Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Julián Fuks, sobre o livro A Resistência (Companhia das Letras), por José Mário Silva
Letra Aberta, de Herberto Helder (Porto Editora), por Pedro Mexia
Os Usurpadores, de Susan George (Bizâncio), por Luís M. Faria
Cabo Verde, Janelas de África, de Corsino Tolentino (Livraria Pedro Cardoso), por Cristina Peres
Adivinha em que mão está a moeda, de Benjamín Prado (Do Lado Esquerdo), por José Mário Silva
Sob a Pele – Conversas com Sara Antónia Matos, de Rui Chafes (Documenta), por Manuel de Freitas

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com José Eduardo Agualusa, a propósito da nomeação para a ‘longlist’ do Man Booker International Prize
Artigos Portugueses, de Miguel Tamen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Pós-Capitalismo, de Paul Mason (Objectiva), por Luís M. Faria
Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães (Quetzal), por José Mário Silva
A Crisálida, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Judas, de Amos Oz (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Águas Negras, de José Viale Moutinho (Lápis de Memórias), por Pedro Mexia
Entre Mim e o Mundo, de Ta-Nehisi Coates (Ítaca), por José Mário Silva
Gratidão, de Oliver Sacks (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Última Noite e Outras Histórias, de James Salter (Livros do Brasil), por José Guardado Moreira
Os Irmãos Wright, de David McCullough (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Amos Oz, autor de Judas (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Tudo Pode Mudar, de Naomi Klein (Presença), por Luís M. Faria
A Solidão Como Um Sentido seguido de Desespero, de Rui Almeida (Lua de Marfim), por José Mário Silva
Essa Terra, de Antônio Torres (Teodolito), por José Mário Silva
Amemo-nos Uns Aos Outros, de Catherine Clément (Porto Editora), por José Guardado Moreira
Noizz, de Rui Baião (Companhia das Ilhas), por Manuel de Freitas

A Verdadeira Biblioteca Ou Uma História Em Três Metades

Eis o belíssimo texto de Raquel Patriarca, lido nas Correntes d’Escritas, numa mesa intitulada ‘Quantos Livros Tem Um Livro':

«Primeira Metade: Sobre Começar um Texto
Quando eu era pequena, tinha muitos sonhos. Agora que sou maior, estou igual. Sonho com os pedaços do mundo que quero conhecer, os abraços que quero apertar, as imagens que quero criar, os livros que hei-de escrever. Estar aqui é um desses sonhos da idade adulta, arrumado na rubrica das coisas admiráveis de que é preciso fazer parte. Quando me imaginava aqui, começava sempre por agradecer às Correntes porque correm e por me levarem na correnteza. Agradecer o estar aqui agora e todas as vezes que estive aí e que, no fim do dia, regressei a casa maior. Não de tamanho, mas maior. Quando me imaginava aqui, depois de agradecer, fazia uma comunicação brilhante. Não me parecia muito difícil. Não sei porquê, nessa altura as ideias eram transparentes e ordenadas, as palavras respondiam à chamada sem atraso e sem engulho. Era preciso citar um autor de referência: Pessoa, Benjamin ou Borges; Camus, Barthes, ou Foucault. Falar de literatura e arte, de coisas verdadeiras e universais. Como se no mundo – ou em mim – não restassem dúvidas da minha sabedoria sobre todas as matérias.
Mas estas coisas só acontecem na minha imaginação. Sonho e nada mais. No momento em que chegou o convite, todo o dia me parecia feito de irrealidade. A cabeça ficou vazia e a página em branco. Afinal, é tudo muito difícil.
Sentei-me para escrever e não chegavam as frases que deviam iluminar-me as ideias. Fui à procura dos cadernos e das notas amarelas com os registos da genialidade alheia, e nada rimava com o tema ou a situação. Em ressonância longínqua das traseiras do cérebro, soava uma espécie de conselho que ouvi quando era pequena: “Sabendo muito do que falas, fala pouco. Sabendo pouco, fala quase nada. Sabendo nada, sorri”.
… (Pausa para o sorriso)
E assim, em vez de Benjamin, Borges ou Barthes, veio ajudar-me uma espécie de aforismo de Joaquim Patriarca, mestre-escola, guarda-livros, organista na Igreja de S. Pedro, emigrante, retornado, avô. E a conselho dele, porque falamos de livros, vou falar pouco.

Segunda Metade: Sobre o Meu Avô
Quando eu era pequena, fascinava-me a capacidade que o meu avô tinha para guardar objectos. Para ele nada existia que fosse imprestável. Mais cedo ou mais tarde, tudo ganhava serventia e, por isso, tudo se guardava em lugar próprio, rigorosamente ordenado. Esta filosofia, vim a percebê-lo mais tarde, levava-me a intuir que, até para mim – criatura algo estouvada, grande consumidora de mercurocromo, tantas vezes nas imediações de coisas indesejáveis como cacos ou nódoas –, até para mim, dizia eu, se guardava um lugar e uma função. E, enquanto não descobria o meu lugar e a minha função, fui absorvida no fascínio de como o meu avô se movia pelo mundo e da serenidade com que coleccionava todo o tipo de objectos.
As folhas soltas de papel e os fios de diferentes materiais, os tocos dos lápis que já mal serviam para escrever, as sementes que havia de pôr na terra, os pequenos pedaços de plástico que, mais tarde e com a ajuda de um canivete, transformava em mistérios de rezar, perfeitamente redondos e recortados: um buraco ao centro para o indicador, dez saliências em forma de pétala, uma para cada ave-maria, a cruz na décima primeira pétala, no lugar do pai-nosso.
Cada gesto do meu avô era feito com esmero e ternura. O vinco nas arestas dos embrulhos de correio e o nó direito que unia, em absoluta perpendicularidade, o cruzamento do cordão, a caligrafia pausada, aprumada, perfeita, a adivinhar que, naquele endereço, tinha de erguer-se um palácio. As canas enterradas na horta a estender fios de sisal que desenhavam uma espécie de guias, por onde se alinhavam os sulcos na terra, as sementes e as plantas.
Fascinavam-me as coisas que ele fazia mas, mais ainda, o vagar sereno que colocava em tudo. Uma alegria simples que enchia de plenitude os gestos mais comuns. Curiosamente desimportado do resultado final, o meu avô parecia absorver-se no encantamento – para nós invisível – de todas as tarefas a que se entregava, como se a função inteira da existência se guardasse naquele momento. Punha, de verdade, quanto era no mínimo que fazia, de maneira que despachar uma encomenda ou plantar morangueiros se transformavam em formas de arte.
Foi nesta altura, enquanto os meus avós se transformavam em memórias nucleares, que aprendi a relacionar-me com os livros. Eu não fui uma daquelas crianças adoráveis que, sentadamente sábias, amam os livros desde que se lembram de respirar. Gostava muito que me contassem histórias, como todas as crianças, mas adorava correr desenfreadamente pelas ruas íngremes que desciam da casa dos meus avós ao fundo da vila. Saltar muros e inventar barcos feitos de casca de árvore que depois fazia navegar nos ribeiros que desciam da serra pela primavera. Subir às tílias descalça, com um saco de pano para apanhar os raminhos de fazer chá, sair nos dias de feira, a cheirar os bolos de leite ainda quentes, e ajudar a avó a escolher os figos mais maduros e as colheres de pau mais redondas e fundas. Havia uma televisão, e não é que não gostasse de a ver, mas o aparelho era muito demorado de arrancar, apanhava a televisão espanhola e não havia desenhos animados, só programas de agricultura e notícias. Naquele tempo, a televisão era mais um entroncho que uma distracção a sério. E havia a escola, claro, e a catequese para onde eu ia sempre muito contente porque, no regresso, a minha avó me dava uma bolacha de chocolate. Era uma obra-prima em forma de estrela, vinha embrulhada em papel de prata colorido, começava a derreter-se mal me tocava nos dedos e inspirava-me um conforto interior que eu me habituei a confundir com o sentimento da fé.
Os livros trouxeram a calma e a profundidade que eu não me dava ao trabalho de procurar em nenhuma outra dimensão na vida a não ser, talvez, na minha família.

Terceira Metade: Sobre os Livros
Quando eu era pequena passava muito tempo em casa dos meus avós. Viviam por lá muitos livros, uma condição que eu entendia como decorrência natural de, num tempo antes de mim, o meu avô ter sido guarda-livros. Um guarda-livros era, evidentemente, uma espécie de bibliotecário com um título singelo. Naquele tempo e lugar, tudo era menos pretensioso, sobretudo os nomes das profissões. Foi o meu avô quem ensinou a minha avó a ler e eu, que assistia a toda aquela circunstância de meiguice, mais convencida ficava de que a sua função no mundo era a de guardador de livros. Na dimensão preservável do objecto, como fazia com todas as coisas, e na dimensão partilhável do conteúdo, que lia para si e para nós, ensinava a ler e ajudava a compreender.
Quando eu era pequena o meu avô ensinou-me a encadernar os livros e eu entendi que devia aprender a fazê-lo com a ternura e o esmero que ele trazia sempre nas mãos. Ele levava horas a reforçar as capas e a cobri-las com papéis de cores e texturas diferentes, impecavelmente vincados nas dobras, os títulos nas lombadas claramente desenhados naquela caligrafia brilhante e impossível de copiar. Eu aprendia a vincar as dobras com os dedos pequeninos e mal capazes. Queria muito imitar-lhe a arte mas, com a mesma naturalidade que os gestos do meu avô se inclinavam para a perfeição, os meus obedeciam a um desvio incontrolável para o desastre e, muitas vezes se rasgavam os papéis e se estragavam os títulos com erros de ortografia. O meu avô suspirava, sobrepunha a sua paciência à minha frustração, deitavam-se à lareira os papéis rasgados e os erros de ortografia, e a tarefa começava de novo. Desta vez, melhor.
O meu primeiro livro contava a história da fuga de uma tal Alice através do espelho. Foram precisas várias tentativas até o serviço ficar aceitável e foi maravilhoso ver o meu avô sorrir e dizer que sim com a cabeça enquanto examinava o meu primeiro projecto: um desconchavo de papel manteiga com as dobras quase tão espessas como o próprio livro. Foi um triunfo indizível. E, logo a seguir, chegou uma nova dificuldade.
No momento de colocar o livro na estante, havia um banco para eu subir e ficar da mesma altura do meu avô, e havia uma única regra de arrumação, muito simples que se baseava – em partes iguais – nos conceitos de ordem e de caos, um critério difícil de definir e que ordenava os títulos alfabeticamente segundo o destino geográfico do assunto.
O meu avô levou algum tempo a explicar-me que cada livro é como uma viagem e que cada viagem se faz rumo a um destino diferente. Eu não compreendi e ele foi buscar um volume grosso que trazia na lombada as palavras Crime e Castigo. Explicou que era um livro muito importante para conhecer os conceitos de bem e mal, certo e errado que vivem nas aspirações e atitudes de cada um. Uma viagem que se fazia rumo àquilo que uma pessoa deseja para si e ao percurso que está disposto a fazer para lá chegar. Como eu fiquei muito calada, a segurar nas mãos a minha Alice sem ideia de onde a guardar, o meu avô pegou num outro livro – 20.000 Léguas Submarinas – a aventura de uma viagem pelas profundezas do mar, ou então, uma viagem pelo engenho humano e pela vontade de ultrapassar o medo que é natural sentir-se em relação ao desconhecido.
Eu olhava para as minhas mãos.
Tens de descobrir onde te leva o teu livro, revelou por fim o meu avô.
E eu compreendi que precisava de o ler e, só passados muitos dias, voltei a subir ao banco resolutamente à procura da prateleira marcada com M de Maravilhas.
Fui compreendendo aos poucos o sistema de arrumação de livros que o meu avô praticava, garantindo-me sempre que era assim que se faziam as coisas nas verdadeiras bibliotecas. Acontecia por vezes termos de mudar os livros e as viagens de um lugar para outro. A cabana do Pai Tomás – muito muito bonito – teve morada no E de Escravatura, depois mudou-se para o A de Abolicionismo e acabou, mais tarde, por inaugurar uma nova secção no L para Livros que Salvaram o Mundo.
Quando eu era pequena aprendi com o meu avô a ternura de todas as coisas. Aprendi que é possível ser feliz em sossego. Que os livros devem ser lidos antes de arrumados, que cada livro propõe uma viagem e que cada leitura pode criar novos rumos a um caminho já percorrido. Aprendi a ser guardadora de livros.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de graduada, pós-graduada e especializada, recebi um papel carimbado que me fez bibliotecária, que é só um nome diferente para uma prática muito antiga. Estudei catalogação e indexação, as listas ordenadas de termos e as tabelas de autoridade, os sistemas de triagem das espécies bibliográficas e os códigos alfanuméricos das cotas e descobri que, afinal, já não existem verdadeiras bibliotecas, como aquelas de que falava o meu avô. Descobri que nas bibliotecas onde hoje se guardam os livros não é possível compreender-se o mapa das viagens da humanidade. Da humanidade que escreve e da humanidade que lê.
Mas em casa, guardo uma verdadeira biblioteca, com estantes e prateleiras em que se faz um esforço genuíno de procura da verdade. Ainda lá está o volume mal encadernado da pequena Alice que agora repousa no I onde se alinham as viagens Interiores.
Foi com esse o livro que tudo começou. Quantos livros se guardam lá dentro? Suponho que terei de o ler outra vez. Por agora, não sei. E como não sei, devo apenas sorrir.»

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Os Navios da Noite, de João de Melo (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
O Náufrago, de Thomas Bernhard (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Breves Notas sobre Música, de Gonçalo M. Tavares (Relógio d’Água), por José Mário Silva
O Essencial sobre Michel de Montaigne, de Clara Rocha (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por Alexandra Carita
A Paixão da Física, de Walter Lewin (Gradiva), por Luís M. Faria
Outro Ulisses Regressa a Casa, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

A Nebulosa, de Pier Paolo Pasolini (Antígona), por José Mário Silva
Revista XXI Ter Opinião, n.º 6 (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por Cristina Peres
Entre Dois Impérios, de Filipa Lowndes Vicente (Tinta da China), por Luís M. Faria
Do Fundo do Poço se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron (Teorema), por José Guardado Moreira
Break Dance, de André Ruivo (Mmmnnnrrrg), por Sara Figueiredo Costa
Elsewhere/Alhures, de Rui Pires Cabral (não (edições)), por José Mário Silva

Três poemas de José Luís Costa

CANTO DA ALFORRECA

Que prestígio resta ao bicho, nas hierarquias da Caparica? Nenhum pescador o admira. Da Praia da Mata à Fonte da Telha, crianças organizam brigadas de extermínio. Mas quando a alforreca canta, o mar não acredita, o mar é pele de galinha até perder de vista. São canções tolas, coisas como: «É amarga a vida das alforrecas / Ai Ai Lô / Quero crer na metempsicose / Ai Ai Lô / Quero reencarnar no dedal da tua amada.»

***

ADEUS A ISSO TUDO

Primeiro, trenós e carruagens, felizes por zarpar, e rolamentos. Depois mares, banheiras, alambiques. Gravatas, botões de punho, chapéus de senhora. «Também as minhas botas, tão doces companheiras, tão prontas a furar fronteiras?» Também as suas botas, senhor Severo. A seguir semáforos, fogos de artifício, retinas, tudo o que envolve luz. Salmos, aulas de carpintaria, senha e contra-senha.

***

ACROBATA

Antes do primeiro passo, lembra a fartura da rede dos tempos de aprendiz: Estepe de Almofadas, Oceano Salvífico. Vinho que não bebeu: nunca caiu. Hoje, nada a salvaria. A cidade veio toda. Se mar há que a submerja, é o do apetite da cidade para quedas, quebras, feras – lajes de granito querendo o seu cristão.

[in Canto da Alforreca, Douda Correria, 2016]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Desmobilizados, de Phil Klay (Elsinore), por José Mário Silva
País Possível, de Ruy Belo (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
O Demónio da Depressão – Um Atlas da Doença, de Andrew Solomon (Quetzal), por Luís M. Faria
Butcher’s Crossing, de John Williams (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
Liberdade da Cultura, coordenação de Guilherme d’Oliveira Martins (Gradiva), por Manuela Goucha Soares
O Canto da Alforreca, de José Luís Costa (Douda Correria), por José Mário Silva
A Cova, de Cynan Jones (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Da Natureza dos Deuses, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por José Mário Silva
Terra Negra, de Timothy Snyder (Bertrand), por Luís M. Faria
Viagens à Ficção Hispano-Americana, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
O Dicionário do Menino Andersen, de Gonçalo M. Tavares e Madalena Matoso (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa
Histórias de Aventureiros e Patifes, organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Um Cisne Selvagem e outros contos, de Michael Cunningham (Gradiva), por Luciana Leiderfarb
O Pobre de Pedir, de Raul Brandão (Chão da Feira), por Pedro Mexia
Uma Sombra Laranja-Tigre, de Afonso de Melo (Âncora), por José Mário Silva
O Nascimento da Arte, de Georges Bataille (Sistema Solar), por Alexandra Carita
Os Caçadores de Livros, de Raphael Jerusalmy (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
Roturas e Ligamentos, de Rita Taborda Duarte e André da Loba (Abysmo), por José Mário Silva
Animais e Companhia na História de Portugal, de Isabel Drummond Braga e Paulo Drummond Braga (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria

Aquele banco

Caminhámos pela margem do Ródano, águas tão límpidas que se podia ver cada uma das pedras no leito do rio, à procura daquele banco que tanto me fascinou ao ler o primeiro conto d’O Livro de Areia (conferir aqui). Intitulado O outro, o conto narra o encontro de um Borges quase septuagenário, sentado nas margens do rio Charles, em Cambridge (perto de Boston), com o mesmo Borges no fim da adolescência, em Genebra. Como é óbvio, não encontrei o tal banco que está em dois lugares e em dois tempos diferentes, num como sonho, noutro como recordação. Limitei-me a contemplar as águas do Ródano, vindas do lago Léman, tão límpidas que se podia ver cada uma das pedras no seu leito.

Visitar Borges (em Genebra)

Uns minutos em silêncio (ali perto, dois cães corriam; nenhuma presença humana para além de nós). Agradeci-lhe o génio, a grandeza literária, a perfeição da sua escrita. Viemos embora, longas sombras projectadas pela luz rasante.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Amigo Comum, de Charles Dickens (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
O Peso da Sombra, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Obras-primas dos Biombos Nanban, de Alexandra Curvelo (Chandeigne), por Manuela Goucha Soares
A Juventude, de Paolo Sorrentino (Jacarandá), por José Mário Silva
O Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera (D. Quixote), por José Guardado Moreira
Milagreiro, de André Oliveira e vários ilustradores (Polvo), por José Mário Silva
O Cavaleiro Sueco, de Leo Perutz (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Um ‘site’ para Jaime Ramos

No momento em que Francisco José Viegas reúne alguns contos dispersos do seu carismático inspector (A Poeira que cai sobre a terra e outras histórias de Jaime Ramos, Porto Editora), é lançado um site só sobre esse inconfundível homem do Norte. Uma ideia original e inédita, creio, pelo menos em Portugal.
Os lugares por onde J.R. gosta de circular, as afinidades, os vícios, as palavras que o definem ou que ele definiu, as receitas do gastrónomo – eis algumas das secções deste work in progress que vale a pena ir acompanhando.

Três poemas de Rita Natálio

ARTESANATO

No âmago do âmago não há âmago
assim como no âmago do amo não há amo
disse o amo enquanto cuidava dos nervos das suas
plantas filosóficas.

***

START UP

Ontem estava eu no meio de um vendaval de cuecas sujas
quando proclamei: os meus objectivos
são tão claros como a minha falta de objectivos
nivelo-me pelo meio
como qualquer cidadã de metro e meio da Régua.

Sou alpinista de montes e serras de palha
troco arroz por palha
escrevo palha sobre todo o pilim do mundo
pedra sobre pedra, pedra papel tesoura
admito sem pudor e perante todos que não sei
nem quero domar o perlimpimpim do mundo.

Empalhada, empapada, empalada na conversa do psicanalista
começo a ter dificuldades no controlo de psicoventos
ai, a antevisão de todas as ideias é para mim uma câmara ardente
ai, os meus olhos de televisão vidente
vêem passar as carpideiras do real
e com elas limitam-se a carpir
com todo o já-sabido-sentido-lambido
com todo o estertor de um mundo quase vencido.

Conheço e mato,
reconheço e morro.
Reconheço e remato,
reconheço e remôo.

A ideia nasce
mas a ideia já nada-morta.
A ideia nasce
mas todo o século vinte e um
é um post-mortem e um.
Todo o século vinte e um
é um post-hit e um.
Todo o século vinte e um
é um trinta e um.

Por sorte, ainda me resta uma costela de feitante:
vendo esta ideia por dois euros no minipreço
para comprar um euromilhões
e penso na multiplicação do pão
do meu imaginário vão (de escada)
e com sorte, ainda chego a artista doutorada em vazio
e se me perguntarem porquê
responderei: porque preciso de dinheiro para comprar cuecas.

***

NOVE SEMANAS E MEIA

(para deleuze)

Deleuze, teu sapato era de nuvem
a tua língua o beco
em que aprendi a dizer
não volto mais aqui
não vejo mais televisão
quero fazer esse jardim arder
quero lento esse arder.

Deleuze, você foi embora ontem ou em 1995
e eu tinha 12 anos e já fazia planos
de consistência com as costelas
ou raspava panelas
para encontrar a linha de fuga
em que marcaria a sequência genética do acontecimento
do aço, do dente ou do radical crescimento.

Você foi embora, foi
só para eu lhe dizer adeus, adeus
eu fiquei ali na sala dos jovens lambendo o cinzeiro
acariciando a sociedade que sabe a rosa uva pasta pneu estriado
e você ali mesmo espatulou o tempo para ficar liso sobre o meu bicho.

‘Ah, mas o senhor é um verdadeiro planalto de afeto’
eu disse a você com 18 anos
e depois com 19 e depois com 20
como se você dissesse
‘ah, mas a menina é um verdadeiro túmulo de idolatria’
ao que eu respondi com 25 26 27 dúvidas
‘sei pouco sobre o devir da pedra’.

Deleuze, vem daí, deita comigo nessa mesa
sacode o meu sexo nessa jangada frágil
onde o corpo e os órgãos
são largados na operação do mundo.

[in Artesanato, não (edições), 2015]

O vulcão erudito

Coincidindo com a exibição do filme nos cinemas portugueses, chegou recentemente aos escaparates a versão romanesca de A Juventude, de Paolo Sorrentino. Vi a película, li o livro. Detestei os dois. Na tradução do italiano, feita por Rossana Appolloni, encontrei um erro involuntário que escapou aos revisores e de certo modo ainda bem, porque é muito divertido – ao contrário do texto original. Acontece quando o narrador compara o protagonista e a filha às «estátuas cristalizadas» depois da erupção de um vulcão. Só que o que está lá escrito é «a erudição de um vulcão». No caso do Etna, diga-se, até faria algum sentido, se nos lembrarmos que foi nas suas entranhas que Empédocles, o filósofo pré-socrático, se lançou para a morte.

A noite dos homens

Pai Nosso
Autora: Clara Ferreira Alves
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 474
ISBN: 978-989-724-270-0
Ano de publicação: 2015

Chamam-lhe «O Fantasma». Maria, a protagonista de Pai Nosso, primeiro romance de Clara Ferreira Alves, é uma figura misteriosa, difusa, uma esfinge. Para acender os muitos cigarros que fuma, risca fósforos. Bebe gin no bar do Al-Rashid, o hotel mais luxuoso de Bagdade. Tem aura de antiga estrela de cinema. Apropriadamente, tratando-se de uma lenda viva do fotojornalismo, o seu retrato, logo na primeira página, não podia ser mais fotográfico: «Sopra uma coluna de fumo que dissolve as linhas da expressão. A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa. Tem as unhas cuidadas e envernizadas. Os dedos nodosos, a pele da mão manchada de sardas.» Ela está ali, no centro do «ninho de cobras» que é o Iraque, um país destruído, entregue ao caos, com as milícias do ISIS a poucos quilómetros da capital, porque esse é o destino mais lógico para quem viu e captou, em imagens que correram mundo (e até chegaram à capa da revista Time), os principais conflitos das últimas décadas. Ela esteve no Afeganistão, no Kosovo, em Jerusalém, nos territórios palestinianos ocupados, em Telavive, conhece o Médio Oriente como a palma das mãos. Após tantos anos de contacto com a guerra, a guerra já faz parte dela, da forma como olha para a realidade à sua volta. «Só existe a barbárie. Entrámos na noite dos homens.» Uma noite que se espalha pelo mundo e chega a todo o lado. Até à Europa. Até a Lisboa.
Quando o livro começa, a capital portuguesa já foi abalada por um acontecimento maior, inimaginável, tremendo, mas que só será revelado nas páginas finais. É atrás da explicação desse acontecimento, da sua história «mal contada», que chega ao Al-Rashid a narradora, Beatriz, professora de Estudos do Médio Oriente em Inglaterra. Um editor português desafiou-a: «Minha cara amiga, depois daquilo que se passou, ficámos no mapa. Se ficámos no mapa!» Só que para compreender o que se passou é preciso ouvir o testemunho de Maria, peça-chave no labirinto da tal história mal contada, a mulher que «permaneceu anos em silêncio», mas talvez esteja disposta a libertar-se de um segredo. «Tente», diz-lhe o «especialista de best-sellers», assim como quem atira barro à parede. E Beatriz tenta.
No ambiente saturado de testosterona dos correspondentes de guerra, «durões» da velha guarda, «sanguessugas da desgraça», ameaçados pela horda dos freelancers «dispostos a tudo por um furo que ninguém quer», Beatriz consegue quebrar a película de desdém com que Maria enfrenta os outros e torna-se a sua protegida, a sua confidente. Fechadas no quarto, conversam dias a fio, desbravando as «paisagens» do passado. Maria é a Sherazade de Beatriz, uma voz fluida, um rio interminável de palavras que o gravador regista, relato em expansão acelerada e cada vez mais denso, à medida que mergulha nas memórias íntimas da fotógrafa portuguesa, quase sempre tingidas de melancolia e sobrepostas como se fossem estratos geológicos.
Ao longo do livro vão surgindo muitos «figurantes», personagens que entram na história para sair no momento seguinte, mas o centro de Pai Nosso está numa única pessoa: Maria. A sua personalidade determina o ritmo da escrita. Cheia de certezas, sentenciosa, ela gosta de exagerar («Sem a hipérbole, as descrições sofreriam») e de impor a sua visão das coisas. A prosa acompanha essa cadência afirmativa. É sincopada. Feita de frases curtas e incisivas. Stacatto verbal. Poucas vírgulas, muitos pontos finais. Um estilo forte, enérgico, quase sempre brilhante, mas que se torna cansativo, sobretudo porque não há outros registos que se lhe oponham e criem um contraste. A voz de Maria contamina tudo à sua volta. A própria Beatriz admite: «Estou a falar como ela.»
A estrutura narrativa não é propriamente original. O romance funciona como o gravador de Beatriz. Por isso há capítulos intitulados «play» (a acção no tempo presente, em Bagdade), «rewind» (os mergulhos no passado) e «fast forward» (avanços cronológicos). Embora simples, o dispositivo é eficaz. O problema não está aí, mas na articulação entre dois tipos de materiais que nunca chegam a coexistir de forma harmoniosa. Ou seja, o jornalismo e a ficção pura. As deambulações de Maria pelos palcos das várias guerras correspondem a uma realidade que Clara Ferreira Alves conhece muito bem e desdobra à nossa frente com mestria. Já os enredos propriamente romanescos revelam uma enorme fragilidade, sobretudo os que abarcam as relações amorosas de Maria e as figuras do passado português.
Se a trajectória da infância, no eixo Campolide-Benfica, sob o signo de uma mãe suicida e de um pai distante, racista, antigo combatente em África, espécie de último soldado do Império, até nos oferece belas páginas, o mesmo não se pode dizer dos episódios relativos à amizade com a filha de um banqueiro com «olhos de réptil», casada com um tal de Eduardo Allen Carneiro, ex-maoísta que se torna primeiro-ministro de Portugal e depois «Presidente da Europa». Estamos no território do roman à clef pouco subtil. Apoiante entusiástico da invasão do Iraque em 2003, Allen Carneiro não se liberta do peso de ser uma caricatura de Durão Barroso. E não é preciso um grande esforço de imaginação para atribuir ao sogro de Eduardo, uma espécie de eminência parda, os traços de um mediático banqueiro recentemente caído em desgraça. Outro aspecto que não resulta é a inclusão, no corpo do texto, de preces das três ‘religiões do livro’: invocações tanto ao Deus dos cristãos (o Pai Nosso do título), como ao dos muçulmanos (Alá) e dos judeus (Adonai). Por muito que se fale de Jerusalém, a questão religiosa nunca assume uma centralidade que justifique a repetição, algo forçada, de excertos das referidas preces.
A ideia com que se fica, ao concluir a leitura deste romance, é que Clara Ferreira Alves se deixou dominar pela torrencialidade da protagonista. Consequência: o romance sofre de hipertrofia e leva demasiado tempo a chegar ao seu poderosíssimo desenlace. Ainda assim, pelo caminho algo acidentado, a autora oferece-nos uma muito razoável colecção de belas frases, a confirmar o seu reconhecido virtuosismo verbal. Exemplos: uma mulher «a polir as unhas com uma lima neurótica»; o pátio de hotel onde «faleceu uma piscina vazia com mosaicos partidos»; o canto do muezim, «lamento líquido como mercúrio derramado»; os nómadas que se enfiam «pela bainha da guerra apascentando os rebanhos»; ou o calor do corpo «retido na prata» do frasco de gin.
Pai Nosso é um excelente livro sobre os horrores deste início de século e suas múltiplas causas, mas fica aquém do grande romance que prometia ser. Falta-lhe em espessura ficcional o que lhe sobra em reflexão apaixonada sobre o porquê da “noite dos homens”, em cujas sombras há quem decapite inocentes.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

O apocalipse ‘apocalítico’

As editoras que obedecem ao novo Acordo Ortográfico espalham a esmo, nos seus livros mais recentes, calinadas que até me magoam os olhos – provocando uma dorzinha que se espalha, em movimento ondulatório, através do nervo óptico (com p) até às mais remotas circunvoluções do meu cérebro. Os vocábulos do acordês são feios, feios, feios. Ainda há dias, ao ler o excelente A de Açor, de Helen Macdonald (Lua de Papel), fiquei uns bons segundos a olhar para uma palavra coxa, «apocalítica», até perceber que se tratava de um adjectivo associado à ideia de apocalipse. Escusado será dizer que o verdadeiro apocalipse em curso é o da língua portuguesa.

Provador de sons (2)

«Aquela sala, aquela música»:

E porque não?

A actriz Emma Watson anunciou a intenção de criar um «clube do livro feminista».

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves (Clube do Autor), por José Mário Silva
Todos os Fogos, o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
A Morte de um Apicultor, de Lars Gustafsson (Marcador), por José Guardado Moreira
O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman (Fyodor Books), por José Mário Silva
Os Ombros da Marquesa e outras ironias, de Émile Zola (Sistema Solar), por José Guardado Moreira

Biblioteca de Bolso, #1

O primeiro episódio já está disponível: aqui.

Quatro poemas de Joaquim Cardoso Dias

OS MORTOS

o que dissemos ontem aos mortos
talvez agora com menos amigos
seja a floração daquela memória
pesando nos ombros
para que os dias aconteçam
cada vez mais lentos
mas tudo recomeça
por me deitar contigo
deixar a luz acesa
e esperar muito que pare de chover

***

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS

há tanto tempo que não acreditamos em nada
e nem sequer nos lembramos disso
sou apenas uma criança brincando
erguendo a recordação de uma nova pureza
o primeiro pássaro
esse peso de árvore tão feliz por engano
olha confio-te o meu coração
e trago-te esta comida estas palavras com o tempo
dos dedos
a casa onde a terra começa a viver

***

AS FOTOGRAFIAS SUJAS

conhecemos esse sortilégio fugitivo das vozes
as palavras lembradas pelos animais sob um céu imenso
vimos essa essência novos poemas
restos de ossos e de fogo indícios onde os braços
doem perseguidos pela melancolia
sabemos o azul das t-shirts no verão até perder o fôlego
e uma cama para foder o mundo
ou essa forma sublime de cuspir nos outros
e queremos ser felizes
com a máquina de barbear do irmão mais velho
e o que nos falta
é a coragem de compreender o que sabemos
como a chuva dentro de casa
demasiado transparente sobre os ombros

***

THE SCIENTIST

da via rápida os prédios parecem felizes
batendo na luz com esta música
nem se sentem os motores
muito menos ficar a olhar as árvores
e em câmara lenta a velocidade
é a verdadeira faca do sémen
a poucos segundos da civilização
fiel à morfologia dos outdoors
que separa de mim a minha própria pele
pagamento de juros no final do prazo
saiba tudo aqui ferido pelas paredes
e eu não conheço outras palavras
para tantas instruções de salvamento esquecidas
sem deuses na loucura
morder o coração perder a cabeça adormecer os prédios
e os anos passam todos os dias
e não somos felizes para sempre

[in Pornografia Comum, Gulliver, 2015]

Começa já na segunda

É o outro BdB. Para ouvir, todas as semanas. Mais informações aqui.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

A Minha Luta 2: Um Homem Apaixonado, de Karl Ove Knausgård (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
As Reencarnações de Pitágoras, de Afonso Cruz (Alfaguara), por José Mário Silva
Os Mutilados, de Hermann Ungar (E-Primatur), por José Guardado Moreira
Casas com Escritos, de Margarida Acciaiuoli (Bizâncio), por Luís M. Faria
Porto do Mistério do Norte, de Dimas Simas Lopes (Companhia das Ilhas), por Carlos Bessa
Pornografia Comum, de Joaquim Cardoso Dias (Gulliver), por José Mário Silva
Quando as Pombas Desaparecem, de Sofi Oksanen (Alfaguara), por José Guardado Moreira

Palavra do ano

Depois de «esmiuçar» (2009), «vuvuzela» (2010), «austeridade» (2011), «entroikado» (2012), «bombeiro» (2013) e «corrupção» (2014), a Porto Editora anunciou que a palavra do ano 2015, segundo a eleição que levou a cabo, com 20 mil participantes, é «refugiado», com uns claros 31% dos votos (ver nota de imprensa aqui). Não se pode dizer que seja uma surpresa. E pelo menos é uma escolha séria. Num ano que assistiu a vários episódios de terrorismo e a um gigantesco deslocamento forçado de populações, seria ridículo que o vencedor fosse a palavra «festivaleiro»; ou, pior ainda, «bastão de selfie».

Teaser

Além da reactivação do Bibliotecário de Babel, há um outro projecto que me está a animar, e muito, neste início de 2016. Começará no dia 11 de Janeiro e tem a ver com livros, mas é algo que nunca fiz antes. Lá mais para o fim desta semana, saberão mais.

Um passo de cada vez

Acorda-se do coma e o corpo (o blogue) desabituou-se de ser corpo (de ser blogue). É preciso reaprender os gestos, os movimentos, a fala, os ritmos. Vamos devagarinho. Pouco a pouco.
Ao tempo perdido não vale a pena voltar, ou sequer tentar recuperá-lo. Interessa mais olhar para diante. Acontece que o BdB também é memória, também é arquivo, o lugar onde ao longo dos anos fui guardando a maior parte dos meus trabalhos publicados na imprensa sobre livros e escritores. Nas próximas semanas, tentarei preencher retroactivamente uma parte dos vazios deste blogue: o que diz respeito às recensões semanais no jornal Expresso. Não espero que as procurem nos confins do scroll, mas ficarão alinhadas na tag Críticas, disponíveis para pesquisas futuras.

Recomeço

Já não é esta a primeira vez que tento arrancar o BdB ao estado comatoso em que se encontra há demasiado tempo. A verdade é que as circunstâncias são o que são. Por um lado, a minha vida pessoal e profissional, nas suas tantas dimensões, deixou de me permitir a dedicação ao blogue que em tempos tive, com actualizações constantes e muitas horas a gerir caixas de comentários. Por outro, a dinâmica da blogosfera mudou e hoje muita da informação que se partilhava nos blogues, mais as respectivas discussões paralelas, transferiu-se para as redes sociais, em particular para o Facebook. Em 2016, é quase digitalmente anacrónico apostar num blogue, ou voltar a apostar num blogue, quando toda a gente está noutros lados. Mas apetece-me correr esse risco. Sem promessas de grande actividade, sem juras de um regresso triunfal ao ritmo antigo, sem gerar falsas esperanças. A 1 de Janeiro de 2003, há precisamente 13 anos, escrevi o meu primeiro post. Hoje brindo a isso. Brindo a este blogue que muitas pessoas leram e, suspeito, gostariam de voltar a ler. E brindo a todos os posts que ainda estão para vir.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Pedro Piedade Marques, coordenador de Editor Contra – Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite (Montag), por José Mário Silva
Viver Portugal com o Mediterrâneo à mesa (CTT) e Manual para se tornar um verdadeiro gourmet (Manuscrito), de Fortunato da Câmara, por Alexandra Carita
Navegações, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Talco de Vidro, de Marcello Quintanilha (Polvo), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Paraíso segundo Lars D., de João Tordo (Companhia das Letras), por José Mário Silva
Crónica da Manhã, de Agustina Bessa-Luís (Guimarães), por Pedro Mexia
Neverness, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Oblomov, de Ivan Gontcharov (Tinta da China), por Luís M. Faria
Compota de Damasco e outros contos, de Aleksandr Soljenitsin (Sextante), por José Guardado Moreira
Volta – O Segredo do Vale das Sombras, de André Oliveira e André Caetano (Polvo), por Sara Figueiredo Costa
As Aventuras de Fernando Pessoa, de Miguel Moreira e Catarina Verdier (Parceria A. M. Pereira), por Celso Martins

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Balanço de 2016, com a escolha dos melhores livros do ano por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Manuel de Freitas, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com Alberto Manguel, por Luciana Leiderfarb
Aquário, de David Vann (Relógio d’Água), por José Mário Silva
O Coro dos Defuntos, de António Tavares (LeYa), por José Mário Silva
Eça – Dicionário de Eça de Queiroz, org. de A. Campos Matos (IN-CM), por Luís M. Faria
Morada, de Rui Pires Cabral (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Luz de Ferro, de Ben Pastor (Clube do Autor), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com António Tavares, autor de Coro dos Defuntos (LeYa), por José Mário Silva
Quartos Alugados, de Alexandre Andrade (Exclamação), por José Mário Silva
Convite para uma Decapitação, de Vladimir Nabokov (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Minha Mulher, a Solidão, de Fernando Pessoa (Guerra & Paz), por Luísa Mellid-Franco
O Fim dos Segredos, de Catarina Guerreiro (Esfera dos Livros), por Ricardo Marques

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Helen McDonald, autora de A de Açor (Lua de Papel), por José Mário Silva
O Impostor, de Javier Cercas (Assírio & Alvim), por Luciana Leiderfarb
A Agência de Viagens Lemming, de José Carlos Fernandes (Biblioteca de Alice), por José Mário Silva
Contos, de Hans Christian Andersen (Temas e Debates), por Luís M. Faria
A Paixão do Conde de Fróis, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com Clara Ferreira Alves, autora de Pai Nosso (Clube do Autor), por Cristina Margato e Ricardo Costa
Se isto é uma mulher, de Sarah Helm (Presença), por Luís M. Faria
O que vemos quando lemos, de Peter Mendelsund (Elsinore), por Celso Martins
Diário Íntimo de Carlos da Maia (1839-1930), de A. Campos Matos (Colibri), por Américo Guerreiro de Sousa
Vamos ao que interessa, de João Pereira Coutinho (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Bronco Angel, o Cow-Boy Analfabeto, de Fernando Assis Pacheco (Tinta da China), por José Mário Silva
Quando os Factos Mudam, de Tony Judt (Edições 70), por Luís M. Faria
Kinderszenen, de Alexandre Sarrazola (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com Cedric Villani, autor de Teorema Vivo (Gradiva), por Ricardo Marques
Racismos, de Francisco Bethencourt (Temas e Debates/Círculo de Leitores), por Luís M. Faria
Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites, de Salman Rushdie (D. Quixote), por José Guardado Moreira
A Lição de Anatomia, de Philip Roth (D. Quixote), por Pedro Mexia
Contos de Petersburgo, de Nikolai Gogol (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
Osso, de Rui Zink (Teodolito), por José Mário Silva
O Pugilista, de Reinhard Kleist (Polvo), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Independente – A Máquina de Triturar Políticos, de Filipe Santos Costa e Liliana Valente (Matéria-Prima), por Ricardo Costa
Ouvir com Outros Olhos, de João Lobo Antunes (Gradiva), por Pedro Mexia
Romance, de Helder Macedo (Presença), por José Mário Silva
As Reputações, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara), por José Guardado Moreira
De Quanta Terra Precisa o Homem, de Lev Tolstói (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Tudo o que Conta, de James Salter (Livros do Brasil), por José Guardado Moreira
O Papiro de César, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad (ASA), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Descobri que Estava Morto, de João Paulo Cuenca (Caminho), por José Mário Silva
A Idade Média – vol. 4, coordenação de Umberto Eco (Dom Quixote), por Luís M. Faria
O Livro Aberto: Leituras da Bíblia, de Frederico Lourenço (Cotovia), por Pedro Mexia
Portugal By Design, de Jorge Silva (Ano do Design Português), por Alexandra Carita

« Página anteriorPágina seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges