APEL debaixo de fogo por causa do IVA

«A agitação voltou ao mercado editorial português», escreve Sérgio Almeida num artigo da edição online do Jornal de Notícias. E explica porquê:

«Insatisfeitas com o silêncio da associação representativa do sector no processo que determinou o aumento do IVA sobre os livros, várias editoras e distribuidoras acusam a APEL de estar rendida aos grandes grupos.
A recente subida em 20% do IVA aplicado sobre os livros (de 5% para 6%) voltou a deixar a descoberto as profundas divisões que rodeiam os membros do sector, disfarçadas nos últimos tempos após a fusão associativa.
Na origem das críticas à gestão de Paulo Teixeira Pinto está a ausência de uma posição oficial face ao agravamento do imposto. Os contestatários apontam mesmo o caso espanhol – onde os livros, tal como os medicamentos, ficaram à margem da subida – como paradigmático do exemplo que deveria ter sido seguido.
(…) Ouvido pelo JN, o secretário-geral da APEL justificou a ausência de directiva oficial pelo “aumento quase imperceptível”, mas também por “ser mais prático dar liberdade aos editores para que escolhessem a posição que mais lhes conviesse”.»

A literatura vende

Toda a gente que trabalha na imprensa sabe que as newsmagazines (tipo Visão ou Sábado) fazem ciclicamente capas com a palavra sexo ou corpos despidos porque esses números vendem sempre mais do que os números com outros temas quaisquer. É por isso interessante constatar como uma revista erótica soft, não deixando de exibir uma mulher nua na capa (como lhe compete), soube homenagear um grande escritor recentemente desaparecido.
A Sara Figueiredo Costa deu-se mesmo ao trabalho de comprar este último número da Playboy portuguesa e não lhe poupa elogios: «(…) o facto é que a homenagem é séria e justa, e não perde seriedade nem justeza pela exposição de partes habitualmente resguardadas do corpo feminino. Além disso, à produção fotográfica de encenação bíblica segue-se uma longa entrevista feita a Saramago por Humberto Werneck, antigo editor-chefe da Playboy Brasil, em 1995. Saber enquadrar uma homenagem merecida na linha editorial de uma publicação, eis o rasgo certeiro da Playboy portuguesa.»

Um título com muita piada

Está na edição de hoje do Inimigo Público: «Maratona de leitura de Saramago foi ganha por um queniano».

Acordo Ortográfico nas escolas

No ano lectivo 2011-2012, as escolas já irão dispor de manuais redigidos segundo as normas do novo acordo ortográfico, assegura o Ministério da Educação (ME).

Já nem Sherazade escapa à estupidez fundamentalista

«Um grupo de egípcios modernos quer proibir o livro “As mil e uma noites” por entender que atenta contra a decência e instiga ao pecado».

Para evitar a guilhotina

Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura, espera ter pronto na próxima semana o documento legislativo que isenta as editoras livreiras de pagarem IVA por doações de livros em excesso no mercado.

O LeV, visto por Alexandra Lucas Coelho

Da reportagem sobre os quatro dias que a jornalista passou no encontro Literatura em Viagem (texto publicado na edição de hoje do suplemento P2, do Público; ver aqui), destaco as suas «notas do meu caderno»:

«Carlos Vale Ferraz a dizer que a amargura faz má literatura e o que há na guerra é a vida. Cândida Pinto a contar como viu um par de noivos atravessar três barreiras de segurança para umas núpcias no Hotel Palestina em Bagdad. João Pedro Marques a distinguir a História fria (que explica mas não mostra) e a História quente (que mostra mas não explica). Lourenço Mutarelli, esse lacónico paulistano que entre Beja e Nova Iorque prefere Beja, a explicar como o avião é demasiado rápido para a alma. Nuno Silveira Ramos, crescido em Angola, a contar como se sentiu português e orgulhoso em Malaca, onde os ranchos folclóricos cantavam Ó Malhão Malhão em português arcaico. Júlio Moreira a dizer que escrever é eficaz para a memória, como sabem todos os cábulas. Arthur Dapieve a falar do garoto preto rico raptado pelo garoto branco do morro no Rio. José Fanha a recitar o poema de António Lobo Antunes sobre os homens maricas quando estão com gripe. Filomena Marona Beja a mostrar como a partir da palavra zimbro se viaja à serra da Estrela no século XIX. Joaquim Magalhães de Castro a falar dos pioneiros portugueses nesse tecto do mundo que são os Himalaias. Cristina Carvalho a descrever os bosques da Lapónia onde os adultos ficam crianças. Helder Macedo a inventar a realidade do homem que atravessa o deserto num blindado sem uma única janela. valter hugo mãe à espera de coisas esdrúxulas num patamar de Paços de Ferreira, onde a dona Alice tinha sido amiga de infância de uma santa. Mempo Giardinelli a dizer que a escrita é uma luta contra a realidade, exactamente o contrário do que acredito.
Eu acredito que a realidade, como o mundo, não acaba. A escrita será real ou não será. E nenhum momento em todo o LeV me comoveu como a intervenção do arquitecto Alexandre Alves Costa, que trouxe quatro viagens em texto e imagem, para dizer aquilo que no passado continua a ser agora. Uma delas foi a que fez aos bairros de lata em que viviam os emigrantes portugueses em Paris, em 1965. Eu nunca tinha visto aquela lama, aquele frio. E não me vou esquecer.»

A este excelente resumo do LeV falta só, por razões que se compreendem, uma nota sobre a magnífica intervenção da própria Alexandra Lucas Coelho, que, numa mesa dominada pelo bom humor e desassombro de José Rentes de Carvalho, lembrou um dia quase infinito que passou em Cabul, cheio de encontros luminosos com pessoas luminosas, prova de que a viagem pode dilatar o tempo; isto é, fazer com o que o nosso tempo seja invadido, aumentado, iluminado pelo tempo do lugar onde se chega, desde que se tenha, é claro, disponibilidade para esse contágio.

O ‘backup’ do Twitter

A Biblioteca do Congresso dos EUA está a armazenar todo o conteúdo do Twitter (50 milhões de mensagens por dia). Um tesouro para futuros sociólogos estudarem como é que se interagia online no princípio do século XXI. Espero apenas que a Biblioteca do Congresso esteja a fazer a mesma coisa com a blogosfera.

Destaques da leitura matinal

Estão ambos nas colunas de opinião do Público:

«É como uma nuvem, a História: gigantesca e cheia de delicadeza. Uma coisa grande que parece mudar lentamente; mas distraímo-nos e já está inteiramente diferente. Uma nuvem agora é cinzenta e anuncia tempestade, logo depois é de âmbar e deixa passar raios de sol, um crepúsculo tonaliza-a de ocres, laranjas e rosas como um fresco de Tiepolo.
Peguem em quaisquer cinquenta anos da História da Europa, do século XVIII até hoje. Em nenhum dos casos, um europeu de 1780 imaginaria 1830, ou um de 1905 julgaria 1955 possível, ou o de 1960 acreditaria em 2010. Desfaz-se império, nasce país, há guerras quentes e guerra fria, ergue-se muro, cai muro.»
Rui Tavares

e

«Nunca tive coragem de experimentar as drogas duras (que devem ser boas demais), nem paciência para aturar as moles (que não são suficientemente boas). As minhas drogas foram sempre as moderadas: as centrais; as divertidas; as que sabem bem; as que ajudam a trabalhar; as que nos matam sem darmos por isso.
O mar português é exactamente como uma dessas drogas – a cocaína; o álcool; as anfetaminas. É um perigo e um prazer. Faz medo mas faz bem. Mata bastante mas dá-nos sempre uma sensação de viver. O engano de acharmos que começou a época da praia é como o feitiço da toxicodependência. É uma estupidez profunda da qual temos consciência mas nem por isso nos liberta.
Bem-vinda seja, a traidora.»
Miguel Esteves Cardoso

Negócio Porto Editora-Bertelsmann

Depois da notícia do Público (ontem), não faltaram hoje réplicas em vários jornais: Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Diário de Notícias.

Um rumor em vias de se transformar numa certeza?

Porto Editora vai comprar Círculo de Leitores e negócios da Bertrand ao grupo alemão Bertelsmann.

Jorge Couto continuará a dirigir a Biblioteca Nacional pelo menos até 2013

O Governo renovou esta semana, por mais três anos, a comissão de serviço do director da Biblioteca Nacional, Jorge Couto, que ocupa o cargo desde Outubro de 2005.

O novo ‘JL’

jl

Mais arrumado, mais elegante (só não gosto da forma como aparecem as capas dos livros), mais dinâmico, mais legível. E mais lido, espera-se. O JL fez 30 anos em grande estilo e está aí para as curvas. Parabéns a quem o redesenhou e à equipa que o faz, quinzenalmente, contra muitos ventos e algumas marés.

Uma frase à MEC, escrita pelo próprio

«Desejo sinceramente que a Leya se foda.»

Assim termina a crónica assinada hoje por Miguel Esteves Cardoso, no Público, a propósito da transformação em pasta de papel de muitos milhares de livros editados pela ASA (entre os quais obras de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura).
O texto completo pode ser lido aqui.

A tragédia madeirense (por Paulo Moura)

O que faz de Paulo Moura o melhor repórter português no activo não é apenas a sua destreza em situações de catástrofe, o seu olhar cirúrgico, a atenção aos mínimos detalhes. Tudo isso ajuda muito, mas não chega. O que faz dele o melhor repórter português no activo é o facto de escrever como um escritor, nunca deixando de ser jornalista. Mais um exemplo da sua mestria pode ser lido na edição de hoje do Público, numa peça sobre as enxurradas que destruíram tudo à sua passagem, sábado, na ilha da Madeira. Atentem bem na forma como ele conclui o texto:

«Na cidade, a chuva parou e as pessoas vieram ao centro ver os estragos, como se fosse um espectáculo que um dia descreverão aos netos. Há muita gente, mas um estranho silêncio. Há zonas alagadas e outras em que a lama solidificou, deixando automóveis incrustados até ao tejadilho à maneira dos fósseis, em posições desgovernadas de quem tivesse participado numa dança louca. Dir-se-ia que andou tudo a voar.
Nas ribeiras ainda corre uma água castanha, rápida e rumorejante. Um som estridente, semelhante a uma gargalhada. Ao fundo, o mar espera, cúmplice. De certos sítios, agora calmos, ninguém se aproxima, com medo, como se ali tivesse rugido uma fera.
O Largo do Pelourinho ainda está alagado e da esplanada de um café apenas emergem os tampos das mesas, onde foi servido um sinistro repasto de pedras e lama. A um nível mais elevado fica a Praça da Autonomia, obra de regime, cercada de água por todos os lados.»

Finda a leitura, aquele som estridente da ribeira em fúria, «semelhante a uma gargalhada», perseguiu-me durante uns minutos. Para dizer a verdade, ainda o oiço.

Ménage à six

A acompanhar o artigo que o suplemento ípsilon, do Público, dedica à forma como os escritores portugueses falam de sexo, encontrei uma legenda no mínimo desconcertante. Diz assim: «Bons na cama: Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade, Eça de Queirós, Jorge de Sena e Mário Cesariny».
Primeiro, imaginei os seis escritores na mesma alcova, o que desde logo me pareceu uma impossibilidade (e não apenas cronológica). Seguiu-se a leitura literal do que lá está escrito: «bons na cama» a significar bons amantes, bons seguidores de Eros e dos prazeres do sexo. Só depois chegou a leitura contextualizada: «bons na cama» a significar ‘escritores que escrevem bem sobre o que se passa na cama’.
Ou seja, a legenda é, em si mesma, mais maliciosa do que os supostos escritores maliciosos que juntou aleatoriamente no mesmo saco.

Melão no frigorífico

Num momento em que a Fundação Eugénio de Andrade corre o risco de ser extinta, o DN assinala o dia em que o poeta faria 87 anos com uma entrevista a Ana Maria Moura, «que o acompanhou nos últimos 30 anos». Entre outras coisas igualmente íntimas e irrelevantes, ficamos a conhecer as suas pouco sofisticadas preferências gastronómicas: «Batatas fritas com um ovo estrelado, porque lhe lembrava a infância. Quando acordava de madrugada, se tivesse melão no frigorífico, levantava-se para o ir comer. Era fácil de alimentar. Sopa, tinha de comer sempre.» E o que é que isto interessa, alguém me diz?

Microcontos na ‘Visão’

Ontem, a revista Visão publicou sete textos de sete escritores que responderam ao desafio de «contar uma história em menos de mil caracteres». Foram eles Gonçalo M. Tavares, Dulce Maria Cardoso, Possidónio Cachapa, Filipa Martins, Ricardo Adolfo, José Luís Peixoto e eu.
Já a seguir, publicarei o meu microconto (Futuro) e depois aquela que me parece a melhor das sete prosas (a de Gonçalo M. Tavares).

O best-seller inesperado

História do livro de Mark Haddon (O Estranho Caso do Cão Morto) que vendeu, improvavelmente, mais de dois milhões de exemplares. No i online.

Apanhar cogumelos

Última pergunta, e última resposta, da entrevista que Manuel Halpern fez a Peter Handke (publicada na edição de hoje do Jornal de Letras):

Então, agora sim, esta é a última pergunta: o que anda a escrever? No que está a trabalhar?
Eu vivo numa grande floresta em França, e esta é a altura dos cogumelos. Por isso, o meu trabalho de momento é andar pela floresta a apanhar cogumelos. Claro que também escrevo. Eu gostava de morrer a escrever. A escrita é o meu país. Mas não o quero estar para aqui a aborrecer com os meus projectos.

Eu não apanho cogumelos. Nem nesta altura do ano, nem em nenhuma outra. Hélas. Também não vivo em França. Hélas. Mas percebo aquilo de «morrer a escrever». Eu não me importava de morrer a escrever, embora preferisse morrer a ler. A leitura é o meu país.

Os alçapões de uma realidade inapreensível

«As cinco partes do livro e as personagens principais confluem no deserto de Sonora, na fronteira com os EUA, atraídas por um íman de morte e de loucura. Chegadas a Santa Teresa mergulham num mar de irrealidade, uma névoa onírica que nunca se dissipa ao longo do romance. Seja no cenário desolador de uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, seja no deserto de Sonora, cujo tempo é assinalado pelo “gotejar incessante” de cadáveres, as personagens movimentam-se como fantasmas perdidos num limbo de sonhos e de aparências, que evocam o conto de Borges “As Ruínas Circulares”, cujo protagonista compreende “que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo”. Há a criança que quer viver no fundo do mar, os presos que parecem seres de outro planeta, os soldados que caminham como zombis, os loucos internados em manicómios e as crianças bêbedas que jogam à bola: presenças voláteis que flutuam num meio ambiente hostil, como peixes no deserto.
“2666” é um território do medo, da loucura e da incerteza. “No México uma pessoa pode estar mais ou menos morta”, mas os mortos aparecem e os suspeitos evaporam-se. A vida é sonho e só a morte é real. Os investigadores são incapazes de resolver o mistério dos crimes, de desfazer o novelo da realidade. Também eles caminham em círculos, como os académicos que, na primeira parte do livro, procuram sem sucesso o escritor alemão Benno von Archimboldi, a personagem central do romance. Frustrados por não chegarem a conhecer o homem a cuja obra dedicaram as suas vidas, entregam-se à indolência mexicana e passam os dias como sonâmbulos ou detectives drogados. A identidade do autor dos crimes e do perpetrador dos livros permanece oculta sob os alçapões de uma realidade inapreensível.»

[Excerto do texto crítico sobre 2666, publicado hoje, no jornal i, por Bruno Vieira Amaral.]

Uma reportagem exemplar

A de Paulo Moura em Sterkfontein, África do Sul. Quando penso em jornalismo literário, penso em textos como este.

Anatomia de um vampiro cristão

O Rogério Casanova tomou-se de brios e leu, de uma ponta à outra, a tetralogia de Stephenie Meyer, best-seller entre os best-sellers. Ignoro se o crítico se fechou em casa, com as persianas corridas, ou se teve coragem para transportar os calhamaços debaixo do braço quando saía à rua, como qualquer adolescente. O que sei é que o texto que ele escreveu sobre a experiência é, tipo, hilariante. Terá direito a capa do suplemento Actual no próximo sábado e tudo. Não percam.

PS – Os fãs da escritora mormon vão ficar sem pinta de sangue, claro, mas acho que nesta altura já se habituaram razoavelmente às mordidelas no pescoço.

Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos (3)

Ontem, o Nacional da Madeira conseguiu um dos resultados mais extraordinários de sempre do futebol português, ao eliminar do acesso à Liga Europa o Zenit de São Petersburgo, uma das mais poderosas (e caras) equipas do endinheirado campeonato russo. Seria de esperar que os jornais desportivos cantassem esse feito, em vez de concederem o espaço nobre das suas capas à pálida e embaraçosa (para não dizer vergonhosa) derrota do Benfica diante de uma equipa ucraniana completamente desconhecida e sem qualquer experiência europeia, não era? Era, era. Claro que era. Na realidade, a primeira página do Record é esta. E, por uma vez, é A Bola que salva a honra do convento (embora suspeite que neste caso o destaque ao feito do Nacional apenas serve para minimizar a derrota do Benfica na Ucrânia; se a equipa de Jorge Jesus tivesse ganho, outro galo cantaria).
E assim acaba esta série de posts. Como bem sabem os frequentadores de quiosques, estas tendências repetir-se-ão durante o resto do ano, ad nauseam.

Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos (2)

Afinal o jogo Fiorentina-Sporting trocou-me as voltas (em todos os sentidos). Não houve naufrágio nem milagre caído do céu nos últimos segundos. Apenas uma partida disputada taco-a-taco com uma das melhores equipas italianas, que caiu para o lado deles como podia ter caído para o nosso. Eliminado ao fim de dois empates (o primeiro dos quais no seguimento de uma das arbitragens mais vergonhosas de que me recordo, a fazer lembrar um certo Alemanha-Portugal dirigido por Marc Batta), o Sporting não sai da Champions pela porta dos fundos, como no ano passado, após as goleadas infligidas pelo Bayern Munique. Além disso, a equipa voltou a mostrar que pode ser uma equipa. É uma questão de tempo. Tempo que eu ainda estou disposto a dar a Paulo Bento, mas a maior parte dos adeptos nem por isso.
Ora, com uma eliminação assim, agridoce, os fazedores de títulos tiveram que guardar a grandiloquência na gaveta. E o resultado foi este:


No Record, ainda há um resquício do título preparado para a eventualidade do naufrágio, mas com um toque de esperança (o massacre de Paulo Bento fica guardado para uma próxima oportunidade)


De A Bola nem vale a pena falar. O órgão não-oficial do Sport Lisboa e Benfica comporta-se como aquilo que toda a gente sabe que é: justamente o órgão não-oficial do Sport Lisboa e Benfica. Onde é que está a ERC quando precisamos dela?


O Jogo é que tem uma manchete construtiva: apesar da eliminação, há de facto bons sinais (a aposta nos jogadores formados no clube).

Transferência

A partir do próximo sábado, o crítico literário Mário Santos, que durante muitos anos escreveu nos suplementos de cultura do Público, passará a colaborar com a secção de Livros do Expresso.

Mais uma baixa

No jornalismo cultural, tristemente, a razia continua. Agora é a Cláudia Moura que abandona a revista Notícias Magazine (e a sua página de livros). Mais uma perda importante e um péssimo sinal do que está a acontecer à imprensa portuguesa.
Muitas felicidades, Cláudia, nos novos desafios que te esperam.

Revista ‘Egoísta’, n.º 39

A Egoísta, que voltou recentemente a ser distinguida com dois Awards of Excellence, pelo júri dos Apex Awards for Publication Excellence 2009 (EUA), acaba de lançar o seu número de Verão, dedicado ao “Génio”. Colaboram Ana Sofia Fonseca, António Mega Ferreira, Augusto Brázio, Carlos Câmara Leme, Maria João Seixas, David LaChappele, Diego Beyró, Eduardo Pitta, Hugo Gonçalves, Ivone Ralha, João Botelho, Margarida Magalhães Ramalho, Maria Filomena Molder, Mário Cláudio, Rita Barros, Rui Zink e este vosso humilde escriba, com uma ficção: O caderno perdido de Nikola Tesla. Nem de propósito, Nikola Tesla, um dos mais geniais inventores do século XX, nasceu faz hoje precisamente 103 anos. Para assinalar a efeméride, publico já a seguir a primeira das cinco partes que compõem o meu conto.

Os cem melhores livros de sempre

Ou nem por isso.

[Embora não esteja assinado, fui eu que fiz o comentário à lista da Newsweek e acrescentei os «dez livros esquecidos» (podiam ser muitos mais, claro).]

Uma notícia falaciosa

Na edição de ontem do Diário de Notícias, foi publicada uma notícia sobre a suposta «polémica» entre mim e José Saramago. O texto, assinado por um antigo camarada de redacção, era tão confuso e infeliz que preferi não o comentar, para que não aumentasse ainda mais o ruído em torno de um assunto que não merece tamanho bruaá. Acontece que muitas pessoas me telefonaram, enviaram SMS ou e-mails, perplexas e curiosas com o «caso Saramago» que o DN divulgara e que elas, naturalmente, não conseguiam compreender lá muito bem.
Para colocar uma pedra sobre o assunto, publico agora a dita notícia (já que não encontrei o respectivo link na edição online do jornal), seguida de breves comentários aos seus equívocos:

Título: ‘Tiro’ de Saramago fere ‘blogger’

Pós-título: Polémica. José Mário Silva responde ao texto do Nobel após publicação de crítica sobre ‘O Caderno’

Legenda da foto (capa de ‘O Caderno’): O livro de Saramago em causa

Texto: «A crónica que ontem José Saramago publicou neste jornal (e no seu blog) provocou uma rápida e polémica resposta no blogue do visado, José Mário Silva, pois o crítico do Expresso não aceitou a quebra de um hábito do Nobel, de “não responder e nem sequer comentar qualquer apreciação feita ao meu trabalho”. Mas Saramago comentou e o crítico ripostou em longo texto às suas críticas e sobre o direito de ambos à indignação, referindo que ela é “um dever” e que “pode funcionar como uma arma poderosa que ao atingir o alvo também pode provocar danos colaterais”, principalmente se “a carregar no imaginário gatilho está uma figura com a influência e o poder mediático de um Prémio Nobel”. O “tiro” de Saramago, diz, “tornou-o num blogger de pleno direito” e pôs fim a uma das críticas feitas por Mário Silva. As outras, esperam-se os próximos capítulos.»

Assinatura: João Céu e Silva

Para que conste:

– O título é um disparate: nem Saramago disparou qualquer “tiro” sobre mim (mesmo supondo que o projéctil sairia da “arma”-indignação), nem eu me senti ferido. A violência da imagem, com um cheirinho a pólvora e tudo, pretendeu apenas alimentar a ideia de uma animosidade que nunca existiu no meu diálogo com Saramago. Parece-me óbvio o intuito de criar polémica à força – percepção corroborada por todas as pessoas que me falaram da peça. Na gíria jornalística, costuma-se dizer que certas notícias só são feitas “se houver sangue”. Não havendo sangue, como neste caso, inventa-se o sangue.

– João Céu e Silva sugere que eu não aceitei a «quebra de um hábito do Nobel»: o de não responder a quem escreve sobre as suas obras. Mas por que carga de água é que eu não aceitaria um gesto nobre e generoso como este, ainda por cima inédito? Então o nosso Prémio Nobel dispõe-se a discutir com um interlocutor quase 50 anos mais novo e o interlocutor quase 50 anos mais novo ia assim, sem mais nem menos, torcer o nariz à iniciativa do consagrado? Caberá isto na cabeça de alguém? Na minha não cabe. Na sua, caro leitor, creio que também não.

– Há também uma citação truncada. E poucas coisas me exasperam mais do que uma citação truncada. Onde eu escrevi «(…) convém não esquecer que a indignação pode funcionar como uma arma. Uma arma poderosa, mas que ao atingir o alvo (através das denúncias do que está mal no mundo, por exemplo) também pode provocar danos colaterais», João Céu e Silva transcreveu «pode funcionar como uma arma poderosa que ao atingir o alvo também pode provocar danos colaterais», aproximando dois «pode» que estavam a uma razoável distância um do outro (e subitamente deixaram de estar). Nestes casos, costuma-se assinalar os cortes com o tradicional parêntesis com reticências lá dentro. Não custa nada (até recorri a um, lá mais para cima), mas Céu e Silva esqueceu-se de o usar. Foi pena.

– Quanto às duas últimas frases, são tão crípticas que dispensam comentários. Quem quiser (e tiver paciência), que leia o texto de Saramago, depois a minha réplica, e tire as suas próprias conclusões.

Revista ‘Ler’, n.º 82

Hoje nas bancas.

Corpo de Jorge de Sena regressa a Portugal

Ontem, na cerimónia de doação do espólio de Jorge de Sena à Biblioteca Nacional, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, garantiu que o corpo do autor de Em Creta, com o Minotauro vai ser trasladado de Santa Barbara (Califórnia) para um jazigo no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, ao abrigo de um protocolo celebrado entre o Ministério da Cultura e os herdeiros do escritor.

Man Booker International para Alice Munro

A escritora canadiana Alice Munro venceu a edição deste ano do prémio Man Booker International (que é atribuído de dois em dois anos, pelo conjunto da sua obra, a escritores de qualquer nacionalidade, desde que os seus trabalhos estejam disponíveis em inglês), e não do prémio Man Booker (que distingue anualmente um livro concreto, «o melhor romance publicado [nesse ano] por um cidadão da Commonwealth ou da República da Irlanda»), como anunciou o Público na sua edição de hoje, em papel.

Revista de imprensa

A não perder, na imprensa de hoje:

– o magnífico trabalho “Os 10 Melhores Romances de Lisboa”, na Time Out
– o dossier dedicado à literatura brasileira, no Jornal de Letras
– a reportagem sobre a biblioteca de José Pacheco Pereira (Um homem cercado de livros, no suplemento P2 do Público)

Junot Díaz (um vislumbre)

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, um dos livros mais esperados do ano (ganhou o Pulitzer de Ficção em 2008), chega na próxima semana às livrarias, com chancela da Porto Editora. O jornal Público pré-publica hoje o primeiro capítulo do romance, disponível também online.

Citação do dia

«Hoje, 21 de Março, é o Dia Mundial da Poesia. Esta data comemorativa está para as coisas da poesia como o Movimento Nacional Feminino estava para o teatro de operações da guerra colonial: é uma manifestação de voluntarismo e boa vontade que não interfere no curso dos acontecimentos.»
António Guerreiro, suplemento Actual, Expresso

Diz-me que dicionário usas

A pergunta é da Sara Figueiredo Costa. Eu fui um dos que responderam.

Quando o ‘Público’ recorre a ‘O Inimigo Público’ como fonte de informação algo vai mal, muito mal, no jornalismo português. Ou estarei a exagerar?

Reparem no último páragrafo desta notícia, publicada ontem no Público. E agora relembrem o texto de Vítor Elias sobre a morte de David Foster Wallace que eu citei aqui.
Sou só eu (e o Francisco Frazão) a achar isto um escândalo?

Na ressaca do caso Courbet


Pedro Vieira

Como seria de prever, publicaram-se centenas de textos, na imprensa escrita mas sobretudo na blogosfera, sobre a bizarra história da apreensão pela PSP de Braga de uns quantos exemplares do livro Pornocracia, de Catherine Breillat (Teorema), com o pretexto de que a capa, ilustrada pelo mais célebre dos quadros de Gustave Courbet (L’Origine du Monde, 1866), seria «pornográfica».
O tom geral foi de condenação e revolta diante da tacanhez dos polícias e de solidariedade pelo livreiro, elevado a símbolo de resistência à censura. Ou seja, todos nos indignámos e todos escrevemos mais ou menos o mesmo (eu só não escrevi porque outros o fizeram antes e provavelmente melhor; não valia a pena chover no molhado). Casos como este, já se sabe, tendem a provocar o derramamento de rios de tinta, mas rios de tinta que correm sempre no mesmo sentido. O protesto transforma-se assim num gesto unânime, capaz de unir vozes habitualmente dissonantes.
Foi por isso que gostei de ler a abordagem heterodoxa e provocatória de António Guerreiro, na edição de ontem do Expresso.
Eis o texto integral da sua microcrónica:

«Devemos a Robbe-Grillet esta definição: “A pornografia é o erotismo dos outros.” O escritor francês aniquilava assim uma distinção que sempre serviu para sossegar as boas consciências. A propósito do episódio policial que levou à apreensão de alguns exemplares de um livro que reproduzia na capa um quadro de Courbet, “A Origem do Mundo”, há algo muito mais interessante para ser pensado do que a tentativa patética de censura. A Polícia desfez o que tinha feito na véspera com o argumento de que a capa “reproduz uma obra de arte”, como se a arte fosse incompatível com a pornografia. Mas a caução artística seria, em si, insuficiente – não funcionaria da mesma maneira para uma obra de arte contemporânea e para um artista não consagrado – se não tivesse sido invocado o estatuto canónico do quadro, que lhe é concedido pelo nome do autor e pelo lugar onde se encontra exposto (o Museu d’Orsay). O olhar censório da Polícia – condenável, é certo – responde de maneira mais exigente ao quadro de Courbet e presta-lhe mais justiça do que o estetismo desta argumentação: “O artístico e o estético não podem ser confundidos com o pornográfico.”»

Revista ‘Ler’ n.º 77

Nas bancas a partir da próxima segunda-feira.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges