Maravilhas da paternidade

A Alice atou aos pulsos umas fitinhas e para cada uma pediu um desejo. «São desejos que têm a ver com as minhas amigas», explicou. A menina X passou a brincar com a menina Z e a menina Y «já não me liga». Enfim, problemas que podem parecer pequenos ao olhar dos adultos, mas assumem uma dimensão quase cósmica para quem tem seis anos.
«Quando atar outra fitinha», disse-me ela, «vou pedir uma coisa completamente diferente». Eu fiquei curioso. Que coisa? «Vou pedir que Portugal saia da crise.» Quando a pousei, depois de um beijo e de um abraço apertado, a Alice olhou para mim com um ar sério: «Quero mesmo que a crise acabe, pai, mas percebes que primeiro tenho de resolver as coisas com as minhas amigas, não é?»

Maravilhas da paternidade

Desde que lhe mostrei as folhas em leque e a árvore que se ergue, majestosa, num dos cantos da praça que fica em frente à casa da avó, o Pedro anda fascinado com a Gingko biloba.
Hoje, noutro ponto da cidade, ao ver à distância uma destas árvores, disse: «Olha, pai, uma longínquo biloba…»

Maravilhas da paternidade

Depois de duas semanas a desenhar a letra ‘i’, a Alice passou para o ‘u': «É bom, pai. Agora já posso escrever “ui”.» Ou seja, a primeira palavra escrita na sala de aulas é uma preparação para o sofrimento. Será que a Troika também andou a influenciar os programas do ensino básico?

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Podemos ser astronautas e ilusionistas ao mesmo tempo?»

Maravilhas da paternidade

O Pedro a brincar com o conteúdo da caixa Playmobil que o tio lhe ofereceu:

– Isto é uma árvore que não dá frutos, dá animais.

Maravilhas da paternidade

«Olha, papá, eu até sei que a morada dos meus anos é 23 de Setembro.»

Maravilhas da paternidade

Pedro, enquanto olhava para um automóvel com o capot aberto: «O motor é igual ao porta-bagagens, só que mais quente.»

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Os relâmpagos são fios eléctricos que ligam o céu à terra.»

Maravilhas da paternidade

Estávamos em Belém. Apontei para o mosteiro: «E aqui ficam os Jerónimos.» Dispara logo a Alice, subitamente entusiasmada: «Os Gerónimos Stilton?!?»

Maravilhas da paternidade

Ontem, os jardins da Gulbenkian abriram-se a “Um Plácido Domingo” de experimentação musical. No meio de dezenas de outras crianças (e respectivos progenitores), a Alice e o Pedro andaram de mapa na mão à procura das surpresas.
Ei-los no Paúl dos Tambores Cantantes:

No Campo das Flores Sonívoras:

E por fim no Pomar dos Gamelões (já com alguns sinais de impaciência do mais novo):

Maravilhas da paternidade

O Pedro, com um altinho numa das bochechas: «Ó pai, o rebuçado está a saber-me mesmo bem. É melhor do que o último que comi. Acho que está mais maduro.»

Maravilhas da paternidade

Ao sairmos do prédio, o Pedro começa a raspar furiosamente as sandálias no tapete. Eu fico a olhar, perplexo. Ele explica logo: «Ó pai, é que eu não quero sujar a rua.»

Maravilhas da paternidade

Alice e o verão chuvoso: «Mãe, podes desligar as nuvens? Puxar um fio e desligar uma de cada vez?»

Maravilhas da paternidade


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Com o seu desenho-aguarela nas mãos, o Pedro informa-me: «Isto és tu com 11 anos, pai. Tinhas óculos, sabias?» Podia não saber, mas sabia. Tinha óculos e, pelos vistos, nenhum cabelo. Fora isso, está perfeito.

Maravilhas da paternidade

No Jardim Zoológico, enquanto assiste ao espectáculo dos golfinhos, o Pedro olha com bastante desconfiança para as habilidades dos cetáceos. Às tantas, desabafa: «Hmmmmmm, nunca vi golfinhos a fazerem isto. Acho que estes devem ser treinados.»

Maravilhas da paternidade

Maravilhas da paternidade

No passado domingo, fui descobrir com os filhos uma exposição no CCB. De sala escura em sala iluminada, entre objectos estranhos e familiares, através de corredores e espaços uterinos. No fim, o estrépito da música provocou um susto infantil, acompanhado de ligeira taquicardia («põe aqui a mão no peito, pai, para sentires como o meu coração está a bater depressa», disse a Alice).

Maravilhas da paternidade

Eu e a Alice vínhamos da apresentação aos sócios do Sporting Clube de Portugal, sábado à noite. Ela entusiasmadíssima com o estádio e a festa («Foi tudo lindo. Foi tudo maravilhoso. Menos o resultado.»). Ela orgulhosa do cachecol verde, onde se escondia o pequeno leão de peluche. Ela resistindo ao cansaço enquanto subíamos a tão íngreme Rua do Poço dos Mouros. Ouvimos então os grilos. Grilos estridentes, ondas de som umas contra as outras, estrépito sobre as nossas cabeças. «Estás a ouvir, pai? Ouve bem. A cidade às vezes tem a voz do campo.»

Maravilhas da paternidade

Insurge-se o Pedro: «Se na terra os cavalos puxam as carroças, porque é que no mar os peixes não puxam os barcos?»

Maravilhas da paternidade

– É que o universo é infinito, Pedro.
– Ó Alice, e como é que sabes que o universo é infinito?
– Se não fosse infinito, como é que a ideia de infinito cabia lá dentro?

Maravilhas da paternidade

04:33 a 04:40

Maravilhas da paternidade

Apesar de ainda faltarem uns meses para entrar no primeiro ano do ensino básico, a Alice já quase sabe ler e soletra cada vez melhor.
Esta manhã, ao folhear um livro infantil, deparou-se com a palavra «Egipto». Começou:
– Ê-Ê-GI-GI… e agora pai?
Expliquei-lhe que o «p» faz parte da palavra mas não se lê.
– Aliás, quando fores para a escola, essa palavra já não vai ter ‘p’.
Olhou-me com perplexidade.
– Não vai ter ‘p’?
– Não.
– O ‘p’ vai desaparecer?
– Sim.
– Do alfabeto? (em tom assustado)
– Não, filha, só das palavras em que a letra está lá mas o som dela não se lê.
Tanto a Alice como o Pedro (que estava por perto, calado), pareceram muito aliviados. Então o Pedro disse:
– Ainda bem, pai. É que se o ‘p’ desaparecesse do alfabeto, eu deixava de poder escrever o meu nome, não era?

Maravilhas da paternidade

Desta vez é um desenho do Pedro, feito há pouco, no restaurante:

Autoretrato, com pai do lado esquerdo e um pouco atrás (2011), Bic Cristal sobre toalha de papel

Maravilhas da paternidade

Da série ‘Centopeias’, desenhada pela Alice no seu caderno de esboços (os títulos são dela):

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Centopeia fina e grande (2011)

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Centopeia gorda e pequena (2011)

Maravilhas da paternidade

Da série ‘Nuvens’, feita pela Alice na aplicação Brushes do iPhone (os títulos são dela):

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Nuvens soltas (2010)

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Balão de ar quente, daqueles que sobem muito alto no céu (2010)

Maravilhas da paternidade

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Maravilhas da paternidade

Para a Alice, a crise também já chegou ao presépio. Segundo ela, na gruta onde nasceu o menino Jesus estavam o menino Jesus (claro), o pai José («estás a ver, não és o único»), a mãe Maria, o burro, a vaca, umas ovelhas, «e depois chegaram os Três Reis Magros».

