Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- Cardeal Cerejeira – O Príncipe da Igreja, de Irene Flunser Pimentel (A Esfera dos Livros), por José Pedro Castanheira
- Registo Civil, de Carlos Alberto Machado (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
- Eça de Queiroz – Uma Biografia, de A. Campos Matos (Afrontamento), por Álvaro Manuel Machado
- A Maçonaria e a Implantação da República, coordenação de Alfredo Caldeira e António Lopes (Fundação Mário Soares/Grémio Lusitano), por António Valdemar
- Crónica de Wapshot, de John Cheever (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Junia ou a Justiça de Trajano, de Theresa Schedel (Presença), por Luísa Mellid-Franco
- A Leitora Real, de Alan Bennett (ASA), por José Guardado Moreira
- Ilusão (ou o que quiserem), de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote), por Hugo Pinto Santos
- O Homem que era Quinta-Feira, de G. K. Chesterton (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Dois poemas de Tatiana Faia
ficas onde outrora caminhaste mar dentro
guardaste uma impressão clara de areia
movendo-se sobre os pés
por vezes a água como pequenas esquinas
ferindo o ponto onde
te descalças e moves
contagiam-te depressa cores escuras
as noites ancoradas de portos em corinto
o preto e o cinzento azulado
que fica do hábito de endoidecer
por entre traves passa a madrugada
encho de passos lugares onde já estiveste
torno a caminhar para fora dos limites da cidade
nas primeiras madrugadas de Outono
vou endoidecendo à espera de um fio de voz
que venda o regresso à hora do labirinto
***
escrevo o teu lugar nas palmas das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amas e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno
sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos
no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse
[in revista Ítaca, n.º 1, Fevereiro de 2010]
Ouro fosco, cereja amarga
Foi quase. Sempre o quase. Com uma defesa remendada e sem ritmo (face a um Agüero em grande forma), mais o Izmailov de fora (logo ele, o motor da equipa), a passagem aos quartos-de-final pareceu-me desde logo dependente de um milagre. E ia quase acontecendo, o milagre. Quase, sempre o quase.
Vale-me o McEwan, que é muito bom e vou continuar a ler, não sem antes dar os parabéns, merecidos, aos meus amigos benfiquistas.
Um milhão de page views
Mais do que meta ou desígnio, é um número redondo. O BdB ultrapassou-o esta madrugada. A todos os leitores do blogue – aos fiéis, aos ocasionais e até aos acidentais – o meu agradecimento. Para comemorar, vou pôr-me a ler o novíssimo romance de Ian McEwan, ainda em pdf (bendito Sony Reader). E logo à noite espero assistir – ouro sobre azul, cereja no topo do bolo – à vitória por 5-0 do Sporting sobre o Atlético de Madrid. Nada de outro mundo: basta repetir o resultado do jogo contra o Manchester United, há precisamente 46 anos.
O que aí vem (ASA)
Em Abril: A Casa do Sono, de Jonathan Coe; A minha vida com Osama Bin Laden, de Najwa Bin Laden (mulher de Osama), Omar Bin Laden (filho) e Jean Sasson; Uma Terra Distante, de Daniel Mason; No país das últimas coisas, de Paul Auster (reedição); e Maridos, de Ángeles Mastretta.
Pós-Bolaño
Não me irrita que O Terceiro Reich seja tão bom (e estranho, e desesperante, e incompreensível). Irrita-me que Bolaño, quando o escreveu, fosse mais novo do que sou hoje (uma irritação que já tive muitas vezes, com outros autores, e vou logicamente ter cada vez mais).
Daqui a nada

Árvores simbólicas

Os jurados do Man Booker Prize 2009 plantaram ontem 13 pinheiros na floresta de Heartwood, um por cada livro da longlist do prémio que viria a ser atribuído a Wolf Hall, de Hilary Mantel. O gesto corresponde a uma compensação simbólica pelas muitas árvores caídas «in order to produce the hundred-plus books submitted for the prize each year».
Entretanto, o romance de Mantel sobre Thomas Cromwell continua em alta. Depois do Reino Unido, está a triunfar nos EUA, onde ganhou no final da semana passada o National Book Critics Circle Award, na categoria de ficção.
O que aí vem (Dom Quixote)
Em Abril: Os Íntimos, de Inês Pedrosa; Toda uma Vida, de Henrique Monteiro; Tanta Gente em Mim, de Vítor Serpa; Os Dias e os Anos – Diário 1970-1993, de Marcello Duarte Mathias; Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin; Zona, de Mathias Enard; As Flores do Inferno e Jardins Suspensos, de Maria Alzira Seixo; Alegrias e Tristezas no Trabalho, de Alain de Botton.
Ninguém pertence aqui mais do que ela
Como se pode comprovar ali em baixo, há escritoras que não se poupam a esforços para promover os seus livros. Ao ver a performance de Paula Parisot, um leitor do BdB lembrou-se de Miranda July, que em 2007 não chegou ao ponto de se fechar numa caixa de acrílico mas inventou, para o seu livro de contos No one belongs here more than you (Scribner), um conceito online bastante original, que a fez escrever em superfícies bizarras (a começar pela parte de cima do frigorífico e a acabar no espaço entre os bicos do fogão). Nada de mais, diga-se, para uma autora que não só deu entrevistas sobre o seu livro como entrevistou o seu livro (isto é, falou com ele; conferir o vídeo, delicioso na sua infantilidade absurda, aqui).
Teaser

Rejubilai, ó gentes: o novo romance de Ian McEwan chegará aos leitores portugueses ao mesmo tempo que aos leitores ingleses e norte-americanos.
Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho para Vítor Aguiar e Silva
A direcção da Associação Portuguesa de Escritores emitiu, hoje, o seguinte comunicado:
«O Grande Prémio de Ensaio “Eduardo Prado Coelho” foi atribuído, pela primeira vez, ao livro Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia, de Vítor Aguiar e Silva (Angelus Novus). O júri, ontem reunido, e que deliberou por unanimidade, foi constituído por António Pedro Pita, José Cândido Martins e Paula Cristina Costa.
Este prémio, no montante de sete mil e quinhentos euros, foi instituído pela Associação Portuguesa de Escritores, com o patrocínio da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. Distingue, anualmente, uma obra de ensaio literário, publicada em livro.
A data da cerimónia de entrega será divulgada oportunamente.»
Workshop de tradução em Vila do Conde
Até sexta-feira, decorre na Biblioteca Municipal José Régio (BMJR), em Vila do Conde, um workshop de Tradução de Poesia com os seguintes poetas: Arvis Virguls (Letónia), Sonata Paliulyte (Lituânia), Ivan Strpka (Eslováquia), Petr Borkovec (Rep. Checa), e os portugueses Daniel Jonas, Jorge Melícias, Luís Filipe Cristóvão, Maria Sousa e Nuno Brito. Uma organização da Literature Across Frontiers e da BMJR, com colaboração de valter hugo mãe.
Durante o workshop, Luís Filipe Cristóvão escreverá, no seu blogue, um «diário de vila do conde».
‘Os Meus Livros’ fecha as portas
A quebra na publicidade e a estagnação das vendas ditaram o fim da revista dirigida por João Morales. Ou seja, fica ainda mais estreito o espaço disponível para falar de livros na imprensa portuguesa. O que não é mau. É péssimo.
Nem de propósito, o tema do número de Março (o último) é “Glória Póstuma”:

Uma corrente de tweets
JoseMarioSilva @Blogtailors Pronto, Paulo. Já fiz o copy/paste. Convém só avisar as pessoas que devem começar a ler isto não pelo princípio, mas pelo fim.
less than a minute ago from web
Blogtailors Não me parece mal. Mas talvez “Uma corrente de tweets” fique melhor. PF
2 minutes ago from web
Manuela_Ribeiro E o título sempre fica “Corrente de Tweets”?
3 minutes ago from web
JoseMarioSilva @Blogtailors Nem cinco minutos, Paulo. Uns dois. Três, no máximo.
4 minutes ago from web
Blogtailors Por mim, tudo bem. Desde que o texto venha no máximo dentro de cinco minutos. PF
5 minutes ago from web
Manuela_Ribeiro Corrente de tweets é uma expressão engraçada. Até podia ser o título.
5 minutes ago from web
JoseMarioSilva OK. Então fazemos assim. O texto é este. Quer dizer: este thread de tweets. Esta corrente de tweets. Pode ser?
6 minutes ago from web
Blogtailors @JoseMarioSilva Qual é a parte da palavra deadline que não percebes? Não tarda muito, explicar-te-ei com gosto o significado de “dead”. PF
7 minutes ago from web
Manuela_Ribeiro Mas tu não aprendes, Zé Mário? Já com a foto e a minibiografia que te pedimos foi a mesma coisa. Um castigo até enviares os ficheiros.
8 minutes ago from web
JoseMarioSilva @Blogtailors Está quase, está quase. Está mesmo quase.
9 minutes ago from web
Blogtailors Tanta coisa, tanta coisa, mas a verdade é que ainda não recebi o texto e a B:Mag tem que fechar. Em que é que ficamos? PF
10 minutes ago from web
JoseMarioSilva @OnesimoTA Essa também é uma boa ideia. Com um defeito: só vejo o Onésimo a passá-la para o papel com o humor e a ironia no ponto certo.
12 minutes ago from web
JoseMarioSilva @Fantasma_de_Bolaño Conseguir isso seria muito bom. Mas se não tenho unhas para a ideia do Ondjaki, menos ainda teria para a sua.
13 minutes ago from web
OnesimoTA Eu por mim fazia uma coisa que fosse só uma sucessão de histórias engraçadas, anedotas, conversas de corredor. Resulta sempre.
15 minutes ago from web
Fantasma_de_Bolaño Isto aqui é só conversa fiada. Coragem, coragem, era escrever o texto do meu ponto de vista. O ponto de vista de quem nunca lá esteve.
17 minutes ago from web
JoseMarioSilva @Ondjaki Fica com ela, Ondjaki. Eu não teria unhas para essa guitarra.
19 minutes ago from web
Ondjaki @JoseMarioSilva Não dizes nada? Olha, se não gostas da ideia, deixa estar. Fico eu com ela.
21 minutes ago from Echofon
Fantasma_de_Borges @JoseMarioSilva Um saque, é o que é. Já não há respeito.
22 minutes ago from web
JoseMarioSilva @Fantasma_de_Borges Eu diria antes uma homenagem.
23 minutes ago from web
Fantasma_de_Borges @JoseMarioSilva Vá chamar caríssimo mestre a outro. Sei muito bem que anda para aí a passar-se por Bibliotecário de Babel. Um descaramento.
23 minutes ago from web
JoseMarioSilva @Fantasma_de_Borges Isso são ciúmes? Olhe que não lhe fica bem, caríssimo mestre.
24 minutes ago from web
Fantasma_de_Borges Não percebo esta atenção toda que dão aos novatos. O rapazito Bolaño tinha talento, sim, mas houve quem viesse antes dele.
25 minutes ago from web
Ondjaki @JoseMarioSilva Então e se fizesses uma cena assim toda em verso? Uma espécie de epopeia lírica das Correntes? Parece-te bem?
27 minutes ago from Echofon
FranciscoJViegas @Fantasma_de_Bolaño Parece que sim, caro fantasma. Embora preferisse tê-lo conhecido em carne e osso.
29 minutes ago from web
Daniel_Mordzinski @jpcuenca Gatinhas caminhando no Calçadão interessam-me. Tens o número de telefone de alguma?
31 minutes ago from web
Fantasma_de_Bolaño Ouvi dizer que vou pairar sobre a próxima edição das Correntes. É verdade?
32 minutes ago from web
jpcuenca @JoseMarioSilva Nada disso. Basta vestir a camiseta do Flamengo e dar uma espreitada, da janela, às gatinhas caminhando no Calçadão.
33 minutes ago from Echofon
JoseMarioSilva @jpcuenca E passa como? Álcool, cafeína, estupefacientes?
35 minutes ago from web
FranciscoJViegas RT @Manuela_Ribeiro: “As minhas memórias são as dos outros”. Vou já anotar. Pode muito bem vir a ser o tema de uma das mesas, em 2011.
35 minutes ago from web
jpcuenca Eu sei bem o que você sente, Zé Mário. Às vezes, na hora de botar a crónica para fora, também fico assim meio vazio. Mas passa logo.
36 minutes ago from Echofon
JoseMarioSilva Então e as ideias para o texto? Ideias, ideias, ideias. É disso que eu preciso.
37 minutes ago from web
Ondjaki Olá meus irmãos, que saudades de vocês todos. Eu até ajudava mas estou aqui a escrever uns versos junto ao Farol. Já volto.
39 minutes ago from Echofon
Daniel_Mordzinski Já agora, pergunto: há por aí escritores que ainda não tenham sido fotografados por mim? É que vai sendo cada vez mais difícil encontrar um.
41 minutes ago from web
Daniel_Mordzinski Eu acho que para falar das Correntes d’Escritas não são necessárias palavras. A minha máquina e o meu olho chegam.
42 minutes ago from web
FranciscoJViegas @Manela_Ribeiro Boa. É assim mesmo. Nada como adiantar serviço. Desde que não me coloques nessa mesa, tudo bem.
45 minutes ago from web
Manuela_Ribeiro “As minhas memórias são as dos outros”. Até soa bem, não soa? Vou já anotar. Pode muito bem vir a ser um dos temas das mesas, em 2011.
47 minutes ago from web
JoseMarioSilva Pois foi, Francisco. Bela enumeração. Fartei-me de rir.
47 minutes ago from web
FranciscoJViegas O que eu tinha a dizer, já disse ao Diário Digital (http://bit.ly/a28C9l), um texto que aliás citaste no teu blogue, Zé Mário.
48 minutes ago from web
OnesimoTA Olha, desta vez coube tudo. Se calhar é uma questão de jeito.
49 minutes ago from web
Manuela_Ribeiro Francamente, Zé Mário. Então precisas de vir para aqui buscar inspiração? Não te bastam as tuas próprias memórias?
50 minutes ago from web
OnesimoTA Outra vez? COMO SE NOS QUISESSEM CALAR. Não tenho paciência para esta gaita, amigo. Vai ter de se desenrascar sozinho.
50 minutes ago from web
OnesimoTA Então mas isto não dá para escrever nada? Um gajo ainda está a começar a dizer uma coisa e o botão do update fica logo bloqueado como se nos
51 minutes ago from web
OnesimoTA Ó meu amigo, estou sempre disposto a ajudar. E as Correntes lembram-me histórias giras. Como daquela vez que estava no Pico, e vi uma rapari
52 minutes ago from web
JoseMarioSilva Vou escrever um texto sobre as Correntes d’Escritas para a revista B:Mag e ainda não sei muito bem como pegar no assunto. Alguém tem ideias?
about 1 hour ago from web
[Texto publicado no número especial dedicado às Correntes d'Escritas da revista B:Mag, com coordenação editorial dos Booktailors]
Chá Maluco
Lá fomos. E lá viemos para casa com a Alice a crescer e a diminuir e a crescer e a diminuir e a crescer e a diminuir no leitor de CD do nosso carro.

Mafalda Lopes da Costa (à esquerda, de casaco vermelho) lê parte do primeiro capítulo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, no lançamento da versão audiolivro editada pela 101 Noites, de Sandra Silva (à direita, sentada, com uma criança ao colo)

Uma Alice a fazer de Alice, agitando um chá imaginário, sem Lebre de Março por perto (nem leirão), mas com o Chapeleiro Maluco logo atrás

«Eu é que sou o Chapeleiro Maluco», diz o Pedro. Sai da frente, Johnny Depp.
Imagens de Capote
Em Outras vozes, outros lugares, o vendaval de metáforas ameaça por vezes levar tudo consigo: o narrador, as personagens, o tempo da história, a luxuriante paisagem (com os seus pântanos que escondem homens afogados, brilhando espectrais nas águas turvas) e a própria arquitectura romanesca, uma arquitectura que se afunda na terra como a mansão onde Joel Knox desembarca, sem saber que só o esperam quimeras. O excesso metafórico chega a ser sufocante, mas a verdade é que muitas semanas depois de acabar a leitura ainda há imagens daquele universo que pairam na minha cabeça. As cobras-d’água que «deslizando por entre as cordas, criavam melodias nocturnas no piano decrépito do salão de baile», por exemplo. Ou os lírios agitando-se «como mãos fantasmagóricas com luvas de renda».
Variantes, gambitos & etc.
Confirmação de uma tese, na página 214 de O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño (Quetzal):
«”O teu jogo é uma espécie de xadrez, um desporto, não é?” Uma coisa semelhante.»
A necessidade de consolo deles é impossível de satisfazer
Os Têtes Raides, uma das mais interessantes bandas francesas da actualidade, pegaram num texto belíssimo e desesperado do sueco Stig Dagerman (A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, edição portuguesa da Fenda), leram-no em voz alta, musicaram-no e tocaram-no ao vivo. A mim, emociona-me a imagem de um vocalista no meio do palco, de livro em punho. E que livro.
Três poemas de Nuno Júdice
CEIFA
Nos grandes arrozais do sul, as nuvens
de mosquitos escondem o céu. As mulheres
cuja sombra se afunda nos charcos,
quando a tarde cai, enlouquecem
devagar e cantam. Mas os mosquitos voam
à sua volta, e elas batem as mãos como
se fossem leques para se libertarem
dos mosquitos e das sombras, e
escorregam no lodo, enquanto os homens
lhes gritam, da margem, que o arroz
continua por colher. Então, a procissão
das mulheres sai de dentro do pântano, e
os homens caem à sua frente, como
se elas trouxessem nos olhos
a foice que decepa os campos e as vidas,
num fim de tarde em que os mosquitos,
com a sua nuvem de sombra, taparam o céu.
***
NOITE DE TEMPORAL
Pouco importa. As chuvas devastam
o litoral, e os pescadores procuram os barcos
que as enchentes levaram. Um deles gritou
que o levassem para o cimo do monte; e quando ali
chegou ergueu um peixe sobre os ombros, como
se o ar e a água se confundissem
no cimo. Eu estava sentado no banco da única taberna,
e ouvia as mulheres que rezavam; ou talvez não fosse
nenhuma reza: seria, apenas, um ranger
de dentes sobre a ausência dos deuses. Por outro
lado, quando elas me vinham perguntar o que queria,
pedia-lhes um fundo de aguardente no copo da noite. E elas
despejavam-me a garrafa para que a bebesse, até
à última gota. Por fim, saí sem nada que me abrigasse; e
o relâmpago iluminou a baía, os corpos deitados
sob as colunas da praça, e os cães que ladravam
sem que ninguém soubesse porquê.
***
O EFEITO DO CINEMA NA CABEÇA DE QUEM NÃO VAI AO CINEMA
A jean seberg vendia o herald tribune nos filmes
de godard, e eu procurava troco na carteira
para lhe comprar o jornal. Ela dizia-me que
não era preciso dar troco, e eu dava-lhe uma nota
para ela me dar o jornal, e era como se já
o tivesse lido nos seus olhos. A jean seberg
tinha cortado o cabelo para aparecer nos filmes
de godard como um efebo, e quando eu lhe comprava
o jornal era como se ela me dissesse que estava
a comprar uma ambiguidade de sexos, que
não vinha na primeira página do jornal, mas
que eu podia ler nos seus lábios quando ela
me pedia que não lhe desse troco, e eu me limitava
a dar-lhe uma nota para não ter de andar mais tempo
à procura de moedas, o que me impedia de
olhar para os seus olhos onde podia ler a
previsão meteorológica para o próximo milénio,
como se jean seberg fosse o céu sem estações
e no seu rosto se fixasse a eternidade de uma
beleza sem princípio nem fim. Mas isso era
quando a jean seberg aparecia nos filmes do godard,
e quando deixou de aparecer o tempo voltou
ao seu ritmo normal, o herald tribune deixou
de me interessar, e já não precisava de procurar
trocos para comprar jornais que nunca iria ler,
porque o que eu queria ler estava nos olhos
de jean seberg, e eles tinham-se apagado.
[in Guia de Conceitos Básicos, Dom Quixote, 2010]
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- Memórias Vivas do Jornalismo, de Fernando Correia e Carla Baptista (Caminho), por José Pedro Castanheira
- A Revolução no Tempo, de David S. Landes (Gradiva), por Virgílio Azevedo
- O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho (LeYa), por Ana Cristina Leonardo
- O Mundo Alucinante, de Reinaldo Arenas (Dom Quixote), por Vítor Quelhas
- O Braço Esquerdo de Deus, de Paul Hoffman (Porto Editora), por Luís M. Faria
- O Perdão dos Pecados, de Antonio Fontana (Minotauro), por José Mário Silva
A noite da ficção
«(…) Ao contrário de tantos autores, decerto muito mais previdentes do que eu, que optam por conceber de antemão as diversas cenas que hão¬ de estruturar a obra e que as preparam minuciosamente, tendo em conta todos os detalhes que nela deverão figurar, redigindo a primeira versão e a segunda e ainda a terceira, antes de se abalançarem à redacção provisoriamente final, eu procedo desse modo muito mais angustiante que consiste em navegar na noite da ficção sem um mapa definido. O meu ponto de partida, pensei eu, enquanto procurava reflectir sobre o meu processo de construção romanesca, na sequência de ter lido que o tema desta mesa era «Duvido, portanto escrevo», o meu ponto de partida, dizia, é a situação em que as personagens se encontram, uma situação de conflito ou de tensão, o que também me permite imaginar uma ou outra possibilidade de a resolver. Por outras palavras, eu sei onde tudo principia e onde tudo pode acabar, mas ignoro como lá chegar e, pior ainda, nem sei se lá chegarei. Algumas pessoas sensatas e bem informadas sobre estes assuntos da literatura diriam que não se deve começar um livro assim, outras igualmente sensatas e informadas afirmariam que um romance é uma história e que, sem a termos encontrado previamente, não vale a pena começar a ocupar páginas; todas elas terão certamente razão, mas eu nunca me consegui separar da ideia de que um romance não é uma história, ainda que ela possa lá estar, porque um romance não se distingue por aquilo que nele se conta, mas pela forma como nele algo é, ou não, contado, como também sempre me pareceu que construir um texto seguindo as etapas previamente definidas representa quase uma burocratização da arte. Colocando o problema em termos que já foram célebres, diria que, à escrita da aventura, prefiro a aventura da escrita.
Fácil é de perceber como tal caminho é atribulado, uma vez que o escritor, ou o romancista, pois apenas me refiro à construção de ficções narrativas relativamente longas, uma vez que o escritor, dizia, deve fazer escolhas e avançar quase às cegas. A dúvida sobre as opções a que ele deve proceder a cada instante, suscitadas por essa proliferação de caminhos que se abrem diante de si, sem que lhe seja possível tomar uma opção fundamentada, é similar à que Søren Kierkegaard detectou no dilema de Abraão. Para o filósofo dinamarquês, ao receber uma ordem de Deus para sacrificar o seu filho, Abraão viu¬ se colocado numa situação de absoluto isolamento: tendo de escolher entre o seu amor paternal e a devoção ao divino, não encontrava qualquer referência que o pudesse orientar, qualquer modelo que lhe pudesse servir. Posicionado em situação de liberdade total, porque sabe que a escolha lhe cabe apenas a si, o Abraão de Kierkegaard assemelha¬ se ao romancista que avança em estado de permanente confronto interior, que vai compondo um caminho na ignorância da estrada que lhe falta percorrer e dos obstáculos que lhe poderão surgir. A dúvida irá assaltᬠlo em permanência, e as respostas que ele for encontrando poderão ser muito difíceis de explicar, tal como o Abraão de Kierkegaard teria sempre muita dificuldade em explicar os motivos da sua decisão, fosse ela qual fosse. Haveria, é claro, um modo de superar essa dúvida, que consistiria em abarcar todas as possibilidades, em negar a escolha, um pouco à maneira do que fez Alan Ayckbourn num célebre conjunto de peças de teatro, que serviria de base a um não menos célebre par de filmes de Alain Resnais, Smoking e No smoking, que inclui mais de uma dezena de hipóteses de continuação de uma sequência inicial. De resto, já Gonzalo Torrente Ballester, em resposta a um jovem escritor que se queixava da falta de inspiração para escrever um romance, lhe sugerira que se ocupasse dos «possíveis narrativos», ou seja, de todas aquelas possibilidades com que o escritor se confronta quando tem de decidir como deverá prosseguir a narrativa, para, em vez de optar por uma, as apresentar todas, o que haveria de lhe dar trabalho para uma vida inteira. Ainda assim, como o escritor não se libertaria da necessidade de escolher, dado que teria de decidir qual era a possibilidade que apresentava em primeiro lugar e a que apresentava em segundo e assim sucessivamente, o melhor será assumir, na esteira de Derrida, que o momento de decisão equivale a uma suspensão do juízo, a um salto no escuro, porque nunca é possível saber com exactidão qual será a melhor escolha. A escrita, além do mais, é contingente, e a composição de uma página de um romance num determinado dia de manhã é diferente da composição dessa mesma página – que já não será a mesma – num determinado dia de tarde.
Avançar na escuridão, pensei eu, quando ainda achava que o tema desta mesa era «Duvido, portanto escrevo», torna¬ se, então, inevitável para aquele romancista que prefere confrontar¬ se com a angústia, não da página em branco, mas do prolongamento das páginas já preenchidas. Nesta óptica, aliás, as opções vão¬ se reduzindo à medida que o número de palavras aumenta, pois cada vez é maior a quantidade de texto que pesa sobre as frases que vão sendo construídas e cada vez são mais apertados os limites por onde elas se podem desenvolver. Talvez seja mesmo a consciência desse peso o que, em determinadas alturas, leva o romancista a concluir a obra, talvez seja essa espécie de asfixia da dúvida, porque se reduzem as escolhas possíveis, que impede a escrita de prosseguir, cansada perante a certeza definitiva que se perfila no seu horizonte. O que se escreve tem de responder ao que já foi escrito, mesmo que não se seja tão radical como Javier Marías, que afirma não alterar as páginas que já preencheu e esforçar¬ se por adaptar sempre o que vai compondo ao que ficou para trás, segundo o modelo da vida, em que, ao fim e ao cabo, também não podemos apagar o passado. (…)»
João Paulo Sousa
[Excerto da comunicação lida pelo autor de O Mundo Sólido, na mesa 8 das Correntes d'Escritas 2010]
Histórias das Correntes

De capacete amarelo na cabeça e lanterna presa à testa com um elástico, Manuel da Silva Ramos lê um texto no qual se assume como mineiro do «material informe» que abunda nas galerias subterrâneas da literatura, para logo convocar outros «prospectores» que muito admira: J. D. Salinger, Thomas Pynchon, Raymond Roussel, Jorge Luis Borges, James Joyce, George Orwell ou Primo Levi (a lista é longa). Noutra sessão, ao evocar os eufemismos eróticos da doçaria conventual barroca, Paulo Moreiras desmancha-se a rir e a sua hilaridade alastra ao público e agita o Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, um sismo de gargalhadas com muitas réplicas.
É sempre assim. Por cada participante mais sério nas nove mesas-redondas da edição deste ano das Correntes d’Escritas, houve um outro que aligeirava o ambiente ao falar de improviso. Se por um lado tivemos João Paulo Sousa a explicar como navega «na noite da ficção sem um mapa definido», Ricardo Menéndez Salmón a reflectir sobre o nada a partir de um registo no diário de Kafka em que este escreveu apenas essa palavra, «nada», ou Jorge Melícias a defender uma ideia de poesia como «encenação da verdade», longe de misticismos, éticas e redenções («encontrei sempre mais poesia na tosse dos tísicos do que nas chagas dos justos»), por outro lado surgiram as habituais piadas e apartes irónicos de Onésimo Teotónio de Almeida, as anedotas do espanhol J. J. Armas Marcelo sobre escritores que se deixam dormir em colóquios e debates, ou a surpresa de ver o pintor-poeta moçambicano Malangatana a cantar, enquanto o jornalista-romancista Manuel Jorge Marmelo improvisava um batuque com as mãos no tampo da mesa.
A meio caminho entre os dois extremos, estiveram três das melhores intervenções: a do escritor colombiano Hector Abad Faciolince, a da poeta espanhola Inma Luna e a do português valter hugo mãe. Para Faciolince, as palavras «não têm culpa» de nascer na «prisão do crânio», de onde só podem sair por duas «portas»: a boca ou a escrita. No seu caso, a primeira esteve quase sempre fechada (em criança, as cinco irmãs mais velhas não o deixavam falar), pelo que a descoberta da segunda foi um milagre: «ao escrever ninguém me interrompia». Além disso, a escrita liberta-o de outros constrangimentos. «Não gaguejo, não hesito, e ninguém percebe que pronuncio mal as palavras estrangeiras. Digo Shakespeare como a Rainha de Inglaterra.»

Quando lhe comunicaram o tema da sua mesa (”O Poeta é um Predador”), a primeira coisa que Inma Luna fez foi comprar um vestido cinzento com um felino selvagem estampado, precisamente aquele que levou para a sessão em que enunciou a sua peculiar taxinomia zooliterária, com quatro tipos de poetas devoradores da realidade: o poeta-lobo (o que procura as presas), o poeta-crocodilo (o que as espera), a poeta-anémona e a poeta-serpente, todos eles espécies ameaçadas. Ao seu lado, valter hugo mãe também falou de animais. Dos pirilampos e abelhas que caçava em miúdo, do cágado que desapareceu dois anos nas ervas do quintal, de uma pata grande e seus ovos, do elefante que gostaria de ter tido em casa e da forma como esses «tantos bichos» sintetizam os desafios da sua criação literária.
Mas as Correntes d’Escritas não se limitaram ao que os escritores convidados (64, metade deles estreantes) disseram no palco. Nesta 11.ª edição, que decorreu entre 24 e 27 de Fevereiro, houve ainda 23 lançamentos de livros, sete visitas a escolas e várias entregas de prémios, entre as quais uma espécie de «óscares» da edição nacional (organização Ler/Booktailors) e o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído ao romance Myra (Assírio & Alvim), que Maria Velho da Costa só não recebeu em mãos porque o comboio em que viajava teve que regressar a Lisboa, devido às inundações do Tejo.
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
O novo livro do autor de ‘Spider’

Trauma, de Patrick McGrath (Bertrand). A partir de amanhã nas livrarias.
Mistérios do spam
Gostava mesmo de saber o que leva certo funcionário de certa imobiliária muito conhecida a enviar-me um mail «para quem procura escritórios de qualidade no Barreiro». Toda a gente sabe que eu só procuro escritórios de qualidade na Moita e no Montijo.
O que aí vem (Quetzal)
A Viúva Grávida, o mais recente romance de Martin Amis (tradução de Jorge Pereirinha Pires); Diários da Bicicleta, de David Byrne (trad. de Vasco Teles de Menezes); A Mecânica da Ficção, de James Wood (trad. de Rogério Casanova); Morrem mais de Mágoa, de Samuel Bellow (trad. de Lucília Filipe); Black Music, de Arthur Dapieve.
O BdB no ‘i’
Uma nota simpática sobre este estaminé, assinada por Marco Dinis Santos.
Primeiras impressões sobre ‘O Terceiro Reich’
Ainda só li um terço do romance de Bolaño, mas para já colocá-lo-ia numa nobre linhagem: a das obras literárias sobre o xadrez. Sim, o xadrez.
O que aí vem (Caminho)
A Arte de Morrer Longe, novo romance de Mário de Carvalho, está previsto para a segunda quinzena de Abril.
Fragmento de um poema longo de Nuno Dempster
(…)
Sem dúvida, o hotel é
um paquete que se afunda.
Nada tem do que vi ou amo.
No canal dezasseis,
o Benfica ganhou por dois zero.
Portugueses exultam lá longe,
exultam com pouco,
e Londres inteira parece ter-se evolado.
A alegria da manhã vibrará,
estou certo,
a luz avivará as cores do Norte
e os raios de sol serão
cordas de guitarra eléctrica,
e hei-de ir de Yellow Submarine
pela Oxford Street e gritar:
«Escutem, Londres não é nada disso.
Bem poderiam ficar nas vossas cidades.
O que buscam é igual em toda a parte.»
E logo ecoarem insultos em esperanto,
agredirem-me com o desprezo de quem não vive
e, sabida a aventura no Yellow Submarine,
zangarem-se os amigos que adoram ir aos saldos,
aos saldos de fim de ano na Oxford Street,
e então, diplomata, eu convidá-los
para uma minuciosa visita ao Harrod’s
e aí fazermos as pazes
com meio pint de Guiness,
tirado lentamente como é da praxe.
Mas já Nelson está a olhar para sul,
a mirar-se na própria morte.
À uma e trinta da tarde,
lá onde o mundo dos gregos acabava,
nem Hércules lhe valeu.
À uma e trinta da tarde,
faltam três horas para a batalh
à uma e trinta da tarde,
o almirante vai morrer de novo
e ver-se a si mesmo
tombar na popa do Victory,
e os turistas nem darão conta,
nem os meus amigos,
nem as pombas se assustarão,
nem os leões de bronze hão-de levantar-se,
e eu estou em Trafalgar Square
e não quero saber as razões últimas de tal guerra,
senão do rasto que o Corso deixou
nos túmulos violados do meu país,
e nas igrejas brancas,
e nas mulheres minhas maiores,
factos que lembro por dever de raiva,
essa raiva de ter nascido
para tão grande imperfeição
e não ter mais nada,
salvo este grito que me abafa.
Oh, deixai que os navios combatam.
De quanto sangue,
de quantas vidas,
de quantos sonhos degolados é feito
o caminho que em Londres encontrei
e sabia existir,
mas não em toda a sua escura,
exaltante extensão.
Logo, ao cair da tarde,
irei de novo mergulhar em Piccadilly Circus.
Provavelmente,
beberei ainda mais cerveja do que ontem.
A descoberta da humanidade
é um acto cansativo e doloroso,
e a lucidez não serve de nada,
excepto para morrermos
todos os dias pelos outros.
(…)
[in Londres, &Etc, 2010]
Livros em torneio
No Brasil, país de futebol, há a Copa de Literatura Brasileira, com 16 livros de ficção enfrentando-se, dois a dois, em três eliminatórias, com um crítico diferente por cada desafio (e todos os críticos a votarem no jogo da final). Nos EUA, país da NBA, há o The Morning News Tournament of Books, que funciona exactamente da mesma maneira mas com o basquetebol como modelo (pergunto-me se elegerão, no final da prova, o MVW: Most Valuable Writer).
São, no fundo, duas variações da mesma boa ideia, que permite divulgar a literatura de forma lúdica, desafiando os críticos a sairem do seu casulo e a confrontarem directamente duas obras que de outra forma provavelmente não confrontariam, nas suas diferenças, similitudes e idiossincrasias.
A mim, parece-me que um ‘campeonato’ deste tipo faria todo o sentido em Portugal e não duvido que já exista massa crítica suficiente (se contarmos com alguns dos melhores bloggers que escrevem regularmente sobre livros). Alguém se chega à frente?
Nazis e outros monstros nas catacumbas de Lisboa

As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy
Autores: Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (desenho)
Editora: Pato Profissional/Tinta da China
N.º de páginas: 119
ISBN: 978-989-671-027-9
Ano de publicação: 2010
Aos 14 anos, Filipe Melo foi um dos primeiros hackers portugueses. A excitação de entrar em sistemas informáticos terminou, porém, no dia em que a Polícia Judiciária lhe bateu à porta. Depois do susto, trocou o teclado do computador pelo do piano e é agora um dos mais reconhecidos músicos de jazz portugueses, membro da direcção do Hot Clube e professor de Piano e Harmonia na Universidade de Évora, não deixando de se envolver em inúmeras actividades artísticas paralelas. Com a sua própria produtora, realizou um filme de zombies (I’ll See You In My Dreams), vencedor do prémio de melhor curta-metragem no Fantasporto em 2004, e uma série televisiva de culto (Um Mundo Catita, com Manuel João Vieira).
As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy começou por ser um argumento cinematográfico apoiado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), mas a impossibilidade de o filmar «sem abrir mão do arrojo e da audácia» levaram-no a adaptar o guião para Banda Desenhada. Nascia assim, ao fim de cinco anos, parte dos quais em diálogo à distância com o desenhador argentino Juan Cavia (utilizando o Skype e o e-mail), uma obra que pode ser comparada – na composição, minúcia e organização das pranchas – ao que de melhor se faz no género lá fora.
O elemento mais frágil acaba por ser a história do entregador de pizzas a quem roubam a moto e do «detective do oculto» que com ele decifra, por vias travessas, o mistério de um rapto sistemático de crianças. Embora os diálogos estejam bem construídos e não faltem excelentes ideias (as falas invertidas quando os heróis estão pendurados de cabeça para baixo), personagens (a gárgula decapitada) e detalhes (uma referência ao Hot Clube no rodapé do Telejornal), a narrativa nunca vai além de um pastiche divertido, mas previsível, de temas clássicos do fantástico de pendor gore (incluindo uma conspiração nazi nas catacumbas de Lisboa).
Talvez o segundo volume, pensado de raiz como novela gráfica, esteja à altura das expectativas que este desperta mas não cumpre.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
LeV (ainda em esboço)
O segundo encontro literário mais importante do país, a seguir às Correntes d’Escritas, começa no próximo dia 16 de Abril, em Matosinhos. É o LeV – Literatura em Viagem, organizado por Francisco Guedes. Tal como nas Correntes, os temas das mesas de debate têm muito que se lhe diga: “Guerra e Literatura”; “A Viagem são os viajantes”; “Viajar para se conhecer”; “O Sonho de África”; “Viajar prolonga a vida”; “Palavra a palavra viajamos”; ou “Toda a Realidade é uma viagem desejada”.
Embora o programa ainda esteja em aberto, já foram confirmados os seguintes nomes: Alexandra Lucas Coelho, Alexandre Alves Costa, Alon Hilu (Israel), Arthur Dapieve (Brasil), Carlos Matos Gomes
Carlos Vaz Marques, Cristina Carvalho, Filomena Marona Beja, Francisco José Viegas, Giuliano da Empoli (Itália), Hélder Macedo, Ignácio Martínez de Pisón (Espanha), Joaquim Magalhães de Castro, José Carlos de Vasconcelos, José Fanha, José Mário Silva, José Medeiros Ferreira, José Pedro Marques, José Rentes de Carvalho, Lázaro Covadlo (Argentina), Maria Isabel Barreno, Mempo Giardinelli (Argentina), Mimmo Cándito (Itália), Mohammed Berrada (Marrocos), Nuno Silveira Ramos, Patrícia Portela, Pedro Silveira Ramos, Robert Fisk (Inglaterra) e Tim Butcher (Inglaterra).
‘O Olho de Hertzog’ – campanha de lançamento
A agência de publicidade Leo Burnett é a responsável pela campanha de promoção do romance O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho, vencedor do Prémio LeYa 2009. A campanha começa amanhã, dia 10.
Nas livrarias, serão colocados expositores com este aspecto:

E nas ruas haverá mupis que simulam o ambiente das trincheiras da I Guerra Mundial:

O livro mais roubado de 2009
Não sem uma ponta de orgulho, Francisco José Viegas anunciou, durante o lançamento-festa de O Terceiro Reich, no Music Box, que o livro mais roubado nas livrarias portuguesas em 2009 foi o monumental 2666, de Roberto Bolaño. Os larápios bibliófilos estão duplamente de parabéns: não só escolheram o melhor livro do ano para a generalidade da crítica, como também um dos mais volumosos e difíceis de roubar. Sair da FNAC ou da Bertrand com um calhamaço de mais de mil páginas debaixo da camisola não revela apenas bom gosto literário; revela também alguma coragem, ou muito descaramento.
Ironia das ironias, o próprio Bolaño era um exímio praticante do roubo de livros. Ele e as suas personagens (cf. Os Detectives Selvagens).
Duas epígrafes
Recebi ontem o livro vencedor do Prémio LeYa 2009: O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho. Ainda não o comecei a ler, mas as epígrafes – uma de W. G. Sebald (Austerlitz) e outra de Italo Calvino (As Cidades Invisíveis) – já o colocam num terreno propício. O terreno da afinidade estética. Sujeita, como é óbvio, a confirmação posterior.
O gesto de MEC, por Pedro Vieira

Retirado, já se vê, daqui.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño (Quetzal), por Rogério Casanova
- As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, de Filipe Melo e Juan Cavia (Pato Profissional/Tinta da China), por José Mário Silva
- Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo, de Kyoichi Katayama (Alfaguara), por Paulo Nogueira
- A Raposa Azul, de Sjón (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
- Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo 1945-1973: Um Dicionário, de Mário Matos e Lemos (Texto), por José Pedro Castanheira
- Pullllllllllllll – Poesia Contemporânea do Canadá, selecção e tradução de selecção e tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela (Antígona), por Carlos Bessa
- Símbolo, Analogia e Afinidade, de Maria Filomena Molder (Vendaval), por António Guerreiro
O que aí vem (Relógio d’Água)
Ainda durante este mês, deve sair para as livrarias um casal de livros escritos por um casal: o romance Adoecer, de Hélia Correia, e o livro de poemas Necrophilia, de Jaime Rocha. No caso do livro da Hélia, vale a pena louvar este Inverno pela muita chuva que nos trouxe.
José Afonso Furtado vence um dos Shorty Awards
Um prémio mais do que justo, como se pode comprovar (muitas vezes ao dia) aqui.


Receba por e-mail




