‘Gonzos e Parafusos’

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Um Big Brother livresco? Ou a performance arrojada de uma escritora que prolonga na vida real a atmosfera do seu livro, vestindo literalmente a pele da sua personagem?

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Ao fechar-se durante uma semana dentro de uma caixa de acríllico, montada numa livraria de São Paulo e exposta ao olhar dos visitantes, Paula Parisot aproxima o lançamento literário do conceito de instalação artística. O que faz todo o sentido, não fosse o seu romance (Gonzos e Parafusos, edição LeYa) sobre uma psicanalista obcecada por Elizabeth Bachofen-Echt, uma baronesa que entrou para a posteridade como modelo do pintor Gustav Klimt.
Para acompanhar, até dia 17, aqui.
Eis um resumo, em vídeo, do primeiro dia:

Menos arquitectura que balística

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Macau
Autor: Paulo Henriques Britto
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 55
ISBN: 978-972-568-626-3
Ano de publicação: 2010

O brasileiro Paulo Henriques Britto (n. 1951) pertence à categoria dos poetas bissextos. Após o livro de estreia (Liturgia da Matéria, de 1982), publicou apenas mais quatro livros de poemas: Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), Macau (2003) e Tarde (2007). Conhecido sobretudo pelas suas traduções do inglês (Henry James, Elizabeth Bishop, William Faulkner, Don DeLillo, Thomas Pynchon, entre outros), Britto apanhou de surpresa o meio literário lusófono ao vencer em 2004 o Prémio PT de Literatura, no valor de cem mil reais (cerca de 49 mil euros), batendo na final pesos-pesados como Chico Buarque (Budapeste), Bernardo Carvalho (Mongólia), Sérgio Sant’Anna e Manoel de Barros.
A inesperada vitória foi conseguida com Macau, o voluminho que inaugura a nova colecção de poesia da Ulisseia e revela algumas das linhas principais do trabalho deste autor, nomeadamente aquela que passa pela desconstrução sistemática da artificialidade dos códigos poéticos. Britto utiliza quase sempre formas clássicas, com metrificação canónica e rimas, mas apenas para as fazer implodir através do recurso a uma linguagem ostensivamente coloquial, pouco elevada. O poeta domina a técnica, conhece as regras, chega a ser virtuoso na composição verbal, no equilíbrio das estrofes, mas depois insiste em colocar-se de fora, retirando com visível gozo a máscara da solenidade e dinamitando, com recurso à ironia, toda a sorte de visões estabelecidas e lugares-comuns. Veja-se este poema que ridiculariza uma das mais gastas categorias românticas (a inspiração):

Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.

Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta

esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras

que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida

o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.

Não quer isto dizer que o sujeito poético não busque um sentido para as coisas e para os sonhos, um sentido pressentido («só que não está ao nosso alcance»), uma verdade aparentemente inatingível mas que até pode estar mais próxima do que imaginamos: «É na superfície / que o real, minúsculo plâncton, se trai». O poeta é então alguém que não se conforma com a inabalável «opacidade das coisas», procurando dar sentido a um impulso que «vem de dentro, e incomoda», uma «fala esquisita» e «aparentemente anárquica» em que as palavras estrebucham, «inúteis» como «cágados com as quatro patas viradas pro ar». Entre a realidade, essa «coisa delicada,/ de se pegar com as pontas dos dedos», e o «cais úmido e ínfimo» do eu, «mínimo/ império sem território» (como a ilha do Oriente onde se fala português), nasce a tensão que atravessa estes poemas, sempre à beira da banalidade (esse «acorde / gemido por um destoadíssimo realejo») e de uma assumida insuficiência, expressa em certos títulos (Dez sonetoides mancos; Três epifanias triviais, etc.) e também, infelizmente, na qualidade literária inferior de algumas sequências (as Três tercinas, por exemplo; ou os vários poemas em inglês).
Se o que permanece é «a alvenaria do mundo, o que pesa», Britto parece só acreditar nas coisas sólidas que sejam tocadas pela leveza do voo, ou pelo rasto dessa possibilidade, erguendo por isso uma poética instável, aérea, mais perto da «balística» do que da arquitectura. Como explica, de forma exemplar, neste poema:

É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura

e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda

na mão, igual a um fogo de artifício
que deu chabu. Não. Tem que ser na altura
de um morro, no mínimo, ou de um míssil

terra-a-ar. Sim. Menos arquitetura
que balística. É claro que é difícil.

Avaliação: 7/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Três poemas de Paulo Henriques Britto

Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.

***

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa –
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância).

***

ACALANTO

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

[in Macau, Ulisseia, 2010]

A síndrome de Zuckerman

Jonas, o Copromanta
Autora: Patrícia Melo
Editora: Campo das Letras
N.º de páginas: 165
ISBN: 978-989-625-359-2
Ano de publicação: 2009

O protagonista e narrador deste romance tem nome bíblico – Jonas – e um estranho dom: o de adivinhar o futuro pela perscrutação das próprias fezes. A baleia que o engoliu foi a literatura. Durante o dia, Jonas arquiva burocraticamente pastas na Biblioteca Nacional, a poucos metros de exemplares raríssimos, como a Bíblia de Mogúncia; nos tempos livres, reescreve ou projecta reescrever obras-primas de grandes escritores (Dostoievski, Nabokov, Edgar Allan Poe, Céline, Strindberg, Melville), oferecendo às respectivas personagens destinos melhores, ou mais justos. Quando não está a ler, ou debruçado sobre uma sanita (a desenhar «criptogramas» fecais que reproduzem os símbolos da escrita copta), entrega-se ainda a atribuladas aventuras sentimentais e sexuais com duas colegas diametralmente opostas: Eunice e Darlene.
Acontece que um dia Jonas descobre um conto de Rubem Fonseca (Copromancia, do livro Secreções, excreções e desatinos) e convence-se de que o escritor mineiro, um dos seus ídolos literários, o plagiou. Não o tradicional plágio em que alguém copia passagens ou ideias do texto de outrém, mas antes uma apropriação de experiências alheias supostamente únicas (a já referida adivinhação escatológica). Para Jonas, a história de Fonseca é um decalque da sua vida – «eu era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva» – e a semelhança parece-lhe intolerável, porque «agressiva, insultuosa, demoníaca».
Inicia-se então um processo de paranóia aguda, agravada pelo facto de o escritor aparecer em carne e osso na Biblioteca, onde pesquisa materiais para o romance seguinte (Mandrake, a Bíblia e a bengala). Perturbado, Jonas paga a informadores, instala câmaras de videovigilância no seu apartamento e aperta o cerco a Rubem Fonseca, tentando arrancar-lhe provas da mirabolante teoria da conspiração que o obceca. Quando a paciência se esgota, o autor de O Buraco na Parede sugere-lhe uma cura: ler Philip Roth. «É natural que leitores misturem a vida de seus escritores favoritos com a de seus personagens, disse. Se isso acontece com exagero, é patológico. É o que eu chamo de síndrome de Zuckerman.»
Enquanto permanece no território da intertextualidade, em registo paródico servido por um humor ácido e uma escrita ágil, o romance voa alto. Infelizmente, Patrícia Melo falha por completo o desfecho do livro, ao substituir a racionalidade de Fonseca pela charlatanice de Zoé, personagem feminina que surge do nada para se aproveitar da credulidade de Jonas e da sua ânsia de absoluto. Uma pena.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Sequestros e resgates

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Os Espiões
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-20-3922-2
Ano de publicação: 2009

O narrador de Os Espiões (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais e pelas cartas de recusa, ele afoga em álcool a sua insatisfação profissional e familiar, até ao dia em que começa a receber às prestações o manuscrito de uma certa Ariadne, candidata a escritora, cujo projecto literário consiste em revelar a sua história de amores proibidos e crimes de sangue numa cidade do interior (Frondosa), suicidando-se no fim.
Apesar dos erros ortográficos e da ausência de vírgulas, o texto deslumbra tanto o editor como os amigos com quem costuma discutir no bar do Espanhol. Acreditando na veracidade do relato, o grupo decide montar uma «Operação Teseu» que inverta o mito e salve Ariadne, presa ainda no labirinto (à mercê de um temível Minotauro de apelido italiano) ou já em Naxos, aguardando um Dionísio que a redima.
Exímio na caracterização das personagens, Verissimo oferece-nos uma galeria de tipos inesquecíveis, de que fazem parte o Professor Fortuna, especialista em sexo tântrico sem contacto físico e em tiradas definitivas sobre autores que não leu («A literatura terminou com Sófocles. Tudo que veio depois é post-scriptum.»); o «Uruguaio», milionário que ganhou a sua fortuna ao apostar contra o Brasil na célebre e traumática final da Copa do Mundo, em 1950, esbanjando o dinheiro, desde então, para expiar a culpa; e Afonso, director do jornal Folha de Frondosa, estalinista empedernido que procura, à falta de revoluções, criar uma «rosa de um vermelho inédito» – a que chamaria, claro está, Rosa Luxemburgo.
Nunca perdendo o fio da narrativa (muito bem arquitectada, com os vários elementos da intriga a encaixarem-se na perfeição), o escritor gaúcho conseguiu urdir uma história sólida mas leve, alucinante e divertidíssima, onde cabem De Chirico e Sylvia Plath, conspirações e plágios, sequestros e resgates, cemitérios e bordéis, exercicíos meta-ficcionais e crónica de costumes, literatura e futsal. Em duas palavras: uma delícia.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Já há campeão da Copa de Literatura Brasileira

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É o livro Flores Azuis (Companhia das Letras), de Carola Saavedra, que venceu na final Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara). O resultado foi de 9-4; isto é, nove recensões favoráveis a Saavedra e quatro que se inclinavam para Correia de Brito.
Conferir tudo no site da Copa.
A vencedora fala sobre Flores Azuis e lê excertos do livro neste vídeo:

Ao cuidado do Senhor Palomar:

«Abri um vinho, nos sentamos à mesa, contei a ela sobre meus projectos futuros, como o de reescrever Morte a crédito, de Céline. Expliquei-lhe que manteria a história intocada, personagens, enredo, não alteraria nada, exceto a pontuação.
Não entendo como um escritor como Céline, expliquei, pode usar reticências e pontos de exclamação de forma tão abusiva. Há páginas de Morte a crédito, continuei, que parecem a técnica didática preencha-as-lacunas, tamanha é a quantidade de reticências. Reticência é recurso de indeciso. E exclamação, de escritor deslumbrado. Céline não me parece nem uma coisa nem outra.»

[in Jonas, o copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]

Uma atitude heróica

«A certa altura, Eunice me contava seu projeto de, se um dia abrisse uma editora, lançar Em busca do tempo perdido em sessenta volumes.
Se a série fosse publicada em pequenos fascículos, digeríveis, talvez as pessoas lessem Proust. O problema do Proust é o tamanho. São sete livros. Quem lê tijolo, hoje em dia? Ninguém tem mais tempo para ler Guerra e Paz. Livro tem que ser fininho, tem que caber na bolsa, ela dizia.
Falei que sua idéia seria um fracasso, ao menos financeiramente. A questão não é compactar, falei, porque isso sempre se fez com versões reduzidas, facilitadas, dicionários literários de Shakespeare, Dante, Joyce, todos os grandes. Atualmente existem até mesmo versões para criança, em quadrinhos. Nem por isso se leu mais ou se adquiriu mais conhecimento dos clássicos. O ideal seria publicar os sete volumes do Proust num único, de cinco mil páginas. O mercado editorial hoje em dia, continuei, ao contrário do que você diz, é exatamente para tijolos, especialmente porque o leitor é preguiçoso. Se você compra um livro de cem páginas e não o lê, sente que está jogando dinheiro fora e isso é frustrante. Quem quer se frustrar? Mas se compra um Thomas Pynchon, bem, isso é diferente, é um projecto de vida, é como comprar uma casa, uma apólice, não interessa se você vai lê-lo ou não, só o fato de comprar já é uma atitude heróica, porque é heróico ler Thomas Pynchon, é heróico ler Don DeLillo, é heróico ler todos esses americanos de mil páginas. É excitante pensar que vamos ser heróis quando tivermos tempo, no fim do ano, nas próximas férias, depois da aposentadoria. Adiamos o malogro indefinidamente.»

[in Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]

Seres linguísticos e heróis mudos

«Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas? Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres radicalmente lingüísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à linguagem. Cada árvore seria assim o logaritmo da sua posição na floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no dorso de um mamífero, na luz fosforescente de um inseto que já morreu, na textura dos troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode de uma morsa – e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer parecia parte desta página, reescrita a cada momento; todas as mortes, os pios, cada gota, cada sal.
A única restrição deste texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível. Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande cataclisma – um terremoto, um meteoro ou um incêndio – tenha transformado a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz), e substituir com ela o que tinham perdido. Procuraram então marcar, para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.
Fico imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as próprias cinzas, a terra deserta, o maucheiro de tantos bichos mortos, expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as próprias hienas em sujeito e predicado do seu mundo moribundo. Se tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços. Então seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte, mas trariam a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.»

[in Ó, de Nuno Ramos, Iluminuras, São Paulo, 2008]

Nelson de Matos publica novo romance de João Ubaldo Ribeiro

CAPA - OAlbatroz Azul

Depois de ter reeditado Viva o Povo Brasileiro, A Casa dos Budas Ditosos e Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, Nelson de Matos vai publicar, em simultâneo com a edição original, o novo romance do Prémio Camões 2008. Título: O Albatroz Azul (248 páginas, 16 euros). Para Nelson de Matos, esta é «uma obra de génio» e «a verdadeira surpresa deste final de ano».
Chega às livrarias a 10 de Outubro.

Ruffato em Lisboa

Depois de ter escrito um belíssimo romance sobre São Paulo (Eles eram muitos cavalos), Luiz Ruffato acaba de publicar um livro sobre Lisboa (Estive em Lisboa e lembrei de você), incluído na colecção «Amores Expressos», da Companhia dos Livros. Espero que o Ruffato lisboeta seja pelo menos tão bom como o Rufatto paulista, e acreditem que isto já é esperar muito.

[via blogue da Ler]

Três poemas de Mariana Ianelli

Contornada a margem fina
Do esquecimento,
Uma nova capital aparecerá
Sobre a antiga,
Novas mulheres que não tenham conhecido
A barbárie que escandaliza e mata um filho,
Ou o desespero do auto-sacrifício.
“Qualquer saudade vivida pelo corpo
Possui as etapas da sua própria superação”
– Aprendemos isso.
O que de nós foi roubado
Mas antes resplandecia,
O que foi interrompido em mim,
Instinto de luta,
Retornará mais ardente, mais firme
Para as mãos de quem eu nunca vi,
Alguém sentenciado a cumprir
As mesmas lamentações
Que no passado eram minhas,
Os mesmos versos noturnos
Que abalaram a minha inteligência
E me arrastaram contigo para o fim.

***

O inferno esteja contigo
No dia em que teu pai morrer
Sob o aplauso de gente bastarda como tu;
Que a impiedade do tempo te faça mais cansado
Do que um camelo magro ao qual se cortam as patas.
As meninas que tu desencantaste no auge da ternura
Vão batizar tua cabeça animalesca (já separada do corpo)
Na intenção de que venhas a nascer um homem, e não uma farsa,
Em qualquer outra era distante e num país de outras raças.
Que a providência se feche à tua passagem
E cada mínimo fato da rotina trabalhe para a tua solidão.
Não suportarás a vida aferrolhando tua garganta.
Quem não te conheceu e nem mesmo soube do teu fim
Perceberá o sopro do vento quando a terra te engolir.

***

Para além do muro de pedra
Os espinhos foram tolhidos,
A cor púrpura assumiu as veredas
Do antigo solo de urtigas.
Na sétima vez em que o corpo se ergueu,
A grande planície do horizonte exibiu sua serventia.

[in Passagens, Iluminuras, São Paulo, 2003]

Um poema de Paulo Henriques Britto e outro de Ronald Polito

Paulo Henriques Britto:


Man in a Chair, de Lucien Freud (1983-85)

MAN IN A CHAIR

Esperar sentado, mas sem
relaxar os músculos. Mãos
tensas nas coxas como quem
prestes a se levantar. Não

como quem, à espera, descansa.
E sim como se encurralado
na cadeira. Sem esperanças
nem expectativas. Sentado

na cadeira como quem não
espera exactamente nada.
Sem certezas, com exceção
da única, e indesejada.

Ronald Polito:


Two Figures, de Francis Bacon (1953)

ENTRE DOIS HOMENS

Para a boca, os dentes, o arco do
torso e do meio das
coxas, e de novo os dentes,
gemido ou riso, e ódio.

Poder dizer ou morder, arfando,
luz de tule entre dois
peitos, escorrendo, pés de prata
no leito, a tratar, celebrar, contra o
borrão de fora, adentro, e revirar
um corpo, cruzado num
salto, jorro, abraço de
pluma, chumbo.

Matar, amar, testemunhos,
liquefação, em cada milímetro
de domínio, cada roçar em desatino,
vendas de névoas,
membro a membro.

Iguais, no arrepio, risco.
Desfigurado, aqui, o que passou
e virá.

[in revista Relâmpago, n.º 23, Outubro de 2008]

Entre uma escarpa e uma escultura

Telefunken
Autor: Luis Maffei
Editora: Deriva
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-972-9250-55-2
Ano de publicação: 2009

No primeiro poema deste livro, intitulado Fio, Luis Maffei estabelece de imediato uma espécie de circunferência, um limite para o alcance da sua escrita: «Só quero te deixar um breve fio, uma notícia, vaga/ luz que de fulgor tem pouca/ coisa». Eis uma poesia que abdica da transcendência e de altos voos, uma poesia rente ao chão e às coisas terrenas, atraída pelo «belo gesto do malogro» e capaz de intrometer-se no «cirúrgico intervalo entre uma escarpa e uma escultura». Ou seja, algures entre a beleza selvagem, em estado bruto (escarpa), e o gesto que lhe atribui um valor estético (escultura).
Além de breve, o «fio» que une os versos de Maffei é também frágil. Cada poema parece sempre à beira de se desfazer, vítima de um aceleradíssimo staccato e de uma sintaxe irregular, como que partida e colada de novo com fita-cola. O efeito é de vertigem verbal, queda a pique, salto no escuro. O poeta fala do tempo («cruel, frenético e exigente»), dessa contabilidade dos anos que «não fecha/ nunca», de futebol, das suas gatas, das cidades e dos corpos, do «metrô» e do Maracanã, como que em fuga, impossível fuga, para um lugar exterior à literatura: «Estamos, amigo, fora/ dos livros,/ num cálido corpo que eu cria não/ ser de palavras».
Estudioso e divulgador da poesia portuguesa, Maffei dialoga subtilmente com a nossa tradição poética, de Camões a Pessoa, de Gastão Cruz a Rui Pires Cabral. É um trabalho de filigrana, feito de paráfrases e desconstruções, bela homenagem de quem, diante de Sophia, se considera «andreseniano em mão segunda» e, dirigindo-se a Bocage, consegue escrever um soneto digno do vate de Setúbal.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A mais alta constelação

Pequena Enciclopédia da Noite
Autor: Carlos Nejar
Editora: Quasi
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-989-552-392-4
Ano de publicação: 2009

Ocupante da cadeira n.º 4 da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar (n. 1939) é um dos maiores autores vivos da língua portuguesa. Há quem lhe chame «o poeta do pampa brasileiro» (o que se compreende por ter nascido e vivido no estado do Rio Grande do Sul, em cujas regiões interiores trabalhou como promotor de justiça) e há quem lhe chame, usando um epíteto de Jacinto do Prado Coelho, «o poeta da condição humana». Na verdade, ele tem sido as duas coisas, o observador incansável da paisagem agreste a que se sente preso («nenhuma morte é maior / que a terra dentro de nós») e o narrador da «história humana / que fica pelos sótãos, porões; jamais / oficializada nos compêndios».
Neste livro que reúne meia centena dos seus «melhores poemas», de Livro de Silbion (1963) a Sonetos do Paiol ao sul da Aurora (1997), Nejar oferece ao leitor uma viagem-relâmpago ao fulcro da sua obra, por muito que a «apertadíssima escolha» provoque no poeta português António Osório, autor da nota introdutória, uma não escondida perplexidade: «Mas como ousou Carlos Nejar, senhor de uma obra imensa [perto de 30 títulos], reduzi-la a… 50 poemas? E os “melhores”, porquê os melhores? Os outros, as inúmeras centenas, não contam? Serão eles menores?» Certamente que não, mas se há prerrogativa que os grandes poetas se outorgam é a de moldarem a seu bel-prazer a forma como o trabalho anterior pode, ou deve, ser entendido (basta pensar, entre nós, no caso paradigmático de Herberto Helder).
A selecção revela-se aliás bastante criteriosa, ao acolher os vários modos e cambiantes da escrita poética de Nejar. Encontramos exemplos do seu pendor aforístico («Amar é a mais alta constelação»; «os livros sobrevivem à poeira / e às traças da ignorância civil»); sonetos de impecável recorte; o uso certeiro das aliterações e da repetição obsessiva de uma mesma palavra (seja «pedra» ou «maçã»); a vénia respeitosa a outros poetas (Emily Dickinson, Dante, Camões); um domínio exemplar da prosódia; e um regresso recorrente aos grandes tópicos, como a morte, a esperança e o amor – esse «calafrio da inteligência» que dá sentido ao mundo e aproxima o homem da noção de eternidade:

Os anos, Elza, não consertam mágoas,
mas as mágoas não correm, se corremos.
Não encanece a luz, onde são remos

da limpa madrugada, os nossos corpos.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

A história do Brasil

Leite Derramado
Autor: Chico Buarque
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-20-3838-6
Ano de publicação: 2009

Eulálio Montenegro d’Assumpção está deitado na enfermaria de um «hospital infecto». O seu corpo frágil testemunha uma existência centenária que «se alongou além do suportável, como linha que se esgarça». Pobre e solitário, a única coisa que lhe sobra é a memória, mas esta tornou-se uma «vasta ferida», um «pandemônio», uma porta aberta por onde entra o passado, sem qualquer ordem cronológica, multiplicando-se em ínfimos detalhes («recordo cada fio de barba do meu avô, que só conheci de um retrato a óleo»), enquanto o presente se estreita, baralha e desfaz.
Mesmo na miséria, Eulálio mantém o aprumo e os tiques de superioridade social, aprendidos numa família em que se falava francês até para pedir o saleiro. À sua volta, só vê «gente desqualificada». O som do televisor está sempre alto demais e as baratas trepam pela parede. Entre a dor e a morfina, entre a vigília e os sonhos a preto-e-branco, ele tenta narrar a sua vida, fixá-la, transmiti-la nunca se sabe bem a quem (porque tanto se dirige às enfermeiras como à filha, tanto barafusta com os médicos como interpela a mãe morta há muitas décadas).
O romance é uma sucessão de monólogos fragmentários e contraditórios, nos quais certas histórias reaparecem insistentemente, mas sempre contadas de outra maneira, a partir de outro ângulo, com outra vibração. A verdade, se existe, é instável. Tudo pode ter sido assim – ou ao contrário. Na cabeça «meio embolada» de Eulálio, os tempos misturam-se, cruzam-se, coalescem. E os espaços também. Já não há palacete em Botafogo, chalé em Copacabana, apartamento na Tijuca, nem fazenda na «raiz da serra» (invadida pela favela), mas no «palavrório» do moribundo eles recuperam o antigo esplendor.
O protagonista de Leite Derramado é a charneira de uma longa linhagem de Eulálios, tradicionalmente próximos das elites e do poder. O tetravô português lutou contra as tropas de Napoleão; o trisavô desembarcou no Rio com a corte de D. João VI; o bisavô foi um barão negreiro; o avô um abolicionista que queria lucrar com o regresso dos escravos a África; e o pai um senador da Primeira República, pródigo nos negócios e nos vícios. A tibieza do narrador marca de certa forma o começo do declínio: depois dele, a filha casa-se com um imigrante italiano de segunda geração; o neto torna-se maoísta (morrendo nas prisões da Ditadura); e o tetraneto trafica drogas, fechando o ciclo da decadência dos Assumpção.
Quer pelo arco temporal abrangido, quer pelo imenso leque de personagens, pode dizer-se que Chico Buarque escreveu uma saga familiar – só que uma saga familiar de câmara: breve, compacta, reduzida ao essencial. Uma das principais virtudes de Leite Derramado é precisamente esse milagre de condensação e leveza, para o qual contribui uma escrita depuradíssima. Outro ponto forte é a articulação feliz entre as experiências individuais e as colectivas. Na história dos Eulálios são sempre legíveis – à transparência – alguns dos momentos capitais dos últimos 200 anos de História do Brasil.
O fulcro do livro, porém, está em Matilde, primeira mulher e único verdadeiro amor do protagonista. É essa figura feminina intangível (capaz de entrar no oceano «como se pulasse corda») que ilumina a solidão de Eulálio. Um dia, desaparece de casa, deixando para trás marido, filha bebé e um mistério (a razão da sua fuga) que reverbera em todas as páginas, como premonitório sinal do caos futuro.
No exercício narrativo quase perfeito que é Budapeste, de 2003, Chico Buarque parecia ter atingido o cume das suas capacidades literárias, mas neste Leite Derramado sobe ainda mais alto e assina um dos melhores romances em língua portuguesa da primeira década do século XXI.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um poema de Luis Maffei

MARACANÃ, 11,04,2007

Se há,
Fernando,
uma metafísica do pênalti
ignoro.
Sei apenas que a vida é adepta de imitar
em noites assim
este jogo que é perfeito mas por
hediondo gesto: vida, morte,
vida e
a metafísica do pênalti.
E um histérico vazio à roda nossa, a velha
premissa de que tudo está errado salvo
nós, salvo este empuxe teu a me
arrancar do chão na hora do segundo gol
da gente,
salvo isso tudo que nos livra de um país tão
triste quanto um Maracanã de quarta à
noite que não sabe o que é noite ou
equinócio, tampouco a dimensão do
desbarato e somos nós
Fernando
cada vez mais sós.

Mas pouco importe. Este jogo
de novo
(e desta vez com teus braços de outras cores a
tomar em afeição meu Almirante
ou
a mim próprio)
nos fala como somos, súcubos do
pênalti e de sua metafísica, donos do direito de
abraçar a vida, a morte, a morte e
aquilo a que eu, por gana,
sei que posso dar o nome de amizade.

[in Telefunken, Deriva, 2009]

Um rasto só de beleza

Cinemateca
Autor: Eucanaã Ferraz
Editora: Quasi
N.º de páginas: 100
ISBN: 978-989-552-276-7
Ano de publicação: 2009

Depois de Desassombro (2001) e Rua do Mundo (2006), este é o terceiro livro publicado em Portugal, sempre nas Quasi, por Eucanaã Ferraz, um dos mais sólidos e originais poetas brasileiros da actualidade. A sua escrita, assente numa admirável precisão rítmica e numa procura dos limites formais de cada poema, entende a linguagem como um campo de experimentações que nunca se desliga do real, enquanto contingência e destino do discurso poético.
O programa de Cinemateca, composto por 50 poemas-filmes autónomos, talvez se possa resumir nestes versos: «Abra-se tudo / em grande-angular». De facto, a lente através da qual Eucanaã observa a realidade é a mais abrangente, a que mais consegue expandir o campo visual. As imagens, porém, nunca são fixas, estão sempre em movimento, através de complexas derivas semânticas e da acumulação de elementos da memória própria ou alheia (a euforia infantil, a melancolia dos adultos), uma rede de histórias que se transfiguram e não chegam a dizer tudo, perdidas algures na busca de um «rasto só de beleza».
Ao longo das três partes em que o livro se divide – «1.ª luz», «2.ª luz» e «3.ª luz» –, desenha-se um percurso que vai das atmosferas matinais, cheias de claridade e leveza, ao negrume mais fundo das crónicas nocturnas de amor e desencontro. Pelo meio, Eucanaã evoca de várias formas o esplendor da natureza (com os animais, plantas, cores, arquitecturas) e estabelece diálogos subtis com outros poetas, alguns deles portugueses (Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena).
«O poema ensina a cair», escreveu Luiza Neto Jorge. Eucanaã vai no sentido inverso, como explica numa arte poética a que chamou «sumário»:

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.

Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

Uma deriva felliniana

O Dia Mastroianni
Autor: João Paulo Cuenca
Editora: Caminho
N.º de páginas: 163
ISBN: 978-972-21-2024-1
Ano de publicação: 2009

João Paulo Cuenca, carioca nascido em 1978, apareceu como um relâmpago na cena literária brasileira em 2003. O seu romance de estreia, Corpo Presente, era uma história fragmentada de obsessão amorosa e sexual por uma mulher – Carmen – que é muitas mulheres (ou talvez um arquétipo que se projecta, fugidio, em todas as mulheres), no cenário de uma Copacabana suja, violenta, visceral, a anos-luz do brilho falso dos prospectos turísticos. A recepção crítica foi apoteótica (houve elogios, entre outros, de Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Chico Buarque), o que talvez tenha contribuído para um silêncio de quatro anos. Já se sabe: o pior que pode acontecer a um segundo romance é frustrar as promessas do primeiro.
Se esse peso pairou sobre O Dia Mastroianni, não se nota. Embora Cuenca tenha mudado radicalmente de atmosfera e de tom (ficou tudo mais leve), o fulgor meio desembestado da sua escrita permanece, bem como o gozo de contar uma história aos solavancos, assumidamente fora de qualquer cartilha do bom narrador. Em vez da toponímia precisa do Rio de Janeiro, existe agora uma cidade imaginária por onde deambulam dois anti-heróis: Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, uma espécie de Bouvard e Pécuchet pós-modernos, que, em vez de quererem compreender tudo, procuram à partida não saber nada. O resultado final é quase o mesmo: o esvaziamento diante da complexidade do mundo. Mas onde Flaubert esboça, apesar de tudo, uma «enciclopédia da estupidez humana», as personagens de Cuenca limitam-se a tirar notas sobre os gloriosos malefícios do tédio, aqui e ali elevado a uma forma de arte.
Na sua deriva felliniana por bares, restaurantes e festas para as quais não foram convidados, Cassavas e Anselmo seguem à risca, em 24 horas de folia alucinada, a definição inicial de Dia Mastroianni: «o dia gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística». Entre cada uma dessas divertidas «excursões» dos dois amigos, há interlúdios meta-literários em que uma entidade superior comenta e critica a evolução da narrativa. É este o lado mais frágil do livro, porque o arremedo de peça teatral é parco em ironia (a pouca que subsiste, em vez de afiadíssima, sai romba) e porque o desfecho desilude, dando a ideia de que aquela presença divina, que só fala em maiúsculas, nasceu apenas de um capricho algo juvenil do autor.
Em suma, O Dia Mastroianni não é ainda o grande romance que o talento de Cuenca promete e reclama. Mas quem consegue fazer um livro assim, absolutamente livre e capaz de todos os riscos, pode estar certo de que voos mais altos o aguardam.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

O exército infantil

«A artilharia iniciou o ataque com uma barragem de tiros sobre as trincheiras; as bombardas caíam como gotas de fogo levantando línguas de poeira e fumaça, numa constância cadenciada de artilheiros experientes. Não houve reação do outro lado; poucos tiros de fuzis eram disparados pela tropa paraguaia, que parecia afundar-se cada vez mais na proteção das trincheiras, uma proteção pouco mais do que simbólica, pois os artilheiros estavam colocando suas bombas exatamente sobre elas e de vez em quando se viam corpos mutilados sendo lançados para o alto, em meio à fumaça e à terra arrancada. Após algum tempo a cavalaria avançou, fechando pelo flancos, galopando entre os arbustos das encostas que circundavam as linhas de trincheiras, e sumiu no mato seco, atacando com espadas e lanças. Então a infantaria recebeu ordens de avançar também, em cargas sucessivas, como ondas, contra as trincheiras; quase não houve resistência. Os clarins tocavam ordens, sempre de ataque, e facilmente as linhas do exército aliado penetraram no campo paraguaio, matando, atirando com seus fuzis, destroçando um exército paraguaio, pela primeira vez naquela guerra, sem garra, sem a agilidade dos saltos e do manejo das lanças, sem o vigor costumeiro e acostumado. Nunca os soldados brasileiros haviam visto aquilo: matavam com enorme facilidade; os paraguaios pareciam petrificados diante do avanço de homens calejados por tantos anos de combates, desejosos de acabar logo com aquela guerra para retornar à pátria; uma batalha com mais ódio, porque era uma batalha inútil. As linhas penetravam cada vez mais fundo no campo, destroçando, entre a poeira e a fumaça dos canhões, um exército quase inerme, que se agachava nas trincheiras como esperando a morte.

Aos poucos, os próprios soldados aliados, surpresos por tanta indiferença, começaram a perceber que estavam matando crianças; eram crianças com seus olhos espantados, vestidas de soldados, enfiadas nas trincheiras com fuzis enormes, que nem sequer poderiam levantar; crianças vestidas de soldados, agarradas às saias de suas mães, que as tentavam proteger com o próprio corpo, enquanto eram abatidas com suas crias pelas balas dos fuzis, certeiras. Os soldados foram reparando que ali não havia guerreiros, mas uma farsa conduzida por uns poucos velhos e muitas mulheres corajosas, que se atiravam, com lanças mal manejadas, sobre os veteranos, que saltavam pelas trincheiras como macacos treinados, matando, estripando. E começou então a fuga, no meio das macegas secas; crianças e mulheres correndo, despertados pela fúria dos soldados, que continuam matando com suas espadas e seus facões; já nem era preciso atirar mais, os pequenos vultos fugindo às centenas colina acima. Foi então que encontraram a cavalaria que descia a galope, atropelando, numa carga feroz; as espadas cortando o mato, cortando cabeças, decepando braços, espalhando sangue pelas folhas ressequidas e galhos empoeirados do mato rasteiro, que mal escondia o colorido vivo dos uniformes paraguaios.
Foi então que alguém teve uma idéia: o toque de recuar; e o soldados pararam, saíram do mato.
Foi aí que alguém teve outra idéia e passou a colocar fogo nos galhos ressequidos pelo sol e pelo inverno e o vento soprou em direcção ao Leste, para onde fugiam os meninos e suas mães, os que restavam vivos, e o fogo correu com pés mais rápidos do que os deles, alcançou-os e queimou-os como vinha queimando galhos e troncos, e o campo de batalha transformou-se na mais terrível das minhas visões. Eu vi meninos em chamas, entre a galharia; pequenas tochas coloridas, rodopiando até cair e tornar-se uma fogueira que ajudava a espalhar o fogo para outras árvores, que acendiam outras pequenas tochas, e havia um cheiro jamais sentido nas guerras, um cheiro de carne queimando, como os churrasco de campanha onde assamos o boi com seu couro.
Não sei quanto tempo durou esse horror, mas aos poucos, atônitos, os soldados pararam e apenas permaneceram olhando o fogo consumir os restos daquele exército de meninos e mulheres. Eu vi homens chorando; eu vi o espanto, o horror nos olhos de tantos veteranos, encarquilhados pelas lutas nos esteros, nos campos, nas margens dos rios; aqueles homens que haviam aprendido a respeitar um inimigo cuja coragem era o grande desafio; o inimigo que morria definitivamente pelos corpos em chamas de suas crianças; eu vi o desespero de velhos soldados, os fuzis inúteis nas mãos, as lanças esquecidas, a vergonha, a vergonha.»

[in O Rastro do Jaguar, de Murilo Carvalho, págs. 509-512, LeYa, 2009]

A invenção do Brasil

«Uma obra de fôlego, que refigura uma vasta erudição, combina narrativa histórica e arte poética, elaboração wagneriana e aura profética.» Foi assim que o júri da primeira edição do Prémio LeYa, presidido por Manuel Alegre, justificou em Outubro a atribuição dos 100 mil euros – valor só igualado, no mundo lusófono, pelo Prémio Camões (que distingue toda uma obra e não apenas um livro) – ao jornalista brasileiro Murilo Carvalho, autor de O Rastro do Jaguar, considerado o melhor dos 448 romances concorrentes.
No dia do anúncio, feito durante a Feira de Frankfurt, Murilo Carvalho, 60 anos, encontrava-se no coração da Amazónia a filmar um documentário. «Foi uma surpresa enorme», confessa. «Eu só consegui falar ao telefone por estar perto de um quartel do exército, mas havia pouca rede e levei algum tempo a perceber o que me diziam.»
O Rastro do Jaguar é o seu primeiro romance e o regresso à literatura (na juventude publicou dois volumes de contos, ambos premiados), após um longo período dedicado à realização de programas televisivos, ao trabalho como guionista de cinema e à escrita de livros de reportagem («sobre as lutas entre índios e poceiros, conflitos pela posse da terra, esse tipo de temas»).
Fruto de quatro anos de pesquisa intensiva, o livro estava numa espécie de impasse, muito por culpa da sua extensão: «Uma das editoras que contactei respondeu-me que preferia não publicar um romance tão grande; era mais seguro apostar em três livros de 200 páginas do que num só com quase 600.» Por isso, ao ver o anúncio do Prémio LeYa no jornal, nem hesitou.
A ideia para o romance nasceu da leitura das obras do naturalista francês Auguste de Saint’Hilaire, que viajou pelo Brasil no início do século XIX e deixou minuciosas descrições da flora tropical. Num dos livros, Saint’Hilaire revelava a intenção de levar consigo para a Europa um índio aimoré adulto, bem como um índio guarani ainda criança, destinado a um general de Napoleão. «Ele trouxe os índios até ao Rio de Janeiro, mas o governo brasileiro não autorizou o embarque. Ninguém sabe o que aconteceu a esses dois. Então, eu decidi imaginar que eles chegavam mesmo a França. Ou seja, pus-me a ficcionar as suas vidas, mantendo os nomes verdadeiros: Firmiano (o aimoré) e Pierre (o guarani).»
Um dos objectivos de Murilo foi justamente explorar as questões identitárias dos povos indígenas, massacrados por uma política colonial que os conduziu ao extermínio, ou quase. «Quis sobretudo prestar homenagem à cultura guarani, à sua cosmogonia assente no poder da palavra, à sua religiosidade complexa e aos seus mitos, como o da procura da Terra Sem Males.»
Além das pequenas guerras de resistência dos indígenas, há outro conflito militar que ocupa um lugar central na estrutura do livro: a guerra do Paraguai. «Infelizmente, a história da América do Sul, contada em ficção, quase não existe. E eu pretendi lembrar esse momento dramático que moldou os países do extremo sul do continente: o Uruguai; a Argentina, ainda em formação como país; o Brasil, à beira do fim do império; e o Paraguai, que viu a sua população masculina dizimada (e ainda não se recompôs, século e meio depois). Estas nações formam hoje o Mercosul. Constituímos uma comunidade internacional. Temos um passaporte comum. E nascemos todos daquela guerra. Uma guerra que eu tentei descrever, para a entender melhor.»
O rigor histórico transformou-se numa obsessão para Murilo Carvalho, enquanto preparava o romance. Por isso visitou, um a um, todos os lugares referidos. «Cada casa, cada rua, cada descrição geográfica é absolutamente real. Andei por aqueles sítios, filmei muito, li tudo o que encontrei sobre os vários temas, desde relatórios militares a descrições das batalhas, passando por textos de filósofos e versos de poetas sobre a condição indígena.» Nos pântanos do Paraguai, encontrou ainda rastos da destruição e até balas, marcas do horror que o ajudaram na hora de escrever.
Para Murilo Carvalho, este romance impôs-se pela «necessidade de reflectir sobre a História do meu país», algo que os documentários não lhe davam, «porque só permitem mostrar a realidade como ela é», em bruto, sem o lastro de um pensamento mais elaborado. «Em minha opinião, a literatura deve abarcar os muitos aspectos de uma época, focando tanto os movimentos individuais como os colectivos. Eu não gosto dos romances demasiado intimistas, que ficam navegando apenas pelo interior das personagens.» Precisamente o tipo de ficção que domina, segundo Murilo, o panorama «muito pobre» da literatura brasileira contemporânea. «Os jovens autores estão todos voltados para si mesmos. É a literatura dos gabinetes de S. Paulo, da violência urbana. E o resto do país como que desaparece.»
Talvez por isso, embora aprecie alguns escritores mais recentes (como Luiz Ruffato, Cristovão Tezza ou Caio Fernando Abreu), as referências maiores estão lá para trás: «Há o Guimarães Rosa, claro. Eu gasto os livros dele, de tanto ler. E depois alguns nomes menos conhecidos fora do Brasil, como Autran Dourado ou Adonias Filho, autor de Memórias de Lázaro, um livro maravilhoso.» Não que o seu estilo se assemelhe ao destes escritores: «Eu escrevo de forma muito clara, muito cinematográfica. E se há alguma herança é mais dos delírios de Joseph Conrad e Richard Wagner.» A música de Wagner, explicitamente evocada no livro, foi mesmo essencial no processo de criação. «Passei o tempo todo a ouvir o Tannhäuser, com as partituras na mão, procurando compreender tanto as ideias musicais como a busca dos mitos.»
Com a folga financeira permitida pelo prémio, o objectivo é agora dedicar-se mais à literatura, mas sem abdicar do trabalho que vem fazendo. No horizonte, há vários projectos de documentários, um deles sobre a exploração sexual de crianças nas estradas brasileiras. E o próximo romance, Memórias de Isabel, já está escrito. «É sobre o período da ditadura, reflectindo um pouco da minha experiência na época. Passa-se durante uma semana, uma parte na Bahia, outra parte em S. Paulo, em torno da construção de uma grande barragem no sertão e do assassinato de Vladimir Herzog, um grande amigo e jornalista. Foi com o impacto da sua morte que a ditadura começou a cair.»
O Prémio LeYa será oficialmente entregue a Murilo Carvalho no dia 6 de Abril, no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Já esta semana, foi aberto o concurso para a segunda edição do prémio, cujo regulamento pode ser consultado aqui. O prazo para a entrega de originais termina a 15 de Junho.

[Texto publicado no suplemento Actual do semanário Expresso]

A voz de Chico

Desta vez não canta. Desta vez lê em voz alta excertos do seu próximo romance: Leite Derramado (Companhia das Letras).

Chico Buarque tem novo romance quase a sair

Seis anos após Budapeste (2003), Chico Buarque regressa à literatura com Leite Derramado, a publicar ainda em Março, no Brasil, pela Companhia das Letras.

‘Filho da mãe’, de Bernardo Carvalho (booktrailer)

O novo romance de Bernardo Carvalho será lançado esta semana no Brasil, com chancela da Companhia das Letras. Neste booktrailer, o escritor fala sobre a obra, fruto de uma estadia em São Petersburgo (ao abrigo do projecto Amores Expressos), e lê alguns trechos. Uma pré-publicação de Filho da Mãe pode ser lida na edição online da revista Piauí.

[via Ciberescritas]

Um nome bom de se pronunciar

«Na mochila, Celina levava seu diário e o diário de Bashô. Um pouco de dinheiro para as passagens e para a comida. Foi de ônibus até sua estação habitual, Katsura. Dali era preciso pegar o trem até a estação Arashiyama. E caminhar a pé até seu destino final.
Era curioso passar tantos dias sem falar praticamente nada. Sem trocar palavras com o resto do mundo, além de fugazes pedidos em balcões, de cumprimentos desajeitados e breves, de agradecimentos lacônicos. Sua voz parecia um casulo de borboletas dentro da garganta, operando alguma espécie de transformação interna. Sua voz parecia se equilibrar com fragilidade sobre aquela categoria delicada – o mínimo indispensável.
O mínimo indispensável. O latido suave de um coração feito de palavras estranhas, estrangeiras, difíceis de decorar.
E aquele nome, que também estava no campo semântico do coração: Rakushisha. Um nome morno e um tanto rascante.
Rakushisha. Um nome bom de se pronunciar.
Rakushisha. Dava para sentir os grãos das consoantes na língua.»

[in Rakushisha, de Adriana Lisboa, Quetzal, 2009]

A vantagem das Obras Completas

Ao reunir a sua obra num só volume (toda a poesia e todo o teatro), o poeta brasileiro Ferreira Gullar descobriu um número significativo de erros nos seus livros, erros perpetuados em sucessivas reimpressões e só agora corrigidos. A nova e esmerada edição, organizada pelo crítico Antonio Carlos Secchin, tem 1264 páginas e chancela da Nova Aguilar, uma espécie de Pléiade dos trópicos, que desde 1958 vem fixando as obras dos grandes clássicos brasileiros, em volumes de capa dura e papel-bíblia.
Segundo Sebastião Lacerda, responsável máximo da editora, «Gullar e Secchin conseguiram acertar até erros na construção de versos». E eu, enquanto folheio a espessa antologia publicada em Portugal pelas Quasi, em 2003, pergunto-me quantas dessas antigas incongruências e incorrecções estarão por aqui à espera de deturpar a minha leitura dos poemas.

Um poema de Carlito Azevedo

LIMIAR

A via-láctea se despenteia.
Os corpos se gastam contra a luz.
Sem artifícios, a pedra
acende sua mancha sobre a praia.
Do lixo da esquina partiu
o último vôo da varejeira
contra um século convulsivo.

[in Sob a Noite Física, Cotovia, 2001]

Reflexos num espelho deformado

O Filho Eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-989-616-289-4
Ano de publicação: 2008

Quando se decidiu a escrever, ao fim de vinte e tal anos, sobre o seu filho Felipe, Cristovão Tezza sabia perfeitamente que estava a entrar num terreno minado. Felipe nasceu com síndrome de Down e qualquer aproximação literária ao tema, por muito vigiada que seja, está sempre em risco de cair no abismo da pieguice afectivamente correcta. Pela própria natureza da história que conta, O Filho Eterno aproxima-se vezes sem conta do precipício, chega a olhar lá para baixo, mas nunca resvala. Só isto já seria suficiente para o considerar um romance acima da média, num tempo em que os romances acima da média são cada vez mais raros.
Inteligentemente, Tezza optou por escrever o seu livro na terceira pessoa, escondendo-se num narrador que lhe permite uma visão exterior, um olhar-se de perto, mas a partir de fora. Os factos da sua vida surgem assim com uma clareza que o uso da primeira pessoa, demasiado próxima da esfera emocional, talvez não alcançasse. Dito de outro modo: o protagonista, embora partilhe o percurso biográfico de Tezza e as angústias com o filho «diferente», não deixa de ser uma personagem de ficção. E este distanciamento é talvez o principal antídoto contra a autocomplacência.
O livro começa no dia do nascimento de Felipe. Enquanto espera nos corredores da maternidade, o quase pai faz um severo exame do seu lugar no mundo. Aos 28 anos, ele sente que «ainda não começou a viver». Com o curso de Letras a meio, sem profissão definida, sustentado pela mulher, as suas aspirações literárias esbarram na indiferença das editoras. Embora se sinta «predestinado à literatura», duvida das suas capacidades e sofre com isso. No fundo, ele é «delicado demais» (ou «ignorante demais») para a «realidade simples» do quotidiano e tem pânico de ser integrado pelo «sistema». Por isso, bebe muito, racionaliza tudo e encena o seu próprio teatro mental.
Para quem está aprisionado por este «leque de ansiedades felizes», no Brasil de 1980, a viver os «últimos minutos da ditadura», o nascimento do filho poderia funcionar como libertação. Só que o diagnóstico cai logo depois, brutal: Felipe tem trissomia do cromossoma 21. Isto é, síndrome de Down. Ou, como se dizia na época, «mongolismo». O problema do filho altera então o eixo das coisas e Tezza disseca, sem uma réstia de moralismo, as consequências do abalo. Acompanhamos o desespero inicial, as esperanças num falso diagnóstico, a vergonha, as frustrações, o desejo de que o filho morra cedo, a repulsa diante da comiseração alheia. É um processo doloroso e inconfessável, que se passa na cabeça do pai durante o calvário das consultas com especialistas e dos esquemas de estimulação precoce – formas de luta contra a «névoa neurológica», quase sempre violentíssimos, a raiar a tortura.
«Um filho é como um espelho no qual o pai se vê», diz Kierkegaaard numa das epígrafes. Mas se o espelho não é liso, a imagem que nele se projecta fica deformada. Ao olhar para Filipe, o pai vê o seu próprio falhanço: «O problema não é o filho; o problema é ele.» A lenta aprendizagem do amor paterno, assente numa demorada e incerta «rede tentacular de afetos», coincide então com a saída do labirinto que o escritor construira à sua volta (um labirinto que a memória recupera, ao evocar o empenhamento juvenil na «arte popular», uma passagem por Coimbra durante o PREC ou os tempos em que trabalhou na Alemanha, sem papéis, a varrer o chão de um hospital). O presente perpétuo da criança, que não distingue o ontem do amanhã, vai-se encaixando cada vez melhor nos vários passados do pai – sobrepostos pela sua reflexividade quase cartesiana – até ao apaziguamento final diante de um futuro que ninguém pode antecipar.
O consenso em torno de uma obra nem sempre é bom sinal. Mas no caso de O Filho Eterno – vencedor, em 2008, dos dois principais prémios literários brasileiros (Jabuti para melhor romance e PT de Literatura), além dos prémios da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da revista Bravo! para Livro do Ano – é apenas uma questão de justiça.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

As fronteiras do parágrafo

O livro intitula-se Passaporte (Cosac & Naify, São Paulo, 2001) e tem a forma de um verdadeiro passaporte. Capa dura, de um verde quase negro, cantos arredondados e uma lâmina de barbear no lugar do brasão de armas. Uma lâmina de barbear daquelas antigas, iguais às que os heróis românticos usavam para cortar os pulsos. Lá dentro estão 137 micronarrativas (duras, violentas, de uma nitidez que magoa), 137 «cartões-postais da desilusão», 137 relatos das viagens que Fernando Bonassi – escritor, «roteirista», dramaturgo e cineasta paulista – foi fazendo, durante a década de 90, pelo mundo. De Jiparaná a Cracóvia e à República Checa. De Londres ao México e a Berlim Oriental.
Passaporte não segue qualquer espécie de ordem, nem cronológica nem geográfica. Avançamos pelas situações adentro, numa progressão aleatória quer no tempo quer no espaço, para descobrir, ao fim de poucas páginas, que só podemos esperar bofetadas ou murros no estômago. Os textos de Bonassi constroem-se (ou desconstroem-se) nos antípodas do que nos habituámos a considerar literatura de viagens. Esqueçam a contemplação turística, as deambulações culturais, as aventuras cheias de adrenalina ou a procura do exotismo pelo exotismo. Não há nada disso aqui, felizmente.

As únicas fronteiras que o também cronista do jornal Folha de São Paulo parece respeitar são as do parágrafo. Tudo o que é preciso ser dito, é dito num único bloco: cerca de doze linhas de prosa concentrada, frases curtas, imagens fortíssimas e finais que mais parecem golpes de navalha, vindos de onde menos se espera. Um exemplo: «Jurgen enterrou a mãe e escapou de Varsóvia quando as crianças ainda conseguiam passar embaixo das cercas do gueto. Carregou irmão menor nas costas porque era a única coisa que tinha que o ligava ao passado da sua cabeça. Caiu muitos quilômetros depois e não sabe se dormiu mais que noite no lugar. Um casal de agricultores da Baviera, chamado pelo Reich pra cultivar o espaço vital, encontrou os dois. Deu água, pão e os ensinou a chamá-los de pais pelos dez anos seguintes. Nunca soube onde enfiar a raiva que seu pai polonês mandou ter da Alemanha e tornou-se actor.»
Jurgen é apenas uma das dezenas de figuras, reais ou imaginárias (nunca o saberemos), com que Bonassi se cruza. Há também homens à espera de mudar de sexo, famílias esmagadas pela História, cães suicidas, traficantes de droga com prisão de ventre (e «20 pequenas bolsas, dentro do estômago»), índios interesseiros, marginais, artistas, crimes, aberrações, cópulas em lugares públicos, casais problemáticos, imigrantes que não se adaptam, prostituição, «sacanagem», parábolas beckettianas, paisagens, fotografias, desespero e muitos exercícios de estilo (como a «autobiografia de pedro páramo» ou a «natureza-morta com são paulo»).
Para Fernando Bonassi, não há monumentos, nem aeroportos, nem hóteis. Só estações de metro sórdidas, ruas cheias de lixo, casas escavacadas. Ainda bem. Ele é a prova de que a literatura de viagens pode (e deve ser) sobretudo literatura.

[Texto publicado no número 73 da revista Ler]

Um carnaval a meio-gás

capa_Orgias

Orgias
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 130
ISBN: 978-972-20-3638-2
Ano de publicação: 2008

Luis Fernando Verissimo conhece, como poucos, a arte de escrever uma crónica. Durante anos a fio, ele publicou várias por semana (nalguns dos principais jornais do Brasil) e foi apurando uma técnica, uma voz única, um estilo. Há uma maneira de dizer as coisas que é só dele. Um jeito de pegar nas palavras que mais ninguém tem. E isso é ao mesmo tempo a sua maior virtude e o seu maior defeito. Virtude porque o leitor reconhece à légua a sua bonomia, a prosa leve, o humor suave, e deixa-se levar com gosto por aquele desprendimento irónico que não abdica da inteligência (nem da capacidade de denúncia). Defeito porque Verissimo escreve com tanta facilidade que às vezes cai na rotina e não capricha tanto como seria de esperar.
Orgias é o sexto volume antológico de Verissimo editado pela Dom Quixote, mas está longe de ser uma colheita vintage. Embora o mote das histórias seja sugestivo (a ideia de festa: do Carnaval às confraternizações das empresas; do Ano Novo aos apocalípticos aniversários infantis), o resultado é quase sempre decepcionante. Está lá tudo o que é suposto estar num texto de Verissimo – caos made in Brasil, folia, muito sexo, futebol, personagens descabeladas, diálogos cirúrgicos – mas falta aquilo que separa a eficácia da genialidade.
As crónicas sem rasgo (para não dizer burocráticas) estão em maioria, talvez porque 2005 foi um ano de pouca inspiração para LFV. E o livro só não é um falhanço completo porque há meia dúzia de pérolas que o redimem. Como Exercícios para o Verão, por exemplo, uma deliciosa paródia à ditadura da boa forma física e da tonificação muscular, em que o acto de beber um “chope” (cerveja) é equiparado ao uso daquelas horríveis máquinas de abdominais que se vendem no teleshopping. Ou Um Baile em Algum Lugar, divertidíssima descrição de uma ida colectiva para um Carnaval que não chega a acontecer. Ou ainda miniaturas exemplares: O Nostálgico, Comemoração, Infidelidades, Seu Pompom, Sexo Sexo Sexo.
Neste último texto, encontramos mesmo um vislumbre de Verissimo no seu melhor: “Eu sou masoquista e minha mulher é sádica, mas o que estraga o nosso relacionamento é o ciúme. Quando eu chego em casa com uma mancha vermelha na camisa, preciso jurar que não é sangue, é batom, senão ela tem um ataque histérico e, como castigo, não me bate.”

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Cinco bilhetes-postais de Fernando Bonassi

cachorros suicidas

Almir insiste para observarmos os cães mortos na estrada. Nenhuma música consegue distraí-lo. Há mesmo muitos, inchados como balões, junto ao guard-rail. Argumento que é apenas por estarmos numa dessas cidades ainda não completamente deterioradas, onde as pessoas acumulam bichos nos quintais, e que, na verdade, estamos vendo tantas carcaças porque ficamos paranóicos com a coisa. Almir não aceita. Pede que eu repare como são cães velhos. Afirma que eles sentem quando está chegando a sua hora e o atropelamento é a única forma de suicídio que conhecem.

(Londrina – Brasil – 1993)

os indolores

Ninguém da família de Piero sente dor. Alguma disfunção química na transmissão dos impulsos, de forma que a mente não se dá conta do que o corpo está sofrendo. A coisa é passada de geração pra geração sem nada que a interrompa. Ficam semanas com ossos quebrados, tumores supurados e raízes dentárias expostas sem se darem conta. Foram tema de mais documentários que as mais vaidosas personalidades poderiam suportar. Na verdade dariam tudo por uma dorzinha. Não podem entender essa cara estranha, entre enjoada e triste, que as pessoas fazem quando sentem tal coisa.

(Praga – República Checa – 1998)

nem dez marcos

Herbert entrou com um pedido na polícia de Berlim pra fazer uma instalação na Rosa Luxemburg Platz. Ele queria forrar um bom pedaço de parede da estação de metrô com notas de dez marcos, de forma que se as pessoas quisessem pegá-las teriam de pular na linha e ter a sorte de não ser atropeladas. Herbert chamou o projeto de “Darwinismo”. Claro que o seu pedido foi recusado, mas ele não perdeu a chance de responder que os alemães fizeram coisas bem piores nesses últimos noventa anos, tudo por muito menos que a grana que ele está oferecendo.

(Berlim Oriental – Alemanha – 1998)

red dorian gray

Antes de taxista, Zbigniew era dos melhores pintores de Cracóvia. Não fez dinheiro porque dinheiro não era o que valia nos anos 50. Fez Bierut, Gomulka e boa parte da União dos Patriotas Poloneses. Melhorava pessoas sem incomodá-las, o que considera a maior habilidade do retratista. Problema é que as tintas que recebia da Geórgia começaram a sumir, deixando nas telas apenas manchas encardidas sobre traços brutais de carvão. Clientes satisfeitos viraram-lhe a cara de um dia pro outro. A Polônia nunca teve história fácil, mas Zbi acha que foram aquelas tintas que o desgraçaram.

(Cracóvia – Polônia – 1998)

ouro e maldição

Seis meses floresta adentro, os dois fazem sinal da cruz antes de mergulhar. Roupas de câmara de pneu, oxigênio por mangueira de jardim. Pesos de chumbo num cinto de arame. Cogumelos de poeira levantam em câmara lenta, quando o fundo do rio é tocado pelos pés descalços. Um deles aponta algo. A três metros de distância na água suja, o outro pode ver. Rapidamente o primeiro trara de fazer a sucção, apontando pra pedra brilhante a boca do cano de PVC. Mas a coisa é tão grande que entala. O segundo a pega, sobe à superfície e corta o oxigênio do primeiro.

(Jiparaná – Brasil – 1987)

[in Passaporte, Cosac & Naify, São Paulo, 2001]

Anunciados os dez finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura

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É esta a lista:

  • 20 Poemas para o Seu Walkman, de Marília Garcia, poesia (Cosac Naif/7 letras, Brasil)
  • Antonio, de Beatriz Bracher, romance (Editora 34, Brasil)
  • Eu Hei-de Amar uma Pedra, de António Lobo Antunes, romance (Dom Quixote, Portugal; Objetiva, Brasil)
  • Histórias de Literatura e Cegueira, de Julián Fuks, contos (Record, Brasil)
  • Laranja Seleta, de Nicolas Behr, poesia (Língua Geral, Brasil)
  • O Amor Não Tem Bons Sentimentos, de Raimundo Carreiro, romance (Iluminuras, Brasil)
  • O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, romance (Record, Brasil)
  • O Sol Se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, romance (Companhia das Letras, Brasil; Cotovia, Portugal)
  • Os da Minha Rua, de Ondjaki, contos (Língua Geral, Angola; Caminho, Portugal)
  • Tarde, de Paulo Henriques Britto, poesia (Companhia das Letras, Brasil)

Resumindo: cinco romances, três livros de poemas, dois livros de contos; oito autores brasileiros, um português e um angolano. No dia 29 de Outubro, o júri (composto por Jorge Fernandes da Silveira, Tania Celestino de Macêdo, Samuel Titan Jr., Selma Caetano, Benjamin Abdala Júnior, Carmen Lúcia Tindó Secco, Flora Sussekind, José Castello, Maria Lúcia Dal Farra e Rita Chaves) anunciará o autor do “melhor título em língua portuguesa lançado no Brasil em 2007″, a quem cabe um cheque de 100 mil reais (cerca de 41600 euros). O segundo e terceiro classificados recebem respectivamente 35 mil reais (14600 euros) e 15 mil reais (cerca de 6200 euros).

Prémio Juca Pato para Antonio Candido

O escritor e crítico literário Antonio Candido recebeu ontem à noite, em São Paulo, o Prémio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE) à figura que se destacou como “intelectual do ano” em 2007.

Lançamento brasileiro da revista ‘Nada’

capaNada11

O 11.º número da revista portuguesa Nada (Maio 2008), cujo conteúdo gira em torno do tema “Afecção, Sensação, Percepção – Ambiente, Máquinas, Espíritos” e foi organizado pelo grupo de pesquisa CTeMe (da Universidade Estadual de Campinas), vai ser lançada no Brasil: hoje em Campinas (18h30), no Auditório I do IFCH-Unicamp; e amanhã em São Paulo (20h00), no SESC-SP, que fica na Av. Paulista, 119, 15.º andar.
Na primeira sessão, haverá debate com os autores convidados: Laymert Garcia dos Santos (IFCH-UNICAMP), Rosângela Pereira de Tugny (EM-UFMG), Christian Pierre Kasper (CTeMe), Emerson Freire (IFCH-UNICAMP) e Pedro Peixoto Ferreira (IFCH-UNICAMP). Na segunda sessão, para além do “bate-papo”, poderá ouvir-se o set experimental do DJ Camilo Rocha e ver-se uma projecção de fotos de Christian Pierre Kasper.
Os dois acontecimentos serão transmitidos pela Internet, através do site da revista.

Amanhece o que é feio no que é belo

«Copacabana amanhece isolada do resto do mundo por pedras e pelo mar. O Túnel Novo abre caminho pra onde a vida parece desenrolar sem culpa. O ressentimento dos duzentos mil moradores começa a escorrer pelos bueiros dos botecos em cada esquina, cinco por quarteirão. São poucos os que vêem o dia surgir vermelho. Vagabundos, garis, entregadores de jornais, meia dúzia de travas, putas cansadas, cachorros e alguns velhos andando na praia. Velhos de sono curto que surgem de todas as portas e escadas. O sono dos velhos é cada vez menor. Madrugam. Quando não têm mais o que acordar, morrem estampando avisos fúnebres no meu elevador. Toda semana um novo aviso — “COMUNICAMOS O FALECIMENTO DO EX-MORADOR DO APTO. 503″. A distância e o tempo que os velhos carregam fazem seus dias parecerem ainda mais iguais. E os dias em Copacabana não param de nascer iguais. Cada vez mais iguais.

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O sol se desprende do mar, esquenta o sono das putas, gringos por trás de cortinas prateadas, mendigos e pivetes sob marquises, cobertores imundos. Ilumina janelões na Avenida Atlântica. Brilha em cada fresta de ar-condicionado, desenha o teto de conjugados porcos, superpovoados, ilumina quadros caros, coberturas e a piscina do Copacabana Palace, espia basculantes, esquenta as lágrimas de crioulas gostosas, cicatrizando feridas, pingando sangue pelo chão, a oração de beatas que rezam ajoelhadas em frente do espelho de cômodas gastas, o passeio de cachorrinhos estúpidos, o tédio dos porteiros, essa gente sem esperança que dorme cada vez menos enquanto seus dias somem num ralo comum. O sono dos velhos é cada vez menor. Amanhece em Copacabana, as crianças vendendo pó na Djalma Ulrich. Sonhos caindo do céu. Amanhece por trás dos prédios, amanhece o que é feio no que é belo. Amanhece até que não exista diferença.»

[in Corpo Presente, de João Paulo Cuenca, Planeta (Brasil), 2003]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges