Velocidades
«(…) É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época
e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?
e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)
a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?
Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool numa pêra,
girando todos em diferentes ritmos
(que quase
se podem ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é
do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rosto refletido na água do tanque)
o dia
que passa
— ou passou —
na cidade de São Luís. (…)»
[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]
Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.
Entre fulgor e lepra

Poema Sujo
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-568-633-1
Ano de publicação: 2010
Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro Poema Sujo ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente a sugerir, está decerto entre os mais importantes poemas da língua portuguesa no século XX. Não é pouco.
Escrito em 1975, aos 45 anos, no exílio a que o forçou a ditadura militar (instaurada em 1964), este texto começa por ser o grito de revolta de um desterrado. Em Buenos Aires, longe da «pátria de mato e ferrugem», Gullar empreende um canto de si mesmo digno de Walt Whitman, na amplitude expressiva e no confessionalismo visceral (o corpo como agente do conhecimento do mundo), mas também um canto sobre as contingências históricas do Brasil e sobre a sua infância em São Luís do Maranhão, «minha úmida cidade / constantemente batida de muitos ventos».
Deixados para trás os experimentalismos concretistas e neoconcretistas, o poeta mergulha de cabeça na «profusão das coisas acontecidas», capta «a vida a explodir por todas as fendas da cidade» e entrega-se ao enigma da existência com o seu «corpo-galáxia aberto a tudo».
A escrita é torrencial, há súbitas mudanças de ritmo, disrupções, amálgamas de imagens, alternância de registos (a linguagem tanto pode ascender às altas esferas líricas como descer ao prosaísmo mais literal), mas Gullar nunca se afasta da «muda carne das coisas». Isto é, da sua natureza impura: «E também rastejais comigo / pelos túneis das noites clandestinas / sob o céu constelado do país / entre fulgor e lepra / debaixo de lençóis de lama e de terror».
Aqui, as palavras impregnam-se de «graves cheiros indecifráveis» (o cheiro da miséria e do amor, «de umbigo e de vagina»), compondo o retrato em movimento de um «corpo feito de água / e cinza» (o do poeta, «1,70m que é meu tamanho no mundo»), de rios que apodrecem, de um comboio transformado em onomatopeias ferroviárias, de histórias de uma época — a II Guerra Mundial — em que «a poesia não existia ainda», de um bairro pobre construído em palafitas sobre o lodo (assombrando um coração «aliado da classe operária»), de dias que se desdobram uns nos outros, enlaçando-se «como anéis de fumaça».
Na verdade, este livro tão belo quanto cru faz-se essencialmente de «matéria-tempo». Tempo que jorra, se amontoa e propaga a diferentes velocidades, sem um centro fixo: «E do mesmo modo / que há muitas velocidades num / só dia / e nesse mesmo dia muitos dias / assim / não se pode também dizer que o dia / tem um único centro / (feito um caroço / ou um sol) / porque na verdade um dia / tem inumeráveis centros».
Avaliação: 9,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
São Luís do Maranhão
«(…) Ah, minha cidade verde
minha úmida cidade
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias à entrada do mar
minha cidade sonora
esferas de ventania
rolando loucas por cima dos mirantes
e dos campos de futebol
verdes verdes verdes verdes
ah sombra rumorejante
que arrasto por outras ruas
Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas
que se desdobram
no escuro das claridades,
na minha nuca,
no meu cotovelo, na minha arcada dentária
no túmulo da minha boca
palco de ressurreições
inesperadas
(minha cidade
canora)
de trevas que já não sei
se são tuas se são minhas
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu
corpo?)
lampeja
o jasmim
ainda que sujo da pouca alegria reinante
naquela rua vazia
cheia de sombras e folhas (…)»
[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]
Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.
Processo de amanhecer e fabricação de uma noite
«(…) Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa
(mesmo dentro
do guarda-roupa,
o tempo,
pendurado nos cabides)
E essa sensação
é ainda mais viva
quando a gente acorda tarde
e depara com tudo claro
e já funcionando: pássaros
árvores vendedores de legumes
Mas também
quando a gente acorda cedo e fica
deitado assuntando
o processo de amanhecer:
os primeiros passos na rua
os primeiros
ruídos na cozinha
até que de galo em galo
um galo
rente a nós
explode
(no quintal)
e a torneira do tanque de lavar roupas
desanda a jorrar manhã
A noite nos faz crer
(dada a pouca luz)
que o tempo é um troço
auditivo.
Concluídos os afazeres noturnos
(que encheram a casa de rumores,
inclusive as últimas conversas no quarto)
quando enfim a família inteira dorme –
o tempo se torna um fenômeno
meramente químico
que não perturba
(antes
propicia)
o sono.
Não obstante,
alguém que venha da rua
– tendo caminhado sob a fantástica imobilidade
da Via-Láctea –
pode ter a impressão,
diante daqueles corpos adormecidos,
de que o universo morreu
(quando de fato
em todas as torneiras da cidade
a manhã está prestes a jorrar)
Menos, claro,
nas palafitas da Baixinha, à margem
da estrada de ferro,
onde não há água encanada:
ali
o clarão contido sob a noite
não é
como na cidade
o punho fechado da água dentro dos canos:
é o punho
da vida
fechada dentro da lama
Já por aí se vê
que a noite não é a mesma
em todos os pontos da cidade;
a noite
não tem na Baixinha
a mesma imobilidade
porque a luz da lamparina
não hipnotiza as coisas
como a electricidade
hipnotiza:
embora o tempo ali também não escorra,
não flua: bruxuleia
se debate
numa gaiola de sombras.
Mas o que mais distancia
essa noite da Baixinha
das outras
é o cheiro: melhor dizendo
o mau cheiro
que ela tem como certos animais
na sua carne de lodo
e daí poder dizer-se
que a noite da Baixinha
não passa, não
transcorre:
apodrece
Numa coisa que apodrece
– tomemos um exemplo velho:
uma pêra –
o tempo
não escorre nem grita,
antes
se afunda em seu próprio abismo,
se perde
em sua própria vertigem,
mas tão sem velocidade
que em lugar de virar luz vira
escuridão:
o apodrecer de uma coisa
de fato é a fabricação
de uma noite:
seja essa coisa
uma pêra num prato seja
um rio num bairro operário»
[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]
Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.
Quatro poemas de Mariana Ianelli
HERCULANO
Estranha manhã, em Herculano,
Nos entrelaçamos como uma aranha.
Temos todo o tempo e o tempo é curto,
Em um minuto o passado elabora
O museu do futuro.
Podemos ainda amar a casa,
Encher as taças,
Inventar algum desejo pequeno
Com ares de importante.
Qualquer disparate
Nós podíamos, se quiséssemos,
Uma fresta de esquecimento
Onde tudo condensa memória.
Preferimos o momento ele puro, de calcário,
A fina arte da escultura.
Pouco importa a cara sufocada,
O corpo flagrado na posição do susto.
Passará a tempestade de pó,
A febre arreganhada passará, o escuro.
Não passará minha solidão socorrendo a tua.
***
MEMORANDO
Não há grandes notícias.
Uma torre desapareceu,
O inverno expandiu-se
E a esperança ainda rói
O fundo de uma caixa
Procurando saída.
Com esculpido esmero
Vai se acabando uma família.
Um gesto qualquer se repete
No ensaio de ser abolido,
Remediar, abafar, corrigir,
Nada lembra o que antes foi só
Generosidade de coisa viva.
Não convém
O alvoroço dos pássaros,
A revanche da galhardia.
É inútil desafiar o pó
E, contudo, desafia-se.
***
DESCENDÊNCIA
Sou o poema tresmalhado
Que um lobo traz à boca
Como prêmio
De um passeio ao campo.
Vive em mim
O irmão mais velho
Debruçado sobre o chão
Cavando, cavando com as unhas.
Aqui uma cidade se levanta,
Força e música,
Já a prostituta distribui
Os seus encantos.
Uma primeira espada
Delizando
E há o deserto em mim,
Que seca todo pranto.
Morre aqui eternamente
O ladrão do fogo,
Morre Abel, a cada verso
A terra faz ouvir seu sangue.
O animal que há milênios
Me carrega
Tem a marca
Da educação pela sombra.
***
DIANTE DA PAISAGEM
Minha espera mortiça
Dita saudade
Com fogo e buril
Ganha outro nome
E como todos os nomes
Anseia a carne.
Relâmpago
Na madrugada
Sem testemunha
Além dos meus olhos
E uma estampa
De mãos pré-históricas
Num fundo de pedra
Deixa o rastro
No poema
Da seiva que emana
De pai para filho
E me convoca.
Dom de ser o cordeiro
Desgarrado do adeus,
De lançar vida nos baldios,
Perder ruínas,
Bendita vida, trigueira vida
Pasmando o nada.
[in Treva Alvorada, Iluminuras (São Paulo, Brasil), 2010]
Quatro poemas de Daniel Francoy
A CHUVA
A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga os rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.
Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.
***
MENINOS EM FÉRIAS
As pipas que plainam livres e serenas.
Montá-las exige a perícia de Dédalo
e mantê-las no ar a audácia de Ícaro.
Mas os meninos ignoram os deuses
e pouco importa que as ruas da cidade
sejam o labirinto onde vive o minotauro.
O que os meninos desejam é o céu
e se uma pipa adeja sem dono
uma multidão de crianças a persegue
ainda que ela se misture ao sol:
pouco importa a queda de Ícaro
se a infância é o mais duradouro mito.
***
AGOSTO OU A CHEGADA DO CALOR
Julho se esfarela e agosto
ergue-se sobre as nossas cabeças –
esbrasear limpo e antigo que desperta
a paixão pelas línguas latinas
e na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vaga-lumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Esbrasear limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.
***
WALESKA
Todos desprezam e debocham de Waleska,
Waleska julga serem gente
os seus animais de estimação,
é virgem aos vinte e dois anos,
é magra, tem a pele seca, os seios murchos
e a voz aguda não anuncia uma mulher
apetecida pelos homens.
Mas creio que Waleska se fecha no quarto
e lá, livre dos deboches e dos olhares,
as pernas se entreabrem úmidas
e o êxtase que turva os olhos desamparados
a deixa inesperadamente bela.
[in Em Cidade Estranha, seguido de Retratos de Mulheres, Artefacto, 2010]
O que aí vem (Babel)
Aproveitando o impacto mediático da recente atribuição a Ferreira Gullar do Prémio Camões, a Babel vai iniciar a publicação integral da obra do escritor brasileiro. Já no prelo, com lançamento previsto ainda para este mês de Julho, está uma das obras essenciais de Gullar: o livro Poema Sujo, escrito em 1975, durante o exílio na Argentina (onde se refugiou durante a ditadura militar). Vinicius de Moraes referia-se a Poema Sujo como «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas». Em Setembro, surgirá o muito esperado novo livro de poemas de Gullar, Em Alguma Parte Alguma, coincidindo com a edição brasileira (José Olympio), já apontada como um dos acontecimentos editoriais do ano no Brasil (é o primeiro de poesia que Gullar publica desde Muitas Vozes, de 1999). Seguir-se-ão mais dois volumes: Cidades Inventadas (ficção) e Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio (memórias).
A separação interminável

Flores Azuis
Autora: Carola Saavedra
Editora: Livros de Seda
N.º de páginas: 136
ISBN: 978-972-770-754-6
Ano de publicação: 2010
Segundo romance de Carola Saavedra (n. 1973), Flores Azuis confirmou esta autora como uma das maiores revelações da ficção em língua portuguesa recente. Além de ter sido finalista do Prémio Jabuti 2009, a obra ganhou a edição do ano passado da Copa Brasileira de Literatura – um curioso torneio na Internet em que vários críticos literários decidem o resultado de duelos directos entre 16 livros. Ao triunfar na finalíssima contra Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, após três eliminatórias, Flores Azuis ofereceu à quase estreante uma inesperada vitória sobre autores consagrados ou em vias de consagração, como Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Patrícia Melo, João Gilberto Noll ou Lourenço Mutarelli.
O protagonista do romance é Marcos, um arquitecto falhado e em crise (separou-se da mulher e da filha de três anos), incapaz de resistir à tentação de violar correspondência alheia. Todos os dias aparece na caixa de correio do seu novo apartamento um envelope azul, dirigido ao inquilino anterior. E todos os dias ele lê o que está lá dentro: cartas de amor desesperado de uma mulher anónima (assina «A.») que tenta compreender as razões de uma «separação interminável», para a reverter. A narrativa intercala as nove cartas de A. (primeira pessoa, registo torrencial, lírico e cru) com igual número de capítulos sobre o quotidiano de Marcos e o impacto crescente das estranhas missivas na sua vida (terceira pessoa, frases curtas, estilo descritivo).
A estrutura é simples – como que uma revisitação pós-moderna do género epistolar – mas Carola Saavedra consegue transformá-la num mecanismo inquietante, à medida que nos arrasta para o cerne das obsessões de A., contadas de forma cada vez mais visceral e perversa, uma escrita do corpo devorado pela ausência, mas também pela memória do prazer, da dor, da entrega e da violência mais extremas. De uma carta para a seguinte, a realidade desmonta-se, repete-se, anula-se, desfaz-se, recapitula-se (voltamos à mesma discussão, contada de vários ângulos; ou à última noite que os amantes passam juntos, descrita em versões antagónicas). As peças soltas não voltam a encaixar nos mesmos sítios e a contradição assumida parece ser a única regra: «Mas agora penso, talvez esteja justamente nessa contradição, nesse espaço que surge entre o que afirmo e o que nego, entre o teu sofrimento e a tua crueldade, entre o meu sofrimento e a minha crueldade, entre o meu corpo e o teu, justamente nessa incoerência a única forma de comunicação.»
Em princípio, A. escreve apenas para o homem que a deixou e só para ele. A dada altura, porém, refere-se à possibilidade de um outro «leitor para estas cartas», um «personagem que recebesse estas cartas em teu lugar». E assim se anuncia o nó essencial do romance. Porque aquele leitor/personagem imaginário só pode ser Marcos, progressivamente reduzido ao «reflexo» e «avesso» de uma figura cuja intensidade o fascina, porque o transcende. Ou então é o próprio leitor de Flores Azuis, oscilando entre as dúvidas que lhe inspira a misteriosa A. e as certezas quanto ao talento da escritora que a criou.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Ferreira Gullar, poeta maior
A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.
Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos «imortais» da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de Lillias Fraser, 19 anos mais nova. «Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo», admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha «a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais».
Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é «inteiramente justa», até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da Obra Poética completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem «inteligentíssimo», correcto e afável, «um gentleman. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da Obra Poética esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: Um Gato chamado Gatinho, volume de poemas infantis, «lindíssimos», com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (Um pouco acima do chão, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de Poema Sujo (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.
No livro de ensaios Indagações de hoje (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à Obra Poética editada pelas Quasi, sintetizou: «Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua».
A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), o primeiro desde Muitas Vozes (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: «Meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.»
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Três vezes Rubem Fonseca



Entre hoje (quinta-feira) e sábado, A Escola da Noite, em co-produção com a Companhia de Teatro de Braga, vai estrear em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo (21h30), três espectáculos, com dramaturgia e encenação de António Augusto Barros, que formam uma Trilogia Rubem Fonseca. Os espectáculos, construídos a partir de cerca de duas dezenas de contos do escritor brasileiro, intitulam-se 1. José (estreia hoje), 2. Rubem (estreia amanhã) e 3. Fonseca (estreia no sábado).
Mais informações aqui.

A viagem de Guimarães Rosa
Em Maio de 1952, João Guimarães Rosa, o médico-diplomata-escritor, iniciava a viagem de que viria a nascer Grande Sertão: Veredas. Num texto de 2008, Paulo Bicarato conta a história dessa epopeia pré-literária.
O instrumento da vertigem

Monodrama
Autor: Carlito Azevedo
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 152
ISBN: 978-972-795-297-7
Ano de publicação: 2010
Após um longo silêncio de quase uma década, o poeta carioca Carlito Azevedo, responsável pela revista de poesia luso-brasileira Inimigo Rumor (a atravessar uma fase de hibernação, talvez definitiva), voltou a publicar um livro de inéditos: o magnífico Monodrama, lançado agora pela Cotovia, menos de um ano após a edição original pela 7Letras.
«Nenhum poema / é mais difícil / do que sua época», diz-se a certa altura, e estes poemas absolutamente contemporâneos, corpos em expansão que captam a violência espectral do Rio de Janeiro (uma rapariga coreana a injectar-se junto a um muro, o labor ostracizado dos imigrantes, a energia das multidões, a vigilância electrónica dos bancos, a ameaça do terrorismo, mas também o suave erotismo da pele «olhada / até à / incandescência» em hóteis manhosos), estes poemas absolutamente livres e fragmentários, não sendo mais difíceis do que a sua época, também não são mais fáceis, antes tentam fixar a complexidade fugidia de um «mundo com cara de Goya» e suas «imagens da pura / desconexão».
Tudo se passa numa «espécie / de videostream», a linguagem como instrumento da vertigem, em «fluxos imparáveis» que aceleram e tornam ora mais nítida, ora mais embaciada, a percepção das coisas, seja uma silhueta diante da montra da confeitaria, o caos das discotecas, uma galinha «atada por um / barbante / apodrecido / a um / limoeiro / cintilante / de teias / de aranha», a «veemência de uns espelhos» ou um cachecol florido «a flutuar no céu por alguns segundos».
Depois, no fim do livro, Carlito agiganta-se de vez ao falar da morte da mãe (com Alzheimer), numa extraordinária sequência de poemas intitulada H. (quatro dos quais podem ser lidos aqui), para mim um dos momentos mais altos da poesia em língua portuguesa escrita neste século.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
A gravidez utópica

Cordilheira
Autor: Daniel Galera
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2091-3
Ano de publicação: 2010
Em Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo (Campo das Letras), o protagonista confunde a vida do seu escritor favorito – Rubem Fonseca – com a das suas personagens, algo que o próprio Fonseca, quando se vê puxado para dentro da história, apelida de «síndrome de Zuckerman» (referência ao alter ego ambíguo de Philip Roth). Em Cordilheira, de Daniel Galera, assistimos a uma variante ainda mais radical dessa síndrome, já que são os próprios escritores a tomarem a iniciativa de se projectarem nas suas personagens, cumprindo na vida real o que imaginaram na ficção.
Importa explicar que estes escritores fazem parte de um círculo marginal de Buenos Aires, uma espécie de seita literária que se cruza a dado momento no caminho da protagonista, Anita van der Goltz Vianna, quando ela decide trocar o Brasil pela Argentina. Orfã de mãe desde a nascença e de pai há três anos e meio, Anita é uma autora que triunfou logo ao primeiro romance, mas que decidiu abandonar a literatura em prol de um desígnio para ela mais alto e urgente: ter um filho. Quando Danilo, o namorado, se recusa a ser pai nos próximos tempos, ela deixa-o e parte para a Feira do Livro de Buenos Aires, com a ideia de ficar na cidade por uns tempos, conhecer um argentino anónimo e voltar grávida a São Paulo.
As coisas não serão assim tão simples, claro. O argentino anónimo com quem se envolve é um admirador doentio do seu livro, ele próprio autor de um só romance e membro da tal confraria de literatos portenhos de segunda linha, composta por gente bizarra que leva a literatura «a sério demais» e pretende seguir o caminho de Jupiter Irrisari – um escritor guatemalteco que certo dia «parou de escrever histórias e passou a vivê-las». Assumir o destino das personagens que cada um criou, transformando-se gradualmente nelas, é o objectivo do grupo.
Este jogo perigoso e fértil em ricochetes, para o qual a brasileira é convocada mesmo sem querer, ocupa parte substancial do romance. Galera, porém, não se perde no exercício já muito batido das contaminações mútuas entre ficção e realidade. O foco de Cordilheira está sempre em Anita, no seu estranhamento, na sua deriva existencial e nesse projecto de uma gravidez que talvez seja ectópica, porque inviável e literalmente fora do sítio (Buenos Aires em vez de São Paulo), ou talvez seja apenas utópica, manifestação de um desejo sem lugar que o materialize.
Nascido em 1979, Daniel Galera confirma neste livro poderoso, muitíssimo bem escrito e tecnicamente irrepreensível, o seu lugar de destaque entre os ficcionistas brasileiros mais jovens.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no número 89 da revista Ler]
‘Gonzos e Parafusos’

Um Big Brother livresco? Ou a performance arrojada de uma escritora que prolonga na vida real a atmosfera do seu livro, vestindo literalmente a pele da sua personagem?

Ao fechar-se durante uma semana dentro de uma caixa de acríllico, montada numa livraria de São Paulo e exposta ao olhar dos visitantes, Paula Parisot aproxima o lançamento literário do conceito de instalação artística. O que faz todo o sentido, não fosse o seu romance (Gonzos e Parafusos, edição LeYa) sobre uma psicanalista obcecada por Elizabeth Bachofen-Echt, uma baronesa que entrou para a posteridade como modelo do pintor Gustav Klimt.
Para acompanhar, até dia 17, aqui.
Eis um resumo, em vídeo, do primeiro dia:
Menos arquitectura que balística

Macau
Autor: Paulo Henriques Britto
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 55
ISBN: 978-972-568-626-3
Ano de publicação: 2010
O brasileiro Paulo Henriques Britto (n. 1951) pertence à categoria dos poetas bissextos. Após o livro de estreia (Liturgia da Matéria, de 1982), publicou apenas mais quatro livros de poemas: Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), Macau (2003) e Tarde (2007). Conhecido sobretudo pelas suas traduções do inglês (Henry James, Elizabeth Bishop, William Faulkner, Don DeLillo, Thomas Pynchon, entre outros), Britto apanhou de surpresa o meio literário lusófono ao vencer em 2004 o Prémio PT de Literatura, no valor de cem mil reais (cerca de 49 mil euros), batendo na final pesos-pesados como Chico Buarque (Budapeste), Bernardo Carvalho (Mongólia), Sérgio Sant’Anna e Manoel de Barros.
A inesperada vitória foi conseguida com Macau, o voluminho que inaugura a nova colecção de poesia da Ulisseia e revela algumas das linhas principais do trabalho deste autor, nomeadamente aquela que passa pela desconstrução sistemática da artificialidade dos códigos poéticos. Britto utiliza quase sempre formas clássicas, com metrificação canónica e rimas, mas apenas para as fazer implodir através do recurso a uma linguagem ostensivamente coloquial, pouco elevada. O poeta domina a técnica, conhece as regras, chega a ser virtuoso na composição verbal, no equilíbrio das estrofes, mas depois insiste em colocar-se de fora, retirando com visível gozo a máscara da solenidade e dinamitando, com recurso à ironia, toda a sorte de visões estabelecidas e lugares-comuns. Veja-se este poema que ridiculariza uma das mais gastas categorias românticas (a inspiração):
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
Não quer isto dizer que o sujeito poético não busque um sentido para as coisas e para os sonhos, um sentido pressentido («só que não está ao nosso alcance»), uma verdade aparentemente inatingível mas que até pode estar mais próxima do que imaginamos: «É na superfície / que o real, minúsculo plâncton, se trai». O poeta é então alguém que não se conforma com a inabalável «opacidade das coisas», procurando dar sentido a um impulso que «vem de dentro, e incomoda», uma «fala esquisita» e «aparentemente anárquica» em que as palavras estrebucham, «inúteis» como «cágados com as quatro patas viradas pro ar». Entre a realidade, essa «coisa delicada,/ de se pegar com as pontas dos dedos», e o «cais úmido e ínfimo» do eu, «mínimo/ império sem território» (como a ilha do Oriente onde se fala português), nasce a tensão que atravessa estes poemas, sempre à beira da banalidade (esse «acorde / gemido por um destoadíssimo realejo») e de uma assumida insuficiência, expressa em certos títulos (Dez sonetoides mancos; Três epifanias triviais, etc.) e também, infelizmente, na qualidade literária inferior de algumas sequências (as Três tercinas, por exemplo; ou os vários poemas em inglês).
Se o que permanece é «a alvenaria do mundo, o que pesa», Britto parece só acreditar nas coisas sólidas que sejam tocadas pela leveza do voo, ou pelo rasto dessa possibilidade, erguendo por isso uma poética instável, aérea, mais perto da «balística» do que da arquitectura. Como explica, de forma exemplar, neste poema:
É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura
e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda
na mão, igual a um fogo de artifício
que deu chabu. Não. Tem que ser na altura
de um morro, no mínimo, ou de um míssil
terra-a-ar. Sim. Menos arquitetura
que balística. É claro que é difícil.
Avaliação: 7/10
[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Três poemas de Paulo Henriques Britto
Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,
nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,
nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,
com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.
***
As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem
nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa –
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.
O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.
As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância).
***
ACALANTO
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.
[in Macau, Ulisseia, 2010]
A síndrome de Zuckerman
Jonas, o Copromanta
Autora: Patrícia Melo
Editora: Campo das Letras
N.º de páginas: 165
ISBN: 978-989-625-359-2
Ano de publicação: 2009
O protagonista e narrador deste romance tem nome bíblico – Jonas – e um estranho dom: o de adivinhar o futuro pela perscrutação das próprias fezes. A baleia que o engoliu foi a literatura. Durante o dia, Jonas arquiva burocraticamente pastas na Biblioteca Nacional, a poucos metros de exemplares raríssimos, como a Bíblia de Mogúncia; nos tempos livres, reescreve ou projecta reescrever obras-primas de grandes escritores (Dostoievski, Nabokov, Edgar Allan Poe, Céline, Strindberg, Melville), oferecendo às respectivas personagens destinos melhores, ou mais justos. Quando não está a ler, ou debruçado sobre uma sanita (a desenhar «criptogramas» fecais que reproduzem os símbolos da escrita copta), entrega-se ainda a atribuladas aventuras sentimentais e sexuais com duas colegas diametralmente opostas: Eunice e Darlene.
Acontece que um dia Jonas descobre um conto de Rubem Fonseca (Copromancia, do livro Secreções, excreções e desatinos) e convence-se de que o escritor mineiro, um dos seus ídolos literários, o plagiou. Não o tradicional plágio em que alguém copia passagens ou ideias do texto de outrém, mas antes uma apropriação de experiências alheias supostamente únicas (a já referida adivinhação escatológica). Para Jonas, a história de Fonseca é um decalque da sua vida – «eu era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva» – e a semelhança parece-lhe intolerável, porque «agressiva, insultuosa, demoníaca».
Inicia-se então um processo de paranóia aguda, agravada pelo facto de o escritor aparecer em carne e osso na Biblioteca, onde pesquisa materiais para o romance seguinte (Mandrake, a Bíblia e a bengala). Perturbado, Jonas paga a informadores, instala câmaras de videovigilância no seu apartamento e aperta o cerco a Rubem Fonseca, tentando arrancar-lhe provas da mirabolante teoria da conspiração que o obceca. Quando a paciência se esgota, o autor de O Buraco na Parede sugere-lhe uma cura: ler Philip Roth. «É natural que leitores misturem a vida de seus escritores favoritos com a de seus personagens, disse. Se isso acontece com exagero, é patológico. É o que eu chamo de síndrome de Zuckerman.»
Enquanto permanece no território da intertextualidade, em registo paródico servido por um humor ácido e uma escrita ágil, o romance voa alto. Infelizmente, Patrícia Melo falha por completo o desfecho do livro, ao substituir a racionalidade de Fonseca pela charlatanice de Zoé, personagem feminina que surge do nada para se aproveitar da credulidade de Jonas e da sua ânsia de absoluto. Uma pena.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no número 87 da revista Ler]
Sequestros e resgates