Maravilhas da paternidade

sapatos

Explicação da Alice (com o Pedro, co-autor, ao lado): «Se as mesas e as cadeiras têm pernas, então também têm pés. Se têm pés, então precisam de sapatos.»

Maravilhas da paternidade

pedro_na_livraria

Sábado, na livraria do Changuito, o Pedro usou-me como trampolim. Eis um miúdo de quatro anos que rodopia no ar e grita: «Pai, pai, faz outra vez.» Nas estantes, os livros – seres tão frágeis – tremiam assustados.

[Agradeço ao Changuito a foto magnífica e a paciência com os petizes.]

Maravilhas da paternidade

Ontem, ao jantar:

– (…) porque terça-feira é feriado.
– E é feriado porquê?
– Porque é 5 de Outubro. Meninos, vocês sabem o que é o 5 de Outubro?
– É o Dia Internacional da Água?
– Não, Pedro.
– Então é o dia da castanha.
– Também não, Alice. É o dia da República.
– Ah.
– Ah.
– E este ano comemora-se o centenário.
– O que é centenário?
– Um centenário é quando passam cem anos sobre uma data qualquer. Neste caso, quer dizer que a República Portuguesa começou vai fazer na terça-feira exactamente cem anos.
– Ena pá, tantos anos.
– Sim. Na altura, nem vocês eram nascidos, nem o pai, nem os avós, nem sequer os avós do pai.
– Então cem anos é mesmo muito tempo, não é?
– É, Pedro.
– Ó pai, se a República tem cem anos quer dizer que é muito idosa. Eu acho que ela deve usar bengala.
– E usa, Alice. E usa.

Maravilhas da paternidade

Manhã de domingo. Enquanto bebemos café na cozinha, há bonecos que tomam de assalto o sofá da sala:

sofa

«É uma exposição», explicam os comissários Alice e Pedro. «Uma exposição de famílias humanas e não-humanas.»

Maravilhas da paternidade

Íamos pela rua quando o Pedro viu estas correntes:

sorriso

«Olha, pai, um sorriso.»

Maravilhas da paternidade

O vídeo do miúdo de três anos a dizer um poema – e a dizê-lo muito bem, sem aquele ar de papagaio ensinado (ou atracção circense) tão típico da maior parte das proezas infantis documentadas no YouTube – lembrou-me um episódio que ando há muito tempo para contar nesta rubrica em que dou largas à minha faceta de pai babadíssimo.
Quando a Alice tinha três anos (quase a fazer quatro), viu-me certo dia a rabiscar furiosamente um moleskine e perguntou logo: «O que é que estás a fazer, papá?» Expliquei-lhe que era um poema e ela ficou ao meu lado, silenciosa, a ver os traços deixados pela tinta negra da Bic. Na manhã seguinte, apanhei-a deitada no chão do quarto, a rabiscar furiosamente um caderno. A página estava cheia de gatafunhos ilegíveis, mas muito bem ordenados, linha a linha. Pormenor importante: as linhas não chegavam ao fim da página. Foi a minha vez de perguntar: «O que é que estás a fazer, Alice?» E ela, como já terão adivinhado, respondeu: «poemas».
Só isto já merecia ser contado, mas a história não acaba assim. Quando peguei no caderno, apercebi-me de que o primeiro poema tinha apenas duas linhas. E fiz a pergunta óbvia: «Podes dizer-me, Alice, o que está escrito aqui?» Então ela aproximou-se e leu, muito desembaraçada, apontando o seu pequeno dedo aos gatafunhos: «O mar anda / e a água canta».
Eu nem queria acreditar no que tinha ouvido. Pedi-lhe que repetisse. O dedinho lá seguiu o primeiro verso, «O mar anda», e depois o segundo, «e a água canta». O espanto, o espanto, o espanto. Fiquei a repetir os dois versos, a apreciar a sua música, a sua ressonância helénica (um vislumbre de Ulisses e as sereias), perplexo com isto de uma criança de três anos ser capaz de criar assim, out of the blue, um dístico que, perdoem-me o exagero, pede meças a muita coisa que se vê para aí publicada.
Agora, se um dia a Alice se tornar poeta e lhe perguntarem quando é que começou a escrever poemas, ela pode responder com a data exacta: 3 de Janeiro de 2009. E acrescentar os dois versos:

O mar anda
e a água canta

O entusiasmo foi tal que a Alice, à noite, teve dificuldade em adormecer. «Estou a pensar nos meus poemas», dizia ela, com os olhos a piscarem de sono. Disse-lhe que dormisse, que sonhasse com palavras e que na manhã seguinte escrevesse mais versos no caderno. E assim aconteceu.
Os dois poemas seguintes, escritos a 4 de Janeiro de 2009, já correspondem mais ao imaginário que se espera de uma criança de três anos. Eis o primeiro:

O vento sopra
as nuvens flutoam [sic]
o sol não brilha
a praia fica lisa.
– Está a chover,
dizem as pessoas.
– É o Outono,
diz o pai.

E agora o terceiro (e último):

A chuva cai.
– Ai, ai,
dizem as girafas.
Pingas, pingas
caem em cima
das girafas.

Depois, como quem deixa um brinquedo de lado, a Alice não escreveu mais poemas. Virou-se para outras coisas, outras actividades. E eu não a incentivei, nem lhe pedi mais versos. O primeiro contacto directo com a poesia foi tão belo e espontâneo que não merecia prolongamentos forçados. O reencontro acontecerá quando tiver de acontecer. E nessa altura ela saberá que o pai não se esqueceu dos seus primeiros poemas, escritos quando ela ainda nem sequer sabia escrever.

Perguntas difíceis

Ao almoço, depois de beber um copo de sumo de melancia, o Pedro virou-se para mim e perguntou:

«Como é que se diz todas as coisas que vão de nós para o mundo em inglês?»

Maravilhas da paternidade

Há umas semanas, chamei a Alice e o Pedro para lhes mostrar um segredo escondido na couve-flor e nos brócolos: se olharmos com atenção, vemos que cada uma das suas partes progressivamente mais pequenas tem uma forma igualzinha ao todo. «A isto, meninos, chama-se uma estrutura fractal.» Eles fizeram que sim com a cabeça, como fazem de cada vez que lhes explico uma coisa nova, mas julguei que o conceito talvez fosse demasiado complexo e que rapidamente o esquecessem, sepultado sob milhares de outras informações adquiridas todos os dias a uma velocidade vertiginosa.
Engano meu, está bom de ver. No outro dia, o Pedro pôs-se a gritar na secção de produtos hortícolas do Intermarché, apontando com evidente entusiasmo para o local onde estavam expostas as couves-flor: «Olhem, olhem, estruturas fractais.»

Maravilhas da paternidade

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bolacha

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Maravilhas da paternidade

Pedro: Sabias que há meninos lá na escola que pensam que a bandeira portuguesa só tem duas cores?
Eu: Vermelha e verde, não é?
Pedro: Sim.
Eu: Mas tu sabes que são três cores.
Pedro: Três cores?
Eu: Sim. Vermelho, verde e amarelo.
Pedro: Ó pai, mas não são três cores!
Eu: Então?
Pedro: São cinco. Não sabes? [Expressão facial de incredulidade absoluta.] Vermelho, verde, amarelo, branco e azul. Nunca viste que há coisas azuis [quinas] no meio da parte amarela [esfera armilar]?

Maravilhas da paternidade

Diz o Pedro: «Sabes, no fim a história [Alice no País das Maravilhas] é só um sonho, mas eu acho que aquilo não é um sonho, é uma inventação.»

Maravilhas da paternidade

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Como a Alice me vê, aos cinco anos e meio.

Maravilhas da paternidade

O Pedro, triste, depois da derrota de Portugal: «Há um dia que o Sporting vai ganhar, não é?»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges