de pé na sua cela de meditação, mas não era versado que chegue, monge que chegue para consegui-lo, longe disso. Contornou o sono e fechou o círculo, alcançando o equilíbrio, uma calma sem luar em que cada força é contrabalançada por outra. Isto proporcionava-lhe o mais fugaz dos alívios, uma breve pausa no tropel das identidades irrequietas.
Não havia resposta à pergunta. Experimentou sedativos e hipnóticos mas criavam-lhe dependência, fazendo-o mergulhar dentro de si mesmo em espirais apertadas. Todos os actos por ele executados eram sintéticos e tinham a persegui-los o próprio reflexo. O pensamento mais apagado trazia consigo uma sombra ansiosa. Que fez ele? Não consultou um psicanalista sentado num cadeirão de couro. Freud já deu o que tinha a dar, Einstein quase. Naquela noite estava a ler a Teoria da Relatividade Restrita em inglês e alemão, mas por fim pousou o livro e ficou deitado, completamente imóvel, tentando mobilizar a energia suficiente para proferir a única palavra que desligaria as luzes. Nada existia à sua volta. Havia apenas o ruído dentro da sua cabeça, a mente no tempo.
Quando morresse, não acabaria. O mundo é que acabaria.»

[in Cosmópolis, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Relógio d’Água, 2012]

Primeiros parágrafos

«A minha mãe não era real. Era um sonho antigo, uma esperança. Era um lugar. Nevado, como este, e frio. Uma casa de madeira numa colina, com um rio mais abaixo. Um dia enevoado, a pintura branca gasta das casas que a luz aprisionada tornava inesperadamente mais brilhante, e eu voltava da escola. Tinha dez anos, vinha sozinha, seguia pelo meio da neve suja amontoada no pátio, em direção ao alpendre estreito de nossa casa. Não me lembro do que me ia no pensamento nesse momento, não me lembro de quem eu era nem de como me sentia. Tudo isso se apagou, desapareceu. Abri a porta da frente e deparei com a minha mãe pendurada de uma das traves do telhado. Desculpa, disse eu, e recuei e fechei a porta. Estava de novo lá fora, no alpendre.
Disseste isso?, perguntou Rhoda. Disseste desculpa?
Sim.
Oh, mamã.
Foi há muito tempo, disse Irene. E foi uma coisa que eu nem sequer naquela altura consegui ver, e por isso agora também não consigo. Não sei que aspeto tinha ela, ali pendurada. Não me lembro dos pormenores, apenas que aconteceu.»

[in A Ilha de Caribou, de David Vann, trad. de José Lima, Ahab, 2012]

Primeiros parágrafos

«Naquele dia, deixou-se fascinar por veias. Veias e artérias. Pensou e admirou o seu crescimento, a forma ordeira como se espalhavam em silêncio debaixo da sua pele. Pequenos rios de sangue a crescer de acordo com as leis escondidas de uma orografia imparável; alimentando continentes, levando cheias de tempestade a terras sequiosas. A cada segundo, mais um milímetro de tubagem era construído com precisão e sem fadiga. Quem convencera o seu próprio organismo a alimentar assim o pequeno invasor? E onde estaria o projeto de uma tal empreitada? Como poderia, logo desde o início, aquela mão-cheia de células ambiciosas comandar um prodígio assim?»

[in 18 Palavras Difíceis, de Luís Rainha, Tinta da China, 2012]

Primeiros parágrafos

«Os media e as instâncias oficiais estão a avisar-nos: muito em breve, vai-se desencadear uma nova crise financeira, e será pior que em 2008. Fala-se abertamente das “catástrofes” e dos “desastres”. Mas o que vai acontecer depois? Como serão as nossas vidas depois de um colapso em larga escala dos bancos e das finanças públicas? A Argentina já passou por essa experiência em 2002. À custa de um empobrecimento em massa, a economia desse país pôde em seguida voltar a subir de novo um pouco a encosta: mas nesse caso, tratava-se de um único país. Agora, a totalidade das finanças europeias e norte-americanas estão em risco de sucumbir em conjunto, sem salvador possível.
Em que momento o crash da bolsa deixará de ser uma notícia que conhecemos pelos media para ser um facto perceptível mal saímos à rua? Resposta: quando o dinheiro perder a sua função habitual. Quer tornando-se raro (deflação), quer circulando em quantidades enormes, mas desvalorizadas (inflação). Nos dois casos, a circulação das mercadorias e dos serviços desacelerará até eventualmente parar por completo: os seus proprietários não encontrarão quem as possa pagar em dinheiro, em dinheiro “válido” que lhes permita, por sua vez, comprar outras mercadorias e serviços. Por isso, eles vão guardá-las. Teremos armazéns cheios, mas sem clientes, fábricas em condições de funcionar perfeitamente, mas sem ninguém que nelas trabalhe, escolas onde os professores deixam de comparecer, porque ficaram durante meses sem salário. Dar-nos-emos então conta de uma verdade que é de tal modo evidente que não a víamos: não existe nenhuma crise na produção em si. A produtividade de todos os sectores aumenta continuamente, as superfícies cultiváveis da terra poderiam alimentar toda a população do globo, e as oficinas e fábricas produzem até muito mais do que é necessário, desejável e sustentável. As misérias do mundo não se devem, como na Idade Média, a catástrofes naturais, mas a uma espécie de feitiço que separa os homens dos seus produtos.
O que já não funciona é a “interface” que se ergue entre os humanos e o que eles produzem: o dinheiro. Na modernidade, o dinheiro tornou-se a “mediação universal” (Marx). A crise confronta-nos com o paradoxo fundador da sociedade capitalista: a produção de bens e serviços não é para ela um fim, mas apenas um meio. O único fim é a multiplicação do dinheiro, é investir um euro para conseguir dois. E quando esse mecanismo se avaria, é toda a produção “real” que sofre e que pode mesmo bloquear por completo. Então, como o Tântalo do mito grego, encontramo-nos perante riquezas que, quando lhes queremos deitar a mão, se afastam: porque não podemos pagá-las. Esta renúncia forçada foi sempre a sina dos pobres. Mas agora, situação inédita, isso poderia chegar a toda a sociedade, ou quase. A última palavra do mercado é assim a de nos deixar morrer de fome rodeados de alimentos empilhados por todo o lado, a apodrecer, mas em que ninguém deve tocar.»

[in Sobre a Balsa da Medusa – Ensaios acerca da decomposição do capitalismo, de Anselm Jappe, Antígona, 2012]

Primeiros parágrafos

«No princípio Lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem árvores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra vermelha, como um borrão saltitante.
E o sol.
Meio-dia, talvez.
Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distinguia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protuberâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar.
— É ali.
Aminha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me:
— é ali.
Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me.
Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sabem morrer.
O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:
— Vais.
Mas espera-te o mesmo. De vez em quando, abre-se uma nesga na indiferença do mundo e um freixo torna-se claro, uma sebe, uma ponte, um muro, a pena de uma rola, os lábios, uma palavra. Deus. É ali. E eu vou. Olhos abertos para a desolação de uma casa no meio de um ermo, de um vento cor de barro. De uma voz. E não se abria uma porta, nem se dava um passo. Só a voz tinha princípio e fim. É ali. O braço esticado à minha frente. E o dedo indicador, cheio de nódulos, a apontar.
E os meus olhos.
Que se lembram.
Lembram-se de ver.»

[in Barro, de Rui Nunes, Relógio d’Água, 2012]

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

Primeiros parágrafos

«Mudei de clube num dia de Novembro. O sol jorrava sobre Lisboa, que o recebia com um misto de gratidão e rancor – e, no entanto, nem o mês em curso, nem as condições meteorológicas vigentes, extraordinárias mas não inéditas, tiveram o que quer que fosse a ver com a minha decisão.
O que aconteceu, no essencial, foi o que sempre acontecia às segundas-feiras: estávamos os três, eu, Pedro e Alberto, prolongando o almoço muito para lá do devido sob o sol tardio de um daqueles outonos ferventes após os quais só podia vir chuva, muita chuva, muito mais chuva do que era suposto um Deus misericordioso derramar sobre as suas criaturas – e, naturalmente, falávamos de futebol. Até que, ao concluir outra das suas habituais dissertações sobre as origens de nova e inexorável série de derrotas do Sporting, a fé que nos unia e nos puxava para baixo e nos tornava a unir lá no fundo, Alberto ergueu o terceiro uísque:
– Que se lixe. Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca. Portanto, viva o Sporting!
E eu, como se não pudesse evitá-lo, dei por mim de repente:
– Mas não muda porquê?
E logo a seguir, incapaz de conter-me ainda:
– Uma merda é que não muda… Pois escreve aí direitinho, que é para depois não te esqueceres: eu agora sou do Benfica.
Dei por mim a dizê-lo e, ainda por cima, a gostar de ouvir-me dizê-lo:
– Aí tens. Sou do Benfica. Mudei para o Benfica. Mudei para o Benfica e agora quero é que o Sporting vá morrer longe.»

[in Os Sítios Sem Resposta, de Joel Neto, Porto Editora, 2012]

Primeiros parágrafos

«Começou da maneira habitual, na casa de banho do Hotel Lassimo. Sasha estava ao espelho, a retocar a sombra amarela nos olhos, quando reparou num saco pousado no chão por baixo do lavatório e que deveria pertencer à mulher cuja mijadela ela ouvia tenuemente através da porta em arco de uma das latrinas. Por dentro da orla do saco, mal se vendo, estava uma carteira de couro verde-claro. Para Sasha foi fácil reconhecer, em retrospetiva, ter sido aquela cega confiança da mulher que estava a mijar o que a provocara: Vivemos numa cidade onde as pessoas até nos roubam os cabelos da cabeça se lhes dermos oportunidade para isso, mas você deixa as suas coisas por aí à mostra e acha que elas ainda vão estar à sua espera quando voltar? Aquilo dera-lhe vontade de ensinar uma lição à mulher. Mas esse desejo somente camulflara o sentimento mais íntimo que Sasha sempre tinha: aquela carteira gorda e macia, a oferecer-se à sua mão – parecia tão aborrecido, tão banal, deixá-la ali onde estava, em vez de aproveitar o momento, aceitar o desafio, dar o salto, pirar-se, lançar ao ar as cautelas, viver o perigo (“Estou a perceber”, disse Coz, o terapeuta dela), e pegar no raio da coisa.
“Você quer dizer roubá-la.”
Ele estava a tentar que Sasha utilizasse essa palavra, o que era mais difícil de evitar no caso de uma carteira do que nos das inúmeras coisas que ela surripiara ao longo do último ano, quando a condição dela (era assim que Coz se referia àquilo) começara a acelerar: cinco molhos de chaves, catorze óculos de sol, o cachecol às riscas de uma criancinha, um binóculo, um ralador de queijo, um canivete, vinte e oito sabonetes e oitenta e cinco canetas, entre as esferográficas baratas que usara para assinar talões dos cartões de débito e a Visconti cor de beringela que custava duzentos e sessenta dólares na internet, e que ela surripiara ao advogado do seu anterior patrão durante uma reunião contratual. Sasha já não tirava nada de lojas – os frios e inertes bens destas não a tentavam. Somente de pessoas.
“Está bem”, disse ela. “Roubá-la.”»

[in A Visita do Brutamontes, de Jennifer Egan, trad. de Jorge Pereirinha Pires, Quetzal, 2012; nas livrarias a partir de dia 14 de Abril]

A mãe e o fim da União Soviética

«Tendo em conta que era sábado, levantou-se cedo: oito horas e quinze minutos. Vestiu-se: calças de ganga, blusa vermelha, sandálias. Penteou-se: rabo-de-cavalo a descair ligeiramente sobre o ombro esquerdo. Comeu um iogurte natural. Comeu metade de uma banana. Lavou os dentes. Saiu de casa. Chamou o elevador, mas a luz do botão não se acendeu. Esperou seis segundos, voltou a carregar no botão. Nada. Desceu as escadas: três andares. A porta do prédio escapou-lhe das mãos, fechou-se num estrondo. Pôs os óculos escuros. Entrou no café. Tomou uma bica. Pediu uma caixa de chicletes verde. Saiu do café. Foi à praça. Comprou maçãs: um quilo e cem gramas. Peras: um quilo e setecentos gramas. Bananas: novecentos e cinquenta gramas. Morangos: um quilo. Cerejas: um quilo e quinhentos gramas. Carapaus: doze. Pescadas: duas. Robalos: quatro. Bacalhau: um. Abóbora: uma talhada. Nabos: dois. Espinafres: um molho. Cenouras: dez. Batatas: quatro quilos. Agriões: um molho. Brócolos: quatrocentos gramas. Flores: gerberas. Pão: dois de Mafra e doze carcaças. Tremoços: meio litro. Saiu da praça. Voltou a pôr os óculos escuros. Pousou cinco vezes os sacos no chão para descansar os braços. Entrou no prédio. Chamou o elevador. A luz do botão não acendeu. Subiu as escadas: três andares. Pousou duas vezes os sacos no chão: no primeiro andar e entre o segundo e o terceiro. Pousou novamente os sacos no chão para abrir a porta de casa. Largou os sacos na cozinha. Sentou-se. Esticou os braços. Esticou os dedos. Bebeu um copo de água. Levantou-se para ir à casa de banho. Mijou. Lavou as mãos. Voltou para a cozinha. Arrumou as compras: no frigorífico o que era do frigorífico, na despensa o que era da despensa. Colocou as flores numa jarra com água. Colocou a jarra sobre a mesa da sala. Saiu de casa. Desceu as escadas sem chamar o elevador. Segurou a porta do prédio com cuidado. Pôs os óculos escuros. Atravessou dois quarteirões. Entrou no supermercado. Pegou num carrinho. Comprou leite: quatro litros, meio gordo. Café: cem gramas, moagem média. Arroz: carolino, uma embalagem de um quilo. Esparguete: duas embalagens de quinhentos gramas. Fiambre: da perna extra, duzentos gramas. Queijo flamengo: duzentos gramas fatiados. Queijo fresco: embalagem de seis unidades. Feijão encarnado: uma lata de oitocentos e quarenta e cinco gramas. Feijão frade: uma lata de oitocentos e quarenta e cinco gramas. Grão de bico: uma lata de oitocentos e cinquenta gramas. Atum: seis latas. Ovos: classe L, doze unidades. Sacos do lixo: trinta litros, quarenta unidades. Detergente para a loiça: um litro. Detergente para a máquina da loiça: em pó, embalagem de dois quilos e quinhentos gramas. Detergente para a máquina da roupa: quarenta doses. Sabão azul e branco: barra de quatrocentos gramas. Sabonete líquido: duas embalagens de trezentos mililitros. Pasta de dentes: duas embalagens. Champô: uma embalagem para cabelos normais. Amaciador: uma embalagem para cabelos normais. Iogurtes: oito naturais, oito de pedaços de morango, quatro sabor tuti-fruti. Sumos naturais: maçã, um litro, pêra, um litro. Água das pedras: quatro garrafas de trinta e três centilitros. Saiu do supermercado. Atravessou dois quarteirões. Abriu a porta do prédio. Subiu as escadas. Entrou em casa. Arrumou as compras: no frigorífico o que era do frigorífico, na despensa o que era da despensa. Fechou-se na casa de banho. Abriu a torneira da água quente. Sentiu a temperatura. Aguardou uns segundos. Abriu ligeiramente a torneira da água fria. Sentiu a temperatura. Tapou o ralo da banheira. Despiu-se. Olhou-se ao espelho. Os dois pés. As duas pernas. As duas mãos. Esticou os dedos das mãos. Fletiu os braços. Baixou os braços. Olhou os seios. Apalpou-os. Sentiu-lhes o volume. A firmeza. O peso. Acariciou os mamilos. Primeiro o esquerdo. Depois o direito. Os mamilos reagiram de imediato. Sorriu. Desfez o rabo-de-cavalo. Sacudiu o cabelo. Colocou-se em cima da balança: cinquenta e dois quilos. Fechou as torneiras. Mergulhou na ba- nheira. Deixou-se ficar. Submersa. Acima da linha de água: apenas o nariz e os dedos grandes dos pés. Abaixo da linha de água: o silêncio. Às vezes um pulsar. O coração. Depois, de novo o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Até que, com a mão direita, procurou o ralo por baixo da nuca e destapou-o. O corpo começou a emergir lentamente. Primeiro os olhos. A testa. Depois a boca. O queixo. As orelhas. Os mamilos. A barriga. Os pés. As pernas. Os ombros. Os braços. As mãos. Os dedos. Toda. Levantou-se. Cobriu-se de champô e sabonete. Abriu as torneiras. Sentiu a temperatura. Abriu mais um pouco a torneira da água fria. Segurou o chuveiro sobre a cabeça. Sobre o peito. Sobre as costas. Saiu da banheira. Enrolou-se numa toalha branca. Abriu a porta de um armário. Tirou lá de dentro uma gilete. Levantou os braços e passou a gilete pelas axilas. Primeiro a esquerda, depois a direita. Sentou-se no tampo da sanita. Pousou os pés na borda do bidé. Abriu as pernas. Passou a gilete pelas virilhas. Espalhou creme pelo corpo. Vestiu-se: vestido branco de algodão. Saiu da casa de banho. Entrou na cozinha. O marido estava a tomar o pequeno-almoço: sopas de café com leite. O filho estava a tomar o pequeno-almoço: leite simples e uma carcaça com manteiga. Trocaram bons-dias. Estendeu a toalha do banho. Disse ao marido que o elevador estava avariado. O marido disse-lhe que talvez não estivesse avariado, talvez a porta estivesse mal fechada em algum dos andares. Saiu novamente. Voltou a chamar o elevador. A luz do botão não se acendeu. Subiu ao quarto andar e verificou a porta do elevador. Subiu ao quinto andar e verificou a porta do elevador. Desceu as escadas. No segundo andar, verificou a porta do elevador. No primeiro andar, verificou a porta do elevador e carregou no botão. A luz não se acendeu. No rés do chão, verificou a porta do elevador. Saiu para a rua. Pôs os óculos escuros. Tirou os óculos escuros. Entrou no salão de cabeleireiro. A empregada que a costumava atender e que, para além de cabeleireira, era vidente e cartomante e lançava os búzios e lia as palmas das mãos, viu-a entrar e disse: “Ai, dona Paula, mas que luz, que bom astral. A senhora hoje anda rodeada de anjos.” Ela riu-se e disse: “Minha querida, é o branco que me fica bem, mais nada.” Depois, sentou-se na cadeira giratória, reclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e acrescentou: “Olha, Daniela, hoje vou fazer-te a vontade. Quero que me ponhas loira. Podes cortar, podes escolher o tom, podes pentear como achares melhor. Quando acabares, avisa-me.” A empregada deixou escapar uma risada de contentamento e lançou-se na desafiante empreitada. Não trocaram uma palavra durante todo o tempo. Os olhos mantiveram-se fechados, não tanto como os de quem aguarda, com expectativa, uma surpresa, mas sobretudo como os de quem se entrega, de corpo e alma, a uma volúpia. As mãos de Daniela, auxiliadas por uma parafernália de utensílios, pareciam não ter dúvidas sobre o caminho a seguir, como se a estratégia de intervenção já há muito estivesse delineada. Na verdade, desde que Daniela começara a trabalhar naquele salão de cabeleireiro que se criara, imediatamente, uma empatia entre as duas. Daniela fazia-lhe confidências, pedia-lhe conselhos. Em troca, lia-lhe a mão, lançava-lhe as cartas e não só lhe previa o futuro, como lhe adivinhava o passado. O passado anterior ao passado: “Dona Paula, a senhora, noutra vida, já foi loira. Tenho a certeza. Temos de experimentar.” “Eu já fui loira e tu és doida.” Andaram nisto durante anos: “A senhora, um dia, vai dar-me razão.” “E o meu marido vem cá dar-te uma tareia.” Daniela deu os últimos retoques e virou a cadeira para o espelho, suspirou fundo, ganhou coragem, anunciou: “Já está, dona Paula.”
“Só volto a abrir os olhos se me prometeres que nunca mais me tratas por dona.”
Daniela prometeu e ela abriu os olhos. E o que viu diante de si foi o rosto da mãe, tal como o recordava. Ao seu lado, por cima do seu ombro, as lágrimas da Daniela esborratavam-lhe os olhos e desenhavam-lhe, nas faces ainda adolescentes, dois riscos de rímel. Olharam-se através do espelho. Apertaram as mãos. Abraçaram-se. Daniela disse: “Desejo-lhe as maiores felicidades. Fico a rezar por si.”
Pôs os óculos escuros e saiu do salão de cabeleireiro. Entrou no café. Pediu uma bica e um pastel de nata. Cumprimentou um vizinho que estava sentado a uma das mesas a resolver palavras cruzadas. Perguntou-lhe se ele já se apercebera de que o elevador estava avariado. O vizinho lembrou-a de que morava no rés do chão e que por isso nunca utilizava o elevador. Tomou a bica. Comeu o pastel de nata. Pagou. Disse até logo ao vizinho e ao empregado do café. Entrou na papelaria do senhor Sabino. Comprou o jornal. Abriu a porta do prédio. Subiu as escadas: três andares. Entrou em casa. O filho perguntou: “O pai já viu?” Ela respondeu: “Não, ainda não.” Percorreu a casa. Apanhou cuecas do chão. Meias. Pijamas. Lenços de papel. Abriu as janelas. Mudou os lençóis. Ligou a máquina de lavar roupa. Vestiu o avental. Descascou oito batatas. Colocou-as dentro de um tacho com água. Juntou sal. Acendeu o bico maior do fogão. Lavou os robalos. Encheu uma panela com água. Acendeu o bico médio do fogão. Juntou sal e pimenta. Uma rodela de limão. Um pouco de leite. Assim que a água começou a ferver, mergulhou, com cuidado, os robalos. Pôs o lume no mínimo. Olhou o relógio. Deixou cozer. Ligou o forno. Untou com margarina um tabuleiro de pirex. Pousou os robalos no tabuleiro. Juntou as batatas cozidas. Polvilhou tudo com pimenta. Regou com sumo de limão. Cobriu com natas. Colocou o tabuleiro no forno. Olhou o relógio. O marido entrou na cozinha e disse: “Já chamaram o piquete dos elevadores, deve vir ainda hoje.” Reparou no cabelo loiro da mulher. Quatro segundos a olhar para o cabelo loiro da mulher. Esteve quase para dizer “Fazes-me lembrar alguém”. Disse: “Oh, cum caralho.” Depois, espreitou para dentro do forno. Ela pediu-lhe que pusesse a mesa. O marido pôs a mesa. Ela olhou o relógio. Espreitou para dentro do forno. Chamou o filho. Tirou o tabuleiro de dentro do forno. Pousou-o sobre a mesa. Polvilhou com salsa picada. Sentaram-se a almoçar. O marido perguntou-lhe se queria vinho. Respondeu que sim. O marido encheu-lhe o copo. “O que é que te deu na cabeça?”, perguntou-lhe o marido. “Apeteceu-me”, respondeu. Comeram cerejas. No final, o marido acendeu um cigarro. O filho levantou-se. Ela disse: “Não vou tomar café. Já bebi dois hoje de manhã.” O marido apagou o cigarro no molho do prato. Ela levantou a mesa. Arrumou a cozinha. Estendeu a roupa. Ligou a máquina de lavar loiça. Sentou-se no sofá. O filho fechou-se no quarto. Ela fechou os olhos. Lembrou-se de um poema de Cesário Verde. Levantou-se. Procurou o livro de Cesário Verde. Retirou-o da estante. Sentou-se no sofá com o livro nas mãos. Sem o abrir. Deixou-o ficar no colo. Fechou os olhos. Na memória desenhou-se-lhe o rosto de Cesário Verde. Nem bonito nem feio. Uma soturnidade. Uma melancolia. Recordou-se do pai que não gostava de Cesário Verde. Demasiado doente. Demasiado confuso. O pai que recitava sonetos de Shakespeare de cor, com a mãe a corrigir-lhe a pronúncia. Ele a responder: “Às vezes esqueces-te de que sou de Torres Vedras. Saber quem foi Shakespeare já é um milagre.” “De prédios sepulcrais, com dimensões de montes”, era assim o poema de que se lembrara. Talvez tenha adormecido. Sobressaltou-se com o barulho do telefone. O filho saiu disparado do quarto, a dizer que ia começar o jogo. Sentaram-se em frente da televisão. O filho a torcer pela Holanda. Ela a torcer pela União Soviética. O marido a torcer para que alguém se aleijasse, para que houvesse invasão de campo, para que viessem os tanques de Moscovo, para que fossem a penaltis e falhassem todos para sempre, o resto da eternidade a marcarem penaltis e a falharem, ao fim de não sei quantas horas, as pessoas a abandonarem o Estádio Olímpico de Munique, as televisões a interromperem as transmissões em direto, e os jogadores, abandonados no relvado, a falharem penaltis. O assunto a ser discutido em Assembleia Geral das Nações Unidas. Até que o Van Basten, do bico da pequena área, a cruzamento de Mühren, remata de primeira, e a bola, numa trajetória improvável – que, como o filho, perspicazmente, observou, não era compatível com a velocidade do remate e das duas uma: ou, por breves momentos, a força gravítica exercida pela Terra aumentara, ou então o fenómeno não podia ser descrito pelas três leis fundamentais de Newton e tinha de ser entendido à luz da mecânica quântica –, passa por cima do Dasayev e entra na baliza. Uma coisa linda de se ver, admitiu ela. Um soviético jamais marcaria um golo assim, admitiu ela. O resultado estava feito, admitiu ela. Setenta anos de socialismo científico, de ditadura do proletariado, de democracia avançada, e nem a merda de um campeonato da Europa, admitiu ela. Pronto, ganharam um há não sei quantos anos. Mas agora é que era preciso. Milhões de mortos congelados na Sibéria e o cabrão do Van Basten, sozinho no bico da pequena área do Estádio Olímpico de Munique, admitiu ela. Uma coisa linda de se ver. O filho aos pulos a gritar golo. O marido a garantir que havia fora de jogo. O filho a dizer que o pai estava maluco, qual fora de jogo, qual quê. Até que o pai se rendeu às evidências das múltiplas repetições proporcionadas de diversos ângulos a várias velocidades e disse que o cruzamento do Mühren era uma vergonha de cruzamento, que o remate do Van Basten era um charuto, que o Dasayev tinha sido mal batido, e que desde o Beckenbauer que não se via futebol a sério. E que a única coisa de jeito que os Soviéticos tentaram fazer foi acabar com os padres, e que não conseguia entender como é que ela, uma beata, era capaz de torcer pela União Soviética. Ela não respondeu. Foi para a cozinha. Já não quis ver o resto do jogo. Nem a entrega da taça. Nem a distribuição das medalhas. Não queria ver mais nada. Fechou-se na cozinha. Fez sopa. Fez bacalhau com natas. Fez mousse de chocolate. Preparou o jantar: bifes com batatas fritas e ovos estrelados. Sentaram-se à mesa. Comeram. O marido acendeu um cigarro. Fumou o cigarro. Apagou o cigarro na tigela suja de mousse. Ela disse: «Tenho um cancro.» Encostou a mão ao seio esquerdo e disse: “Aqui.” Depois disse: “Vou ser operada na segunda-feira, amanhã dou entrada no hospital.” Depois disse: “A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa.” Depois disse: “No congelador também há bifes e hambúrgueres e costeletas.” Depois disse: “Devo ficar internada, pelo menos, uma semana, depois logo se vê.” Não disse mais nada. O filho começou a dividir pedacinhos de pão em pedacinhos cada vez mais pequenos. Quando já eram demasiado pequenos para os voltar a dividir, mesmo com a ponta da unha, juntava-os num montinho que ia crescendo com o passar dos minutos. O marido acendeu um cigarro. Tocaram à campainha. Ninguém se levantou.»

[in O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, LeYa, 2012]

Primeiros parágrafos

«Naquela noite tinha havido uma tempestade em St. Louis. A água quedava-se em negros charcos fumegantes na calçada fronteira ao aeroporto, e, do banco traseiro do táxi, eu via a agitação dos ramos dos carvalhos sobre um fundo de nuvens citadinas baixas. Era sábado e as estradas estavam saturadas de uma sensação de extemporaneidade, de atraso – a chuva não caía, já tinha caído.
A casa da minha mãe, em Webster Groves, estava às escuras, à exceção de uma lâmpada com temporizador na sala de estar. Entrei, fui direito à prateleira das bebidas e servi-me de uma boa dose que já vinha a prometer a mim próprio desde antes do primeiro dos meus dois voos. Invadia-me o sentido de posse de um viquingue em relação a tudo a que pudesse deitar a mão. Estava prestes a entrar na casa dos quarenta, e os meus irmão mais velhos tinham-me confiado a missão de viajar até ao Missuri e escolher um agente imobiliário que se encarregasse de vender a casa. Enquanto estivesse em Webster Groves, a trabalhar em prol do património familiar, a prateleira das garrafas seria minha. Minha! Idem para o ar condicionado, que regulei para uma temperatura glacial. Idem para o frigorífico da cozinha, que achei necessário abrir imediatamente e vasculhar até ao fundo, na esperança de descobrir umas salsichas de pequeno-almoço, um guisado caseiro, alguma coisa cheia de gordura e de sabor que pudesse aquecer e comer antes de ir para a cama. A minha mãe tinha sempre o cuidado de etiquetar a comida com a data em que a tinha congelado. Debaixo de múltiplos sacos de mirtilos, descobri um saco com uma perca que um vizinho tinha pescado três anos antes. Debaixo da perca estava um pedaço de peito de vaca com nove anos.»

[in A Zona de Desconforto, de Jonathan Franzen, trad. de Francisco Agarez, Dom Quixote, 2012]

Primeiros parágrafos

«Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler romances somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio de acontecimentos e pessoas imaginários que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos entregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana. Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pelos romances, ou pelo menos que confundimos a realidade do romance com a da vida real. Mas nunca nos queixamos, nunca nos arrependemos dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando temos certos sonhos, queremos que o romance que estamos a ler continue e esperamos que essa vida paralela provoque em nós um sentido sólido, consistente de realidade e de autenticidade. Apesar de tudo o que conscientemente sabemos sobre ficção, ficamos contrariados e dececionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver.»

[in O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk, Presença, 2012]

Primeiros parágrafos

«Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. Esquece a morte e segue-me.
Sete e meia da manhã em agosto. Gosto do cheiro de jasmim pela manhã no pátio de Karim. Ainda não o conheço, está no Brasil, chega em dezembro: Karim Farah. Nome estranho para um brasileiro, mas o amigo do amigo que nos pôs em contacto disse-me que há milhões de descendentes sírio-libaneses no Brasil. Não sei nada do Brasil, sabemos pouco do Brasil na Catalunha. Por acaso o amigo do meu amigo foi tocar ao Rio de Janeiro, conheceu Karim e ele contou-lhe que tinha uma casa em Damasco onde recebia músicos. Eu andava a estudar cantigas do Al Andaluz, precisava de ver arquivos em Damasco. Escrevi a Karim, respondeu que viesse. Mesmo na sua ausência a casa era minha.
No dia marcado foram buscar-me a Bab Sharqi, o portão oriental da Cidade Velha. Entrámos ao crepúsculo, com o souk a acelerar na cacofonia dos últimos pregões. Tudo foi ficando cada vez mais estreito, até acabar num beco onde se ouvia o eco de cada passo. Ao fundo uma pequena porta abriu um clarão. Achei-me entre laranjeiras, fontes de azulejo e madrepérola. Era o próprio Al Andaluz.»

[in E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2012]

Primeiros parágrafos

«A primeira vez aconteceu depois de todas as outras, numa tarde que parecia vulgar. Foi há uns meses, a cidade afastava-se do frio. Havia um certo torpor, meu e dela. Eu caminhava ao sol, devagar, ela acolhia, confiante. Avenida da Liberdade, sétima esquina a contar do rio. No semáforo, verde e vermelho. Um autocarro a travar, mulher a cruzar a passadeira, os canteiros na meninice. Uma pastilha elástica em voo picado, pombo aterrado em pata manca, as primeiras flores. A avenida inteira, gente a viver-se.»

[in Como Carne em Pedra Quente, de Ana Sofia Fonseca, Clube do Autor, 2012]

Primeiros parágrafos

«No troço de céu que vai de Madrid a Lisboa, verifica-se um estranho fenómeno de tráfico aéreo. Se um avião parte, por exemplo, do aeroporto de Barajas às 19:30 de um dia qualquer, aterra no aeroporto da Portela às 19:45 do mesmo dia. A viagem dura, portanto, um quarto de hora, embora o tempo do trajecto seja, na realidade, de uma hora e quinze minutos.
O que significa que, a partir de certo ponto no espaço-tempo, uma hora inteira, no exacto instante em que começa, é absorvida pelo rasto branco que atravessa o ar.
Nem todos os passageiros dão importância ao facto, mas alguns, os mais perspicazes, aproveitam para condensar nesses sessenta minutos de vácuo tudo o que o fuso horário é capaz de devorar.
Deitam nesse vácuo recordações tristes, encontros de trabalho falhados, precisões inúteis, por vezes amigos envelhecidos, conhecidos pouco discretos, mais raramente filhos indesejados.
E há uma nuvem, naquele rasgão de céu, dentro da qual vão parar todos os pensamentos contidos na hora ausente. É uma nuvem espessa, grande, com os contornos levemente amarelecidos, feita de círculos e semicírculos que se interceptam e por instantes parecem sujos, pintados de negro como que traçados no smog, mas luminosos, nunca opacos, desenhados em geral com precisão, excepto nos dias de muito vento.
Não pode dizer-se que o cenário seja despojado, está antes cheio de prateleiras, de cantos e caixotes, tem o ar de uma velha casa de campo habitada por pintores ou fotógrafos vagabundos, há de tudo um pouco entre os alçapões e o pavimento. Só não há um verdadeiro tecto, mas uma espécie de vago toldo que se diria inconsistente, se não fossem as coisas cujo voo embate contra a sua barreira.
É aqui que eu trabalho, no interior da nuvem.»

[in Este Frio e outras histórias de amor, de Paola d’Agostino, Fenda, 2011]

Primeiros parágrafos

«Sempre me assustaram e fascinaram as figuras da maternidade, as noivas, as mulheres que rodearam a minha infância. Era algo como um terror arcaico. Quando era criança levaram-me ao casamento da minha tia e eu chorei sem parar, durante horas, porque estava assustada com o seu vestido de noiva. Aquela brancura, aquele vulto, o que quer que fosse, tinha esse efeito em mim. Mais tarde, eram aqueles silos brancos que se vêem da linha do comboio, já próximos de Lisboa, e que eu vejo todos os dias quando venho trabalhar e quando volto para casa. Esses silos enormes e brancos assombram a paisagem. Causavam-me medo. Costumava pensar que eram como as noivas, mulheres gigantes vestidas de branco. Ainda hoje, se me deixo levar, sinto um calafrio quando os vejo do comboio.»

[in Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado, Dom Quixote, 2012; nas livrarias a partir de 25 de Fevereiro]

Primeiros parágrafos

«Todas as tardes, quando as andorinhas rodopiam no céu cor de malva, um homem de cabelo grisalho transpõe a porta de um pequeno hotel da Rua Mirza Mansûr, vira à direita na Harb, depois à esquerda na Sabir, encimada por belas varandas de madeira, por vezes envoltas numa trepadeira e ornamentadas com peças de roupa. Vindo de um minarete próximo do Palácio dos Shirvanshahs, o apelo de um muezim – tão discreto, quase melancólico, que se torna comovente – suspende no ar frágeis arabescos sonoros. O deus que essa voz de violoncelo invoca não tem um ar terrível, seríamos capazes de o convidar para a mesa, e justamente jantamos sós esta noite, como quase todas as noites. As folhas das figueiras recortam mãos verdes e trémulas no céu. Em volta de Kiçik Qala desprendem-se das paredes os tapetes de cores e ritmos de vitral. O passeante transpõe agora a porta dupla rasgada na muralha de Isheri Sheher, a Cidade Velha (ou, traduzindo com mais exatidão, a Cidade Interior). As torres esguias parecem peças de um jogo de xadrez, ou pimenteiros (Alexandre Dumas, em 1858, observava que as fortificações de Baku eram feitas para deter ataques com armas brancas e não para resistir à artilharia). Hesita por momentos antes de atravessar o fluxo de alta cilindrada – luxuosos automóveis alemães, enormes todo-o-terreno, carros monumentais de um negro lustroso, cujos condutores carregam nervosamente na embraiagem, perto das muralhas. Turbilhão de carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban

[in Baku – últimos dias, de Olivier Rolin, tradução de Manuela Torres, Sextante, 2012]

Primeiros parágrafos

«O meu amigo António – aquele que, em miúdo, com dez ou doze anos, ficava horas a fio, num descampado, de saco na mão, à espera dos gambozinos: um homem bom, incapaz de matar uma mosca ou de maltratar um gato – quarenta e quatro anos, figura esguia, uma farta cabeleira a esbranquiçar, uns óculos de aros redondos, o que lhe dava um ar de “intelectual de esquerda”, imagem que cultivava com requintado deleite, estava sentado a uma mesa, no Pavilhão Chinês, numa madrugada de sábado para domingo, a matutar à volta de uma cerveja, enquanto ia coçando a barba crescida mas bem aparada.
António tinha a cabeça num rodopio. O cansaço dilatava a vertigem em que se afundara na última meia hora, o que lhe dava um ar esgazeado. Refugiara-se ali para pensar, mas ainda não conseguira sair do vazio que o esfarrapava. Fixou o olhar na pintura do tecto: observou o soldado soviético, no seu uniforme cinzento, a espingarda a tiracolo, a subir a escadaria do Palácio de Inverno, numa tarde de Outubro. O soldado soviético e o Palácio de Inverno avivaram-lhe a memória dos muitos anos passados com a Joana, com quem viveu até há trinta minutos, talvez por ela continuar uma ortodoxa comunista.»

[in Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, Abysmo, 2011]

Primeiros parágrafos

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»

[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]

Primeiros parágrafos

«A meio do jantar, eu sabia que iria reviver todo o serão pela ordem inversa – o autocarro, a neve, a subida pelo ligeiro declive, a catedral a erguer-se à minha frente, a desconhecida no elevador, a sala de estar enorme e amontoada onde rostos iluminados por velas resplandeciam com gargalhadas e premonições, a música de piano, o cantor de voz roufenha, o odor a pinheiro por toda a parte enquanto eu vagueava de divisão em divisão, a pensar que talvez naquela noite devesse ter chegado muito mais cedo, ou um pouco mais tarde, ou nem sequer devia ter ido, as clássicas águas-fortes a sépia na parede junto da casa de banho onde uma porta giratória se abria para um corredor longo de acesso a zonas privadas não abertas a convidados mas que dava outra curva para o corredor e depois, por milagre, voltava a conduzir à mesma sala de estar, onde mais pessoas se tinham reunido, e onde, junto da janela onde pensei ter encontrado um lugar tranquilo atrás da enorme árvore de Natal, alguém se virou de repente para mim, estendeu a mão e disse:
– Sou a Clara.
Sou a Clara, dito num ápice, como se fosse o facto mais óbvio do mundo, como se eu sempre o tivesse sabido, ou o devesse saber, e, vendo que não a reconhecera, ou talvez estivesse a tentar não o fazer, ela me ajudasse a acabar com o fingimento e a dar um rosto ao nome que decerto já todos tinham mencionado muitas vezes.»

[in Oito Noites Brancas, de André Aciman, trad. de Maria João Freire de Andrade, Matéria Prima, 2012]

Primeiros parágrafos

«O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão.
Vieram moscas varejeiras e aves de rapina. Seguidas pelos lobos e as raposas, apoiadas nas patas de trás. As formigas procuraram-no atordoadas pelo cheiro. Garantiu-lhes a sobrevivência, pouco a curiosidade.
À noite, os vizinhos trancavam as portas e tapavam os ouvidos e vendavam os olhos. O caso recortava-se na loucura. Ninguém dormia, ninguém falava. Era o estandarte das armas indesejadas, desfraldado numa árvore velha. Descalço.
E começou o exílio. E a suspeita, entre os que ficavam.»

[in A Mulher Descalça, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2011]

Primeiros parágrafos

«Mal Rassul ergueu o machado para o abater na cabeça da velha, a história de Crime e Castigo passa-lhe pela cabeça. Fulmina-o. Os seus braços estremecem, as suas pernas vacilam. E o machado escapa-se-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher, penetra-o. Sem soltar um grito, a velha cai no tapete vermelho e negro. O seu véu, decorado com motivos de flores de macieira, flutua no ar antes de cair em cima do seu corpo flácido e rechonchudo. É agitada por espasmos. Mais um sopro, talvez dois. Os seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio da sala, respiração cortada, mais lívido do que um cadáver. Ele treme, o seu patu a cai-lhe dos ombros salientes. O seu olhar assustado absorve-se no jorro de sangue que, brotando do crânio da velha, se confunde com o vermelho do tapete, cobrindo os seus traçados negros, escorrendo depois, lentamente, para a mão carnuda dela, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.»

[in Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, 2011]

Primeiros parágrafos

«Tom aprendera com José Quintero que não se deve roubar pão – o motivo é de ordem religiosa; e que dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e de interior, escondido nos bosques do nosso ser.
Era o começo do Outono e as folhas desprendiam-se das árvores; à noite fazia frio. No teatro, fazia sempre frio. Tom tinha visto tantas raparigas a lerem o papel, que começava a sentir-se aborrecido. Uma das actrizes profissionais do primeiro dia…
A rapariga foi a última da tarde. Ele viu-a atravessar a sala e subir para o palco sem grande interesse. Era bonita, o cabelo louro comprido, o corpo magro, vestia um casaco preto de cabedal que tirou antes de sentar-se. Por baixo vestia uma T-shirt branca, sem mangas, e uma saia preta que lhe ficava alguns centímetros acima do joelho. Botas pretas. Parecia cansada.
Tom conhecia aquele cansaço. Não era o cansaço de quem trabalhara muito naquele dia, de quem trabalhara muito na véspera, mas a simples dor de estar vivo. Devia ter vinte e nove ou trinta anos. Ele conseguia ver a sua história nos olhos cor de avelã. O trabalho num bar para pagar os estudos, um ou dois bons papéis, inúmeras audições e depois nada. Pequenos papéis em peças que saíam de cartaz ao fim de umas semanas e nada.»

[in O Lago, de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, 2011]

Primeiros parágrafos

«Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.»

[in Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, Quetzal, 2011]

Primeiros parágrafos

«Foi na Primavera de há três anos, no princípio da crise que abalou este lado do mundo, que visitei a terra onde mataram Catarina Eufémia. Aconteceu por acaso; foi também por acaso que, nessa mesma viagem, ouvi falar pela primeira vez do homem que saltara do topo de um edifício com um manuscrito amarrado ao peito. Naquela altura, estas duas figuras – tão distantes no tempo e na geografia, porém tão próximas naquilo que incompreensivelmente as acabou por unir – diziam‑me menos do que nada. Começarei por aí. Nesses tempos, dificilmente a história de um mártir me suscitaria interesse ou, o que é mais exacto e verdadeiro, dificilmente qualquer história que não fosse a minha me suscitaria interesse; era também exacto e verdadeiro que eu andava adormecido – num sentido quase literal do termo –, uma vez que a vida decorria na sua boçal normalidade: a minha carreira ainda tinha importância, o meu pai ainda não enlouquecera e eu ainda não compreendera nada, isto é, ainda não me dera conta de que a nossa existência era indissociável da memória dos mortos. Também desconhecia que, paradoxalmente, só ignorando os mortos poderíamos passar incólumes por esta vida, uma vez que, ao procurar resgatá‑los, eles acabariam por assombrar o resto dos nossos dias. Naquele tempo, portanto, tudo era mais simples porque eu me esquivava a despertar e, talvez por isso – porque qualquer despertar é doloroso e nos obriga a ver e porventura a tentar compreender a realidade –, não podia sequer desconfiar da maneira como Catarina (e a sua história confusa, cruel e fascinante) seria, ao mesmo tempo, a origem da minha libertação e de todos os meus equívocos.»

[in Anatomia dos Mártires, de João Tordo, Dom Quixote, 2011]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges