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Por uma Esquerda que não permaneça, de braços caídos, passiva e mole, a assistir ao colapso de todas as suas conquistas

Eis o Manifesto para uma Esquerda Livre:

«Portugal afunda-se, a Europa divide-se e a Esquerda assiste, atónita.
As raízes desta crise estão no desprezo do que é público, no desperdício de recursos, no desfazer do contrato social, na desregulação dos mercados, na desorientação dos governos, na desunião europeia e na degradação da democracia.
Em Portugal e na Europa, a direita domina os governos, as instituições e boa parte do debate público. A direita concerta-se com facilidade, tem uma agenda ideológica e um programa para aplicar. A direita proclama que o estado social morreu e que os direitos, a que chamam adquiridos, são para abater.
Em Portugal e na Europa, a esquerda está dividida entre a moleza e a inconsequência. Esta esquerda, às vezes tão inflexível entre si, acaba por deixar aberto o caminho à ofensiva reaccionária em que agora vivemos, e à qual resistimos como podemos. Resistir, contudo, não basta.
É necessário reconstruir uma República Portuguesa digna da palavra República e construir uma União Europeia digna da palavra União.
É preciso propor aos portugueses, como aos outros europeus, um horizonte mais humano de desenvolvimento, um novo caminho para a economia e um novo pacto de justiça social.
É possível fazê-lo. Uma esquerda corajosa deve apresentar alternativas concretas e decisivas para romper com a austeridade e sair da crise, debatidas de forma aberta e em plataformas inovadoras.
A democracia pode vencer a crise. Mas a democracia precisa de nós.
Apelamos a todos aqueles e aquelas que se cansaram de esperar – que não esperem mais.
É a nós todos que cabe construir:
UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efectivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.
UM PORTUGAL MAIS IGUAL, socialmente mais justo, que respeite o direito ao trabalho condigno e combata as injustiças e desigualdades que o tornam insustentável. Um país decidido a superar a crise com uma estratégia de desenvolvimento económico e social, com uma economia que respeite as pessoas e o ambiente, numa democracia mais representativa e mais participada, com um Estado liberto dos interesses particulares que o parasitam.
UMA EUROPA MAIS FRATERNA, à altura dos ideais que a fundaram, transformada pelos seus cidadãos numa verdadeira democracia. Uma Europa apoiada na solidariedade e na coesão dos países que a formam. Uma Europa que ambicione um alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental. Uma União que faça do pleno emprego um objectivo central da sua política económica, que dê um presente digno aos seus cidadãos e um futuro promissor às suas gerações jovens.»

Eu já assinei, aqui. A apresentação pública deste manifesto acontecerá amanhã, 17 de Maio, às 11h30, no Café do Cinema São Jorge, em Lisboa.

Noites do ‘Mauritânia’

O Mauritânia Real é um dos restaurantes de Matosinhos que costuma reunir escritores à conversa, durante as edições do LeV (Literatura em Viagem), o encontro literário que costuma decorrer no final de Abril, sempre com muito público a assistir às sessões na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, mas foi este ano cancelado por razões financeiras que comprometeram o apoio da autarquia ao projecto. O organizador do LeV, Francisco Guedes, não baixou os braços e resolveu «abrir outra porta», para que «o público ligado a estas coisas da cultura tenha onde ir quando se sentir mais pachorrento». Nasceu assim a ideia de jantares-encontros com escritores, a realizar todas as quintas-feiras, até 15 de Julho, justamente no Mauritânia Real. As marcações fazem-se para o 96.230.07.66 (Artur), ao preço de 25 euros (com direito a «repetir sólidos e líquidos»).

Balanço da Feira do Livro

Apesar dos bons resultados em termos de afluência e de vendas, uma grande parte dos editores presentes protestaram contra as datas e os horários da edição deste ano da Feira do Livro de Lisboa. E com toda a razão. Não faz sentido que a Feira abra portas no fim de Abril (sujeita à instabilidade meteorológica) só para satisfazer os timings do presidente da Câmara do Porto.

O que aí vem (Cavalo de Ferro)

Rashōmon e Outras Histórias, de Ryūnosuke Akutagawa; Arde o Musgo Cinzento, de Thor Vilhjálmsson; O Escritor-fantasma, de Zoran Živković.

