Cinco poemas de Alice Sant’Anna

quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

***


na esquina da rua
um piano que toca
notas esparsas
em lá menor

nunca vi
o rosto de quem
se esconde por trás
de acordes sustenidos

e que desfila dedos no teclado
com a leveza de quem
sustenta passarinhos
no ar

***

RUA DOS BACALHOEIROS

na rua dos bacalhoeiros
em frente à casa dos bicos
pontualmente às seis em pleno domingo
todas as lojas fechadas
sento na calçada para assistir
ao balé das andorinhas
são milhares, trilhares em revoada
que mergulham sincronizadas
feito um cardume
para anunciar em coro
os últimos dias de inverno

***

SETE ANOS

ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão

***

dentro do apartamento
a janela sustenta a paisagem.
me aproximo, apóio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.

mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana

[in Dobradura, 7 Letras, 2008]

A dureza do metal

Tungsténio
Autor: Marcello Quintanilha
Editora: Polvo
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-989-8513-40-3
Ano de publicação: 2015

Depois de apresentar obras marcantes da BD que se produz actualmente no Brasil, como Copacabana (de Lobo e Odyr), Cachalote (de Daniel Galera e Rafael Coutinho), O Diabo e Eu (de Alcimar Frazão) ou Cumbe (de Marcelo D’Salete), a editora Polvo introduz-nos agora no mundo de Marcello Quintanilha (n. 1971), autor de traço limpo e expressivo, ao serviço de histórias que se interpenetram, numa montagem paralela de cariz cinematográfico.
Em Tungsténio, tudo se passa à sombra do Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, em Salvador (Bahia), onde dois homens decidem fazer uma pescaria com explosivos e desencadeiam uma cascata de acontecimentos que acabarão por juntar, num clímax dramático muito bem urdido, as personagens centrais do livro: um traficante menor, elo mais fraco de várias cadeias de poder; um sargento aposentado, com nostalgia dos seus tempos de actividade militar; um polícia com historial de bravura debaixo de fogo; e a sua amante desiludida, em vias de concretizar uma separação que nunca passou de ameaça.
Na nota de abertura, Quintanilha explica que o tungsténio «é o metal com o ponto de fusão mais alto que se conhece», como quem admite ser a natureza misteriosamente inquebrável das vidas comuns o tema central deste livro, em que se sucedem as situações e peripécias que colocam à prova «a capacidade dos personagens de forçar a dureza do metal do dia a dia a ponto de rompê-lo».
No choque com a dita «dureza do metal», há quem saia maltratado, há quem maltrate, há quem sobreviva. Além de ser um vigoroso retrato da violência urbana, Tungsténio consegue captar fielmente o falar das ruas, cheio de corruptelas e solecismos. As pranchas são dinâmicas, com espaço para a interioridade das personagens (sobretudo a de Keira, a amante). Lamenta-se apenas que o desenlace, algo frouxo, não esteja à altura da espantosa energia que atravessa todo o álbum.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Três vidas

michel_laub

Diário da Queda
Autor: Michel Laub
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 193
ISBN: 978-989-671-149-8
Ano de publicação: 2013

Ao quinto romance, Michel Laub, um gaúcho nascido em Porto Alegre (1973), ascendeu à primeira linha da ficção brasileira contemporânea. Além do reconhecimento crítico, Diário da Queda ganhou os prémios Bravo e Brasília de Literatura, tendo sido finalista de mais uns quantos. Laub fez ainda parte da selecção de 20 escritores brasileiros com menos de 40 anos escolhidos pela revista Granta, em Outubro de 2012. É sabido que as consagrações súbitas reflectem por vezes um certo exagero, mas neste caso há pouca margem de risco. A segurança estilística e a maturidade narrativa reveladas neste Diário da Queda são como o algodão: não enganam.
Habilmente estruturado em capítulos muito curtos, fragmentos que se vão encaixando como peças de um puzzle montado em várias partes (e vários tempos) na cabeça do leitor, este romance é um palimpsesto das memórias de três homens: o narrador, o seu pai e o seu avô. Em comum, eles têm a experiência de trazer aos ombros o peso da herança judaica. O avô é um sobrevivente de Auschwitz que chegou ao Brasil finda a II Grande Guerra, «num daqueles navios apinhados», decidido a começar do zero sem olhar para trás, de tal forma que nunca se referirá à passagem pelo campo de extermínio, onde morreram todos os seus familiares e amigos. Mas o silêncio sobre o horror não significa uma abolição do horror. Muitos anos depois, suicidar-se-á, como aconteceu, tarde na vida, a tantos outros sobreviventes do Holocausto. O pai do narrador, com 14 anos na altura, fica traumatizado com esta morte violenta, que o empurra de súbito para a vida adulta (começa a trabalhar nos negócios da família) e para um discurso obsessivo sobre a ameaçada condição judaica e os perigos do anti-semitismo. Um discurso contra o qual o filho se há-de revoltar, quando se apercebe que a realidade de Auschwitz, por terrível que seja, é uma abstracção que colide com a realidade do que ele próprio está a viver.
Chegamos assim à cena central do romance, um acto de cobardia que marcará a existência do protagonista. Na escola judaica, há um rapaz, João, vítima sistemática de bullying. Por ser o único aluno pobre, o único não judeu, enterram-no na areia, humilham-no, chamam-lhe nomes. Ao comemorar os seus 13 anos, faz uma espécie de Bar Mitzvah, em que os colegas o atiram 13 vezes ao ar, como é da tradição. Só que na última vez deixam-no cair de costas, desamparado. É esta a «queda» de que fala o título, um acto de maldade que podia ter sido fatal e que deixa marcas no narrador. Arrependido e consciente da fina linha que separa as vítimas dos opressores, torna-se amigo de João, um gesto que acabará por não redimir nem um nem o outro.
Antes de se matar, o avô encheu cadernos com «letra miúda» em que fala do mundo ideal, de como «ele deveria ser», ignorando a realidade. Ao descobrir que tem Alzheimer, o pai fixa o passado, tão frágil como a memória que se desmorona. O narrador cruza essas duas vidas com a sua, narrando a superação do alcoolismo, antes da chegada de uma quarta geração. Auschwitz é a ferida original, essa «espécie de prova da inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares». O livro que o neto do sobrevivente escreve, para se compreender melhor e saber de onde vem e para onde vai, é a tentativa de refutar essa inviabilidade.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Vespa versus aranha

Passageiro do Fim do Dia
Autor: Rubens Figueiredo
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-989-724-053-9
Ano de publicação: 2013

A ideia de que a literatura «empenhada» tem geralmente limitações estéticas serve de álibi perfeito para que muitos escritores contemporâneos se afastem de qualquer tipo de questionamento da realidade política e social do seu tempo. Assim, verificamos que as populações mais desfavorecidas estão praticamente ausentes do campo literário. Se os marginais ainda mantêm uma certa aura romântica (traficantes, assassinos e proxenetas dão sempre boas personagens), os pobres que são apenas pobres, com vidas banais, explorados no trabalho ou vítimas do desemprego, só raramente aparecem nos romances do século XXI, mesmo com esta crise inaudita que tende a multiplicar-lhes o número e a perpetuar a sua condição. Louve-se, por isso, o desassombro de Rubens Figueiredo, um escritor carioca que não hesitou em escrever uma narrativa que revela as chagas sociais do Brasil de hoje, sem filtros nem simplificações panfletárias, apenas mostrando as coisas como elas são.
Passageiro do Fim do Dia acompanha, durante quase 200 páginas, o trajecto que o protagonista, Pedro, faz de autocarro («ônibus») do centro de uma grande cidade até ao bairro degradado e periférico onde mora a namorada, Rosane. Fechado num espaço claustrofóbico, ele quer isolar-se do que o rodeia, ouvindo rádio e lendo um volume sobre a passagem de Charles Darwin pelo Brasil, trazido nessa tarde da loja de livros em segunda mão que abriu com um amigo advogado. A sua intenção é «não ver, não entender e até não sentir», mas acontece precisamente o contrário. Além de observar com minúcia os companheiros de viagem – cada vez mais enervados, à medida que se sucedem os atrasos e os engarrafamentos, bem como notícias incertas sobre perturbações da ordem pública no fim da linha, capazes de levar a alterações no itinerário –, ele mergulha num labiríntico e caleidoscópio fluxo de consciência que é a própria matéria do romance.
A caminho do mal afamado bairro do Tirol, um «caos de brutalidades», arquétipo do inferno urbanístico das periferias (a que não falta sequer a imagem de fogueiras em cada esquina, «uma energia extraída do lixo, dos restos, daquilo que ninguém quer ou precisa»), Pedro deambula pelas extensões da memória, recapitulando os principais passos da sua vida, tendo como centro gravitacional o acidente em que um cavalo da polícia lhe esmagou a articulação do tornozelo. Sem capítulos, o livro avança num encadeamento contínuo e funciona por acumulação: de histórias, de detalhes, de tensões. Os episódios narrados vão nascendo uns dos outros, emendando-se, completando-se, formando como que uma teia (bem urdida, sem descontinuidades) que se expande e alarga a compreensão de Pedro sobre si mesmo, mas também sobre a vida de Rosane e dos seus vizinhos: pessoas habituadas ao fracasso, com marcas no corpo (cicatrizes, queimaduras, doenças) a servir de mapa dos abusos e humilhações a que foram sujeitos.
Na sua leitura intermitente, Pedro descobre os apontamentos que Darwin fixou, há 150 anos, sobre a paisagem que se avista da janela do autocarro. Onde agora se vêem fábricas desactivadas, favelas, morros despidos e aterros sanitários, o criador da teoria da evolução ainda encontrou uma natureza luxuriante. Entre outros registos, o cientista inglês descreve a forma como uma vespa (Pepsis) ataca e mata uma aranha (Lycosa), história sem outra moral que não seja o triunfo do mais forte. E aqui teme-se que Rubens Figueiredo ceda à tentação das analogias darwinistas aplicadas à sociologia, o que felizmente não acontece, até porque o próprio Darwin dá conta de uma outra observação, em que é a aranha a capturar uma vespa, enrolando-a num casulo e injectando-lhe veneno, tornando menos clara a fronteira entre quem é «tirano» e quem é «vítima».
O relato da viagem interrompe-se antes do fim (faltam quinze minutos para chegar, diz o motorista na última linha do texto), não sabemos por isso o que acontece a Pedro e a Rosane, nem é necessário sabermos. Nós já estamos no bairro do Tirol, no coração da miséria. E foi um grande escritor que nos levou até lá.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Anatomia de um impasse

Outra Vida
Autor: Rodrigo Lacerda
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-972-564-987-9
Ano de publicação: 2012

O romance Outra Vida, do escritor brasileiro Rodrigo Lacerda, decorre inteiramente numa estação de autocarros, cenário de um drama familiar que vai ganhando densidade e violência, à medida que as personagens revelam a sua verdadeira natureza. No centro da narrativa, três figuras: um homem, uma mulher e uma menina de cinco anos. Ele é um gigante de quase dois metros, abrutalhado mas terno, funcionário público menor que se deixou corromper (mais por ingenuidade do que por cupidez), transformado em bode expiatório e de tal maneira caído em desgraça que só pensa em abandonar a grande cidade, regressando às suas origens humildes. A mulher, pelo contrário, não quer partir. Está muito presa às ambições de uma vida na metrópole, sente o pânico de um retrocesso no seu estatuto social, e por isso procura argumentos para ficar, ignorando que um desses argumentos (o amante secreto) ameaça intrometer-se no longo impasse que dura mais de duas horas e 160 páginas. Quanto à menina de cinco anos, funciona como o fulcro e o catalisador da desagregação conjugal, sobretudo a partir do instante em que desaparece no caos dos passageiros que vão e vêm, abrindo de vez uma caixa de Pandora que não voltará a ser fechada.
Rodrigo Lacerda executa, com rigor clínico, a anatomia deste impasse, revelando a pouco e pouco a parte submersa do icebergue; isto é, todas as condicionantes – biográficas, psicológicas, emocionais – de uma relação assente em desequilíbrios e expectativas frustradas. O problema é que o faz recorrendo a um narrador verborreico, algo pomposo, com tendência para teorizar sobre tudo e mais alguma coisa (de questões sociológicas ao crescimento populacional), uma voz exagerada que se sobrepõe à narrativa, tão omnipresente que chega a sufocar as vozes próprias das personagens. Junte-se a isto algumas limitações estilísticas da prosa de Lacerda, quase sempre pesadona, e temos um romance com alguns momentos poderosos (toda a relação do pai com a filha, por exemplo), mas que fica muito aquém do que podia ser.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Ferreira Gullar ganha Prémio Moacyr Scliar

A primeira edição do prémio Moacyr Scliar acaba de distinguir o Prémio Camões 2010, Ferreira Gullar, pelo seu livro de poemas Em Alguma Parte Alguma (ver crítica à edição portuguesa, aqui). A esta obra já fora atribuída, em 2011, o prémio Jabuti.

Uma micronarrativa de Andréa Del Fuego

Intitula-se Tua coxa é lisa e pode ser lido no site PNETLiteratura, aqui.

O mecanismo do mistério

Os Malaquias
Autora: Andréa Del Fuego
Editora: Círculo de Leitores
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-42-4747-2
Ano de publicação: 2011

Depois de ter consagrado alguns dos mais importantes ficcionistas portugueses surgidos na última década (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e João Tordo), o Prémio José Saramago distinguiu, em 2011, Andréa Del Fuego (n. 1975), uma escritora paulista até agora inédita em Portugal. Ao contrário de outros autores brasileiros da mesma geração, como João Paulo Cuenca ou Daniel Galera, mais interessados em mostrar a energia e a violência da sociedade contemporânea, num estilo seco, muito directo, Del Fuego retoma uma certa tradição do fantástico, assumidamente lírica e com marcas regionalistas (sobretudo nos diálogos). A sua força está no facto de abordar essa tradição reinventando-a, recriando-a, procurando nela caminhos novos e uma linguagem original.
Logo nas primeiras páginas, assistimos a uma cena arrancada à memória familiar da autora, cujos bisavós morreram fulminados por um raio. Na versão ficcionada, Adolfo e Donana sucumbem porque no momento fatal os seus corações faziam a sístole, fechando a aorta e a possibilidade de a energia se escoar até ao solo: «O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória.» Mais afortunados, os três filhos do casal – Nico, Júlia e Antônio – tinham o coração em diástole, as vias sanguíneas abertas, e por isso salvaram-se com «queimaduras ínfimas, imperceptíveis». O destino dos órfãos desamparados, com nove, seis e quatro anos de idade, diverge logo ali. Nico, o mais velho, fica a trabalhar para o dono de uma fazenda da Serra Morena. Os outros dois são entregues a diligentes freiras francesas, que os criam e educam, à espera de encontrar quem os adopte. E se isso acaba por acontecer com Júlia, menos sorte tem Antônio (por transportar o estigma de ser anão). Separados os três, o livro acompanha as respectivas trajectórias, as suas desilusões e tormentos, o sonho de um dia se voltarem a juntar como família.
Não é, contudo, pela matéria propriamente narrativa que este romance se distingue. O que o torna fascinante é a escrita de Andréa Del Fuego, o modo como ela desmonta à nossa frente o «mecanismo do mistério», o espanto diante das formas do mundo. Esta é uma prosa elementar, feita de elipses, de frases em que só sobra o essencial (tão no osso que até se prescinde dos artigos), uma forma de narrar que fixa os mínimos detalhes: os cheiros, as texturas, as cadeias moleculares invisíveis, o brilho que as coisas têm quando estamos suficientemente atentos para as ver. Numa festa rural, uma rapariga tímida olha para os rapazes «de frente para trás como quem recebe uma carta por debaixo da porta». Antônio «pouco se lembrava da fisionomia dos pais, ela reduziu-se a pontinhos sem a reta que os alinhavasse». E, muito depois do acidente, num dos órfãos «vestígios do raio ficaram nos olhos, cintilando».
Os Malaquias é atravessado por encontros e desencontros, grandes febres, mortes súbitas, segredos, heranças, elementos fantásticos (o espírito de uma mulher que transita entre os vários estados da matéria, o navio encalhado no cimo da serra), também por choques duros com a realidade palpável e paisagens agrestes onde os velhos permanecem, «terminando de se gastar». Andréa Del Fuego cose estes elementos uns aos outros numa vertigem de capítulos curtos, mas no final ficamos com a sensação de que há demasiadas costuras à vista, linhas soltas, pespontos previsíveis, bainhas desnecessárias. É uma sensação difusa, diga-se, porque as imperfeições e os desequilíbrios da história ficam como que ofuscados pela beleza desta prosa, uma das mais estimulantes de entre as que se escrevem em língua portuguesa hoje em dia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»

[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]

Primeiros parágrafos

«Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço mais grosso e seu olhar ganhou maior lentidão.
Enquanto mastiga, suas têmporas afundam, estufam, e nós saltam nos encaixes do maxilar. Está na segunda lata de refrigerante, com o fôlego natural em dois canudos. Antes de cada mordida no x-tudo que pediu, ele enfia a bisnaga vermelha por entre as camadas de pão-alface-tomate-maionese-ovo-baconbife-tomate-alface-pão, e aperta-o com vontade, sem tocar na outra bisnaga, amarela, à sua frente no balcão. Ao cravar os dentes no pão, faz o molho brotar do recheio, devolvido, amolecendo o guardanapo de papel e caindo no prato em gotas consistentes.
A esposa, embora ainda jovem, possui a beleza diferente da mulher que amadurece muito cedo. Com a bolsa junto ao corpo, o tórax espigado, firme sob o tecido da blusa, ela espera a família terminar o café da manhã. Jamais comeria ali. Pediu apenas um café bem preto, que adoçou artificialmente, numa dose arbitrária e preestabelecida. Só que nem o café está bebendo. Viu xícaras, pires e colherinhas sendo escaldados na água, brotando do vapor diante de seus olhos, mas para ela nada torna as condições sanitárias do lugar menos suspeitas. Faz então a pequena xícara branca evoluir em seus dedos compridos, só para ocupar as mãos.»

[in Outra Vida, de Rodrigo Lacerda, Quetzal, 2011]

‘Grande Sertão Veredas': 55 anos depois

O jornalista brasileiro Jorge Sanglard reflecte sobre a obra-prima de Guimarães Rosa, a partir das xilogravuras que o artista plástico Arlindo Daibert criou para o livro.

Primeiros parágrafos

«Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito.
Eu nunca tinha sentido aquele cheiro pungente antes, aquele cheiro que ficaria para sempre misturado ao cheiro das outras mulheres, das que conheci na intimidade, que invadiria o cheiro de outras mulheres e que para sempre me levaria de volta a ela. Aquela mistura de perfume doce, carne cortada, suor, sangue e – o mais próximo que consegui perceber, até hoje – sal. Como se sente quando próximo do mar. Como quando adere à pele. Não os grãos de sal – mas a poeira invisível e olorosa do sal em dias húmidos.»

[in Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre, Planeta, 2011]

Gonçalo M. Tavares e João Tordo finalistas do Prémio PT no Brasil

A lista de dez finalistas da nona edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa (publicada no Brasil) inclui duas obras de autores portugueses: Uma Viagem à Índia (LeYa), de Gonçalo M. Tavares, que venceu o prémio em 2007, com Jerusalém; e As Três Vidas, de João Tordo (Língua Geral). Os restantes finalistas são brasileiros: Em Trânsito, de Alberto Martins (Companhia das Letras); O Homem Inacabado, de Donizete Galvão (Portal Literatura); Nada a Dizer, de Elvira Vigna (Companhia das Letras); Cidade Livre, de João Almino (Record); Ribamar, de José Castello (Bertrand Brasil); Minha Guerra Alheia, de Marina Colasanti (Record); Modelos Vivos, de Ricardo Aleixo (Crisálida); e Passageiro do Fim do Dia, de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras).

Quatro poemas de Manoel de Barros

O que eu não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.

***

AUTORRETRATO

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
e deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.)
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.

***

A BORRA

Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios –
tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha
– tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego
Preto etc.
Todos bêbedos ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um
almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
pobres-diabos não ficarem?

***

POEMA

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

[in Poesia Completa, Caminho, 2011]

Copas

Tal como a Liga dos Campeões e a Liga Europa da UEFA, a Copa de Literatura Brasileira aproxima-se dos quartos-de-final. Apurados até agora: Andre de Leones, Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa e Joca Reiners Terron.

A materialidade visceral das coisas

O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente
Autor: João Paulo Cuenca
Editora: Caminho
N.º de páginas: 172
ISBN: 978-972-21-2399-0
Ano de publicação: 2011

Se o livro anterior de João Paulo Cuenca (O Dia Mastroianni, Caminho, 2009) era um puro divertimento literário sob o signo de Fellini, este novo romance conduz-nos através de um labirinto de histórias perversas, algumas das quais podiam perfeitamente encaixar num filme de David Lynch. Fruto de uma estadia do escritor brasileiro na capital do Japão, O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente empurra-nos para uma Tóquio onírica, de néons vermelhos e comboios apinhados, big brothers tecnológicos e delírios nocturnos, sirenes e vertigem, electricidade e betão.
No centro da narrativa – fugidia, fragmentada, alegremente pós-moderna
– está o improvável encontro entre um executivo japonês (Shonsuke) e uma empregada de mesa do Leste europeu (Iulana Romiszowska), par amoroso sob contínua ameaça, cujo triste destino ficamos a conhecer logo no terceiro capítulo. A ameaça vem do pai de Shonsuke, Atsuo Okuda, famoso poeta retirado que espia e controla o filho através de um complexo sistema de vigilância (o “submarino”).
Neste pesadelo narrado com surpreendente leveza, em que há muitas respostas sem pergunta e outras tantas perguntas sem resposta, Cuenca volta a mostrar que é um escritor da materialidade visceral das coisas, dos corpos, do sexo e de todas as superfícies palpáveis. O estilo não deixa de ser realista (se entendermos a realidade como alucinação) e a verosimilhança torna-se infinitamente elástica, abarcando elementos tão díspares como uma sofisticada boneca erótica capaz de sentir ciúme, um fugu (peixe venenoso) das águas geladas do Pacífico Norte ou uma Máquina de Vender Cigarros falante.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Fala a boneca

«Antes de o Sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro.
Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do Sr. Okuda abrir a caixa. Se o Sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o Sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko.
E Yoshiko ficou sendo o meu nome.
Depois que o Sr. Okuda disse Yoshiko, eu ganhei, além de um nome, muitos começos e um fim. Eu começo na ponta dos meus dedos, nos fios dos meus cabelos, na planta dos meus pés, nos bicos dos meus peitos, na pele que cobre o vazio que há no meu corpo e em toda a superfície que me faz ser quem eu sou. Não poderia ser outra porque tenho esse corpo, e só eu tenho esse corpo, e eu sou esse corpo.
E o meu fim com esse corpo é um só: servir ao Sr. Okuda.
O Sr. Okuda é o meu mestre, mas não é o meu criador. O meu criador é a Luvdoll Inc., localizada em 4-5-28 Nishi-Kawagushi, na cidade de Kawagushi, província de Saitama. O meu criador seguiu as instruções detalhadas do Sr. Okuda, sob a ordem de encomenda número 2358B. A ordem de encomenda número 2358B, reproduzida em cinco vias que circularam por sessenta e cinco dias pelos diferentes departamentos da Luvdoll Inc., dizia que eu deveria ter olhos castanho-escuros (Pantone 4975C), pele aperolada #5, seios modelo senoide 220 g com 92,5 cm de diâmetro, umbigo com 0,8 cm de profundidade e vagina extrapequena #2, com pelos púbicos em corte vertical, profundidade de 8 cm e 4 cm de circunferência.
Outros detalhes foram adicionados em conversas entre o Sr. Okuda e Luvdoll Inc., pois o Sr. Okuda foi extremamente detalhista em seus pedidos, e isso fez com que a Luvdoll Inc. estabelecesse novas variações na sua linha de produção. Entre outras minúcias inéditas para a Luvdoll Inc., o Sr. Okuda desenhou com detalhes a curvatura dos meus pés, a espessura dos ossos das minhas clavículas e dos quadris.
O Sr. Okuda queria que meus ossos fossem salientes, e assim eles são.
O Sr. Okuda em nenhum momento se identificou para a Luvdoll Inc. E pagou pelo projeto personalizado a quantia de cinquenta milhões de ienes, o que me faz ser a boneca mais cara já produzida no Japão.
O Sr. Okuda é um poeta conhecido e anunciou que parou de escrever há muitos anos. Isso é mentira, porque o Sr. Okuda recita poesias para mim, dizendo que poderia ter pago por mim muito mais do que a quantia de cinquenta milhões de ienes, porque eu sou perfeita e, porque eu sou perfeita, sou também a única pessoa com quem o Sr. Okuda compartilha a sua poesia. Isso o Sr. Okuda também me contou num poema que ele escreveu entre as linhas de outro poema.
O Sr. Okuda só se dirige a mim em versos.
O Sr. Okuda não precisa recitar os versos para que eu os entenda. Eu sei o que ele quer dizer quando olha para mim. Recebo ordens através do seu silêncio porque eu sou esse corpo e esse corpo tem apenas um fim, que é servir ao Sr. Okuda, nem que seja ouvindo suas poesias sobre a minha perfeição, sobre os ciprestes numa estrada de Shikoku, sobre o canto dos pássaros ou, ainda, sobre a poesia em si, tema muito caro ao Sr. Okuda, que ele também infiltra entre as linhas de outros poemas, e entre essas linhas ainda traça outros poemas sobre muitos outros assuntos, alguns que eu mal posso compreender, e assim os poemas e as linhas dos poemas se multiplicam e se intercalam até o infinito, e através delas o Sr. Okuda me faz enxergar não só os belos sentimentos que tem por mim como também o mundo exterior, e o que está sobre ele e abaixo dele, porque eu nunca saí ou sairei de casa, esta que é a minha casa e também a casa do Sr. Okuda.
E, pensando melhor, na verdade a minha casa, a minha única casa, é o Sr. Okuda. Ele mesmo.»

[in O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente, de João Paulo Cuenca, Caminho, 2011]

Fora do Brasil

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Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Verbo
N.º de páginas: 284
ISBN: 978-972-22-3008-7
Ano de publicação: 2010

O que mais surpreende em Rabo de Foguete, magnífico resumo dos anos em que Ferreira Gullar viveu fora do Brasil, para escapar à perseguição do regime militar, é a sua estrutura fugidia, a simplicidade da prosa e a fluidez narrativa. Sendo um poeta, Gullar não faz poesia nem cede à tentação do lirismo (ou cede apenas em pequenos intermezzi sentimentais, compreensíveis quando estão em causa extremos de felicidade ou angústia).
À medida que se sucedem os capítulos, muito curtos e no osso, acompanhamos o autor numa rememoração que vai avançando aos solavancos, sem pretensões de rigor absoluto, fazendo sobressair certos ângulos das experiências vividas que não serão necessariamente os mais importantes, mas aqueles que deixaram marcas fundas na consciência do escritor (não por acaso, as relações amorosas e as amizades sobrepõem-se claramente às análises sociais ou às reflexões políticas sobre os países por onde foi passando). Dito isto, a escrita despida mas extraordinariamente evocativa de Gullar consegue transmitir-nos, com acutilância, o estado de permanente alerta do exilado, o seu desamparo e solidão, o progressivo alheamento em relação ao que chamamos normalidade e o proverbial instinto de fuga, que é antes do mais um instinto de sobrevivência.
O livro começa com um telefonema no início dos anos 70. Do outro lado da linha, más notícias. Sujeito a tortura, um camarada do Partido Comunista Brasileiro denunciara outros camaradas, entre os quais Gullar, que contra a sua vontade fazia parte da «direcção estadual» do PCB e se vê assim forçado a entrar na clandestinidade. Saltando entre apartamentos de amigos, longe da família, cumpre à risca as estratégias de dissimulação mas acaba por se cansar do «jogo de esconde-esconde».
Quando o cerco aperta, parte para Moscovo, onde fará um curso de seis meses no Instituto Marxista-Leninista. Sob uma identidade falsa (Cláudio), entusiasma-se mais com os seus vários namoricos e aventuras sexuais do que com a doutrinação pesada da escola soviética. Aliás, ao contrário dos outros estrangeiros, ele nunca se coíbe de dizer o que pensa, mesmo se os seus comentários não correspondem ao que os anfitriões desejariam ouvir, o que provoca toda a sorte de embaraços, mal-entendidos e tensões. A estadia num hotel de cinco andares sem água canalizada, numa terrinha perdida nos Urais, funciona então como metáfora de uma sociedade absurda.
O desencanto ideológico acentua-se no Chile, onde chega em Maio de 1973. Em vez de atribuir a queda de Allende, uns meses mais tarde, apenas à ação das forças de direita (apoiadas pelos EUA), Gullar culpa igualmente o radicalismo das esquerdas, para ele um factor que alienou a base de apoio popular do governo socialista. Após o golpe de Pinochet, volta a perseguição, volta o medo, volta a necessidade da fuga, primeiro para o Peru (onde se reúne com a família), depois para a Argentina, onde vive com aflição as crises de esquizofrenia do filho mais velho, que por vezes desaparece meses a fio. As páginas dedicadas à busca de Paulo estão entre as mais comoventes do livro.
Mas o melhor está guardado para o fim: a narração da génese do Poema Sujo, a sua obra-prima. «Imaginei que o melhor caminho para realizar o poema era vomitar de uma só vez, sem ordem lógica ou sintática, todo o meu passado, tudo o que vivera, como homem e como escritor.» É o que faz, para assombro dos amigos que o ouvem ler, em Buenos Aires, aquelas cem páginas vertiginosas. Entre eles, Vinicius de Moraes, companheiro que grava o poema e o põe a circular no Brasil. A onda de admiração gerada contribuirá, mais tarde, para o regresso de Gullar à pátria, em 1977. E quando se livra dos interrogatórios da polícia no Rio, quando se sente novamente livre, o poeta fecha o capítulo do exílio de uma forma muito brasileira: gozando «uma manhã inteira de praia carioca».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]

33 anos sem Clarice

Clarice Lispector morreu a 9 de Dezembro de 1977. Em dia de efeméride, Benjamin Moser, autor de uma excelente biografia da autora de A Paixão segundo G. H., confessa, no blogue da Cosac Naify, ter saudades dessa experiência de imersão absoluta na vida de uma mulher extraordinária.

O não dito por dito

alguma parte

Em Alguma Parte Alguma
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 123
ISBN: 978-972-568-667-6
Ano de publicação: 2010

Mais de seis décadas após a sua estreia literária, Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos do Brasil – se não o maior – venceu este ano o Prémio Camões. Mesmo se justíssima, a consagração oficial torna-se quase irrisória ao pé do que verdadeiramente importa aos seus leitores: o regresso à poesia. Onze anos passados sobre o lançamento do anterior livro de inéditos (Muitas Vozes, 1999), surge agora Em Alguma Parte Alguma. A expectativa criada pela longa espera – fruto da lentidão do seu processo criativo – era enorme, talvez excessiva, mas o resultado não defrauda os admiradores de Gullar. Pelo contrário: aos 80 anos, o poeta escreveu uma obra de extraordinária vitalidade, a rebentar de energia, com fôlego imenso, mais próprio de um rapaz na flor da idade do que de um ancião (sendo que a sabedoria e a imensa experiência de vida do ancião se pressentem em cada verso).
Na primeira parte do livro, Gullar entrega-se, de forma sistemática e reiterativa, a uma reflexão sobre os fundamentos essenciais da actividade poética e os limites da linguagem verbal para descrever, ou explicar, a realidade tangível das coisas: «mas / dizer o quê? / dizer / olor de fruta / cheiro de jasmim? // mas / como dizê-lo / se a fala não tem cheiro?» A verdade é que uma palavra nunca corresponde totalmente à coisa que nomeia, porque «a coisa / (o ser) / repousa / fora de toda / fala / ou ordem sintática // e o dito (a / não coisa) é só / gramática». Daí que ao poeta, diante da página em branco, caiba apenas o «aflito silêncio» de quem se esforça, em voz baixa, não por revelar o oculto mas por inventá-lo: «O poema / antes de escrito / antes de ser / é a possibilidade / do que não foi dito / do que está por dizer». Para que a poesia aconteça, o poeta tem então de pôr ordem na desordem e dar «o não dito por dito», única forma de resgatar «o que se nega / à fala / o que escapa / ao acurado apuro / do dizer». Ou seja: «a borra / a sobra / a escória / a incúria / o não caber».
Não se julgue, porém, que esta abordagem do trabalho poético se fica por abstracções. Mesmo nos poemas mais reflexivos, a escrita de Gullar é sempre física, material, seja na descrição do próprio corpo envelhecido (feito de ossos: a cabeça do fémur em atrito com a bacia, mais o perónio que é «a mais dura parte de mim / dura mais do que tudo o que ouço / e penso / mais do que tudo o que invento / e minto»), seja nas várias aproximações à brutalidade impalpável de um aroma de jasmim «no limite do veneno»; na recorrência do «perfume das bananas apodrecendo» na loja fechada do pai, há tantos anos; ou ainda no cheiro a alfazema que «dorme manso nas gavetas de roupas / em São Luís / e reacende o perdido». Do passado chegam emoções difusas e imagens fortes, como a da corola de um «vermelho-queimado» que já não murcha nem atrai abelhas, porque «apenas fulge / em alguma parte alguma / da vida», à espera de ser captada pelo exercício da memória, «essa / antimatéria que pode / num átimo/ reacender o que na matéria / se apagara para sempre».
Quem tenha lido o genial Poema Sujo, de 1975 (editado há poucos meses pela Ulisseia), reconhecerá algumas ideias: por exemplo, a pêra vista como um sistema de açúcar e álcool que se desfaz, ou as diferentes velocidades a que se move uma cidade. Mas se nessa obra torrencial e magnética se tentava reconstituir um lugar e um tempo (os dias da infância em São Luís do Maranhão), evocados no desespero do exílio, aqui o movimento é ao mesmo tempo mais contido e mais amplo. Há talvez menos visceralidade, menos denúncia dos males do mundo (ou do Brasil), mas uma maior consciência de si mesmo na escala cósmica. Entre o fascínio com o gigantismo das galáxias distantes, onde brilham estrelas talvez já mortas, e a contemplação do gato enrodilhado na cadeira, da planta no vaso da sala, de um louva-deus, de uma aranha que vive nas «encardidas páginas» de um dicionário de Filosofia, nascem toda a sorte de maravilhamentos e epifanias.
Depois, a par com esta espécie de panteísmo sem necessidade de Deus, há uma sombra que alastra pelo livro: a da finitude de todas as coisas. «A morte / presença e ocultação / circula luminosa», lembra-nos o poeta. A morte dos outros, esses defuntos que se acomodam «a meu lado/ como numa fotografia». Mas também o seu próprio fim, antecipado sem morbidez: «vinda a morte/ (…) serei o que alguém acaso/ salve/ do olvido». Uma esperança que Gullar, no último poema, projecta na figura de Rainer Maria Rilke: «desfeita a garganta e a mão e a mente/ findo aquele que/ de modo próprio/ dizia a vida/ resta-nos buscá-lo nos poemas/ onde nossa leitura/ de algum modo/ acenderá outra vez sua voz».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Ferreira Gullar

REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura

de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

***

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

***

INSETO

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
(o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida

***

GALÁXIA

Aqui estive
neste
banheiro branco
de piso branco
de louça fria

aqui estive
(estou) neste hoje
dia 3 de fevereiro
de 2003

aqui
dentro deste silêncio
de banheiro (de
pia, de torneira
de vaso sanitário
de bidê)
estou
mortal
e conformado

estou
num tempo branco
pequeno (2m por
2m) e eterno?
fora da morte, eu,
futuro morto

e lá fora chispa
a tarde célere
e clara
(lampejo na
areia ofuscante)
na praia atravessada de veículos
que vão e vêm
pela avenida ruidosa
tendo ao fundo
horizontal
a massa pesada e azul
da baía

lá fora (fora
do banheiro, fora
da casa)
a cidade é uma galáxia
a mover-se desigual
em seus diferentes estratos
veloz e lenta
e em contraditórias direções

uma galáxia
que em seu girar arrasta
nossas vidas, nossas
casas, nossas
caixas
de lembranças
cheias de papéis velhos e fotos
doídas
de olhos que nos fitam
de tempo algum
agora que são apenas manchas
e não obstante falam ainda
na poeira do cemitério doméstico
misturado com fungo e mofo
à beira do buraco voraz

e a galáxia urbana
tem como as outras
cósmicas
insondáveis labirintos
de espaços e tempos e mais
os tempos humanos da memória, essa
antimatéria que pode
num átimo
reacender o que na matéria
se apagara para sempre

assim
a cidade girando
arrasta em seu giro
pânicos destinos desatinos
risos choros
luzi-luzindo nos cômodos sombrios
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,
e misturados às conversas na cozinha
ou na área de serviço
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e
macaquinhos
lépidos a se moverem, seres que são daquele universo de folhas,
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,
tudo girando em torno deste imaginário eixo
—o banheiro,
onde estou
(onde estive)
e donde apenas ouço
o acelerar do motor de um ônibus
(talvez)
que passa pela rua Duvivier
não sei com que destino.

[in Em Alguma Parte Alguma, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica dos poemas.

A terrível simetria

Seminarista

O seminarista
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Sextante
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-676-023-6
Ano de publicação: 2010

O protagonista e narrador deste romance de Rubem Fonseca é um assassino a soldo, «conhecido como o Especialista» por ser o melhor no seu ofício. De tempos a tempos, recebe encomendas de um misterioso Despachante para fazer «serviços específicos», executados com eficácia, inteligência e sem quaisquer sentimentos de culpa («para um matador profissional a pior coisa do mundo é ter uma consciência»).
Nos primeiros capítulos, o Especialista começa por explicar como realizou alguns dos trabalhos. Se os «fregueses» (nome dado às vítimas) merecem de facto morrer é questão que não o preocupa, mas claro que prefere eliminar «gente ruim» – um pedófilo, um violador de cadáveres roubados no cemitério, um outro assassino profissional –, embora não fique sem dormir por abater à queima-roupa alguém que se mascarou de Pai Natal ou um «freguês» que se desloca em cadeira de rodas, mais a sua enfermeira. O modus operandi, esse, não varia: «Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»
Um dia, decide retirar-se. Com o rendimento dos trabalhos, pagos a peso de ouro, juntou um bom pé-de-meia. Agora quer gozar a vida. Ex-seminarista ateu (do seminário, guardou apenas o hábito de fazer citações em latim), as coisas de que mais gosta são: o cinema (em DVD); a literatura (sobretudo poesia); e ir para a cama com mulheres – não necessariamente por esta ordem. Gosta ainda de vinho, de árvores, de futebol (é torcedor do Vasco da Gama) e de ouvir rock muito alto no mp3. Todo um programa para uma reforma dourada.
Acontece que a condição de assassino não se abandona assim com tanta facilidade, especialmente quando lá para trás ficaram problemas mal resolvidos. Por muito que o Especialista mude de nome (passa a chamar-se José Joaquim Kibir, em homenagem a um antepassado que escapou da «carnificina de Alcácer-Quibir», essa batalha em que «Portugal se fodeu») e se apaixone por uma alemã que adora Clarice Lispector, a «terrível simetria» da pistola Glock volta a arrastá-lo para o mundo negro dos crimes de sangue.
O que se segue é uma intriga complicada em que toda a gente quer matar toda a gente, um novelo tarantinesco de traições e ajustes de contas sucessivos (um pouco à maneira do que Dinis Machado fez em Blackpot), trama algo caótica e completamente inverosímil, culminando num crescendo de violência – profusão de dedos partidos, balas nas têmporas, línguas cortadas, choques eléctricos nos testículos, olhos furados – que funciona como uma paródia do thriller e seus lugares-comuns, sublinhados pelo recurso à ironia e ao exagero. O que importa aqui verdadeiramente, porém, é a escrita, a linguagem flexível, precisa e inventiva de Rubem Fonseca, a sua prosa cantabile, os seus magníficos diálogos.
Aos 85 anos, Fonseca continua a ser um dos maiores mestres no uso da língua portuguesa. E O Seminarista, mesmo ficando aquém de outros romances seus, como A grande arte ou Bufo & Spallanzani (a editar pela Sextante em Fevereiro de 2011), é uma prova eloquente dessa mestria.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘La Folie et l’Amour’

Um belíssimo conto inédito do escritor brasileiro Aldyr Garcia Schlee.

Um tiro no Pai Natal

«Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff, D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços.
O último foi na véspera do Natal. O Despachante deu-me um endereço e disse onde encontrar o freguês, que estava dando uma festa para um monte de gente. Bastava chegar com um embrulho de papel colorido que eu entrava na casa. O Despachante era um cara magro e alto, muito branco, louro, e estava sempre de terno preto, camisa branca, gravata preta e óculos escuros. Ele me pagava bem.
“O freguês está vestido de Papai Noel e tem uma berruga no rosto ao lado direito do nariz.”
Sempre odiei, desde criança, esses papais-noéis fazendo Ô! Ô! Ô! Sei que o ódio é um surto de insanidade, como disse Horácio, Ira furor brevis est, mas ninguém está livre dele. Vesti uma roupa alinhada, peguei uma caixa vazia e fiz um enorme embrulho de presente. Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês.
Para sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel. “Entra, entra”, ele disse, “Feliz Natal!”
“Faz Ô! Ô! Ô! pra mim”, pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz.
“Ô! Ô! Ô!”, ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»

[Primeira página do romance O seminarista, de Rubem Fonseca, edição portuguesa da Sextante, nas livrarias a partir de amanhã]

Velocidades

«(…) É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época

e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?

e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)
a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?

Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool numa pêra,
girando todos em diferentes ritmos
(que quase
se podem ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é

do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rosto refletido na água do tanque)
o dia
que passa
— ou passou —
na cidade de São Luís. (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Entre fulgor e lepra

Poema Sujo
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-568-633-1
Ano de publicação: 2010

Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro Poema Sujo ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente a sugerir, está decerto entre os mais importantes poemas da língua portuguesa no século XX. Não é pouco.
Escrito em 1975, aos 45 anos, no exílio a que o forçou a ditadura militar (instaurada em 1964), este texto começa por ser o grito de revolta de um desterrado. Em Buenos Aires, longe da «pátria de mato e ferrugem», Gullar empreende um canto de si mesmo digno de Walt Whitman, na amplitude expressiva e no confessionalismo visceral (o corpo como agente do conhecimento do mundo), mas também um canto sobre as contingências históricas do Brasil e sobre a sua infância em São Luís do Maranhão, «minha úmida cidade / constantemente batida de muitos ventos».
Deixados para trás os experimentalismos concretistas e neoconcretistas, o poeta mergulha de cabeça na «profusão das coisas acontecidas», capta «a vida a explodir por todas as fendas da cidade» e entrega-se ao enigma da existência com o seu «corpo-galáxia aberto a tudo».
A escrita é torrencial, há súbitas mudanças de ritmo, disrupções, amálgamas de imagens, alternância de registos (a linguagem tanto pode ascender às altas esferas líricas como descer ao prosaísmo mais literal), mas Gullar nunca se afasta da «muda carne das coisas». Isto é, da sua natureza impura: «E também rastejais comigo / pelos túneis das noites clandestinas / sob o céu constelado do país / entre fulgor e lepra / debaixo de lençóis de lama e de terror».
Aqui, as palavras impregnam-se de «graves cheiros indecifráveis» (o cheiro da miséria e do amor, «de umbigo e de vagina»), compondo o retrato em movimento de um «corpo feito de água / e cinza» (o do poeta, «1,70m que é meu tamanho no mundo»), de rios que apodrecem, de um comboio transformado em onomatopeias ferroviárias, de histórias de uma época — a II Guerra Mundial — em que «a poesia não existia ainda», de um bairro pobre construído em palafitas sobre o lodo (assombrando um coração «aliado da classe operária»), de dias que se desdobram uns nos outros, enlaçando-se «como anéis de fumaça».
Na verdade, este livro tão belo quanto cru faz-se essencialmente de «matéria-tempo». Tempo que jorra, se amontoa e propaga a diferentes velocidades, sem um centro fixo: «E do mesmo modo / que há muitas velocidades num / só dia / e nesse mesmo dia muitos dias / assim / não se pode também dizer que o dia / tem um único centro / (feito um caroço / ou um sol) / porque na verdade um dia / tem inumeráveis centros».

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

São Luís do Maranhão

«(…) Ah, minha cidade verde
minha úmida cidade
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias à entrada do mar
minha cidade sonora
esferas de ventania
rolando loucas por cima dos mirantes
e dos campos de futebol
verdes verdes verdes verdes
ah sombra rumorejante
que arrasto por outras ruas

Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas
que se desdobram
no escuro das claridades,
na minha nuca,
no meu cotovelo, na minha arcada dentária
no túmulo da minha boca
palco de ressurreições
inesperadas
(minha cidade
canora)
de trevas que já não sei
se são tuas se são minhas
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu
corpo?)
lampeja
o jasmim
ainda que sujo da pouca alegria reinante
naquela rua vazia
cheia de sombras e folhas (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Processo de amanhecer e fabricação de uma noite

«(…) Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa
(mesmo dentro
do guarda-roupa,
o tempo,
pendurado nos cabides)
E essa sensação
é ainda mais viva
quando a gente acorda tarde
e depara com tudo claro
e já funcionando: pássaros
árvores vendedores de legumes

Mas também
quando a gente acorda cedo e fica
deitado assuntando
o processo de amanhecer:
os primeiros passos na rua
os primeiros
ruídos na cozinha
até que de galo em galo
um galo
rente a nós
explode
(no quintal)
e a torneira do tanque de lavar roupas
desanda a jorrar manhã

A noite nos faz crer
(dada a pouca luz)
que o tempo é um troço
auditivo.
Concluídos os afazeres noturnos
(que encheram a casa de rumores,
inclusive as últimas conversas no quarto)
quando enfim a família inteira dorme –
o tempo se torna um fenômeno
meramente químico
que não perturba
(antes
propicia)
o sono.
Não obstante,
alguém que venha da rua
– tendo caminhado sob a fantástica imobilidade
da Via-Láctea –
pode ter a impressão,
diante daqueles corpos adormecidos,
de que o universo morreu
(quando de fato
em todas as torneiras da cidade
a manhã está prestes a jorrar)

Menos, claro,
nas palafitas da Baixinha, à margem
da estrada de ferro,
onde não há água encanada:
ali
o clarão contido sob a noite
não é
como na cidade
o punho fechado da água dentro dos canos:
é o punho
da vida
fechada dentro da lama

Já por aí se vê
que a noite não é a mesma
em todos os pontos da cidade;
a noite
não tem na Baixinha
a mesma imobilidade
porque a luz da lamparina
não hipnotiza as coisas
como a electricidade
hipnotiza:
embora o tempo ali também não escorra,
não flua: bruxuleia
se debate
numa gaiola de sombras.
Mas o que mais distancia
essa noite da Baixinha
das outras
é o cheiro: melhor dizendo
o mau cheiro
que ela tem como certos animais
na sua carne de lodo
e daí poder dizer-se
que a noite da Baixinha
não passa, não
transcorre:
apodrece

Numa coisa que apodrece
– tomemos um exemplo velho:
uma pêra –
o tempo
não escorre nem grita,
antes
se afunda em seu próprio abismo,
se perde
em sua própria vertigem,
mas tão sem velocidade
que em lugar de virar luz vira
escuridão:
o apodrecer de uma coisa
de fato é a fabricação
de uma noite:
seja essa coisa
uma pêra num prato seja
um rio num bairro operário»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Quatro poemas de Mariana Ianelli

HERCULANO

Estranha manhã, em Herculano,
Nos entrelaçamos como uma aranha.
Temos todo o tempo e o tempo é curto,
Em um minuto o passado elabora
O museu do futuro.

Podemos ainda amar a casa,
Encher as taças,
Inventar algum desejo pequeno
Com ares de importante.

Qualquer disparate
Nós podíamos, se quiséssemos,
Uma fresta de esquecimento
Onde tudo condensa memória.

Preferimos o momento ele puro, de calcário,
A fina arte da escultura.

Pouco importa a cara sufocada,
O corpo flagrado na posição do susto.
Passará a tempestade de pó,
A febre arreganhada passará, o escuro.

Não passará minha solidão socorrendo a tua.

***

MEMORANDO

Não há grandes notícias.

Uma torre desapareceu,
O inverno expandiu-se
E a esperança ainda rói
O fundo de uma caixa
Procurando saída.

Com esculpido esmero
Vai se acabando uma família.

Um gesto qualquer se repete
No ensaio de ser abolido,
Remediar, abafar, corrigir,
Nada lembra o que antes foi só
Generosidade de coisa viva.

Não convém
O alvoroço dos pássaros,
A revanche da galhardia.
É inútil desafiar o pó
E, contudo, desafia-se.

***

DESCENDÊNCIA

Sou o poema tresmalhado
Que um lobo traz à boca
Como prêmio
De um passeio ao campo.

Vive em mim
O irmão mais velho
Debruçado sobre o chão
Cavando, cavando com as unhas.

Aqui uma cidade se levanta,
Força e música,
Já a prostituta distribui
Os seus encantos.

Uma primeira espada
Delizando
E há o deserto em mim,
Que seca todo pranto.

Morre aqui eternamente
O ladrão do fogo,
Morre Abel, a cada verso
A terra faz ouvir seu sangue.

O animal que há milênios
Me carrega
Tem a marca
Da educação pela sombra.

***

DIANTE DA PAISAGEM

Minha espera mortiça
Dita saudade
Com fogo e buril
Ganha outro nome
E como todos os nomes
Anseia a carne.

Relâmpago
Na madrugada
Sem testemunha
Além dos meus olhos
E uma estampa
De mãos pré-históricas
Num fundo de pedra
Deixa o rastro
No poema
Da seiva que emana
De pai para filho
E me convoca.

Dom de ser o cordeiro
Desgarrado do adeus,
De lançar vida nos baldios,
Perder ruínas,
Bendita vida, trigueira vida
Pasmando o nada.

[in Treva Alvorada, Iluminuras (São Paulo, Brasil), 2010]

Quatro poemas de Daniel Francoy

A CHUVA

A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga os rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.

Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.

***

MENINOS EM FÉRIAS

As pipas que plainam livres e serenas.
Montá-las exige a perícia de Dédalo
e mantê-las no ar a audácia de Ícaro.
Mas os meninos ignoram os deuses
e pouco importa que as ruas da cidade
sejam o labirinto onde vive o minotauro.
O que os meninos desejam é o céu
e se uma pipa adeja sem dono
uma multidão de crianças a persegue
ainda que ela se misture ao sol:
pouco importa a queda de Ícaro
se a infância é o mais duradouro mito.

***

AGOSTO OU A CHEGADA DO CALOR

Julho se esfarela e agosto
ergue-se sobre as nossas cabeças –
esbrasear limpo e antigo que desperta
a paixão pelas línguas latinas
e na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vaga-lumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Esbrasear limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.

***

WALESKA

Todos desprezam e debocham de Waleska,
Waleska julga serem gente
os seus animais de estimação,
é virgem aos vinte e dois anos,
é magra, tem a pele seca, os seios murchos
e a voz aguda não anuncia uma mulher
apetecida pelos homens.
Mas creio que Waleska se fecha no quarto
e lá, livre dos deboches e dos olhares,
as pernas se entreabrem úmidas
e o êxtase que turva os olhos desamparados
a deixa inesperadamente bela.

[in Em Cidade Estranha, seguido de Retratos de Mulheres, Artefacto, 2010]

O que aí vem (Babel)

Aproveitando o impacto mediático da recente atribuição a Ferreira Gullar do Prémio Camões, a Babel vai iniciar a publicação integral da obra do escritor brasileiro. Já no prelo, com lançamento previsto ainda para este mês de Julho, está uma das obras essenciais de Gullar: o livro Poema Sujo, escrito em 1975, durante o exílio na Argentina (onde se refugiou durante a ditadura militar). Vinicius de Moraes referia-se a Poema Sujo como «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últi­mas décadas». Em Setembro, surgirá o muito esperado novo livro de poemas de Gullar, Em Alguma Parte Alguma, coincidindo com a edição brasileira (José Olympio), já apontada como um dos acontecimentos editoriais do ano no Brasil (é o primeiro de poesia que Gullar publica desde Muitas Vozes, de 1999). Seguir-se-ão mais dois volumes: Cidades Inventadas (ficção) e Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio (memórias).

A separação interminável

Flores Azuis
Autora: Carola Saavedra
Editora: Livros de Seda
N.º de páginas: 136
ISBN: 978-972-770-754-6
Ano de publicação: 2010

Segundo romance de Carola Saavedra (n. 1973), Flores Azuis confirmou esta autora como uma das maiores revelações da ficção em língua portuguesa recente. Além de ter sido finalista do Prémio Jabuti 2009, a obra ganhou a edição do ano passado da Copa Brasileira de Literatura – um curioso torneio na Internet em que vários críticos literários decidem o resultado de duelos directos entre 16 livros. Ao triunfar na finalíssima contra Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, após três eliminatórias, Flores Azuis ofereceu à quase estreante uma inesperada vitória sobre autores consagrados ou em vias de consagração, como Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Patrícia Melo, João Gilberto Noll ou Lourenço Mutarelli.
O protagonista do romance é Marcos, um arquitecto falhado e em crise (separou-se da mulher e da filha de três anos), incapaz de resistir à tentação de violar correspondência alheia. Todos os dias aparece na caixa de correio do seu novo apartamento um envelope azul, dirigido ao inquilino anterior. E todos os dias ele lê o que está lá dentro: cartas de amor desesperado de uma mulher anónima (assina «A.») que tenta compreender as razões de uma «separação interminável», para a reverter. A narrativa intercala as nove cartas de A. (primeira pessoa, registo torrencial, lírico e cru) com igual número de capítulos sobre o quotidiano de Marcos e o impacto crescente das estranhas missivas na sua vida (terceira pessoa, frases curtas, estilo descritivo).
A estrutura é simples – como que uma revisitação pós-moderna do género epistolar – mas Carola Saavedra consegue transformá-la num mecanismo inquietante, à medida que nos arrasta para o cerne das obsessões de A., contadas de forma cada vez mais visceral e perversa, uma escrita do corpo devorado pela ausência, mas também pela memória do prazer, da dor, da entrega e da violência mais extremas. De uma carta para a seguinte, a realidade desmonta-se, repete-se, anula-se, desfaz-se, recapitula-se (voltamos à mesma discussão, contada de vários ângulos; ou à última noite que os amantes passam juntos, descrita em versões antagónicas). As peças soltas não voltam a encaixar nos mesmos sítios e a contradição assumida parece ser a única regra: «Mas agora penso, talvez esteja justamente nessa contradição, nesse espaço que surge entre o que afirmo e o que nego, entre o teu sofrimento e a tua crueldade, entre o meu sofrimento e a minha crueldade, entre o meu corpo e o teu, justamente nessa incoerência a única forma de comunicação.»
Em princípio, A. escreve apenas para o homem que a deixou e só para ele. A dada altura, porém, refere-se à possibilidade de um outro «leitor para estas cartas», um «personagem que recebesse estas cartas em teu lugar». E assim se anuncia o nó essencial do romance. Porque aquele leitor/personagem imaginário só pode ser Marcos, progressivamente reduzido ao «reflexo» e «avesso» de uma figura cuja intensidade o fascina, porque o transcende. Ou então é o próprio leitor de Flores Azuis, oscilando entre as dúvidas que lhe inspira a misteriosa A. e as certezas quanto ao talento da escritora que a criou.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Ferreira Gullar, poeta maior

A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.
Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos «imortais» da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de Lillias Fraser, 19 anos mais nova. «Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo», admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha «a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais».
Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é «inteiramente justa», até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da Obra Poética completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem «inteligentíssimo», correcto e afável, «um gentleman. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da Obra Poética esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: Um Gato chamado Gatinho, volume de poemas infantis, «lindíssimos», com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (Um pouco acima do chão, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de Poema Sujo (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.
No livro de ensaios Indagações de hoje (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à Obra Poética editada pelas Quasi, sintetizou: «Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua».
A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), o primeiro desde Muitas Vozes (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: «Meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Três vezes Rubem Fonseca

Entre hoje (quinta-feira) e sábado, A Escola da Noite, em co-produção com a Companhia de Teatro de Braga, vai estrear em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo (21h30), três espectáculos, com dramaturgia e encenação de António Augusto Barros, que formam uma Trilogia Rubem Fonseca. Os espectáculos, construídos a partir de cerca de duas dezenas de contos do escritor brasileiro, intitulam-se 1. José (estreia hoje), 2. Rubem (estreia amanhã) e 3. Fonseca (estreia no sábado).
Mais informações aqui.

net-rubem-estreia

A viagem de Guimarães Rosa

Em Maio de 1952, João Guimarães Rosa, o médico-diplomata-escritor, iniciava a viagem de que viria a nascer Grande Sertão: Veredas. Num texto de 2008, Paulo Bicarato conta a história dessa epopeia pré-literária.

O instrumento da vertigem

Monodrama
Autor: Carlito Azevedo
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 152
ISBN: 978-972-795-297-7
Ano de publicação: 2010

Após um longo silêncio de quase uma década, o poeta carioca Carlito Azevedo, responsável pela revista de poesia luso-brasileira Inimigo Rumor (a atravessar uma fase de hibernação, talvez definitiva), voltou a publicar um livro de inéditos: o magnífico Monodrama, lançado agora pela Cotovia, menos de um ano após a edição original pela 7Letras.
«Nenhum poema / é mais difícil / do que sua época», diz-se a certa altura, e estes poemas absolutamente contemporâneos, corpos em expansão que captam a violência espectral do Rio de Janeiro (uma rapariga coreana a injectar-se junto a um muro, o labor ostracizado dos imigrantes, a energia das multidões, a vigilância electrónica dos bancos, a ameaça do terrorismo, mas também o suave erotismo da pele «olhada / até à / incandescência» em hóteis manhosos), estes poemas absolutamente livres e fragmentários, não sendo mais difíceis do que a sua época, também não são mais fáceis, antes tentam fixar a complexidade fugidia de um «mundo com cara de Goya» e suas «imagens da pura / desconexão».
Tudo se passa numa «espécie / de videostream», a linguagem como instrumento da vertigem, em «fluxos imparáveis» que aceleram e tornam ora mais nítida, ora mais embaciada, a percepção das coisas, seja uma silhueta diante da montra da confeitaria, o caos das discotecas, uma galinha «atada por um / barbante / apodrecido / a um / limoeiro / cintilante / de teias / de aranha», a «veemência de uns espelhos» ou um cachecol florido «a flutuar no céu por alguns segundos».
Depois, no fim do livro, Carlito agiganta-se de vez ao falar da morte da mãe (com Alzheimer), numa extraordinária sequência de poemas intitulada H. (quatro dos quais podem ser lidos aqui), para mim um dos momentos mais altos da poesia em língua portuguesa escrita neste século.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A gravidez utópica

Cordilheira
Autor: Daniel Galera
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2091-3
Ano de publicação: 2010

Em Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo (Campo das Letras), o protagonista confunde a vida do seu escritor favorito – Rubem Fonseca – com a das suas personagens, algo que o próprio Fonseca, quando se vê puxado para dentro da história, apelida de «síndrome de Zuckerman» (referência ao alter ego ambíguo de Philip Roth). Em Cordilheira, de Daniel Galera, assistimos a uma variante ainda mais radical dessa síndrome, já que são os próprios escritores a tomarem a iniciativa de se projectarem nas suas personagens, cumprindo na vida real o que imaginaram na ficção.
Importa explicar que estes escritores fazem parte de um círculo marginal de Buenos Aires, uma espécie de seita literária que se cruza a dado momento no caminho da protagonista, Anita van der Goltz Vianna, quando ela decide trocar o Brasil pela Argentina. Orfã de mãe desde a nascença e de pai há três anos e meio, Anita é uma autora que triunfou logo ao primeiro romance, mas que decidiu abandonar a literatura em prol de um desígnio para ela mais alto e urgente: ter um filho. Quando Danilo, o namorado, se recusa a ser pai nos próximos tempos, ela deixa-o e parte para a Feira do Livro de Buenos Aires, com a ideia de ficar na cidade por uns tempos, conhecer um argentino anónimo e voltar grávida a São Paulo.
As coisas não serão assim tão simples, claro. O argentino anónimo com quem se envolve é um admirador doentio do seu livro, ele próprio autor de um só romance e membro da tal confraria de literatos portenhos de segunda linha, composta por gente bizarra que leva a literatura «a sério demais» e pretende seguir o caminho de Jupiter Irrisari – um escritor guatemalteco que certo dia «parou de escrever histórias e passou a vivê-las». Assumir o destino das personagens que cada um criou, transformando-se gradualmente nelas, é o objectivo do grupo.
Este jogo perigoso e fértil em ricochetes, para o qual a brasileira é convocada mesmo sem querer, ocupa parte substancial do romance. Galera, porém, não se perde no exercício já muito batido das contaminações mútuas entre ficção e realidade. O foco de Cordilheira está sempre em Anita, no seu estranhamento, na sua deriva existencial e nesse projecto de uma gravidez que talvez seja ectópica, porque inviável e literalmente fora do sítio (Buenos Aires em vez de São Paulo), ou talvez seja apenas utópica, manifestação de um desejo sem lugar que o materialize.
Nascido em 1979, Daniel Galera confirma neste livro poderoso, muitíssimo bem escrito e tecnicamente irrepreensível, o seu lugar de destaque entre os ficcionistas brasileiros mais jovens.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

‘Gonzos e Parafusos’

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Um Big Brother livresco? Ou a performance arrojada de uma escritora que prolonga na vida real a atmosfera do seu livro, vestindo literalmente a pele da sua personagem?

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Ao fechar-se durante uma semana dentro de uma caixa de acríllico, montada numa livraria de São Paulo e exposta ao olhar dos visitantes, Paula Parisot aproxima o lançamento literário do conceito de instalação artística. O que faz todo o sentido, não fosse o seu romance (Gonzos e Parafusos, edição LeYa) sobre uma psicanalista obcecada por Elizabeth Bachofen-Echt, uma baronesa que entrou para a posteridade como modelo do pintor Gustav Klimt.
Para acompanhar, até dia 17, aqui.
Eis um resumo, em vídeo, do primeiro dia:

Menos arquitectura que balística

macau

Macau
Autor: Paulo Henriques Britto
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 55
ISBN: 978-972-568-626-3
Ano de publicação: 2010

O brasileiro Paulo Henriques Britto (n. 1951) pertence à categoria dos poetas bissextos. Após o livro de estreia (Liturgia da Matéria, de 1982), publicou apenas mais quatro livros de poemas: Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), Macau (2003) e Tarde (2007). Conhecido sobretudo pelas suas traduções do inglês (Henry James, Elizabeth Bishop, William Faulkner, Don DeLillo, Thomas Pynchon, entre outros), Britto apanhou de surpresa o meio literário lusófono ao vencer em 2004 o Prémio PT de Literatura, no valor de cem mil reais (cerca de 49 mil euros), batendo na final pesos-pesados como Chico Buarque (Budapeste), Bernardo Carvalho (Mongólia), Sérgio Sant’Anna e Manoel de Barros.
A inesperada vitória foi conseguida com Macau, o voluminho que inaugura a nova colecção de poesia da Ulisseia e revela algumas das linhas principais do trabalho deste autor, nomeadamente aquela que passa pela desconstrução sistemática da artificialidade dos códigos poéticos. Britto utiliza quase sempre formas clássicas, com metrificação canónica e rimas, mas apenas para as fazer implodir através do recurso a uma linguagem ostensivamente coloquial, pouco elevada. O poeta domina a técnica, conhece as regras, chega a ser virtuoso na composição verbal, no equilíbrio das estrofes, mas depois insiste em colocar-se de fora, retirando com visível gozo a máscara da solenidade e dinamitando, com recurso à ironia, toda a sorte de visões estabelecidas e lugares-comuns. Veja-se este poema que ridiculariza uma das mais gastas categorias românticas (a inspiração):

Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.

Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta

esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras

que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida

o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.

Não quer isto dizer que o sujeito poético não busque um sentido para as coisas e para os sonhos, um sentido pressentido («só que não está ao nosso alcance»), uma verdade aparentemente inatingível mas que até pode estar mais próxima do que imaginamos: «É na superfície / que o real, minúsculo plâncton, se trai». O poeta é então alguém que não se conforma com a inabalável «opacidade das coisas», procurando dar sentido a um impulso que «vem de dentro, e incomoda», uma «fala esquisita» e «aparentemente anárquica» em que as palavras estrebucham, «inúteis» como «cágados com as quatro patas viradas pro ar». Entre a realidade, essa «coisa delicada,/ de se pegar com as pontas dos dedos», e o «cais úmido e ínfimo» do eu, «mínimo/ império sem território» (como a ilha do Oriente onde se fala português), nasce a tensão que atravessa estes poemas, sempre à beira da banalidade (esse «acorde / gemido por um destoadíssimo realejo») e de uma assumida insuficiência, expressa em certos títulos (Dez sonetoides mancos; Três epifanias triviais, etc.) e também, infelizmente, na qualidade literária inferior de algumas sequências (as Três tercinas, por exemplo; ou os vários poemas em inglês).
Se o que permanece é «a alvenaria do mundo, o que pesa», Britto parece só acreditar nas coisas sólidas que sejam tocadas pela leveza do voo, ou pelo rasto dessa possibilidade, erguendo por isso uma poética instável, aérea, mais perto da «balística» do que da arquitectura. Como explica, de forma exemplar, neste poema:

É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura

e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda

na mão, igual a um fogo de artifício
que deu chabu. Não. Tem que ser na altura
de um morro, no mínimo, ou de um míssil

terra-a-ar. Sim. Menos arquitetura
que balística. É claro que é difícil.

Avaliação: 7/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Três poemas de Paulo Henriques Britto

Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.

***

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa –
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância).

***

ACALANTO

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

[in Macau, Ulisseia, 2010]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges