Maravilhas da paternidade
Pedro: «Já sei, já sei, as barrigas das mães quando estão grávidas são como as ostras e os bebés crescem lá dentro como as pérolas, não é?»
Maravilhas da paternidade
Descendo a Avenida da Liberdade, cravo na mão, a Alice e o Pedro não se incomodaram com a chuva e cantaram entusiasmados as palavras de ordem. Entre todas, a preferida foi «O Povo unido jamais será vencido», mas também gritaram com empenho «25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais». Diga-se que a primeira parte (25 de Abril) eles já compreendem bem, a segunda é que é mais complicado. Perguntou-me a Alice: «”Fascismo nunca mais” quer dizer que não vai haver mais tremores de terra?» Quando parei de rir à gargalhada, expliquei-lhe que se o fascismo já não faz sismos é justamente porque uns corajosos capitães decidiram sair de Santarém numa madrugada de 1974 para acabar com um regime que causou muito mais estragos do que o terramoto de 1755.
Maravilhas da paternidade
Pedro: Pai, quando é que a crise acaba?
Eu: Não sei, filho. Ninguém sabe.
Pedro: Mas um dia vai acabar, não vai?
Eu: Esperemos que sim.
Pedro: Claro que vai acabar. Se começou, tem de acabar.
Maravilhas da paternidade
Pedro: Pai, não há nenhuma pessoa no mundo que saiba tudo, pois não?
Eu: Não.
Pedro: Mas muitas pessoas sabem muitas coisas diferentes. Então, se juntarmos as pessoas todas do mundo, vamos ficar a saber tudo o que há para saber, não é?
Eu: Não, filho, mesmo assim haverá sempre aspectos do universo que nem a humanidade inteira conseguirá compreender.
Pedro: Pois. Acho que é mesmo preciso pedir ajuda aos extraterrestres. Isto se eles existirem, claro. E se souberem falar.
Maravilhas da paternidade
Desenhos do dia do Pai:
Este é do Pedro.
Este é da Alice.
Este é outra vez do Pedro (aula de Inglês).
Maravilhas da paternidade
Alice: «As palavras que rimam são palavras que se dão bem umas com as outras.»
Maravilhas da paternidade
Pedro: «E quando cai um dente à Fada dos Dentes, o que é que ela faz?»
Maravilhas da paternidade
Alice – Pai, hoje na escola aprendi uma letra nova.
Eu – Ai, sim? Qual?
Alice – O ‘b’.
Eu – Então diz lá uma palavra começada por ‘b’.
Alice – Batata.
Eu – Boa. E mais?
Alice – Bibe… Hmmm… Barco… Hmmm… Bola… Hmmm…
Pedro – BERTRAND!
Maravilhas da paternidade
O nonsense antes do almoço:
Pedro – Truz, truz.
Alice – Quem é?
Pedro – A banana.
Alice – Banana quê?
Pedro – Banana banana.
(Risota)
Alice – Truz, truz.
Pedro – Quem é?
Alice – A banana.
Pedro – Banana quê?
Alice – Banana banana.
(Grande risota)
Pedro – Truz, truz.
Alice – Quem é?
Pedro – A banana.
Alice – Banana quê?
Pedro – Banana pêra.
(Risota total)
Maravilhas da paternidade
«No queque, gosto sempre de comer primeiro as pétalas», disse o Pedro, ao lanche.
Maravilhas da paternidade
Maravilhas da paternidade
Como todos os anos, o Pedro e a Alice deixaram uma merenda para o Pai Natal ao pé da árvore. Ao ver o pacote de leite meio-gordo na cozinha, a Alice disparou: «Acho que era melhor oferecermos leite magro. O Pai Natal já é muito gorducho. Não pode engordecer ainda mais.»
Maravilhas da paternidade
Ao almoço, o Pedro saiu-se com esta: «As antenas de televisão são os chifres das casas, diz o alce.» Do outro lado da mesa, a irmã riu-se às gargalhadas, quase no limite do engasgo. «Oh, Pedro, essa piada é mesmo gira. Pai, por favor, conta a piada do Pedro a todas as pessoas que conheceres.» E eu conto.
Maravilhas da paternidade
Infância: o tempo em que a felicidade pode caber toda num livro sobre tubarões.
Maravilhas da paternidade
Um destes dias, o TPC da Alice consistia num auto-retrato. Ficou assim:
Maravilhas da paternidade
A Alice atou aos pulsos umas fitinhas e para cada uma pediu um desejo. «São desejos que têm a ver com as minhas amigas», explicou. A menina X passou a brincar com a menina Z e a menina Y «já não me liga». Enfim, problemas que podem parecer pequenos ao olhar dos adultos, mas assumem uma dimensão quase cósmica para quem tem seis anos.
«Quando atar outra fitinha», disse-me ela, «vou pedir uma coisa completamente diferente». Eu fiquei curioso. Que coisa? «Vou pedir que Portugal saia da crise.» Quando a pousei, depois de um beijo e de um abraço apertado, a Alice olhou para mim com um ar sério: «Quero mesmo que a crise acabe, pai, mas percebes que primeiro tenho de resolver as coisas com as minhas amigas, não é?»
Maravilhas da paternidade
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Desde que lhe mostrei as folhas em leque e a árvore que se ergue, majestosa, num dos cantos da praça que fica em frente à casa da avó, o Pedro anda fascinado com a Gingko biloba.
Hoje, noutro ponto da cidade, ao ver à distância uma destas árvores, disse: «Olha, pai, uma longínquo biloba…»
Maravilhas da paternidade
Depois de duas semanas a desenhar a letra ‘i’, a Alice passou para o ‘u’: «É bom, pai. Agora já posso escrever “ui”.» Ou seja, a primeira palavra escrita na sala de aulas é uma preparação para o sofrimento. Será que a Troika também andou a influenciar os programas do ensino básico?
Maravilhas da paternidade
Pedro: «Podemos ser astronautas e ilusionistas ao mesmo tempo?»
Maravilhas da paternidade
O Pedro a brincar com o conteúdo da caixa Playmobil que o tio lhe ofereceu:
– Isto é uma árvore que não dá frutos, dá animais.
Maravilhas da paternidade
«Olha, papá, eu até sei que a morada dos meus anos é 23 de Setembro.»
Maravilhas da paternidade
Pedro, enquanto olhava para um automóvel com o capot aberto: «O motor é igual ao porta-bagagens, só que mais quente.»
Maravilhas da paternidade
Pedro: «Os relâmpagos são fios eléctricos que ligam o céu à terra.»
Maravilhas da paternidade
Estávamos em Belém. Apontei para o mosteiro: «E aqui ficam os Jerónimos.» Dispara logo a Alice, subitamente entusiasmada: «Os Gerónimos Stilton?!?»
Maravilhas da paternidade
Ontem, os jardins da Gulbenkian abriram-se a “Um Plácido Domingo” de experimentação musical. No meio de dezenas de outras crianças (e respectivos progenitores), a Alice e o Pedro andaram de mapa na mão à procura das surpresas.
Ei-los no Paúl dos Tambores Cantantes:
No Campo das Flores Sonívoras:
E por fim no Pomar dos Gamelões (já com alguns sinais de impaciência do mais novo):
Maravilhas da paternidade
O Pedro, com um altinho numa das bochechas: «Ó pai, o rebuçado está a saber-me mesmo bem. É melhor do que o último que comi. Acho que está mais maduro.»
Maravilhas da paternidade
Ao sairmos do prédio, o Pedro começa a raspar furiosamente as sandálias no tapete. Eu fico a olhar, perplexo. Ele explica logo: «Ó pai, é que eu não quero sujar a rua.»
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Alice e o verão chuvoso: «Mãe, podes desligar as nuvens? Puxar um fio e desligar uma de cada vez?»
Maravilhas da paternidade
Com o seu desenho-aguarela nas mãos, o Pedro informa-me: «Isto és tu com 11 anos, pai. Tinhas óculos, sabias?» Podia não saber, mas sabia. Tinha óculos e, pelos vistos, nenhum cabelo. Fora isso, está perfeito.
Maravilhas da paternidade
No Jardim Zoológico, enquanto assiste ao espectáculo dos golfinhos, o Pedro olha com bastante desconfiança para as habilidades dos cetáceos. Às tantas, desabafa: «Hmmmmmm, nunca vi golfinhos a fazerem isto. Acho que estes devem ser treinados.»
Maravilhas da paternidade
Maravilhas da paternidade
No passado domingo, fui descobrir com os filhos uma exposição no CCB. De sala escura em sala iluminada, entre objectos estranhos e familiares, através de corredores e espaços uterinos. No fim, o estrépito da música provocou um susto infantil, acompanhado de ligeira taquicardia («põe aqui a mão no peito, pai, para sentires como o meu coração está a bater depressa», disse a Alice).
Maravilhas da paternidade
Eu e a Alice vínhamos da apresentação aos sócios do Sporting Clube de Portugal, sábado à noite. Ela entusiasmadíssima com o estádio e a festa («Foi tudo lindo. Foi tudo maravilhoso. Menos o resultado.»). Ela orgulhosa do cachecol verde, onde se escondia o pequeno leão de peluche. Ela resistindo ao cansaço enquanto subíamos a tão íngreme Rua do Poço dos Mouros. Ouvimos então os grilos. Grilos estridentes, ondas de som umas contra as outras, estrépito sobre as nossas cabeças. «Estás a ouvir, pai? Ouve bem. A cidade às vezes tem a voz do campo.»
Maravilhas da paternidade
Insurge-se o Pedro: «Se na terra os cavalos puxam as carroças, porque é que no mar os peixes não puxam os barcos?»
Maravilhas da paternidade
- É que o universo é infinito, Pedro.
- Ó Alice, e como é que sabes que o universo é infinito?
- Se não fosse infinito, como é que a ideia de infinito cabia lá dentro?
Maravilhas da paternidade
04:33 a 04:40
Maravilhas da paternidade
Apesar de ainda faltarem uns meses para entrar no primeiro ano do ensino básico, a Alice já quase sabe ler e soletra cada vez melhor.
Esta manhã, ao folhear um livro infantil, deparou-se com a palavra «Egipto». Começou:
- Ê-Ê-GI-GI… e agora pai?
Expliquei-lhe que o «p» faz parte da palavra mas não se lê.
- Aliás, quando fores para a escola, essa palavra já não vai ter ‘p’.
Olhou-me com perplexidade.
- Não vai ter ‘p’?
- Não.
- O ‘p’ vai desaparecer?
- Sim.
- Do alfabeto? (em tom assustado)
- Não, filha, só das palavras em que a letra está lá mas o som dela não se lê.
Tanto a Alice como o Pedro (que estava por perto, calado), pareceram muito aliviados. Então o Pedro disse:
- Ainda bem, pai. É que se o ‘p’ desaparecesse do alfabeto, eu deixava de poder escrever o meu nome, não era?
Maravilhas da paternidade
Desta vez é um desenho do Pedro, feito há pouco, no restaurante:
Autoretrato, com pai do lado esquerdo e um pouco atrás (2011), Bic Cristal sobre toalha de papel
Maravilhas da paternidade
Da série ‘Centopeias’, desenhada pela Alice no seu caderno de esboços (os títulos são dela):

Centopeia fina e grande (2011)

Centopeia gorda e pequena (2011)
Maravilhas da paternidade
Da série ‘Nuvens’, feita pela Alice na aplicação Brushes do iPhone (os títulos são dela):

Nuvens soltas (2010)

Balão de ar quente, daqueles que sobem muito alto no céu (2010)


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