Maravilhas da paternidade

Alice: Pai, sabes como é que se chama o homem que anda com o D. Quixote?
Eu: Sim. Chama-se Sancho Pança.
Alice: Pois é. Agora já sei. Mas ao princípio percebi mal o nome dele.
Eu: Então?
Alice: Pensava que se chamava Sem Esperança. Dom Quixote e Sem Esperança.

Maravilhas da paternidade

Além de médica e paleontóloga, a Alice diz que no futuro será bailarina ao domicílio: «As pessoas telefonam-me e eu vou a casa delas dançar. É simples.» Já o Pedro mantém a ideia de ser veterinário, «mas só para tratar animais abandonados na rua». Eu pergunto: e quem é que te paga esse trabalho? «A Câmara Municipal, claro! Ou então as pessoas que no fim vão adoptar os animais, quando já estiverem bons.»

Maravilhas da paternidade

Numa série de desenhos animados japonesa, há um menino que gosta de outro menino como se ele fosse uma menina, explica-me o Pedro. «E o outro menino às vezes até se veste de menina, mas ficam os dois muito tristes, porque ele não é uma menina.» Após uma pausa para reflectir sobre o assunto, remata: «Não percebo porque é que eles não decidem ser gays. Era muito melhor, não era, pai? E assim, se quisessem, até se podiam casar.»

Maravilhas da paternidade

Pedro: Pai, o que é desfalecer?
Eu: É desmaiar.
Pedro: Ah.
Eu: …
Pedro: Eu sei o que é falecer. Por isso pensei que des-falecer era nascer outra vez.

Maravilhas da paternidade

Questões que se levantam a caminho da escola:

Alice (pergunta com resposta) – Sabes porque é que os documentos importantes da nossa História estão num sítio chamado Torre do Tombo (embora não seja uma torre) e só podem ser tocados com luvas por algumas pessoas? Porque são muito frágeis e, se não forem tratados com cuidado, desfazem-se.

Pedro (logo de seguida) – E onde é que está o manuscrito dos Lusíadas, hã? Aquele que o Camões escreveu à mão e depois salvou, a nadar com o braço de fora? Está na Torre do Tombo? Isso é que eu queria saber.

Maravilhas da paternidade

Pedro: Hoje inventei um novo sinal de pontuação.
Eu: Ah, sim? Qual?
Pedro: O ponto final açucarado.
Eu: Explica lá.
Pedro: É um ponto final com um coração desenhado à volta.
Eu: E serve para quê?
Pedro: Serve para fechar as frases que sejam doces ou de amor.

Maravilhas da paternidade

– E tu falaste para a rádio, pai?
– Sim.
– Sobre o quê?
– Sobre o Prémio Nobel de Literatura.
– (Os dois, num sobressalto de entusiasmo) Ganhaste?

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Se há o lado materno e se há o lado paterno, também há o lado avô terno, não é?»

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Pai, inventei uma canção e acho que tu vais gostar: “Paaaaaaaaassos Coelho, ôôôôôôôô, tu-tu-tu-tu-tu és parvo!”»

Maravilhas da paternidade

Durante a aula de xadrez, cá em casa:

Alice – Agora posso fazer o roll?
Eu – O roll?
Alice – Sim, aquela coisa em que o rei anda duas casas para o lado e a torre lhe passa por cima.
Eu – Ah, o roque.
Alice – Isso.
Eu – Mas olha que é roque, não é rock.

Maravilhas da paternidade

– Pai, eu nasci de dia ou de noite?
– De noite, Pedro. Aliás, de madrugada. Foi quase às três da manhã.
– Eh, pá. Três da manhã é muito tarde.
– Pois é.
– E acordaram-me?
– Se te acordámos?
– Sim. Quando eu nasci. É que a essa hora devia estar a dormir.

Maravilhas da paternidade

Do Pedro, que nunca ouviu falar em crowdsourcing: «Eu acho que todas as pessoas sabem coisas diferentes. Umas sabem umas coisas, outras sabem outras, ninguém sabe tudo. Por isso, se cada pessoa disser às outras aquilo que sabe, no fim ficamos todos a saber tudo o que há para saber. Não é?»

Maravilhas da paternidade

Alice: «Se já estamos no Pingo Doce, por que é que eles estão sempre a passar esta música do “Pingo Doce venha cá”?»

Maravilhas da paternidade

Uma brincadeira tão simples. Na cama, virado para baixo, eu sou um navio. Eles fincam-se ao convés, mãos nos meus ombros, peito contra costas. À volta, sobre os lençóis, vagas imensas, tempestades, tubarões. Eu rolo para um lado e para o outro. Eles agarram-se. Eu rolo para um lado e para o outro. Eles agarram-se. Salvo-os do naufrágio com abraços.

Maravilhas da paternidade

Agora que lhe caiu o primeiro dente, o Pedro repetiu a pergunta: «E quando cai um dente à Fada dos Dentes, o que é que ela faz?» Durante estes meses todos, ele deve ter andado a pensar na questão, porque desta vez saiu-se logo com a resposta: «Eu acho que a Fada dos Dentes põe o seu dente debaixo da almofada, como nós. Depois vem outra Fada dos Dentes mais pequena buscá-lo. Quando essa Fada dos Dentes mais pequena perder um dente, ela vai deixá-lo debaixo da sua almofada. Então, vem outra Fada dos Dentes ainda mais pequena buscá-lo. E se essa Fada dos Dentes ainda mais pequena perder um dente, põe-no debaixo da sua almofada, claro. E então vem outra Fada dos Dentes ainda mais pequena do que essa, mais pequena até do que os micróbios, buscá-lo. Depois isto continua assim, sempre. Até que a última Fada dos Dentes é tão pequena, tão pequena, tão pequena, que desaparece.»

Maravilhas da paternidade

Bestiário (rã + caranguejo + baleia), de Pedro Ferra Silva, 2012

Maravilhas da paternidade

Ao almoço, a Alice perguntou-me até que idade podem viver os seres humanos. «Depende», respondi, «a maior parte das pessoas vivem até aos 80 anos, em média, mas há pessoas que vivem para lá dos cem». Ela não pareceu satisfeita. Queria saber até que idade exacta chegam as pessoas que vivem mais. Respondi que há muitos casos de pessoas que alcançam os 114, 115, 116 anos, mas só uma senhora francesa é que ultrapassou os 120. «Morreu com 122.» A Alice fez silêncio durante uns segundos. Julguei que a curiosidade estava saciada e passaríamos a outro assunto. Então disse: «Eu queria mesmo é que tu vivesses até aos 150 anos. Pelo menos. Mas podia ser mais.»

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Pai, tu sabes coser?»
Eu: «Hmmmmm, não muito bem.»
Pedro: «Então? És machista?»

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Depois da Terra, os ET’s ocupam o sistema solar, por Alice Ferra Silva, 2012

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Submarino Amarelo (com baleia, foca, caranguejo, polvo, algas e outros seres vivos não identificados), por Pedro Ferra Silva, 2012

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A Terra invadida por ET’s, por Alice Ferra Silva, 2012

Maravilhas da paternidade

O calor acentua o nonsense. Eis algumas frases vindas do banco de trás, durante a viagem de carro.

Pedro: «Já jogámos com a República Checa. Hoje é contra a Cinemateca, não é?»

Alice: «Allô, TeleSapatos, queria uma pizza de solas, se faz favor.»

Pedro: «Allô, TeleMicróbios, queria uma pizza de vírus, se faz favor.»

Maravilhas da paternidade

Alice: «Quando for grande vou ser escritora porque tenho uma cabeça cheia de ideias.»

Maravilhas da paternidade

Pedro: «O losango é um quadrado esticadinho, que se equilibra na ponta do pé.»

Maravilhas da paternidade

De vez em quando, a Alice pede-me o iPad para jogar FIFA11. Ontem, descobriu a solução definitiva para a angústia dos sportinguistas. «Seleccionei o Sporting como a minha equipa e também como a outra equipa. Assim, se ganhar, ganha o Sporting. E se perder, ganha o Sporting. Uma boa ideia, não achas?»

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Já sei, já sei, as barrigas das mães quando estão grávidas são como as ostras e os bebés crescem lá dentro como as pérolas, não é?»

Maravilhas da paternidade

Descendo a Avenida da Liberdade, cravo na mão, a Alice e o Pedro não se incomodaram com a chuva e cantaram entusiasmados as palavras de ordem. Entre todas, a preferida foi «O Povo unido jamais será vencido», mas também gritaram com empenho «25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais». Diga-se que a primeira parte (25 de Abril) eles já compreendem bem, a segunda é que é mais complicado. Perguntou-me a Alice: «”Fascismo nunca mais” quer dizer que não vai haver mais tremores de terra?» Quando parei de rir à gargalhada, expliquei-lhe que se o fascismo já não faz sismos é justamente porque uns corajosos capitães decidiram sair de Santarém numa madrugada de 1974 para acabar com um regime que causou muito mais estragos do que o terramoto de 1755.

Maravilhas da paternidade

Pedro: Pai, quando é que a crise acaba?
Eu: Não sei, filho. Ninguém sabe.
Pedro: Mas um dia vai acabar, não vai?
Eu: Esperemos que sim.
Pedro: Claro que vai acabar. Se começou, tem de acabar.

Maravilhas da paternidade

Pedro: Pai, não há nenhuma pessoa no mundo que saiba tudo, pois não?
Eu: Não.
Pedro: Mas muitas pessoas sabem muitas coisas diferentes. Então, se juntarmos as pessoas todas do mundo, vamos ficar a saber tudo o que há para saber, não é?
Eu: Não, filho, mesmo assim haverá sempre aspectos do universo que nem a humanidade inteira conseguirá compreender.
Pedro: Pois. Acho que é mesmo preciso pedir ajuda aos extraterrestres. Isto se eles existirem, claro. E se souberem falar.

Maravilhas da paternidade

Desenhos do dia do Pai:


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Este é do Pedro.

Este é da Alice.

Este é outra vez do Pedro (aula de Inglês).

Maravilhas da paternidade

Alice: «As palavras que rimam são palavras que se dão bem umas com as outras.»

Maravilhas da paternidade

Pedro: «E quando cai um dente à Fada dos Dentes, o que é que ela faz?»

Maravilhas da paternidade

Alice – Pai, hoje na escola aprendi uma letra nova.
Eu – Ai, sim? Qual?
Alice – O ‘b’.
Eu – Então diz lá uma palavra começada por ‘b’.
Alice – Batata.
Eu – Boa. E mais?
Alice – Bibe… Hmmm… Barco… Hmmm… Bola… Hmmm…
Pedro – BERTRAND!

Maravilhas da paternidade

O nonsense antes do almoço:

Pedro – Truz, truz.
Alice – Quem é?
Pedro – A banana.
Alice – Banana quê?
Pedro – Banana banana.
(Risota)

Alice – Truz, truz.
Pedro – Quem é?
Alice – A banana.
Pedro – Banana quê?
Alice – Banana banana.
(Grande risota)

Pedro – Truz, truz.
Alice – Quem é?
Pedro – A banana.
Alice – Banana quê?
Pedro – Banana pêra.
(Risota total)

Maravilhas da paternidade

«No queque, gosto sempre de comer primeiro as pétalas», disse o Pedro, ao lanche.

Maravilhas da paternidade

Maravilhas da paternidade

Como todos os anos, o Pedro e a Alice deixaram uma merenda para o Pai Natal ao pé da árvore. Ao ver o pacote de leite meio-gordo na cozinha, a Alice disparou: «Acho que era melhor oferecermos leite magro. O Pai Natal já é muito gorducho. Não pode engordecer ainda mais.»

Maravilhas da paternidade

Ao almoço, o Pedro saiu-se com esta: «As antenas de televisão são os chifres das casas, diz o alce.» Do outro lado da mesa, a irmã riu-se às gargalhadas, quase no limite do engasgo. «Oh, Pedro, essa piada é mesmo gira. Pai, por favor, conta a piada do Pedro a todas as pessoas que conheceres.» E eu conto.

Maravilhas da paternidade

Infância: o tempo em que a felicidade pode caber toda num livro sobre tubarões.

Maravilhas da paternidade

Um destes dias, o TPC da Alice consistia num auto-retrato. Ficou assim:


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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges