Depois de Leonard Cohen e Lou Reed (salvo as devidas distâncias), eis um outro dilema para quem não tem o dom da ubiquidade

Às 18h30, na Fnac do Chiado, a jornalista Ana Sá Lopes apresenta o meu livro de micronarrativas (algumas das quais serão lidas pelo Pedro Mexia). Exactamente à mesma hora, na Fnac do Colombo, a jornalista Isabel Lucas apresenta o romance do valter. Eu, se pudesse escolher, ia ao Colombo. Mas vocês, na dúvida, atirem uma moeda ao ar.
O declínio dos conquistadores
Já havia melancolia que chegasse no subtítulo da obra autobiográfica de Zézé Camarinha: “o último macho man português”. Mas o golpe de misericórdia foi dado pela Fnac, ao colocar o donjuanesco catálogo (profusamente ilustrado com imagens das “amigas” suecas e irlandesas, estendidas ao sol na Praia da Rocha) em décimo lugar no seu top. Quer dizer, no seu top dos livros de ficção.
Encostem-se à parede

Um título do caraças (hello, mr. Tolstoi) para um artista do camandro.
Segundo round
Logo à tarde, pelas 18h30, acontecerá na Fnac do Chiado, em Lisboa, a segunda apresentação do livro Efeito Borboleta e outras histórias, feita pela jornalista Ana Sá Lopes. A leitura de textos estará a cargo de Pedro Mexia.
Apareçam.
Biblioteca de Arte da Gulbenkian no Flickr
Já “estão disponíveis a qualquer pessoa que faça uma busca no Flickr (uma rede social destinada à partilha de fotografias na Internet) mil imagens das colecções da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian”. As imagens podem ser consultadas aqui.
Termos alfarrabísticos
É quando arrumo certos livros no bibliotáfio que mais valor dou à bibliopeia.
Novo site da APEL
Fica aqui. E está melhor, mais fácil de utilizar, mais útil.
Sortilégios, incensos, magias

Filho Pródigo
Autor: José Agostinho Baptista
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-37-1313-8
Ano de publicação: 2008
Este é o livro de um regresso difícil: o de José Agostinho Baptista (JAB) às suas raízes, à geografia da infância que a memória e o trabalho da escrita foram transfigurando. A ilha da Madeira, presente em muitos dos seus livros (enquanto paradoxo, fantasma ou ausência), emerge aqui como o problemático locus em que o sujeito poético revê o fio dos seus dias e se questiona.
“Não é impunemente que se nasce num lugar”, sugere António Fournier no texto introdutório. Há um peso que persegue quem foge da claustrofobia atlântica, procurando outras paragens, mas JAB parece ter sobrevivido ao “despaisamento” dos ilhéus de que falava Nemésio. A “reserva mítica que alimentava a sua poesia”, escreve Fournier, resistiu “à travessia de uma passagem secreta”, e por isso “a matéria bruta continua intacta, as fontes da sua melancolia não secaram”.
Há, de facto, uma constância nos modos da linguagem poética de JAB, um tom de litania que prolonga as obsessões temáticas e os ritmos das obras anteriores. O desencanto diante de um país “sem esplendor”, triste “pátria onde tudo apodrece”, sinaliza um mal-estar mais vasto, que abrange todo o mundo ocidental neste início de um século “cruel” e “indigno”. O tom apocalíptico conduz-nos por toda a sorte de desastres e abismos, até ao paroxismo do “bolor” que se adensa “nas folhas do livro do / desespero”.
A esta “demência” da realidade, a este “envenenamento da alma”, contrapõem-se “sortilégios, incensos, magias”. Ao redescobrir os espaços originais da sua vida, JAB procura recuperar um sentido que a passagem por outros meridianos destruiu. Diante das forças elementares da natureza, procurando até fundir-se com elas, “o poema surge para, / em sobressalto, / retomar o destino de uma solidão primitiva”, através da mão que escreve “misteriosamente comovida” e sustenta os alicerces de uma mitologia pessoal. Dessa mitologia fazem parte a paisagem – com as suas encostas a pique, o mar que ruge “imprecações”, a “penha d’águia” –, mas também o culto dos mortos, cujos rostos perduram “numa moldura de fulgor / e orquídeas”. Partindo de um olhar sobre a terra (”sou aquilo que vejo”), esta poesia vai acumulando imagens suspensas e “evidências submersas”, algumas de uma beleza visceral: “E eles iam e vinham, esses pássaros, / (…) enquanto o crepúsculo acciona o rumor das / suas armas.”
Aqui e ali, porém, a capacidade metafórica começa a tender para o esgotamento e para a repetição, um pouco à semelhança do que aconteceu com António Ramos Rosa. Em várias passagens deste livro, JAB podia ter controlado melhor o ímpeto do seu lirismo, que às vezes parece funcionar em piloto automático e espalha versos frágeis por poemas que mereciam ser tão perfeitos como Voz:
Vindo do oeste, ao fim da tarde,
era quase branco o pássaro que pousava
naquele jardim,
na árvore do pai.
E então, como quem esquece as razões de uma
profunda mágoa,
eu podia adormecer serenamente,
ouvindo a sua voz nos ramos da cerejeira,
chamando devagar.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Um conto perfeito
Este. O facto de ser tudo verdade (mesmo se uma verdade tão secreta que nos aparece assim, oblíqua) é irrelevante.
Qualquer coisa como medo
«O que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.) Numa manhã, ela senta-se diante da sua tenda e olha para lá do rio. No outro lado estão as mulas escondidas pela erva alta da margem. A erva verga-se ao sopro do vento como uma seara, e o vento traz também para o desfiladeiro o fumo que se escapa da porta do tchai-khan. Os coudéis do xá, vindos das pastagens, chegam nos seus cavalos brancos e malhados, já estafados, e com gritos fazem-nos passar a galope os bancos de saibro. O sol do meio-dia é forte e branco. O vento parece arrastá-lo consigo, juntamente com as nuvens e a poeira. Os olhos cansam-se de olhar para cima. Rochedos cinzentos, basalto contra azul, dor sem esperança. Se pousamos por algum tempo o olhar na água negra, rápida, quebrada, sentimos uma vertigem, qualquer coisa como medo.»
[in Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, trad. de Isabel Castro Silva, Tinta da China, 2008]
O bater de asas de uma borboleta no espelho retrovisor de um automóvel pode provocar a queda de um barco de recreio no telhado de um vizinho
São mesmo infinitas, as aplicações do Efeito.
Nenhures também não é mau
Nesta altura do ano, quase toda a gente vai para sítios concretos: Caraíbas, Algarve, Fonte da Telha, esplanada na Marginal ou, hélas, para o escritório (esperando que o ar condicionado não avarie). Ora onde eu gostava de estar é onde está o Jorge Fallorca: algures.
Aproveitemos
No que resta de Julho e em Agosto, a livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67 B, Lisboa) fará descontos de 20 e 30% nos livros de arte e de viagens.
A vida, modo de acelerar

Esta História
Autor: Alessandro Baricco
Título original: Questa Storia
Tradução: Simonetta Neto
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 293
ISBN: 978-972-20-3212-4
Ano de publicação: 2008
Numa madrugada de 1902, Libero Parri leva o filho, não a ver o gelo (como em certo livro famoso de Gabriel García Márquez), mas antes uma maravilha menos efémera: um automóvel. A visão daquela “coisa estranha” e na altura ainda rara, monstro metálico emergindo de uma nuvem de pó a “velocidade inaudita”, sela o destino da família Parri. O pai, camponês do Piemonte, venderá, dois anos mais tarde, as suas 26 vacas para montar uma garagem no meio do nada, à espera de um futuro em que as máquinas de quatro rodas andarão por todo o lado. E Ultimo, o rapazola de cinco anos, não mais deixará de perseguir aquela espécie de vertigem mecânica.
No entanto, a vida de Ultimo nunca se chega a confundir com a dos pioneiros da indústria automóvel. Mais do que o som dos pistões ou a anatomia dos motores, o que lhe interessa é “a estrada”, a forma dos caminhos que se insinua tanto no “perfil de uma colina” como na “anca de uma mulher”. O seu desígnio, descobre um dia, é “construir uma pista para automóveis de corrida” como ainda ninguém inventou: um lugar fechado onde se anda às voltas e “não se vai a lado nenhum”.
Esta História acompanha a concretização desse desígnio, mas infelizmente a dispersão narrativa de Baricco, empurrada pelos seus experimentalismos formais e por um estilo que abusa das frases de efeito, fura os pneus ao que podia ser um fresco do século XX – ou, pelo menos, uma elegia à aceleração das vidas humanas trazida pelos avanços tecnológicos. Baricco não resistiu a incluir no livro os dramas da I Guerra Mundial (focando-os na catastrófica retirada das tropas italianas em Caporetto) e a centrar o enredo no implausível romance entre Ultimo e Elizaveta, uma aristocrata russa que fixa quase tudo num diário, entre 1923 e 1969. Quando esta consegue, por fim, ressuscitar o circuito com 18 curvas que condensa a vida do amante perdido, um engenheiro pragmático avisa-a: uma tal pista é “intrasitável”. Como este romance, acrescentamos nós, lamentando ver desbaratada de forma inglória uma ideia fortíssima.
Os tropeções e equívocos de Baricco não retiram brilho, porém, ao extraordinário prólogo do romance (Ouverture sobre uma épica corrida Paris-Madrid, em 1903, tão acidentada que não chegou ao fim). Só por estas 14 páginas, exemplo perfeito do que a literatura pode e deve ser, vale a pena comprar um livro que não chega a cumprir o que o seu arranque avassalador promete.
Nota final para a cuidadíssima tradução de Simonetta Neto, capaz de atravessar, sem uma arranhadela, as sinuosas idiossincrasias do estilo de Baricco.
Avaliação: 4,5/10
[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Um poema de Hugo Claus
GRAVO-TE NO PAPEL
(do poema O Grilo de Pedra)
Minha mulher, meu altar pagão,
que toco e afago com dedos de luz,
meu bosque viçoso onde hiberno,
sinal neurótico, terno, impudico,
gravo o teu bafo e o teu corpo no papel
em papel de música pautado.
E contra o teu ouvido sussurro horóscopos felizes
e falo-te de viagens à volta do mundo
com paragem na Áustria ou coisa do género.
Mas apesar dos deuses e dos signos do Zodíaco
a felicidade eterna também se cansa,
e eu não tenho casa, não tenho cama,
nem flores para te oferecer nos teus anos.
Gravo-te no papel
enquanto inchas e desabrochas como um pomar em Julho.
[do livro Een huis dat tussen nacht en morgen staat, Uma casa entre a noite e a alvorada, trad. de Ana Maria Carvalho, revista DiVersos n.º 13, Junho de 2008]
A Livrododia vista por um adulto de 36 anos
É menos vertiginosa e pixelizada do que esta, captada por uma criança de seis anos:
Em vez da correria com câmara à mão (ou máquina fotográfica digital à mão?), eu optaria por uma sequência de planos fixos da escola Manoel de Oliveira, longos de cinco minutos para se perceber como é a atmosfera de uma das melhores livrarias que tive o prazer de visitar nos últimos tempos, durante umas férias que apontaram, não por acaso, à zona Oeste.
422
São 422, os romances originais concorrentes ao Prémio LeYa. Quatrocentos e vinte e dois cães a um osso. E um osso que no fim de contas pode não passar de uma ilusão.
As nossas palavras ditas por outros
Como aqui, na 36.ª estação de inverno, um programa de João Blake, emitido pela rádio Zero.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (QuidNovi), por Álvaro Manuel Machado
- Mais uma Noite de Merda nesta Cidade de Treta, de Nick Flynn (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
- A Escrava de Córdova, de Alberto S. Santos (Porto Editora), por Luísa Mellid-Franco
- Pensadora entre as Coisas Pensadas, de Agustina Bessa-Luís e Aniello Angelo Avella (Guimarães), por António Valdemar
- A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, de Bill Bryson (Quetzal), por Luís M. Faria
- Deus Apesar de Tudo, de Jacques Duquesne (ASA), por Mário Robalo
- A Cultura Integral do Indivíduo - Conferências e outros escritos, de Bento de Jesus Caraça (Gradiva), por Nuno Crato
- Filho Pródigo, de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
Tirar a limpo
Tal como eu temia, o comentário que transcrevi no post anterior é de um anónimo interessado em armar confusões e não do verdadeiro António Luís Catarino, que se apressou a enviar-me este e-mail:
Já não é a primeira vez que acontece. Inclusivamente, no seu blogue, já apareceu o mesmo tipo de comentários de alguém que se faz passar por mim. Não, não sou eu e seria impossível qualquer tipo de venda da Deriva. Fundei a editora, tenho por ela um carinho muito especial e mantenho o mesmo projecto editorial com as pessoas que se identificam connosco. Ultrapassando todas as dificuldades que vão aparecendo pelo caminho. Devido a este tipo de comentários em meu nome formalizarei, na próxima semana, uma queixa-crime contra desconhecidos no DIAP do Porto, estando a ouvir alguns conselhos legais e a ultimar os documentos necessários para o efeito.
Obrigado pelo seu pedido de esclarecimento.
Os meus sinceros cumprimentos,
António Luís Catarino
Resta saber, agora, qual é afinal a editora que Paulo Teixeira Pinto tenciona adquirir.
A Deriva de Paulo Teixeira Pinto?
Por vezes, há notícias que estão mesmo à nossa frente e parece que ninguém dá por elas. Na sexta-feira, o blogue da revista Ler escreveu que “Paulo Teixeira Pinto poderá anunciar muito em breve a sua nova operação no meio editorial português – trata-se da aquisição de uma editora”. Agora reparem no quinto comentário a esse post. Diz assim:
“Apenas para dizer que estamos muito honrados por termos sido escolhidos por Paulo Teixeira Pinto, sobretudo pelo nosso catálogo de nova poesia portuguesa. A Deriva é uma editora que tem lutado por impor-se, e finalmente conseguiu-o. Um enorme agradecimento a todos quantos nos ajudaram nesta missão.”
Quem assina o comentário é um ALC que remete para este perfil público da plataforma de blogues do Sapo. Ora acontece que António Luís Catarino é o nome do principal responsável editorial da Deriva, cabendo-lhe nomeadamente a actualização do respectivo blogue.
Se o comentário foi de facto escrito por António Luís Catarino, temos notícia. Se o comentário pertence a um qualquer anónimo engraçadinho, temos apenas mais um exemplo de como a internet pode induzir em erro.
Assim que souber qual das duas opções está certa (e estou neste momento a tentar descobrir), digo qualquer coisa.
Nulle Part
Ne cueille pas les fruits tardifs ou les semailles abandonnées ni ne récolte des épines ce qui fut jeté aux épines : tu serais sot. Pourquoi approuver ce que les autres méprisèrent ? Si tu cherches la sagesse et l’instruction ne campe pas dans le collège des prévaricateurs, même s’ils te promirent du vin et de la manne ; leur vin fut craché para eux et la manne te fut offerte après une dégustation insipide. Il est préférable que tu ne les connaisses point. Réserve toute inclination matinale pour la réflexion vespérale. Elle t’aidera à franchir la première comme de l’or expérimenté et d’accord avec les lois. Tu épargneras ainsi beaucoup de jours à ta souffrance. Sois attentif à tout ce que tu rejetas et médite. Il est possible que tu oublies le visage dont tu te dévias ; ou qu’en te déviant une fois tu puisses maintenant mieux savoir le motif et ainsi ne pas te dévier, comme souvent dit le sage. Le temps est le plus féroce de tes ennemis. Conduis ta charrue sur du gravier qui te connaît. Et ne te promènes point par des chemins connus des autres. Car de la même façon que ces chemins les connaissent et les ramènent chez eux, ton chemin te ramènera et te reconnaîtra davantage. Tu ne voudrais pas que ton propre chemin se prostitue et qu’il ramène d’autres chez toi. Ce serait inopportun. Ne foule pas le chemin qui est des autres. Te méconnaissant, il te conduirais aussitôt à leur demeure et à leur demeure tu y serais conduit et perdues seront toutes tes épiceries. Ne souffre pas en excès la douleur des autres. Car comment pourrais tu ressentir ta propre douleur une fois épuisée celle des autres ? Songe bien à mes leçons pour qu’elles soient comme une parure dans d’éternelles fiançailles. Aux prévenus appartient la consolation et aux connaisseurs la joie. Il n’y a pas de raison pour militer dans une guerre qui n’est pas la tienne et donner ta chair comme rançon aux tyrans. Les jours te seront légers si tu suis mes conseils. A quoi de bon la précaution si elle n’est pas durable ? Tu ravageras tout ton arsenal dans le plus bref de tes sommeils. Même la plus lourde des nuits se réveille avec la plus silencieuse des étincelles. N’offre pas tes lèvres aux joies précoces ni ta langue aux célébrations éphémères, car nombrables furent ceux qui se réjouirent dans les fêtes étrangères. Quand tu écouteras le cliquetis des cadeaux et le vacarme chez ton voisin, ne soit pas sot d’y courir. En arrivant précipitamment, il est bien possible que tu découvres que c’est toi le motif de la fête et de la raillerie et qu’ils se moquent encore plus de toi. Ton voisin est tant ton voisin comme tu es le sien, et il pourra un jour rire de toi comme toi de lui, car les demeures sont voisines. N’apaise pas tes études et considère sagement mes leçons. Quand tu seras vieux, les années te seront légères et bienfaisantes comme un huile et elles plaqueront tes souffrances. L’imprévoyant dit J’y vais, le sage Vas-y. Quand quelqu’un tombera devant toi, soit attentif aux raisons de sa chute et ne te précipite pas à le soulager comme un sot. Ne dis pas Demain il est possible que ce soit moi, quand tu l’as déjà été hier. Échoués seront tes desseins si tu ne reconnaît pas en toi la férule et l’ardoise. Munis-toi des choses qu’il convient à un élève et n’ose jamais l’enseignement : à quoi de bon enseigner ce que tu connais déjà ? Ce que tu connais est du lait caillé et de la matière morte : suis plutôt de nouveaux chemins.
[Excerto do sermão da personagem «o Sábio», retirado da peça teatral Nenhures (Cotovia), de Daniel Jonas, traduzido para francês por João Pedro da Costa]
Bertelsmann continua em Portugal
Depois da entrada em cena da LeYa, foram surgindo vários rumores que davam a entender que a Bertelsmann poderia abandonar o mercado português, onde detém o Círculo de Leitores, o grupo Pergaminho e as editoras Temas & Debates, Quetzal e Bertrand (mais a respectiva rede de livrarias e distribuição). Aparentemente, os rumores eram falsos.
Depois da capa da ‘Ler’, os EUA (e o Mundo)
Um poema de Daniel Jonas, traduzido por João Pedro da Costa
LES CANARDS
Les canards qui voguaient au fil
des poèmes de Mandelstam,
encore une fois : les canards qui patinaient
les poèmes de Mandelstam
m’ont rendu visite comme si
un soleil et un lac limpide
m’appartenaient.
Et moi, si indigne de recevoir de
créatures si pures, si blanches,
j’ai essayé de dissuader ces
créatures si pures, si blanches,
de vouloir ainsi apparaître
dans cet atoll
dans ce brai.
[O poema original foi publicado no livro Os Fantasmas Inquilinos, Cotovia, 2005]
DJ en français
O João Pedro da Costa, velho amigalhaço desta coisa dos blogues, fez-me uma daquelas propostas irrecusáveis:
«Tenho estado a traduzir alguns poemas do Daniel Jonas para Francês e lembrei-me que poderias porventura estar interessado em publicá-las no teu blogue. As traduções foram feitas a pedido do autor que vai estar num encontro de poetas mediterrânicos (…), onde poderá surgir a possibilidade de publicar os mesmos numa editora francesa. Que me dizes?»
E o que é que eu haveria dizer? Que sim, claro. E com todo o prazer. O primeiro poema sai já a seguir.
Prova Oral
Logo à tarde, a partir das 19h00, respondo na Antena 3 às perguntas do Fernando Alvim e da Cátia Simão. A ver se não chumbo.
Melancolia e vento turvo
Velhos
Autor: Jorge Gomes Miranda
Editora: Teatro de Vila Real
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-95686-3-1
Ano de publicação: 2008
Uma das características da obra recente de Jorge Gomes Miranda – poeta dos mais activos no nosso país (dez títulos desde 2002, em sete editoras distintas) – é o modo como altera o tom e as coordenadas da sua escrita, de livro para livro, criando para cada um deles universos autónomos, com uma lógica interna muito vincada. Se em O Acidente (Assírio & Alvim, 2007) eram os objectos do quotidiano – lâminas de barbear, chávenas, cassetes, molas da roupa – a descrever o embate de um homem contra uma ausência que tudo devora, em Velhos é de um ciclo épico que se trata, com direito a proposição, invocação e dedicatória, mais o improvável coro de tragédia grega, acomodado nas “cadeiras de plástico” de um lar de idosos. “Velhos, divinos velhos, como esquecer-vos?”, pergunta JGM, tratando esses “soberanos escorraçados da beleza” com um respeito que o resto da sociedade, por acção ou omissão, deixou de lhes prestar.
Com os corpos inclinados “na direcção do inverno”, os velhos avançam até ao “proscénio do poema” e ali ficam, à mercê da memória ou de um golpe de súbita ternura, esperando que os leitores não os abandonem à sua sorte. A atmosfera do livro está saturada de melancolia e “vento turvo”, mas também do rancor amargo com que os “patifezinhos de segunda”, sentindo próxima a hora, inventam maldades, embirrações e vinganças para enganar o medo.
Só é pena que alguns poemas de coloquialidade algo forçada, cheios de exclamações (há um com cinco), acabem por comprometer, lá mais para o fim, a coerência até aí impecável do conjunto.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Aos 40, como aos 25
Quinze anos depois de ter sido escolhido como o Booker dos Bookers, o romance Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, mantém o estatuto. Resta saber se alguém será capaz de o destronar na próxima década (e, já agora, se continuará no topo da lista em 2068).
Crónicas de um bibliotecário-ambulante
No domingo, em viagem, ouvi uma reportagem na Antena 1 sobre o Bibliomóvel, uma biblioteca itinerante que anda a espalhar o gosto pelos livros no concelho de Proença-a-Nova (até entre os analfabetos). Depois, descobri o blogue de Nuno Marçal, o homem que conduz a carrinha. Vale a pena espreitar o seu trabalho, mas também ouvir as suas histórias, caso a rádio volte a passar aquela peça notável.
O cartão mais do que perfeito
Efeito Borboleta (o conto), translated
Uma das surpresas que tínhamos previsto para o encontro na Livraria Pó dos Livros, entre mim e o Bruce Holland Rogers, era a leitura mútua de histórias. Eu leria um conto do seu livro Pequenos Mistérios (inclinava-me para este, mas O Rei Duende talvez impressionasse mais a assistência), enquanto o Bruce dar-me-ia a honra de dizer em voz alta o primeiro texto do livro Efeito Borboleta, traduzido à velocidade da luz (e com diálogos em tempo real via GTalk) pelo Luís Rodrigues.
À laia de magro consolo, aqui deixo essa versão em inglês:
The Butterfly Effect
José Mário SilvaThe man stands in front of the mirror. It’s September outside, and the wind carries leaves, detritus and dust away with it, the wind shakes the branches of trees, pushes black clouds threatening rain, the wind sweeps everything away outside, and the man watches his face closely, as if he had never seen those three horizontal creases on his forehead, the mole by his lower lip, the pale gray bags under his eyes or the wisp of white hair that overhangs his temple.
The man is very still. He looks in the mirror and thinks of all he has to do that afternoon. Mow the lawn, move the firewood into the cellar, prune the rosebushes, pen a few letters, play chess with the Colonel, translate a few lines from Horace, take a sip of warm rum, listen to some of Froberger’s pieces for harpsichord, read Baudelaire aloud to an assembly of cats, fasten the attic windows against the wind.
The man imagines himself carrying out these tasks. Each movement of the afternoon, individualized. Pushing the lawnmower, flexing his knees and bending down to pick up the wood, squeezing his right hand around the pruning shears. He mentally performs every one of these actions as if he were able to isolate them from his own body.
The man does not move. He thinks back on the article he read half an hour ago. Downstairs, while sitting in his armchair, with a cat on his lap and a cup of tea in his hand. Appearing in a science magazine, the article outlines a theory which — broadly — states the following: minute variations in the initial condition of a system may produce greater variations in its outcome. The author gives this phenomenon a name, the butterfly effect, and provides a suggestive image: a butterfly flapping its wings somewhere in the Amazon Rainforest may cause a tornado over in Texas. This idea upsets him. Worse yet, this idea brings about a kind of paralysis in him.
The man is puzzled. He considers many possible applications of the butterfly effect. A Romanian police officer kicks down a door in Bucharest and causes an earthquake in Greenland; a woman kisses her lover and hastens her husband’s heart attack; palms struck by a ruler in a Cairo school cause heavy rain to fall in Auckland; one of his cats kills a fly and a plane crashes in Patagonia.
The man is in agony. In his mind, reality takes on the form of an immense web where everything is connected, where everything depends on everything else. He is the center of this web. And invisible strings will not allow him to move.
The man gives up. He is still because he is afraid any sudden move will wreck a ship. He is afraid every cut rose will raze a city. Standing motionless in front of the mirror, he will hardly breathe now, convinced that his moving body will eventually destroy the world.
Uma pena
Regresso a casa, abro o GMail e deparo logo com a má notícia: por motivos de força maior, o escritor Bruce Holland Rogers teve que cancelar a sua vinda a Portugal. Logo agora que eu me preparava para defender a honra dos lepidópteros face à biologicamente comprovada superioridade dos passariformes:
Espero que o encontro de quarta-feira não tenha sido cancelado de vez mas apenas, como diria o Rogers, postponed.
Segunda oportunidade
No próximo dia 24, quinta-feira, pelas 18h30, na FNAC do Chiado, acontecerá outra apresentação pública do livro Efeito Borboleta e outras histórias. Desta vez, Ana Sá Lopes falará sobre a obra e Pedro Mexia lerá alguns dos contos.
Mini-férias
Hoje recebi por e-mail um anúncio a piscinas em betão, “a preço low cost” (sic). Foi uma espécie de sinal. O Verão chegou de vez, com a silly season atrás. E este blogue vai parar durante uma semana, para que o respectivo blogger possa recuperar do excesso de canseiras acumuladas nos últimos meses.
Quando estiver de volta, lá para dia 14, talvez o ritmo de actualização melhore. E se houver uma boa rede de cibercafés na costa oeste, a norte de Peniche, pode ser que apareça por aqui algum post tresmalhado (mas não prometo).
Até já.
A consistência da internet
Agora a exposição A Consistência dos Sonhos também pode ser percorrida virtualmente, online.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- Lacrimae Rerum, de Slavoj Žižek (Orfeu Negro), por Francisco Frazão
- Correspondência e Textos Dispersos (1942-1979), de Joaquim Paço d’Arcos (Dom Quixote), por António Valdemar
- Lápis Mínimo, de Ana Marques Gastão (Oceanos), por Álvaro Manuel Machado
- Fidel, de José Fernandes Fafe (Círculo de Leitores), por Nair Alexandra
- Rumo ao Farol, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Rogério Casanova
- A Ferver, de Bill Buford (Sextante), por Luís M. Faria
- Duluoz, o Vaidoso, de Jack Kerouac (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Esta História, de Alessandro Baricco (Dom Quixote), por José Mário Silva
- entre outros
1001 Culturas
Hoje e amanhã, na Fábrica do Braço de Prata (Lisboa), discute-se “Esquerda e cultura”, sob o lema “o futuro já não é o que era”. O programa é excelente e abre esta tarde (17h45) com uma conversa de Nuno Ramos de Almeida com Slavoj Žižek, sobre “Esquerda, cultura e pensamento crítico, hoje”. A não perder.
Dois poemas de Manuel A. Domingos
Talvez o conheçam como blogger, mas ele é também poeta, agora com um segundo livro a chegar às livrarias. Intitula-se Mapa e vale a pena uma pessoa perder-se lá dentro.
Eis a capa:
E eis dois poemas:
quando nos juntávamos
o tema era sempre
o mesmo. mas muitas
vezes discutiam-se
outros, e até ideias como
a imortalidade ou
não da alma: e fumar
tornava-se mais
pertinente. as conclusões
ficavam sempre
com cada um, ou então
deixadas em cima da mesa,
à espera que alguém as limpasse.
eram longos e luminosos
os dias, apesar do preto
que predominava
nas nossas roupas
e em alguns poetas
que líamos, de quem
decorávamos sempre
alguns versos. como
por exemplo estes:
«Par délicatesse
j’ai perdu ma vie».
LONDRES
nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes. nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.
Pássaros & Borboletas
A livraria Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar, 89 A, Lisboa) acolhe, no próximo dia 16, pelas 18h30, um encontro sobre micronarrativa “e o que de fascinante ela tem para quem a produz e quem a lê”. Lado a lado, estarão um gigante (Bruce Holland Rogers, autor de Pequenos Mistérios) e um pigmeu (este vosso humilde escriba).
Nesse mesmo dia 16, tem início o Curso de Escrita Criativa que Bruce Holland Rogers vai dar em Lisboa, integrado nos Cursos de Verão da FCSH da Universidade Nova.


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