Imagens da Feira

Coincidências

No mesmo eléctrico em que vi um senhor a memorizar caracteres chineses, calhou ler esta passagem do romance The Sisters Brothers, de Patrick DeWitt: “I opened a window and leaned out into the salty air. The hotel was located on a steep incline and I watched a group of Chinese men, in their braids and silk and muddy slippers, pushing an ox up the hill. The ox did not want to go, and they slapped its backside with their hands. Their language was something like a chorus of birds, completely alien and strange, but beautiful for its strangeness.”

Quando eu quis ouvir Umberto Eco e não me deixaram

Umberto Eco foi hoje convidado para o Sofá Azul, na Feira do Livro de Frankfurt. As perguntas eram feitas em alemão, por um jornalista alemão. O escritor respondia em italiano, mas o som da sua voz era quase imperceptível. Através das colunas de som, viradas para o público (numeroso), só se ouvia a tradução simultânea… em alemão. Ao fim de cinco minutos, fui-me embora. Eu e uma parte significativa dos espectadores.

As más notícias chegam a todo o lado

Ontem, estávamos nós a jantar num restaurante chamado Utopia (nome que logo se tornou tristemente irónico) quando da pátria chegaram relatos apocalípticos sobre o discurso à nação do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. À distância, pareceu-nos ouvir distintamente o som de um país em colapso. E ficámos com pena de não poder antecipar o regresso, porque queríamos mesmo muito chegar a tempo da grande manifestação de amanhã.

Secretário de Estado da Cultura garante que o orçamento da DGLB vai ser duplicado

Durante a visita ao stand da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, ontem à tarde, Francisco José Viegas declarou ao Público que a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) reforçará a política do livro com um aumento da dotação orçamental da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas “seguramente superior a 100 por cento“, embora não se possa para já quantificar o montante. O reforço servirá para pagar dívidas aos municípios relativamente a bibliotecas e para apoio à tradução de obras de autores portugueses no estrangeiro.

Representação portuguesa em Frankfurt

Os Booktailors já a documentaram fotograficamente no seu blogue, não vale a pena estar aqui a chover no molhado.

Imagens da Feira

O melhor título para um debate com que me deparei em muito tempo

Of literary bastards with their roots in the air. Aconteceu ao fim da manhã, num recanto relativamente obscuro do Hall 4.

A conta-gotas

Eis as duas principais dificuldades de um blogger na Feira de Frankfurt: escasso e incerto acesso à internet; manifesta falta de tempo (ou blogas ou deambulas pelos imensos pavilhões). A actualização prosseguirá portanto em ritmo lento. É pouquinho, bem sei, mas é o que se pode arranjar.

Errata

Onde se lê Jesus, leia-se Dan Brown.

O futuro

No eléctrico em que viajo para a Feira, um senhor bem vestido ia encostado à janela, concentradíssimo na leitura de um livro de capa clara. Olhava fixamente para as páginas durante 15 segundos, depois fechava o livro, contemplava o tecto da carruagem, murmurava qualquer coisa muito baixinho, voltava a abrir o livro, a olhar fixamente para as páginas durante 15 segundos, a fechar o livro, a contemplar o tecto da carruagem, a murmurar qualquer coisa muito baixinho, etc. Quando se preparou para sair, vi finalmente o título da obra: Learning Chinese Characters.

Um vislumbre da exposição da Islândia (país convidado da Feira de Frankfurt)

Não há livros, há leitores (projectados em ecrãs gigantes, na solidão silenciosa da leitura).

A ‘baleia’ branca

Por fora:

Por dentro:

Aqui de Frankfurt

Pelo que me dizem, há muito menos gente na Feira do que nos últimos anos. Menos editores, menos agentes literários, menos pessoas a percorrem os intermináveis pavilhões. É a crise, em todo o seu negro esplendor.
Ainda assim, para quem aqui chega pela primeira vez, como eu, o gigantismo da Feira impressiona. Só o centro de imprensa, uma espécie de baleia estilizada, branquíssima por fora e por dentro, é maior do que muitos centros de exposições que já visitei noutros lados. Pena é que as ligações à internet wireless estivessem todas em baixo durante a manhã (problema entretanto resolvido com a proverbial eficiência germânica).
Uma visita à APEL e já me cruzei com vários editores veteranos: Zeferino Coelho (Caminho), Vasco Teixeira (Porto Editora) e Carlos Veiga Ferreira (Teodolito).
Foi justamente Veiga Ferreira a dar-me a primeira notícia digna de nota desta Feira, no que aos livros comprados para Portugal diz respeito. «Quer saber uma coisa em primeira mão?», atirou-me. «Então cá vai: acabo de comprar o próximo romance do Enrique Vila-Matas, que ele entregou agora ao editor espanhol e deve ser publicado em Espanha na Primavera de 2012.» Título: Aire de Dylan (Ar de Dylan). Bob Dylan, entenda-se. «Eu ainda perguntei se não seria o Dylan Thomas», diz CVF, «mas não, parece que ele se está mesmo a referir ao cantor».

PS – O tradutor do novo livro de Vila-Matas, Jorge Fallorca, adiantou entretanto, nos comentários a este post, que o título vai ser À Dylan. Pinta de Dylan também não ficaria mal.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges