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	<title>Bibliotecário de Babel &#187; Literatura brasileira</title>
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	<description>Sobre livros e literatura, autores e editoras. Por José Mário Silva.</description>
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		<title>Anatomia de um impasse</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2012 22:49:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Rodrigo Lacerda]]></category>

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		<description><![CDATA[Outra Vida Autor: Rodrigo Lacerda Editora: Quetzal N.º de páginas: 168 ISBN: 978-972-564-987-9 Ano de publicação: 2012 O romance Outra Vida, do escritor brasileiro Rodrigo Lacerda, decorre inteiramente numa estação de autocarros, cenário de um drama familiar que vai ganhando densidade e violência, à medida que as personagens revelam a sua verdadeira natureza. No centro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/outravida.jpg"><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/outravida.jpg" alt="" title="outravida" width="313" height="500" class="alignnone size-full wp-image-16416" /></a></p>
<p><strong>Outra Vida</strong><br />
<em>Autor:</em> Rodrigo Lacerda<br />
<em>Editora:</em> Quetzal<br />
<em>N.º de páginas:</em> 168<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-564-987-9<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2012</p>
<p>O romance <em>Outra Vida</em>, do escritor brasileiro Rodrigo Lacerda, decorre inteiramente numa estação de autocarros, cenário de um drama familiar que vai ganhando densidade e violência, à medida que as personagens revelam a sua verdadeira natureza. No centro da narrativa, três figuras: um homem, uma mulher e uma menina de cinco anos. Ele é um gigante de quase dois metros, abrutalhado mas terno, funcionário público menor que se deixou corromper (mais por ingenuidade do que por cupidez), transformado em bode expiatório e de tal maneira caído em desgraça que só pensa em abandonar a grande cidade, regressando às suas origens humildes. A mulher, pelo contrário, não quer partir. Está muito presa às ambições de uma vida na metrópole, sente o pânico de um retrocesso no seu estatuto social, e por isso procura argumentos para ficar, ignorando que um desses argumentos (o amante secreto) ameaça intrometer-se no longo impasse que dura mais de duas horas e 160 páginas. Quanto à menina de cinco anos, funciona como o fulcro e o catalisador da desagregação conjugal, sobretudo a partir do instante em que desaparece no caos dos passageiros que vão e vêm, abrindo de vez uma caixa de Pandora que não voltará a ser fechada.<br />
Rodrigo Lacerda executa, com rigor clínico, a anatomia deste impasse, revelando a pouco e pouco a parte submersa do icebergue; isto é, todas as condicionantes – biográficas, psicológicas, emocionais – de uma relação assente em desequilíbrios e expectativas frustradas. O problema é que o faz recorrendo a um narrador verborreico, algo pomposo, com tendência para teorizar sobre tudo e mais alguma coisa (de questões sociológicas ao crescimento populacional), uma voz exagerada que se sobrepõe à narrativa, tão omnipresente que chega a sufocar as vozes próprias das personagens. Junte-se a isto algumas limitações estilísticas da prosa de Lacerda, quase sempre pesadona, e temos um romance com alguns momentos poderosos (toda a relação do pai com a filha, por exemplo), mas que fica muito aquém do que podia ser.  </p>
<p><em>Avaliação:</em> 6,5/10</p>
<p>[Texto publicado no n.º 110 da revista <em>Ler</em>]</p>
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		<title>Ferreira Gullar ganha Prémio Moacyr Scliar</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 14:08:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Prémios]]></category>

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		<description><![CDATA[A primeira edição do prémio Moacyr Scliar acaba de distinguir o Prémio Camões 2010, Ferreira Gullar, pelo seu livro de poemas Em Alguma Parte Alguma (ver crítica à edição portuguesa, aqui). A esta obra já fora atribuída, em 2011, o prémio Jabuti.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A primeira edição do prémio Moacyr Scliar <a href="http://www.dgabc.com.br/News/5940817/ferreira-gullar-vence-moacyr-scliar-de-literatura.aspx">acaba de distinguir o Prémio Camões 2010, Ferreira Gullar</a>, pelo seu livro de poemas <em>Em Alguma Parte Alguma</em> (ver crítica à edição portuguesa, <a href="http://bibliotecariodebabel.com/criticas/o-nao-dito-por-dito/">aqui</a>). A esta obra já fora atribuída, em 2011, o prémio Jabuti.</p>
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		<title>Uma micronarrativa de Andréa Del Fuego</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 16:30:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Andréa Del Fuego]]></category>

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		<description><![CDATA[Intitula-se Tua coxa é lisa e pode ser lido no site PNETLiteratura, aqui.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Intitula-se <em>Tua coxa é lisa</em> e pode ser lido no site PNETLiteratura, <a href="http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=4419">aqui</a>.</p>
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		<title>O mecanismo do mistério</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jan 2012 17:32:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Andréa Del Fuego]]></category>

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		<description><![CDATA[Os Malaquias Autora: Andréa Del Fuego Editora: Círculo de Leitores N.º de páginas: 260 ISBN: 978-972-42-4747-2 Ano de publicação: 2011 Depois de ter consagrado alguns dos mais importantes ficcionistas portugueses surgidos na última década (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e João Tordo), o Prémio José Saramago distinguiu, em 2011, Andréa Del [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://1.bp.blogspot.com/-Rxe6Fkwbmdg/Tvr_mSQHwJI/AAAAAAAAAoo/6551riHf5zs/s350/capa_.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Os Malaquias</strong><br />
<em>Autora:</em> Andréa Del Fuego<br />
<em>Editora:</em> Círculo de Leitores<br />
<em>N.º de páginas:</em> 260<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-42-4747-2<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2011</p>
<p>Depois de ter consagrado alguns dos mais importantes ficcionistas portugueses surgidos na última década (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e João Tordo), o Prémio José Saramago distinguiu, em 2011, Andréa Del Fuego (n. 1975), uma escritora paulista até agora inédita em Portugal. Ao contrário de outros autores brasileiros da mesma geração, como João Paulo Cuenca ou Daniel Galera, mais interessados em mostrar a energia e a violência da sociedade contemporânea, num estilo seco, muito directo, Del Fuego retoma uma certa tradição do fantástico, assumidamente lírica e com marcas regionalistas (sobretudo nos diálogos). A sua força está no facto de abordar essa tradição reinventando-a, recriando-a, procurando nela caminhos novos e uma linguagem original.<br />
Logo nas primeiras páginas, assistimos a uma cena arrancada à memória familiar da autora, cujos bisavós morreram fulminados por um raio. Na versão ficcionada, Adolfo e Donana sucumbem porque no momento fatal os seus corações faziam a sístole, fechando a aorta e a possibilidade de a energia se escoar até ao solo: «O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória.» Mais afortunados, os três filhos do casal – Nico, Júlia e Antônio – tinham o coração em diástole, as vias sanguíneas abertas, e por isso salvaram-se com «queimaduras ínfimas, imperceptíveis». O destino dos órfãos desamparados, com nove, seis e quatro anos de idade, diverge logo ali. Nico, o mais velho, fica a trabalhar para o dono de uma fazenda da Serra Morena. Os outros dois são entregues a diligentes freiras francesas, que os criam e educam, à espera de encontrar quem os adopte. E se isso acaba por acontecer com Júlia, menos sorte tem Antônio (por transportar o estigma de ser anão). Separados os três, o livro acompanha as respectivas trajectórias, as suas desilusões e tormentos, o sonho de um dia se voltarem a juntar como família.<br />
Não é, contudo, pela matéria propriamente narrativa que este romance se distingue. O que o torna fascinante é a escrita de Andréa Del Fuego, o modo como ela desmonta à nossa frente o «mecanismo do mistério»,  o espanto diante das formas do mundo. Esta é uma prosa elementar, feita de elipses, de frases em que só sobra o essencial (tão no osso que até se prescinde dos artigos), uma forma de narrar que fixa os mínimos detalhes: os cheiros, as texturas, as cadeias moleculares invisíveis, o brilho que as coisas têm quando estamos suficientemente atentos para as ver. Numa festa rural, uma rapariga tímida olha para os rapazes «de frente para trás como quem recebe uma carta por debaixo da porta». Antônio «pouco se lembrava da fisionomia dos pais, ela reduziu-se a pontinhos sem a reta que os alinhavasse». E, muito depois do acidente, num dos órfãos «vestígios do raio ficaram nos olhos, cintilando».<br />
<em>Os Malaquias</em> é atravessado por encontros e desencontros, grandes febres, mortes súbitas, segredos, heranças, elementos fantásticos (o espírito de uma mulher que transita entre os vários estados da matéria, o navio encalhado no cimo da serra), também por choques duros com a realidade palpável e paisagens agrestes onde os velhos permanecem, «terminando de se gastar». Andréa Del Fuego cose estes elementos uns aos outros numa vertigem de capítulos curtos, mas no final ficamos com a sensação de que há demasiadas costuras à vista, linhas soltas, pespontos previsíveis, bainhas desnecessárias. É uma sensação difusa, diga-se, porque as imperfeições e os desequilíbrios da história ficam como que ofuscados pela beleza desta prosa, uma das mais estimulantes de entre as que se escrevem em língua portuguesa hoje em dia. </p>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>Primeiros parágrafos</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 22:14:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Andréa Del Fuego]]></category>

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		<description><![CDATA[«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil. Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura. — Corre, Adolfo! Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.<br />
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.<br />
— Corre, Adolfo!<br />
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.<br />
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»</p>
<p>[in <em>Os Malaquias</em>, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]</p>
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		<title>Primeiros parágrafos</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jan 2012 22:56:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Rodrigo Lacerda]]></category>

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		<description><![CDATA[«Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço mais grosso e seu olhar ganhou maior lentidão.<br />
Enquanto mastiga, suas têmporas afundam, estufam, e nós saltam nos encaixes do maxilar. Está na segunda lata de refrigerante, com o fôlego natural em dois canudos. Antes de cada mordida no x-tudo que pediu, ele enfia a bisnaga vermelha por entre as camadas de pão-alface-tomate-maionese-ovo-baconbife-tomate-alface-pão, e aperta-o com vontade, sem tocar na outra bisnaga, amarela, à sua frente no balcão. Ao cravar os dentes no pão, faz o molho brotar do recheio, devolvido, amolecendo o guardanapo de papel e caindo no prato em gotas consistentes.<br />
A esposa, embora ainda jovem, possui a beleza diferente da mulher que amadurece muito cedo. Com a bolsa junto ao corpo, o tórax espigado, firme sob o tecido da blusa, ela espera a família terminar o café da manhã. Jamais comeria ali. Pediu apenas um café bem preto, que adoçou artificialmente, numa dose arbitrária e preestabelecida. Só que nem o café está bebendo. Viu xícaras, pires e colherinhas sendo escaldados na água, brotando do vapor diante de seus olhos, mas para ela nada torna as condições sanitárias do lugar menos suspeitas. Faz então a pequena xícara branca evoluir em seus dedos compridos, só para ocupar as mãos.»</p>
<p>[in <em>Outra Vida</em>, de Rodrigo Lacerda, Quetzal, 2011]</p>
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		<title>&#8216;Grande Sertão Veredas&#8217;: 55 anos depois</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 17:43:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[O jornalista brasileiro Jorge Sanglard reflecte sobre a obra-prima de Guimarães Rosa, a partir das xilogravuras que o artista plástico Arlindo Daibert criou para o livro.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.cronopios.com.br/site/images/iex/Dezembro2011/xilo1.gif" alt="" /></p>
<p>O jornalista brasileiro Jorge Sanglard <a href="http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=5248">reflecte sobre a obra-prima de Guimarães Rosa</a>, a partir das xilogravuras que o artista plástico Arlindo Daibert criou para o livro.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Primeiros parágrafos</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 23:42:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Edney Silvestre]]></category>

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		<description><![CDATA[«Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito.<br />
Eu nunca tinha sentido aquele cheiro pungente antes, aquele cheiro que ficaria para sempre misturado ao cheiro das outras mulheres, das que conheci na intimidade, que invadiria o cheiro de outras mulheres e que para sempre me levaria de volta a ela. Aquela mistura de perfume doce, carne cortada, suor, sangue e – o mais próximo que consegui perceber, até hoje – sal. Como se sente quando próximo do mar. Como quando adere à pele. Não os grãos de sal – mas a poeira invisível e olorosa do sal em dias húmidos.»</p>
<p>[in <em>Se Eu Fechar os Olhos Agora</em>, de Edney Silvestre, Planeta, 2011]</p>
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		<title>Gonçalo M. Tavares e João Tordo finalistas do Prémio PT no Brasil</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 16:28:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Prémios]]></category>

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		<description><![CDATA[A lista de dez finalistas da nona edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa (publicada no Brasil) inclui duas obras de autores portugueses: Uma Viagem à Índia (LeYa), de Gonçalo M. Tavares, que venceu o prémio em 2007, com Jerusalém; e As Três Vidas, de João Tordo (Língua Geral). Os restantes finalistas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A lista de dez finalistas da nona edição do <a href="http://www.premioportugaltelecom.com.br/">Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa</a> (publicada no Brasil) inclui duas obras de autores portugueses: <em>Uma Viagem à Índia</em> (LeYa), de Gonçalo M. Tavares, que venceu o prémio em 2007, com <em>Jerusalém</em>; e <em>As Três Vidas</em>, de João Tordo (Língua Geral). Os restantes finalistas são brasileiros: <em>Em Trânsito</em>, de Alberto Martins (Companhia das Letras); <em>O Homem Inacabado</em>, de Donizete Galvão (Portal Literatura); <em>Nada a Dizer</em>, de Elvira Vigna (Companhia das Letras); <em>Cidade Livre</em>, de João Almino (Record); <em>Ribamar</em>, de José Castello (Bertrand Brasil); <em>Minha Guerra Alheia</em>, de Marina Colasanti (Record); <em>Modelos Vivos</em>, de Ricardo Aleixo (Crisálida); e <em>Passageiro do Fim do Dia</em>, de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras).</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Quatro poemas de Manoel de Barros</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 23:32:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Manoel de Barros]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[O que eu não sei fazer desmancho em frases. Eu fiz o nada aparecer. (Represente que o homem é um poço escuro. Aqui de cima não se vê nada. Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.) Perder o nada é um empobrecimento. *** AUTORRETRATO Ao nascer eu não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O que eu não sei fazer desmancho em frases.</p>
<p>Eu fiz o nada aparecer.</p>
<p>(Represente que o homem é um poço escuro.<br />
Aqui de cima não se vê nada.<br />
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver<br />
o nada.)</p>
<p>Perder o nada é um empobrecimento.</em></p>
<p>***</p>
<p>AUTORRETRATO</p>
<p><em>Ao nascer eu não estava acordado, de forma que<br />
não vi a hora.<br />
Isso faz tempo.<br />
Foi na beira de um rio.<br />
Depois eu já morri 14 vezes.<br />
Só falta a última.<br />
Escrevi 14 livros<br />
e deles estou livrado.<br />
São todos repetições do primeiro.<br />
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.)<br />
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.<br />
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,<br />
mas pode que nove.<br />
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.<br />
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um<br />
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,<br />
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.<br />
Tenho uma confissão: noventa por cento do que<br />
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.</em></p>
<p>***</p>
<p>A BORRA</p>
<p><em>Prefiro as palavras obscuras que moram nos<br />
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco<br />
Do que as palavras que moram nos sodalícios –<br />
tipo excelência, conspícuo, majestade.<br />
Também os meus alter egos são todos borra,<br />
ciscos, pobres-diabos<br />
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha<br />
– tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego<br />
Preto etc.<br />
Todos bêbedos ou bocós.<br />
E todos condizentes com andrajos.<br />
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um<br />
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um<br />
almirante, um senador.<br />
Eu perguntei:<br />
Mas quem ficará com os meus abismos se os<br />
pobres-diabos não ficarem?</em></p>
<p>***</p>
<p>POEMA</p>
<p><em>A poesia está guardada nas palavras – é tudo que<br />
eu sei.<br />
Meu fado é o de não saber quase tudo.<br />
Sobre o nada eu tenho profundidades.<br />
Não tenho conexões com a realidade.<br />
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.<br />
Para mim poderoso é aquele que descobre as<br />
insignificâncias (do mundo e as nossas).<br />
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.<br />
Fiquei emocionado e chorei.<br />
Sou fraco para elogios.</em></p>
<p>[in <em>Poesia Completa</em>, Caminho, 2011]</p>
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		<title>Copas</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Mar 2011 23:22:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Tal como a Liga dos Campeões e a Liga Europa da UEFA, a Copa de Literatura Brasileira aproxima-se dos quartos-de-final. Apurados até agora: Andre de Leones, Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa e Joca Reiners Terron.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tal como a Liga dos Campeões e a Liga Europa da UEFA, a <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/edicao-20102011">Copa de Literatura Brasileira</a> aproxima-se dos quartos-de-final. Apurados até agora: Andre de Leones, Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa e Joca Reiners Terron.</p>
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		<title>A materialidade visceral das coisas</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Mar 2011 23:47:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[João Paulo Cuenca]]></category>

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		<description><![CDATA[O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente Autor: João Paulo Cuenca Editora: Caminho N.º de páginas: 172 ISBN: 978-972-21-2399-0 Ano de publicação: 2011 Se o livro anterior de João Paulo Cuenca (O Dia Mastroianni, Caminho, 2009) era um puro divertimento literário sob o signo de Fellini, este novo romance conduz-nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.editorial-caminho.pt/fotos/produtos/500_9789722123990_O%20Unico%20Final%20Feliz%20Para%20Uma%20Historia%20de%20Amor%20e%20Um%20Acidente.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente</strong><br />
<em>Autor:</em> João Paulo Cuenca<br />
<em>Editora:</em> Caminho<br />
<em>N.º de páginas:</em> 172<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-21-2399-0<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2011</p>
<p>Se o livro anterior de João Paulo Cuenca (<em><a href="http://bibliotecariodebabel.com/geral/uma-deriva-felliniana/">O Dia Mastroianni</a></em>, Caminho, 2009) era um puro divertimento literário sob o signo de Fellini, este novo romance conduz-nos através de um labirinto de histórias perversas, algumas das quais podiam perfeitamente encaixar num filme de David Lynch. Fruto de uma estadia do escritor brasileiro na capital do Japão, <em>O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente</em> empurra-nos para uma Tóquio onírica, de néons vermelhos e comboios apinhados, <em>big brothers</em> tecnológicos e delírios nocturnos, sirenes e vertigem, electricidade e betão.<br />
No centro da narrativa – fugidia, fragmentada, alegremente pós-moderna<br />
– está o improvável encontro entre um executivo japonês (Shonsuke) e uma empregada de mesa do Leste europeu (Iulana Romiszowska), par amoroso sob contínua ameaça, cujo triste destino ficamos a conhecer logo no terceiro capítulo. A ameaça vem do pai de Shonsuke, Atsuo Okuda, famoso poeta retirado que espia e controla o filho através de um complexo sistema de vigilância (o “submarino”).<br />
Neste pesadelo narrado com surpreendente leveza, em que há muitas respostas sem pergunta e outras tantas perguntas sem resposta, Cuenca volta a mostrar que é um escritor da materialidade visceral das coisas, dos corpos, do sexo e de todas as superfícies palpáveis. O estilo não deixa de ser realista (se entendermos a realidade como alucinação) e a verosimilhança torna-se infinitamente elástica, abarcando elementos tão díspares como uma sofisticada boneca erótica capaz de sentir ciúme, um fugu (peixe venenoso) das águas geladas do Pacífico Norte ou uma Máquina de Vender Cigarros falante.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 8/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>Fala a boneca</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Mar 2011 23:02:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[João Paulo Cuenca]]></category>

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		<description><![CDATA[«Antes de o Sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro. Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do Sr. Okuda abrir a caixa. Se o Sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o Sr. Okuda abriu a caixa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Antes de o Sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro.<br />
Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do Sr. Okuda abrir a caixa. Se o Sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o Sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko.<br />
E Yoshiko ficou sendo o meu nome.<br />
Depois que o Sr. Okuda disse Yoshiko, eu ganhei, além de um nome, muitos começos e um fim. Eu começo na ponta dos meus dedos, nos fios dos meus cabelos, na planta dos meus pés, nos bicos dos meus peitos, na pele que cobre o vazio que há no meu corpo e em toda a superfície que me faz ser quem eu sou. Não poderia ser outra porque tenho esse corpo, e só eu tenho esse corpo, e eu sou esse corpo.<br />
E o meu fim com esse corpo é um só: servir ao Sr. Okuda.<br />
O Sr. Okuda é o meu mestre, mas não é o meu criador. O meu criador é a Luvdoll Inc., localizada em 4-5-28 Nishi-Kawagushi, na cidade de Kawagushi, província de Saitama. O meu criador seguiu as instruções detalhadas do Sr. Okuda, sob a ordem de encomenda número 2358B. A ordem de encomenda número 2358B, reproduzida em cinco vias que circularam por sessenta e cinco dias pelos diferentes departamentos da Luvdoll Inc., dizia que eu deveria ter olhos castanho-escuros (<em>Pantone 4975C</em>), pele aperolada #5, seios modelo senoide 220 g com 92,5 cm de diâmetro, umbigo com 0,8 cm de profundidade e vagina extrapequena #2, com pelos púbicos em corte vertical, profundidade de 8 cm e 4 cm de circunferência.<br />
Outros detalhes foram adicionados em conversas entre o Sr. Okuda e Luvdoll Inc., pois o Sr. Okuda foi extremamente detalhista em seus pedidos, e isso fez com que a Luvdoll Inc. estabelecesse novas variações na sua linha de produção. Entre outras minúcias inéditas para a Luvdoll Inc., o Sr. Okuda desenhou com detalhes a curvatura dos meus pés, a espessura dos ossos das minhas clavículas e dos quadris.<br />
O Sr. Okuda queria que meus ossos fossem salientes, e assim eles são.<br />
O Sr. Okuda em nenhum momento se identificou para a Luvdoll Inc. E pagou pelo projeto personalizado a quantia de cinquenta milhões de ienes, o que me faz ser a boneca mais cara já produzida no Japão.<br />
O Sr. Okuda é um poeta conhecido e anunciou que parou de escrever há muitos anos. Isso é mentira, porque o Sr. Okuda recita poesias para mim, dizendo que poderia ter pago por mim muito mais do que a quantia de cinquenta milhões de ienes, porque eu sou perfeita e, porque eu sou perfeita, sou também a única pessoa com quem o Sr. Okuda compartilha a sua poesia. Isso o Sr. Okuda também me contou num poema que ele escreveu entre as linhas de outro poema.<br />
O Sr. Okuda só se dirige a mim em versos.<br />
O Sr. Okuda não precisa recitar os versos para que eu os entenda. Eu sei o que ele quer dizer quando olha para mim. Recebo ordens através do seu silêncio porque eu sou esse corpo e esse corpo tem apenas um fim, que é servir ao Sr. Okuda, nem que seja ouvindo suas poesias sobre a minha perfeição, sobre os ciprestes numa estrada de Shikoku, sobre o canto dos pássaros ou, ainda, sobre a poesia em si, tema muito caro ao Sr. Okuda, que ele também infiltra entre as linhas de outros poemas, e entre essas linhas ainda traça outros poemas sobre muitos outros assuntos, alguns que eu mal posso compreender, e assim os poemas e as linhas dos poemas se multiplicam e se intercalam até o infinito, e através delas o Sr. Okuda me faz enxergar não só os belos sentimentos que tem por mim como também o mundo exterior, e o que está sobre ele e abaixo dele, porque eu nunca saí ou sairei de casa, esta que é a minha casa e também a casa do Sr. Okuda.<br />
E, pensando melhor, na verdade a minha casa, a minha única casa, é o Sr. Okuda. Ele mesmo.»</p>
<p>[in <em>O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente</em>, de João Paulo Cuenca, Caminho, 2011]</p>
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		<title>Fora do Brasil</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Feb 2011 17:51:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>

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		<description><![CDATA[Rabo de Foguete &#8211; Os Anos do Exílio Autor: Ferreira Gullar Editora: Verbo N.º de páginas: 284 ISBN: 978-972-22-3008-7 Ano de publicação: 2010 O que mais surpreende em Rabo de Foguete, magnífico resumo dos anos em que Ferreira Gullar viveu fora do Brasil, para escapar à perseguição do regime militar, é a sua estrutura fugidia, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/gullar_exilio3-224x300.jpg" alt="gullar_exilio" title="gullar_exilio" width="224" height="300" class="alignnone size-medium wp-image-12411" /></p>
<p><strong>Rabo de Foguete &#8211; Os Anos do Exílio</strong><br />
<em>Autor:</em> Ferreira Gullar<br />
<em>Editora:</em> Verbo<br />
<em>N.º de páginas:</em> 284<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-22-3008-7<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>O que mais surpreende em <em>Rabo de Foguete</em>, magnífico resumo dos anos em que Ferreira Gullar viveu fora do Brasil, para escapar à perseguição do regime militar, é a sua estrutura fugidia, a simplicidade da prosa e a fluidez narrativa. Sendo um poeta, Gullar não faz poesia nem cede à tentação do lirismo (ou cede apenas em pequenos <em>intermezzi</em> sentimentais, compreensíveis quando estão em causa extremos de felicidade ou angústia).<br />
À medida que se sucedem os capítulos, muito curtos e no osso, acompanhamos o autor numa rememoração que vai avançando aos solavancos, sem pretensões de rigor absoluto, fazendo sobressair certos ângulos das experiências vividas que não serão necessariamente os mais importantes, mas aqueles que deixaram marcas fundas na consciência do escritor (não por acaso, as relações amorosas e as amizades sobrepõem-se claramente às análises sociais ou às reflexões políticas sobre os países por onde foi passando). Dito isto, a escrita despida mas extraordinariamente evocativa de Gullar consegue transmitir-nos, com acutilância, o estado de permanente alerta do exilado, o seu desamparo e solidão, o progressivo alheamento em relação ao que chamamos normalidade e o proverbial instinto de fuga, que é antes do mais um instinto de sobrevivência.<br />
O livro começa com um telefonema no início dos anos 70. Do outro lado da linha, más notícias. Sujeito a tortura, um camarada do Partido Comunista Brasileiro denunciara outros camaradas, entre os quais Gullar, que contra a sua vontade fazia parte da «direcção estadual» do PCB e se vê assim forçado a entrar na clandestinidade. Saltando entre apartamentos de amigos, longe da família, cumpre à risca as estratégias de dissimulação mas acaba por se cansar do «jogo de esconde-esconde».<br />
Quando o cerco aperta, parte para Moscovo, onde fará um curso de seis meses no Instituto Marxista-Leninista. Sob uma identidade falsa (Cláudio), entusiasma-se mais com os seus vários namoricos e aventuras sexuais do que com a doutrinação pesada da escola soviética. Aliás, ao contrário dos outros estrangeiros, ele nunca se coíbe de dizer o que pensa, mesmo se os seus comentários não correspondem ao que os anfitriões desejariam ouvir, o que provoca toda a sorte de embaraços, mal-entendidos e tensões. A estadia num hotel de cinco andares sem água canalizada, numa terrinha perdida nos Urais, funciona então como metáfora de uma sociedade absurda.<br />
O desencanto ideológico acentua-se no Chile, onde chega em Maio de 1973. Em vez de atribuir a queda de Allende, uns meses mais tarde, apenas à ação das forças de direita (apoiadas pelos EUA), Gullar culpa igualmente o radicalismo das esquerdas, para ele um factor que alienou a base de apoio popular do governo socialista. Após o golpe de Pinochet, volta a perseguição, volta o medo, volta a necessidade da fuga, primeiro para o Peru (onde se reúne com a família), depois para a Argentina, onde vive com aflição as crises de esquizofrenia do filho mais velho, que por vezes desaparece meses a fio. As páginas dedicadas à busca de Paulo estão entre as mais comoventes do livro.<br />
Mas o melhor está guardado para o fim: a narração da génese do <em>Poema Sujo</em>, a sua obra-prima. «Imaginei que o melhor caminho para realizar o poema era vomitar de uma só vez, sem ordem lógica ou sintática, todo o meu passado, tudo o que vivera, como homem e como escritor.» É o que faz, para assombro dos amigos que o ouvem ler, em Buenos Aires, aquelas cem páginas vertiginosas. Entre eles, Vinicius de Moraes, companheiro que grava o poema e o põe a circular no Brasil. A onda de admiração gerada contribuirá, mais tarde, para o regresso de Gullar à pátria, em 1977. E quando se livra dos interrogatórios da polícia no Rio, quando se sente novamente livre, o poeta fecha o capítulo do exílio de uma forma muito brasileira: gozando «uma manhã inteira de praia carioca».</p>
<p><em>Avaliação:</em> 8/10</p>
<p>[Texto publicado no n.º 98 da revista <em>Ler</em>]</p>
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		<title>33 anos sem Clarice</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Dec 2010 17:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blogosfera]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Benjamin Moser]]></category>
		<category><![CDATA[Clarice Lispector]]></category>

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		<description><![CDATA[Clarice Lispector morreu a 9 de Dezembro de 1977. Em dia de efeméride, Benjamin Moser, autor de uma excelente biografia da autora de A Paixão segundo G. H., confessa, no blogue da Cosac Naify, ter saudades dessa experiência de imersão absoluta na vida de uma mulher extraordinária.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Clarice Lispector morreu a 9 de Dezembro de 1977. Em dia de efeméride, Benjamin Moser, autor de uma excelente biografia da autora de <em>A Paixão segundo G. H.</em>, confessa, no <a href="http://editora.cosacnaify.com.br/blog/">blogue da Cosac Naify</a>, ter <a href="http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=6113">saudades dessa experiência de imersão absoluta na vida de uma mulher extraordinária</a>.</p>
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		<title>O não dito por dito</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Nov 2010 14:35:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Alguma Parte Alguma Autor: Ferreira Gullar Editora: Ulisseia N.º de páginas: 123 ISBN: 978-972-568-667-6 Ano de publicação: 2010 Mais de seis décadas após a sua estreia literária, Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos do Brasil – se não o maior – venceu este ano o Prémio Camões. Mesmo se justíssima, a consagração oficial [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/alguma-parte.jpg" alt="alguma parte" title="alguma parte" width="222" height="400" class="alignnone size-full wp-image-11420" /></p>
<p><strong>Em Alguma Parte Alguma</strong><br />
<em>Autor:</em> Ferreira Gullar<br />
<em>Editora:</em> Ulisseia<br />
<em>N.º de páginas:</em> 123<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-568-667-6<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>Mais de seis décadas após a sua estreia literária, Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos do Brasil – se não o maior – venceu este ano o Prémio Camões. Mesmo se justíssima, a consagração oficial torna-se quase irrisória ao pé do que verdadeiramente importa aos seus leitores: o regresso à poesia. Onze anos passados sobre o lançamento do anterior livro de inéditos (<em>Muitas Vozes</em>, 1999), surge agora <em>Em Alguma Parte Alguma</em>. A expectativa criada pela longa espera – fruto da lentidão do seu processo criativo – era enorme, talvez excessiva, mas o resultado não defrauda os admiradores de Gullar. Pelo contrário: aos 80 anos, o poeta escreveu uma obra de extraordinária vitalidade, a rebentar de energia, com fôlego imenso, mais próprio de um rapaz na flor da idade do que de um ancião (sendo que a sabedoria e a imensa experiência de vida do ancião se pressentem em cada verso).<br />
Na primeira parte do livro, Gullar entrega-se, de forma sistemática e reiterativa, a uma reflexão sobre os fundamentos essenciais da actividade poética e os limites da linguagem verbal para descrever, ou explicar, a realidade tangível das coisas: «mas / dizer o quê? / dizer / olor de fruta / cheiro de jasmim? // mas / como dizê-lo / se a fala não tem cheiro?» A verdade é que uma palavra nunca corresponde totalmente à coisa que nomeia, porque «a coisa / (o ser) / repousa / fora de toda / fala / ou ordem sintática // e o dito (a / não coisa) é só / gramática». Daí que ao poeta, diante da página em branco, caiba apenas o «aflito silêncio» de quem se esforça, em voz baixa, não por revelar o oculto mas por inventá-lo: «O poema / antes de escrito / antes de ser / é a possibilidade / do que não foi dito / do que está por dizer». Para que a poesia aconteça, o poeta tem então de pôr ordem na desordem e dar «o não dito por dito», única forma de resgatar «o que se nega / à fala / o que escapa / ao acurado apuro / do dizer». Ou seja: «a borra / a sobra / a escória / a incúria / o não caber».<br />
Não se julgue, porém, que esta abordagem do trabalho poético se fica por abstracções. Mesmo nos poemas mais reflexivos, a escrita de Gullar é sempre física, material, seja na descrição do próprio corpo envelhecido (feito de ossos: a cabeça do fémur em atrito com a bacia, mais o perónio que é «a mais dura parte de mim / dura mais do que tudo o que ouço / e penso / mais do que tudo o que invento / e minto»), seja nas várias aproximações à brutalidade impalpável de um aroma de jasmim «no limite do veneno»; na recorrência do «perfume das bananas apodrecendo» na loja fechada do pai, há tantos anos; ou ainda no cheiro a alfazema que «dorme manso nas gavetas de roupas / em São Luís / e reacende o perdido». Do passado chegam emoções difusas e imagens fortes, como a da corola de um «vermelho-queimado» que já não murcha nem atrai abelhas, porque «apenas fulge / em alguma parte alguma / da vida», à espera de ser captada pelo exercício da memória, «essa / antimatéria que pode / num átimo/ reacender o que na matéria / se apagara para sempre».<br />
Quem tenha lido o genial <em><a href="http://bibliotecariodebabel.com/criticas/entre-fulgor-e-lepra/">Poema Suj</a>o</em>, de 1975 (editado há poucos meses pela Ulisseia), reconhecerá algumas ideias: por exemplo, a pêra vista como um sistema de açúcar e álcool que se desfaz, ou as diferentes velocidades a que se move uma cidade. Mas se nessa obra torrencial e magnética se tentava reconstituir um lugar e um tempo (os dias da infância em São Luís do Maranhão), evocados no desespero do exílio, aqui o movimento é ao mesmo tempo mais contido e mais amplo. Há talvez menos visceralidade, menos denúncia dos males do mundo (ou do Brasil), mas uma maior consciência de si mesmo na escala cósmica. Entre o fascínio com o gigantismo das galáxias distantes, onde brilham estrelas talvez já mortas, e a contemplação do gato enrodilhado na cadeira, da planta no vaso da sala, de um louva-deus, de uma aranha que vive nas «encardidas páginas» de um dicionário de Filosofia, nascem toda a sorte de maravilhamentos e epifanias.<br />
Depois, a par com esta espécie de panteísmo sem necessidade de Deus, há uma sombra que alastra pelo livro: a da finitude de todas as coisas. «A morte / presença e ocultação / circula luminosa», lembra-nos o poeta. A morte dos outros, esses defuntos que se acomodam «a meu lado/ como numa fotografia». Mas também o seu próprio fim, antecipado sem morbidez: «vinda a morte/ (&#8230;) serei o que alguém acaso/ salve/ do olvido». Uma esperança que Gullar, no último poema, projecta na figura de Rainer Maria Rilke: «desfeita a garganta e a mão e a mente/ findo aquele que/ de modo próprio/ dizia a vida/ resta-nos buscá-lo nos poemas/ onde nossa leitura/ de algum modo/ acenderá outra vez sua voz».</p>
<p><em>Avaliação:</em> 9/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>Quatro poemas de Ferreira Gullar</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/literatura-brasileira/quatro-poemas-de-ferreira-gullar/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 23:41:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA</p>
<p><em>A parte mais durável de mim<br />
são os ossos<br />
e a mais dura também</p>
<p>como, por exemplo, este osso<br />
da perna<br />
que apalpo<br />
sob a macia cobertura</p>
<p>ativa<br />
de carne e pele<br />
que o veste e inteiro<br />
me reveste<br />
dos pés à cabeça<br />
esta vestimenta<br />
fugaz e viva</p>
<p>sim, este osso<br />
a mais dura parte de mim<br />
dura mais do que tudo o que ouço<br />
e penso<br />
mais do que tudo o que invento<br />
e minto<br />
este osso<br />
dito perônio<br />
é, sim,<br />
a parte mais mineral<br />
e obscura</p>
<p>de mim<br />
já que à pele<br />
e à carne<br />
irrigam-nas o sonho e a loucura</p>
<p>têm, creio eu,<br />
algo de transparente<br />
e dócil<br />
tendem a solver-se<br />
a esvanecer-se<br />
para deixar no pó da terra<br />
o osso<br />
o fóssil</p>
<p>futura<br />
peça de museu</p>
<p>o osso<br />
este osso<br />
(a parte de mim<br />
mais dura<br />
e a que mais dura)<br />
é a que menos sou eu?</em></p>
<p>***</p>
<p>FALAR</p>
<p><em>A poesia é, de fato, o fruto<br />
de um silêncio que sou eu, sois vós,<br />
por isso tenho que baixar a voz<br />
porque, se falo alto, não me escuto.</p>
<p>A poesia é, na verdade, uma<br />
fala ao revés da fala,<br />
como um silêncio que o poeta exuma<br />
do pó, a voz que jaz embaixo<br />
do falar e no falar se cala.<br />
Por isso o poeta tem que falar baixo<br />
baixo quase sem fala em suma<br />
mesmo que não se ouça coisa alguma.</em></p>
<p>***</p>
<p>INSETO</p>
<p><em>Um inseto é mais complexo que um poema<br />
Não tem autor<br />
Move-o uma obscura energia<br />
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica</p>
<p>Também mais complexo<br />
que uma hidrelétrica<br />
é um poema<br />
(menos complexo que um inseto)</p>
<p>e pode às vezes<br />
(o poema)<br />
com sua energia<br />
iluminar a avenida<br />
ou quem sabe<br />
uma vida</em></p>
<p>***</p>
<p>GALÁXIA</p>
<p><em>Aqui estive<br />
neste<br />
banheiro branco<br />
de piso branco<br />
de louça fria</p>
<p>aqui estive<br />
(estou) neste hoje<br />
dia 3 de fevereiro<br />
de 2003</p>
<p>aqui<br />
dentro deste silêncio<br />
de banheiro (de<br />
pia, de torneira<br />
de vaso sanitário<br />
de bidê)<br />
estou<br />
mortal<br />
e conformado</p>
<p>estou<br />
num tempo branco<br />
pequeno (2m por<br />
2m) e eterno?<br />
fora da morte, eu,<br />
futuro morto</p>
<p>e lá fora chispa<br />
a tarde célere<br />
e clara<br />
(lampejo na<br />
areia ofuscante)<br />
na praia atravessada de veículos<br />
que vão e vêm<br />
pela avenida ruidosa<br />
tendo ao fundo<br />
horizontal<br />
a massa pesada e azul<br />
da baía</p>
<p>lá fora (fora<br />
do banheiro, fora<br />
da casa)<br />
a cidade é uma galáxia<br />
a mover-se desigual<br />
em seus diferentes estratos<br />
veloz e lenta<br />
e em contraditórias direções</p>
<p>uma galáxia<br />
que em seu girar arrasta<br />
nossas vidas, nossas<br />
casas, nossas<br />
caixas<br />
de lembranças<br />
cheias de papéis velhos e fotos<br />
doídas<br />
de olhos que nos fitam<br />
de tempo algum<br />
agora que são apenas manchas<br />
e não obstante falam ainda<br />
na poeira do cemitério doméstico<br />
misturado com fungo e mofo<br />
à beira do buraco voraz</p>
<p>e a galáxia urbana<br />
tem como as outras<br />
cósmicas<br />
insondáveis labirintos<br />
de espaços e tempos e mais<br />
os tempos humanos da memória, essa<br />
antimatéria que pode<br />
num átimo<br />
reacender o que na matéria<br />
se apagara para sempre</p>
<p>assim<br />
a cidade girando<br />
arrasta em seu giro<br />
pânicos destinos desatinos<br />
risos choros<br />
luzi-luzindo nos cômodos sombrios<br />
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,<br />
e misturados às conversas na cozinha<br />
ou na área de serviço<br />
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,<br />
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,<br />
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta<br />
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e<br />
macaquinhos<br />
lépidos a se moverem, seres que são daquele universo de folhas,<br />
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,<br />
tudo girando em torno deste imaginário eixo<br />
—o banheiro,<br />
onde estou<br />
(onde estive)<br />
e donde apenas ouço<br />
o acelerar do motor de um ônibus<br />
(talvez)<br />
que passa pela rua Duvivier<br />
não sei com que destino.</em></p>
<p>[in <em>Em Alguma Parte Alguma</em>, Ulisseia, 2010] </p>
<p><strong>Nota</strong> – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica dos poemas. </p>
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		<title>A terrível simetria</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Sep 2010 20:50:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Rubem Fonseca]]></category>

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		<description><![CDATA[O seminarista Autor: Rubem Fonseca Editora: Sextante N.º de páginas: 129 ISBN: 978-989-676-023-6 Ano de publicação: 2010 O protagonista e narrador deste romance de Rubem Fonseca é um assassino a soldo, «conhecido como o Especialista» por ser o melhor no seu ofício. De tempos a tempos, recebe encomendas de um misterioso Despachante para fazer «serviços [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/Seminarista.jpg" alt="Seminarista" title="Seminarista" width="161" height="250" class="alignnone size-full wp-image-10855" /></p>
<p><strong>O seminarista</strong><br />
<em>Autor:</em> Rubem Fonseca<br />
<em>Editora:</em> Sextante<br />
<em>N.º de páginas:</em> 129<br />
<em>ISBN:</em> 978-989-676-023-6<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>O protagonista e narrador deste romance de Rubem Fonseca é um assassino a soldo, «conhecido como o Especialista» por ser o melhor no seu ofício. De tempos a tempos, recebe encomendas de um misterioso Despachante para fazer «serviços específicos», executados com eficácia, inteligência e sem quaisquer sentimentos de culpa («para um matador profissional a pior coisa do mundo é ter uma consciência»).<br />
Nos primeiros capítulos, o Especialista começa por explicar como realizou alguns dos trabalhos. Se os «fregueses» (nome dado às vítimas) merecem de facto morrer é questão que não o preocupa, mas claro que prefere eliminar «gente ruim» – um pedófilo, um violador de cadáveres roubados no cemitério, um outro assassino profissional –, embora não fique sem dormir por abater à queima-roupa alguém que se mascarou de Pai Natal ou um «freguês» que se desloca em cadeira de rodas, mais a sua enfermeira. O <em>modus operandi</em>, esse, não varia: «Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»<br />
Um dia, decide retirar-se. Com o rendimento dos trabalhos, pagos a peso de ouro, juntou um bom pé-de-meia. Agora quer gozar a vida. Ex-seminarista ateu (do seminário, guardou apenas o hábito de fazer citações em latim), as coisas de que mais gosta são: o cinema (em DVD); a literatura (sobretudo poesia); e ir para a cama com mulheres – não necessariamente por esta ordem. Gosta ainda de vinho, de árvores, de futebol (é torcedor do Vasco da Gama) e de ouvir <em>rock</em> muito alto no mp3. Todo um programa para uma reforma dourada.<br />
Acontece que a condição de assassino não se abandona assim com tanta facilidade, especialmente quando lá para trás ficaram problemas mal resolvidos. Por muito que o Especialista mude de nome (passa a chamar-se José Joaquim Kibir, em homenagem a um antepassado que escapou da «carnificina de Alcácer-Quibir», essa batalha em que «Portugal se fodeu») e se apaixone por uma alemã que adora Clarice Lispector, a «terrível simetria» da pistola Glock volta a arrastá-lo para o mundo negro dos crimes de sangue.<br />
O que se segue é uma intriga complicada em que toda a gente quer matar toda a gente, um novelo tarantinesco de traições e ajustes de contas sucessivos (um pouco à maneira do que Dinis Machado fez em <em>Blackpot</em>), trama algo caótica e completamente inverosímil, culminando num crescendo de violência – profusão de dedos partidos, balas nas têmporas, línguas cortadas, choques eléctricos nos testículos, olhos furados – que funciona como uma paródia do <em>thriller</em> e seus lugares-comuns, sublinhados pelo recurso à ironia e ao exagero. O que importa aqui verdadeiramente, porém, é a escrita, a linguagem flexível, precisa e inventiva de Rubem Fonseca, a sua prosa <em>cantabile</em>, os seus magníficos diálogos.<br />
Aos 85 anos, Fonseca continua a ser um dos maiores mestres no uso da língua portuguesa. E <em>O Seminarista</em>, mesmo ficando aquém de outros romances seus, como <em>A grande arte</em> ou <em>Bufo &#038; Spallanzani</em> (a editar pela Sextante em Fevereiro de 2011), é uma prova eloquente dessa mestria.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 8/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>&#8216;La Folie et l&#8217;Amour&#8217;</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Sep 2010 22:54:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blogosfera]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Aldyr Garcia Schlee]]></category>

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		<description><![CDATA[Um belíssimo conto inédito do escritor brasileiro Aldyr Garcia Schlee.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um <a href="http://ardotempo.blogs.sapo.pt/502509.html">belíssimo conto inédito</a> do escritor brasileiro Aldyr Garcia Schlee.</p>
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		<title>Um tiro no Pai Natal</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Sep 2010 14:33:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Rubem Fonseca]]></category>

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		<description><![CDATA[«Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff, D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços. O último foi na véspera do Natal. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff, D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços.<br />
O último foi na véspera do Natal. O Despachante deu-me um endereço e disse onde encontrar o freguês, que estava dando uma festa para um monte de gente. Bastava chegar com um embrulho de papel colorido que eu entrava na casa. O Despachante era um cara magro e alto, muito branco, louro, e estava sempre de terno preto, camisa branca, gravata preta e óculos escuros. Ele me pagava bem.<br />
&#8220;O freguês está vestido de Papai Noel e tem uma berruga no rosto ao lado direito do nariz.&#8221;<br />
Sempre odiei, desde criança, esses papais-noéis fazendo Ô! Ô! Ô! Sei que o ódio é um surto de insanidade, como disse Horácio, <em>Ira furor brevis est</em>, mas ninguém está livre dele. Vesti uma roupa alinhada, peguei uma caixa vazia e fiz um enorme embrulho de presente. Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês.<br />
Para sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel. &#8220;Entra, entra&#8221;, ele disse, &#8220;Feliz Natal!&#8221;<br />
&#8220;Faz Ô! Ô! Ô! pra mim&#8221;, pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz.<br />
&#8220;Ô! Ô! Ô!&#8221;, ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»</p>
<p>[Primeira página do romance <em>O seminarista</em>, de Rubem Fonseca, edição portuguesa da Sextante, nas livrarias a partir de amanhã]</p>
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		<title>Velocidades</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Sep 2010 08:51:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[«(…) É impossível dizer em quantas velocidades diferentes se move uma cidade a cada instante (sem falar nos mortos que voam para trás) ou mesmo uma casa onde a velocidade da cozinha não é igual à da sala (aparentemente imóvel nos seus jarros e bibelôs de porcelana) nem à do quintal escancarado às ventanias da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>«(…) É impossível dizer<br />
em quantas velocidades diferentes<br />
se move uma cidade<br />
a cada instante<br />
(sem falar nos mortos<br />
que voam para trás)<br />
ou mesmo uma casa<br />
onde a velocidade da cozinha<br />
não é igual à da sala (aparentemente imóvel<br />
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)<br />
nem à do quintal<br />
escancarado às ventanias da época</p>
<p>e que dizer das ruas<br />
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro<br />
e das mercadorias<br />
desigual segundo o bairro e a classe, e da<br />
rotação do capital<br />
mais lenta nos legumes<br />
mais rápida no setor industrial, e<br />
da rotação do sono<br />
sob a pele,<br />
do sonho<br />
nos cabelos?</p>
<p>e as tantas situações da água nas vasilhas<br />
(pronta a fugir)<br />
a rotação<br />
da mão que busca entre os pentelhos<br />
o sonho molhado os muitos lábios<br />
do corpo<br />
que ao afago se abre em rosa, a mão<br />
que ali se detém a sujar-se<br />
de cheiros de mulher,<br />
e a rotação<br />
dos cheiros outros<br />
que na quinta se fabricam<br />
junto com a resina das árvores e o canto<br />
dos passarinhos?</p>
<p>Que dizer da circulação<br />
da luz solar<br />
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa<br />
entre sapatos?<br />
e da circulação<br />
dos gatos pela casa<br />
dos pombos pela brisa?<br />
e cada um desses fatos numa velocidade própria<br />
sem falar na própria velocidade<br />
que em cada coisa há<br />
como os muitos<br />
sistemas de açúcar e álcool numa pêra,<br />
girando todos em diferentes ritmos<br />
(que quase<br />
se podem ouvir)<br />
e compondo a velocidade geral<br />
que a pêra é</p>
<p>do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas<br />
compõem<br />
(nosso rosto refletido na água do tanque)<br />
o dia<br />
que passa<br />
— ou passou —<br />
na cidade de São Luís. (…)»</em></p>
<p>[in <em>Poema Sujo</em>, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010] </p>
<p><strong>Nota</strong> – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Entre fulgor e lepra</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 19:32:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Poema Sujo Autor: Ferreira Gullar Editora: Ulisseia N.º de páginas: 62 ISBN: 978-972-568-633-1 Ano de publicação: 2010 Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro Poema Sujo ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://3.bp.blogspot.com/_Ip2I0uwnEsA/TEgSxgImqeI/AAAAAAAAAPk/oZgl3_xO52I/S220/poema+sujo+com+cinta.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Poema Sujo</strong><br />
<em>Autor:</em> Ferreira Gullar<br />
<em>Editora:</em> Ulisseia<br />
<em>N.º de páginas:</em> 62<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-568-633-1<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro <em>Poema Sujo</em> ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente a sugerir, está decerto entre os mais importantes poemas da língua portuguesa no século XX. Não é pouco.<br />
Escrito em 1975, aos 45 anos, no exílio a que o forçou a ditadura militar (instaurada em 1964), este texto começa por ser o grito de revolta de um desterrado. Em Buenos Aires, longe da «pátria de mato e ferrugem», Gullar empreende um canto de si mesmo digno de Walt Whitman, na amplitude expressiva e no confessionalismo visceral (o corpo como agente do conhecimento do mundo), mas também um canto sobre as contingências históricas do Brasil e sobre a sua infância em São Luís do Maranhão, «minha úmida cidade / constantemente batida de muitos ventos».<br />
Deixados para trás os experimentalismos concretistas e neoconcretistas, o poeta mergulha de cabeça na «profusão das coisas acontecidas», capta «a vida a explodir por todas as fendas da cidade» e entrega-se ao enigma da existência com o seu «corpo-galáxia aberto a tudo».<br />
A escrita é torrencial, há súbitas mudanças de ritmo, disrupções, amálgamas de imagens, alternância de registos (a linguagem tanto pode ascender às altas esferas líricas como descer ao prosaísmo mais literal), mas Gullar nunca se afasta da «muda carne das coisas». Isto é, da sua natureza impura: «E também rastejais comigo / pelos túneis das noites clandestinas / sob o céu constelado do país / entre fulgor e lepra / debaixo de lençóis de lama e de terror».<br />
Aqui, as palavras impregnam-se de «graves cheiros indecifráveis» (o cheiro da miséria e do amor, «de umbigo e de vagina»), compondo o retrato em movimento de um «corpo feito de água / e cinza» (o do poeta, «1,70m que é meu tamanho no mundo»), de rios que apodrecem, de um comboio transformado em onomatopeias ferroviárias, de histórias de uma época — a II Guerra Mundial — em que «a poesia não existia ainda», de um bairro pobre construído em palafitas sobre o lodo (assombrando um coração «aliado da classe operária»), de dias que se desdobram uns nos outros, enlaçando-se «como anéis de fumaça».<br />
Na verdade, este livro tão belo quanto cru faz-se essencialmente de «matéria-tempo». Tempo que jorra, se amontoa e propaga a diferentes velocidades, sem um centro fixo: «E do mesmo modo / que há muitas velocidades num / só dia / e nesse mesmo dia muitos dias / assim / não se pode também dizer que o dia / tem um único centro / (feito um caroço / ou um sol) / porque na verdade um dia / tem inumeráveis centros».</p>
<p><em>Avaliação:</em> 9,5/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<item>
		<title>São Luís do Maranhão</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 14:44:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[«(&#8230;) Ah, minha cidade verde minha úmida cidade constantemente batida de muitos ventos rumorejando teus dias à entrada do mar minha cidade sonora esferas de ventania rolando loucas por cima dos mirantes e dos campos de futebol verdes verdes verdes verdes ah sombra rumorejante que arrasto por outras ruas Desce profundo o relâmpago de tuas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>«(&#8230;) Ah, minha cidade verde<br />
minha úmida cidade<br />
constantemente batida de muitos ventos<br />
rumorejando teus dias à entrada do mar<br />
minha cidade sonora<br />
esferas de ventania<br />
rolando loucas por cima dos mirantes<br />
e dos campos de futebol<br />
verdes verdes verdes verdes<br />
ah sombra rumorejante<br />
que arrasto por outras ruas</p>
<p>Desce profundo o relâmpago<br />
de tuas águas em meu corpo,<br />
desce tão fundo e tão amplo<br />
e eu me pareço tão pouco<br />
pra tantas mortes e vidas<br />
que se desdobram<br />
no escuro das claridades,<br />
na minha nuca,<br />
no meu cotovelo, na minha arcada dentária<br />
no túmulo da minha boca<br />
palco de ressurreições<br />
inesperadas<br />
(minha cidade<br />
canora)<br />
de trevas que já não sei<br />
se são tuas se são minhas<br />
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu<br />
corpo?)<br />
lampeja<br />
o jasmim<br />
ainda que sujo da pouca alegria reinante<br />
naquela rua vazia<br />
cheia de sombras e folhas (&#8230;)»</em></p>
<p>[in <em>Poema Sujo</em>, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010] </p>
<p><strong>Nota</strong> – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema. </p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Processo de amanhecer e fabricação de uma noite</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/excertos/processo-de-amanhecer-e-fabricacao-de-uma-noite/</link>
		<comments>http://bibliotecariodebabel.com/excertos/processo-de-amanhecer-e-fabricacao-de-uma-noite/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 16:53:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[«(&#8230;) Como se o tempo durante a noite ficasse parado junto com a escuridão e o cisco debaixo dos móveis e nos cantos da casa (mesmo dentro do guarda-roupa, o tempo, pendurado nos cabides) E essa sensação é ainda mais viva quando a gente acorda tarde e depara com tudo claro e já funcionando: pássaros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«(&#8230;) <em>Como se o tempo<br />
durante a noite<br />
ficasse parado junto<br />
com a escuridão e o cisco<br />
debaixo dos móveis e<br />
nos cantos da casa<br />
(mesmo dentro<br />
do guarda-roupa,<br />
o tempo,<br />
pendurado nos cabides)<br />
E essa sensação<br />
é ainda mais viva<br />
quando a gente acorda tarde<br />
e depara com tudo claro<br />
e já funcionando: pássaros<br />
árvores vendedores de legumes</p>
<p>Mas também<br />
quando a gente acorda cedo e fica<br />
deitado assuntando<br />
o processo de amanhecer:<br />
os primeiros passos na rua<br />
os primeiros<br />
ruídos na cozinha<br />
até que de galo em galo<br />
um galo<br />
rente a nós<br />
explode<br />
(no quintal)<br />
e a torneira do tanque de lavar roupas<br />
desanda a jorrar manhã</p>
<p>A noite nos faz crer<br />
(dada a pouca luz)<br />
que o tempo é um troço<br />
auditivo.<br />
Concluídos os afazeres noturnos<br />
(que encheram a casa de rumores,<br />
inclusive as últimas conversas no quarto)<br />
quando enfim a família inteira dorme –<br />
o tempo se torna um fenômeno<br />
meramente químico<br />
que não perturba<br />
(antes<br />
propicia)<br />
o sono.<br />
Não obstante,<br />
alguém que venha da rua<br />
– tendo caminhado sob a fantástica imobilidade<br />
da Via-Láctea –<br />
pode ter a impressão,<br />
diante daqueles corpos adormecidos,<br />
de que o universo morreu<br />
(quando de fato<br />
em todas as torneiras da cidade<br />
a manhã está prestes a jorrar)</p>
<p>Menos, claro,<br />
nas palafitas da Baixinha, à margem<br />
da estrada de ferro,<br />
onde não há água encanada:<br />
ali<br />
o clarão contido sob a noite<br />
não é<br />
como na cidade<br />
o punho fechado da água dentro dos canos:<br />
é o punho<br />
da vida<br />
fechada dentro da lama</p>
<p>Já por aí se vê<br />
que a noite não é a mesma<br />
em todos os pontos da cidade;<br />
a noite<br />
não tem na Baixinha<br />
a mesma imobilidade<br />
porque a luz da lamparina<br />
não hipnotiza as coisas<br />
como a electricidade<br />
hipnotiza:<br />
embora o tempo ali também não escorra,<br />
não flua: bruxuleia<br />
se debate<br />
numa gaiola de sombras.<br />
Mas o que mais distancia<br />
essa noite da Baixinha<br />
das outras<br />
é o cheiro: melhor dizendo<br />
o mau cheiro<br />
que ela tem como certos animais<br />
na sua carne de lodo<br />
e daí poder dizer-se<br />
que a noite da Baixinha<br />
não passa, não<br />
transcorre:<br />
apodrece</p>
<p>Numa coisa que apodrece<br />
– tomemos um exemplo velho:<br />
uma pêra –<br />
o tempo<br />
não escorre nem grita,<br />
antes<br />
se afunda em seu próprio abismo,<br />
se perde<br />
em sua própria vertigem,<br />
mas tão sem velocidade<br />
que em lugar de virar luz vira<br />
escuridão:<br />
o apodrecer de uma coisa<br />
de fato é a fabricação<br />
de uma noite:<br />
seja essa coisa<br />
uma pêra num prato seja<br />
um rio num bairro operário»</em></p>
<p>[in <em>Poema Sujo</em>, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010] </p>
<p><strong>Nota</strong> &#8211; Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.   </p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Quatro poemas de Mariana Ianelli</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Aug 2010 19:08:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Mariana Ianello]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[HERCULANO Estranha manhã, em Herculano, Nos entrelaçamos como uma aranha. Temos todo o tempo e o tempo é curto, Em um minuto o passado elabora O museu do futuro. Podemos ainda amar a casa, Encher as taças, Inventar algum desejo pequeno Com ares de importante. Qualquer disparate Nós podíamos, se quiséssemos, Uma fresta de esquecimento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>HERCULANO</p>
<p><em>Estranha manhã, em Herculano,<br />
Nos entrelaçamos como uma aranha.<br />
Temos todo o tempo e o tempo é curto,<br />
Em um minuto o passado elabora<br />
O museu do futuro.</p>
<p>Podemos ainda amar a casa,<br />
Encher as taças,<br />
Inventar algum desejo pequeno<br />
Com ares de importante.</p>
<p>Qualquer disparate<br />
Nós podíamos, se quiséssemos,<br />
Uma fresta de esquecimento<br />
Onde tudo condensa memória.</p>
<p>Preferimos o momento ele puro, de calcário,<br />
A fina arte da escultura.</p>
<p>Pouco importa a cara sufocada,<br />
O corpo flagrado na posição do susto.<br />
Passará a tempestade de pó,<br />
A febre arreganhada passará, o escuro.</p>
<p>Não passará minha solidão socorrendo a tua.</em></p>
<p>***</p>
<p>MEMORANDO</p>
<p><em>Não há grandes notícias.</p>
<p>Uma torre desapareceu,<br />
O inverno expandiu-se<br />
E a esperança ainda rói<br />
O fundo de uma caixa<br />
Procurando saída.</p>
<p>Com esculpido esmero<br />
Vai se acabando uma família.</p>
<p>Um gesto qualquer se repete<br />
No ensaio de ser abolido,<br />
Remediar, abafar, corrigir,<br />
Nada lembra o que antes foi só<br />
Generosidade de coisa viva.</p>
<p>Não convém<br />
O alvoroço dos pássaros,<br />
A revanche da galhardia.<br />
É inútil desafiar o pó<br />
E, contudo, desafia-se.</em></p>
<p>***</p>
<p>DESCENDÊNCIA</p>
<p><em>Sou o poema tresmalhado<br />
Que um lobo traz à boca<br />
Como prêmio<br />
De um passeio ao campo.</p>
<p>Vive em mim<br />
O irmão mais velho<br />
Debruçado sobre o chão<br />
Cavando, cavando com as unhas.</p>
<p>Aqui uma cidade se levanta,<br />
Força e música,<br />
Já a prostituta distribui<br />
Os seus encantos.</p>
<p>Uma primeira espada<br />
Delizando<br />
E há o deserto em mim,<br />
Que seca todo pranto.</p>
<p>Morre aqui eternamente<br />
O ladrão do fogo,<br />
Morre Abel, a cada verso<br />
A terra faz ouvir seu sangue.</p>
<p>O animal que há milênios<br />
Me carrega<br />
Tem a marca<br />
Da educação pela sombra.</em></p>
<p>***</p>
<p>DIANTE DA PAISAGEM</p>
<p><em>Minha espera mortiça<br />
Dita saudade<br />
Com fogo e buril<br />
Ganha outro nome<br />
E como todos os nomes<br />
Anseia a carne.</p>
<p>Relâmpago<br />
Na madrugada<br />
Sem testemunha<br />
Além dos meus olhos<br />
E uma estampa<br />
De mãos pré-históricas<br />
Num fundo de pedra<br />
Deixa o rastro<br />
No poema<br />
Da seiva que emana<br />
De pai para filho<br />
E me convoca.</p>
<p>Dom de ser o cordeiro<br />
Desgarrado do adeus,<br />
De lançar vida nos baldios,<br />
Perder ruínas,<br />
Bendita vida, trigueira vida<br />
Pasmando o nada.</em></p>
<p>[in <em>Treva Alvorada</em>, Iluminuras (São Paulo, Brasil), 2010]</p>
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		<title>Quatro poemas de Daniel Francoy</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Jul 2010 10:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Daniel Francoy]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[A CHUVA A chuva distorce o claro e o escuro, e quase apaga os rostos do homem e da mulher que estão parados na esquina, sob a marquise. Talvez seja melhor assim; pensar que os rostos ainda existem porque a esquina ainda existe e porque chove como antes. Talvez seja melhor esquecer que os rostos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A CHUVA</p>
<p><em>A chuva distorce o claro e o escuro,<br />
e quase apaga os rostos<br />
do homem e da mulher que estão parados<br />
na esquina, sob a marquise.</p>
<p>Talvez seja melhor assim;<br />
pensar que os rostos ainda existem<br />
porque a esquina ainda existe<br />
e porque chove como antes.<br />
Talvez seja melhor esquecer<br />
que os rostos se desmancharam<br />
como se fossem feitos de cera<br />
ou de qualquer outra matéria pálida.</em></p>
<p>***</p>
<p>MENINOS EM FÉRIAS</p>
<p><em>As pipas que plainam livres e serenas.<br />
Montá-las exige a perícia de Dédalo<br />
e mantê-las no ar a audácia de Ícaro.<br />
Mas os meninos ignoram os deuses<br />
e pouco importa que as ruas da cidade<br />
sejam o labirinto onde vive o minotauro.<br />
O que os meninos desejam é o céu<br />
e se uma pipa adeja sem dono<br />
uma multidão de crianças a persegue<br />
ainda que ela se misture ao sol:<br />
pouco importa a queda de Ícaro<br />
se a infância é o mais duradouro mito.</em></p>
<p>***</p>
<p>AGOSTO OU A CHEGADA DO CALOR</p>
<p><em>Julho se esfarela e agosto<br />
ergue-se sobre as nossas cabeças –<br />
esbrasear limpo e antigo que desperta<br />
a paixão pelas línguas latinas<br />
e na chama da candeia acesa<br />
busco versos que me falam do calor,<br />
do medo da morte violenta,<br />
das empoeiradas brisas no crepúsculo,<br />
das faces turvadas pela marijuana,<br />
das mulheres perfumadas após o banho,<br />
das crianças que brincam na noite,<br />
do luar que umedece as sombras,<br />
dos vaga-lumes em praças alegres,<br />
do jasmim que dorme ao relento<br />
e das cidades onde o silêncio é um marulho.<br />
Esbrasear limpo e antigo, tão enrodilhado<br />
na primavera que a sufoca e mata.</em></p>
<p>***</p>
<p>WALESKA</p>
<p><em>Todos desprezam e debocham de Waleska,<br />
Waleska julga serem gente<br />
os seus animais de estimação,<br />
é virgem aos vinte e dois anos,<br />
é magra, tem a pele seca, os seios murchos<br />
e a voz aguda não anuncia uma mulher<br />
apetecida pelos homens.<br />
Mas creio que Waleska se fecha no quarto<br />
e lá, livre dos deboches e dos olhares,<br />
as pernas se entreabrem úmidas<br />
e o êxtase que turva os olhos desamparados<br />
a deixa inesperadamente bela.</em></p>
<p>[in <em>Em Cidade Estranha, seguido de Retratos de Mulheres</em>, Artefacto, 2010]</p>
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		<title>O que aí vem (Babel)</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Jul 2010 10:52:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>

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		<description><![CDATA[Aproveitando o impacto mediático da recente atribuição a Ferreira Gullar do Prémio Camões, a Babel vai iniciar a publicação integral da obra do escritor brasileiro. Já no prelo, com lançamento previsto ainda para este mês de Julho, está uma das obras essenciais de Gullar: o livro Poema Sujo, escrito em 1975, durante o exílio na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aproveitando o impacto mediático da recente atribuição a Ferreira Gullar do Prémio Camões, a Babel vai iniciar a publicação integral da obra do escritor brasileiro. Já no prelo, com lançamento previsto ainda para este mês de Julho, está uma das obras essenciais de Gullar: o livro <em>Poema Sujo</em>, escrito em 1975, durante o exílio na Argentina (onde se refugiou durante a ditadura militar). Vinicius de Moraes referia-se a <em>Poema Sujo</em> como «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últi­mas décadas». Em Setembro, surgirá o muito esperado novo livro de poemas de Gullar, <em>Em Alguma Parte Alguma</em>, coincidindo com a edição brasileira (José Olympio), já apontada como um dos acontecimentos editoriais do ano no Brasil (é o primeiro de poesia que Gullar publica desde <em>Muitas Vozes</em>, de 1999). Seguir-se-ão mais dois volumes: <em>Cidades Inventadas</em> (ficção) e <em>Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio</em> (memórias).</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A separação interminável</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jul 2010 23:21:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Carola Saavedra]]></category>

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		<description><![CDATA[Flores Azuis Autora: Carola Saavedra Editora: Livros de Seda N.º de páginas: 136 ISBN: 978-972-770-754-6 Ano de publicação: 2010 Segundo romance de Carola Saavedra (n. 1973), Flores Azuis confirmou esta autora como uma das maiores revelações da ficção em língua portuguesa recente. Além de ter sido finalista do Prémio Jabuti 2009, a obra ganhou a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.livrosdeseda.pt/files/BOOKS/covers/128_MAIN.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Flores Azuis</strong><br />
<em>Autora:</em> Carola Saavedra<br />
<em>Editora:</em> Livros de Seda<br />
<em>N.º de páginas:</em> 136<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-770-754-6<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>Segundo romance de Carola Saavedra (n. 1973), <em>Flores Azuis</em> confirmou esta autora como uma das maiores revelações da ficção em língua portuguesa recente. Além de ter sido finalista do Prémio Jabuti 2009, a obra ganhou a edição do ano passado da Copa Brasileira de Literatura – um curioso torneio na Internet em que vários críticos literários decidem o resultado de duelos directos entre 16 livros. Ao triunfar na finalíssima contra <em>Galiléia</em>, de Ronaldo Correia de Brito, após três eliminatórias, <em>Flores Azuis</em> ofereceu à quase estreante uma inesperada vitória sobre autores consagrados ou em vias de consagração, como Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Patrícia Melo, João Gilberto Noll ou Lourenço Mutarelli.<br />
O protagonista do romance é Marcos, um arquitecto falhado e em crise (separou-se da mulher e da filha de três anos), incapaz de resistir à tentação de violar correspondência alheia. Todos os dias aparece na caixa de correio do seu novo apartamento um envelope azul, dirigido ao inquilino anterior. E todos os dias ele lê o que está lá dentro: cartas de amor desesperado de uma mulher anónima (assina «A.») que tenta compreender as razões de uma «separação interminável», para a reverter. A narrativa intercala as nove cartas de A. (primeira pessoa, registo torrencial, lírico e cru) com igual número de capítulos sobre o quotidiano de Marcos e o impacto crescente das estranhas missivas na sua vida (terceira pessoa, frases curtas, estilo descritivo).<br />
A estrutura é simples – como que uma revisitação pós-moderna do género epistolar – mas Carola Saavedra consegue transformá-la num mecanismo inquietante, à medida que nos arrasta para o cerne das obsessões de A., contadas de forma cada vez mais visceral e perversa, uma escrita do corpo devorado pela ausência, mas também pela memória do prazer, da dor, da entrega e da violência mais extremas. De uma carta para a seguinte, a realidade desmonta-se, repete-se, anula-se, desfaz-se, recapitula-se (voltamos à mesma discussão, contada de vários ângulos; ou à última noite que os amantes passam juntos, descrita em versões antagónicas). As peças soltas não voltam a encaixar nos mesmos sítios e a contradição assumida parece ser a única regra: «Mas agora penso, talvez esteja justamente nessa contradição, nesse espaço que surge entre o que afirmo e o que nego, entre o teu sofrimento e a tua crueldade, entre o meu sofrimento e a minha crueldade, entre o meu corpo e o teu, justamente nessa incoerência a única forma de comunicação.»<br />
Em princípio, A. escreve apenas para o homem que a deixou e só para ele. A dada altura, porém, refere-se à possibilidade de um outro «leitor para estas cartas», um «personagem que recebesse estas cartas em teu lugar». E assim se anuncia o nó essencial do romance. Porque aquele leitor/personagem imaginário só pode ser Marcos, progressivamente reduzido ao «reflexo» e «avesso» de uma figura cuja intensidade o fascina, porque o transcende. Ou então é o próprio leitor de <em>Flores Azuis</em>, oscilando entre as dúvidas que lhe inspira a misteriosa A. e as certezas quanto ao talento da escritora que a criou.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ferreira Gullar, poeta maior</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 09:30:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Prémios]]></category>

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		<description><![CDATA[A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.<br />
Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos «imortais» da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de <em>Lillias Fraser</em>, 19 anos mais nova. «Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo», admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha «a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais».<br />
Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é «inteiramente justa», até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da <em>Obra Poética</em> completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem «inteligentíssimo», correcto e afável, «um <em>gentleman</em>. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da <em>Obra Poética</em> esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: <em>Um Gato chamado Gatinho</em>, volume de poemas infantis, «lindíssimos», com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. </p>
<p><img src="http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2005/fotosju302online/ju302pg05a.jpg" alt="" /></p>
<p>Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume <em>Poesia Completa, Teatro e Prosa</em> (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (<em>Um pouco acima do chão</em>, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de <em>Poema Sujo</em> (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.<br />
No livro de ensaios <em>Indagações de hoje</em> (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à <em>Obra Poética</em> editada pelas Quasi, sintetizou: «Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua».<br />
A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, <em>Em Alguma Parte Alguma</em> (José Olympio), o primeiro desde <em>Muitas Vozes</em> (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: «Meu poema  / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.»</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Três vezes Rubem Fonseca</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 16:51:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Rubem Fonseca]]></category>

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		<description><![CDATA[Entre hoje (quinta-feira) e sábado, A Escola da Noite, em co-produção com a Companhia de Teatro de Braga, vai estrear em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo (21h30), três espectáculos, com dramaturgia e encenação de António Augusto Barros, que formam uma Trilogia Rubem Fonseca. Os espectáculos, construídos a partir de cerca de duas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.unionsverlag.com/portrait/fonsecarubem.jpg" alt="" /><img src="http://www.unionsverlag.com/portrait/fonsecarubem.jpg" alt="" /><img src="http://www.unionsverlag.com/portrait/fonsecarubem.jpg" alt="" /></p>
<p>Entre hoje (quinta-feira) e sábado, <a href="http://www.aescoladanoite.pt">A Escola da Noite</a>, em co-produção com a Companhia de Teatro de Braga, vai estrear em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo (21h30), três espectáculos, com dramaturgia e encenação de António Augusto Barros, que formam uma Trilogia Rubem Fonseca. Os espectáculos, construídos a partir de cerca de duas dezenas de contos do escritor brasileiro, intitulam-se <em>1. José</em> (estreia hoje), <em>2. Rubem</em> (estreia amanhã) e <em>3. Fonseca</em> (estreia no sábado).<br />
Mais informações <a href="http://weblog.aescoladanoite.pt/">aqui</a>.</p>
<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/net-rubem-estreia-300x127.jpg" alt="net-rubem-estreia" title="net-rubem-estreia" width="300" height="127" class="alignnone size-medium wp-image-8620" /></p>
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		<title>A viagem de Guimarães Rosa</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 22:25:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[João Guimarães Rosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Maio de 1952, João Guimarães Rosa, o médico-diplomata-escritor, iniciava a viagem de que viria a nascer Grande Sertão: Veredas. Num texto de 2008, Paulo Bicarato conta a história dessa epopeia pré-literária.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Maio de 1952, João Guimarães Rosa, o médico-diplomata-escritor, iniciava a viagem de que viria a nascer <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Sert%C3%A3o:_Veredas">Grande Sertão: Veredas</a></em>. Num <a href="http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&#038;pid=1007">texto de 2008</a>, Paulo Bicarato conta a história dessa epopeia pré-literária.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O instrumento da vertigem</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 13:41:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Carlito Azevedo]]></category>

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		<description><![CDATA[Monodrama Autor: Carlito Azevedo Editora: Cotovia N.º de páginas: 152 ISBN: 978-972-795-297-7 Ano de publicação: 2010 Após um longo silêncio de quase uma década, o poeta carioca Carlito Azevedo, responsável pela revista de poesia luso-brasileira Inimigo Rumor (a atravessar uma fase de hibernação, talvez definitiva), voltou a publicar um livro de inéditos: o magnífico Monodrama, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.livroscotovia.pt/images/monodrama.gif" alt="" /></p>
<p><strong>Monodrama</strong><br />
<em>Autor:</em> Carlito Azevedo<br />
<em>Editora:</em> Cotovia<br />
<em>N.º de páginas:</em> 152<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-795-297-7<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>Após um longo silêncio de quase uma década, o poeta carioca Carlito Azevedo, responsável pela revista de poesia luso-brasileira <em>Inimigo Rumor</em> (a atravessar uma fase de hibernação, talvez definitiva), voltou a publicar um livro de inéditos: o magnífico <em>Monodrama</em>, lançado agora pela Cotovia, menos de um ano após a edição original pela 7Letras.<br />
«Nenhum poema / é mais difícil / do que sua época», diz-se a certa altura, e estes poemas absolutamente contemporâneos, corpos em expansão que captam a violência espectral do Rio de Janeiro (uma rapariga coreana a injectar-se junto a um muro, o labor ostracizado dos imigrantes, a energia das multidões, a vigilância electrónica dos bancos, a ameaça do terrorismo, mas também o suave erotismo da pele «olhada / até à / incandescência» em hóteis manhosos), estes poemas absolutamente livres e fragmentários, não sendo mais difíceis do que a sua época, também não são mais fáceis, antes tentam fixar a complexidade fugidia de um «mundo com cara de Goya» e suas «imagens da pura / desconexão».<br />
Tudo se passa numa «espécie / de <em>videostream</em>», a linguagem como instrumento da vertigem, em «fluxos imparáveis» que aceleram e tornam ora mais nítida, ora mais embaciada, a percepção das coisas, seja uma silhueta diante da montra da confeitaria, o caos das discotecas, uma galinha «atada por um / barbante / apodrecido / a um / limoeiro / cintilante / de teias / de aranha», a «veemência de uns espelhos» ou um cachecol florido «a flutuar no céu por alguns segundos».<br />
Depois, no fim do livro, Carlito agiganta-se de vez ao falar da morte da mãe (com Alzheimer), numa extraordinária sequência de poemas intitulada <em>H.</em> (quatro dos quais podem ser lidos <a href="http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-carlito-azevedo/">aqui</a>), para mim um dos momentos mais altos da poesia em língua portuguesa escrita neste século.  </p>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>A gravidez utópica</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Apr 2010 21:55:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Daniel Galera]]></category>

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		<description><![CDATA[Cordilheira Autor: Daniel Galera Editora: Caminho N.º de páginas: 175 ISBN: 978-972-21-2091-3 Ano de publicação: 2010 Em Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo (Campo das Letras), o protagonista confunde a vida do seu escritor favorito – Rubem Fonseca – com a das suas personagens, algo que o próprio Fonseca, quando se vê puxado para dentro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://portalivros.files.wordpress.com/2010/01/cam-galera.jpg?w=184&#038;h=282" alt="" /></p>
<p><strong>Cordilheira</strong><br />
<em>Autor:</em> Daniel Galera<br />
<em>Editora:</em> Caminho<br />
<em>N.º de páginas:</em> 175<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-21-2091-3<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>Em <em><a href="http://bibliotecariodebabel.com/criticas/a-sindrome-de-zuckerman/">Jonas, o Copromanta</a></em>, de Patrícia Melo (Campo das Letras), o protagonista confunde a vida do seu escritor favorito – Rubem Fonseca – com a das suas personagens, algo que o próprio Fonseca, quando se vê puxado para dentro da história, apelida de «síndrome de Zuckerman» (referência ao <em>alter ego</em> ambíguo de Philip Roth). Em <em>Cordilheira</em>, de Daniel Galera, assistimos a uma variante ainda mais radical dessa síndrome, já que são os próprios escritores a tomarem a iniciativa de se projectarem nas suas personagens, cumprindo na vida real o que imaginaram na ficção.<br />
Importa explicar que estes escritores fazem parte de um círculo marginal de Buenos Aires, uma espécie de seita literária que se cruza a dado momento no caminho da protagonista, Anita van der Goltz Vianna, quando ela decide trocar o Brasil pela Argentina. Orfã de mãe desde a nascença e de pai há três anos e meio, Anita é uma autora que triunfou logo ao primeiro romance, mas que decidiu abandonar a literatura em prol de um desígnio para ela mais alto e urgente: ter um filho. Quando Danilo, o namorado, se recusa a ser pai nos próximos tempos, ela deixa-o e parte para a Feira do Livro de Buenos Aires, com a ideia de ficar na cidade por uns tempos, conhecer um argentino anónimo e voltar grávida a São Paulo.<br />
As coisas não serão assim tão simples, claro. O argentino anónimo com quem se envolve é um admirador doentio do seu livro, ele próprio autor de um só romance e membro da tal confraria de literatos portenhos de segunda linha, composta por gente bizarra que leva a literatura «a sério demais» e pretende seguir o caminho de Jupiter Irrisari – um escritor guatemalteco que certo dia «parou de escrever histórias e passou a vivê-las». Assumir o destino das personagens que cada um criou, transformando-se gradualmente nelas, é o objectivo do grupo.<br />
Este jogo perigoso e fértil em ricochetes, para o qual a brasileira é convocada mesmo sem querer, ocupa parte substancial do romance. Galera, porém, não se perde no exercício já muito batido das contaminações mútuas entre ficção e realidade. O foco de <em>Cordilheira</em> está sempre em Anita, no seu estranhamento, na sua deriva existencial e nesse projecto de uma gravidez que talvez seja ectópica, porque inviável e literalmente fora do sítio (Buenos Aires em vez de São Paulo), ou talvez seja apenas utópica, manifestação de um desejo sem lugar que o materialize.<br />
Nascido em 1979, Daniel Galera confirma neste livro poderoso, muitíssimo bem escrito e tecnicamente irrepreensível, o seu lugar de destaque entre os ficcionistas brasileiros mais jovens.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no número 89 da revista <em>Ler</em>]</p>
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		<title>&#8216;Gonzos e Parafusos&#8217;</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/literatura-brasileira/gonzos-e-parafusos/</link>
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		<pubDate>Tue, 16 Mar 2010 10:29:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Paula Parisot]]></category>

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		<description><![CDATA[Um Big Brother livresco? Ou a performance arrojada de uma escritora que prolonga na vida real a atmosfera do seu livro, vestindo literalmente a pele da sua personagem? Ao fechar-se durante uma semana dentro de uma caixa de acríllico, montada numa livraria de São Paulo e exposta ao olhar dos visitantes, Paula Parisot aproxima o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/paula1.jpg" alt="paula1" title="paula1" width="400" height="300" class="alignnone size-full wp-image-8095" /></p>
<p>Um <a href="http://www3.diariosp.com.br/Noticias/Viva/1923/Um+Big+Brother+entre+livros"><em>Big Brother</em> livresco</a>? Ou a <a href="http://www.pbagora.com.br/conteudo.php?id=20100312144401&#038;cat=cultura&#038;keys=escritora-fica-confinada-caixa-acrilico"><em>performance</em> arrojada de uma escritora que prolonga na vida real a atmosfera do seu livro, vestindo literalmente a pele da sua personagem</a>? </p>
<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/paula2.jpg" alt="paula2" title="paula2" width="300" height="400" class="alignnone size-full wp-image-8096" /></p>
<p>Ao fechar-se durante uma semana dentro de uma caixa de acríllico, montada numa livraria de São Paulo e exposta ao olhar dos visitantes, Paula Parisot aproxima o lançamento literário do conceito de instalação artística. O que faz todo o sentido, não fosse o seu romance (<em>Gonzos e Parafusos</em>, edição LeYa) sobre uma psicanalista obcecada por Elizabeth Bachofen-Echt, uma baronesa que entrou para a posteridade como modelo do pintor Gustav Klimt.<br />
Para acompanhar, até dia 17, <a href="http://www.leya.com.br/gonzoseparafusos/">aqui</a>.<br />
Eis um resumo, em vídeo, do primeiro dia:</p>
<p><object width="400" height="225"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="movie" value="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=10106287&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=ffffff&amp;fullscreen=1" /><embed src="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=10106287&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=ffffff&amp;fullscreen=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always" width="400" height="225"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Menos arquitectura que balística</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/criticas/menos-arquitectura-que-balistica/</link>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2010 23:01:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Henriques Britto]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Macau Autor: Paulo Henriques Britto Editora: Ulisseia N.º de páginas: 55 ISBN: 978-972-568-626-3 Ano de publicação: 2010 O brasileiro Paulo Henriques Britto (n. 1951) pertence à categoria dos poetas bissextos. Após o livro de estreia (Liturgia da Matéria, de 1982), publicou apenas mais quatro livros de poemas: Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), Macau (2003) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/macau.jpg" alt="macau" title="macau" width="274" height="480" class="alignnone size-full wp-image-7798" /></p>
<p><strong>Macau</strong><br />
<em>Autor:</em> Paulo Henriques Britto<br />
<em>Editora:</em> Ulisseia<br />
<em>N.º de páginas:</em> 55<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-568-626-3<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2010</p>
<p>O brasileiro Paulo Henriques Britto (n. 1951) pertence à categoria dos poetas bissextos. Após o livro de estreia (<em>Liturgia da Matéria</em>, de 1982), publicou apenas mais quatro livros de poemas: <em>Mínima Lírica</em> (1989), <em>Trovar Claro</em> (1997), <em>Macau</em> (2003) e <em>Tarde</em> (2007). Conhecido sobretudo pelas suas traduções do inglês (Henry James, Elizabeth Bishop, William Faulkner, Don DeLillo, Thomas Pynchon, entre outros), Britto apanhou de surpresa o meio literário lusófono ao vencer em 2004 o Prémio PT de Literatura, no valor de cem mil reais (cerca de 49 mil euros), batendo na final pesos-pesados como Chico Buarque (<em>Budapeste</em>), Bernardo Carvalho (<em>Mongólia</em>), Sérgio Sant&#8217;Anna e Manoel de Barros.<br />
A inesperada vitória foi conseguida com <em>Macau</em>, o voluminho que inaugura a nova colecção de poesia da Ulisseia e revela algumas das linhas principais do trabalho deste autor, nomeadamente aquela que passa pela desconstrução sistemática da artificialidade dos códigos poéticos. Britto utiliza quase sempre formas clássicas, com metrificação canónica e rimas, mas apenas para as fazer implodir através do recurso a uma linguagem ostensivamente coloquial, pouco elevada. O poeta domina a técnica, conhece as regras, chega a ser virtuoso na composição verbal, no equilíbrio das estrofes, mas depois insiste em colocar-se de fora, retirando com visível gozo a máscara da solenidade e dinamitando, com recurso à ironia, toda a sorte de visões estabelecidas e lugares-comuns. Veja-se este poema que ridiculariza uma das mais gastas categorias românticas (a <em>inspiração</em>):</p>
<p><em>Também os anjos mudam de poleiro<br />
de vez em quando, se rareia o alpiste<br />
indeglutível que é seu alimento.</p>
<p>Porém você não se conforma, e insiste,<br />
procura em vão possíveis substitutos<br />
que tenham o efeito de atrair de volta</p>
<p>esses seres ariscos, esses putos<br />
que se recusam a ouvir os teus apelos,<br />
como se fossem mesmo coisas outras</p>
<p>que não tua própria vontade de tê-los<br />
sempre a postos, em eterna prontidão,<br />
a salpicar na tua boca ávida</p>
<p>o alpiste acre-doce da (com perdão<br />
da péssima palavra) inspiração.</em></p>
<p>Não quer isto dizer que o sujeito poético não busque um sentido para as coisas e para os sonhos, um sentido pressentido («só que não está ao nosso alcance»), uma verdade aparentemente inatingível mas que até pode estar mais próxima do que imaginamos: «É na superfície / que o real, minúsculo plâncton, se trai». O poeta é então alguém que não se conforma com a inabalável «opacidade das coisas», procurando dar sentido a um impulso que «vem de dentro, e incomoda», uma «fala esquisita» e «aparentemente anárquica» em que as palavras estrebucham, «inúteis» como «cágados com as quatro patas viradas pro ar». Entre a realidade, essa «coisa delicada,/ de se pegar com as pontas dos dedos», e o «cais úmido e ínfimo» do eu, «mínimo/ império sem território» (como a ilha do Oriente onde se fala português), nasce a tensão que atravessa estes poemas, sempre à beira da banalidade (esse «acorde / gemido por um destoadíssimo realejo») e de uma assumida insuficiência, expressa em certos títulos (<em>Dez sonetoides mancos</em>; <em>Três epifanias triviais</em>, etc.) e também, infelizmente, na qualidade literária inferior de algumas sequências (as <em>Três tercinas</em>, por exemplo; ou os vários poemas em inglês).<br />
Se o que permanece é «a alvenaria do mundo, o que pesa», Britto parece só acreditar nas coisas sólidas que sejam tocadas pela leveza do voo, ou pelo rasto dessa possibilidade, erguendo por isso uma poética instável, aérea, mais perto da «balística» do que da arquitectura. Como explica, de forma exemplar, neste poema:</p>
<p><em>É preciso que haja uma estrutura,<br />
uma coisa sólida, consistente,<br />
artificial, capaz de ficar<br />
sozinha em pé (não necessariamente<br />
exatamente na vertical), dura</p>
<p>e ao mesmo tempo mais leve que o ar,<br />
senão não sai do chão. E a graça toda<br />
da coisa, é claro, é ela poder voar,<br />
feito um balão de gás, e sem que exploda</p>
<p>na mão, igual a um fogo de artifício<br />
que deu chabu. Não. Tem que ser na altura<br />
de um morro, no mínimo, ou de um míssil</p>
<p>terra-a-ar. Sim. Menos arquitetura<br />
que balística. É claro que é difícil.</em> </p>
<p><em>Avaliação:</em> 7/10</p>
<p>[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Três poemas de Paulo Henriques Britto</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/literatura-brasileira/tres-poemas-de-paulo-henriques-britto/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Feb 2010 00:41:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Henriques Britto]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Embora não fôssemos nem um pouco como duas gazelas se apascentando entre as açucenas, nem muito menos como um rebanho de cabras que descesse as colinas de Galaad, nem por isso merecíamos ser confortados, em vez de com bálsamos e maçãs, com meio vidro de formicida cada um num quarto de hotel barato em Cafarnaum. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Embora não fôssemos nem um pouco<br />
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,</p>
<p>nem muito menos como um rebanho de cabras<br />
que descesse as colinas de Galaad,</p>
<p>nem por isso merecíamos ser confortados,<br />
em vez de com bálsamos e maçãs,</p>
<p>com meio vidro de formicida cada um<br />
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.</em></p>
<p>***</p>
<p><em>As coisas que te cercam, até onde<br />
alcança a tua vista, tão passivas<br />
em sua opacidade, que te impedem<br />
de enxergar o (inexistente) horizonte,<br />
que justamente por não serem vivas<br />
se prestam para tudo, e nunca pedem</p>
<p>nem mesmo uma migalha de atenção,<br />
essas coisas que você usa e esquece<br />
assim que larga na primeira mesa –<br />
pois bem: elas vão ficar. Você, não.<br />
Tudo que pensa passa. Permanece<br />
a alvenaria do mundo, o que pesa.</p>
<p>O mais é enchimento, e se consome.<br />
As tais Formas eternas, as Ideias,<br />
e a mente que as inventa, acabam em pó,<br />
e delas ficam, quando muito, os nomes.<br />
Muita louça ainda resta de Pompeia,<br />
mas lábios que a tocaram, nem um só. </p>
<p>As testemunhas cegas da existência,<br />
sempre a te olhar sem que você se importe,<br />
vão assistir sem compaixão nem ânsia,<br />
com a mais absoluta indiferença,<br />
quando chegar a hora, a tua morte.<br />
(Não que isso tenha a mínima importância).</em></p>
<p>***</p>
<p>ACALANTO</p>
<p><em>Noite após noite, exaustos, lado a lado,<br />
digerindo o dia, além das palavras<br />
e aquém do sono, nos simplificamos,</p>
<p>despidos de projetos e passados,<br />
fartos de voz e verticalidade,<br />
contentes de ser só corpos na cama;</p>
<p>e o mais das vezes, antes do mergulho<br />
na morte corriqueira e provisória<br />
de uma dormida, nos satisfazemos</p>
<p>em constatar, com uma ponta de orgulho,<br />
a cotidiana e mínima vitória:<br />
mais uma noite a dois, e um dia a menos.</p>
<p>E cada mundo apaga seus contornos<br />
no aconchego de um outro corpo morno.</em></p>
<p>[in <em>Macau</em>, Ulisseia, 2010]</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A síndrome de Zuckerman</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/criticas/a-sindrome-de-zuckerman/</link>
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		<pubDate>Sat, 13 Feb 2010 18:07:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Patrícia Melo]]></category>

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		<description><![CDATA[Jonas, o Copromanta Autora: Patrícia Melo Editora: Campo das Letras N.º de páginas: 165 ISBN: 978-989-625-359-2 Ano de publicação: 2009 O protagonista e narrador deste romance tem nome bíblico – Jonas – e um estranho dom: o de adivinhar o futuro pela perscrutação das próprias fezes. A baleia que o engoliu foi a literatura. Durante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.pnetliteratura.pt/imagens/200911100033_5.JPG" alt="" /></p>
<p><strong>Jonas, o Copromanta</strong><br />
<em>Autora:</em> Patrícia Melo<br />
<em>Editora:</em> Campo das Letras<br />
<em>N.º de páginas:</em> 165<br />
<em>ISBN:</em> 978-989-625-359-2<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>O protagonista e narrador deste romance tem nome bíblico – Jonas – e um estranho dom: o de adivinhar o futuro pela perscrutação das próprias fezes. A baleia que o engoliu foi a literatura. Durante o dia, Jonas arquiva burocraticamente pastas na Biblioteca Nacional, a poucos metros de exemplares raríssimos, como a Bíblia de Mogúncia; nos tempos livres, reescreve ou projecta reescrever obras-primas de grandes escritores (Dostoievski, Nabokov, Edgar Allan Poe, Céline, Strindberg, Melville), oferecendo às respectivas personagens destinos melhores, ou mais justos. Quando não está a ler, ou debruçado sobre uma sanita (a desenhar «criptogramas» fecais que reproduzem os símbolos da escrita copta), entrega-se ainda a atribuladas aventuras sentimentais e sexuais com duas colegas diametralmente opostas: Eunice e Darlene.<br />
Acontece que um dia Jonas descobre um conto de Rubem Fonseca (<em>Copromancia</em>, do livro <em>Secreções, excreções e desatinos</em>) e convence-se de que o escritor mineiro, um dos seus ídolos literários, o plagiou. Não o tradicional plágio em que alguém copia passagens ou ideias do texto de outrém, mas antes uma apropriação de experiências alheias supostamente únicas (a já referida adivinhação escatológica). Para Jonas, a história de Fonseca é um decalque da sua vida – «eu era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva» – e a semelhança parece-lhe intolerável, porque «agressiva, insultuosa, demoníaca».<br />
Inicia-se então um processo de paranóia aguda, agravada pelo facto de o escritor aparecer em carne e osso na Biblioteca, onde pesquisa materiais para o romance seguinte (<em>Mandrake, a Bíblia e a bengala</em>). Perturbado, Jonas paga a informadores, instala câmaras de videovigilância no seu apartamento e aperta o cerco a Rubem Fonseca, tentando arrancar-lhe provas da mirabolante teoria da conspiração que o obceca. Quando a paciência se esgota, o autor de <em>O Buraco na Parede</em> sugere-lhe uma cura: ler Philip Roth. «É natural que leitores misturem a vida de seus escritores favoritos com a de seus personagens, disse. Se isso acontece com exagero, é patológico. É o que eu chamo de síndrome de Zuckerman.»<br />
Enquanto permanece no território da intertextualidade, em registo paródico servido por um humor ácido e uma escrita ágil, o romance voa alto. Infelizmente, Patrícia Melo falha por completo o desfecho do livro, ao substituir a racionalidade de Fonseca pela charlatanice de Zoé, personagem feminina que surge do nada para se aproveitar da credulidade de Jonas e da sua ânsia de absoluto. Uma pena.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 6/10</p>
<p>[Texto publicado no número 87 da revista <em>Ler</em>]</p>
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		<title>Sequestros e resgates</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 14:36:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>

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		<description><![CDATA[Os Espiões Autor: Luis Fernando Verissimo Editora: Dom Quixote N.º de páginas: 171 ISBN: 978-972-20-3922-2 Ano de publicação: 2009 O narrador de Os Espiões (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/espioes.jpg" alt="espioes" title="espioes" width="264" height="400" class="alignnone size-full wp-image-7566" /></p>
<p><strong>Os Espiões</strong><br />
<em>Autor:</em> Luis Fernando Verissimo<br />
<em>Editora:</em> Dom Quixote<br />
<em>N.º de páginas:</em> 171<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-20-3922-2<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>O narrador de <em>Os Espiões</em> (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais e pelas cartas de recusa, ele afoga em álcool a sua insatisfação profissional e familiar, até ao dia em que começa a receber às prestações o manuscrito de uma certa Ariadne, candidata a escritora, cujo projecto literário consiste em revelar a sua história de amores proibidos e crimes de sangue numa cidade do interior (Frondosa), suicidando-se no fim.<br />
Apesar dos erros ortográficos e da ausência de vírgulas, o texto deslumbra tanto o editor como os amigos com quem costuma discutir no bar do Espanhol. Acreditando na veracidade do relato, o grupo decide montar uma «Operação Teseu» que inverta o mito e salve Ariadne, presa ainda no labirinto (à mercê de um temível Minotauro de apelido italiano) ou já em Naxos, aguardando um Dionísio que a redima.<br />
Exímio na caracterização das personagens, Verissimo oferece-nos uma galeria de tipos inesquecíveis, de que fazem parte o Professor Fortuna, especialista em sexo tântrico sem contacto físico e em tiradas definitivas sobre autores que não leu («A literatura terminou com Sófocles. Tudo que veio depois é post-scriptum.»); o «Uruguaio», milionário que ganhou a sua fortuna ao apostar contra o Brasil na célebre e traumática final da Copa do Mundo, em 1950, esbanjando o dinheiro, desde então, para expiar a culpa; e Afonso, director do jornal <em>Folha de Frondosa</em>, estalinista empedernido que procura, à falta de revoluções, criar uma «rosa de um vermelho inédito» – a que chamaria, claro está, Rosa Luxemburgo.<br />
Nunca perdendo o fio da narrativa (muito bem arquitectada, com os vários elementos da intriga a encaixarem-se na perfeição), o escritor gaúcho conseguiu urdir uma história sólida mas leve, alucinante e divertidíssima, onde cabem De Chirico e Sylvia Plath, conspirações e plágios, sequestros e resgates, cemitérios e bordéis, exercicíos meta-ficcionais e crónica de costumes, literatura e futsal. Em duas palavras: uma delícia.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 8/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>Já há campeão da Copa de Literatura Brasileira</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 18:49:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Carola Saavedra]]></category>

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		<description><![CDATA[vs. É o livro Flores Azuis (Companhia das Letras), de Carola Saavedra, que venceu na final Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara). O resultado foi de 9-4; isto é, nove recensões favoráveis a Saavedra e quatro que se inclinavam para Correia de Brito. Conferir tudo no site da Copa. A vencedora fala sobre Flores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" /> vs. <img src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/galileia.jpg" alt="" /></p>
<p>É o livro <em>Flores Azuis</em> (Companhia das Letras), de Carola Saavedra, que venceu na final <em>Galiléia</em>, de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara). O resultado foi de 9-4; isto é, nove recensões favoráveis a Saavedra e quatro que se inclinavam para Correia de Brito.<br />
Conferir tudo no <a href="http://copadeliteratura.com/"><em>site</em> da Copa</a>.<br />
A vencedora fala sobre Flores Azuis e lê excertos do livro neste vídeo:</p>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/oKzLTCvHcYk&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/oKzLTCvHcYk&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
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		<title>Ao cuidado do Senhor Palomar:</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Dec 2009 07:29:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Patrícia Melo]]></category>

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		<description><![CDATA[«Abri um vinho, nos sentamos à mesa, contei a ela sobre meus projectos futuros, como o de reescrever Morte a crédito, de Céline. Expliquei-lhe que manteria a história intocada, personagens, enredo, não alteraria nada, exceto a pontuação. Não entendo como um escritor como Céline, expliquei, pode usar reticências e pontos de exclamação de forma tão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Abri um vinho, nos sentamos à mesa, contei a ela sobre meus projectos futuros, como o de reescrever <em>Morte a crédito</em>, de Céline. Expliquei-lhe que manteria a história intocada, personagens, enredo, não alteraria nada, exceto a pontuação.<br />
Não entendo como um escritor como Céline, expliquei, pode usar reticências e pontos de exclamação de forma tão abusiva. Há páginas de <em>Morte a crédito</em>, continuei, que parecem a técnica didática preencha-as-lacunas, tamanha é a quantidade de reticências. Reticência é recurso de indeciso. E exclamação, de escritor deslumbrado. Céline não me parece nem uma coisa nem outra.»</p>
<p>[in <em>Jonas, o copromanta</em>, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]</p>
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		<title>Uma atitude heróica</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 11:23:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[«A certa altura, Eunice me contava seu projeto de, se um dia abrisse uma editora, lançar Em busca do tempo perdido em sessenta volumes. Se a série fosse publicada em pequenos fascículos, digeríveis, talvez as pessoas lessem Proust. O problema do Proust é o tamanho. São sete livros. Quem lê tijolo, hoje em dia? Ninguém [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«A certa altura, Eunice me contava seu projeto de, se um dia abrisse uma editora, lançar <em>Em busca do tempo perdido</em> em sessenta volumes.<br />
Se a série fosse publicada em pequenos fascículos, digeríveis, talvez as pessoas lessem Proust. O problema do Proust é o tamanho. São sete livros. Quem lê tijolo, hoje em dia? Ninguém tem mais tempo para ler <em>Guerra e Paz</em>. Livro tem que ser fininho, tem que caber na bolsa, ela dizia.<br />
Falei que sua idéia seria um fracasso, ao menos financeiramente. A questão não é compactar, falei, porque isso sempre se fez com versões reduzidas, facilitadas, dicionários literários de Shakespeare, Dante, Joyce, todos os grandes. Atualmente existem até mesmo versões para criança, em quadrinhos. Nem por isso se leu mais ou se adquiriu mais conhecimento dos clássicos. O ideal seria publicar os sete volumes do Proust num único, de cinco mil páginas. O mercado editorial hoje em dia, continuei, ao contrário do que você diz, é exatamente para tijolos, especialmente porque o leitor é preguiçoso. Se você compra um livro de cem páginas e não o lê, sente que está jogando dinheiro fora e isso é frustrante. Quem quer se frustrar? Mas se compra um Thomas Pynchon, bem, isso é diferente, é um projecto de vida, é como comprar uma casa, uma apólice, não interessa se você vai lê-lo ou não, só o fato de comprar já é uma atitude heróica, porque é heróico ler Thomas Pynchon, é heróico ler Don DeLillo, é heróico ler todos esses americanos de mil páginas. É excitante pensar que vamos ser heróis quando tivermos tempo, no fim do ano, nas próximas férias, depois da aposentadoria. Adiamos o malogro indefinidamente.»</p>
<p>[in <em>Jonas, o Copromanta</em>, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]</p>
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		<title>Seres linguísticos e heróis mudos</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Nov 2009 00:44:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Ramos]]></category>

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		<description><![CDATA[«Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas? Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres radicalmente lingüísticos, a ponto de que <em>tudo</em> para eles pertencesse à linguagem. Cada árvore seria assim o logaritmo da sua posição na floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no dorso de um mamífero, na luz fosforescente de um inseto que já morreu, na textura dos troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode de uma morsa – e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer parecia parte desta página, reescrita a cada momento; todas as mortes, os pios, cada gota, cada sal.<br />
A única restrição deste texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível. Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande cataclisma – um terremoto, um meteoro ou um incêndio – tenha transformado a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz), e substituir com ela o que tinham perdido. Procuraram então marcar, para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.<br />
Fico imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as próprias cinzas, a terra deserta, o maucheiro de tantos bichos mortos, expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as próprias hienas em sujeito e predicado do seu mundo moribundo. Se tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços. Então seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte, mas trariam a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.»</p>
<p>[in <em>Ó</em>, de Nuno Ramos, Iluminuras, São Paulo, 2008]</p>
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		<title>Nelson de Matos publica novo romance de João Ubaldo Ribeiro</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 11:44:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[João Ubaldo Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de ter reeditado Viva o Povo Brasileiro, A Casa dos Budas Ditosos e Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, Nelson de Matos vai publicar, em simultâneo com a edição original, o novo romance do Prémio Camões 2008. Título: O Albatroz Azul (248 páginas, 16 euros). Para Nelson de Matos, esta é «uma obra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/CAPA-OAlbatroz-Azul.jpg" alt="CAPA - OAlbatroz Azul" title="CAPA - OAlbatroz Azul" width="260" height="400" class="alignnone size-full wp-image-6098" /></p>
<p>Depois de ter reeditado <em>Viva o Povo Brasileiro</em>, <em>A Casa dos Budas Ditosos</em> e <em>Miséria e Grandeza do Amor de Benedita</em>, Nelson de Matos vai publicar, em simultâneo com a edição original, o novo romance do Prémio Camões 2008. Título: <em>O Albatroz Azul</em> (248 páginas, 16 euros). Para Nelson de Matos, esta é «uma obra de génio» e «a verdadeira surpresa deste final de ano».<br />
Chega às livrarias a 10 de Outubro.</p>
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		<title>Ruffato em Lisboa</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/literatura-brasileira/ruffato-em-lisboa/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Sep 2009 16:11:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de ter escrito um belíssimo romance sobre São Paulo (Eles eram muitos cavalos), Luiz Ruffato acaba de publicar um livro sobre Lisboa (Estive em Lisboa e lembrei de você), incluído na colecção «Amores Expressos», da Companhia dos Livros. Espero que o Ruffato lisboeta seja pelo menos tão bom como o Rufatto paulista, e acreditem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://cache02.stormap.sapo.pt/fotostore02/fotos//9f/4d/a4/4927646_bqRok.jpeg" alt="" /></p>
<p>Depois de ter escrito um <a href="http://morel.weblog.com.pt/2006/04/a_cidadepalimpsesto.html">belíssimo romance sobre São Paulo</a> (<em>Eles eram muitos cavalos</em>), Luiz Ruffato acaba de publicar um livro sobre Lisboa (<em>Estive em Lisboa e lembrei de você</em>), incluído na colecção «<a href="http://www.amoresexpressos.com.br">Amores Expressos</a>», da <a href="http://www.companhiadoslivros.com.br">Companhia dos Livros</a>. Espero que o Ruffato lisboeta seja pelo menos tão bom como o Rufatto paulista, e acreditem que isto já é esperar muito.</p>
<p>[via <a href="http://ler.blogs.sapo.pt/">blogue da <em>Ler</em></a>]</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Três poemas de Mariana Ianelli</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Aug 2009 18:24:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Contornada a margem fina Do esquecimento, Uma nova capital aparecerá Sobre a antiga, Novas mulheres que não tenham conhecido A barbárie que escandaliza e mata um filho, Ou o desespero do auto-sacrifício. &#8220;Qualquer saudade vivida pelo corpo Possui as etapas da sua própria superação&#8221; – Aprendemos isso. O que de nós foi roubado Mas antes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Contornada a margem fina<br />
Do esquecimento,<br />
Uma nova capital aparecerá<br />
Sobre a antiga,<br />
Novas mulheres que não tenham conhecido<br />
A barbárie que escandaliza e mata um filho,<br />
Ou o desespero do auto-sacrifício.<br />
&#8220;Qualquer saudade vivida pelo corpo<br />
Possui as etapas da sua própria superação&#8221;<br />
– Aprendemos isso.<br />
O que de nós foi roubado<br />
Mas antes resplandecia,<br />
O que foi interrompido em mim,<br />
Instinto de luta,<br />
Retornará mais ardente, mais firme<br />
Para as mãos de quem eu nunca vi,<br />
Alguém sentenciado a cumprir<br />
As mesmas lamentações<br />
Que no passado eram minhas,<br />
Os mesmos versos noturnos<br />
Que abalaram a minha inteligência<br />
E me arrastaram contigo para o fim.</em></p>
<p>***</p>
<p><em>O inferno esteja contigo<br />
No dia em que teu pai morrer<br />
Sob o aplauso de gente bastarda como tu;<br />
Que a impiedade do tempo te faça mais cansado<br />
Do que um camelo magro ao qual se cortam as patas.<br />
As meninas que tu desencantaste no auge da ternura<br />
Vão batizar tua cabeça animalesca (já separada do corpo)<br />
Na intenção de que venhas a nascer um homem, e não uma farsa,<br />
Em qualquer outra era distante e num país de outras raças.<br />
Que a providência se feche à tua passagem<br />
E cada mínimo fato da rotina trabalhe para a tua solidão.<br />
Não suportarás a vida aferrolhando tua garganta.<br />
Quem não te conheceu e nem mesmo soube do teu fim<br />
Perceberá o sopro do vento quando a terra te engolir.</em></p>
<p>***</p>
<p><em>Para além do muro de pedra<br />
Os espinhos foram tolhidos,<br />
A cor púrpura assumiu as veredas<br />
Do antigo solo de urtigas.<br />
Na sétima vez em que o corpo se ergueu,<br />
A grande planície do horizonte exibiu sua serventia.</em></p>
<p>[in <em>Passagens</em>, Iluminuras, São Paulo, 2003]</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Um poema de Paulo Henriques Britto e outro de Ronald Polito</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/geral/um-poema-de-paulo-henrique-britto-e-outro-de-ronald-polito/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 Aug 2009 18:16:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Henriques Britto]]></category>
		<category><![CDATA[Ronald Polito]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulo Henriques Britto: Man in a Chair, de Lucien Freud (1983-85) MAN IN A CHAIR Esperar sentado, mas sem relaxar os músculos. Mãos tensas nas coxas como quem prestes a se levantar. Não como quem, à espera, descansa. E sim como se encurralado na cadeira. Sem esperanças nem expectativas. Sentado na cadeira como quem não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Henriques Britto:</strong></p>
<p><img src="http://farm1.static.flickr.com/149/333075143_24304b0fdf.jpg?v=0" alt="" /><br />
<em>Man in a Chair</em>, de Lucien Freud (1983-85)</p>
<p>MAN IN A CHAIR</p>
<p><em>Esperar sentado, mas sem<br />
relaxar os músculos. Mãos<br />
tensas nas coxas como quem<br />
prestes a se levantar. Não</p>
<p>como quem, à espera, descansa.<br />
E sim como se encurralado<br />
na cadeira. Sem esperanças<br />
nem expectativas. Sentado</p>
<p>na cadeira como quem não<br />
espera exactamente nada.<br />
Sem certezas, com exceção<br />
da única, e indesejada.</em></p>
<p><strong>Ronald Polito:</strong></p>
<p><img src="http://www.artquotes.net/masters/bacon/bacon_twofigures1953.jpg" alt="" /><br />
<em>Two Figures</em>, de Francis Bacon (1953)</p>
<p>ENTRE DOIS HOMENS</p>
<p><em>Para a boca, os dentes, o arco do<br />
torso e do meio das<br />
coxas, e de novo os dentes,<br />
gemido ou riso, e ódio.</p>
<p>Poder dizer ou morder, arfando,<br />
luz de tule entre dois<br />
peitos, escorrendo, pés de prata<br />
no leito, a tratar, celebrar, contra o<br />
borrão de fora, adentro, e revirar<br />
um corpo, cruzado num<br />
salto, jorro, abraço de<br />
pluma, chumbo.</p>
<p>Matar, amar, testemunhos,<br />
liquefação, em cada milímetro<br />
de domínio, cada roçar em desatino,<br />
vendas de névoas,<br />
membro a membro.</p>
<p>Iguais, no arrepio, risco.<br />
Desfigurado, aqui, o que passou<br />
e virá.</em></p>
<p>[in revista <em>Relâmpago</em>, n.º 23, Outubro de 2008]</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Entre uma escarpa e uma escultura</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/criticas/entre-uma-escarpa-e-uma-escultura/</link>
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		<pubDate>Tue, 14 Jul 2009 15:16:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Maffei]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Telefunken Autor: Luis Maffei Editora: Deriva N.º de páginas: 68 ISBN: 978-972-9250-55-2 Ano de publicação: 2009 No primeiro poema deste livro, intitulado Fio, Luis Maffei estabelece de imediato uma espécie de circunferência, um limite para o alcance da sua escrita: «Só quero te deixar um breve fio, uma notícia, vaga/ luz que de fulgor tem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.derivaeditores.pt/loja/images/Telefunken.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Telefunken</strong><br />
<em>Autor:</em> Luis Maffei<br />
<em>Editora:</em> Deriva<br />
<em>N.º de páginas:</em> 68<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-9250-55-2<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>No primeiro poema deste livro, intitulado <em>Fio</em>, Luis Maffei estabelece de imediato uma espécie de circunferência, um limite para o alcance da sua escrita: «Só quero te deixar um breve fio, uma notícia, vaga/ luz que de fulgor tem pouca/ coisa». Eis uma poesia que abdica da transcendência e de altos voos, uma poesia rente ao chão e às coisas terrenas, atraída pelo «belo gesto do malogro» e capaz de intrometer-se no «cirúrgico intervalo entre uma escarpa e uma escultura». Ou seja, algures entre a beleza selvagem, em estado bruto (escarpa), e o gesto que lhe atribui um valor estético (escultura).<br />
Além de breve, o «fio» que une os versos de Maffei é também frágil. Cada poema parece sempre à beira de se desfazer, vítima de um aceleradíssimo <em>staccato</em> e de uma sintaxe irregular, como que partida e colada de novo com fita-cola. O efeito é de vertigem verbal, queda a pique, salto no escuro. O poeta fala do tempo («cruel, frenético e exigente»), dessa contabilidade dos anos que «não fecha/ nunca», de futebol, das suas gatas, das cidades e dos corpos, do «metrô» e do Maracanã, como que em fuga, impossível fuga, para um lugar exterior à literatura: «Estamos, amigo, fora/ dos livros,/ num cálido corpo que eu cria não/ ser de palavras».<br />
Estudioso e divulgador da poesia portuguesa, Maffei dialoga subtilmente com a nossa tradição poética, de Camões a Pessoa, de Gastão Cruz a Rui Pires Cabral. É um trabalho de filigrana, feito de paráfrases e desconstruções, bela homenagem de quem, diante de Sophia, se considera «andreseniano em mão segunda» e, dirigindo-se a Bocage, consegue escrever um soneto digno do vate de Setúbal.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 6,5/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <em><a href="http://aeiou.expresso.pt/">Expresso</a></em>]</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A mais alta constelação</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jun 2009 20:37:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Nejar]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pequena Enciclopédia da Noite Autor: Carlos Nejar Editora: Quasi N.º de páginas: 108 ISBN: 978-989-552-392-4 Ano de publicação: 2009 Ocupante da cadeira n.º 4 da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar (n. 1939) é um dos maiores autores vivos da língua portuguesa. Há quem lhe chame «o poeta do pampa brasileiro» (o que se compreende [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://doimpensavel.netureza.pt/LojaOnlineAdministracao/images/livros/Pequenaenciclopediadanoite.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Pequena Enciclopédia da Noite</strong><br />
<em>Autor:</em> Carlos Nejar<br />
<em>Editora:</em> Quasi<br />
<em>N.º de páginas:</em> 108<br />
<em>ISBN:</em> 978-989-552-392-4<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>Ocupante da cadeira n.º 4 da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar (n. 1939) é um dos maiores autores vivos da língua portuguesa. Há quem lhe chame «o poeta do pampa brasileiro» (o que se compreende por ter nascido e vivido no estado do Rio Grande do Sul, em cujas regiões interiores trabalhou como promotor de justiça) e há quem lhe chame, usando um epíteto de Jacinto do Prado Coelho, «o poeta da condição humana». Na verdade, ele tem sido as duas coisas, o observador incansável da paisagem agreste a que se sente preso («nenhuma morte é maior / que a terra dentro de nós») e o narrador da «história humana / que fica pelos sótãos, porões; jamais / oficializada nos compêndios».<br />
Neste livro que reúne meia centena dos seus «melhores poemas», de <em>Livro de Silbion</em> (1963) a <em>Sonetos do Paiol ao sul da Aurora</em> (1997), Nejar oferece ao leitor uma viagem-relâmpago ao fulcro da sua obra, por muito que a «apertadíssima escolha» provoque no poeta português António Osório, autor da nota introdutória, uma não escondida perplexidade: «Mas como ousou Carlos Nejar, senhor de uma obra imensa [perto de 30 títulos], reduzi-la a&#8230; 50 poemas? E os &#8220;melhores&#8221;, porquê os melhores? Os outros, as inúmeras centenas, não contam? Serão eles menores?» Certamente que não, mas se há prerrogativa que os grandes poetas se outorgam é a de moldarem a seu bel-prazer a forma como o trabalho anterior pode, ou deve, ser entendido (basta pensar, entre nós, no caso paradigmático de Herberto Helder).<br />
A selecção revela-se aliás bastante criteriosa, ao acolher os vários modos e cambiantes da escrita poética de Nejar. Encontramos exemplos do seu pendor aforístico («Amar é a mais alta constelação»; «os livros sobrevivem à poeira / e às traças da ignorância civil»); sonetos de impecável recorte; o uso certeiro das aliterações e da repetição obsessiva de uma mesma palavra (seja «pedra» ou «maçã»); a vénia respeitosa a outros poetas (Emily Dickinson, Dante, Camões); um domínio exemplar da prosódia; e um regresso recorrente aos grandes tópicos, como a morte, a esperança e o amor – esse «calafrio da inteligência» que dá sentido ao mundo e aproxima o homem da noção de eternidade: </p>
<blockquote><p><em>Os anos, Elza, não consertam mágoas,<br />
mas as mágoas não correm, se corremos.<br />
Não encanece a luz, onde são remos</br><br />
da limpa madrugada, os nossos corpos.</em></p></blockquote>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no n.º 80 da revista <em>Ler</em>]</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A história do Brasil</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jun 2009 23:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Buarque]]></category>

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		<description><![CDATA[Leite Derramado Autor: Chico Buarque Editora: Dom Quixote N.º de páginas: 223 ISBN: 978-972-20-3838-6 Ano de publicação: 2009 Eulálio Montenegro d&#8217;Assumpção está deitado na enfermaria de um «hospital infecto». O seu corpo frágil testemunha uma existência centenária que «se alongou além do suportável, como linha que se esgarça». Pobre e solitário, a única coisa que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/leitederramado.bmp"><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/leitederramado.bmp" alt="" title="leitederramado" class="alignnone size-full wp-image-4352" /></a></p>
<p><strong>Leite Derramado</strong><br />
<em>Autor:</em> Chico Buarque<br />
<em>Editora:</em> Dom Quixote<br />
<em>N.º de páginas:</em> 223<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-20-3838-6<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>Eulálio Montenegro d&#8217;Assumpção está deitado na enfermaria de um «hospital infecto». O seu corpo frágil testemunha uma existência centenária que «se alongou além do suportável, como linha que se esgarça». Pobre e solitário, a única coisa que lhe sobra é a memória, mas esta tornou-se uma «vasta ferida», um «pandemônio», uma porta aberta por onde entra o passado, sem qualquer ordem cronológica, multiplicando-se em ínfimos detalhes («recordo cada fio de barba do meu avô, que só conheci de um retrato a óleo»), enquanto o presente se estreita, baralha e desfaz.<br />
Mesmo na miséria, Eulálio mantém o aprumo e os tiques de superioridade social, aprendidos numa família em que se falava francês até para pedir o saleiro. À sua volta, só vê «gente desqualificada». O som do televisor está sempre alto demais e as baratas trepam pela parede. Entre a dor e a morfina, entre a vigília e os sonhos a preto-e-branco, ele tenta narrar a sua vida, fixá-la, transmiti-la nunca se sabe bem a quem (porque tanto se dirige às enfermeiras como à filha, tanto barafusta com os médicos como interpela a mãe morta há muitas décadas).<br />
O romance é uma sucessão de monólogos fragmentários e contraditórios, nos quais certas histórias reaparecem insistentemente, mas sempre contadas de outra maneira, a partir de outro ângulo, com outra vibração. A verdade, se existe, é instável. Tudo pode ter sido assim – ou ao contrário. Na cabeça «meio embolada» de Eulálio, os tempos misturam-se, cruzam-se, coalescem. E os espaços também. Já não há palacete em Botafogo, chalé em Copacabana, apartamento na Tijuca, nem fazenda na «raiz da serra» (invadida pela favela), mas no «palavrório» do moribundo eles recuperam o antigo esplendor.<br />
O protagonista de <em>Leite Derramado</em> é a charneira de uma longa linhagem de Eulálios, tradicionalmente próximos das elites e do poder. O tetravô português lutou contra as tropas de Napoleão; o trisavô desembarcou no Rio com a corte de D. João VI; o bisavô foi um barão negreiro; o avô um abolicionista que queria lucrar com o regresso dos escravos a África; e o pai um senador da Primeira República, pródigo nos negócios e nos vícios. A tibieza do narrador marca de certa forma o começo do declínio: depois dele, a filha casa-se com um imigrante italiano de segunda geração; o neto torna-se maoísta (morrendo nas prisões da Ditadura); e o tetraneto trafica drogas, fechando o ciclo da decadência dos Assumpção.<br />
Quer pelo arco temporal abrangido, quer pelo imenso leque de personagens, pode dizer-se que Chico Buarque escreveu uma saga familiar – só que uma saga familiar de câmara: breve, compacta, reduzida ao essencial. Uma das principais virtudes de <em>Leite Derramado</em> é precisamente esse milagre de condensação e leveza, para o qual contribui uma escrita depuradíssima. Outro ponto forte é a articulação feliz entre as experiências individuais e as colectivas. Na história dos Eulálios são sempre legíveis – à transparência – alguns dos momentos capitais dos últimos 200 anos de História do Brasil.<br />
O fulcro do livro, porém, está em Matilde, primeira mulher e único verdadeiro amor do protagonista. É essa figura feminina intangível (capaz de entrar no oceano «como se pulasse corda») que ilumina a solidão de Eulálio. Um dia, desaparece de casa, deixando para trás marido, filha bebé e um mistério (a razão da sua fuga) que reverbera em todas as páginas, como premonitório sinal do caos futuro.<br />
No exercício narrativo quase perfeito que é <em>Budapeste</em>, de 2003, Chico Buarque parecia ter atingido o cume das suas capacidades literárias, mas neste <em>Leite Derramado</em> sobe ainda mais alto e assina um dos melhores romances em língua portuguesa da primeira década do século XXI. </p>
<p><em>Avaliação:</em> 9/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em>, do semanário <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><em>Expresso</em></a>]</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Um poema de Luis Maffei</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/literatura-brasileira/um-poema-de-luis-maffei/</link>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 22:23:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Maffei]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[MARACANÃ, 11,04,2007 Se há, Fernando, uma metafísica do pênalti ignoro. Sei apenas que a vida é adepta de imitar em noites assim este jogo que é perfeito mas por hediondo gesto: vida, morte, vida e a metafísica do pênalti. E um histérico vazio à roda nossa, a velha premissa de que tudo está errado salvo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>MARACANÃ, 11,04,2007</p>
<p><em>Se há,<br />
Fernando,<br />
uma metafísica do pênalti<br />
ignoro.<br />
Sei apenas que a vida é adepta de imitar<br />
em noites assim<br />
este jogo que é perfeito mas por<br />
hediondo gesto: vida, morte,<br />
vida e<br />
a metafísica do pênalti.<br />
E um histérico vazio à roda nossa, a velha<br />
premissa de que tudo está errado salvo<br />
nós, salvo este empuxe teu a me<br />
arrancar do chão na hora do segundo gol<br />
da gente,<br />
salvo isso tudo que nos livra de um país tão<br />
triste quanto um Maracanã de quarta à<br />
noite que não sabe o que é noite ou<br />
equinócio, tampouco a dimensão do<br />
desbarato e somos nós<br />
Fernando<br />
cada vez mais sós.</p>
<p>Mas pouco importe. Este jogo<br />
de novo<br />
(e desta vez com teus braços de outras cores a<br />
tomar em afeição meu Almirante<br />
ou<br />
a mim próprio)<br />
nos fala como somos, súcubos do<br />
pênalti e de sua metafísica, donos do direito de<br />
abraçar a vida, a morte, a morte e<br />
aquilo a que eu, por gana,<br />
sei que posso dar o nome de amizade.</em></p>
<p>[in <em>Telefunken</em>, Deriva, 2009]</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Um rasto só de beleza</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/criticas/um-rasto-so-de-beleza/</link>
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		<pubDate>Thu, 14 May 2009 08:21:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Eucanaã Ferraz]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Cinemateca Autor: Eucanaã Ferraz Editora: Quasi N.º de páginas: 100 ISBN: 978-989-552-276-7 Ano de publicação: 2009 Depois de Desassombro (2001) e Rua do Mundo (2006), este é o terceiro livro publicado em Portugal, sempre nas Quasi, por Eucanaã Ferraz, um dos mais sólidos e originais poetas brasileiros da actualidade. A sua escrita, assente numa admirável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://doimpensavel.netureza.pt/LojaOnlineAdministracao/images/livros/Cinemateca.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Cinemateca</strong><br />
<em>Autor:</em> Eucanaã Ferraz<br />
<em>Editora:</em> Quasi<br />
<em>N.º de páginas:</em> 100<br />
<em>ISBN:</em> 978-989-552-276-7<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>Depois de <em>Desassombro</em> (2001) e <em>Rua do Mundo</em> (2006), este é o terceiro livro publicado em Portugal, sempre nas Quasi, por Eucanaã Ferraz, um dos mais sólidos e originais poetas brasileiros da actualidade. A sua escrita, assente numa admirável precisão rítmica e numa procura dos limites formais de cada poema, entende a linguagem como um campo de experimentações que nunca se desliga do real, enquanto contingência e destino do discurso poético.<br />
O programa de <em>Cinemateca</em>, composto por 50 poemas-filmes autónomos, talvez se possa resumir nestes versos: «Abra-se tudo / em grande-angular». De facto, a lente através da qual Eucanaã observa a realidade é a mais abrangente, a que mais consegue expandir o campo visual. As imagens, porém, nunca são fixas, estão sempre em movimento, através de complexas derivas semânticas e da acumulação de elementos da memória própria ou alheia (a euforia infantil, a melancolia dos adultos), uma rede de histórias que se transfiguram e não chegam a dizer tudo, perdidas algures na busca de um «rasto só de beleza».<br />
Ao longo das três partes em que o livro se divide – «1.ª luz», «2.ª luz» e «3.ª luz» –, desenha-se um percurso que vai das atmosferas matinais, cheias de claridade e leveza, ao negrume mais fundo das crónicas nocturnas de amor e desencontro. Pelo meio, Eucanaã evoca de várias formas o esplendor da natureza (com os animais, plantas, cores, arquitecturas) e estabelece diálogos subtis com outros poetas, alguns deles portugueses (Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena).<br />
«O poema ensina a cair», escreveu Luiza Neto Jorge. Eucanaã vai no sentido inverso, como explica numa arte poética a que chamou «sumário»: </p>
<p><em>O poema ensina a estar de pé.<br />
Fincado no chão, na rua, o verso<br />
não voa, não paira, não levita. </p>
<p>Mão que escreve não sonha<br />
(em verdade, mal pode dormir à luz<br />
das coisas de que se ocupa).</em></p>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no n.º 79 da revista <em>Ler</em>]</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Uma deriva felliniana</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/geral/uma-deriva-felliniana/</link>
		<comments>http://bibliotecariodebabel.com/geral/uma-deriva-felliniana/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 21 Apr 2009 22:25:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[João Paulo Cuenca]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://bibliotecariodebabel.com/?p=3909</guid>
		<description><![CDATA[O Dia Mastroianni Autor: João Paulo Cuenca Editora: Caminho N.º de páginas: 163 ISBN: 978-972-21-2024-1 Ano de publicação: 2009 João Paulo Cuenca, carioca nascido em 1978, apareceu como um relâmpago na cena literária brasileira em 2003. O seu romance de estreia, Corpo Presente, era uma história fragmentada de obsessão amorosa e sexual por uma mulher [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://farm4.static.flickr.com/3295/3156769252_d8c1404f23.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>O Dia Mastroianni</strong><br />
<em>Autor:</em> João Paulo Cuenca<br />
<em>Editora:</em> Caminho<br />
<em>N.º de páginas:</em> 163<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-21-2024-1<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2009</p>
<p>João Paulo Cuenca, carioca nascido em 1978, apareceu como um relâmpago na cena literária brasileira em 2003. O seu romance de estreia, <em>Corpo Presente</em>, era uma história fragmentada de obsessão amorosa e sexual por uma mulher – Carmen – que é muitas mulheres (ou talvez um arquétipo que se projecta, fugidio, em todas as mulheres), no cenário de uma Copacabana suja, violenta, visceral, a anos-luz do brilho falso dos prospectos turísticos. A recepção crítica foi apoteótica (houve elogios, entre outros, de Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Chico Buarque), o que talvez tenha contribuído para um silêncio de quatro anos. Já se sabe: o pior que pode acontecer a um segundo romance é frustrar as promessas do primeiro.<br />
Se esse peso pairou sobre <em>O Dia Mastroianni</em>, não se nota. Embora Cuenca tenha mudado radicalmente de atmosfera e de tom (ficou tudo mais leve), o fulgor meio desembestado da sua escrita permanece, bem como o gozo de contar uma história aos solavancos, assumidamente fora de qualquer cartilha do bom narrador. Em vez da toponímia precisa do Rio de Janeiro, existe agora uma cidade imaginária por onde deambulam dois anti-heróis: Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, uma espécie de Bouvard e Pécuchet pós-modernos, que, em vez de quererem compreender tudo, procuram à partida não saber nada. O resultado final é quase o mesmo: o esvaziamento diante da complexidade do mundo. Mas onde Flaubert esboça, apesar de tudo, uma «enciclopédia da estupidez humana», as personagens de Cuenca limitam-se a tirar notas sobre os gloriosos malefícios do tédio, aqui e ali elevado a uma forma de arte.<br />
Na sua deriva felliniana por bares, restaurantes e festas para as quais não foram convidados, Cassavas e Anselmo seguem à risca, em 24 horas de folia alucinada, a definição inicial de Dia Mastroianni: «o dia gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística». Entre cada uma dessas divertidas «excursões» dos dois amigos, há interlúdios meta-literários em que uma entidade superior comenta e critica a evolução da narrativa. É este o lado mais frágil do livro, porque o arremedo de peça teatral é parco em ironia (a pouca que subsiste, em vez de afiadíssima, sai romba) e porque o desfecho desilude, dando a ideia de que aquela presença divina, que só fala em maiúsculas, nasceu apenas de um capricho algo juvenil do autor.<br />
Em suma, <em>O Dia Mastroianni</em> não é ainda o grande romance que o talento de Cuenca promete e reclama. Mas quem consegue fazer um livro assim, absolutamente livre e capaz de todos os riscos, pode estar certo de que voos mais altos o aguardam.</p>
<p><em>Avaliação:</em> 7,5/10</p>
<p>[Texto publicado no n.º 78 da revista <em>Ler</em>]</p>
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		<title>O exército infantil</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 23:07:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Murilo Carvalho]]></category>

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		<description><![CDATA[«A artilharia iniciou o ataque com uma barragem de tiros sobre as trincheiras; as bombardas caíam como gotas de fogo levantando línguas de poeira e fumaça, numa constância cadenciada de artilheiros experientes. Não houve reação do outro lado; poucos tiros de fuzis eram disparados pela tropa paraguaia, que parecia afundar-se cada vez mais na proteção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«A artilharia iniciou o ataque com uma barragem de tiros sobre as trincheiras; as bombardas caíam como gotas de fogo levantando línguas de poeira e fumaça, numa constância cadenciada de artilheiros experientes. Não houve reação do outro lado; poucos tiros de fuzis eram disparados pela tropa paraguaia, que parecia afundar-se cada vez mais na proteção das trincheiras, uma proteção pouco mais do que simbólica, pois os artilheiros estavam colocando suas bombas exatamente sobre elas e de vez em quando se viam corpos mutilados sendo lançados para o alto, em meio à fumaça e à terra arrancada. Após algum tempo a cavalaria avançou, fechando pelo flancos, galopando entre os arbustos das encostas que circundavam as linhas de trincheiras, e sumiu no mato seco, atacando com espadas e lanças. Então a infantaria recebeu ordens de avançar também, em cargas sucessivas, como ondas, contra as trincheiras; quase não houve resistência. Os clarins tocavam ordens, sempre de ataque, e facilmente as linhas do exército aliado penetraram no campo paraguaio, matando, atirando com seus fuzis, destroçando um exército paraguaio, pela primeira vez naquela guerra, sem garra, sem a agilidade dos saltos e do manejo das lanças, sem o vigor costumeiro e acostumado. Nunca os soldados brasileiros haviam visto aquilo: matavam com enorme facilidade; os paraguaios pareciam petrificados diante do avanço de homens calejados por tantos anos de combates, desejosos de acabar logo com aquela guerra para retornar à pátria; uma batalha com mais ódio, porque era uma batalha inútil. As linhas penetravam cada vez mais fundo no campo, destroçando, entre a poeira e a fumaça dos canhões, um exército quase inerme, que se agachava nas trincheiras como esperando a morte.</p>
<p>Aos poucos, os próprios soldados aliados, surpresos por tanta indiferença, começaram a perceber que estavam matando crianças; eram crianças com seus olhos espantados, vestidas de soldados, enfiadas nas trincheiras com fuzis enormes, que nem sequer poderiam levantar; crianças vestidas de soldados, agarradas às saias de suas mães, que as tentavam proteger com o próprio corpo, enquanto eram abatidas com suas crias pelas balas dos fuzis, certeiras. Os soldados foram reparando que ali não havia guerreiros, mas uma farsa conduzida por uns poucos velhos e muitas mulheres corajosas, que se atiravam, com lanças mal manejadas, sobre os veteranos, que saltavam pelas trincheiras como macacos treinados, matando, estripando. E começou então a fuga, no meio das macegas secas; crianças e mulheres correndo, despertados pela fúria dos soldados, que continuam matando com suas espadas e seus facões; já nem era preciso atirar mais, os pequenos vultos fugindo às centenas colina acima. Foi então que encontraram a cavalaria que descia a galope, atropelando, numa carga feroz; as espadas cortando o mato, cortando cabeças, decepando braços, espalhando sangue pelas folhas ressequidas e galhos empoeirados do mato rasteiro, que mal escondia o colorido vivo dos uniformes paraguaios.<br />
Foi então que alguém teve uma idéia: o toque de recuar; e o soldados pararam, saíram do mato.<br />
Foi aí que alguém teve outra idéia e passou a colocar fogo nos galhos ressequidos pelo sol e pelo inverno e o vento soprou em direcção ao Leste, para onde fugiam os meninos e suas mães, os que restavam vivos, e o fogo correu com pés mais rápidos do que os deles, alcançou-os e queimou-os como vinha queimando galhos e troncos, e o campo de batalha transformou-se na mais terrível das minhas visões. Eu vi meninos em chamas, entre a galharia; pequenas tochas coloridas, rodopiando até cair e tornar-se uma fogueira que ajudava a espalhar o fogo para outras árvores, que acendiam outras pequenas tochas, e havia um cheiro jamais sentido nas guerras, um cheiro de carne queimando, como os churrasco de campanha onde assamos o boi com seu couro.<br />
Não sei quanto tempo durou esse horror, mas aos poucos, atônitos, os soldados pararam e apenas permaneceram olhando o fogo consumir os restos daquele exército de meninos e mulheres. Eu vi homens chorando; eu vi o espanto, o horror nos olhos de tantos veteranos, encarquilhados pelas lutas nos esteros, nos campos, nas margens dos rios; aqueles homens que haviam aprendido a respeitar um inimigo cuja coragem era o grande desafio; o inimigo que morria definitivamente pelos corpos em chamas de suas crianças; eu vi o desespero de velhos soldados, os fuzis inúteis nas mãos, as lanças esquecidas, a vergonha, a vergonha.»</p>
<p>[in <em>O Rastro do Jaguar</em>, de Murilo Carvalho, págs. 509-512, LeYa, 2009] </p>
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		<title>A invenção do Brasil</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 22:30:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Leya]]></category>
		<category><![CDATA[Murilo Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Prémios]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/img/programacao/murilo_carvalho.jpg" alt="" /></p>
<p>«Uma obra de fôlego, que refigura uma vasta erudição, combina narrativa histórica e arte poética, elaboração wagneriana e aura profética.» Foi assim que o júri da primeira edição do Prémio LeYa, presidido por Manuel Alegre, justificou em Outubro a atribuição dos 100 mil euros – valor só igualado, no mundo lusófono, pelo Prémio Camões (que distingue toda uma obra e não apenas um livro) – ao jornalista brasileiro Murilo Carvalho, autor de <em>O Rastro do Jaguar</em>, considerado o melhor dos 448 romances concorrentes.<br />
No dia do anúncio, feito durante a Feira de Frankfurt, Murilo Carvalho, 60 anos, encontrava-se no coração da Amazónia a filmar um documentário. «Foi uma surpresa enorme», confessa. «Eu só consegui falar ao telefone por estar perto de um quartel do exército, mas havia pouca rede e levei algum tempo a perceber o que me diziam.»<br />
<em>O Rastro do Jaguar</em> é o seu primeiro romance e o regresso à literatura (na juventude publicou dois volumes de contos, ambos premiados), após um longo período dedicado à realização de programas televisivos, ao trabalho como guionista de cinema e à escrita de livros de reportagem («sobre as lutas entre índios e poceiros, conflitos pela posse da terra, esse tipo de temas»).<br />
Fruto de quatro anos de pesquisa intensiva, o livro estava numa espécie de impasse, muito por culpa da sua extensão: «Uma das editoras que contactei respondeu-me que preferia não publicar um romance tão grande; era mais seguro apostar em três livros de 200 páginas do que num só com quase 600.» Por isso, ao ver o anúncio do Prémio LeYa no jornal, nem hesitou.<br />
A ideia para o romance nasceu da leitura das obras do naturalista francês Auguste de Saint&#8217;Hilaire, que viajou pelo Brasil no início do século XIX e deixou minuciosas descrições da flora tropical. Num dos livros, Saint’Hilaire revelava a intenção de levar consigo para a Europa um índio aimoré adulto, bem como um índio guarani ainda criança, destinado a um general de Napoleão. «Ele trouxe os índios até ao Rio de Janeiro, mas o governo brasileiro não autorizou o embarque. Ninguém sabe o que aconteceu a esses dois. Então, eu decidi imaginar que eles chegavam mesmo a França. Ou seja, pus-me a ficcionar as suas vidas, mantendo os nomes verdadeiros: Firmiano (o aimoré) e Pierre (o guarani).»<br />
Um dos objectivos de Murilo foi justamente explorar as questões identitárias dos povos indígenas, massacrados por uma política colonial que os conduziu ao extermínio, ou quase. «Quis sobretudo prestar homenagem à cultura guarani, à sua cosmogonia assente no poder da palavra, à sua religiosidade complexa e aos seus mitos, como o da procura da Terra Sem Males.»<br />
Além das pequenas guerras de resistência dos indígenas, há outro conflito militar que ocupa um lugar central na estrutura do livro: a guerra do Paraguai. «Infelizmente, a história da América do Sul, contada em ficção, quase não existe. E eu pretendi lembrar esse momento dramático que moldou os países do extremo sul do continente: o Uruguai; a Argentina, ainda em formação como país; o Brasil, à beira do fim do império; e o Paraguai, que viu a sua população masculina dizimada (e ainda não se recompôs, século e meio depois). Estas nações formam hoje o Mercosul. Constituímos uma comunidade internacional. Temos um passaporte comum. E nascemos todos daquela guerra. Uma guerra que eu tentei descrever, para a entender melhor.»<br />
O rigor histórico transformou-se numa obsessão para Murilo Carvalho, enquanto preparava o romance. Por isso visitou, um a um, todos os lugares referidos. «Cada casa, cada rua, cada descrição geográfica é absolutamente real. Andei por aqueles sítios, filmei muito, li tudo o que encontrei sobre os vários temas, desde relatórios militares a descrições das batalhas, passando por textos de filósofos e versos de poetas sobre a condição indígena.» Nos pântanos do Paraguai, encontrou ainda rastos da destruição e até balas, marcas do horror que o ajudaram na hora de escrever.<br />
Para Murilo Carvalho, este romance impôs-se pela «necessidade de reflectir sobre a História do meu país», algo que os documentários não lhe davam, «porque só permitem mostrar a realidade como ela é», em bruto, sem o lastro de um pensamento mais elaborado. «Em minha opinião, a literatura deve abarcar os muitos aspectos de uma época, focando tanto os movimentos individuais como os colectivos. Eu não gosto dos romances demasiado intimistas, que ficam navegando apenas pelo interior das personagens.» Precisamente o tipo de ficção que domina, segundo Murilo, o panorama «muito pobre» da literatura brasileira contemporânea. «Os jovens autores estão todos voltados para si mesmos. É a literatura dos gabinetes de S. Paulo, da violência urbana. E o resto do país como que desaparece.»<br />
Talvez por isso, embora aprecie alguns escritores mais recentes (como Luiz Ruffato, Cristovão Tezza ou Caio Fernando Abreu), as referências maiores estão lá para trás: «Há o Guimarães Rosa, claro. Eu gasto os livros dele, de tanto ler. E depois alguns nomes menos conhecidos fora do Brasil, como Autran Dourado ou Adonias Filho, autor de <em>Memórias de Lázaro</em>, um livro maravilhoso.» Não que o seu estilo se assemelhe ao destes escritores: «Eu escrevo de forma muito clara, muito cinematográfica. E se há alguma herança é mais dos delírios de Joseph Conrad e Richard Wagner.» A música de Wagner, explicitamente evocada no livro, foi mesmo essencial no processo de criação. «Passei o tempo todo a ouvir o <em>Tannhäuser</em>, com as partituras na mão, procurando compreender tanto as ideias musicais como a busca dos mitos.»<br />
Com a folga financeira permitida pelo prémio, o objectivo é agora dedicar-se mais à literatura, mas sem abdicar do trabalho que vem fazendo. No horizonte, há vários projectos de documentários, um deles sobre a exploração sexual de crianças nas estradas brasileiras. E o próximo romance, <em>Memórias de Isabel</em>, já está escrito. «É sobre o período da ditadura, reflectindo um pouco da minha experiência na época. Passa-se durante uma semana, uma parte na Bahia, outra parte em S. Paulo, em torno da construção de uma grande barragem no sertão e do assassinato de Vladimir Herzog, um grande amigo e jornalista. Foi com o impacto da sua morte que a ditadura começou a cair.»<br />
O Prémio LeYa será oficialmente entregue a Murilo Carvalho no dia 6 de Abril, no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Já esta semana, foi aberto o concurso para a segunda edição do prémio, cujo regulamento pode ser consultado <a href="http://www.leya.com/">aqui</a>. O prazo para a entrega de originais termina a 15 de Junho.</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em> do semanário <em><a href="http://aeiou.expresso.pt/">Expresso</a></em>]</p>
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		<title>A voz de Chico</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 15:45:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desta vez não canta. Desta vez lê em voz alta excertos do seu próximo romance: Leite Derramado (Companhia das Letras).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/gYRqKLt9q2I&#038;color1=0xb1b1b1&#038;color2=0xcfcfcf&#038;hl=pt-br&#038;feature=player_embedded&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/gYRqKLt9q2I&#038;color1=0xb1b1b1&#038;color2=0xcfcfcf&#038;hl=pt-br&#038;feature=player_embedded&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
<p>Desta vez não canta. Desta vez lê em voz alta excertos do seu próximo romance: <em>Leite Derramado</em> (Companhia das Letras).</p>
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		<title>Chico Buarque tem novo romance quase a sair</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 11:02:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Seis anos após Budapeste (2003), Chico Buarque regressa à literatura com Leite Derramado, a publicar ainda em Março, no Brasil, pela Companhia das Letras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.nandaroverecultural.blogger.com.br/chico_buarque.jpg" alt="" /></p>
<p>Seis anos após <em>Budapeste</em> (2003), Chico Buarque regressa à literatura com <em>Leite Derramado</em>, a publicar ainda em Março, no Brasil, pela <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/">Companhia das Letras</a>.</p>
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		<title>&#8216;Filho da mãe&#8217;, de Bernardo Carvalho (booktrailer)</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Mar 2009 12:01:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Bernardo Carvalho]]></category>
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		<description><![CDATA[O novo romance de Bernardo Carvalho será lançado esta semana no Brasil, com chancela da Companhia das Letras. Neste booktrailer, o escritor fala sobre a obra, fruto de uma estadia em São Petersburgo (ao abrigo do projecto Amores Expressos), e lê alguns trechos. Uma pré-publicação de Filho da Mãe pode ser lida na edição online [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/ukYxuyAOlRY&#038;color1=0xb1b1b1&#038;color2=0xcfcfcf&#038;hl=en&#038;feature=player_embedded&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/ukYxuyAOlRY&#038;color1=0xb1b1b1&#038;color2=0xcfcfcf&#038;hl=en&#038;feature=player_embedded&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
<p>O novo romance de Bernardo Carvalho será lançado esta semana no Brasil, com chancela da <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/">Companhia das Letras</a>. Neste <em>booktrailer</em>, o escritor fala sobre a obra, fruto de uma estadia em São Petersburgo (ao abrigo do projecto <a href="http://www.amoresexpressos.com.br/">Amores Expressos</a>), e lê alguns trechos. Uma pré-publicação de <em>Filho da Mãe</em> pode ser lida na <a href="http://www.revistapiaui.com.br/edicao_29/artigo_886/O_filho_da_mae.aspx">edição <em>online</em> da revista <em>Piauí</em></a>.</p>
<p>[via <a href="http://www.ciberescritas.com/">Ciberescritas</a>]</p>
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		<title>Um nome bom de se pronunciar</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Feb 2009 17:41:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Adriana Lisboa]]></category>

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		<description><![CDATA[«Na mochila, Celina levava seu diário e o diário de Bashô. Um pouco de dinheiro para as passagens e para a comida. Foi de ônibus até sua estação habitual, Katsura. Dali era preciso pegar o trem até a estação Arashiyama. E caminhar a pé até seu destino final. Era curioso passar tantos dias sem falar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Na mochila, Celina levava seu diário e o diário de Bashô. Um pouco de dinheiro para as passagens e para a comida. Foi de ônibus até sua estação habitual, Katsura. Dali era preciso pegar o trem até a estação Arashiyama. E caminhar a pé até seu destino final.<br />
Era curioso passar tantos dias sem falar praticamente nada. Sem trocar palavras com o resto do mundo, além de fugazes pedidos em balcões, de cumprimentos desajeitados e breves, de agradecimentos lacônicos. Sua voz parecia um casulo de borboletas dentro da garganta, operando alguma espécie de transformação interna. Sua voz parecia se equilibrar com fragilidade sobre aquela categoria delicada – o mínimo indispensável.<br />
O mínimo indispensável. O latido suave de um coração feito de palavras estranhas, estrangeiras, difíceis de decorar.<br />
E aquele nome, que também estava no campo semântico do coração: Rakushisha. Um nome morno e um tanto rascante.<br />
Rakushisha. Um nome bom de se pronunciar.<br />
Rakushisha. Dava para sentir os grãos das consoantes na língua.»</p>
<p>[in <em>Rakushisha</em>, de Adriana Lisboa, Quetzal, 2009]</p>
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		<title>A vantagem das Obras Completas</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jan 2009 14:08:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Imprensa estrangeira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao reunir a sua obra num só volume (toda a poesia e todo o teatro), o poeta brasileiro Ferreira Gullar descobriu um número significativo de erros nos seus livros, erros perpetuados em sucessivas reimpressões e só agora corrigidos. A nova e esmerada edição, organizada pelo crítico Antonio Carlos Secchin, tem 1264 páginas e chancela da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao reunir a sua obra num só volume (toda a poesia e todo o teatro), <a href="http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081220/not_imp296766,0.php">o poeta brasileiro Ferreira Gullar descobriu um número significativo de erros nos seus livros</a>, erros perpetuados em sucessivas reimpressões e só agora corrigidos. A nova e esmerada edição, organizada pelo crítico Antonio Carlos Secchin, tem 1264 páginas e chancela da Nova Aguilar, uma espécie de Pléiade dos trópicos, que desde 1958 vem fixando as obras dos grandes clássicos brasileiros, em volumes de capa dura e papel-bíblia.<br />
Segundo Sebastião Lacerda, responsável máximo da editora, «Gullar e Secchin conseguiram acertar até erros na construção de versos». E eu, enquanto folheio a espessa antologia publicada em Portugal pelas Quasi, em 2003, pergunto-me quantas dessas antigas incongruências e incorrecções estarão por aqui à espera de deturpar a minha leitura dos poemas. </p>
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		<title>Um poema de Carlito Azevedo</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jan 2009 14:57:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Carlito Azevedo]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[LIMIAR A via-láctea se despenteia. Os corpos se gastam contra a luz. Sem artifícios, a pedra acende sua mancha sobre a praia. Do lixo da esquina partiu o último vôo da varejeira contra um século convulsivo. [in Sob a Noite Física, Cotovia, 2001]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>LIMIAR</p>
<p><em>A via-láctea se despenteia.<br />
Os corpos se gastam contra a luz.<br />
Sem artifícios, a pedra<br />
acende sua mancha sobre a praia.<br />
Do lixo da esquina partiu<br />
o último vôo da varejeira<br />
contra um século convulsivo.</em></p>
<p>[in <em>Sob a Noite Física</em>, Cotovia, 2001]</p>
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		<title>Reflexos num espelho deformado</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2008 21:27:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Cristovão Tezza]]></category>

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		<description><![CDATA[O Filho Eterno Autor: Cristovão Tezza Editora: Gradiva N.º de páginas: 237 ISBN: 978-989-616-289-4 Ano de publicação: 2008 Quando se decidiu a escrever, ao fim de vinte e tal anos, sobre o seu filho Felipe, Cristovão Tezza sabia perfeitamente que estava a entrar num terreno minado. Felipe nasceu com síndrome de Down e qualquer aproximação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/filhoeternofinal.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>O Filho Eterno</strong><br />
<em>Autor:</em> Cristovão Tezza<br />
<em>Editora:</em> Gradiva<br />
<em>N.º de páginas:</em> 237<br />
<em>ISBN:</em> 978-989-616-289-4<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2008</p>
<p>Quando se decidiu a escrever, ao fim de vinte e tal anos, sobre o seu filho Felipe, Cristovão Tezza sabia perfeitamente que estava a entrar num terreno minado. Felipe nasceu com síndrome de Down e qualquer aproximação literária ao tema, por muito vigiada que seja, está sempre em risco de cair no abismo da pieguice afectivamente correcta. Pela própria natureza da história que conta, <em>O Filho Eterno</em> aproxima-se vezes sem conta do precipício, chega a olhar lá para baixo, mas nunca resvala. Só isto já seria suficiente para o considerar um romance acima da média, num tempo em que os romances acima da média são cada vez mais raros.<br />
Inteligentemente, Tezza optou por escrever o seu livro na terceira pessoa, escondendo-se num narrador que lhe permite uma visão exterior, um olhar-se de perto, mas a partir de fora. Os factos da sua vida surgem assim com uma clareza que o uso da primeira pessoa, demasiado próxima da esfera emocional, talvez não alcançasse. Dito de outro modo: o protagonista, embora partilhe o percurso biográfico de Tezza e as angústias com o filho «diferente», não deixa de ser uma personagem de ficção. E este distanciamento é talvez o principal antídoto contra a autocomplacência.<br />
O livro começa no dia do nascimento de Felipe. Enquanto espera nos corredores da maternidade, o quase pai faz um severo exame do seu lugar no mundo. Aos 28 anos, ele sente que «ainda não começou a viver». Com o curso de Letras a meio, sem profissão definida, sustentado pela mulher, as suas aspirações literárias esbarram na indiferença das editoras. Embora se sinta «predestinado à literatura», duvida das suas capacidades e sofre com isso. No fundo, ele é «delicado demais» (ou «ignorante demais») para a «realidade simples» do quotidiano e tem pânico de ser integrado pelo «sistema». Por isso, bebe muito, racionaliza tudo e encena o seu próprio teatro mental.<br />
Para quem está aprisionado por este «leque de ansiedades felizes», no Brasil de 1980, a viver os «últimos minutos da ditadura», o nascimento do filho poderia funcionar como libertação. Só que o diagnóstico cai logo depois, brutal: Felipe tem trissomia do cromossoma 21. Isto é, síndrome de Down. Ou, como se dizia na época, «mongolismo». O problema do filho altera então o eixo das coisas e Tezza disseca, sem uma réstia de moralismo, as consequências do abalo. Acompanhamos o desespero inicial, as esperanças num falso diagnóstico, a vergonha, as frustrações, o desejo de que o filho morra cedo, a repulsa diante da comiseração alheia. É um processo doloroso e inconfessável, que se passa na cabeça do pai durante o calvário das consultas com especialistas e dos esquemas de estimulação precoce – formas de luta contra a «névoa neurológica», quase sempre violentíssimos, a raiar a tortura.<br />
«Um filho é como um espelho no qual o pai se vê», diz Kierkegaaard numa das epígrafes. Mas se o espelho não é liso, a imagem que nele se projecta fica deformada. Ao olhar para Filipe, o pai vê o seu próprio falhanço: «O problema não é o filho; o problema é ele.» A lenta aprendizagem do amor paterno, assente numa demorada e incerta «rede tentacular de afetos», coincide então com a saída do labirinto que o escritor construira à sua volta (um labirinto que a memória recupera, ao evocar o empenhamento juvenil na «arte popular», uma passagem por Coimbra durante o PREC ou os tempos em que trabalhou na Alemanha, sem papéis, a varrer o chão de um hospital). O presente perpétuo da criança, que não distingue o ontem do amanhã, vai-se encaixando cada vez melhor nos vários passados do pai – sobrepostos pela sua reflexividade quase cartesiana – até ao apaziguamento final diante de um futuro que ninguém pode antecipar.<br />
O consenso em torno de uma obra nem sempre é bom sinal. Mas no caso de <em>O Filho Eterno</em> – vencedor, em 2008, dos dois principais prémios literários brasileiros (Jabuti para melhor romance e PT de Literatura), além dos prémios da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da revista Bravo! para Livro do Ano – é apenas uma questão de justiça.   </p>
<p><em>Avaliação:</em> 8,5/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em> do <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>As fronteiras do parágrafo</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Nov 2008 22:16:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Crónicas]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Bonassi]]></category>

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		<description><![CDATA[O livro intitula-se Passaporte (Cosac &#038; Naify, São Paulo, 2001) e tem a forma de um verdadeiro passaporte. Capa dura, de um verde quase negro, cantos arredondados e uma lâmina de barbear no lugar do brasão de armas. Uma lâmina de barbear daquelas antigas, iguais às que os heróis românticos usavam para cortar os pulsos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/passaporte.jpg"><img src="http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/passaporte.jpg" alt="" title="passaporte" width="263" height="400" class="alignnone size-full wp-image-2606" /></a></p>
<p>O livro intitula-se <em>Passaporte</em> (<a href="http://www.cosacnaify.com.br/portal.asp">Cosac &#038; Naify</a>, São Paulo, 2001) e tem a forma de um verdadeiro passaporte. Capa dura, de um verde quase negro, cantos arredondados e uma lâmina de barbear no lugar do brasão de armas. Uma lâmina de barbear daquelas antigas, iguais às que os heróis românticos usavam para cortar os pulsos. Lá dentro estão 137 micronarrativas (duras, violentas, de uma nitidez que magoa), 137 «cartões-postais da desilusão», 137 relatos das viagens que Fernando Bonassi – escritor, «roteirista», dramaturgo e cineasta paulista – foi fazendo, durante a década de 90, pelo mundo. De Jiparaná a Cracóvia e à República Checa. De Londres ao México e a Berlim Oriental.<br />
<em>Passaporte</em> não segue qualquer espécie de ordem, nem cronológica nem geográfica. Avançamos pelas situações adentro, numa progressão aleatória quer no tempo quer no espaço, para descobrir, ao fim de poucas páginas, que só podemos esperar bofetadas ou murros no estômago. Os textos de Bonassi constroem-se (ou desconstroem-se) nos antípodas do que nos habituámos a considerar literatura de viagens. Esqueçam a contemplação turística, as deambulações culturais, as aventuras cheias de adrenalina ou a procura do exotismo pelo exotismo. Não há nada disso aqui, felizmente.    </p>
<p><img src="http://www.cosacnaify.com.br/loja/images/gif_passaporte.gif" alt="" /></p>
<p>As únicas fronteiras que o também cronista do jornal <em><a href="http://www.folha.uol.com.br/">Folha de São Paulo</a></em> parece respeitar são as do parágrafo. <a href="http://bibliotecariodebabel.com/geral/cinco-bilhetes-postais-de-fernando-bonassi/">Tudo o que é preciso ser dito, é dito num único bloco</a>: cerca de doze linhas de prosa concentrada, frases curtas, imagens fortíssimas e finais que mais parecem golpes de navalha, vindos de onde menos se espera. Um exemplo: «Jurgen enterrou a mãe e escapou de Varsóvia quando as crianças ainda conseguiam passar embaixo das cercas do gueto. Carregou irmão menor nas costas porque era a única coisa que tinha que o ligava ao passado da sua cabeça. Caiu muitos quilômetros depois e não sabe se dormiu mais que noite no lugar. Um casal de agricultores da Baviera, chamado pelo Reich pra cultivar o espaço vital, encontrou os dois. Deu água, pão e os ensinou a chamá-los de pais pelos dez anos seguintes. Nunca soube onde enfiar a raiva que seu pai polonês mandou ter da Alemanha e tornou-se actor.»<br />
Jurgen é apenas uma das dezenas de figuras, reais ou imaginárias (nunca o saberemos), com que Bonassi se cruza. Há também homens à espera de mudar de sexo, famílias esmagadas pela História, cães suicidas, traficantes de droga com prisão de ventre (e «20 pequenas bolsas, dentro do estômago»), índios interesseiros, marginais, artistas, crimes, aberrações, cópulas em lugares públicos, casais problemáticos, imigrantes que não se adaptam, prostituição, «sacanagem», parábolas beckettianas, paisagens, fotografias, desespero e muitos exercícios de estilo (como a «autobiografia de pedro páramo» ou a «natureza-morta com são paulo»).<br />
Para Fernando Bonassi, não há monumentos, nem aeroportos, nem hóteis. Só estações de metro sórdidas, ruas cheias de lixo, casas escavacadas. Ainda bem. Ele é a prova de que a literatura de viagens pode (e deve ser) sobretudo literatura. </p>
<p>[Texto publicado no número 73 da revista <em>Ler</em>]</p>
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		<title>Um carnaval a meio-gás</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Sep 2008 11:22:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>

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		<description><![CDATA[Orgias Autor: Luis Fernando Verissimo Editora: Dom Quixote N.º de páginas: 130 ISBN: 978-972-20-3638-2 Ano de publicação: 2008 Luis Fernando Verissimo conhece, como poucos, a arte de escrever uma crónica. Durante anos a fio, ele publicou várias por semana (nalguns dos principais jornais do Brasil) e foi apurando uma técnica, uma voz única, um estilo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.dquixote.pt/gfx/9789722036382.jpg" alt="capa_Orgias" /></p>
<p><strong>Orgias</strong><br />
<em>Autor:</em> Luis Fernando Verissimo<br />
<em>Editora:</em> Dom Quixote<br />
<em>N.º de páginas:</em> 130<br />
<em>ISBN:</em> 978-972-20-3638-2<br />
<em>Ano de publicação:</em> 2008</p>
<p>Luis Fernando Verissimo conhece, como poucos, a arte de escrever uma crónica. Durante anos a fio, ele publicou várias por semana (nalguns dos principais jornais do Brasil) e foi apurando uma técnica, uma voz única, um estilo. Há uma maneira de dizer as coisas que é só dele. Um jeito de pegar nas palavras que mais ninguém tem. E isso é ao mesmo tempo a sua maior virtude e o seu maior defeito. Virtude porque o leitor reconhece à légua a sua bonomia, a prosa leve, o humor suave, e deixa-se levar com gosto por aquele desprendimento irónico que não abdica da inteligência (nem da capacidade de denúncia). Defeito porque Verissimo escreve com tanta facilidade que às vezes cai na rotina e não capricha tanto como seria de esperar.<br />
<em>Orgias</em> é o sexto volume antológico de Verissimo editado pela Dom Quixote, mas está longe de ser uma colheita <em>vintage</em>. Embora o mote das histórias seja sugestivo (a ideia de festa: do Carnaval às confraternizações das empresas; do Ano Novo aos apocalípticos aniversários infantis), o resultado é quase sempre decepcionante. Está lá tudo o que é suposto estar num texto de Verissimo – caos <em>made in Brasil</em>, folia, muito sexo, futebol, personagens descabeladas, diálogos cirúrgicos – mas falta aquilo que separa a eficácia da genialidade.<br />
As crónicas sem rasgo (para não dizer burocráticas) estão em maioria, talvez porque 2005 foi um ano de pouca inspiração para LFV. E o livro só não é um falhanço completo porque há meia dúzia de pérolas que o redimem. Como <em>Exercícios para o Verão</em>, por exemplo, uma deliciosa paródia à ditadura da boa forma física e da tonificação muscular, em que o acto de beber um &#8220;chope&#8221; (cerveja) é equiparado ao uso daquelas horríveis máquinas de abdominais que se vendem no <em>teleshopping</em>. Ou <em>Um Baile em Algum Lugar</em>, divertidíssima descrição de uma ida colectiva para um Carnaval que não chega a acontecer. Ou ainda miniaturas exemplares: <em>O Nostálgico</em>, <em><a href="http://bibliotecariodebabel.com/geral/comemoracao/">Comemoração</a></em>, <em>Infidelidades</em>, <em>Seu Pompom</em>, <em>Sexo Sexo Sexo</em>.<br />
Neste último texto, encontramos mesmo um vislumbre de Verissimo no seu melhor: &#8220;Eu sou masoquista e minha mulher é sádica, mas o que estraga o nosso relacionamento é o ciúme. Quando eu chego em casa com uma mancha vermelha na camisa, preciso jurar que não é sangue, é batom, senão ela tem um ataque histérico e, como castigo, não me bate.&#8221;</p>
<p><em>Avaliação:</em> 6/10</p>
<p>[Texto publicado no suplemento <em>Actual</em> do <em>Expresso</em>]</p>
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		<title>Cinco bilhetes-postais de Fernando Bonassi</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Sep 2008 09:05:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Bonassi]]></category>

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		<description><![CDATA[cachorros suicidas Almir insiste para observarmos os cães mortos na estrada. Nenhuma música consegue distraí-lo. Há mesmo muitos, inchados como balões, junto ao guard-rail. Argumento que é apenas por estarmos numa dessas cidades ainda não completamente deterioradas, onde as pessoas acumulam bichos nos quintais, e que, na verdade, estamos vendo tantas carcaças porque ficamos paranóicos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>cachorros suicidas</strong></p>
<p>Almir insiste para observarmos os cães mortos na estrada. Nenhuma música consegue distraí-lo. Há mesmo muitos, inchados como balões, junto ao <em>guard-rail</em>. Argumento que é apenas por estarmos numa dessas cidades ainda não completamente deterioradas, onde as pessoas acumulam bichos nos quintais, e que, na verdade, estamos vendo tantas carcaças porque ficamos paranóicos com a coisa. Almir não aceita. Pede que eu repare como são cães velhos. Afirma que eles sentem quando está chegando a sua hora e o atropelamento é a única forma de suicídio que conhecem.</p>
<p>(Londrina &#8211; Brasil &#8211; 1993)</p>
<p><strong>os indolores</strong></p>
<p>Ninguém da família de Piero sente dor. Alguma disfunção química na transmissão dos impulsos, de forma que a mente não se dá conta do que o corpo está sofrendo. A coisa é passada de geração pra geração sem nada que a interrompa. Ficam semanas com ossos quebrados, tumores supurados e raízes dentárias expostas sem se darem conta. Foram tema de mais documentários que as mais vaidosas personalidades poderiam suportar. Na verdade dariam tudo por uma dorzinha. Não podem entender essa cara estranha, entre enjoada e triste, que as pessoas fazem quando sentem tal coisa.</p>
<p>(Praga &#8211; República Checa &#8211; 1998)</p>
<p><strong>nem dez marcos</strong></p>
<p>Herbert entrou com um pedido na polícia de Berlim pra fazer uma instalação na Rosa Luxemburg Platz. Ele queria forrar um bom pedaço de parede da estação de metrô com notas de dez marcos, de forma que se as pessoas quisessem pegá-las teriam de pular na linha e ter a sorte de não ser atropeladas. Herbert chamou o projeto de &#8220;Darwinismo&#8221;. Claro que o seu pedido foi recusado, mas ele não perdeu a chance de responder que os alemães fizeram coisas bem piores nesses últimos noventa anos, tudo por muito menos que a grana que ele está oferecendo.</p>
<p>(Berlim Oriental &#8211; Alemanha &#8211; 1998)</p>
<p><strong>red dorian gray</strong></p>
<p>Antes de taxista, Zbigniew era dos melhores pintores de Cracóvia. Não fez dinheiro porque dinheiro não era o que valia nos anos 50. Fez Bierut, Gomulka e boa parte da União dos Patriotas Poloneses. Melhorava pessoas sem incomodá-las, o que considera a maior habilidade do retratista. Problema é que as tintas que recebia da Geórgia começaram a sumir, deixando nas telas apenas manchas encardidas sobre traços brutais de carvão. Clientes satisfeitos viraram-lhe a cara de um dia pro outro. A Polônia nunca teve história fácil, mas Zbi acha que foram aquelas tintas que o desgraçaram.</p>
<p>(Cracóvia &#8211; Polônia &#8211; 1998)</p>
<p><strong>ouro e maldição</strong></p>
<p>Seis meses floresta adentro, os dois fazem sinal da cruz antes de mergulhar. Roupas de câmara de pneu, oxigênio por mangueira de jardim. Pesos de chumbo num cinto de arame. Cogumelos de poeira levantam em câmara lenta, quando o fundo do rio é tocado pelos pés descalços. Um deles aponta algo. A três metros de distância na água suja, o outro pode ver. Rapidamente o primeiro trara de fazer a sucção, apontando pra pedra brilhante a boca do cano de PVC. Mas a coisa é tão grande que entala. O segundo a pega, sobe à superfície e corta o oxigênio do primeiro.</p>
<p>(Jiparaná &#8211; Brasil &#8211; 1987)</p>
<p>[in <em>Passaporte</em>, <a href="http://www.cosacnaify.com.br/portal.asp">Cosac &#038; Naify</a>, São Paulo, 2001]</p>
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		<title>Anunciados os dez finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Sep 2008 16:55:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Prémios]]></category>

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		<description><![CDATA[É esta a lista: 20 Poemas para o Seu Walkman, de Marília Garcia, poesia (Cosac Naif/7 letras, Brasil) Antonio, de Beatriz Bracher, romance (Editora 34, Brasil) Eu Hei-de Amar uma Pedra, de António Lobo Antunes, romance (Dom Quixote, Portugal; Objetiva, Brasil) Histórias de Literatura e Cegueira, de Julián Fuks, contos (Record, Brasil) Laranja Seleta, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://d.i.uol.com.br/pportugaltelecom2008_208_rep.jpg" alt="logo" /></p>
<p>É esta a <a href="http://diversao.uol.com.br/ultnot/2008/09/02/ult4326u1061.jhtm">lista</a>:</p>
<ul>
<li><em>20 Poemas para o Seu Walkman</em>, de Marília Garcia, poesia (Cosac Naif/7 letras, Brasil)</li>
<li><em>Antonio</em>, de Beatriz Bracher, romance (Editora 34, Brasil)</li>
<li><em>Eu Hei-de Amar uma Pedra</em>, de António Lobo Antunes, romance (Dom Quixote, Portugal; Objetiva, Brasil)</li>
<li><em>Histórias de Literatura e Cegueira</em>, de Julián Fuks, contos (Record, Brasil)</li>
<li><em>Laranja Seleta</em>, de Nicolas Behr, poesia (Língua Geral, Brasil)</li>
<li><em>O Amor Não Tem Bons Sentimentos</em>, de Raimundo Carreiro, romance (Iluminuras, Brasil)</li>
<li><em>O Filho Eterno</em>, de Cristovão Tezza, romance (Record, Brasil)</li>
<li><em>O Sol Se Põe em São Paulo</em>, de Bernardo Carvalho, romance (Companhia das Letras, Brasil; Cotovia, Portugal)</li>
<li><em>Os da Minha Rua</em>, de Ondjaki, contos (Língua Geral, Angola; Caminho, Portugal)</li>
<li><em>Tarde</em>, de Paulo Henriques Britto, poesia (Companhia das Letras, Brasil)</li>
</ul>
<p>Resumindo: cinco romances, três livros de poemas, dois livros de contos; oito autores brasileiros, um português e um angolano. No dia 29 de Outubro, o júri (composto por Jorge Fernandes da Silveira, Tania Celestino de Macêdo, Samuel Titan Jr., Selma Caetano, Benjamin Abdala Júnior, Carmen Lúcia Tindó Secco, Flora Sussekind, José Castello, Maria Lúcia Dal Farra e Rita Chaves) anunciará o autor do &#8220;melhor título em língua portuguesa lançado no Brasil em 2007&#8243;, a quem cabe um cheque de 100 mil reais (cerca de 41600 euros). O segundo e terceiro classificados recebem respectivamente 35 mil reais (14600 euros) e 15 mil reais (cerca de 6200 euros).</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Prémio Juca Pato para Antonio Candido</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Aug 2008 14:47:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Prémios]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor e crítico literário Antonio Candido recebeu ontem à noite, em São Paulo, o Prémio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE) à figura que se destacou como &#8220;intelectual do ano&#8221; em 2007.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O escritor e crítico literário <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Candido">Antonio Candido</a> <a href="http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/08/20/materia.2008-08-20.6307431283/view">recebeu ontem à noite</a>, em São Paulo, o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%AAmio_Juca_Pato">Prémio Juca Pato</a>, concedido pela União Brasileira de Escritores (<a href="http://www.ube.org.br/home.php">UBE</a>) à figura que se destacou como &#8220;intelectual do ano&#8221; em 2007. </p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Lançamento brasileiro da revista &#8216;Nada&#8217;</title>
		<link>http://bibliotecariodebabel.com/geral/lancamento-brasileiro-da-revista-nada-hoje-e-amanha/</link>
		<comments>http://bibliotecariodebabel.com/geral/lancamento-brasileiro-da-revista-nada-hoje-e-amanha/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 18 Aug 2008 13:26:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divulgação]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[O 11.º número da revista portuguesa Nada (Maio 2008), cujo conteúdo gira em torno do tema &#8220;Afecção, Sensação, Percepção – Ambiente, Máquinas, Espíritos&#8221; e foi organizado pelo grupo de pesquisa CTeMe (da Universidade Estadual de Campinas), vai ser lançada no Brasil: hoje em Campinas (18h30), no Auditório I do IFCH-Unicamp; e amanhã em São Paulo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.nada.com.pt/Kapa11.jpg" alt="capaNada11" /></p>
<p>O 11.º número da revista portuguesa <em><a href="http://www.nada.com.pt">Nada</a></em> (Maio 2008), cujo conteúdo gira em torno do tema &#8220;Afecção, Sensação, Percepção – Ambiente, Máquinas, Espíritos&#8221; e foi organizado pelo grupo de pesquisa <a href="http://www.ifch.unicamp.br/cteme/">CTeMe</a> (da Universidade Estadual de Campinas), vai ser lançada no Brasil: hoje em Campinas (18h30), no Auditório I do <a href="http://www.ifch.unicamp.br">IFCH-Unicamp</a>; e amanhã em São Paulo (20h00), no <a href="http://www.sescsp.org.br">SESC-SP</a>, que fica na Av. Paulista, 119, 15.º andar.<br />
Na primeira sessão, haverá debate com os autores convidados: Laymert Garcia dos Santos (<a href="http://www.ifch.unicamp.br">IFCH-UNICAMP</a>), Rosângela Pereira de Tugny (<a href="http://www.musica.ufmg.br/~musicologia/equipe.htm">EM-UFMG</a>), Christian Pierre Kasper (<a href="http://www.ifch.unicamp.br/cteme">CTeMe</a>), Emerson Freire (<a href="http://www.ifch.unicamp.br">IFCH-UNICAMP</a>) e Pedro Peixoto Ferreira (<a href="http://www.ifch.unicamp.br">IFCH-UNICAMP</a>). Na segunda sessão, para além do &#8220;bate-papo&#8221;, poderá ouvir-se o <em>set</em> experimental do DJ Camilo Rocha e ver-se uma projecção de fotos de <a href="http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhepesq.jsp?pesq=8144895393045092">Christian Pierre Kasper</a>.<br />
Os dois acontecimentos serão transmitidos pela Internet, através do <a href="http://www.nada.com.pt">site da revista</a>.</p>
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		<title>Amanhece o que é feio no que é belo</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Feb 2008 13:42:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Mário Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Excertos]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[João Paulo Cuenca]]></category>

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		<description><![CDATA[«Copacabana amanhece isolada do resto do mundo por pedras e pelo mar. O Túnel Novo abre caminho pra onde a vida parece desenrolar sem culpa. O ressentimento dos duzentos mil moradores começa a escorrer pelos bueiros dos botecos em cada esquina, cinco por quarteirão. São poucos os que vêem o dia surgir vermelho. Vagabundos, garis, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«Copacabana amanhece isolada do resto do mundo por pedras e pelo mar. O Túnel Novo abre caminho pra onde a vida parece desenrolar sem culpa. O ressentimento dos duzentos mil moradores começa a escorrer pelos bueiros dos botecos em cada esquina, cinco por quarteirão. São poucos os que vêem o dia surgir vermelho. Vagabundos, garis, entregadores de jornais, meia dúzia de travas, putas cansadas, cachorros e alguns velhos andando na praia. Velhos de sono curto que surgem de todas as portas e escadas. O sono dos velhos é cada vez menor. Madrugam. Quando não têm mais o que acordar, morrem estampando avisos fúnebres no meu elevador. Toda semana um novo aviso — &#8220;COMUNICAMOS O FALECIMENTO DO EX-MORADOR DO APTO. 503&#8243;. A distância e o tempo que os velhos carregam fazem seus dias parecerem ainda mais iguais. E os dias em Copacabana não param de nascer iguais. Cada vez mais iguais.</p>
<p><a href='http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/copacabana_vista_espaco_google_earth.jpg' title='copacabana_vista_espaco_google_earth.jpg'><img src='http://bibliotecariodebabel.com/ficheiros/copacabana_vista_espaco_google_earth.jpg' alt='copacabana_vista_espaco_google_earth.jpg' /></a></p>
<p>O sol se desprende do mar, esquenta o sono das putas, gringos por trás de cortinas prateadas, mendigos e pivetes sob marquises, cobertores imundos. Ilumina janelões na Avenida Atlântica. Brilha em cada fresta de ar-condicionado, desenha o teto de conjugados porcos, superpovoados, ilumina quadros caros, coberturas e a piscina do Copacabana Palace, espia basculantes, esquenta as lágrimas de crioulas gostosas, cicatrizando feridas, pingando sangue pelo chão, a oração de beatas que rezam ajoelhadas em frente do espelho de cômodas gastas, o passeio de cachorrinhos estúpidos, o tédio dos porteiros, essa gente sem esperança que dorme cada vez menos enquanto seus dias somem num ralo comum. O sono dos velhos é cada vez menor. Amanhece em Copacabana, as crianças vendendo pó na Djalma Ulrich. Sonhos caindo do céu. Amanhece por trás dos prédios, amanhece o que é feio no que é belo. Amanhece até que não exista diferença.»</p>
<p>[in <em>Corpo Presente</em>, de João Paulo Cuenca, Planeta (Brasil), 2003]</p>
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