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Maravilhas da paternidade

Alice – Pai, hoje na escola aprendi uma letra nova.
Eu – Ai, sim? Qual?
Alice – O ‘b’.
Eu – Então diz lá uma palavra começada por ‘b’.
Alice – Batata.
Eu – Boa. E mais?
Alice – Bibe… Hmmm… Barco… Hmmm… Bola… Hmmm…
Pedro – BERTRAND!

Bicentenário de Dickens

A imprensa britânica esmerou-se a preparar excelentes dossiers sobre Charles Dickens, no dia em que se assinalam os 200 anos sobre o seu nascimento. Vale a pena navegar pelas páginas do Guardian ou do Telegraph e verificar como o autor de Great Expectations ainda mantém o estatuto de clássico absoluto no Reino Unido.

Rui vs. Fernão


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É já daqui a nada.

Hatchet Job of the Year

Ou, numa tradução livre, a machadada do ano. Eis um prémio curioso, atribuído ao «autor da crítica literária mais zangada, divertida e cáustica dos últimos doze meses» (no universo da língua inglesa, entenda-se). De entre os oito finalistas, será hoje anunciado o vencedor, que terá direito a um fornecimento anual de camarão enlatado (não é piada).
Em Portugal, parece-me evidente que o prémio iria parar às mãos de Rogério Casanova, pelo seu trabalho no suplemento ípsilon e na revista Ler, ao mesmo ritmo a que as Bolas de Ouro de melhor futebolista do ano vão parar às mãos de Lionel Messi.

Olhando para a banca dos jornais, esta manhã

Por momentos, tive a sensação de que alguém no jornal A Bola leu o meu post de ontem:


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A manchete tem punch, sim senhor. Só é pena não fazerem o mesmo que costumam fazer quando o Benfica se diz prejudicado pelas arbitragens. Impunha-se uma menção ao facto de o penalty assinalado contra o Sporting não existir (a falta foi fora da área) e ao facto de um verdadeiro penalty contra o Gil Vicente não ter sido assinalado (com respectiva expulsão), o que condicionou claramente o rumo do jogo. Mas isso seria pedir demais, não é?

Quatro poemas de João Miguel Henriques

HOCHGOBERNITZ (SEGUNDO THOMAS BERNHARD)

os primeiros assomos de loucura
trazem a destruição dos campos todos.
no traço inculto das coutadas
mingua a vida
repousam as alfaias

dos quartos vazios de gente
das terras vazias de tudo
sobram apenas muralhas
(ninguém se lembra)

há um prenúncio de tragédia
capaz de vergar os dias
aos trabalhos dolorosos

é o triunfo das gerações
sobre a antiga casa paterna
somente um reflexo de luz
um declínio inteiro

quando saio do quarto onde moro
e venho às muralhas
lembrar-me das coisas
reparo que as chuvas de inverno
vieram aqui para ficar

***

O DIÁRIO

o pai diz que aqui o tempo pára
e aqui (eu sei) o tempo pára mesmo.
não corre já pela azinhaga
a célere aragem carregada de tempo

encontrei o diário dela na quarta-feira
as pálidas notas de adolescência, amiúde enfadonhas.
recordo como ela dizia, não quero que o leias,
o pai diria: não, não lhe leias o pálido diário
não despertes com essa leitura aqui a corrida do tempo

há-de repousar esse caderno
entre outros livros de memórias:
proust e o seu tédio de morte
e também ashberry, codificado pelo dia absurdo

não deixarei pai por um segundo
que o tempo vá veloz pela azinhaga

***

A CASA FRIA

já cosi as duas faces do poema
as duas estâncias
com as palavras da casa fria

disse à mulher que viesse
que acorresse à casa fria
e agora já dobrei a folha ao meio
e uni as metades da casa
com um ponto de costura

***

BIBLIOTECA NACIONAL

infeliz esta coisa dos livros todos
e todos muito juntos uns aos outros
abstracta matéria
e lamacenta
de querer dizer coisas por livros
e neles ler o ror das coisas todas
estupenda empresa
e opulenta
a reunião de livros em grandes casas
e ter lá dentro gente que os leia
penosa façanha esta
já quase medonha

[in Isso Passa, Artefacto, 2011]

A incrível história de Léo do Peixe


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Um pescador do rio São Francisco, no Brasil, lembrou-se certo dia de criar um Clube da Leitura junto à banca onde vendia o seu peixe. Sete anos depois, «já somava mais de 15 bibliotecas populares e um acervo de 20.000 livros doados para empréstimo gratuito à população». Leonardo da Piedade Diniz Filho, 47 anos, mais conhecido como «Léo do Peixe», morreu esta semana, vítima de enfarte. Fica a sua obra: o exemplo de quem disponibilizou, para os outros, dois bens essenciais (alimentação e cultura).

Desejo para logo à noite

Que o Gil Vicente não encene, em Alvalade, o Auto da Barca do Inferno.

Força, força, companheiro Vasco

Nisto, pelo menos, estamos completamente de acordo.

O que aí vem (Saída de Emergência)

Branco, de Rosie Thomas; Campos da Morte, de Simon Scarrow; Mago – Trevas de Sethanon, de Raimond E. Feist; Rios de Prata, de R.A. Salvatore.

Bibliotecas pornográficas e pornografia nas bibliotecas

Um tema com muito que se lhe diga, como se depreende deste artigo na Paris Review.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- A super-realidade, de Rui Pires Cabral (Língua Morta, 2.ª edição, revista), por António Guerreiro
- As Coisas, de Inês Fonseca Santos (Abysmo), por Pedro Mexia
- Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques (Abysmo), por José Mário Silva
- Diálogo sobre a Ciência e os Homens, de Primo Levi e Tullio Regge (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
- História do Pensamento Político Ocidental, de Diogo Freitas do Amaral (Almedina), por Luís M. Faria

Cinco cartas inéditas de Julio Cortázar

Para Aurora Bernárdez, Victoria Ocampo, Francisco Porrúa, Juan Carlos Onetti e Ofelia Cortázar (irmã). Leiam-nas no blogue de Eduardo Coelho.

“It’s not everyone who gets to be Cormac McCarthy”

O escritor escocês (ainda não publicado) que criou na semana passada uma conta falsa do Twitter em nome de Cormac McCarthy, um dos mais recatados escritores americanos, explica em entrevista à The Atlantic Wire como viveu a experiência de colocar-se na pele do seu ídolo literário.

Primeiros parágrafos

«1 de Fevereiro de 1937. Veio ao mundo, para o provocar e descompor, Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco. Nascida num rés‑do‑chão da Rua Guerra Junqueiro, número 118, cidade de Coimbra, a criatura trazia, no projecto de homem que ainda era, duas geografias bem distintas e distantes inscritas no mapa familiar. O avô materno, Santiago Doallo Álvarez, era um galego da aldeia de Melias, Ourense. O paterno — também Fernando, também Assis, também Pacheco — havia sido, durante décadas, roceiro em Nova Olinda, São Tomé.
Ambos marcaram o petiz, mais tarde empenhado em refazer os roteiros familiares através da criação literária. As raízes galegas ficaram, sabemo‑lo, consagradas no célebre Trabalhos e Paixões de Benito Prada, assumidamente banhado em ambiente camiliano. O romance sobre o avô de São Tomé começou a ser escrito mas, com a morte prematura de Assis Pacheco, ficou, pelo interesse da história (a revelar adiante), à espera de ser reinventado por outra mão da família.»

[in Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, de Nuno Costa Santos, Tinta da China, 2012]

O que aí vem (Temas e Debates)

Informação, de James Gleick; As Dívidas Ilegítimas, de François Chesnais; A Costa dos Tesouros, de Mónica Bello; A Antropologia Face Aos Problemas dos Mundo Moderno, de Claude Lévi-Strauss.

Logo à tarde, no Nimas


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Quatro poemas de Fernando Assis Pacheco

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

***

COM A TUA LETRA

Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

***

MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

***

F.A.P. FECIT

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste

*

Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

*

E não sublinhem o que não escrevi

*

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde

[in A Musa Irregular, ASA, segunda edição, 1996]

F.A.P., 75 anos

O grande Fernando Assis Pacheco, se fosse vivo, faria hoje 75 anos.

‘Portugal’ ganha prémio em Angoulême

A novela gráfica Portugal, de Cyril Pedrosa (editada pela Dupuis), ganhou o Prix de la BD FNAC no último Festival de Angoulême. Eis um texto sobre o livro no P3. E o booktrailer:

O que aí vem (Presença)

Dolce di Love, de Sarah-Kate Lynch; Raposas Inocentes, de Torey Hayden; Scarpetta, de Patricia Cornwell; Do Lado de Cá do Mar, de Philip Graham; Sociologia Geral – A Organização Social, de Guy Rocher; O Pequeno Livro das Boas Maneiras à Mesa, de Christine Coirault; Amor Monstro, de Rachel Bright.

Correntes d’Escritas: apresentação do programa na quinta-feira

A apresentação do programa completo da edição deste ano das Correntes d’Escritas acontecerá no dia 2 de Fevereiro, a partir das 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, na Póvoa de Varzim.

Desinfestação

Durante as últimas semanas, um «bug no sistema de caching» fez com que o feed deste blogue deixasse de funcionar. Entretanto, o deus ex machina Paulo Querido resolveu o problema. Fica o registo e o pedido de desculpas aos muitos leitores que me escreveram queixando-se de não receberem notícias do BdB pelas vias habituais.

Revista ‘Ler’, n.º 110

Amanhã nas bancas.
Excerto da crónica que publico neste número, sobre Fernando Assis Pacheco:

Assis morreu à porta da Buchholz, de repente. Vinha a sair, feliz, com um saco de livros comprados após a sua habitual ronda pelas novidades editoriais. Meses mais tarde, uma associação de existência efémera (chamava-se Locomotiva Azul) organizou uma homenagem ao Assis no Bairro Alto, numa tasca, como tinha de ser. Uns dias antes, aproveitando a estadia em Lisboa de Gonzalo Torrente Ballester, fui ao hotel onde se hospedava o escritor galego recolher um depoimento de viva voz, para ser ouvido na homenagem. Recordo-me perfeitamente de Don Gonzalo, no silêncio sábio dos seus oitenta e muitos anos, à procura das palavras certas. Ficou quieto, as mãos tremendo ligeiramente, olhos fechados atrás das lentes espessas de míope. Por fim, pigarreou e disse: «Morreu numa livraria não foi? Então teve a morte mais bela a que um escritor pode aspirar. Morreu junto aos livros, no seu posto, como o soldado morre no campo de batalha.»

O quarto de Virginia Woolf, por Annie Leibovitz


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Fotografia captada por Leibovitz na casa da escritora, perto de Charleston (Inglaterra), para o seu mais recente projecto (Pilgrimage), uma série de imagens digitais, intimistas e sem celebridades, agora exposta no Smithsonian American Art Museum (e que também inclui um grande plano do único vestido de Emily Dickinson a sobreviver à usura do tempo).

FNAC retirou exemplo ‘Maias/Meyer’ da sua campanha promocional

Ao compreender a dimensão da polémica em curso, a FNAC foi rápida a pedir desculpa pelo seu monumental tiro no pé e a retirar o infeliz exemplo ‘Maias vs. Meyer’ da sua campanha de trocas de livros, CDs e DVDs usados por novos. Tudo feito, diga-se, by the book.

Prémio Luís Miguel Nava para Helder Moura Pereira

O Prémio de Poesia Luís Miguel Nava relativo ao biénio 2009/2010, no valor de cinco mil euros, acaba de ser atribuído ao livro Se as Coisas Não Fossem o que São, de Helder Moura Pereira (Assírio & Alvim). O júri fixo, composto pelos quatro directores da Fundação Luís Miguel Nava (Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Luís Quintais), a que se soma um elemento convidado (desta vez o professor, poeta e crítico Fernando J. B. Martinho), decidiu por unanimidade.

O efeito Streisand segundo a FNAC

Afinal sempre existe uma explicação para o desaparecimento dos posts no Facebook que criticavam a estapafúrdia promoção da FNAC, segundo a qual vale a pena trocar Os Maias do Eça pelos vampiros da Stephenie Meyer. Retirada a foto em causa, por quem a colocou primeiro no seu perfil do FB, ela desapareceu automaticamente de todos os perfis que a partilharam. A questão, como uma leitora recorda nos comentários do post anterior, é que «faz parte do código de conduta implícito do FB não apagares um post que tem várias partilhas e comentários. Não deixa de ser uma espécie de censura. E utilização das pessoas: vocês, leitores e “amigos”, interessam-me enquanto partilharem aquilo que me interessa a mim, depois disso, tiro-vos o tapete e deixo-vos a fazer figura de parvos». Ou seja, estamos perante mais um exemplo do Efeito Streisand. Ao querer eliminar um foco de polémica, a FNAC só aumentou (mais ainda) a indignação dos internautas.

Trocar os Maias pela Meyer


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Esta é provavelmente a campanha promocional mais absurda e abstrusa que uma livraria alguma vez levou a cabo em Portugal. Troque uma obra-prima da literatura portuguesa, um clássico maior das nossas letras, pelo lixo vampiresco de uma best-seller americana de 17.ª categoria. Eis o que sugere a FNAC, outrora uma loja onde se podia encontrar uma escolha criteriosa de boa literatura (ainda me lembro das generosas bancadas de poesia), hoje reduzida a uma espécie de fast-food cultural.
Nas redes sociais, a campanha absurda e abstrusa foi rapidamente fustigada (e muito bem), com muitas pessoas a sugerirem outro tipo de troca: a da FNAC por uma das boas livrarias independentes (enquanto não fecham). Acontece que parte desses protestos desapareceu de ontem para hoje, como por magia. Muitas das partilhas críticas da fotografia que ilustra este post foram simplesmente removidas do Facebook. Deve haver uma razão técnica para este apagão das críticas à FNAC. É bom que haja e que seja explicada rapidamente. Caso contrário, estamos diante de um movimento de censura que nos obrigará não só a trocar a FNAC por livrarias decentes (o que no meu caso já acontece há muito tempo) mas também a trocar o Facebook por redes sociais em que apagões destes não sejam possíveis.

Rota das Letras

O Festival Literário de Macau começou hoje e acaba no próximo sábado. O programa pode ser consultado aqui.

Três poemas de Inês Dias

ÁGATA

Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado da maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.

***

ET NUNC MANET IN TE

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

***

NOSTALGHIA

Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
de igreja abandonada.
O céu, nessa tarde,
era um leque de lantejoulas
ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.

[in Em Caso de Tempestade este Jardim Será Encerrado, Tea for One, 2011]

Maurice Sendak vs. Stephen Colbert

Uma entrevista hilariante, em que Sendak dá baile a Colbert (e também uns blurbs).

PS – Um dos vídeos está invertido, eu sei, mas foi o único que consegui encontrar com a segunda parte da conversa.

Um escândalo

Tudo o que a Sara Figueiredo Costa descreve neste post é, em si mesmo, um escândalo. Mas o pior é que não se trata de um caso isolado. Histórias destas multiplicam-se, na imprensa e no mundo editorial, a um ritmo assustador. Os freelancers, ao mesmo tempo que pagam cada vez mais impostos e contribuições para a Segurança Social, não só vêem baixar os montantes pagos pelo seu trabalho (por exemplo, paga-se hoje por uma recensão literária um terço do que se pagava há dez anos) como ainda têm nalguns casos de esperar indefinidamente por esses miseráveis pagamentos.
A situação está a atingir proporções gravíssimas e temo que possa piorar. Por isso, é urgente que os empregadores compreendam que há limites que simplesmente não podem ser ultrapassados. A decisão da Sara e da Andreia não revela apenas coragem e dignidade. É um grito de alerta e um aviso de que as pessoas não estão dispostas a serem tratadas como lixo.
Bravo, Sara. Bravo, Andreia.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Círculo Vicioso, reportagem sobre as dificuldades por que passam os pequenos e médios editores, por António Guerreiro
- Os Malaquias, de Andréa Del Fuego (Círculo de Leitores), por José Mário Silva
- Como Estamos Famintos, de Dave Eggers (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
- O Lago, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
- Amor Livre e outras histórias, de Ali Smith (Quetzal), por Pedro Mexia
- O Epigrama de Estaline, de Robert Littell (Civilização), por Hugo Pinto Santos

O que aí vem (Porto Editora)

Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero; Uma Fazenda em África, de João Pedro Marques; Às Vezes o Mar Não Chega, de Sofia Marrecas Ferreira; O Cerco de Krishnapur, de J. G. Farrell; Últimas Notícias do Sul, de Luis Sepúlveda e Daniel Mordzinsky.

‘Modernista’, n.º 2

O segundo número da revista do Instituto de Estudos sobre o Modernismo (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova) já está disponível online, com os artigos em pdf. Destaque para o dossier sobre ‘Álvaro de Campos e arredores’.

Kafka na Achada


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Quatro poemas de Inês Fonseca Santos

AS COISAS

São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas.

***

AS COISAS DO CORPO

Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.

***

AS COISAS NAS PONTAS DOS DEDOS

Cortam os vasos, as veias. Minúsculas,
as coisas nas pontas dos dedos
são feitas de vidro partido.
Invisíveis aos olhos, levam com elas
as nossas impressões
digitais.

***

AS COISAS FRÁGEIS

Pegava-te no nome como no aquário
verde, quando era ainda cidade de peixes –
bichos de alimento diário e morte mensal,
silenciosa, sem desgosto ou pânico,
indiferente à vida. (As nossas, as deles.)
Hoje caminho, como todas as manhãs, com a tua existência
nas mãos (na cabeça, nos pés), seguro-a como coisa frágil,
quebradiça – coisa morta do dia em que morreste.

Recordo apenas o pássaro. Tinha no nome ruivo
e no bico o som atenuado de uma canção.

[in As Coisas, Abysmo, 2012]

O que aí vem (Planeta)

Os Segredos da Maleta Vermelha, de Alexandra Leal e Paulo Cosme Pinto; Cascos, talos, folhas e outros tesouros nutricionais, de Alexandre Fernandes; Manual para não Morrer de Amor, de Walter Riso; Um Erro Inconfessável, de Emma Wildes.

Prémio Fundação Inês de Castro para Gonçalo M. Tavares

Depois de ter sido distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e com o Prémio Fernando Namora, o romance Uma Viagem à Índia (Caminho), de Gonçalo M. Tavares, acaba de ganhar o Prémio Fundação Inês de Castro. Do júri fizeram parte José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia. Fernando Echevarría, de 82 anos, recebe um Tributo de Consagração pelo conjunto da obra literária.
A entrega do prémio será feita a 4 de Fevereiro na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges