O novo livro do autor de ‘Spider’

Trauma, de Patrick McGrath (Bertrand). A partir de amanhã nas livrarias.
Mistérios do spam
Gostava mesmo de saber o que leva certo funcionário de certa imobiliária muito conhecida a enviar-me um mail «para quem procura escritórios de qualidade no Barreiro». Toda a gente sabe que eu só procuro escritórios de qualidade na Moita e no Montijo.
O que aí vem (Quetzal)
A Viúva Grávida, o mais recente romance de Martin Amis (tradução de Jorge Pereirinha Pires); Diários da Bicicleta, de David Byrne (trad. de Miguel de Castro Henriques); A Mecânica da Ficção, de James Wood (trad. de Rogério Casanova); Morrem mais de Mágoa, de Samuel Bellow (trad. de Lucília Filipe); Black Music, de Arthur Dapieve.
O BdB no ‘i’
Uma nota simpática sobre este estaminé, assinada por Marco Dinis Santos.
Primeiras impressões sobre ‘O Terceiro Reich’
Ainda só li um terço do romance de Bolaño, mas para já colocá-lo-ia numa nobre linhagem: a das obras literárias sobre o xadrez. Sim, o xadrez.
O que aí vem (Caminho)
A Arte de Morrer Longe, novo romance de Mário de Carvalho, está previsto para a segunda quinzena de Abril.
Fragmento de um poema longo de Nuno Dempster
(…)
Sem dúvida, o hotel é
um paquete que se afunda.
Nada tem do que vi ou amo.
No canal dezasseis,
o Benfica ganhou por dois zero.
Portugueses exultam lá longe,
exultam com pouco,
e Londres inteira parece ter-se evolado.
A alegria da manhã vibrará,
estou certo,
a luz avivará as cores do Norte
e os raios de sol serão
cordas de guitarra eléctrica,
e hei-de ir de Yellow Submarine
pela Oxford Street e gritar:
«Escutem, Londres não é nada disso.
Bem poderiam ficar nas vossas cidades.
O que buscam é igual em toda a parte.»
E logo ecoarem insultos em esperanto,
agredirem-me com o desprezo de quem não vive
e, sabida a aventura no Yellow Submarine,
zangarem-se os amigos que adoram ir aos saldos,
aos saldos de fim de ano na Oxford Street,
e então, diplomata, eu convidá-los
para uma minuciosa visita ao Harrod’s
e aí fazermos as pazes
com meio pint de Guiness,
tirado lentamente como é da praxe.
Mas já Nelson está a olhar para sul,
a mirar-se na própria morte.
À uma e trinta da tarde,
lá onde o mundo dos gregos acabava,
nem Hércules lhe valeu.
À uma e trinta da tarde,
faltam três horas para a batalh
à uma e trinta da tarde,
o almirante vai morrer de novo
e ver-se a si mesmo
tombar na popa do Victory,
e os turistas nem darão conta,
nem os meus amigos,
nem as pombas se assustarão,
nem os leões de bronze hão-de levantar-se,
e eu estou em Trafalgar Square
e não quero saber as razões últimas de tal guerra,
senão do rasto que o Corso deixou
nos túmulos violados do meu país,
e nas igrejas brancas,
e nas mulheres minhas maiores,
factos que lembro por dever de raiva,
essa raiva de ter nascido
para tão grande imperfeição
e não ter mais nada,
salvo este grito que me abafa.
Oh, deixai que os navios combatam.
De quanto sangue,
de quantas vidas,
de quantos sonhos degolados é feito
o caminho que em Londres encontrei
e sabia existir,
mas não em toda a sua escura,
exaltante extensão.
Logo, ao cair da tarde,
irei de novo mergulhar em Piccadilly Circus.
Provavelmente,
beberei ainda mais cerveja do que ontem.
A descoberta da humanidade
é um acto cansativo e doloroso,
e a lucidez não serve de nada,
excepto para morrermos
todos os dias pelos outros.
(…)
[in Londres, &Etc, 2010]
Livros em torneio
No Brasil, país de futebol, há a Copa de Literatura Brasileira, com 16 livros de ficção enfrentando-se, dois a dois, em três eliminatórias, com um crítico diferente por cada desafio (e todos os críticos a votarem no jogo da final). Nos EUA, país da NBA, há o The Morning News Tournament of Books, que funciona exactamente da mesma maneira mas com o basquetebol como modelo (pergunto-me se elegerão, no final da prova, o MVW: Most Valuable Writer).
São, no fundo, duas variações da mesma boa ideia, que permite divulgar a literatura de forma lúdica, desafiando os críticos a sairem do seu casulo e a confrontarem directamente duas obras que de outra forma provavelmente não confrontariam, nas suas diferenças, similitudes e idiossincrasias.
A mim, parece-me que um ‘campeonato’ deste tipo faria todo o sentido em Portugal e não duvido que já exista massa crítica suficiente (se contarmos com alguns dos melhores bloggers que escrevem regularmente sobre livros). Alguém se chega à frente?
Nazis e outros monstros nas catacumbas de Lisboa

As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy
Autores: Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (desenho)
Editora: Pato Profissional/Tinta da China
N.º de páginas: 119
ISBN: 978-989-671-027-9
Ano de publicação: 2010
Aos 14 anos, Filipe Melo foi um dos primeiros hackers portugueses. A excitação de entrar em sistemas informáticos terminou, porém, no dia em que a Polícia Judiciária lhe bateu à porta. Depois do susto, trocou o teclado do computador pelo do piano e é agora um dos mais reconhecidos músicos de jazz portugueses, membro da direcção do Hot Clube e professor de Piano e Harmonia na Universidade de Évora, não deixando de se envolver em inúmeras actividades artísticas paralelas. Com a sua própria produtora, realizou um filme de zombies (I’ll See You In My Dreams), vencedor do prémio de melhor curta-metragem no Fantasporto em 2004, e uma série televisiva de culto (Um Mundo Catita, com Manuel João Vieira).
As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy começou por ser um argumento cinematográfico apoiado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), mas a impossibilidade de o filmar «sem abrir mão do arrojo e da audácia» levaram-no a adaptar o guião para Banda Desenhada. Nascia assim, ao fim de cinco anos, parte dos quais em diálogo à distância com o desenhador argentino Juan Cavia (utilizando o Skype e o e-mail), uma obra que pode ser comparada – na composição, minúcia e organização das pranchas – ao que de melhor se faz no género lá fora.
O elemento mais frágil acaba por ser a história do entregador de pizzas a quem roubam a moto e do «detective do oculto» que com ele decifra, por vias travessas, o mistério de um rapto sistemático de crianças. Embora os diálogos estejam bem construídos e não faltem excelentes ideias (as falas invertidas quando os heróis estão pendurados de cabeça para baixo), personagens (a gárgula decapitada) e detalhes (uma referência ao Hot Clube no rodapé do Telejornal), a narrativa nunca vai além de um pastiche divertido, mas previsível, de temas clássicos do fantástico de pendor gore (incluindo uma conspiração nazi nas catacumbas de Lisboa).
Talvez o segundo volume, pensado de raiz como novela gráfica, esteja à altura das expectativas que este desperta mas não cumpre.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
LeV (ainda em esboço)
O segundo encontro literário mais importante do país, a seguir às Correntes d’Escritas, começa no próximo dia 16 de Abril, em Matosinhos. É o LeV – Literatura em Viagem, organizado por Francisco Guedes. Tal como nas Correntes, os temas das mesas de debate têm muito que se lhe diga: “Guerra e Literatura”; “A Viagem são os viajantes”; “Viajar para se conhecer”; “O Sonho de África”; “Viajar prolonga a vida”; “Palavra a palavra viajamos”; ou “Toda a Realidade é uma viagem desejada”.
Embora o programa ainda esteja em aberto, já foram confirmados os seguintes nomes: Alexandra Lucas Coelho, Alexandre Alves Costa, Alon Hilu (Israel), Arthur Dapieve (Brasil), Carlos Matos Gomes
Carlos Vaz Marques, Cristina Carvalho, Filomena Marona Beja, Francisco José Viegas, Giuliano da Empoli (Itália), Hélder Macedo, Ignácio Martínez de Pisón (Espanha), Joaquim Magalhães de Castro, José Carlos de Vasconcelos, José Fanha, José Mário Silva, José Medeiros Ferreira, José Pedro Marques, José Rentes de Carvalho, Lázaro Covadlo (Argentina), Maria Isabel Barreno, Mempo Giardinelli (Argentina), Mimmo Cándito (Itália), Mohammed Berrada (Marrocos), Nuno Silveira Ramos, Patrícia Portela, Pedro Silveira Ramos, Robert Fisk (Inglaterra) e Tim Butcher (Inglaterra).
‘O Olho de Hertzog’ – campanha de lançamento
A agência de publicidade Leo Burnett é a responsável pela campanha de promoção do romance O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho, vencedor do Prémio LeYa 2009. A campanha começa amanhã, dia 10.
Nas livrarias, serão colocados expositores com este aspecto:

E nas ruas haverá mupis que simulam o ambiente das trincheiras da I Guerra Mundial:

O livro mais roubado de 2009
Não sem uma ponta de orgulho, Francisco José Viegas anunciou, durante o lançamento-festa de O Terceiro Reich, no Music Box, que o livro mais roubado nas livrarias portuguesas em 2009 foi o monumental 2666, de Roberto Bolaño. Os larápios bibliófilos estão duplamente de parabéns: não só escolheram o melhor livro do ano para a generalidade da crítica, como também um dos mais volumosos e difíceis de roubar. Sair da FNAC ou da Bertrand com um calhamaço de mais de mil páginas debaixo da camisola não revela apenas bom gosto literário; revela também alguma coragem, ou muito descaramento.
Ironia das ironias, o próprio Bolaño era um exímio praticante do roubo de livros. Ele e as suas personagens (cf. Os Detectives Selvagens).
Duas epígrafes
Recebi ontem o livro vencedor do Prémio LeYa 2009: O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho. Ainda não o comecei a ler, mas as epígrafes – uma de W. G. Sebald (Austerlitz) e outra de Italo Calvino (As Cidades Invisíveis) – já o colocam num terreno propício. O terreno da afinidade estética. Sujeita, como é óbvio, a confirmação posterior.
O gesto de MEC, por Pedro Vieira

Retirado, já se vê, daqui.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño (Quetzal), por Rogério Casanova
- As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, de Filipe Melo e Juan Cavia (Pato Profissional/Tinta da China), por José Mário Silva
- Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo, de Kyoichi Katayama (Alfaguara), por Paulo Nogueira
- A Raposa Azul, de Sjón (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
- Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo 1945-1973: Um Dicionário, de Mário Matos e Lemos (Texto), por José Pedro Castanheira
- Pullllllllllllll – Poesia Contemporânea do Canadá, selecção e tradução de selecção e tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela (Antígona), por Carlos Bessa
- Símbolo, Analogia e Afinidade, de Maria Filomena Molder (Vendaval), por António Guerreiro
O que aí vem (Relógio d’Água)
Ainda durante este mês, deve sair para as livrarias um casal de livros escritos por um casal: o romance Adoecer, de Hélia Correia, e o livro de poemas Necrophilia, de Jaime Rocha. No caso do livro da Hélia, vale a pena louvar este Inverno pela muita chuva que nos trouxe.
José Afonso Furtado vence um dos Shorty Awards
Um prémio mais do que justo, como se pode comprovar (muitas vezes ao dia) aqui.
Revista ‘Ler’, n.º 89
Já está nas bancas. E a fazer água na boca.
Eu português, tu brasileiro (e vice-versa)

Amanhã, no Chiado, à tardinha. Com Zuenir Ventura e valter hugo mãe, vindos (quase) directamente da Póvoa de Varzim.
Tormentas
A causa de tudo deve ter sido uma das rajadas de vento ciclónico que varreu a Póvoa de Varzim no fim-de-semana. Primeiro, o BdB ficou inacessível por razões que me escapam (terá sido alguma antena tombada pela intempérie?). Depois, fiquei eu inacessível por razões que não me escapam, mas contra as quais nada pude fazer. O regresso foi sem percalços mas os dias seguintes demasiado cheios, demasiado dirigidos a outras urgentíssimas prioridades, para que pudesse retomar aqui o fio interrompido das Correntes. Agora, pouco a pouco, tentarei preencher os hiatos, os espaços deixados em branco, lá para trás. Tenham paciência.
38
É só mais um do que 37 e menos um do que 39. Siga a marcha.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- Verão, de J.M. Coetzee (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Derrocada, de Ricardo Menéndez Salmón (Porto Editora), por Vítor Quelhas
- Um Instante de Abandono, de Philippe Besson (Teorema), por Luísa Mellid-Franco
- Os livros que devoraram o meu pai, de Afonso Cruz (Caminho), por Luís M. Faria
- Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
- Fragmentos de Píndaro, de Friedrich Hölderlin (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
- Obsessão, de José António Almeida (&Etc), por Manuel de Freitas
3-0
Paulo Ferreira: a resposta é sim, sim, sim, três vezes sim.
Postar ou não postar
É uma dúvida shakespeariana, sim. Se actualizas o blogue, não assistes às sessões. Se assistes às sessões, e às conversas nas escadas do auditório ou no lobby do hotel, não tens tempo para actualizar o blogue. Ao contrário de Hamlet, eu não hesito (nem ando, já agora, de um lado para o outro com uma caveira na mão): entre as mesas de debate e os posts em cima da hora, dou prioridade às mesas de debate. As actualizações serão, portanto, ou tardias ou retroactivas. Perdoem-me os mais impacientes.
Mesa 3: ‘Passo e fico, como o Universo’
Chegado a meio da sessão (vindo directamente de Campanhã), ainda consegui ouvir as intervenções do espanhol Isaac Rosa, do brasileiro Bernardo Carvalho e do cabo-verdiano Germano Almeida.
Isaac Rosa reflectiu muito sobre o mote da mesa, um verso de Pessoa que podia ter sido escrito por Antonio Machado, ao ponto de assumir que pode muito bem vir a ser o título do seu próximo romance. Ao mostrar o poema completo de Pessoa a um amigo, para que o ajudasse a discernir o verdadeiro tema da sessão, ele sugeriu-lhe que devia ser sobre a Internet, e-books, blogues, etc., por causa dos primeiros versos: «Da mais alta janela da minha casa / Com um lenço branco digo adeus / Aos meus versos que partem para a Humanidade». A «janela» da casa remeteria para o Windows e os versos partindo em direcção à Humanidade seriam como os versos que toda a gente pode colocar online, fazendo de Pessoa o precursor de uma tecnologia que só surgiria meio século após a sua morte. Quanto à questão que o poema levanta, a de saber para quem escrevemos, Isaac Rosa considera-a uma questão de poeta, não de romancista. Enquanto romancista, Rosa diz que nunca pensa nos seus leitores. O que o preocupa é a responsabilidade, artística e ética, de quem utiliza a ficção, essa forma privilegiada de «nos relacionarmos com o mundo, de estarmos no mundo».
Já Bernardo Carvalho assumiu a sua raiva contra o verso de Pessoa. «Esse verso irritou-me muito», admitiu. «Dá a entender que a poesia, ou a arte, é uma coisa natural, como uma paisagem, quando para mim é o contrário disso, é dificuldade, resistência, combate, singularidade.» A fúria levou-o a escrever um texto, «meio académico», que deixou no bolso, ao contrário da indignação anti-pessoana: «Não concordo nada com isso de passar e ficar. Você faz arte justamente porque você passa e não fica.»
Habitualmente, Germano Almeida costuma improvisar nas sessões das Correntes d’Escritas. Desta vez, porém, trouxe um pequeno texto que não ficou no bolso, em que defende a necessidade do humor e do prazer na escrita, glosa o tema de vários ângulos e lembra o comentário de uma amiga («a minha guru») sobre o verso de Pessoa: «Isso é uma maluquice de poetas e tu não és poeta.» Germano provocou ainda Tânia Ganho, companheira de mesa a quem terá sugerido, em vão, que fizessem um texto a meias. Embora a distância fosse grande, pareceu-me que ela corou com a inconfidência.
Alfa Pendular
Santa Apolónia, meio-dia, comboio 125, carruagem 1. Eu serei o passageiro que vai a ler O País do Medo, de Isaac Rosa (Planeta), ou A Origem da Tristeza, de Pablo Ramos (Quetzal). Ou então a experimentar o netbook novinho em folha.
Quase a caminho
As Correntes d’Escritas começaram esta manhã e já há vários bloggers a cobrir intensamente o que vai acontecendo na Póvoa de Varzim: o Paulo Ferreira, a Sara Figueiredo Costa, o Pedro Vieira, o Luís Ricardo Duarte, entre outros. Eu chego amanhã à tarde, espero que ainda a tempo de assistir ao fim da mesa 3, intitulada “Passo e fico como o universo”, com Bernardo Carvalho, Germano Almeida, Isaac Rosa, João Tordo, Tânia Ganho e moderação de Carlos Vaz Marques.
Prémio Casino da Póvoa para ‘Myra’, de Maria Velho da Costa

O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distingue este ano a escritora Maria Velho da Costa pelo romance Myra (Assírio & Alvim). A decisão do júri, composto por Patrícia Reis, Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho e Vergílio Alberto Vieira, foi anunciada durante a Sessão Oficial de Abertura das Correntes d’Escritas, no Casino da Póvoa de Varzim, esta manhã.
Os restantes nove finalistas eram: A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa (Dom Quixote); A Mão Esquerda de Deus, de Pedro Almeida Vieira (Dom Quixote); A Sala Magenta, de Mário de Carvalho (Caminho); o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (QuidNovi); O Cónego, de A. M. Pires Cabral (Cotovia); O Mundo, de Juan José Millás (Planeta); O verão selvagem dos teus olhos, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água); Rakushisha, de Adriana Lisboa (Quetzal) e Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio (Quetzal).
Em 2009, ganhou Gastão Cruz, com A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim).
O que aí vem (Boca)
Mais dois audiolivros para o catálogo da Boca: Estória do Ovo e da Galinha, de José Luandino Vieira, um «hilariante fresco da vida no musseque», na interpretação «polifónica» de Myriam Xafrêdo dos Reis; e Memórias de um Craque, as crónicas sobre futebol de Fernando Assis Pacheco, ditas pelo poeta e performer Nuno Moura.
Outras informações aqui.
‘O Terceiro Reich’ (booktrailer)
Está a chegar o novo Bolaño, segundo romance póstumo do escritor chileno editado pela Quetzal, depois de 2666. Amanhã farei aqui a pré-publicação do início do terceiro capítulo.
Recusa perante o tempo
«”Acreditas mesmo nisso?”, perguntou ele. “Que os livros dão sentido à nossa vida?”
“Acredito”, respondi. “Um livro deve ser um machado para abrir o mar gelado que temos dentro. Que mais havia de ser?”
“Um gesto de recusa perante o tempo. Uma tentativa de conseguir a imortalidade.”
“Ninguém é imortal. Os livros não são imortais. Todo o globo em que estamos há-de ser sugado pelo sol e desfeito em cinzas. Após o que o próprio universo implodirá e desaparecerá por um buraco negro abaixo. Nada sobreviverá, nem eu, tu, nem certamente os livros de interesse minoritário sobre imaginários colonos fronteiriços da África do Sul do século XVIII.”
“Não quis dizer imortal no sentido de existir fora do tempo. Quero dizer sobreviver para além do nosso desaparecimento físico.”
“Queres que as pessoas te leiam depois de morto?”
“Dá-me um certo consolo ater-me a essa perspectiva.”
“Mesmo que cá não estejas para ver?”
“Mesmo que cá não esteja para ver.”
“Mas porque é que as pessoas do futuro se hão-de dar ao trabalho de ler o livro que tu escreves se ele não lhes diz nada, se não as ajuda a encontrarem sentido para as suas vidas?”
“Talvez ainda gostem de ler livros bem escritos.”
“Isso é uma tolice. É como dizer que, se eu fizer um rádio com gira-discos suficientemente bom, as pessoas continuarão a usá-lo no século XXV. Mas não continuam. Porque os rádios com gira-discos, por mais bem feitos que sejam, já hão-de ser obsoletos. Não dirão nada às pessoas do século XXV.”
“Talvez no século XXV ainda haja uma minoria com curiosidade de ouvir como era o som de um aparelho de telefonia.”
“Coleccionadores. Gente com passatempos. É assim que tencionas passar o resto da vida? Sentado à secretária a manufacturar um objecto que pode ser ou não conservado como curiosidade?
Ele encolheu os ombros. “Tens alguma ideia melhor?”»
[in Verão, de J.M. Coetzee, trad. de J. Teixeira de Aguilar, Dom Quixote, 2010; chega às livrarias na próxima sexta-feira, dia 26]
Um guia para a ficção on-line
Mais do que um guia, é um mapa. Mais do que um mapa, é uma constatação dos recursos intermináveis da internet (aqui abrindo janelas e mais janelas para a melhor ficção contemporânea em língua inglesa). Thanks, David Backer, pelas muitas pistas.
Babel vs. LeYa

Um cartoon de Alexandre Esgaio, sacado daqui. O único problema com o desenho está na escala dos rivais. A Babel, por enquanto, teria que ser muito mais pequena do que a outra máquina de lançar livros sobre os sufocados leitores.
Lavar a loiça
De todas as tarefas domésticas, lavar a loiça sempre foi a minha preferida. Gosto daqueles minutos passados com as mãos enfiadas na água quente e na espuma, da mecânica de gestos que não me obrigam a pensar e por isso me deixam a cabeça livre para devaneios, pontos da situação e ímpetos criativos. Em festas de amigos e nas férias colectivas, sempre me ofereci para a função de que toda a gente foge e muitas vezes fui olhado de lado, como se lavar a loiça fosse um prazer perverso que não é suposto ser exibido, despudoradamente, no final de um belo jantar.
Imaginem pois a minha alegria, e o meu alívio, ao deparar com esta passagem do conto É grave, doutor?, de Juan José Millás, incluído no volume Os Objectos Chamam-nos (Planeta):
«Quando eu era jovem, partilhei um apartamento com uma rapariga que a primeira coisa que me disse foi que odiava lavar loiça, de maneira que teria de ser eu a fazê-lo. Ao princípio parecia-me uma chatice, porque me empenhava em acabar quanto antes, creio, mas depois fui começando a gostar e lavava numa hora o mesmo número de pratos que qualquer pessoa normal teria lavado em meia hora. Aquilo de que eu gostava naquela actividade era que me punha intelectualmente activo. Dez minutos depois de estar a puxar o brilho a um tacho de alumínio, os neurónios travavam amizade entre si e resolvia problemas que na mesa de trabalho me teriam levado dias. Lavar a loiça ajudava-me a entrar num estranho estado de concentração do qual obtinha benefícios incríveis. No entanto, caía mal à minha companheira ver-me desfrutar dessa maneira e começou a pensar que partilhava a casa com um depravado.
– Mas por que razão não protestas quando tens de lavar a loiça?
– Porque gosto.
– Deixa-te de brincadeiras. Como é que podes gostar?
– É verdade. A água a correr e ver como desaparece pelo ralo a sujidade das frigideiras mergulha-me numa espécie de êxtase que me ajuda a reflectir sobre a existência.
Ao princípio ela pensou que eu estava a troçar dela, e depois que era um pervertido. Quando tínhamos convidados e me via a levantar depois de comer, para arrumar a cozinha, ouvia-a murmurar coisas sobre mim. Uma vez trouxe a mãe, a qual, depois de me observar de cima a baixo, me perguntou se eu era o tal que gostava de lavar a loiça.
– Sou um deles – respondi, sentindo-me membro de uma seita secreta de lavadores espalhados pelo mundo.»
Uma seita a que pelos vistos eu também pertenço, agora com uma pontinha de orgulho.
O que aí vem (Ahab)

Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, uma obra-prima que abriu caminho a outras obras-primas da literatura norte-americana do século XX. Com tradução de José Lima e posfácio de John Updike.
Chega às livrarias no dia 25 de Março.
O fogo por vários dias

Mãe-do-fogo
Autores: João Miguel Fernandes Jorge (texto) e João Cruz Rosa (desenhos)
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-989-641-134-3
Ano de publicação: 2009
Nestes 25 novos poemas, completados por uma série de desenhos de João Cruz Rosa (a tinta-da-china sobre papel feito à mão), João Miguel Fernandes Jorge prossegue a sua linha estética de grande rigor e austeridade, pontualmente iluminada por efusões de um lirismo que nunca abandona um recorte clássico. Como sempre, há poemas que se inspiram nas artes visuais (a pintura de Rembrandt; uma fotografia de Ed van der Elsken) e outros que captam a natureza epifânica das coisas mais simples: o melro que bebe de um prato de barro com «água a rasar», uma capela, a «ondulada lâmina // do desejo» que «desarma o corpo», o licor de leite filtrado gota a gota, os «cambiantes» cromáticos dos medronhos maduros.
Se o título do livro faz alusão ao «toro de madeira branca que sustenta o fogo por vários dias», arrisco dizer que a «mãe-do-fogo» deste conjunto de poemas é a memória («talvez / não se possa fazer mais nada na vida senão / recordar»), uma memória onde cabe tanto a evocação da pedra de mármore onde o pai, farmacêutico, pousava a espátula, como a experiência de visitar, aos nove anos, um doente moribundo e ouvir o «estranho rumor» da sua agonia. Também há pequenos vínculos simbólicos entre os poemas (num, a maçã vermelha do ramo mais baixo comida por uma ovelha; noutro, a maçã do ramo mais alto à mercê do bico preto do corvo) e densas meditações sobre a paisagem, ou as ruínas da ausência.
O tom da escrita, esse, nunca esconde a amargura, nem a nostalgia de um mundo aldeão em vias de desaparecimento, como o descrito no início do poema XIII (pág. 24):
Tenho para mim neste derrotado começo de século
neste farrapo de país em que a própria língua virá em
breve a ser idioma secreto
e a quem ninguém chamará pátria nem tão-pouco
nação, apesar da vigilância sobre a nossa existência
ser matéria autocrática e clerical,
tenho para mim que nesta geografia
a casa rural é a expressão mais pura que sobrevive
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no número 87 da revista Ler]
‘Ghost Writer’
Uma crítica ao novo filme de Roman Polanski, estreado no Festival de Cinema de Berlim (a 12 de Fevereiro), por Kenneth Turan. Ghost Writer adapta um romance de Robert Harris: The Ghost.
Cinco poemas de Pedro Tamen
Meia sola é meia sola.
Será por isso que a cola
me cheira tanto a vinagre?
Mas meia sola é milagre.
E eis o que ninguém sabe:
que neste cantinho cabe,
na penumbra da oficina,
na casca do caracol,
esta pequena aspirina
que é a largueza do sol.
***
Esta perna invertida
de ferro já vivido
que me serve de forma,
onde o sapato assenta,
exala sons de mar,
ventos, canaviais,
um aceno amarelo,
dentes que mordem livres
da mordaça da cave
onde tenaz martelo.
***
Amo o sapato que faço
na própria mão que o percorre,
no calo e nas unhas sujas,
na velhice do inchaço
de uma artrose de quem morre
mas não antes que me fujas;
ó meu sapato de milho,
de juventude virada
para um pé ao pé da mão,
sapato que és mãe e filho
da minha arte calada
de entre cordeiro e leão.
***
Essa nudez de carne que vislumbro
nesta reviva pele que a mão trabalha
vem como luz na escuridão da cave
e qual espuma do mar desce na praia,
e a ferramenta é leve sendo chumbo
já sem força vetusta que se acabe.
***
Acocorado como estava o escriba,
só não escrevendo, mas escravo sou
da matéria animal que do distante campo
veio curtida com ecos de verdura
e de tão lenta, infinda paciência.
Como ele cumpro destino de invenção,
de leve e não sabida descoberta
do mundo incompleto.
Mundo incompleto, e certo,
esse que preenche a minha cave
e lhe rasga as paredes.
[in O livro do sapateiro, Dom Quixote, 2010]
Um anúncio estúpido
Os senhores da Budweiser nunca se sentaram numa esplanada a ler um bom livro e a beber uma imperial. Coitados. Não sabem o que perdem.
[via BiblioFilmes]
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- Prisioneiro do Estado – O Diário Secreto de Zhao Ziyang, de Zhao Ziyang (Casa das Letras), por Luísa Meireles
- Lúcio Lara – Imagens de um Percurso (Associação Tchiweka de Documentação), por Nicolau Santos
- Os Objectos Chamam-nos, de Juan José Millás (Planeta), por José Mário Silva
- Antes de Ser Feliz, de Patrícia Reis (Dom Quixote), por António Guerreiro
- As Sete Mulheres de Barba Azul, de Anatole France (Estrofes&Versos), por Ana Cristina Leonardo
- Assim se Esvai a Vida – Três Livros num Só, de Urbano Tavares Rodrigues (Dom Quixote), por Helena Barbas
- O Fim do Alfabeto, de C. S. Richardson (Presença), por José Guardado Moreira


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