Igreja Católica responde ao novo romance de José Rodrigues dos Santos
Arrasando-o de alto a baixo, claro. Involuntariamente, porém, fazendo-lhe a vontade: burburinho mediático é o que o sub-Dan Brown lusitano mais deseja. Neste momento, JRS deve estar inchadíssimo com a perseguição da Igreja, a única coisa que alguma vez teve (ou terá) em comum com Saramago.
Secretário de Estado da Cultura garante que o orçamento da DGLB vai ser duplicado
Durante a visita ao stand da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, ontem à tarde, Francisco José Viegas declarou ao Público que a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) reforçará a política do livro com um aumento da dotação orçamental da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas “seguramente superior a 100 por cento“, embora não se possa para já quantificar o montante. O reforço servirá para pagar dívidas aos municípios relativamente a bibliotecas e para apoio à tradução de obras de autores portugueses no estrangeiro.
A imprensa de referência e o Nobel de Literatura
Todos os anos, no dia seguinte à atribuição do Nobel de Literatura, faço um pequeno exercício na banca dos jornais: «Ora deixa cá ver quem é que chamou o escritor nobelizado para a primeira página e quem é que o ignorou.»
Escusado será dizer que o Correio da Manhã, por exemplo, nunca faz qualquer referência. Ainda se o escritor fosse um assassino, um pedófilo ou um ponta-de-lança do Benfica, talvez se arranjasse um espacinho. Agora alguém que escreve livros, essas coisas aborrecidas, é óbvio que nunca terá lugar numa capa tablóide.
Durante muito tempo, verifiquei uma espécie de lei universal que permitia separar os jornais de referência do resto da imprensa. Os jornais de referência são os que fazem chamada de capa com o Prémio Nobel de Literatura ou com os grandes escritores, quando morrem. Há uns anos, para minha tristeza, o Diário de Notícias começou a esquecer o Nobel literário. O Público, esse, nunca falhava.
Ora neste ano da graça de 2011, para meu grande espanto, aconteceu o contrário: Tomas Tranströmer está na capa do DN (com foto e tudo; embora para isso contribua, estou certo, o facto de o poeta sueco ter escrito sobre Lisboa), mas nem sombra dele na capa que o Público dedica quase na íntegra a Steve Jobs. Não deixa de ser sintomático (e preocupante).

O mediático desaparecimento de Michel Houellebecq
Pelos vistos, ninguém sabe onde pára Houellebecq, que faltou a vários compromissos de promoção do seu último livro, o que só aumentou, claro está, a promoção do seu último livro. Para tornar a manobra ainda mais perfeita (se é que se trata de uma manobra), Houellebecq caprichou na ironia. Para começar, o dito romance tem como título O Mapa e o Território. Depois, ele próprio surge na história, como personagem que desaparece misteriosamente. Enfim, esperemos apenas que o desenlace não seja o mesmo.
Um bom candidato
O documentário José e Pilar é o candidato português aos Óscares de 2012. E eu gostava muito que o seu autor, Miguel Gonçalves Mendes, não só ganhasse a estatueta como aproveitasse para falar um pouco do Nobel português ao público do Kodak Theatre e às centenas de milhões de espectadores que assistem à cerimónia pelo mundo fora.
Biblioteca Nacional reabre, mas não totalmente
Ao fim de nove meses de obras, os serviços de Leitura Geral e de Reservados da Biblioteca Nacional voltaram a abrir portas, embora ainda com algumas restrições.
Ipsis verbis
Não podia estar mais de acordo com o texto publicado por António Guerreiro, no suplemento Actual do Expresso:
«O “protocolo de colaboração” celebrado no final da semana passada entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora pode ser uma benéfica operação, mas revela publicamente uma verdade terrível: que uma editora não consegue hoje sobreviver pelos seus próprios meios se o núcleo central do seu catálogo é a literatura portuguesa – mesmo que seja uma parte razoável do cânone do século XX. Pensar que o famigerado mercado ameaça de extinção os livros de Fernando Pessoa, é pura e simplesmente obsceno. E chegou-se a este estado de catástrofe sem grandes resistências nem gritos de alarme, como se o que aconteceu e continua em curso não fosse um desastre obscuro. Pelo contrário, aqueles que foram traçando, desde há muito tempo, um quadro negro do estado da situação fizeram figura de criaturas agoirentas. E, no entanto, basta hoje entrar nas livrarias – e, com maioria de razão, se entrarmos com o objectivo de procurar um livro que escapa ao mainstream editorial e das “novidades” – para perceber que elas repousam hoje sobre um crime. Ou melhor: sobre uma cadeia de crimes perpetrados com a colaboração (nem sempre consciente dos seus efeitos nefastos) de muita gente e muitas instâncias. A partir de certa altura, o caminho único e coercivo revelou-se sem alternativas – há apenas um pequeníssimo espaço para alguns devaneios de gente freak e diletante, como aliás reconhecia, numa entrevista, há menos de um ano, Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora: “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais (…). E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares que os amantes de poesia comprarão.” Esperemos que o poderoso assinante do “protocolo de colaboração” não se aplique agora, que tem ainda mais poder para isso, na realização da sua própria profecia.»
Adoçante ortográfico

Objectivo sem “c”, claro. Mas o Acordo, para mim, continua amargo.
[via Blogtailors]
Era uma vez o Capitão Portugal
Na véspera da estreia do filme Capitão América, o jornal i inventou um equivalente português, recorrendo ao mais ecléctico, digamos assim, dos think tanks (vai de Sá Pinto e Vicky Fernandes a Rentes de Carvalho e Jorge Silva Melo). Lá pelo meio, também dou a minha achega.
Guerra Junqueiro inédito?
Se se confirmar, aquela caixa é uma arca.
Uma gralha
Hoje, a primeira página do Público anuncia uma colecção com um conceito interessante: livros escolhidos de autores importantes que nunca ganharam o Nobel. Estranhamente, Jorge Luis Borges não faz parte do lote, o que o coloca numa posição bizarra: não só foi ignorado pela Academia Sueca, como volta a ser ignorado na lista dos excluídos do Nobel.
Outro que não teve muita sorte foi Henry James, que na capa do respectivo volume passa a Henri James. Toda a gente sabe que o autor de Retrato de uma Senhora nasceu americano e naturalizou-se britânico. Pelos vistos, agora também o querem afrancesar.
Quando um poeta perde o filho e as palavras
Inauguração oficial da Casa José Saramago em Lanzarote
Isabel Coutinho esteve presente e conta o que se passou na cerimónia.
Porque temos de ler DeLillo?
A Inês Fonseca Santos fez-me a pergunta há umas semanas, ao preparar um artigo para a revista Elle de Abril (pretexto: a edição de Ponto Ómega, pela Sextante), tal como fez a Eduardo Pitta e Pedro Mexia. Dei-lhe a seguinte resposta:
Temos de ler Don DeLillo em primeiro lugar porque é um grande, um enorme escritor, um narrador exímio que tanto domina as grandes massas orquestrais (veja-se o monumental Submundo) como a música de câmara (caso do novo Ponto Ómega). Ele é um mestre do diálogo e da carpintaria narrativa, capaz de se demorar páginas e páginas no relato de uma jogada de basebol ou na descrição de um sapato, mas também capaz de tocar no âmago mais doloroso das suas personagens.
É também imperioso ler DeLillo por causa do retrato panorâmico que nos oferece da América. Uma América sempre sob ameaça (as bombas soviéticas, os desastres industriais, o terrorismo) e devorada pela sua própria paranóia. Uma América que surge em estado bruto, gigantesca e paradoxal, em livros que umas vezes parecem espelhos imensos (talvez à escala 1:1) e outras vezes abismos de onde ninguém sai ileso, muito menos o leitor.
Mercado de Inverno
É uma das maiores transferências jornalísticas dos últimos tempos: depois de vários anos a escrever crónicas e crítica literária no Público, Pedro Mexia vai escrever crónicas e crítica literária no Expresso. A partir de 26 de Fevereiro.
Sobre a presença das editoras portuguesas nas redes sociais
Um texto de Sérgio Almeida, na edição de hoje do Jornal de Notícias.
Um jantar em 2011
Todos os anos, em Dezembro, a revista Time Out Lisboa escolhe uma dúzia de figuras com as quais gostaria de jantar no ano seguinte. É uma forma de destacar nomes que ainda não são muito conhecidos do grande público mas que podem vir a dar cartas nas respectivas áreas de actividade. Este ano, dos 11 escolhidos, um é escritor: Afonso Cruz, autor de Enciclopédia de Estória Universal e de A Boneca de Kokoshka (ambos editados pela Quetzal).
Frase do dia
«O Bernardo Soares é uma tripe.»
João Botelho, autor de Filme do Desassossego, em entrevista ao jornal i.
Um aforismo de Nicolás Gómez Dávila
Encontrei-o numa entrada do diário de João Bigotte Chorão (ver última página do JL n.º 1043, hoje nas bancas): «O jornalismo foi o berço da crítica literária. A universidade é o seu túmulo.»
Olhando para a frente
«Não há volta a dar: o futuro é digital. Editores e bibliotecários estão a viver num limbo, entre o passado analógico e o futuro electrónico. E como ainda ninguém resolveu o problema da preservação dos textos em formato digital, há riscos. Como será daqui a 20 anos?» Em Paraty, Isabel Coutinho ouviu algumas respostas para esta pergunta.
Afinal os prémios literários sempre servem para alguma coisa
Após ter ganho o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, Rui Cardoso Martins «diz-se outra vez pronto para a escrita».
Biblioteca do Vaticano reabre na próxima semana
«Depois de mais de dez anos de obras e de três anos encerrada ao público, a Biblioteca Apostólica do Vaticano reabre segunda-feira. Com mais espaço, melhor arrumação e com todas as condições de segurança», explica o DN.
Viajar dentro da Poesia
[Uma dica do leitor Daniel Gonçalves]
Alguém tem uns sete ou oito milhões de euros que me empreste?
É que eu gostava mesmo de oferecer uma edição original do livro Birds of America, de John James Audubon, ao meu filho Pedro, quando ele fizer quatro anos (já falta pouco).
Pessoa no Museu da Língua de São Paulo
A sinceridade de Bret Easton Ellis
«Tem uma bela voz…
Toda a gente me diz o mesmo, mas eu não sou capaz de me ouvir nem de me ver e não leio as críticas aos meus livros. Na semana passada, aqui nos Estados Unidos, fui ao “Charlie Rose Show” – muito popular entre os escritores – e só ontem à noite, depois de beber uns copos, é que consegui ver o programa. Estava a passar-me completamente, mas as pessoas dizem-me que eu estava óptimo e até a minha mãe me telefonou para dizer “Querido, estavas fantástico, tão bonito e maravilhoso na televisão”. Eu acho que estava horrível.
Diz isso para que, tal como a sua mãe, lhe digamos que tem uma imagem excelente…
Talvez. A verdade é que a minha autoconfiança é mínima, o que me faz sofrer muito.
Não pense mais nisso, isto é uma entrevista pelo telefone.
Mas eu estou muito preocupado com a entrevista. Sou um escritor que já não quer ser entrevistado, que já não quer fingir que sabe o que deve dizer em relação ao seu trabalho, que já não sabe as respostas. É este o ponto da situação.»
Início da entrevista de Bret Easton Ellis a Helena Vasconcelos, a propósito da edição portuguesa de Quartos Imperiais (Teorema), publicada hoje no suplemento ípsilon, do Público.
António Lobo Antunes e os ex-combatentes
Sobre a absurda presunção de que o escritor António Lobo Antunes seria cobarde, por não ter comparecido a um encontro público no dia em que o Expresso publicou uma notícia sobre uns certos senhores que lhe querem «ir ao focinho» [sic], eu tinha esboçado um post que deixei em draft. Quando li a coluna de Ferreira Fernandes, na edição de hoje do DN, apaguei-o porque FF diz exactamente o que eu queria dizer (e com mais elementos factuais).
Eis a crónica, na íntegra:
«BARDAMERDA PARA A COBARDIA
Em Setembro de 2009, foi lançado um livro de entrevistas a António Lobo Antunes, onde ele falou da guerra em Angola de forma que não agradou a antigos combatentes. Desde aí, apareceram ameaças na Internet. Vou enumerar datas e locais onde teria sido possível partir a cara a Lobo Antunes, de 67 anos. Em 22 de Outubro, no São Luiz, Lisboa, ele lançou o seu novo romance. Em 26 de Novembro, esteve em Caldas da Rainha a apresentá-lo. E, a 6 de Dezembro, na Biblioteca de Nelas. Em 5 de Março esteve com Fátima Campos Ferreira no Casino da Figueira. Em Maio casou, em cerimónia que a revista Caras avisou. A 20 desse mês apresentou o livro de Pedro Rosa Mendes, na livraria Buchholz, em Lisboa. A 7 de Julho deu uma conferência de imprensa, em Lisboa, com artistas franceses. Em 24 de Julho debateu com Eduardo Lourenço na Faculdade de Letras de Lisboa… São sítios públicos onde ele foi quando já circulavam ameaças de agressão. Destas não sei nada. De Lobo Antunes vejo que não fugiu delas. No sábado, o Expresso contou as ameaças que já circulavam há meses na Internet e que o escritor conhecia. Nesse dia, ele ia a um encontro em Tomar. Por razões que ele já explicou, não foi. Mas juntaram a não ida ao medo de ser agredido! Lobo Antunes disse, ontem, ao DN: “Querem fazer–me passar por aquilo que não sou: um cobarde.” É o que diz o rol que aqui deixo. Não é.»
O Mondego, gota a gota
«(…) Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro. Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou. Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
– Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
– Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim. (…)»
[in De livros e editores, crónica de António Lobo Antunes, no último número da revista Visão]
FLIP 2010
A Festa Literária Internacional de Paraty decorreu entre 4 e 8 de Agosto. Para quem não esteve lá, vale a pena seguir com alguns dias de atraso o relato do que foi acontecendo nas muitas sessões, através do blogue da FLIP (ou do Twitter, ou das galerias de fotos, ou do canal no YouTube, ou do Facebook, ou dos podcasts) e através das reportagens que a Isabel Coutinho foi enviando do Brasil, ao serviço do Público (por exemplo, aqui, aqui e aqui).
O livro inacabado de Saramago
Da entrevista a Pilar del Río, viúva de José Saramago, publicada ontem pelo Diário de Notícias:
«Ainda há muito espólio literário para revelar?
Não.Só o último livro que estava a escrever?
Sim. Mas não é um livro.Não será publicado?
Sim, será publicado. Creio que é um texto maravilhoso, cheio de humor, com uma profundidade e uma carga que merece que seja publicado. Mas não é um livro porque não ainda estava acabado. Não vamos enganar ninguém.É o princípio de um livro?
Claro, e ao qual os leitores têm direito. Como? Quando? De que maneira? Isso, logo veremos como acontecerá. E não é para fazer negócio.Não há mais nada desconhecido na arca de Saramago?
O que havia não publicado viu-se na exposição A Consistência dos Sonhos. Não há mais, lamento. Saramago não era um autor que escrevesse e fosse metendo em gavetas para o futuro. Foi um autor tardio, e aquilo que escrevia ia publicando. Existe, sim, uma obra da juventude, de que já falámos mil vezes – Clarabóia – e da qual disse “não a quero ver publicada em vida”. Mas como não proibiu que o fosse depois, assim irá acontecer um dia. Evidentemente, será apresentado como uma obra de juventude, como o foi Terra do Pecado.Quando se prevê essa publicação?
Ainda não houve tempo para se pensar no assunto.Para este último “romance” já existe uma data de publicação?
Ainda não falámos com os editores nem com a agente literária. Não há pressa.Quantas páginas tem?
Teria de as ter contado mas nem sequer as tenho numeradas no meu computador. Mas não serão muitas, cerca de 50.»
A entrevista completa pode ser lida aqui, aqui e aqui.
VGM na Poesia Incompleta
A Poesia Incompleta não é apenas uma livraria de poesia. É sobretudo uma livraria de poetas, que por lá vão passando para falar com o Changuito, espreitar as novidades, dizer mal ou bem deste ou daquele e encontrar outros poetas que também por lá passam para falar com o Changuito, espreitar as novidades e dizer mal ou bem deste e daquele (como dantes se passava pelas mesas do café Gelo ou do Monte-Carlo, quando ainda havia em Lisboa tertúlias literárias dignas desse nome). Entre os muitos poetas que rumam à Rua Cecílio de Sousa, sabêmo-lo agora, conta-se igualmente Vasco Graça Moura, que celebra o facto em crónica no Diário de Notícias, a merecer leitura completa (ao contrário dos seus textos políticos), mas de que destaco aqui os três parágrafos finais, pelo que têm de justo reconhecimento do trabalho de um «jovem livreiro» competente e irónico:
«Acontece que em Lisboa acabo de descobrir uma livraria integralmente dedicada à poesia. Fica na Rua Cecílio de Sousa e chama-se Poesia Incompleta, o que envolve um princípio de paradoxo: nunca encontrei livraria mais completa para a poesia do que esta Poesia Incompleta…
Dispõe de um catálogo impressionante de livros de poesia, não apenas em português, cobrindo praticamente todas as épocas, desde os primórdios da literatura até anteontem (só porque os livros que terão saído ontem ainda não foram distribuídos…). Tem à frente um jovem livreiro que profissionalmente conhece tudo: sabe dos autores, sabe das edições, sabe das antologias, sabe das revistas, aborda as matérias com a necessária precisão e um quam satis de ironia.
Vale a pena visitá-la, recomendação que faço a quem, para férias, queira levar leituras dessa área, apenas com a prevenção de que acabamos sempre por comprar mais um ror de coisas além daquelas que lá fomos procurar… Poesia Incompleta, se o género aguentar no mundo em que vivemos, acabará sem dúvida por se tornar um lugar de culto.»
Santa Teresa e arredores
Imperdível, a série de reportagens mexicanas de Alexandra Lucas Coelho, que o Público está a publicar esta semana. A sequência iniciou-se domingo, na revista Pública, com um texto brutal, mergulho da jornalista na violência desmesurada de Ciudad Juarez (o molde para a Santa Teresa de Roberto Bolaño, em 2666). Ou muito me engano ou estes belíssimos textos reaparecerão em livro, um dia destes, com chancela da Tinta da China. E cá estarei para os reler.
APEL debaixo de fogo por causa do IVA
«A agitação voltou ao mercado editorial português», escreve Sérgio Almeida num artigo da edição online do Jornal de Notícias. E explica porquê:
«Insatisfeitas com o silêncio da associação representativa do sector no processo que determinou o aumento do IVA sobre os livros, várias editoras e distribuidoras acusam a APEL de estar rendida aos grandes grupos.
A recente subida em 20% do IVA aplicado sobre os livros (de 5% para 6%) voltou a deixar a descoberto as profundas divisões que rodeiam os membros do sector, disfarçadas nos últimos tempos após a fusão associativa.
Na origem das críticas à gestão de Paulo Teixeira Pinto está a ausência de uma posição oficial face ao agravamento do imposto. Os contestatários apontam mesmo o caso espanhol – onde os livros, tal como os medicamentos, ficaram à margem da subida – como paradigmático do exemplo que deveria ter sido seguido.
(…) Ouvido pelo JN, o secretário-geral da APEL justificou a ausência de directiva oficial pelo “aumento quase imperceptível”, mas também por “ser mais prático dar liberdade aos editores para que escolhessem a posição que mais lhes conviesse”.»
A literatura vende

Toda a gente que trabalha na imprensa sabe que as newsmagazines (tipo Visão ou Sábado) fazem ciclicamente capas com a palavra sexo ou corpos despidos porque esses números vendem sempre mais do que os números com outros temas quaisquer. É por isso interessante constatar como uma revista erótica soft, não deixando de exibir uma mulher nua na capa (como lhe compete), soube homenagear um grande escritor recentemente desaparecido.
A Sara Figueiredo Costa deu-se mesmo ao trabalho de comprar este último número da Playboy portuguesa e não lhe poupa elogios: «(…) o facto é que a homenagem é séria e justa, e não perde seriedade nem justeza pela exposição de partes habitualmente resguardadas do corpo feminino. Além disso, à produção fotográfica de encenação bíblica segue-se uma longa entrevista feita a Saramago por Humberto Werneck, antigo editor-chefe da Playboy Brasil, em 1995. Saber enquadrar uma homenagem merecida na linha editorial de uma publicação, eis o rasgo certeiro da Playboy portuguesa.»
Um título com muita piada
Está na edição de hoje do Inimigo Público: «Maratona de leitura de Saramago foi ganha por um queniano».
Acordo Ortográfico nas escolas
No ano lectivo 2011-2012, as escolas já irão dispor de manuais redigidos segundo as normas do novo acordo ortográfico, assegura o Ministério da Educação (ME).
Já nem Sherazade escapa à estupidez fundamentalista
Para evitar a guilhotina
Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura, espera ter pronto na próxima semana o documento legislativo que isenta as editoras livreiras de pagarem IVA por doações de livros em excesso no mercado.
O LeV, visto por Alexandra Lucas Coelho
Da reportagem sobre os quatro dias que a jornalista passou no encontro Literatura em Viagem (texto publicado na edição de hoje do suplemento P2, do Público; ver aqui), destaco as suas «notas do meu caderno»:
«Carlos Vale Ferraz a dizer que a amargura faz má literatura e o que há na guerra é a vida. Cândida Pinto a contar como viu um par de noivos atravessar três barreiras de segurança para umas núpcias no Hotel Palestina em Bagdad. João Pedro Marques a distinguir a História fria (que explica mas não mostra) e a História quente (que mostra mas não explica). Lourenço Mutarelli, esse lacónico paulistano que entre Beja e Nova Iorque prefere Beja, a explicar como o avião é demasiado rápido para a alma. Nuno Silveira Ramos, crescido em Angola, a contar como se sentiu português e orgulhoso em Malaca, onde os ranchos folclóricos cantavam Ó Malhão Malhão em português arcaico. Júlio Moreira a dizer que escrever é eficaz para a memória, como sabem todos os cábulas. Arthur Dapieve a falar do garoto preto rico raptado pelo garoto branco do morro no Rio. José Fanha a recitar o poema de António Lobo Antunes sobre os homens maricas quando estão com gripe. Filomena Marona Beja a mostrar como a partir da palavra zimbro se viaja à serra da Estrela no século XIX. Joaquim Magalhães de Castro a falar dos pioneiros portugueses nesse tecto do mundo que são os Himalaias. Cristina Carvalho a descrever os bosques da Lapónia onde os adultos ficam crianças. Helder Macedo a inventar a realidade do homem que atravessa o deserto num blindado sem uma única janela. valter hugo mãe à espera de coisas esdrúxulas num patamar de Paços de Ferreira, onde a dona Alice tinha sido amiga de infância de uma santa. Mempo Giardinelli a dizer que a escrita é uma luta contra a realidade, exactamente o contrário do que acredito.
Eu acredito que a realidade, como o mundo, não acaba. A escrita será real ou não será. E nenhum momento em todo o LeV me comoveu como a intervenção do arquitecto Alexandre Alves Costa, que trouxe quatro viagens em texto e imagem, para dizer aquilo que no passado continua a ser agora. Uma delas foi a que fez aos bairros de lata em que viviam os emigrantes portugueses em Paris, em 1965. Eu nunca tinha visto aquela lama, aquele frio. E não me vou esquecer.»
A este excelente resumo do LeV falta só, por razões que se compreendem, uma nota sobre a magnífica intervenção da própria Alexandra Lucas Coelho, que, numa mesa dominada pelo bom humor e desassombro de José Rentes de Carvalho, lembrou um dia quase infinito que passou em Cabul, cheio de encontros luminosos com pessoas luminosas, prova de que a viagem pode dilatar o tempo; isto é, fazer com o que o nosso tempo seja invadido, aumentado, iluminado pelo tempo do lugar onde se chega, desde que se tenha, é claro, disponibilidade para esse contágio.
O ‘backup’ do Twitter
A Biblioteca do Congresso dos EUA está a armazenar todo o conteúdo do Twitter (50 milhões de mensagens por dia). Um tesouro para futuros sociólogos estudarem como é que se interagia online no princípio do século XXI. Espero apenas que a Biblioteca do Congresso esteja a fazer a mesma coisa com a blogosfera.


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