Os Espiões
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-20-3922-2
Ano de publicação: 2009
O narrador de Os Espiões (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais e pelas cartas de recusa, ele afoga em álcool a sua insatisfação profissional e familiar, até ao dia em que começa a receber às prestações o manuscrito de uma certa Ariadne, candidata a escritora, cujo projecto literário consiste em revelar a sua história de amores proibidos e crimes de sangue numa cidade do interior (Frondosa), suicidando-se no fim.
Apesar dos erros ortográficos e da ausência de vírgulas, o texto deslumbra tanto o editor como os amigos com quem costuma discutir no bar do Espanhol. Acreditando na veracidade do relato, o grupo decide montar uma «Operação Teseu» que inverta o mito e salve Ariadne, presa ainda no labirinto (à mercê de um temível Minotauro de apelido italiano) ou já em Naxos, aguardando um Dionísio que a redima.
Exímio na caracterização das personagens, Verissimo oferece-nos uma galeria de tipos inesquecíveis, de que fazem parte o Professor Fortuna, especialista em sexo tântrico sem contacto físico e em tiradas definitivas sobre autores que não leu («A literatura terminou com Sófocles. Tudo que veio depois é post-scriptum.»); o «Uruguaio», milionário que ganhou a sua fortuna ao apostar contra o Brasil na célebre e traumática final da Copa do Mundo, em 1950, esbanjando o dinheiro, desde então, para expiar a culpa; e Afonso, director do jornal Folha de Frondosa, estalinista empedernido que procura, à falta de revoluções, criar uma «rosa de um vermelho inédito» – a que chamaria, claro está, Rosa Luxemburgo.
Nunca perdendo o fio da narrativa (muito bem arquitectada, com os vários elementos da intriga a encaixarem-se na perfeição), o escritor gaúcho conseguiu urdir uma história sólida mas leve, alucinante e divertidíssima, onde cabem De Chirico e Sylvia Plath, conspirações e plágios, sequestros e resgates, cemitérios e bordéis, exercicíos meta-ficcionais e crónica de costumes, literatura e futsal. Em duas palavras: uma delícia.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Já há campeão da Copa de Literatura Brasileira
vs. 
É o livro Flores Azuis (Companhia das Letras), de Carola Saavedra, que venceu na final Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara). O resultado foi de 9-4; isto é, nove recensões favoráveis a Saavedra e quatro que se inclinavam para Correia de Brito.
Conferir tudo no site da Copa.
A vencedora fala sobre Flores Azuis e lê excertos do livro neste vídeo:
Ao cuidado do Senhor Palomar:
«Abri um vinho, nos sentamos à mesa, contei a ela sobre meus projectos futuros, como o de reescrever Morte a crédito, de Céline. Expliquei-lhe que manteria a história intocada, personagens, enredo, não alteraria nada, exceto a pontuação.
Não entendo como um escritor como Céline, expliquei, pode usar reticências e pontos de exclamação de forma tão abusiva. Há páginas de Morte a crédito, continuei, que parecem a técnica didática preencha-as-lacunas, tamanha é a quantidade de reticências. Reticência é recurso de indeciso. E exclamação, de escritor deslumbrado. Céline não me parece nem uma coisa nem outra.»
[in Jonas, o copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]
Uma atitude heróica
«A certa altura, Eunice me contava seu projeto de, se um dia abrisse uma editora, lançar Em busca do tempo perdido em sessenta volumes.
Se a série fosse publicada em pequenos fascículos, digeríveis, talvez as pessoas lessem Proust. O problema do Proust é o tamanho. São sete livros. Quem lê tijolo, hoje em dia? Ninguém tem mais tempo para ler Guerra e Paz. Livro tem que ser fininho, tem que caber na bolsa, ela dizia.
Falei que sua idéia seria um fracasso, ao menos financeiramente. A questão não é compactar, falei, porque isso sempre se fez com versões reduzidas, facilitadas, dicionários literários de Shakespeare, Dante, Joyce, todos os grandes. Atualmente existem até mesmo versões para criança, em quadrinhos. Nem por isso se leu mais ou se adquiriu mais conhecimento dos clássicos. O ideal seria publicar os sete volumes do Proust num único, de cinco mil páginas. O mercado editorial hoje em dia, continuei, ao contrário do que você diz, é exatamente para tijolos, especialmente porque o leitor é preguiçoso. Se você compra um livro de cem páginas e não o lê, sente que está jogando dinheiro fora e isso é frustrante. Quem quer se frustrar? Mas se compra um Thomas Pynchon, bem, isso é diferente, é um projecto de vida, é como comprar uma casa, uma apólice, não interessa se você vai lê-lo ou não, só o fato de comprar já é uma atitude heróica, porque é heróico ler Thomas Pynchon, é heróico ler Don DeLillo, é heróico ler todos esses americanos de mil páginas. É excitante pensar que vamos ser heróis quando tivermos tempo, no fim do ano, nas próximas férias, depois da aposentadoria. Adiamos o malogro indefinidamente.»
[in Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]
Seres linguísticos e heróis mudos
«Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas? Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres radicalmente lingüísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à linguagem. Cada árvore seria assim o logaritmo da sua posição na floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no dorso de um mamífero, na luz fosforescente de um inseto que já morreu, na textura dos troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode de uma morsa – e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer parecia parte desta página, reescrita a cada momento; todas as mortes, os pios, cada gota, cada sal.
A única restrição deste texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível. Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande cataclisma – um terremoto, um meteoro ou um incêndio – tenha transformado a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz), e substituir com ela o que tinham perdido. Procuraram então marcar, para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.
Fico imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as próprias cinzas, a terra deserta, o maucheiro de tantos bichos mortos, expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as próprias hienas em sujeito e predicado do seu mundo moribundo. Se tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços. Então seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte, mas trariam a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.»
[in Ó, de Nuno Ramos, Iluminuras, São Paulo, 2008]
Nelson de Matos publica novo romance de João Ubaldo Ribeiro

Depois de ter reeditado Viva o Povo Brasileiro, A Casa dos Budas Ditosos e Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, Nelson de Matos vai publicar, em simultâneo com a edição original, o novo romance do Prémio Camões 2008. Título: O Albatroz Azul (248 páginas, 16 euros). Para Nelson de Matos, esta é «uma obra de génio» e «a verdadeira surpresa deste final de ano».
Chega às livrarias a 10 de Outubro.
Ruffato em Lisboa

Depois de ter escrito um belíssimo romance sobre São Paulo (Eles eram muitos cavalos), Luiz Ruffato acaba de publicar um livro sobre Lisboa (Estive em Lisboa e lembrei de você), incluído na colecção «Amores Expressos», da Companhia dos Livros. Espero que o Ruffato lisboeta seja pelo menos tão bom como o Rufatto paulista, e acreditem que isto já é esperar muito.
[via blogue da Ler]
Três poemas de Mariana Ianelli
Contornada a margem fina
Do esquecimento,
Uma nova capital aparecerá
Sobre a antiga,
Novas mulheres que não tenham conhecido
A barbárie que escandaliza e mata um filho,
Ou o desespero do auto-sacrifício.
“Qualquer saudade vivida pelo corpo
Possui as etapas da sua própria superação”
– Aprendemos isso.
O que de nós foi roubado
Mas antes resplandecia,
O que foi interrompido em mim,
Instinto de luta,
Retornará mais ardente, mais firme
Para as mãos de quem eu nunca vi,
Alguém sentenciado a cumprir
As mesmas lamentações
Que no passado eram minhas,
Os mesmos versos noturnos
Que abalaram a minha inteligência
E me arrastaram contigo para o fim.
***
O inferno esteja contigo
No dia em que teu pai morrer
Sob o aplauso de gente bastarda como tu;
Que a impiedade do tempo te faça mais cansado
Do que um camelo magro ao qual se cortam as patas.
As meninas que tu desencantaste no auge da ternura
Vão batizar tua cabeça animalesca (já separada do corpo)
Na intenção de que venhas a nascer um homem, e não uma farsa,
Em qualquer outra era distante e num país de outras raças.
Que a providência se feche à tua passagem
E cada mínimo fato da rotina trabalhe para a tua solidão.
Não suportarás a vida aferrolhando tua garganta.
Quem não te conheceu e nem mesmo soube do teu fim
Perceberá o sopro do vento quando a terra te engolir.
***
Para além do muro de pedra
Os espinhos foram tolhidos,
A cor púrpura assumiu as veredas
Do antigo solo de urtigas.
Na sétima vez em que o corpo se ergueu,
A grande planície do horizonte exibiu sua serventia.
[in Passagens, Iluminuras, São Paulo, 2003]
Um poema de Paulo Henriques Britto e outro de Ronald Polito
Paulo Henriques Britto:

Man in a Chair, de Lucien Freud (1983-85)
MAN IN A CHAIR
Esperar sentado, mas sem
relaxar os músculos. Mãos
tensas nas coxas como quem
prestes a se levantar. Não
como quem, à espera, descansa.
E sim como se encurralado
na cadeira. Sem esperanças
nem expectativas. Sentado
na cadeira como quem não
espera exactamente nada.
Sem certezas, com exceção
da única, e indesejada.
Ronald Polito:

Two Figures, de Francis Bacon (1953)
ENTRE DOIS HOMENS
Para a boca, os dentes, o arco do
torso e do meio das
coxas, e de novo os dentes,
gemido ou riso, e ódio.
Poder dizer ou morder, arfando,
luz de tule entre dois
peitos, escorrendo, pés de prata
no leito, a tratar, celebrar, contra o
borrão de fora, adentro, e revirar
um corpo, cruzado num
salto, jorro, abraço de
pluma, chumbo.
Matar, amar, testemunhos,
liquefação, em cada milímetro
de domínio, cada roçar em desatino,
vendas de névoas,
membro a membro.
Iguais, no arrepio, risco.
Desfigurado, aqui, o que passou
e virá.
[in revista Relâmpago, n.º 23, Outubro de 2008]
Entre uma escarpa e uma escultura

Telefunken
Autor: Luis Maffei
Editora: Deriva
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-972-9250-55-2
Ano de publicação: 2009
No primeiro poema deste livro, intitulado Fio, Luis Maffei estabelece de imediato uma espécie de circunferência, um limite para o alcance da sua escrita: «Só quero te deixar um breve fio, uma notícia, vaga/ luz que de fulgor tem pouca/ coisa». Eis uma poesia que abdica da transcendência e de altos voos, uma poesia rente ao chão e às coisas terrenas, atraída pelo «belo gesto do malogro» e capaz de intrometer-se no «cirúrgico intervalo entre uma escarpa e uma escultura». Ou seja, algures entre a beleza selvagem, em estado bruto (escarpa), e o gesto que lhe atribui um valor estético (escultura).
Além de breve, o «fio» que une os versos de Maffei é também frágil. Cada poema parece sempre à beira de se desfazer, vítima de um aceleradíssimo staccato e de uma sintaxe irregular, como que partida e colada de novo com fita-cola. O efeito é de vertigem verbal, queda a pique, salto no escuro. O poeta fala do tempo («cruel, frenético e exigente»), dessa contabilidade dos anos que «não fecha/ nunca», de futebol, das suas gatas, das cidades e dos corpos, do «metrô» e do Maracanã, como que em fuga, impossível fuga, para um lugar exterior à literatura: «Estamos, amigo, fora/ dos livros,/ num cálido corpo que eu cria não/ ser de palavras».
Estudioso e divulgador da poesia portuguesa, Maffei dialoga subtilmente com a nossa tradição poética, de Camões a Pessoa, de Gastão Cruz a Rui Pires Cabral. É um trabalho de filigrana, feito de paráfrases e desconstruções, bela homenagem de quem, diante de Sophia, se considera «andreseniano em mão segunda» e, dirigindo-se a Bocage, consegue escrever um soneto digno do vate de Setúbal.
Avaliação: 6,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
A mais alta constelação

Pequena Enciclopédia da Noite
Autor: Carlos Nejar
Editora: Quasi
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-989-552-392-4
Ano de publicação: 2009
Ocupante da cadeira n.º 4 da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar (n. 1939) é um dos maiores autores vivos da língua portuguesa. Há quem lhe chame «o poeta do pampa brasileiro» (o que se compreende por ter nascido e vivido no estado do Rio Grande do Sul, em cujas regiões interiores trabalhou como promotor de justiça) e há quem lhe chame, usando um epíteto de Jacinto do Prado Coelho, «o poeta da condição humana». Na verdade, ele tem sido as duas coisas, o observador incansável da paisagem agreste a que se sente preso («nenhuma morte é maior / que a terra dentro de nós») e o narrador da «história humana / que fica pelos sótãos, porões; jamais / oficializada nos compêndios».
Neste livro que reúne meia centena dos seus «melhores poemas», de Livro de Silbion (1963) a Sonetos do Paiol ao sul da Aurora (1997), Nejar oferece ao leitor uma viagem-relâmpago ao fulcro da sua obra, por muito que a «apertadíssima escolha» provoque no poeta português António Osório, autor da nota introdutória, uma não escondida perplexidade: «Mas como ousou Carlos Nejar, senhor de uma obra imensa [perto de 30 títulos], reduzi-la a… 50 poemas? E os “melhores”, porquê os melhores? Os outros, as inúmeras centenas, não contam? Serão eles menores?» Certamente que não, mas se há prerrogativa que os grandes poetas se outorgam é a de moldarem a seu bel-prazer a forma como o trabalho anterior pode, ou deve, ser entendido (basta pensar, entre nós, no caso paradigmático de Herberto Helder).
A selecção revela-se aliás bastante criteriosa, ao acolher os vários modos e cambiantes da escrita poética de Nejar. Encontramos exemplos do seu pendor aforístico («Amar é a mais alta constelação»; «os livros sobrevivem à poeira / e às traças da ignorância civil»); sonetos de impecável recorte; o uso certeiro das aliterações e da repetição obsessiva de uma mesma palavra (seja «pedra» ou «maçã»); a vénia respeitosa a outros poetas (Emily Dickinson, Dante, Camões); um domínio exemplar da prosódia; e um regresso recorrente aos grandes tópicos, como a morte, a esperança e o amor – esse «calafrio da inteligência» que dá sentido ao mundo e aproxima o homem da noção de eternidade:
Os anos, Elza, não consertam mágoas,
mas as mágoas não correm, se corremos.
Não encanece a luz, onde são remos
da limpa madrugada, os nossos corpos.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]
A história do Brasil
Leite Derramado
Autor: Chico Buarque
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-20-3838-6
Ano de publicação: 2009
Eulálio Montenegro d’Assumpção está deitado na enfermaria de um «hospital infecto». O seu corpo frágil testemunha uma existência centenária que «se alongou além do suportável, como linha que se esgarça». Pobre e solitário, a única coisa que lhe sobra é a memória, mas esta tornou-se uma «vasta ferida», um «pandemônio», uma porta aberta por onde entra o passado, sem qualquer ordem cronológica, multiplicando-se em ínfimos detalhes («recordo cada fio de barba do meu avô, que só conheci de um retrato a óleo»), enquanto o presente se estreita, baralha e desfaz.
Mesmo na miséria, Eulálio mantém o aprumo e os tiques de superioridade social, aprendidos numa família em que se falava francês até para pedir o saleiro. À sua volta, só vê «gente desqualificada». O som do televisor está sempre alto demais e as baratas trepam pela parede. Entre a dor e a morfina, entre a vigília e os sonhos a preto-e-branco, ele tenta narrar a sua vida, fixá-la, transmiti-la nunca se sabe bem a quem (porque tanto se dirige às enfermeiras como à filha, tanto barafusta com os médicos como interpela a mãe morta há muitas décadas).
O romance é uma sucessão de monólogos fragmentários e contraditórios, nos quais certas histórias reaparecem insistentemente, mas sempre contadas de outra maneira, a partir de outro ângulo, com outra vibração. A verdade, se existe, é instável. Tudo pode ter sido assim – ou ao contrário. Na cabeça «meio embolada» de Eulálio, os tempos misturam-se, cruzam-se, coalescem. E os espaços também. Já não há palacete em Botafogo, chalé em Copacabana, apartamento na Tijuca, nem fazenda na «raiz da serra» (invadida pela favela), mas no «palavrório» do moribundo eles recuperam o antigo esplendor.
O protagonista de Leite Derramado é a charneira de uma longa linhagem de Eulálios, tradicionalmente próximos das elites e do poder. O tetravô português lutou contra as tropas de Napoleão; o trisavô desembarcou no Rio com a corte de D. João VI; o bisavô foi um barão negreiro; o avô um abolicionista que queria lucrar com o regresso dos escravos a África; e o pai um senador da Primeira República, pródigo nos negócios e nos vícios. A tibieza do narrador marca de certa forma o começo do declínio: depois dele, a filha casa-se com um imigrante italiano de segunda geração; o neto torna-se maoísta (morrendo nas prisões da Ditadura); e o tetraneto trafica drogas, fechando o ciclo da decadência dos Assumpção.
Quer pelo arco temporal abrangido, quer pelo imenso leque de personagens, pode dizer-se que Chico Buarque escreveu uma saga familiar – só que uma saga familiar de câmara: breve, compacta, reduzida ao essencial. Uma das principais virtudes de Leite Derramado é precisamente esse milagre de condensação e leveza, para o qual contribui uma escrita depuradíssima. Outro ponto forte é a articulação feliz entre as experiências individuais e as colectivas. Na história dos Eulálios são sempre legíveis – à transparência – alguns dos momentos capitais dos últimos 200 anos de História do Brasil.
O fulcro do livro, porém, está em Matilde, primeira mulher e único verdadeiro amor do protagonista. É essa figura feminina intangível (capaz de entrar no oceano «como se pulasse corda») que ilumina a solidão de Eulálio. Um dia, desaparece de casa, deixando para trás marido, filha bebé e um mistério (a razão da sua fuga) que reverbera em todas as páginas, como premonitório sinal do caos futuro.
No exercício narrativo quase perfeito que é Budapeste, de 2003, Chico Buarque parecia ter atingido o cume das suas capacidades literárias, mas neste Leite Derramado sobe ainda mais alto e assina um dos melhores romances em língua portuguesa da primeira década do século XXI.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Um poema de Luis Maffei
MARACANÃ, 11,04,2007
Se há,
Fernando,
uma metafísica do pênalti
ignoro.
Sei apenas que a vida é adepta de imitar
em noites assim
este jogo que é perfeito mas por
hediondo gesto: vida, morte,
vida e
a metafísica do pênalti.
E um histérico vazio à roda nossa, a velha
premissa de que tudo está errado salvo
nós, salvo este empuxe teu a me
arrancar do chão na hora do segundo gol
da gente,
salvo isso tudo que nos livra de um país tão
triste quanto um Maracanã de quarta à
noite que não sabe o que é noite ou
equinócio, tampouco a dimensão do
desbarato e somos nós
Fernando
cada vez mais sós.
Mas pouco importe. Este jogo
de novo
(e desta vez com teus braços de outras cores a
tomar em afeição meu Almirante
ou
a mim próprio)
nos fala como somos, súcubos do
pênalti e de sua metafísica, donos do direito de
abraçar a vida, a morte, a morte e
aquilo a que eu, por gana,
sei que posso dar o nome de amizade.
[in Telefunken, Deriva, 2009]
Um rasto só de beleza

Cinemateca
Autor: Eucanaã Ferraz
Editora: Quasi
N.º de páginas: 100
ISBN: 978-989-552-276-7
Ano de publicação: 2009
Depois de Desassombro (2001) e Rua do Mundo (2006), este é o terceiro livro publicado em Portugal, sempre nas Quasi, por Eucanaã Ferraz, um dos mais sólidos e originais poetas brasileiros da actualidade. A sua escrita, assente numa admirável precisão rítmica e numa procura dos limites formais de cada poema, entende a linguagem como um campo de experimentações que nunca se desliga do real, enquanto contingência e destino do discurso poético.
O programa de Cinemateca, composto por 50 poemas-filmes autónomos, talvez se possa resumir nestes versos: «Abra-se tudo / em grande-angular». De facto, a lente através da qual Eucanaã observa a realidade é a mais abrangente, a que mais consegue expandir o campo visual. As imagens, porém, nunca são fixas, estão sempre em movimento, através de complexas derivas semânticas e da acumulação de elementos da memória própria ou alheia (a euforia infantil, a melancolia dos adultos), uma rede de histórias que se transfiguram e não chegam a dizer tudo, perdidas algures na busca de um «rasto só de beleza».
Ao longo das três partes em que o livro se divide – «1.ª luz», «2.ª luz» e «3.ª luz» –, desenha-se um percurso que vai das atmosferas matinais, cheias de claridade e leveza, ao negrume mais fundo das crónicas nocturnas de amor e desencontro. Pelo meio, Eucanaã evoca de várias formas o esplendor da natureza (com os animais, plantas, cores, arquitecturas) e estabelece diálogos subtis com outros poetas, alguns deles portugueses (Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena).
«O poema ensina a cair», escreveu Luiza Neto Jorge. Eucanaã vai no sentido inverso, como explica numa arte poética a que chamou «sumário»:
O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.
Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]
Uma deriva felliniana

O Dia Mastroianni
Autor: João Paulo Cuenca
Editora: Caminho
N.º de páginas: 163
ISBN: 978-972-21-2024-1
Ano de publicação: 2009
João Paulo Cuenca, carioca nascido em 1978, apareceu como um relâmpago na cena literária brasileira em 2003. O seu romance de estreia, Corpo Presente, era uma história fragmentada de obsessão amorosa e sexual por uma mulher – Carmen – que é muitas mulheres (ou talvez um arquétipo que se projecta, fugidio, em todas as mulheres), no cenário de uma Copacabana suja, violenta, visceral, a anos-luz do brilho falso dos prospectos turísticos. A recepção crítica foi apoteótica (houve elogios, entre outros, de Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Chico Buarque), o que talvez tenha contribuído para um silêncio de quatro anos. Já se sabe: o pior que pode acontecer a um segundo romance é frustrar as promessas do primeiro.
Se esse peso pairou sobre O Dia Mastroianni, não se nota. Embora Cuenca tenha mudado radicalmente de atmosfera e de tom (ficou tudo mais leve), o fulgor meio desembestado da sua escrita permanece, bem como o gozo de contar uma história aos solavancos, assumidamente fora de qualquer cartilha do bom narrador. Em vez da toponímia precisa do Rio de Janeiro, existe agora uma cidade imaginária por onde deambulam dois anti-heróis: Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, uma espécie de Bouvard e Pécuchet pós-modernos, que, em vez de quererem compreender tudo, procuram à partida não saber nada. O resultado final é quase o mesmo: o esvaziamento diante da complexidade do mundo. Mas onde Flaubert esboça, apesar de tudo, uma «enciclopédia da estupidez humana», as personagens de Cuenca limitam-se a tirar notas sobre os gloriosos malefícios do tédio, aqui e ali elevado a uma forma de arte.
Na sua deriva felliniana por bares, restaurantes e festas para as quais não foram convidados, Cassavas e Anselmo seguem à risca, em 24 horas de folia alucinada, a definição inicial de Dia Mastroianni: «o dia gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística». Entre cada uma dessas divertidas «excursões» dos dois amigos, há interlúdios meta-literários em que uma entidade superior comenta e critica a evolução da narrativa. É este o lado mais frágil do livro, porque o arremedo de peça teatral é parco em ironia (a pouca que subsiste, em vez de afiadíssima, sai romba) e porque o desfecho desilude, dando a ideia de que aquela presença divina, que só fala em maiúsculas, nasceu apenas de um capricho algo juvenil do autor.
Em suma, O Dia Mastroianni não é ainda o grande romance que o talento de Cuenca promete e reclama. Mas quem consegue fazer um livro assim, absolutamente livre e capaz de todos os riscos, pode estar certo de que voos mais altos o aguardam.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]
O exército infantil
«A artilharia iniciou o ataque com uma barragem de tiros sobre as trincheiras; as bombardas caíam como gotas de fogo levantando línguas de poeira e fumaça, numa constância cadenciada de artilheiros experientes. Não houve reação do outro lado; poucos tiros de fuzis eram disparados pela tropa paraguaia, que parecia afundar-se cada vez mais na proteção das trincheiras, uma proteção pouco mais do que simbólica, pois os artilheiros estavam colocando suas bombas exatamente sobre elas e de vez em quando se viam corpos mutilados sendo lançados para o alto, em meio à fumaça e à terra arrancada. Após algum tempo a cavalaria avançou, fechando pelo flancos, galopando entre os arbustos das encostas que circundavam as linhas de trincheiras, e sumiu no mato seco, atacando com espadas e lanças. Então a infantaria recebeu ordens de avançar também, em cargas sucessivas, como ondas, contra as trincheiras; quase não houve resistência. Os clarins tocavam ordens, sempre de ataque, e facilmente as linhas do exército aliado penetraram no campo paraguaio, matando, atirando com seus fuzis, destroçando um exército paraguaio, pela primeira vez naquela guerra, sem garra, sem a agilidade dos saltos e do manejo das lanças, sem o vigor costumeiro e acostumado. Nunca os soldados brasileiros haviam visto aquilo: matavam com enorme facilidade; os paraguaios pareciam petrificados diante do avanço de homens calejados por tantos anos de combates, desejosos de acabar logo com aquela guerra para retornar à pátria; uma batalha com mais ódio, porque era uma batalha inútil. As linhas penetravam cada vez mais fundo no campo, destroçando, entre a poeira e a fumaça dos canhões, um exército quase inerme, que se agachava nas trincheiras como esperando a morte.
Aos poucos, os próprios soldados aliados, surpresos por tanta indiferença, começaram a perceber que estavam matando crianças; eram crianças com seus olhos espantados, vestidas de soldados, enfiadas nas trincheiras com fuzis enormes, que nem sequer poderiam levantar; crianças vestidas de soldados, agarradas às saias de suas mães, que as tentavam proteger com o próprio corpo, enquanto eram abatidas com suas crias pelas balas dos fuzis, certeiras. Os soldados foram reparando que ali não havia guerreiros, mas uma farsa conduzida por uns poucos velhos e muitas mulheres corajosas, que se atiravam, com lanças mal manejadas, sobre os veteranos, que saltavam pelas trincheiras como macacos treinados, matando, estripando. E começou então a fuga, no meio das macegas secas; crianças e mulheres correndo, despertados pela fúria dos soldados, que continuam matando com suas espadas e seus facões; já nem era preciso atirar mais, os pequenos vultos fugindo às centenas colina acima. Foi então que encontraram a cavalaria que descia a galope, atropelando, numa carga feroz; as espadas cortando o mato, cortando cabeças, decepando braços, espalhando sangue pelas folhas ressequidas e galhos empoeirados do mato rasteiro, que mal escondia o colorido vivo dos uniformes paraguaios.
Foi então que alguém teve uma idéia: o toque de recuar; e o soldados pararam, saíram do mato.
Foi aí que alguém teve outra idéia e passou a colocar fogo nos galhos ressequidos pelo sol e pelo inverno e o vento soprou em direcção ao Leste, para onde fugiam os meninos e suas mães, os que restavam vivos, e o fogo correu com pés mais rápidos do que os deles, alcançou-os e queimou-os como vinha queimando galhos e troncos, e o campo de batalha transformou-se na mais terrível das minhas visões. Eu vi meninos em chamas, entre a galharia; pequenas tochas coloridas, rodopiando até cair e tornar-se uma fogueira que ajudava a espalhar o fogo para outras árvores, que acendiam outras pequenas tochas, e havia um cheiro jamais sentido nas guerras, um cheiro de carne queimando, como os churrasco de campanha onde assamos o boi com seu couro.
Não sei quanto tempo durou esse horror, mas aos poucos, atônitos, os soldados pararam e apenas permaneceram olhando o fogo consumir os restos daquele exército de meninos e mulheres. Eu vi homens chorando; eu vi o espanto, o horror nos olhos de tantos veteranos, encarquilhados pelas lutas nos esteros, nos campos, nas margens dos rios; aqueles homens que haviam aprendido a respeitar um inimigo cuja coragem era o grande desafio; o inimigo que morria definitivamente pelos corpos em chamas de suas crianças; eu vi o desespero de velhos soldados, os fuzis inúteis nas mãos, as lanças esquecidas, a vergonha, a vergonha.»
[in O Rastro do Jaguar, de Murilo Carvalho, págs. 509-512, LeYa, 2009]
A invenção do Brasil

«Uma obra de fôlego, que refigura uma vasta erudição, combina narrativa histórica e arte poética, elaboração wagneriana e aura profética.» Foi assim que o júri da primeira edição do Prémio LeYa, presidido por Manuel Alegre, justificou em Outubro a atribuição dos 100 mil euros – valor só igualado, no mundo lusófono, pelo Prémio Camões (que distingue toda uma obra e não apenas um livro) – ao jornalista brasileiro Murilo Carvalho, autor de O Rastro do Jaguar, considerado o melhor dos 448 romances concorrentes.
No dia do anúncio, feito durante a Feira de Frankfurt, Murilo Carvalho, 60 anos, encontrava-se no coração da Amazónia a filmar um documentário. «Foi uma surpresa enorme», confessa. «Eu só consegui falar ao telefone por estar perto de um quartel do exército, mas havia pouca rede e levei algum tempo a perceber o que me diziam.»
O Rastro do Jaguar é o seu primeiro romance e o regresso à literatura (na juventude publicou dois volumes de contos, ambos premiados), após um longo período dedicado à realização de programas televisivos, ao trabalho como guionista de cinema e à escrita de livros de reportagem («sobre as lutas entre índios e poceiros, conflitos pela posse da terra, esse tipo de temas»).
Fruto de quatro anos de pesquisa intensiva, o livro estava numa espécie de impasse, muito por culpa da sua extensão: «Uma das editoras que contactei respondeu-me que preferia não publicar um romance tão grande; era mais seguro apostar em três livros de 200 páginas do que num só com quase 600.» Por isso, ao ver o anúncio do Prémio LeYa no jornal, nem hesitou.
A ideia para o romance nasceu da leitura das obras do naturalista francês Auguste de Saint’Hilaire, que viajou pelo Brasil no início do século XIX e deixou minuciosas descrições da flora tropical. Num dos livros, Saint’Hilaire revelava a intenção de levar consigo para a Europa um índio aimoré adulto, bem como um índio guarani ainda criança, destinado a um general de Napoleão. «Ele trouxe os índios até ao Rio de Janeiro, mas o governo brasileiro não autorizou o embarque. Ninguém sabe o que aconteceu a esses dois. Então, eu decidi imaginar que eles chegavam mesmo a França. Ou seja, pus-me a ficcionar as suas vidas, mantendo os nomes verdadeiros: Firmiano (o aimoré) e Pierre (o guarani).»
Um dos objectivos de Murilo foi justamente explorar as questões identitárias dos povos indígenas, massacrados por uma política colonial que os conduziu ao extermínio, ou quase. «Quis sobretudo prestar homenagem à cultura guarani, à sua cosmogonia assente no poder da palavra, à sua religiosidade complexa e aos seus mitos, como o da procura da Terra Sem Males.»
Além das pequenas guerras de resistência dos indígenas, há outro conflito militar que ocupa um lugar central na estrutura do livro: a guerra do Paraguai. «Infelizmente, a história da América do Sul, contada em ficção, quase não existe. E eu pretendi lembrar esse momento dramático que moldou os países do extremo sul do continente: o Uruguai; a Argentina, ainda em formação como país; o Brasil, à beira do fim do império; e o Paraguai, que viu a sua população masculina dizimada (e ainda não se recompôs, século e meio depois). Estas nações formam hoje o Mercosul. Constituímos uma comunidade internacional. Temos um passaporte comum. E nascemos todos daquela guerra. Uma guerra que eu tentei descrever, para a entender melhor.»
O rigor histórico transformou-se numa obsessão para Murilo Carvalho, enquanto preparava o romance. Por isso visitou, um a um, todos os lugares referidos. «Cada casa, cada rua, cada descrição geográfica é absolutamente real. Andei por aqueles sítios, filmei muito, li tudo o que encontrei sobre os vários temas, desde relatórios militares a descrições das batalhas, passando por textos de filósofos e versos de poetas sobre a condição indígena.» Nos pântanos do Paraguai, encontrou ainda rastos da destruição e até balas, marcas do horror que o ajudaram na hora de escrever.
Para Murilo Carvalho, este romance impôs-se pela «necessidade de reflectir sobre a História do meu país», algo que os documentários não lhe davam, «porque só permitem mostrar a realidade como ela é», em bruto, sem o lastro de um pensamento mais elaborado. «Em minha opinião, a literatura deve abarcar os muitos aspectos de uma época, focando tanto os movimentos individuais como os colectivos. Eu não gosto dos romances demasiado intimistas, que ficam navegando apenas pelo interior das personagens.» Precisamente o tipo de ficção que domina, segundo Murilo, o panorama «muito pobre» da literatura brasileira contemporânea. «Os jovens autores estão todos voltados para si mesmos. É a literatura dos gabinetes de S. Paulo, da violência urbana. E o resto do país como que desaparece.»
Talvez por isso, embora aprecie alguns escritores mais recentes (como Luiz Ruffato, Cristovão Tezza ou Caio Fernando Abreu), as referências maiores estão lá para trás: «Há o Guimarães Rosa, claro. Eu gasto os livros dele, de tanto ler. E depois alguns nomes menos conhecidos fora do Brasil, como Autran Dourado ou Adonias Filho, autor de Memórias de Lázaro, um livro maravilhoso.» Não que o seu estilo se assemelhe ao destes escritores: «Eu escrevo de forma muito clara, muito cinematográfica. E se há alguma herança é mais dos delírios de Joseph Conrad e Richard Wagner.» A música de Wagner, explicitamente evocada no livro, foi mesmo essencial no processo de criação. «Passei o tempo todo a ouvir o Tannhäuser, com as partituras na mão, procurando compreender tanto as ideias musicais como a busca dos mitos.»
Com a folga financeira permitida pelo prémio, o objectivo é agora dedicar-se mais à literatura, mas sem abdicar do trabalho que vem fazendo. No horizonte, há vários projectos de documentários, um deles sobre a exploração sexual de crianças nas estradas brasileiras. E o próximo romance, Memórias de Isabel, já está escrito. «É sobre o período da ditadura, reflectindo um pouco da minha experiência na época. Passa-se durante uma semana, uma parte na Bahia, outra parte em S. Paulo, em torno da construção de uma grande barragem no sertão e do assassinato de Vladimir Herzog, um grande amigo e jornalista. Foi com o impacto da sua morte que a ditadura começou a cair.»
O Prémio LeYa será oficialmente entregue a Murilo Carvalho no dia 6 de Abril, no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Já esta semana, foi aberto o concurso para a segunda edição do prémio, cujo regulamento pode ser consultado aqui. O prazo para a entrega de originais termina a 15 de Junho.
[Texto publicado no suplemento Actual do semanário Expresso]
A voz de Chico
Desta vez não canta. Desta vez lê em voz alta excertos do seu próximo romance: Leite Derramado (Companhia das Letras).
Chico Buarque tem novo romance quase a sair

Seis anos após Budapeste (2003), Chico Buarque regressa à literatura com Leite Derramado, a publicar ainda em Março, no Brasil, pela Companhia das Letras.
‘Filho da mãe’, de Bernardo Carvalho (booktrailer)
O novo romance de Bernardo Carvalho será lançado esta semana no Brasil, com chancela da Companhia das Letras. Neste booktrailer, o escritor fala sobre a obra, fruto de uma estadia em São Petersburgo (ao abrigo do projecto Amores Expressos), e lê alguns trechos. Uma pré-publicação de Filho da Mãe pode ser lida na edição online da revista Piauí.
[via Ciberescritas]
Um nome bom de se pronunciar
«Na mochila, Celina levava seu diário e o diário de Bashô. Um pouco de dinheiro para as passagens e para a comida. Foi de ônibus até sua estação habitual, Katsura. Dali era preciso pegar o trem até a estação Arashiyama. E caminhar a pé até seu destino final.
Era curioso passar tantos dias sem falar praticamente nada. Sem trocar palavras com o resto do mundo, além de fugazes pedidos em balcões, de cumprimentos desajeitados e breves, de agradecimentos lacônicos. Sua voz parecia um casulo de borboletas dentro da garganta, operando alguma espécie de transformação interna. Sua voz parecia se equilibrar com fragilidade sobre aquela categoria delicada – o mínimo indispensável.
O mínimo indispensável. O latido suave de um coração feito de palavras estranhas, estrangeiras, difíceis de decorar.
E aquele nome, que também estava no campo semântico do coração: Rakushisha. Um nome morno e um tanto rascante.
Rakushisha. Um nome bom de se pronunciar.
Rakushisha. Dava para sentir os grãos das consoantes na língua.»
[in Rakushisha, de Adriana Lisboa, Quetzal, 2009]
A vantagem das Obras Completas
Ao reunir a sua obra num só volume (toda a poesia e todo o teatro), o poeta brasileiro Ferreira Gullar descobriu um número significativo de erros nos seus livros, erros perpetuados em sucessivas reimpressões e só agora corrigidos. A nova e esmerada edição, organizada pelo crítico Antonio Carlos Secchin, tem 1264 páginas e chancela da Nova Aguilar, uma espécie de Pléiade dos trópicos, que desde 1958 vem fixando as obras dos grandes clássicos brasileiros, em volumes de capa dura e papel-bíblia.
Segundo Sebastião Lacerda, responsável máximo da editora, «Gullar e Secchin conseguiram acertar até erros na construção de versos». E eu, enquanto folheio a espessa antologia publicada em Portugal pelas Quasi, em 2003, pergunto-me quantas dessas antigas incongruências e incorrecções estarão por aqui à espera de deturpar a minha leitura dos poemas.
Um poema de Carlito Azevedo
LIMIAR
A via-láctea se despenteia.
Os corpos se gastam contra a luz.
Sem artifícios, a pedra
acende sua mancha sobre a praia.
Do lixo da esquina partiu
o último vôo da varejeira
contra um século convulsivo.
[in Sob a Noite Física, Cotovia, 2001]


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