O ciclo (nem sempre feliz) dos livros
Uma visão de livreiro (Jaime Bulhosa):
«O ritmo é alucinante. O vendedor mostra uma mala cheia deles. Nós fazemos má cara. Ficamos indecisos. Escolhemos apenas alguns. O vendedor faz má cara. Não atinge os objectivos. O editor protesta. O autor não percebe porquê. Nós temos pena. Não podemos ter todos. É fisicamente impossível. Economicamente errado. (…) Esperam em cima das mesas. Há quem lhes toque. Os abra. Leia uma passagem. Os deixe. Não podem esperar mais. Em breve vêm outros. Só mais uns dias. Aconselham-se mais uma vez. Ninguém os quer. Volta-se a pegar neles. Nem sequer ganham pó. (…) Processa-se a devolução. Novamente em caixotes. Chama-se o transportador. São levados para um armazém frio, escuro. Cheio de livros, azarados como eles.»
Texto completo aqui.
Cats & dogs
Volto à Poesia Incompleta debaixo de uma carga de água diluviana (como no outro dia), talvez a chuva comece a fazer parte do ritual.
Ainda a nova Buchholz
As reacções da blogosfera à inauguração da Buchholz foram tudo menos meigas. Ler aqui, aqui e aqui.
A nova Buchholz (uma antevisão)
«Isto é só uma antestreia, uma antevisão do que será a Livraria Buchholz», disse ontem ao fim da tarde Sérgio Moreno, porta-voz da Fundação Agostinho Fernandes, justificando o que todos os convidados já tinham percebido: as obras na nova livraria Buchholz Chiado (situada num edifício anterior ao terramoto, que foi outrora uma cavalariça e era ultimamente um armazém da livraria Sá da Costa) não chegaram ao fim a tempo da inauguração, marcada para as 19h00.
Verdade seja dita, quando na terça-feira passei por lá e vi o estado dos trabalhos, pensei imediatamente que aquela era uma missão impossível:
O empreiteiro garantiu que tudo estaria pronto a horas, mas já se sabe como é que estas coisas são. Os responsáveis pela livraria nunca deviam ter dado como adquirida uma previsão falível, porque sujeita a imprevistos, ainda por cima quando já havia uma data impressa nos convites. Depois, chegado o dia D, quando se tornou evidente que não havia margem para fazer as coisas como deve ser, improvisou-se, ao melhor estilo português. E de inaguração formal passámos a uma mera antevisão do espaço.
Ainda assim, louve-se o engenho da instalação. Os cabos das estantes que ficaram por montar, por exemplo, converteram-se em molduras e as prateleiras em elementos decorativos.
Eis a reportagem fotográfica:
Descontando estes sobressaltos, pouco desculpáveis numa estrutura profissional, importa sublinhar que o espaço é efectivamente lindíssimo (sobretudo o tecto com tijolo à vista, em abóbada). Na qualidade de amigo e antiquíssimo cliente (desde 1954), Jorge Silva Melo lembrou que a Buchholz «nunca foi propriamente muito arrumada» e que por isso os montes de livros empilhados até respeitam o espírito da livraria. Karin Sousa Ferreira, a alma mater do projecto, voltou a sublinhar que era apenas o espaço que se apresentava aos convidados, aproveitando para lembrar os momentos muito difíceis na vida recente da Buchholz (que esteve em vias de fechar) e o apoio salvador da Fundação Agostinho Fernandes, «a única que nos deu a mão». O arranque a sério da loja deve acontecer nos próximos dias e «em Janeiro começarão a chegar os livros importados (vindos da Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e talvez da Itália)». Embora chegando atrasado, directamente de um compromisso no Algarve, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, também ele um cliente de longa data, elogiou em Karin Sousa Ferreira «a persistência de uma actividade gloriosa: dar às pessoas o acesso à leitura». Pelo n.º 30 do Largo Rafael Bordalo Pinheiro passaram ainda, entre outros, o ministro Mariano Gago, José Pacheco Pereira, António Mega Ferreira e Marcelo Duarte Mathias.
Buchholz Chiado
Depois de um longo período de incerteza, a Livraria Buchholz não só evitou o fechar de portas como vai abrir uma nova loja, no Chiado (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, n.º 30). A inauguração está prevista para dia 11 de Dezembro, às 19h00, com a presença do Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro.
Poesia Incompleta no ‘Público’
Isabel Coutinho escreveu hoje, na edição em papel do Público, sobre a Poesia Incompleta. Eis um excerto:
«Poesia Incompleta é o nome da “primeira livraria portuguesa de poesia”, que abriu ontem em Lisboa, (…) a um passo da Assembleia da República e do bar Finalmente, numa casa que até tem um quintal com uma buganvília e uma pequena hera que veio da Grécia pela mão de Hélia Correia.
(…) Este é um sítio aonde se vai para comprar livros, mas também para conversar com Changuito, jovem livreiro com sentido de humor aguçado, que aprendeu a gostar de poesia com a avó e também com a mãe, a actriz Maria do Céu Guerra. (…) Aos 34 anos, perdeu a paciência e farto de ir a livrarias onde lhe diziam “esse livro está esgotado” ou “esse livro não existe”, resolveu passar de leitor a vendedor de livros.
(…) Para o projecto ser viável, tem que vender cinco livros por dia e Changuito acredita que isso é possível: “Se houvesse uma livraria destas com a qual eu não tivesse nada a ver, passaria aqui pelo menos uma vez por semana.”»
Ontem, ao sair da livraria, trouxe comigo quatro livros, todos da remessa que o Changuito foi buscar a Nova Iorque no início do mês: os Selected Poems de Stephen Spender (Random House, edição de 1964); os poemas de Ambrose Bierce (Bison Books); All of Us – The Collected Poems, de Raymond Carver (Vintage Books); e The Chinamen, de David Mamet (The Overlook Press). Se soubesse que é preciso vender cinco livros por dia, teria trazido mais um.
Primeiro dia
Sempre que posso, gosto de visitar livrarias no dia da abertura. Há qualquer coisa no ar que me atrai. Não sei se o entusiasmo dos livreiros, se a impaciência dos livros. Muitas vezes, como dizia o outro no Casablanca, é logo ali que começa uma bela amizade.
Estando por acaso no Príncipe Real ao início da tarde de hoje, decidi espreitar a Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa), a ver como iam as coisas no primeiro dia. E as coisas iam muito bem. Logo à entrada, do lado direito, à frente de um computador que o mantém ligado ao mundo, fica o deus ex machina do projecto, o ideólogo, o empreendedor, enfim, o gajo que dá o corpo ao manifesto: Mário Guerra, mais conhecido por Changuito, doido por poesia desde sempre, animador das noites do Bar A Barraca em que andam versos à solta por todo o lado, coleccionador fervoroso de raridades (autógrafos, primeiras edições, plaquetes quase secretas, esse tipo de material precioso) e gajo suficientemente louco para achar que uma livraria só de poesia se pode aguentar à bronca. No Porto, é sabido, existe a Poetria, também essencialmente dedicada à poesia mas com um dos pés assente no mundo do teatro. Agora isto, estantes cheias de livros de poesia, estantes cheias dos livros que nunca vendem nada (fora o Herberto, claro, por razões que seria interessante aclarar), agora isto sim, é coisa digna de se ver.
Enquanto espreito as prateleiras e circulo pelas duas salas exíguas, Changuito responde com amabilidade e ironia a uma rapariga de impecável sotaque francês, que entrou à procura de Boris Vian, mais concretamente de J’irai cracher sur vos tombes, do pseudónimo Vernon Sullivan. «Não temos esse, mas temos este», diz Changuito, enquanto retira da estante Canções e Poemas (Assírio & Alvim). A rapariga quer mesmo as cuspidelas nas tumbas e dois minutos depois sai encaminhada para a Letra Livre, ao fundo da Calçada do Combro, «a melhor livraria de Lisboa», mas já agora leva uns cartões para ficarem lá e outros «para dar aos papás» (franceses) ou aos amigos.
Por baixo das fotos enormes de Mário Cesariny («um dia, durante um recital, pediu-me em casamento; quando lhe elogiei a brancura dos cabelos, ele respondeu-me: “se estás a ser sincero, prova-o no altar”), por baixo de um Cesariny lânguido que fuma, Changuito fuma também. Cigarros Camel, americanos. Junto ao teclado do computador, há três maços (dois ainda por abrir). E uma lata de Coca-Cola. E um ovo de chocolate Kinder Surpresa. E pilhas de livros, cujas lombadas os visitantes tentam decifrar, torcendo os pescoços.
Quando Teresa Belo entra na livraria, sorrindo muito, é Ruy Belo que entra também. Changuito mostra o espaço outra vez, amplia o território da conversa, os olhos brilham a falar da Clepsidra, onde fomos dar já nem sei porquê, ou da experiência de estar em Nova Iorque no dia em que Obama venceu, «uma coisa fabulosa». A tarde inclina-se na rua. Fala-se de alfarrabistas e do cuidado que é preciso ter na hora de escrever, a lápis, um preço no canto superior direito da folha de rosto. Por exemplo, o Cobra, do Herberto, é o livro mais caro à venda (500 euros) e há uma razão válida para a exorbitância. Qualquer coisa na esfera do não querer ser comido por parvo. Outros livros, mesmo entre os difíceis de encontrar, são mais acessíveis: «Tenho aí alguns a dois euros e meio.» Há ainda os que não são para vender, porque pertencem à biblioteca de Changuito: «Trouxe-os só para meter raiva aos clientes», diz. E ri-se, o sacana.
Na rua, de tão inclinada, a tarde é já só sombras. Pouco depois de entrar porta dentro um rapaz do Norte que declama poemas «por aí», despeço-me. E o até breve quer mesmo dizer até breve.
Poesia Incompleta (Livros de poesia, novos e esgotados)
R. Cecílio de Sousa, 11.
Aberta de segunda a sábado, das 10h00 às 19h45.
Idlewild Books
É uma livraria onde predominam os globos (dos candeeiros às réplicas geográficas do planeta Terra), lugar perfeito para quem gosta de literatura de viagens. Abriu há poucos dias. Único defeito: fica um bocadinho longe (19th Street, perto da 5th Avenue, Nova Iorque).
Ali só entram os mais diversos versos
Apresenta-se como «a primeira livraria portuguesa de poesia», com oferta de livros novos, esgotados e raros, em mais de 20 línguas. Terá ainda edições importadas de Espanha e do Brasil, revistas e spoken word. A Poesia Incompleta, belíssimo nome, abre amanhã.
Bymblos
Depois do desenho escatológico, o Pedro Vieira decidiu-se finalmente a escrever o post que lhe estava atravessado na garganta, sobre a experiência de trabalhar na Byblos. Eis um excerto:
«demorei muitos meses a escrever um post que tem estado latente, acerca da bymblos, nome mais apropriado à gestão de certa e determinada livraria que hoje cerrou portas, num quadro de insolvência, linguagem que ouso usar depois da esfrega de direito que tenho levado, contas de outro rosário, aliás, por agora fala-se do assunto do dia, do sonho que se transformou em pesadelo nas palavras do homem ao leme do titanic. como muitos sabem integrei a equipa inicial da bymblos, aliciado por um projecto de peso e uma boa mão cheia de euros a mais na carteira, que vieram a revelar-se hipotéticos, primeiro, fantasiosos, depois, grande quota parte da minha saída teve a ver precisamente com esse enfiar de barrete, coisa natural, costumo dizer até que a minha gestão de carreira é digna de um mário jardel mas com menos golos marcados. a estocada do dinheiro foi o corolário de um processo paranóico-crítico de quase quatro meses em que se foi ouvindo de tudo, fanfarronices acerca do projecto triunfante, da estante robotizada que foi funcionando aos coices, do sistema de localização rfid que fazia dos livreiros uma espécie de cobradores da carris obcecados pela leitura de códigos de barras, do processo de formação, coaching e acompanhamento on job (expressão vagamente ordinareca para espiolhice), evitem utilizar a palavra não, a palavra problema, cuidado onde põem as mãos, quando o empregado aparece com elas atrás das costas o cliente desconfia, afinal o coach sabia do que falava, havia muito para desconfiar dentro daquelas senão quatro, duzentas paredes, perpendiculares a espectaculares alcatifas e sofás, candeeiros curvos e bazófia. (…) os sinais estavam todos lá, desde o processo de catalogação dos livros até à caução de 150 euros relativa ao uso da farda (um bonito pendant de azuis a lembrar a carreira 749, cortesia de katty xiomara), passando pelo atraso nos fornecimentos iniciais e posteriores por parte das distribuidoras, pelo mito dos 150.000 títulos, pela gestão balcânica dos pedidos de cliente, pela revista aos sacos dos trabalhadores da livraria por parte da empresa de segurança, ordens da administração, diziam eles. (…) o encerramento da byblos não é para mim motivo de brinde, há muita gente por quem tenho estima que tem neste momento o horizonte cinzento pelo facto de não ter abandonado o barco mais cedo. eu bati com a porta no dia 29 de fevereiro deste ano e talvez por ser um dia raro no calendário acertei na decisão. uma vez na vida, caralho.»
Lei das compensações
No preciso dia em que a Byblos fechava as portas (ontem), recebi por e-mail esta boa notícia:
«A Livraria Buchholz da Rua Duque de Palmela tem o grande prazer de anunciar que, com o apoio da Fundação Agostinho Fernandes, vai abrir nas próximas semanas um espaço Buchholz Chiado no Largo Bordalo Pinheiro em Lisboa.
Anunciamos também que tanto na Buchholz Chiado como na casa mãe, Buchholz Duque de Palmela, passará de novo a haver livros importados, nomeadamente as últimas novidades publicadas na Alemanha, Reino Unido, Espanha, França e Estados Unidos da América.»
Equívocos
A história da Byblos é uma história de equívocos, a começar pelos mal medidos sonhos de grandeza do seu proprietário (Américo Augusto Areal, aqui fotografado a 9 de Dezembro de 2007, cinco dias antes da inauguração da loja) e a acabar em pequenos pormenores que foram mostrando um desfasamento (maior ou menor) com essa coisa tramada que se chama realidade.
Olhando agora para a curta vida deste projecto, há qualquer coisa de cruel na constatação de um erro básico que perdurou, em letras de bronze, numa das paredes da Byblos. Refiro-me a esta citação de Jorge Luis Borges:

Uma bela frase, cheia de efeito. Acontece que Borges escreveu outra coisa. O que Borges escreveu foi: «Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca.» Suponho que alguém terá traduzido a citação a partir do inglês, sucumbindo a um famoso falso amigo (library). O certo é que uma biblioteca não é uma livraria, como os bolsos de qualquer leitor bem sabem. Borges nunca imaginaria o paraíso como um sítio onde temos que pagar por livros que talvez nem estejam disponíveis. Biblioteca, sim, de preferência infinita como a de Babel. Já Américo Augusto Areal acredito que imaginasse o paraíso sob a forma de uma livraria, de preferência a sua livraria gigante e high tech. Em vez disso, porém, saiu-lhe um inferno.
Quando os fornecedores é que ficam a arder
Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, olha para o fecho da Byblos de um ângulo particular. O de quem fornecia a matéria-prima do negócio (os livros) aparentemente a fundo perdido, já que nunca viu um cêntimo sequer:
«Vou contar. Não resisto. Vou contar. A Byblos pagava (ou dizia que pagava) a 120 dias. 120, meus queridos, 120. A Byblos pedia um desconto de 40% sobre o preço de capa. 40%, meus queridos, 40%. A Byblos nunca, desde que em Fevereiro vendi o primeiro livro e coloquei uma consignação, me pagou um tostão. Um tostão que fosse. Mas a culpa não é deles. Fevereiro com quatro meses (120 dias) dá Junho. Metem-se as férias. Depois em Setembro é o escolar. Outubro e Novembro o grande veículo de espantosa gestão estaria a pensar no Natal, pagar não dava. Em Janeiro devolvia-se tudo e vinha o acerto (“sem a nota de crédito não podemos efectuar o pagamento”, parece que estou a ouvir, mesmo que a nota de crédito fosse de 20,34 euros e o pagamento devido – desde Junho – de 3409,89 euros). Depois era a Feira do Livro e a Byblos iria ter um grande e maravilhoso stand. Depois vinham as férias, e desta maneira podemos ir vivendo à custa dos fornecedores.
Mas, meus amigos, acham a Byblos a única? Eu consegui ir buscar os livros há quinze dias, depois de dizer que ia facturar tudo e meter tudo em tribunal. Ah, o tribunal. Agora o Estado quer o seu – que está em atraso (aposto como a segurança social também quer o seu) – e depois há os bancos. Os fornecedores? Que carreguem no botão. Mas dizia: a única? Deixem-me rir, dizia o Jorge Palma. O pão nosso de cada dia é este. Os editores que carreguem no botão.»
O texto completo pode ser lido aqui.
Razões de um encerramento
Ver uma livraria fechar – e 30 livreiros com o seu trabalho em risco – é triste, muito triste, mas só não adivinhou o desfecho da aventura megalómana de Américo Areal quem não quis. Há menos de um ano, quando a Byblos foi inaugurada com pompa e circunstância, apontei aqui como um potencial calcanhar de Aquiles a localização da loja, completamente fora de mão e sem metro nas redondezas. Deixava também, mesmo concedendo o benefício da dúvida, a seguinte pergunta: haverá viabilidade económica para uma mega-livraria que também vende CD’s e DVD’s (estes sem desconto), mas não oferece a parafernália de electrodomésticos e gadgets electrónicos que contribui, em larga medida, para o enorme volume de negócios da Fnac?
A resposta está dada. E o facto das promessas de inovação tecnológica e disponibilidade de fundos de catálogo terem ficado muito aquém do prometido também não ajudou.
Segundo a rádio TSF, a reunião desta manhã com os trabalhadores confirmou o pior cenário:
«Esta manhã, ocorreu uma reunião com os trabalhadores nas instalações da livraria, que não abriu portas ao público. Para já, sabe-se que os funcionários foram informados de que não iriam ser despedidos, mas antes dispensados no âmbito de um processo de insolvência, segundo revelou António Ramos, do gabinete de Comunicação da Byblos. Na prática, significa que os cerca de 30 funcionários ficam dependentes de uma decisão de um juiz, que terá agora de analisar o processo. Segundo apurou a TSF, em cima da mesa estará a possibilidade da venda da Byblos a outro grupo para que a livraria abra com novo nome e proprietário. Para esta tarde, está previsto um comunicado da empresa com mais detalhes da reunião.»
Mais opiniões sobre este fecho anunciado: Eduardo Pitta, Jaime Bulhosa, Carla Maia de Almeida, Jorge Reis-Sá, Luís Filipe Cristóvão [em actualização].
Livraria Byblos fechou as portas
Que a Byblos estava em grandes dificuldades, já se sabia. Uma notícia na edição de hoje do Diário Económico (com ecos nesta da edição online do Público) veio confirmar as suspeitas:
«A Byblos estava à procura de um parceiro que garantisse a viabilidade económica do projecto. No entanto, tal não foi conseguido e, neste momento, já existem dívidas a fornecedores e editoras que se recusam a distribuir livros. Além disso, o Diário Económico sabe ainda que a empresa que faz a segurança do edifício cumpriu ontem o seu último dia de trabalho na Byblos, enquanto que os funcionários de restauração já saíram na terça-feira, dia 18. Já os colaboradores da Byblos, até ao fecho desta edição, não tinham sido informados pela administração sobre qual será o futuro da empresa. Mas o Diário Económico sabe que o cenário mais provável é a venda a outro grupo, podendo a Byblos voltar a abrir portas mas com um novo nome e proprietário. Para hoje está marcada uma reunião com os funcionários, na loja das Amoreiras, que aí deverão ficar a conhecer o seu futuro.»
Há poucos minutos, passei em frente da loja e o cenário era este:
Portas fechadas.
Um papel a dizer «ENCERRADO» (não consegui fotografar mais de perto porque um segurança não mo permitiu).
Bertrand inaugura quatro novas livrarias em Novembro
A maior cadeia de livrarias de Portugal continua a ampliar a sua rede. Durante este mês, a Bertrand abrirá mais quatro lojas. Hoje, dia 5, é inaugurado um espaço com 163 metros quadrados no novo centro comercial Vivaci Guarda. Amanhã, será a vez do Fórum Barreiro (183 metros quadrados). Dia 20, no Spacio Shopping (ex-Olivaishopping), a área da loja Bertrand é ampliada para 166 metros quadrados, com design renovado. E por fim, a 26, nas Caldas da Rainha, o alvo é mais um centro comercial novinho em folha: o Vivaci Caldas.
A Bertrand passará assim a contar com um total de 57 livrarias.
Confirmação
Ao ver o espaço pela primeira vez, suspeitei logo da viabilidade dos lançamentos de livros na nova FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama. A Carla Maia de Almeida esteve lá na apresentação do último romance do João Tordo e confirmou o desastre.
Música na livraria
Tralha Mestiça, às 21h30, no primeiro andar da Trama (3 euros). A essa hora estarei a defender la belle France, sem acordes nem cantorias. Escolham vocês.
De repente já passou um ano
E parece que foi ontem.
Livros usados na Poetria
A Livraria Poetria (Rua das Oliveiras, 70 r/c – loja 12, Porto) acaba de nos enviar o seu catálogo de livros usados. Entre as muitas dezenas de títulos disponíveis, encontram-se estas dez pérolas mais ou menos raras:
- Luminoso Afogado, de Al Berto (Edições Salamandra e Casa Fernando Pessoa, 1995) – 15€
- O Ritmo do Presságio, de Sebastião Alba (Edições 70, 1981) – 10€
- Canções, de António Botto (Olisipo, 1922; exemplar pouco estimado, capas com pontos de acidez) – 60€
- Nas Trevas: sonetos sentimentaes e humorísticos, de Camilo Castelo Branco (Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1890; 1.ª edição, capa rasgada na lombada) – 50€
- Resistência das Palavras, de E. M. de Melo e Castro (Plátano Editora, 1975; exemplar estimado) – 10€
- Memória Descritiva, de Ruy Cinatti (Portugália Editora, 1971; 1.ª edição; exemplar muito estimado) – 25€
- Os Nomes desses Corpos, de Gastão Cruz (Editorial Inova, 1979; exemplar pouco estimado) – 7,50€
- O Passageiro do Expresso, teatro de José Rodrigues Miguéis (Estúdios Cor, 1960; exemplar estimado) – 11€
- Obras Completas, de António José da Silva (Livraria Sá da Costa, 1957, 1958; quatro volumes em estado de novos) – 150€
- A Voz Recuperada, poesia de Alexandre Pinheiro Torres (Os cadernos das nove musas, 1953; 1.ª edição, com dedicatória e assinatura do autor, capa um pouco rasgada) – 30€
Os pedidos podem ser feitos para o telefone 22.202.30.71 ou por e-mail (livraria.poetria@gmail.com).
Música entre livros

«Os Fundbureau são um trio jovem e dinâmico que se conheceu em Amesterdão e, desde então, tem vindo a trabalhar em conjunto. Procuraram nos perdidos e achados da música e juntaram sonoridades que se movem nas fronteiras do rock, jazz e da pop experimental, com uma atenção redobrada aos ritmos inovadores e harmonias. Lançaram em Fevereiro de 2007 o primeiro álbum, Lost Property, que já foi apresentado em Portugal e na Noruega.»
Trocado por miúdos, eles são o Hugo Antunes (baixo), o Stephan Meidell (guitarra) e o Luís Candeias (bateria). E tocam esta noite, a partir das 21h30, na Trama, também conhecida como “a melhor livraria da Rua São Filipe Nery“.
A liga hanseática
Partindo de algumas discussões em torno deste post, que também teve os seus ecos aqui no Bibliotecário, Rui Bebiano defende a criação de uma liga hanseática que permita a sobrevivência das livrarias “decentes”, isto é, as que se recusam a ser devoradas por uma lógica meramente comercial:
“Atendendo às dificuldades reais que todos reconhecemos, a sobrevivência das livrarias que não cedem ao processo fácil de se deixarem reduzir à condição de entrepostos para títulos empurrados para os tops de vendas deverá passar por uma colaboração entre elas. Não será possível então criar-se uma espécie de liga hanseática de livrarias decentes, em condições de se dirigir a quem gosta mesmo de livros, de gerir stocks comuns, e, um pouco como acontece já com as redes de bibliotecas, de efectuar permutas em função dos interesses dos clientes, reduzindo dessa forma os condicionamentos financeiros impostos por um armazenamento disperso? Admito que chegar a tal disposição requeira imaginação, bastante iniciativa, algum tempo e muito trabalho. Mas todos nós, aqueles que amamos a leitura, que continuamos a encher as nossas casas com livros e mais livros, e que não pertencemos ainda a uma espécie em vias de extinção, agradeceríamos o esforço. E até pagaríamos por isso.”
Eu assino por baixo, claro, mas parece-me que é já isso que se pretende com o projecto das Livrarias Independentes (LI).
A Livrododia vista por um adulto de 36 anos
É menos vertiginosa e pixelizada do que esta, captada por uma criança de seis anos:
Em vez da correria com câmara à mão (ou máquina fotográfica digital à mão?), eu optaria por uma sequência de planos fixos da escola Manoel de Oliveira, longos de cinco minutos para se perceber como é a atmosfera de uma das melhores livrarias que tive o prazer de visitar nos últimos tempos, durante umas férias que apontaram, não por acaso, à zona Oeste.
O Luís Januário veio a Lisboa e foi à Byblos
Não sei se comprou algum livrinho, o LJ, mas pelo menos trouxe de lá um poema:
Esta livraria é grande demais para mim
A estante de FILOSOFIA, hèlas,
é difícil de distinguir da AUTOAJUDA
Enganaram-se trocaram os carros das reposições
ou trocaram a sinalética
ou os olhos
E a estante da LUSOFONIA tem o mesmo
ar desamparado
subsidiado mal lido
mal fodido dos lusófonos
E nos GUIAS de VIAGENS
falta Berlim o meu destino
A Escócia Islândia o deserto
de Atacama
E nos visores de procure você mesmo
os meus autores Roth, o Joseph,
Blanchot, Bolaño, Ángel Vásquez
estão indisponíveis peça ajuda
Felizmente que existe a Alícia Galloti
Aqueço-me à 14ª edição revista e
melhorada como a uma lareira
e como na Blackwell de Leicester em tempos
de emigrante quando olhos parados
no divino triângulo a tesão doía
e a mesma humidade embaraçava
O lugar onde os best-sellers não o são
Eis as dez obras mais vendidas ultimamente na Pó dos Livros:
Não deve ser por acaso que lhe chamam um “anti-top”.
Leilão de biblioteca particular
A Livraria Manuel Ferreira (R. Dr. Alves da Veiga, n.º 89, Porto) organiza no próximo dia 16 de Fevereiro, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, a partir das 15h00, o leilão de uma preciosa biblioteca particular com mais de 500 espécies bibliográficas raras. Do acervo fazem parte, entre muitas outras peças, 888 cartas enviadas por José Régio ao seu amigo e poeta Alberto Serpa (algumas com desenhos); sete cartas autógrafas de Abel Salazar; e primeiras edições de livros de Almeida Garrett, Camilo Castelo-Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Wenceslau de Morais, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Almeida Negreiros (muitos deles com dedicatórias dos autores).
Os lotes estarão expostos no dia 15, das 15h00 às 18h00, e no dia 16, das 10h00 às 12h00. Já o catálogo para consulta pode ser descarregado no blogue da livraria.
Pó do blogue

Agora, a livraria Pó dos Livros não existe apenas na sua morada física (Avenida Marquês de Tomar, 89 A, Lisboa). Também existe na blogosfera.
Fabula Urbis
Reportagem da RTP sobre uma livraria/galeria/editora de temática lisboeta, junto à Sé.
[Sugestão do comentador videonauta]
Deslocalização
A Bichinho de Conto, livraria/editora especializada em literatura infantil, mudou-se com armas e bagagens da Grande Lisboa (Fábrica da Pólvora, Barcarena) para a vila de Óbidos (onde agora ocupa uma antiga escola primária). Vale a pena perceber porquê e como.
[via 1979]
Top-10
Lembram-se daquela extraordinária livraria de Maastricht que foi instalada numa igreja dominicana? O jornalista Sean Dodson, do The Guardian, colocou-a em primeiro lugar no seu top-10 das mais belas livrarias do mundo. Já agora, anote-se que em terceiro lugar ficou esta:

Sim, a belíssima Lello do Porto.
Livraria Trama
A mais ou menos 500 metros contados em linha recta, fica a Byblos, com os seus milhares de volumes com RFID (sensores de radiofrequência), mais os ecrãs tácteis, os plasmas, as pilhas de bestsellers, as escadas rolantes, a estante robotizada made in Italy e dezenas de funcionários. A única coisa que a Trama, junto ao Rato, e a Byblos, nas Amoreiras, têm em comum é o facto de venderem livros e ocuparem dois pisos. Tudo o resto as separa, a começar no conceito e a terminar nas respectivas áreas: 140 metros quadrados versus 3300.
Sentada numa das cadeiras do andar de cima, junto ao janelão que enche de luz a parte nobre da Trama (o rés-do-chão fica para as novidades, os jornais e a caixa), Catarina Barros, 23 anos, encolhe os ombros e diz que a sombra do gigante não a incomoda: “Eles são um monstro, nós somos uma livraria de bairro.” A seu lado, Ricardo Ribeiro, 28 anos, sócio de Catarina nesta aventura, faz que sim com a cabeça: “Trabalhamos para públicos diferentes, o sucesso deles não nos afecta.”
Os dois amigos conheceram-se atrás do balcão da livraria Clepsidra, em Massamá, onde começaram a alimentar o sonho de qualquer livreiro: ter o seu próprio espaço e a liberdade de “seleccionar o que sugerimos aos clientes”.
Após um frustrante estágio numa empresa farmacêutica, Catarina, que deixou o curso de Literatura Portuguesa a meio e andava à procura de um rumo, foi beber um café com o antigo colega. “Gostava de abrir uma livraria”, disse-lhe em tom de desafio. E Ricardo aceitou o repto, ou não tivesse há uns tempos a mesma ideia na cabeça.
Aconteceu isto há seis meses e o objectivo da dupla era abrir a Trama — “um nome com muitos significados diferentes e que soa bem” — lá para Outubro de 2008. Só que certas coisas, quando se põem em marcha, ninguém as pára. Depois de umas semanas “a comprar o Ocasião às quintas”, descobriram o sítio ideal e criaram “tudo de raiz”, da organização do espaço ao desenho, construção e montagem dos móveis (o pai de Ricardo tem uma marcenaria). Resultado: a 30 de Novembro de 2007, quase um ano antes do previsto, a Trama abriu as portas.
“Isto é para clientes parecidos connosco”, diz Catarina. Leitores amantes de raridades e edições esgotadas, que discutem os livros “e puxam por nós”. Bibliófilos que choram ao encontrar uma primeira edição de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Livros do Brasil), ou que obrigam os livreiros a um verdadeiro trabalho de book hunting. “Por exemplo, houve um cliente que apareceu aqui à procura de um livro sobre a arqueologia dos bunkers, porque não o encontrava em lado nenhum, e eu vou tentar descobrir-lhe um exemplar”, diz Ricardo.
Apesar de inaugurada há pouco mais de um mês, a Trama já tem os seus fiéis. “Há caras que se repetem nos concertos de quinta à noite”, garante Catarina. E o mesmo deverá acontecer nos futuros leilões mensais de livros, com primeiras edições de Herberto Helder, Ramos Rosa e outros, prevê Ricardo.
O alfarrábio e os fundos de catálogo prometem ser, de resto, um dos principais atractivos desta livraria que tem um canto (foto acima) só com volumes de páginas amarelecidas e grafismo dos anos 70, muita coisa dos beatnicks e plaquetes de poetas hoje famosos, editadas no tempo em que eram apenas obscuros.
Aos dois fundadores juntou-se um terceiro elemento, a Joana, depois de um processo épico de candidaturas e entrevistas de emprego (amplamente documentado no blogue), durante o qual Catarina desempenhou o mais ingrato dos papéis: o de recusar pessoas que demonstravam enorme vontade e excelentes currículos. “Uma delas, que ficou tristíssima por não ter sido escolhida, ofereceu-se ainda assim para nos ajudar a arrumar as coisas no dia da abertura.”
Para Ricardo, a Trama é muito mais do que o lugar onde trabalha 10 a 12 horas por dia. “É a nossa casa, um sítio onde fazemos aquilo de que mais gostamos e recebemos os amigos.” Para Catarina, “mãe babada”, à livraria só falta uma coisa: a pátina que vem com o tempo. “Espero um dia ver as paredes cheias de cartazes e memórias do que se for fazendo aqui.”
Joana, Ricardo e Catarina
Além dos concertos de quinta, haverá performances, dança e conversas com autores nas noites de sexta e actividades destinadas ao público infantil nas tardes de sábado. Tudo no piso de cima, junto a um pequeno bar que serve os vários tipos de café Nespresso, mas com outros nomes: “A cápsula amarela vai chamar-se Calvino, o lote mais forte será o Nietzsche, ao Roma vamos chamar-lhe Pascal Quignard e aos descafeinados…, bom, aos descafeinados é melhor não dizer o que lhes vamos chamar, para não ferir susceptibilidades.”
A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite. Programação de Janeiro aqui.
[Versão ampliada de um texto publicado no último número da revista Time Out]
Livraria divina
A dupla holandesa Merkx + Girod venceu o prémio Lensvelt para Arquitectura de Interiores com este projecto:

É mesmo o que parece: uma livraria dentro de uma igreja. Melhor dizendo, uma livraria dentro de uma antiga igreja dominicana, em Maastricht.
Vista de outro ângulo:

Espantoso, não acham?
Mais imagens e informações aqui (atentem no design e localização da cafetaria).
Nem todas as livrarias têm 3300 metros quadrados
Save our books. Buy them
Os livros não se limitam a falar uns com os outros. Quando as livrarias fecham, também encenam as suas “mortes literárias” preferidas.
[via O Melhor Anjo]
Diálogos livrescos


Na Fnac Chiado, estes dois livros partilham a banca das novidades, a um palmo de distância. O primeiro tem o título que tem. O segundo só termina ao fim de 893 páginas. Agora não me digam que os livros não falam uns para os outros (e uns com os outros).
Byblos – Dia 2
Hoje à tarde, cerca das 18h00, a Byblos estava assim nos dois pisos: cheia de gente e com filas nas caixas. Pelos vistos, a dificuldade dos acessos pode não ser um problema se o boca-a-boca funcionar e se a moda do “ir à Byblos” se for instituindo como se instituiu o “vemo-nos na Fnac”. Uma funcionária com quem falámos, e que andava de um lado para o outro a um ritmo alucinante, garantiu que da parte da manhã a “invasão” ainda foi maior e que as vendas dos dois primeiros dias estavam a superar, de longe, as melhores expectativas.
Ganho o primeiro round, é previsível que o negócio corra bem, pelo menos até ao Natal. Depois disso, cá estaremos para fazer o balanço.
Quanto mais alta a parada, mais alta a exigência
Que a Byblos tenha sido inaugurada com uma semana de atraso e pouco mais de metade da oferta prometida (80 mil dos 150 mil títulos), compreende-se. Os atrasos dos fornecedores, em Portugal, são a norma e não é fácil pôr de pé uma estrutura tão grande. Mas que o site da livraria continue inoperacional um dia depois da abertura ao público, e nem sequer exista um esboço na Internet (ou fora dela) da badalada “vasta programação cultural”, isso é que já não se percebe.
Quando uso a palavra inoperacional, refiro-me essencialmente à função de pesquisa. E posso dar exemplos. Há cinco minutos, procurei o que havia sobre António Lobo Antunes e obtive “2 artigos encontrados”: as Actas do Colóquio Internacional da Universidade de Évora e as Conversas com a jornalista espanhola María Luisa Blanco (ambos editados pela Dom Quixote). Romances, nem um para amostra. Tentei depois José Saramago. Solitário, o artigo encontrado era o ensaio Para uma Leitura de “Memorial do Convento”, de António Moniz (Presença). Quanto ao próprio Memorial do Convento, nada. E os outros romances todos do Nobel da Literatura, zero.
O vazio estende-se às novidades. Quem queira encomendar os últimos best-sellers de Miguel Sousa Tavares ou de José Rodrigues dos Santos depara-se com a frase: “Não foram encontrados resultados no Catálogo Byblos que obedeçam aos critérios de pesquisa indicados.”
Haverá decerto razões que expliquem isto, mas nenhuma apagará a péssima imagem que os primeiros potenciais clientes já formaram de um serviço que se proclamava inovador na área do comércio online.
Primeiras impressões
Ainda é cedo para formar uma opinião sobre a Byblos. Em dia de inauguração solene, com gente a mais e sem ter experimentado as novidades tecnológicas, não foi possível aferir as vantagens e desvantagens do «novo conceito de livraria». Eis de qualquer forma, telegráficas, as minhas primeiras impressões:
Aspectos positivos
- O espaço. Amplo, bem pensado, com recantos e nichos que criam pequenos habitats autónomos, dentro do ecossistema global da Byblos. Apesar da imensa extensão da loja, nunca sentimos o seu gigantismo. É como se houvesse várias livrarias dentro da livraria.
- A utilização. É fácil circular e aceder aos livros. A informação está em todo lado (através de plasmas) mas sem ser impositiva. Usando a terminologia informática, este é um modelo user friendly.
- A oferta. Há muito por onde escolher. Muito mesmo. E o que não fica à vista está no armazém, acessível em poucos minutos (se o prometido fundo editorial funcionar). Para já, fiquei com vontade de explorar melhor a secção dos livros estrangeiros, que me pareceu bem fornecida.
- O potencial. Quando estiver a funcionar a 100%, a Byblos pode tornar-se um ponto de encontro para quem não se contenta em dar uma vista de olhos nas novidades. E um perigoso sorvedouro para bibliófilos com cartão de crédito.
Aspectos negativos
- O acesso. Um dos grandes segredos para o sucesso da Fnac foi o facto de se ter instalado em lugares próximos de estações de metro. A Byblos, pelo contrário, ocupa dois pisos de um edifício na fronteira entre as Amoreiras e Campo de Ourique. Ir para ali de transportes públicos parece-me complicado. Levar carro, idem aspas: faltam lugares de estacionamento nas redondezas e os parques enchem com facilidade (para além de não serem baratos). A haver um calcanhar de Aquiles no projecto, pode muito bem estar aqui.
- A arrumação. A Byblos foi montada em contra-relógio e isso, na primeira noite, notou-se. Se algumas secções estavam impecáveis, noutras percebia-se que foi tudo colocado nas prateleiras a trouxe-mouxe, na vertigem da urgência. Só um exemplo: na estante dedicada aos livros de crónica, estavam os clássicos gregos, mais o Paraíso Perdido do Milton e o Decameron do Boccaccio. Nada que os ajustes dos próximos dias não possam corrigir.
- A menorização da poesia. Numa livraria tão grande, como é que se justifica que a poesia (portuguesa e estrangeira) fique limitada a duas estantes, bem menos do que oferecem as Fnacs? Além disso, a um primeiro olhar, faltam autores fundamentais (Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, entre muitos outros), embora pululem por ali dezenas de fraquíssimas edições de autor. Bem sei que no fundo editorial podemos encontrar o que nos interessa, mas as estantes devem ser sempre um espaço nobre para cativar leitores. Como estão, duvido que entusiasmem um único amante de poesia.
- A importância relativa das secções. Há demasiados best-sellers para o meu gosto, demasiados livros de auto-ajuda e demasiados coffee table books (a ideia é vender, eu sei, mas estes enormes espaços moldados pela ditadura do marketing, com pirâmides de livros por todo o lado, surgem-me como uma forma de poluição visual). Além disso, faz-me espécie ver quatro estantes dedicadas à gestão e duas aos “recursos humanos”, quando a poesia está numa espécie de gueto minúsculo.
- A iluminação. Julgava que este seria um ponto forte, mas o sistema de focos e pontos de luz pareceu-me mais próximo da atmosfera típica dos centros comerciais do que das livrarias cosy, em que uma pessoa gosta de perder horas a bisbilhotar capas, contracapas, badanas e inícios de capítulos.
Resta a questão central: haverá viabilidade económica para uma mega-livraria que também vende CD’s e DVD’s (estes sem desconto), mas não oferece a parafernália de electrodomésticos e gadgets electrónicos que contribui, em larga medida, para o enorme volume de negócios da Fnac?
Inauguração da Byblos
A abertura da livraria mais falada dos últimos tempos foi muitíssimo concorrida. Editores, representantes do Governo, jornalistas, escritores, bloggers, esteve lá tout le monde (ou quase). Apesar dos 3300 metros quadrados, dos corredores amplos e dos muitos nichos de leitura, aconteceram engarrafamentos, cotoveladas involuntárias e até alguns atropelos.
Eis um pequeno resumo fotográfico da noite:
A epígrafe da Byblos, lavrada na pedra, é uma frase célebre de Jorge Luis Borges sobre a equivalência entre o Paraíso e a ideia de livraria. É uma escolha quase óbvia, mas feliz.
A enchente aproximou-se por vezes da atmosfera vivida na Expo’98. Lembram-se?
Entre os convidados, pairavam anjos sorridentes e anjos melancólicos (talvez saídos da grande biblioteca que se vê no filme Asas do Desejo).
Seguranças vigiaram o acesso ao segundo andar enquanto a ministra da Cultura não ”cortou a fita”, simbolizada por uma espécie de arco em cartão.
Uma pilha António Lobo Antunes. Há também pilhas José Rodrigues dos Santos e pilhas Miguel Sousa Tavares (várias).
José-Augusto França apresenta o livro de serigrafias que a Byblos ofereceu aos convidados, junto a Almeida Santos, Isabel Pires de Lima e Américo Areal, o responsável máximo pela livraria.
Amanhã é a sério. E os empregados da loja, que fizeram directa na noite anterior para que tudo estivesse (mais ou menos) no sítio, vão começar a trabalhar às nove para poderem abrir as portas às dez.
Byblos
A maior livraria do país abre amanhã ao público, pelas 10h00, no Amoreiras Square (Lisboa). Muito já se escreveu sobre os prodígios tecnológicos e as fabulosas dimensões do novo espaço (3300 metros quadrados), mas em nenhum lado de forma tão exaustiva como no BlogTailors. Vale a pena ler estes posts que perfazem uma espécie de contagem decrescente: 4, 3, 2, 1.
Ainda hoje, o Bibliotecário de Babel (BB para os amigos, que nunca o confundem com Baptista-Bastos, nem com Brecht e muito menos com Bardot) espera ter tempo para colocar aqui uma entrevista que fez a Américo Areal, o entrepreneur que investiu quatro milhões de euros neste novo conceito de livraria. Mais tarde, e porque recebeu convite para a inauguração de logo à noite (21h00), BB promete partilhar imagens e impressões sobre o mui aguardado acontecimento.


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