Oito meninos juntos decidem contar uma história

Na Leitura Furiosa de 2010, couberam-me seis alunos do ensino básico. Na de 2011, cinco homens a quem a vida pregou rasteiras. Este ano, voltei à escola e trabalhei com oito crianças da Escola n.º 10 do Castelo (Lisboa).
Ei-las:


Cátia Conceição, 7 anos


Aurora Gomes, 7 anos


Ana Francisca Teixeira, 8 anos


Alexandre Monchique, 7 anos


João Alves, 7 anos


Beatriz Almeida, 7 anos


Joana Matos, 8 anos


Ysabel Silva, 7 anos

E a fotografia de grupo:

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Juan Marsé, autor de Caligrafia dos Sonhos (Dom Quixote), e recensão ao livro, por José Mário Silva
- O Bibliófilo Aprendiz, de Rubens Borba de Moraes (Letra Livre), por Manuel de Freitas
- Morte de uma Estação, de Antonia Pozzi (Averno), por Pedro Mexia
- Barro, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por António Guerreiro
- Os Cães, de Ola Nilsson (Eucleia), por Ana Cristina Leonardo
- Índia – Uma Biografia Íntima, de Patrick French (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- A Próxima Década, de George Friedman (Dom Quixote), por Cristina Peres
- Escolhas de Anabela Mota Ribeiro

Leitura Furiosa (este fim-de-semana)


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O que aí vem (Saída de Emergência)

A Brisa do Orient (Vol. 2), de Paloma Sánchez Garníca; Nero, de Vincent Cronin; Luz e Sombras, de Anne Bishop; A Jóia Encantada, de R. A. Salvatore; A Jornada do Assassino, de Robin Hobb.

Quatro poemas de Manuel Alegre

OS SANTOS DE RIBERA

Os santos de Ribera têm as unhas sujas
cabelo curto
a barba por fazer em rostos curtidos e morenos
os santos de Ribera são todos espanhóis
camponeses apóstolos cor de terra
só o corpo de Cristo tem a palidez
de uma lua morta de Andaluzia
e não há rosto mais de povo do que o rosto
de Maria.
Os santos de Ribera são outra fé
outra hierarquia.

***

DEZEMBRO NAS MARGENS DO RIO

Aqui nas águas do rio
quantas vezes nos banhámos
mas agora ninguém chama
ninguém salta dos salgueiros
para o fundão junto à nora
ninguém à tarde assobia
para olharmos no areal
as pernas das lavadeiras.
Dezembro diz-se com frio.
Diluídos na neblina
vão aqueles que se banhavam
comigo nas águas do rio.

***

OS GUERREIROS

Subitamente saíram da sombra.
Vinham de cara ao sol
com suas armas cintilantes
soltando grandes gritos de combate
para morrer diante da cidade
que ninguém sabe ao certo onde ficava
e talvez fosse apenas
uma palavra.

***

ARTE POÉTICA

Nada se sabe
que já não se saiba.

Nada se escreve
que não esteja escrito.

Mas nada se sabe
nada está escrito.

[in Nada Está Escrito, Dom Quixote, 2012]

Bairro dos Livros

Fica no Porto e está com nova dinâmica, novo fôlego, novo impulso para marcar a vida cultural da cidade. Todas as informações (das livrarias aderentes às vantagens para o leitor) podem ser consultadas aqui.

O que aí vem (Dom Quixote)

Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa; Até ao Fim da Terra, de David Grossman; Goodbye, Columbus, de Philip Roth; Pornografia, de Witold Gombrowicz; A Coisa à Volta do Teu Pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie; Caçadores de Cabeças, de Jo Nesbø; Fórmulas de uma Luz, de Nuno Júdice.

Tolstoi ou Dostoievski?

Uma discussão apaixonante e sem resposta lógica que não seja «os dois». É como o duelo Messi-Cristiano Ronaldo, só que aplicado à literatura russa do século XIX.

‘O que é ler?’ (terceira parte)

Depois deste e deste, eis o último vídeo de celebração dos 25 anos da revista Ler, com sete escritores (Eduardo Sacheri, Inês Pedrosa, Margarida Vale de Gato, Helena Vasconcelos, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Miranda e Onésimo Teotónio Almeida) a dizerem em que consiste, para cada um deles, o acto da leitura.

As seis regras de John Updike

Num texto de 1977, John Updike resumiu um conjunto de seis regras a seguir pelos críticos literários, no exercício do seu trabalho. Ei-las:

«1. Try to understand what the author wished to do, and do not blame him for not achieving what he did not attempt.
2. Give him enough direct quotation–at least one extended passage–of the book’s prose so the review’s reader can form his own impression, can get his own taste.
3. Confirm your description of the book with quotation from the book, if only phrase-long, rather than proceeding by fuzzy precis.
4. Go easy on plot summary, and do not give away the ending. (How astounded and indignant was I, when innocent, to find reviewers blabbing, and with the sublime inaccuracy of drunken lords reporting on a peasants’ revolt, all the turns of my suspenseful and surpriseful narrative! Most ironically, the only readers who approach a book as the author intends, unpolluted by pre-knowledge of the plot, are the detested reviewers themselves. And then, years later, the blessed fool who picks the volume at random from a library shelf.)
5. If the book is judged deficient, cite a successful example along the same lines, from the author’s ouevre or elsewhere. Try to understand the failure. Sure it’s his and not yours?
To these concrete five might be added a vaguer sixth, having to do with maintaining a chemical purity in the reaction between product and appraiser. Do not accept for review a book you are predisposed to dislike, or committed by friendship to like. Do not imagine yourself a caretaker of any tradition, an enforcer of any party standards, a warrior in an idealogical battle, a corrections officer of any kind. Never, never (John Aldridge, Norman Podhoretz) try to put the author ‘in his place,’ making him a pawn in a contest with other reviewers. Review the book, not the reputation. Submit to whatever spell, weak or strong, is being cast. Better to praise and share than blame and ban. The communion between reviewer and his public is based upon the presumption of certain possible joys in reading, and all our discriminations should curve toward that end.»

Concordo particularmente com esta frase: «Better to praise and share than blame and ban.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- O Legado de Humboldt, de Saul Bellow (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
- Baque, de Fabio Weintraub (Língua Morta), por António Guerreiro
- Revista Portuguesa de História do Livro, vol. 28 (Távola Redonda), por Luísa Meireles
- Éramos Felizes e Não Sabíamos, de Pedro Vieira (Quetzal), por Pedro Mexia
- A Confissão da Leoa, de Mia Couto (Caminho), por José Mário Silva
- Escolhas de Luís Soares

O que aí vem (Livros Horizonte)

Sexo & Amores: não vás às escuras, de Adele Cherreson Cole; Psico-truques para crianças dos 3 aos 6 anos, de Suzanne Vallières; Design Gráfico em Portugal, de Margarida Fragoso; Três Tristes Tontos, de Tony Ross (infantil); Não berres comigo, pai!, de Philip Waechter/Moni Port (infantil).

Revista ‘Ler’, n.º 113


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Já nas bancas.

Onde estão vocês, romancistas?

Querem melhor início de narrativa pós-moderna sobre o apocalipse da nossa civilização do que as invasões às lojas do Pingo Doce em pleno 1.º de Maio (com toda a carga simbólica da usurpação da luta dos trabalhadores, perversamente sobreposta, até em tempo de antena nos noticiários, pela mais desesperada luta darwiniana entre vítimas da crise)? Algures entre o Saramago de Ensaio sobre a Cegueira e J.G. Ballard, está aqui um romance à espera de ser escrito.

‘Lucerna’

O primeiro número da revista literária digital da Fundação José Saramago, dirigida por Sérgio Machado Letria e escrita pela dupla Sara Figueiredo Costa/Andreia Brites, já está disponível. Aqui. Na secção final, ‘Saramaguiana’, podem ser lidas três aproximações ao romance Claraboia (editado postumamente no ano passado), por Fernando Gómez Aguilera, Hector Abad Faciolince e Pilar del Río.

Debate na Feira do Livro

Logo à noite, a partir das 21h00, no Auditório da APEL (Feira do Livro de Lisboa), estarei à conversa com Hélia Correia e Dulce Maria Cardoso.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Mia Couto, autor de A Confissão da Leoa (Caminho), por José Mário Silva
- O Jazz da Bancarrota, de Paul van Ostaijen (7Nós), por António Guerreiro
- Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas (Teodolito), por Pedro Mexia
- Sonata para um Viajante, de Dimas Simas Lopes (Calendário de Letras), por Carlos Bessa
- Os Imperfeccionistas, de Tom Rachman (Presença), por José Guardado Moreira
- Acerto de Contas, de António de Sousa Duarte (Âncora), por Bruno Roseiro
- How to be a Woman, de Caitlin Moran (Ebury Press), por Jorge Manuel Lopes
- Escolhas de Hélia Correia

A arte de desenhar capas de livros

Chip Kidd, um dos mestres do ofício, explica como se faz numa das conferências TED. Depois da abertura, excessivamente americana e apalhaçada, vale mesmo a pena.

O que aí vem (Planeta)

Luto pela Felicidade dos Portugueses, de Rui Zink; Voltar, de Sarah Adamopoulos; Uma Argola no Umbigo, de Alexandre Honrado.

Há uma razão para os livros velhos cheirarem bem

E é química: «The ink and chemicals used in the production of a book reacts with heat, moisture and light, causing the organic materials to break down. This is especially true for books with high acidity, like those made during the 19th and 20th centuries.» Os investigadores descrevem os compostos orgânicos voláteis que se libertam quando folheamos um volume antigo desta forma: «A combination of grassy notes with a tang of acids and a hint of vanilla over an underlying mustiness.» Os críticos enófilos não diriam melhor.

World Book Night

É logo à noite.

Faltam poetas em Londres

More than 20 writers are still needed for an event to include a poet from every nation competing in the 2012 Olympics and Paralympics.

Dia Mundial do Livro

É hoje.

João Queiroz na Letra E

O encontro de ontem, resumido e ilustrado aqui.

O que aí vem (Dom Quixote)

Nada Está Escrito, de Manuel Alegre; Caligrafia dos Sonhos, de Juan Marsé; O Testamento Final da Bíblia Sagrada, de James Frey; e reedições de Um Espião Perfeito, de John Le Carré, e As Três Vidas, de João Tordo.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- O Tempo Envelhece Depressa, de Antonio Tabucchi (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Dançar a Vida – Memórias, de Jorge Salavisa (Dom Quixote), por Cristina Margato
- Ensinar o Caminho ao Diabo, de Miguel-Manso (Edição de Autor), por Pedro Mexia
- A Revolta de Beja, de José Hipólito dos Santos (Âncora), por José Pedro Castanheira
- Uma Sociedade Funcional, de Peter F. Drucker (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- O Universo Explicado aos Meus Netos, de Hubert Reeves (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
- Escolhas de Alexandra Lucas Coelho

Insolvência da CESodilivros

Do editor da Antígona, Luís Oliveira, recebi há pouco este comunicado:

«A CESodilivros, a maior distribuidora de livros em Portugal, no mercado há mais de vinte anos, acaba de pedir a insolvência, deixando em grandes dificuldades e com muitas dívidas as mais de quarenta editoras que distribuía, incluindo a Antígona e a Orfeu Negro.
Os administradores desta empresa, o Sr. José da Ponte e o Dr. João Salgado, o patrão da mesma e também proprietário da Coimbra Editora, têm-se comportado como descarados malfeitores. Quase todas as distribuidoras de livros faliram nos últimos trinta anos.
Há aqui um erro; onde está esse erro?
Os meios de comunicação social têm estado silenciosos, indiferentes à desgraça dos editores e do pessoal trabalhador da CESodilivros.
Jornais e televisões andam muito ocupados com as banalidades do Governo e afins.
Deseja-se que a partir desta comunicação acordem para este gravíssimo problema cultural, ficando a Antígona disponível para fornecer todas as informações necessárias.
Lisboa, 20 de Abril de 2012»

João Rui de Sousa na Biblioteca Nacional

Prémio Vida Literária 2012, até dia 28.

Bookstagram

Enquanto utilizador do Instagram, eu costumo fotografar páginas dos livros que ando a ler, frases ou versos que me apetece partilhar com quem navega por esta rede social feita de imagens. Hoje aprendi que há uma hashtag própria para quem desafia os outros com as suas leituras (#bookstagram) e que eu no fundo já andava a participar nesse jogo malgré moi.

Uma grande ideia

«Suppose someone took every meaningful detail from all the books you love. Every song mentioned, every person, every food or place or movie title. And what if they did that for all the books everyone else loves, too. The ones you’ve never heard of. Suddenly you’ve got a whole world of seemingly random people, places and things, all gathered in one place.
Together they create something vast, wonderful and entirely new. A Storyverse. A place where details touch, overlap and lead you further. To new music to listen to. New movies to watch. Places to visit. People to know. And of course, new books to read. Getting started is simple. Just choose a book. See where it takes you.
»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Jennifer Egan, autora de A Visita do Brutamontes (Quetzal), e recensão ao livro, por José Mário Silva
- Capitais, de Paulo Tavares (edição do autor), por António Guerreiro
- Onde Moram as Casas, de Carla Maia de Almeida e Alexandre Esgaio (Caminho), por Sara Figueiredo Costa
- A Filha do Optimista, de Eudora Welty (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho (Quetzal), por Pedro Mexia
- Escolhas de Karla Suárez

Pigmalião na neve

O Lago
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-641-266-1
Ano de publicação: 2012

Nos últimos livros de Ana Teresa Pereira, o teatro vem ocupando um lugar cada vez mais importante na densa rede de referências simbólicas da autora. Mas é em O Lago que se esbate de vez a fronteira – porosa e vagamente assustadora – entre palco e vida. Se na novela anterior (A Pantera), uma escritora (Kate) transformava o actor com quem se envolvia (Tom) em personagem de ficção, desta vez há um dramaturgo e encenador (também chamado Tom, o mais recorrente dos nomes-fétiches de ATP) que pretende converter uma actriz na própria essência da fugidia protagonista da sua peça. «Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa», diz-se a propósito de Kate em A Pantera. Essa quase equivalência torna-se agora absoluta, através de uma subtil reformulação da frase: «Não há qualquer diferença entre escrever e representar.»
Na primeira parte do livro, assistimos à aproximação entre Jane, uma actriz mediana, ex-bailarina que transporta a marca do seu falhanço (um dia caiu do palco e feriu o tornozelo; por isso coxeia ligeiramente quando se sente «perdida» ou «com medo»), e Tom, o dramaturgo/demiurgo à procura de transcendência: «Queria um mundo que fosse completo e perfeito em si mesmo. Como um buraco no universo.» Obsessivo, ele imaginou uma mulher na cabeça, no papel, e necessita de um corpo que se lhe adapte, «material para ser modelado». Os sinais estão todos à vista. A Tom, «sempre o seduzira a história de Pigmalião». Ou seja, só concebe amar um ser por si criado. E se escolhe Jane, apesar da sua inexperiência, é porque ela tem «alguma coisa de Audrey Hepburn» (a protagonista de My Fair Lady).
A peça de Tom decorre num só cenário (alpendre, paisagem de neve, lago ao fundo), com um homem e uma mulher a conversarem «em terreno familiar», e depois «mais fundo, onde fazia escuro, era perigoso, e não havia caminho de volta». Para que o enigmático texto liberte a sua corrente subterrânea de horror («mas talvez houvesse felicidade no horror»), é preciso que Jane seja «completamente» a personagem e passe «para o outro lado». Uma metamorfose que acontece no lugar onde a peça foi escrita: a única casa de um «vale maldito», isolada do mundo pelos rigores do Inverno. É ali que Tom esculpe tudo: um passado, memórias, gestos; um dia que se repete, sempre igual. Esta aproximação a «algo de abstracto» (talvez divino) exige uma «espécie de loucura», o fechamento num território assombrado. E na literatura portuguesa ninguém conhece melhor tais rarefeitas paragens do que Ana Teresa Pereira.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Kafka no Porto, este sábado


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«Se há escritor verdadeiramente inesgotável, esse escritor é Franz Kafka (1883-1924)», dizem eles. E dizem muito bem.

Quatro poemas de Miguel-Manso

ANTIMUNDO

Para o João Diogo

plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’

um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi

***

PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA

às Musas não interessam
drenagens, deixam alagar livremente
com o que sobrevém: a água do instante
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia
este palácio mergulhado nos silêncios
meio submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente

o espanto oculto do poema

***

POEM NOT FOUND

we cannot locate the poem you’re looking for

you may move to another poem by
turning the page

***

NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama: a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê) outro poema

[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor, 2012]

Porque devemos ler Homero em 2012?

Daniel Mendelsohn explica.

Pós-derby

Ou muito me engano, ou o narrador do mais recente livro do Joel Neto, cuja inexplicável conversão ao Benfica abre o romance (ver post anterior), deve estar hoje mais do que arrependido da triste heresia que cometeu.

PS – O Joel Neto, sportinguista acima de qualquer suspeita, gosta de testar os limites da ficção. Imaginar alguém capaz de trocar o Sporting pelo Benfica é um desafio à lógica, é um arriscado namoro com a impossibilidade, é um puro exercício de reductio ad absurdum. Ainda não li o livro, mas suspeito que não deve acabar nada bem.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges