O Luís Januário veio a Lisboa e foi à Byblos
Não sei se comprou algum livrinho, o LJ, mas pelo menos trouxe de lá um poema:
Esta livraria é grande demais para mim
A estante de FILOSOFIA, hèlas,
é difícil de distinguir da AUTOAJUDA
Enganaram-se trocaram os carros das reposições
ou trocaram a sinalética
ou os olhos
E a estante da LUSOFONIA tem o mesmo
ar desamparado
subsidiado mal lido
mal fodido dos lusófonos
E nos GUIAS de VIAGENS
falta Berlim o meu destino
A Escócia Islândia o deserto
de Atacama
E nos visores de procure você mesmo
os meus autores Roth, o Joseph,
Blanchot, Bolaño, Ángel Vásquez
estão indisponíveis peça ajuda
Felizmente que existe a Alícia Galloti
Aqueço-me à 14ª edição revista e
melhorada como a uma lareira
e como na Blackwell de Leicester em tempos
de emigrante quando olhos parados
no divino triângulo a tesão doía
e a mesma humidade embaraçava
O lugar onde os best-sellers não o são
Eis as dez obras mais vendidas ultimamente na Pó dos Livros:
Não deve ser por acaso que lhe chamam um “anti-top”.
Leilão de biblioteca particular
A Livraria Manuel Ferreira (R. Dr. Alves da Veiga, n.º 89, Porto) organiza no próximo dia 16 de Fevereiro, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, a partir das 15h00, o leilão de uma preciosa biblioteca particular com mais de 500 espécies bibliográficas raras. Do acervo fazem parte, entre muitas outras peças, 888 cartas enviadas por José Régio ao seu amigo e poeta Alberto Serpa (algumas com desenhos); sete cartas autógrafas de Abel Salazar; e primeiras edições de livros de Almeida Garrett, Camilo Castelo-Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Wenceslau de Morais, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Almeida Negreiros (muitos deles com dedicatórias dos autores).
Os lotes estarão expostos no dia 15, das 15h00 às 18h00, e no dia 16, das 10h00 às 12h00. Já o catálogo para consulta pode ser descarregado no blogue da livraria.
Pó do blogue

Agora, a livraria Pó dos Livros não existe apenas na sua morada física (Avenida Marquês de Tomar, 89 A, Lisboa). Também existe na blogosfera.
Fabula Urbis
Reportagem da RTP sobre uma livraria/galeria/editora de temática lisboeta, junto à Sé.
[Sugestão do comentador videonauta]
Deslocalização
A Bichinho de Conto, livraria/editora especializada em literatura infantil, mudou-se com armas e bagagens da Grande Lisboa (Fábrica da Pólvora, Barcarena) para a vila de Óbidos (onde agora ocupa uma antiga escola primária). Vale a pena perceber porquê e como.
[via 1979]
Top-10
Lembram-se daquela extraordinária livraria de Maastricht que foi instalada numa igreja dominicana? O jornalista Sean Dodson, do The Guardian, colocou-a em primeiro lugar no seu top-10 das mais belas livrarias do mundo. Já agora, anote-se que em terceiro lugar ficou esta:

Sim, a belíssima Lello do Porto.
Livraria Trama
A mais ou menos 500 metros contados em linha recta, fica a Byblos, com os seus milhares de volumes com RFID (sensores de radiofrequência), mais os ecrãs tácteis, os plasmas, as pilhas de bestsellers, as escadas rolantes, a estante robotizada made in Italy e dezenas de funcionários. A única coisa que a Trama, junto ao Rato, e a Byblos, nas Amoreiras, têm em comum é o facto de venderem livros e ocuparem dois pisos. Tudo o resto as separa, a começar no conceito e a terminar nas respectivas áreas: 140 metros quadrados versus 3300.
Sentada numa das cadeiras do andar de cima, junto ao janelão que enche de luz a parte nobre da Trama (o rés-do-chão fica para as novidades, os jornais e a caixa), Catarina Barros, 23 anos, encolhe os ombros e diz que a sombra do gigante não a incomoda: “Eles são um monstro, nós somos uma livraria de bairro.” A seu lado, Ricardo Ribeiro, 28 anos, sócio de Catarina nesta aventura, faz que sim com a cabeça: “Trabalhamos para públicos diferentes, o sucesso deles não nos afecta.”
Os dois amigos conheceram-se atrás do balcão da livraria Clepsidra, em Massamá, onde começaram a alimentar o sonho de qualquer livreiro: ter o seu próprio espaço e a liberdade de “seleccionar o que sugerimos aos clientes”.
Após um frustrante estágio numa empresa farmacêutica, Catarina, que deixou o curso de Literatura Portuguesa a meio e andava à procura de um rumo, foi beber um café com o antigo colega. “Gostava de abrir uma livraria”, disse-lhe em tom de desafio. E Ricardo aceitou o repto, ou não tivesse há uns tempos a mesma ideia na cabeça.
Aconteceu isto há seis meses e o objectivo da dupla era abrir a Trama — “um nome com muitos significados diferentes e que soa bem” — lá para Outubro de 2008. Só que certas coisas, quando se põem em marcha, ninguém as pára. Depois de umas semanas “a comprar o Ocasião às quintas”, descobriram o sítio ideal e criaram “tudo de raiz”, da organização do espaço ao desenho, construção e montagem dos móveis (o pai de Ricardo tem uma marcenaria). Resultado: a 30 de Novembro de 2007, quase um ano antes do previsto, a Trama abriu as portas.
“Isto é para clientes parecidos connosco”, diz Catarina. Leitores amantes de raridades e edições esgotadas, que discutem os livros “e puxam por nós”. Bibliófilos que choram ao encontrar uma primeira edição de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Livros do Brasil), ou que obrigam os livreiros a um verdadeiro trabalho de book hunting. “Por exemplo, houve um cliente que apareceu aqui à procura de um livro sobre a arqueologia dos bunkers, porque não o encontrava em lado nenhum, e eu vou tentar descobrir-lhe um exemplar”, diz Ricardo.
Apesar de inaugurada há pouco mais de um mês, a Trama já tem os seus fiéis. “Há caras que se repetem nos concertos de quinta à noite”, garante Catarina. E o mesmo deverá acontecer nos futuros leilões mensais de livros, com primeiras edições de Herberto Helder, Ramos Rosa e outros, prevê Ricardo.
O alfarrábio e os fundos de catálogo prometem ser, de resto, um dos principais atractivos desta livraria que tem um canto (foto acima) só com volumes de páginas amarelecidas e grafismo dos anos 70, muita coisa dos beatnicks e plaquetes de poetas hoje famosos, editadas no tempo em que eram apenas obscuros.
Aos dois fundadores juntou-se um terceiro elemento, a Joana, depois de um processo épico de candidaturas e entrevistas de emprego (amplamente documentado no blogue), durante o qual Catarina desempenhou o mais ingrato dos papéis: o de recusar pessoas que demonstravam enorme vontade e excelentes currículos. “Uma delas, que ficou tristíssima por não ter sido escolhida, ofereceu-se ainda assim para nos ajudar a arrumar as coisas no dia da abertura.”
Para Ricardo, a Trama é muito mais do que o lugar onde trabalha 10 a 12 horas por dia. “É a nossa casa, um sítio onde fazemos aquilo de que mais gostamos e recebemos os amigos.” Para Catarina, “mãe babada”, à livraria só falta uma coisa: a pátina que vem com o tempo. “Espero um dia ver as paredes cheias de cartazes e memórias do que se for fazendo aqui.”
Joana, Ricardo e Catarina
Além dos concertos de quinta, haverá performances, dança e conversas com autores nas noites de sexta e actividades destinadas ao público infantil nas tardes de sábado. Tudo no piso de cima, junto a um pequeno bar que serve os vários tipos de café Nespresso, mas com outros nomes: “A cápsula amarela vai chamar-se Calvino, o lote mais forte será o Nietzsche, ao Roma vamos chamar-lhe Pascal Quignard e aos descafeinados…, bom, aos descafeinados é melhor não dizer o que lhes vamos chamar, para não ferir susceptibilidades.”
A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite. Programação de Janeiro aqui.
[Versão ampliada de um texto publicado no último número da revista Time Out]
Livraria divina
A dupla holandesa Merkx + Girod venceu o prémio Lensvelt para Arquitectura de Interiores com este projecto:

É mesmo o que parece: uma livraria dentro de uma igreja. Melhor dizendo, uma livraria dentro de uma antiga igreja dominicana, em Maastricht.
Vista de outro ângulo:

Espantoso, não acham?
Mais imagens e informações aqui (atentem no design e localização da cafetaria).
Nem todas as livrarias têm 3300 metros quadrados
Save our books. Buy them
Os livros não se limitam a falar uns com os outros. Quando as livrarias fecham, também encenam as suas “mortes literárias” preferidas.
[via O Melhor Anjo]
Diálogos livrescos


Na Fnac Chiado, estes dois livros partilham a banca das novidades, a um palmo de distância. O primeiro tem o título que tem. O segundo só termina ao fim de 893 páginas. Agora não me digam que os livros não falam uns para os outros (e uns com os outros).
Byblos - Dia 2
Hoje à tarde, cerca das 18h00, a Byblos estava assim nos dois pisos: cheia de gente e com filas nas caixas. Pelos vistos, a dificuldade dos acessos pode não ser um problema se o boca-a-boca funcionar e se a moda do “ir à Byblos” se for instituindo como se instituiu o “vemo-nos na Fnac”. Uma funcionária com quem falámos, e que andava de um lado para o outro a um ritmo alucinante, garantiu que da parte da manhã a “invasão” ainda foi maior e que as vendas dos dois primeiros dias estavam a superar, de longe, as melhores expectativas.
Ganho o primeiro round, é previsível que o negócio corra bem, pelo menos até ao Natal. Depois disso, cá estaremos para fazer o balanço.
Quanto mais alta a parada, mais alta a exigência
Que a Byblos tenha sido inaugurada com uma semana de atraso e pouco mais de metade da oferta prometida (80 mil dos 150 mil títulos), compreende-se. Os atrasos dos fornecedores, em Portugal, são a norma e não é fácil pôr de pé uma estrutura tão grande. Mas que o site da livraria continue inoperacional um dia depois da abertura ao público, e nem sequer exista um esboço na Internet (ou fora dela) da badalada “vasta programação cultural”, isso é que já não se percebe.
Quando uso a palavra inoperacional, refiro-me essencialmente à função de pesquisa. E posso dar exemplos. Há cinco minutos, procurei o que havia sobre António Lobo Antunes e obtive “2 artigos encontrados”: as Actas do Colóquio Internacional da Universidade de Évora e as Conversas com a jornalista espanhola María Luisa Blanco (ambos editados pela Dom Quixote). Romances, nem um para amostra. Tentei depois José Saramago. Solitário, o artigo encontrado era o ensaio Para uma Leitura de “Memorial do Convento”, de António Moniz (Presença). Quanto ao próprio Memorial do Convento, nada. E os outros romances todos do Nobel da Literatura, zero.
O vazio estende-se às novidades. Quem queira encomendar os últimos best-sellers de Miguel Sousa Tavares ou de José Rodrigues dos Santos depara-se com a frase: “Não foram encontrados resultados no Catálogo Byblos que obedeçam aos critérios de pesquisa indicados.”
Haverá decerto razões que expliquem isto, mas nenhuma apagará a péssima imagem que os primeiros potenciais clientes já formaram de um serviço que se proclamava inovador na área do comércio online.
Primeiras impressões
Ainda é cedo para formar uma opinião sobre a Byblos. Em dia de inauguração solene, com gente a mais e sem ter experimentado as novidades tecnológicas, não foi possível aferir as vantagens e desvantagens do «novo conceito de livraria». Eis de qualquer forma, telegráficas, as minhas primeiras impressões:
Aspectos positivos
- O espaço. Amplo, bem pensado, com recantos e nichos que criam pequenos habitats autónomos, dentro do ecossistema global da Byblos. Apesar da imensa extensão da loja, nunca sentimos o seu gigantismo. É como se houvesse várias livrarias dentro da livraria.
- A utilização. É fácil circular e aceder aos livros. A informação está em todo lado (através de plasmas) mas sem ser impositiva. Usando a terminologia informática, este é um modelo user friendly.
- A oferta. Há muito por onde escolher. Muito mesmo. E o que não fica à vista está no armazém, acessível em poucos minutos (se o prometido fundo editorial funcionar). Para já, fiquei com vontade de explorar melhor a secção dos livros estrangeiros, que me pareceu bem fornecida.
- O potencial. Quando estiver a funcionar a 100%, a Byblos pode tornar-se um ponto de encontro para quem não se contenta em dar uma vista de olhos nas novidades. E um perigoso sorvedouro para bibliófilos com cartão de crédito.
Aspectos negativos
- O acesso. Um dos grandes segredos para o sucesso da Fnac foi o facto de se ter instalado em lugares próximos de estações de metro. A Byblos, pelo contrário, ocupa dois pisos de um edifício na fronteira entre as Amoreiras e Campo de Ourique. Ir para ali de transportes públicos parece-me complicado. Levar carro, idem aspas: faltam lugares de estacionamento nas redondezas e os parques enchem com facilidade (para além de não serem baratos). A haver um calcanhar de Aquiles no projecto, pode muito bem estar aqui.
- A arrumação. A Byblos foi montada em contra-relógio e isso, na primeira noite, notou-se. Se algumas secções estavam impecáveis, noutras percebia-se que foi tudo colocado nas prateleiras a trouxe-mouxe, na vertigem da urgência. Só um exemplo: na estante dedicada aos livros de crónica, estavam os clássicos gregos, mais o Paraíso Perdido do Milton e o Decameron do Boccaccio. Nada que os ajustes dos próximos dias não possam corrigir.
- A menorização da poesia. Numa livraria tão grande, como é que se justifica que a poesia (portuguesa e estrangeira) fique limitada a duas estantes, bem menos do que oferecem as Fnacs? Além disso, a um primeiro olhar, faltam autores fundamentais (Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, entre muitos outros), embora pululem por ali dezenas de fraquíssimas edições de autor. Bem sei que no fundo editorial podemos encontrar o que nos interessa, mas as estantes devem ser sempre um espaço nobre para cativar leitores. Como estão, duvido que entusiasmem um único amante de poesia.
- A importância relativa das secções. Há demasiados best-sellers para o meu gosto, demasiados livros de auto-ajuda e demasiados coffee table books (a ideia é vender, eu sei, mas estes enormes espaços moldados pela ditadura do marketing, com pirâmides de livros por todo o lado, surgem-me como uma forma de poluição visual). Além disso, faz-me espécie ver quatro estantes dedicadas à gestão e duas aos “recursos humanos”, quando a poesia está numa espécie de gueto minúsculo.
- A iluminação. Julgava que este seria um ponto forte, mas o sistema de focos e pontos de luz pareceu-me mais próximo da atmosfera típica dos centros comerciais do que das livrarias cosy, em que uma pessoa gosta de perder horas a bisbilhotar capas, contracapas, badanas e inícios de capítulos.
Resta a questão central: haverá viabilidade económica para uma mega-livraria que também vende CD’s e DVD’s (estes sem desconto), mas não oferece a parafernália de electrodomésticos e gadgets electrónicos que contribui, em larga medida, para o enorme volume de negócios da Fnac?
Inauguração da Byblos
A abertura da livraria mais falada dos últimos tempos foi muitíssimo concorrida. Editores, representantes do Governo, jornalistas, escritores, bloggers, esteve lá tout le monde (ou quase). Apesar dos 3300 metros quadrados, dos corredores amplos e dos muitos nichos de leitura, aconteceram engarrafamentos, cotoveladas involuntárias e até alguns atropelos.
Eis um pequeno resumo fotográfico da noite:
A epígrafe da Byblos, lavrada na pedra, é uma frase célebre de Jorge Luis Borges sobre a equivalência entre o Paraíso e a ideia de livraria. É uma escolha quase óbvia, mas feliz.
A enchente aproximou-se por vezes da atmosfera vivida na Expo’98. Lembram-se?
Entre os convidados, pairavam anjos sorridentes e anjos melancólicos (talvez saídos da grande biblioteca que se vê no filme Asas do Desejo).
Seguranças vigiaram o acesso ao segundo andar enquanto a ministra da Cultura não ”cortou a fita”, simbolizada por uma espécie de arco em cartão.
Uma pilha António Lobo Antunes. Há também pilhas José Rodrigues dos Santos e pilhas Miguel Sousa Tavares (várias).
José-Augusto França apresenta o livro de serigrafias que a Byblos ofereceu aos convidados, junto a Almeida Santos, Isabel Pires de Lima e Américo Areal, o responsável máximo pela livraria.
Amanhã é a sério. E os empregados da loja, que fizeram directa na noite anterior para que tudo estivesse (mais ou menos) no sítio, vão começar a trabalhar às nove para poderem abrir as portas às dez.
Byblos
A maior livraria do país abre amanhã ao público, pelas 10h00, no Amoreiras Square (Lisboa). Muito já se escreveu sobre os prodígios tecnológicos e as fabulosas dimensões do novo espaço (3300 metros quadrados), mas em nenhum lado de forma tão exaustiva como no BlogTailors. Vale a pena ler estes posts que perfazem uma espécie de contagem decrescente: 4, 3, 2, 1.
Ainda hoje, o Bibliotecário de Babel (BB para os amigos, que nunca o confundem com Baptista-Bastos, nem com Brecht e muito menos com Bardot) espera ter tempo para colocar aqui uma entrevista que fez a Américo Areal, o entrepreneur que investiu quatro milhões de euros neste novo conceito de livraria. Mais tarde, e porque recebeu convite para a inauguração de logo à noite (21h00), BB promete partilhar imagens e impressões sobre o mui aguardado acontecimento.


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