Manchas, riscos, cortes
José Cardoso Pires tinha o hábito de oferecer ao seu editor, Nelson de Matos, caixas com os seus manuscritos lá dentro (ainda cheios de emendas e garatujas), além do material iconográfico utilizado para a construção das personagens e da narrativa. No momento em que a família do escritor começou a doar o seu espólio à Biblioteca Nacional, Nelson de Matos abriu uma dessas caixas (a relativa ao romance Alexandra Alpha) diante da jornalista Isabel Coutinho, do Público. O momento ficou registado em vídeo:
Obrigado, Isabel, pelo serviço público.
Agora é público
Que a Ler vai regressar aos escaparates no final deste mês, já se sabia. Que o Francisco José Viegas me convidou para ser um dos cronistas (e colaboradores permanentes) da revista, ficou a saber-se hoje através de uma notícia do ípsilon. Acrescento apenas que é com muito prazer que embarco nesta aventura.
Editores da escola anglo-saxónica
Aqueles que mexem no texto, discutem com os autores, apontam o dedo quando é preciso apontar, cortam quando é preciso cortar, apresentam alternativas, sugerem soluções e procuram melhorar os manuscritos que lhes chegam em bruto, para bem de quem os escreveu e de quem os há-de ler. Joana Gorjão Henriques foi à procura deste espécimes raros por cá, numa excelente reportagem publicada hoje no suplemento ípsilon, do Público. Histórias concretas: Vítor Silva Tavares/Alberto Pimenta (o binómio heteredoxo), Francisco José Viegas/Francisco Camacho (o desafio entre jornalistas) e Maria do Rosário Pedreira/José Luís Peixoto (a descoberta merecida).
“O livro pediu para parar ali”
O Diário de Notícias publica hoje, nas suas páginas centrais, uma entrevista de Isabel Lucas a Pepetela. Começa assim:
«Quando terminou o romance Os Predadores disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?
Foi diferente. Este livro foi um jogo, espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei, pensei: “Isto até dava mais umas 800 páginas.” Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.E porque parou se o livro poderia ser o triplo?
O livro estava a pedir-me para parar ali.»
Continue a ler no site do DN.
Mário de Carvalho no Jornal de Letras

«(…) Sabes, os livros saem-me do pêlo. É que eu tenho uma facilidade enorme de escrever, o que é um perigo terrível (…) E mais ainda: com a idade um tipo compete consigo próprio, procura soluções, policia os lugares-comuns, vê se há ecos, se há repetições, está atento à coerência, ao raccord, interroga-se se as palavras são exactas, se irradiam sentido, se não são vazias. É um grande esforço. Como tenho grande facilidade em escrever, as fórmulas ocorrem-me rapidamente e tenho de as evitar.»
[Retirado da entrevista concedida pelo escritor a José Manuel Rodrigues da Silva, a pretexto do lançamento do romance A Sala Magenta, pela Caminho]
Desafios de um editor freelancer
Edições Nelson de Matos. Assim mesmo, a assinatura confundindo-se com a designação comercial da empresa. Depois de 23 anos na Dom Quixote e de uma breve passagem pela Ambar, de onde saiu em Abril do ano passado, está de volta o editor que sempre gostou de trabalhar os textos de perto com os seus escritores, dos quais muitas vezes se tornou amigo e confidente.
A personalização da editora não é fenómeno único, mesmo no nosso país (basta pensar nas Edições Romano Torres, na Parceria António Maria Pereira, na Lello & Irmãos, na Assírio & Alvim ou nas Edições João Sá da Costa, por exemplo), mas traz consigo a consciência de uma marca autoral. “Esta é uma editora com rosto e assinatura. Representa os meus critérios, os meus gostos, a minha estética. Não vou encher um catálogo por encher. Quero dar-lhe um sentido e uma ética”, diz Nelson de Matos, na sala espaçosa de um apartamento virado para a Alameda Afonso Henriques, em Lisboa.
É ali, entre pilhas de manuscritos e textos enviados por correio electrónico (tantos que o computador até “está a perder capacidade”), é ali que vem gerindo a nova etapa profissional. “Estou reformado, recebo uma pensão que me dá para viver, acumulei umas economias. Isso permite-me ser editor freelancer. Ou seja, dispor do tempo como quero, sem necessidade de publicar livros a correr, com o fito de que sejam rentáveis, só porque é preciso pagar salários.”

Fazendo jus ao nome da editora, o único funcionário de Nelson de Matos é Nelson de Matos. Cabe-lhe fazer quase tudo, da escolha dos corpos de letra aos tipos de papel, passando pela negociação dos preços com as gráficas. E para aquilo que não faz — paginação, revisão, armazenagem ou distribuição — recorre ao outsourcing.
As vantagens parecem-lhe evidentes: “Posso fazer o trabalho com toda a lentidão, com todo o cuidado. E só tenho de dar ordens a mim mesmo.” Além disso, a leveza da estrutura permite-lhe apostar em projectos minoritários (com tiragens de mil ou 1500 exemplares) que são economicamente incomportáveis para as editoras maiores. Esta é, aliás, uma das razões por que Nelson de Matos não teme os grandes grupos editoriais que se estão a formar em Portugal. “Nós, os pequenos, podemos competir de vez em quando nas áreas deles, mas eles dificilmente virão competir nas nossas.”
Quer isto dizer que o ex-editor da Dom Quixote não descarta a hipótese de incluir alguns best-sellers no seu catálogo? Sim, o que de resto já se está a comprovar com o lançamento do primeiro livro: Lavagante, uma ficção inédita de José Cardoso Pires. As encomendas dos livreiros foram tantas que ultrapassaram a tiragem inicial (3000 exemplares), obrigando a imprimir a segunda edição ainda antes de a obra ser posta à venda.
Com Cardoso Pires, a amizade durou quase 30 anos. “Éramos muito íntimos. Ele batia-me à porta aos domingos de manhã, entrava em casa e sentava-se, sem cerimónias. A relação acabou por envolver as famílias. Quando ele morreu, quis sublinhar que não era apenas amigo do Zé mas também delas: da Edite [sua mulher], da Ana e da Rita [filhas]. A Ana tem dito que se o pai soubesse que eu ia fazer uma editora e não tivesse um inédito, escrevia um para me dar. Havendo um inédito, ela entregou-mo.”
Nelson de Matos considera que Lavagante é um texto acabado (há três versões manuscritas e três dactilografadas, “a última bastante limpa, apesar de algumas emendas que incluímos”). Cardoso Pires não o publicou antes de 1974 “porque seria logo apreendido” e não o fez depois do 25 de Abril “porque se envolveu noutros projectos, deixando para trás este texto escrito sob o peso da censura e que para ele talvez fosse um pouco datado”.
Feliz por lembrar o autor de Alexandra Alpha dez anos após a sua morte, algo que a editora da sua obra (Dom Quixote) não está a fazer, Nelson de Matos resume: “Está lá tudo, escrito com aquela simplicidade que dava uma enorme trabalheira.”
[Texto publicado no suplemento DN Gente do Diário de Notícias; fotografia de Leonardo Negrão]
Versão impressa (3)
O texto sobre o encerramento das Correntes, aqui.
Versão impressa (2)
Não há link para o artigo no Diário de Notícias de hoje, por isso transcrevo:
A literatura que nasce na rua
e por vezes rasga a realidade
A história foi contada ontem por Carlos Quiroga, moderador do sétimo debate do encontro Correntes d’Escritas, que tinha “A Rua faz o Livro” como mote. Há uns anos, num colóquio de escritores em Moçambique, um grupo de que faziam parte Onésimo Teotónio de Almeida e Manuel Rui decidiu regressar a pé para o hotel. No caminho, os literatos cruzaram-se com um bando de jovens que em condições normais não hesitaria em roubar-lhes as carteiras. Contudo, ao ver Manuel Rui, o líder do gang apontou: “Ei! Aquele ali é o da Onda [o romance Quem me dera ser Onda].” Resultado: o que era para ser um assalto transformou-se numa guarda de honra.
Este tipo de efeito da literatura sobre a realidade quotidiana (e vice-versa) foi o grande tema que atravessou as várias mesas-redondas que voltaram a levar muito público ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim. Por exemplo, na sessão intitulada “A Literatura Rasga a Realidade”, moderada por Michael Kegler, o brasileiro João Paulo Cuenca contou como o seu romance sobre Copacabana, Corpo Presente, “virou um atractor de mulheres loucas”, que o assediam e por vezes até o perseguem. Se os outros escritores presentes — Eduardo Halfon (Guatemala), Ignacio del Valle (Espanha) e os portugueses Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe — não tinham intromissões tão explícitas nas suas vidas privadas para contar, o certo é que todos viram na fronteira entre a literatura e o real um “rasgão” que dá passagem e permite contaminações nos dois sentidos.
Na mesa de Quiroga, a rua também foi vista como metáfora dos vários caminhos que podem levar à ficção, vista no contexto das suas obras pelo peruano Oscar Málaga Gallegos, pela moçambicana Paulina Chiziane, pela espanhola Susana Fortes, pela luso-argentina Cristina Norton e por Júlio Moreira.
Quanto à sessão da manhã, sobre “Poesia: a bem dita e a mal dita”, juntou Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Teresa Rita Lopes e Janet Nuñez, com moderação de Luís Machado e animada participação do público no período de perguntas e respostas.
Versão impressa
Aqui.
“Um roçar pelas pernas, uma frase”

Sempre me fascinou o modo como a escrita depende, em Hélia Correia, de certas condições meteorológicas. A autora de Lillias Fraser confessou-o várias vezes: só consegue trabalhar os seus livros quando chove (o que seria óptimo para uma autora belga ou escocesa, mas é problemático para quem vive em paragens tão meridionais como as nossas).
Hélia voltou a falar do assunto num texto publicado na Time Out Lisboa, texto de uma delicadeza rara em que equipara o lugar que ocupam, na sua vida, a escrita e os gatos. Começa assim:
«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»
O texto completo pode ser lido aqui.
Uma excelente notícia
A partir de Abril, o Francisco José Viegas vai voltar a dirigir a Ler, sem sombra de dúvida a melhor revista literária generalista que apareceu em Portugal nos últimos 20 anos e que atravessava uma triste hibernação, depois da experiência falhada de passar a sua periodicidade de mensal para anual. Num momento em que estão em curso grandes transformações no mercado do livro português, é fundamental que exista espaço e massa crítica, na imprensa, para reflectir essas mudanças e outras, estritamente literárias.
Reverso da medalha: FJV deixa, a partir de 15 de Fevereiro, a direcção da Casa Fernando Pessoa. Esperemos que o sucessor esteja à altura.
Blogues sobre livros na Time Out Lisboa

Num artigo saído na edição de ontem da Time Out lisboeta, o Bibliotecário de Babel — a quem, por lapso, são atribuídos nome e endereço erróneos — aparece com o braço apoiado no Cadeirão Voltaire, enquanto representantes da recente leva de blogues sobre livros. O retrato só peca por ser pouco abrangente, uma vez que existem projectos em curso que dariam à vontade para uma simpática foto de família (mas o espaço em papel, já se sabe, não é elástico).
A ilustração, magnífica, tem o traço inconfundível de José Carlos Fernandes.
Da Avenida da Liberdade para Paço de Arcos
Como os leitores mais atentos da Time Out Lisboa terão percebido, deixei de ser editor convidado da secção de Livros da revista há 15 dias, naquela que foi uma das minhas colaborações mais curtas de sempre (três meses). Na sala em L da Avenida da Liberdade ficaram bons amigos e um excelente ambiente de trabalho, de que me afasto apenas porque surgiram motivos de força maior. Um deles, estritamente profissional, creio que dispensa explicações: a partir do próximo sábado, começarei a escrever sobre livros no suplemento Actual, do semanário Expresso.
O almoço agradável
Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.
A biblioteca de Siza em Viana do Castelo
Sobre o edifício diz Ana Vaz Milheiro, no Público:
«A biblioteca recorre a um “esquema” clássico: um edifício perfurado por um pátio que aqui se eleva criando um vazio no plano da rua. As salas de leitura “suspensas” posicionam-se assim sobre a paisagem urbana e ribeirinha. Os serviços de apoio e áreas administrativas mantêm-se junto ao solo num volume de sentido longitudinal. Siza dá sequência a obras de forte significação urbana que têm assinalado os seus últimos dez anos de actividade, e que podem ser seguidas a partir do Pavilhão de Portugal. São edifícios de escala mais monumental que a sua obra anterior e que, situando-se à margem da cidade histórica, contribuem para “refundar” urbanamente os seus lugares de implantação.»
Foi inaugurada ontem à tarde por José Sócrates, depois de o primeiro-ministro ter corrido uma minimaratona que assinalou os 160 anos da elevação a cidade de Viana do Castelo.
Adenda - Eis a reportagem da RTP sobre o acontecimento:
Numa peça com 1′44” de duração, a jornalista dedicou um minuto à prova de atletismo e apenas 15 segundos à Biblioteca (de que só se vê um plano, de fugida), gastando o resto com o discurso redondo de Sócrates (sobre a importância das cidades serem “bonitas”…) e a recusa do PM em falar sobre outros assuntos (ameaça terrorista e fecho das urgências hospitalares). É o jornalismo televisivo no seu pior.
Luiz Pacheco a três quartos
No último fim-de-semana, previsivelmente, todos os semanários trouxeram um, ou mais do que um, obituário de Luiz Pacheco. O Sol valeu-se do seu trunfo (a última entrevista do escritor, ainda inédita) e ficou a ganhar, porque ninguém falava melhor de Pacheco, sobretudo dos seus excessos, das suas proezas e da sua decadência, do que o próprio Pacheco.
Juntando todas essas prosas às que já tinham sido publicadas na imprensa diária e na blogosfera, ficou-nos um retrato poliédrico que não sei se corresponde ao que Pacheco era, mas que fixa razoavelmente bem a imagem pública que dele se foi construindo — com o seu beneplácito, diga-se.
Publicado no Jornal de Negócios, desconfio que um dos melhores textos in memoriam do autor de Comunidade possa ter passado um pouco despercebido. Refiro-me à evocação de Anabela Mota Ribeiro, construída a partir das memórias de uma entrevista ao escritor, feita em tempos para o suplemento DNa, do Diário de Notícias.
Aqui ficam algumas passagens:
«Chamam ao telefone o senhor Pacheco — grasnou uma voz metalizada, pelo altifalante. Eu propunha-me entrevistar o Luiz Pacheco e falava para o lar da terceira idade onde ele vivia. [A entrevista foi publicada no DNa] Acordámos um dia, meti-me no comboio a caminho de Lisboa, e depois num carro com o fotógrafo até Palmela. Nos dias que mediaram uma conversa e outra, o Pacheco enviou-me para o Porto uns livros (as Noites Brancas do Dostoievski, uma pequena novela do Tchekov, e outro que não tinha interesse nenhum). Enviou-os enfaixados em papel higiénico!, voltas e mais voltas de papel higiénico. Uma questão de poupança. “Sabes quanto é que custa cada envelope almofadado? Cento e quinze paus, menina, é quanto custa!”.
(…)
Era uma flor carnívora. Um maldito sensual que falava de sexo às criancinhas. Também às velhinhas. Que vivia entre os mortos.
Falámos de sexo e de morte. Tudo em Pacheco se passava entre o sexo e a morte. Escreveu sobre ela n’ O Teodolito.
“Naquela altura morria muita gente de tuberculose, hoje é de cancro ou do coração, morre-se de qualquer coisa, tanto faz, vivemos entre mortos, gente que vai morrer e sabe que vai morrer e gente que já morreu, gente morta ou provavelmente morta ou morta daqui a bocado, amanhã, hoje ainda talvez, morte súbita, morte zás! e adeus… os mortos caem em todos os lados, caem-nos em cima, apertam-nos, já não metem medo, são tantos, há muitos, há cada vez mais companhia de mortos, tornam-se maçadores, abafam o ar. Aparecem-nos às vezes com um sorriso, fingem bem, mas debaixo dos fatos vem um cheiro que não engana, os olhos são vazios e lúcidos, já não querem ou esperam nada, estão mortos por detrás da gravata.
(…) Vamos criando distâncias pela vida fora, vamos morrendo uns para os outros. E também vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons-dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: Ó pá, inda és vivo?) quando me vêem respirando e mexendo dentro da minha farpela pobre. Dormi mais de dez anos com o cadáver da minha mulher e na mesma cama. Jamais nos conhecemos, fomos sempre dois mortos um para o outro. São coisas que acontecem.”
Uma tarde de Outono, com o Pacheco. Em vésperas do fim do século. Do fim do mundo que não chegou a ser. Ele a deitar os foguetes e a apanhar as canas. A manter a temperatura dos vivos. Para não soçobrar, num mundo de sombras. Quando me recebeu no lar, apresentou-me às criadas, apontou para um quarto fúnebre: “Aqui, é onde se morre”. Cá fora havia lençóis dependurados, as luzes estavam já acesas, o crepúsculo anunciava-se. O Pacheco posava para o fotógrafo, com os óculos fundo de garrafa e o roupão andrajoso. Ainda ouço a voz tonitruante, a dicção deficiente.
(…)
O Pacheco. Escreve-se nos blogues e nos jornais que era um filho da puta. Irresistível, corrosivo, feérico. Mas um sacana de um filho da puta. Um escritor que dizia enormidades. Um Surrealista. Um homem que fazia o “toma” do Zé Povinho para a fotografia. Ou que punha corninhos de diabo, também para a fotografia. Tomai lá do Pacheco. Fodei-vos! — uma expressão mais apachecada. Um tipo tão singular que transformou o seu estilo em adjectivo. [Este texto permite-se um tom apachecado]. Um libertino que passeou por Portugal o seu esplendor. Mais um tipo livre que um libertino, na verdade. Dizia o que pensava — e esse talvez tenha sido o mais libertário dos gestos.
Sempre sem cheta. Mas um dia, por causa do “Sonâmbulo chupista” (um caso de plágio que visava Fernando Namora), ele estava com dinheiro no bolso e entrou numa mercearia para comprar um cacho de bananas. Nuno Artur Silva estava num banco da Avenida da Liberdade, agarrado a um livro de António Maria Lisboa quando o viu a aproximar-se. Pacheco espreitou por cima do ombro e começou: “Isso que estás a ler é uma merda. Em vez de estares a ler essa merda devias era estar à cata de estrangeiras….” Nuno Artur fechou o livro e seguiram pela avenida. Entraram num café, distribuíram-se bananas pelos presentes. “Um alimento óptimo, muito completo”, garantia o Pacheco. Foi há 20 anos.
(…)
O Pacheco morreu. Foda-se, o Pacheco morreu! Ele às vezes tinha medo da morte.
“Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor de que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo: ‘Não me deixes morrer, não deixes…’. Penso para comigo, repito para me convencer: ‘Esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda…’ E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida.” (Comunidade).»
A ler

Muito completo e informativo, o extenso dossier sobre as 158 bibliotecas da Rede de Leitura Pública (lançada há 20 anos) que o Jornal de Letras publica no número que chegou anteontem às bancas.
Os novos leitores
Há uns dias, o El País publicou uma reportagem sobre uma recente tendência do mercado editorial espanhol: o êxito de editoras que publicam livros mais caros, e graficamente mais cuidados, para leitores exigentes. O sucesso de vendas conseguido por autores tão secretos como Vasili Grossman, Sándor Márai ou Iréne Nèmirovsky, a par do triunfo de As Benevolentes, de Jonathan Littell, revelam que há alternativas economicamente viáveis à massificação dos best-sellers.
No fundo, trata-se de aproveitar um nicho que é cada vez menos nicho:
«¿De dónde salen y quiénes son estos lectores? Hay consenso en atribuir al propio sector la causa primera del fenómeno. “Se ha sobrepublicado sin atender mucho a la calidad, casi pensando en los no-lectores. Y eso habría decepcionado a los lectores militantes, que ahora buscarían valores más seguros”, apunta Sigrid Krauss [directora literária da Salamandra]. “Hay un agotamiento del best-seller apoyado sólo en un gran lanzamiento comercial. Una línea de más riesgo literario llena un hueco claro”, añade Joan Riambau, de Galaxia Gutenberg.»
E em Portugal? Bom, a fazer fé numa notícia publicada hoje no DN, vamos pelo mesmo caminho. Caso contrário, como explicar que um livro difícil e caro (30 euros) como As Benevolentes, de Littell, quase 900 páginas de uma prosa densa que descreve o horror inominável dos crimes nazis, tenha esgotado em 15 dias?
A Dom Quixote (que também conseguiu vendas surpreendentes com o húngaro Sándor Márai) escusa-se a revelar a tiragem, mas tendo em conta todos os investimentos feitos, da tradução ao marketing, não deve ter sido pequena. Se o sucesso se explicar pelo impacto das várias recensões encomiásticas publicadas na imprensa, então é o papel e o poder da crítica (sistematicamente desvalorizados nos últimos anos) que convém começar a rever.
“Era um homem que fazia livros — e às vezes os dava”
O Jorge escreveu sobre o Olímpio (hoje no P2).
Um soundbyte a sério
“Se me perguntassem directamente, sim, eu diria que se fode mal na literatura portuguesa” — Francisco José Viegas, no depoimento que deu para o artigo O Erotismo em português é piroso e risível, assinado por Isabel Lucas na edição de hoje do DN.
A ler
O completíssimo dossier sobre Jonathan Littell e o seu romance-sensação (As Benevolentes, Dom Quixote), publicado hoje pelo suplemento ípsilon, do Público. São oito páginas para devorar de fio a pavio, com textos de Eduardo Pitta e Alexandra Lucas Coelho a acompanhar uma longa entrevista de Jesús Ruiz Mantilla (publicada originalmente no El País).
Uma casa para os livros, segundo Siza

O BL
Houve muita gente que se foi afastando do JL (o vetusto Jornal de Letras, Artes e Ideias) como quem se afasta de um amigo incómodo. Já ouvi toda a espécie de remoques. Ou porque “ficou parado no tempo”, ou porque “os textos são demasiado grandes, chatos e ilegíveis”, ou porque “aquilo é sempre a mesma coisa, já cheira a mofo”, ou porque “mais parece o jornal oficial da CPLP”. As pessoas que dizem isto, dizem isto há muito tempo. Entretanto, não voltaram a pegar no quinzenário e por isso não sabem que muita coisa mudou, nomeadamente o grafismo (menos pesado) e o facto de haver gente nova a escrever sobre temas actuais: internet, Second Life, o diabo a sete.
Quer isto dizer que o JL é um jornal perfeito? Nem por sombras. Mas, tendo em conta a decadência acelerada da imprensa escrita no nosso país, parece-me que olhá-lo com desdém é não só uma injustiça como um desperdício. Talvez agora, com o surgimento do Blogue de Letras, alguns desses antigos leitores tresmalhados abram os olhos e comecem a voltar à edição de papel. Não deixava de ser irónico.
Fernanda Botelho (1926-2007)

Foi uma das mais importantes romancistas portuguesas da segunda metade do séc. XX. Morreu ontem de manhã, na sua casa em Lisboa, aos 81 anos, após prolongada luta contra uma doença que a foi destruindo por dentro (osteoporose).
Na sua edição de hoje, o Público dedicou-lhe menos de meia página. Na sua edição de hoje, o Diário de Notícias dedicou-lhe menos de um quarto de página. Nas suas edições de hoje, os restantes diários ou nem sequer referiram o facto (24 Horas) ou dedicaram-lhe uma breve (Correio da Manhã e Jornal de Notícias).
A notícia da morte de Fernanda Botelho apareceu na Lusa às 17h47. Creio que não é preciso acrescentar mais nada.
A verdadeira glória
Como toda a gente sabe, o Ricardo Araújo Pereira não é apenas o mais extraordinário talento humorístico surgido em Portugal desde os tempos áureos de Herman José. RAP é, também, um caso raro de inteligência e de qualidade na escrita. O seu livro Boca do Inferno (sobre o qual escrevi aqui) reúne as crónicas publicadas semanalmente na revista Visão. E já foi pretexto para duas entrevistas de capa, uma no suplemento ípsilon (do Público) e outra na Time Out (que assinei e reproduzi aqui). Tudo isto, mesmo se potenciado pela vertiginosa projecção mediática de que goza actualmente, já seria muito bom. Mas o RAP conseguiu ainda melhor. Na última edição do ípsilon, uma semana após a entrevista de Kathleen Gomes, o livro foi recenseado pelo Miguel Esteves Cardoso. Pelo MEC, o próprio. O MEC que RAP tanto admira e teme imitar.
Pois bem: e que fez MEC? Num texto muito ao seu estilo, menos interessado no livro do que no escritor que ali se revela, cobriu o herdeiro de elogios e deu-lhe cinco estrelas (em cinco). Sim, o MEC, que é o MEC, com tudo o que isso significa, deu nota máxima ao RAP. Tenho para mim que os outros tipos de sucesso até lhe podem ter aconchegado o ego. Mas a glória, a verdadeira glória, só desceu sobre o Ricardo na sexta-feira passada. Am I wrong?


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