Afinal, Gabo ainda não acabou para a literatura

Segundo esta notícia do The Guardian, Gabriel García Márquez estará a retocar a quinta versão do próximo romance (ainda sem título). Depois de ter anunciado o fim da carreira literária, parece que o escritor colombiano “redescobriu a sua musa”.

A paz no coração do bosque

«Cuando escribo una novela me siento como un ciervo que se aleja y busca la paz en el corazón del bosque. Hoy parece difícil comprender eso, pero hay un placer muy intenso en el gesto de marchar, de alejarse de cierta cotidianidad. Hace 13 años que dejé la seguridad de un trabajo y corté con el mundo editorial. Los primeros meses, el primer año, es extraño: no tienes citas, comidas, cenas, entrevistas organizadas. Nadie te llama. Hay una cierta forma de venganza, que es lógica, porque si tú has querido alejarte, los demás sienten eso con cierta agresividad. La sociedad tiende a comportarse de manera mafiosa. Mire, en el siglo XVII, un comerciante o un magistrado, cuando cumplía los 50, tenía derecho a consagrar el resto de su vida a Dios. Ahora la obsesión es mantener los vínculos sociales hasta el último minuto, entretener a los jubilados o hacerles trabajar de nuevo. No te dejan escapar hacia una relación más vertical, como la que podían buscar los eremitas o quienes se refugiaban en un convento. Eso permite tener una mirada distinta sobre lo que es tener una vida plena, sobre lo que es la felicidad. Creo que una de las cosas más tristes, más siniestras que le pueden ocurrir a uno es tener que simular alegría y felicidad todo el tiempo, como esas personas que viven de salir en la pequeña pantalla: me suicidaría si tuviese como oficio el ser feliz por obligación.»

Pascal Quignard, em entrevista ao El País

Lídia Jorge na ‘Lire’

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André Clavel, o crítico da Lire que elogiou Saramago no número de Fevereiro da revista, volta a abordar um romance português na edição deste mês: Nous combattrons les ombres (Combateremos a Sombra), de Lídia Jorge, traduzido por Geneviève Leibrich para a Métailié, mereceu-lhe igualmente três estrelas e comentários como estes:

«Avec Nous combattrons les ombres, la grande dame des lettres portugaises [estará a esquecer-se de Agustina?] continue à égregner sa petite musique lancinante, légère et mélancolique comme un air de fado. (…) De pièges en tentations, ce prisonnier des ombres [Osvaldo, o psicanalista que protagoniza a história] ne cessera d’être confronté à des combats que le dépassent, dans un monde où s’effacent les frontières entre réalité et illusion. Sur le thème du “mentir vrai”, Lídia Jorge est intarissable, et sa prose crépusculaire nous envoûte.»

‘Lire’ elogia Saramago

No último número da revista Lire (Fevereiro de 2008), André Clavel dedica meia página ao romance As Intermitências da Morte (recentemente editado pela Seuil com o título Les intermittences de la mort) do Nobel português. Depois de descrever em detalhe a ideia central do livro — uma muito saramaguiana reflexão sobre a morte, assente num reductio ad absurdum (euforia e descalabro de um país em que as pessoas deixaram de morrer) —, o crítico, que atribui à obra três estrelas em quatro, termina assim:

«Ce roman est une fable délirante, une farce tragi-comique où la métaphysique croise la pataphysique, où Cioran se fait alpaguer par le père Ubu. Et où Saramago brocarde joyeusement une humanité qui chavire parce que son plus vieux rêve — devenir immortel — se transforme soudain en cauchemar. Moralité: la mort, notre pire ennemie, n’est pas si detéstable que ça.»

A Roménia é que está a dar

Primeiro foi o cinema. Realizadores com nomes tão difíceis de pronunciar como Cristian Mungiu, Cristi Puiu, Cristian Nemescu, Radu Muntean ou Corneliu Porumboiu começaram a ganhar o respeito da crítica europeia e alguns prémios importantes (exemplo maior: a Palma de Ouro de Cannes de 2007 para 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Mungiu, neste momento em cartaz nos cinemas portugueses). A nova vaga romena ganhou balanço, caiu no goto dos cinéfilos e arrisca-se a ser um fenómeno tão duradouro como o das cinematografias do Oriente, que andaram a limpar os palmarés dos festivais durante a última década.
Mas nem só de filmes com orçamentos curtos e doses maciças de ódio aos tempos de Ceausescu se faz o desabrochar da cultura romena contemporânea. Agora, a malta de Bucareste e arredores começou também a dar cartas em territórios literários. Querem um sinal? A primeira edição em língua estrangeira da prestigiadíssima The New York Times Book Review acaba de ser lançada… em romeno.
Eis a imagem da capa que marca a estreia do projecto:

NYTBR romeno

Uma pessoa põe-se logo a imaginar como seria ver naquele texto riscado a palavra liberdade em vez da palavra libertatea, não é?

Maldições da caligrafia (aviso para os poetas que gostam de garatujar ideias em moleskines)

Nos seus cadernos de apontamentos, Robert Frost escrevia de uma forma tão enredada e difícil de decifrar que as transcrições feitas por Robert Faggen (reunidas em The Notebooks of Robert Frost, um volume com mais de 800 páginas, editado pela Harvard University Press) estão sob ataque cerrado por parte de dois críticos que apontam centenas, se não milhares, de palavras deturpadas.

O dilema

Max Brod passou pelo mesmo: queimar ou não queimar, that is the question.

Traduzir um poema sobre tradução

No último número da Harvard Review (#33, Inverno 2007), deparei-me com um poema de John Mateer (sul-africano de nascimento, a viver na Austrália) intitulado Translators Are Angels.
Transcrevo-o aqui:

Translators are angels, I whispered
into the ear of my guardian angel in King João Library.
They stand beside us, hearing out thoughts,
only muttering what’s necessary
. Smiling slightly,
listening carefully to the speaker who’d mentioned my name,
she said: We are perfect nobodies; nameless,
voiceless, winged incandescence, except when we’re bad
.
Then she turned to me: Like now, if I don’t tell you what he said

Mal acabei de ler o poema, senti logo vontade de o traduzir. Em primeiro lugar, porque é um poema sobre a tradução e os seus equilíbrios precários, escrito em inglês, logo sujeitável à tradução que tão etereamente evoca. Depois, porque tudo indica que a língua incompreensível para o poeta seja o português, como se depreende pela referência à biblioteca do “King João”, que só pode ser a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (mandada construir em 1717 por D. João V).
Traduzir para português o poema equivale de certo modo a fechar o círculo. E foi isso que fiz, embora sem asas nas costas:

Os tradutores são anjos, segredei
ao meu anjo da guarda na Biblioteca Joanina.
Ficam junto a nós, ouvindo o que pensamos,
apenas murmurando o essencial
. Com um pequeno sorriso,
enquanto escutava atentamente o orador que referiu o meu nome,
ela disse: Somos perfeitos desconhecidos; anónimos,
sem voz, uma incandescência alada, excepto quando somos maus
.
Virou-se para mim: Como agora, se não revelar o que ele disse

O próximo Littell

Daniel Mendelsohn

Se 2006 foi, em França, o ano de Jonathan Littell e de Les Bienveillantes (As Benevolentes na edição da Dom Quixote), esse romance de estrutura musical que nos atira à cara as memórias desumanas (ou talvez, pelo contrário, excessivamente humanas) de um antigo oficial nazi, 2007 assistiu à consagração de outro ilustre desconhecido: Daniel Mendelsohn, autor de Les Disparus (Flammarion). Este judeu nova-iorquino não escreveu 900 páginas (ficou-se pelas 650) nem ganhou o Goncourt (ficou-se pelo Médicis), mas o seu livro conseguiu ser mais consensual do que Les Bienveillantes, provavelmente porque explora o reverso da medalha: em vez da perturbadora confissão de um monstro, temos a busca retrospectiva da verdade sobre o desaparecimento de seis judeus (familiares próximos) logo após a invasão da Polónia, em 1939. Numa obra híbrida, que cruza os mais diversos géneros (da investigação jornalística à autobiografia, da análise histórica à epopeia), Mendelsohn deambula pelo campo das vítimas mas escapa aos determinismos morais típicos da literatura sobre o Holocausto, ao revelar as cobardias, traições e remorsos de todos aqueles que podiam ter feito mais do que fizeram para salvar as vidas perdidas na escuridão da II Guerra Mundial.
A tradução de The Lost: A Search for Six of Six Million (ao contrário de Littell, Mendelsohn não escreve em francês), já tinha sido muito elogiada durante a rentreé, em Setembro, mas quem a pôs nos píncaros foi a Lire, que no seu último número (Dezembro/Janeiro) elegeu o livro como o melhor publicado em França durante o ano de 2007. Mais: pela primeira vez na sua história, a redacção da revista (composta por 27 jornalistas) assumiu a escolha por unanimidade e com enorme “entusiasmo”, numa “reunião-relâmpago”.
No seu editorial, François Busnel, o director, não poupou nas palavras:

«C’est une odyssée que préfère l’identification à l’identité. Version généreuse de la quête de soi: préférer identifier l’autre plutôt que redéfinir, une énième fois, sa propre identité. Le succès de ce livre sera mondial. Il y aura des dizaines de thèses de doctorat autour des Disparus. Il ne peut pas être autrement. L’un des grands mérites de ce sommet de la littérature contemporaine sera de réconcilier ceux que doutent encore du pouvoir des livres avec le monde des lettres. Ce n’est pas rien.»

O sucesso do livro não se limitará a França, diz Busnel, sabendo que para 2008 já há traduções previstas no Brasil, na Polónia, na Grécia e… em Portugal.
Falta só saber quem vai ser, por cá, a editora de tão promissora obra. Aceitam-se apostas.

Top-10

Lembram-se daquela extraordinária livraria de Maastricht que foi instalada numa igreja dominicana? O jornalista Sean Dodson, do The Guardian, colocou-a em primeiro lugar no seu top-10 das mais belas livrarias do mundo. Já agora, anote-se que em terceiro lugar ficou esta:

escada da Lello

Sim, a belíssima Lello do Porto.

Os novos leitores

Há uns dias, o El País publicou uma reportagem sobre uma recente tendência do mercado editorial espanhol: o êxito de editoras que publicam livros mais caros, e graficamente mais cuidados, para leitores exigentes. O sucesso de vendas conseguido por autores tão secretos como Vasili Grossman, Sándor Márai ou Iréne Nèmirovsky, a par do triunfo de As Benevolentes, de Jonathan Littell, revelam que há alternativas economicamente viáveis à massificação dos best-sellers.
No fundo, trata-se de aproveitar um nicho que é cada vez menos nicho:

«¿De dónde salen y quiénes son estos lectores? Hay consenso en atribuir al propio sector la causa primera del fenómeno. “Se ha sobrepublicado sin atender mucho a la calidad, casi pensando en los no-lectores. Y eso habría decepcionado a los lectores militantes, que ahora buscarían valores más seguros”, apunta Sigrid Krauss [directora literária da Salamandra]. “Hay un agotamiento del best-seller apoyado sólo en un gran lanzamiento comercial. Una línea de más riesgo literario llena un hueco claro”, añade Joan Riambau, de Galaxia Gutenberg.»

E em Portugal? Bom, a fazer fé numa notícia publicada hoje no DN, vamos pelo mesmo caminho. Caso contrário, como explicar que um livro difícil e caro (30 euros) como As Benevolentes, de Littell, quase 900 páginas de uma prosa densa que descreve o horror inominável dos crimes nazis, tenha esgotado em 15 dias?
A Dom Quixote (que também conseguiu vendas surpreendentes com o húngaro Sándor Márai) escusa-se a revelar a tiragem, mas tendo em conta todos os investimentos feitos, da tradução ao marketing, não deve ter sido pequena. Se o sucesso se explicar pelo impacto das várias recensões encomiásticas publicadas na imprensa, então é o papel e o poder da crítica (sistematicamente desvalorizados nos últimos anos) que convém começar a rever.

Terá Jorge Luis Borges antecipado a Internet 2.0?

Há quem diga que sim.

[via BiblioFilmes]

A vitória da ex-carteira

Catherine O’Flynn, que ganhou quarta-feira o prémio Costa (antigo Whitbread) para primeiro romance, é um exemplo de perseverança: o seu livro, What Was Lost, foi recusado 14 vezes mas ela não desistiu. Aos 37 anos, O’Flynn já fez de tudo: foi professora, carteira, funcionária de uma loja de discos e cliente-mistério. Sobre o triunfo que lhe abre as portas para uma carreira estável de escritora, disse: “I hope it does give people hope. It’s very hard to get published and it’s hard if you go in there with this burning ambition. I didn’t have that, I was protected by my natural pessimism.

A biblioteca vazia

Não é só em Portugal que a Cultura sofre tratos de polé. Devido a desentendimentos entre as autoridades regionais galegas e o Ministério da Cultura espanhol, a novíssima biblioteca pública de Santiago de Compostela foi inaugurada terça-feira… sem livros.

[via Cadeirão Voltaire]

Sobre as listas dos melhores livros

Alberto Manguel, irónico, no Babelia.

Os estupendos depositários

Alguém assume-se como escritor e há uma aura que se acende. Uma aura que só existe nos olhos dos outros (os que não escrevem) e as mais das vezes é uma incómoda maldição.
Que o diga Clara Sánchez:

«La humanidad piensa que el escritor puede ser un estupendo depositario de todo lo sórdido e inconfesable de la existencia, porque se le supone una capacidad de comprensión sin límites y sobre todo porque se da por supuesto que las propias vidas de los escritores se sostienen sobre desórdenes y extravagancias envidiables.»

O resto da crónica, publicada no suplemento Babelia do El País, está aqui.

Livros do ano

Chega-se a Dezembro e começam a surgir as listas dos “melhores entre os melhores de 2007″. O Times Literary Supplement, por exemplo, pediu a 35 escritores que resumissem, num parágrafo ou dois, as suas escolhas.

Eis o veredicto de dez desses autores (provavelmente os mais conhecidos do público português): 

 George Steiner

George Steiner. O papa da cultura livresca ocidental, que proferiu uma conferência na Gulbenkian há poucas semanas, destacou três títulos: Nemesis, de Max Hastings (Harper), uma abordagem histórica da batalha pelo Japão, na II Guerra Mundial; o romance The Indian Clerk, de David Leavitt (Bloomsbury); e Strophen für Übermorgen, de Durs Grünbein (Suhrkamp), “a major collection” que ilustra “the range, the civility, the acute political and aesthetic independence of a profoundly persuasive, though often ironic, voice”.

Julian Barnes

Julian Barnes. O escritor inglês, que também esteve em Portugal recentemente (a promover o romance Arthur & George, editado pela ASA), volta a revelar a sua francofilia. Além de That Sweet Enemy, de Robert e Isabelle Tombs (Heinemann), espécie de tratado sobre a rivalidade entre Inglaterra e França, escrito a quatro mãos por um casal cujos elementos nasceram em lados separados do canal da Mancha, a sua preferência recaiu em The Discovery of France, de Graham Robb (Picador), que explica “how the nation was created only by destroying or homogenizing those aberrant regions, whose singularities, once supressed, were then celebrated as typically french”. A redescoberta de Irène Némirovski, iniciada com Suite Française e prosseguida este ano com a publicação do romance David Golder (Vintage), também foi sublinhada pelo autor de O Papagaio de Flaubert.

Seamus Heaney

Seamus Heaney. O poeta irlandês, Prémio Nobel da Literatura em 1995, exultou com The Letters of Ted Hughes (Faber and Faber), uma correspondência que é, segundo ele, melhor ainda do que os seus admiradores poderiam esperar. “Rammed with life in every line, spontaneous, sagacious, extravagant, they will not only be the best guide to his life and work, but will provide like Keats’s, in comparison with wich they more than hold their own – an education in the vocation of poetry.” Heaney louva ainda The Táin (Penguin Classics), uma “jubilosa” nova tradução, feita por Ciarán Carson, do épico The Cattle Raid of Cooley, originalmente escrito em Irlandês Antigo.   

Alberto Manguel  

Alberto Manguel. O ensaísta, conhecido sobretudo por Uma História da Leitura (Presença), inclinou-se para dois livros de poesia de autores canadianos: The Door, da também romancista Margaret Atwood (McClelland & Stewart), “written in a sparse, elegiac tone that combines illuminating intelligence with caustic humour”; e The Blue Hour of the Day, de Lorna Crozier (McClelland & Stewart), uma antologia de oito dos seus livros anteriores. Dos muitos romances “excelentes” lidos em 2007, Manguel deixa registo de três: Tasmon, de Thorsten Palzhoff (Steidl); La Femme qui lisait trop, de Bahiyyih Nakhjavani (Actes Sud); e Nada, de Carmen Laforet (Harvil Secker).

Joyce Carol Oates

Joyce Carol Oates. A autora de Blonde, eterna candidata ao Nobel, fez uma lista com dez títulos. Os principais: The Reluctant Fundamentalist, de Mohsin Hamid (Hamish Hamilton, editado em Portugal pela Civilização), que recomenda com “muito entusiasmo”; Born Standing Up, as memórias de Steve Martin (Simon and Schuster); Prime Green, de Robert Stone (Harper Perennial); Old Heart, do poeta Stanley Plumly (Norton); a biografia literária Bernard Malamud: A writer’s life, de Philip Davis (Oxford); e o romance On Chesil Beach, de Ian McEwan (Picador, editado por cá pela Gradiva), um “tour de force of impassioned brevity”.

 Michel Tournier

Michel Tournier. Talvez inesperadamente, se tivermos em conta a forma como a inteligentsia francesa costuma receber os livros de Amélie Nothomb, o escritor francês, que pertence ao comité de leitura da Gallimard e à Academia Goncourt, assume uma única escolha: Ni d’Eve, ni d’Adam (Albin Michel), o 16.º romance da autora belga. A 5 de Novembro, quando ficou decidido o vencedor do Goncourt deste ano (Alabama Song, de Gilles Leroy), Tournier votou em Nothomb, “but unfortunately I was the only one to do so”. E votou, entre outras coisas, por ter considerado o livro “both funny and gripping because it is so brutally truthfull and utterly unexpected”.

 Nadine Gordimer

Nadine Gordimer. A Nobel sul-africana dividiu as águas. Ficção: Exit Ghost, de Philip Roth (Houghton Mifflin), “a noble revelation of the cruel vulnerability of the body we live in without choice”. Não-ficção: Camus at “Combat”: Writing 1944-47, textos dispersos de Albert Camus, editados por Jacqueline Lévi-Valensi (Princeton), “every line totally charged with extraordinary synthesis of passionate conviction and objectivity in intellectual force”.

 Marjorie Perloff

Marjorie Perloff. A professora emérita de Literatura Comparada em Stanford, conhecida pelos seus trabalhos no campo da crítica de poesia, sente uma “nova esperança” em relação a uma “avant-garde writing that also speaks to a larger audience”. E em que é que assenta a ”nova esperança”? Em dois “dazzling books”: o livro de poemas Souls of the Labadie Tract, de Susan Howe (New Directions); e Today I Did Nothing: The Selected writings (Overlook Duckworth), do inclassificável russo Daniil Kharms (que a Assírio & Alvim editou este ano, em tradução de Filipe e Nina Guerra). 

Ali Smith

Ali Smith. A escritora escocesa elege duas autoras britânicas: Nicola Barker, por Darkmans (Fourth Estate), finalista do Man Booker Prize deste ano; e Jeanette Winterson, por The Stone Gods (Hamish Hamilton), “a blend of wit, yearning and grief whose rolling, open structure argues optimism in the face of grave loss”. Smith elogia ainda duas pequenas editoras: a Hesperus Press e a Pushkin Press.

Clive James

(Foto: Alana Cundy) 

Clive James. Tal como Seamus Heaney, este crítico australiano, que em tempos vimos a apresentar programas televisivos sobre cidades (no People and Arts), põe nos píncaros The Letters of Ted Hughes (Faber and Faber), sobretudo pelo trabalho de edição de Christopher Reid, ao evitar que as cartas fossem “twice as long, and therefore half as good”. A ausência desse trabalho de desbaste é justamente o que faz com que Diaries of Donald Friend (National Library of Australia) fique aquém do que podia ter sido. James destaca ainda The Black Swan (Allen Lane), de Nassim Nicholas Taleb, um teórico da incerteza e consultor financeiro; bem como o livro Qu’est-ce que la France? (Stock/Panama), com as actas de um simpósio organizado pelo “dauntingly brilliant” filósofo Alain Finkielkraut. “The book would be worth buying for a single phrase coined by its editor to define the most widespread of current threats to civilization in the West: ‘la bien-pensance sans pensée.’”

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges