Maravilhas da paternidade

Maravilhas da paternidade
Para a Alice, a crise também já chegou ao presépio. Segundo ela, na gruta onde nasceu o menino Jesus estavam o menino Jesus (claro), o pai José («estás a ver, não és o único»), a mãe Maria, o burro, a vaca, umas ovelhas, «e depois chegaram os Três Reis Magros».
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Explicação da Alice (com o Pedro, co-autor, ao lado): «Se as mesas e as cadeiras têm pernas, então também têm pés. Se têm pés, então precisam de sapatos.»
Maravilhas da paternidade
Sábado, na livraria do Changuito, o Pedro usou-me como trampolim. Eis um miúdo de quatro anos que rodopia no ar e grita: «Pai, pai, faz outra vez.» Nas estantes, os livros – seres tão frágeis – tremiam assustados.
[Agradeço ao Changuito a foto magnífica e a paciência com os petizes.]
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Ontem, ao jantar:
- (…) porque terça-feira é feriado.
- E é feriado porquê?
- Porque é 5 de Outubro. Meninos, vocês sabem o que é o 5 de Outubro?
- É o Dia Internacional da Água?
- Não, Pedro.
- Então é o dia da castanha.
- Também não, Alice. É o dia da República.
- Ah.
- Ah.
- E este ano comemora-se o centenário.
- O que é centenário?
- Um centenário é quando passam cem anos sobre uma data qualquer. Neste caso, quer dizer que a República Portuguesa começou vai fazer na terça-feira exactamente cem anos.
- Ena pá, tantos anos.
- Sim. Na altura, nem vocês eram nascidos, nem o pai, nem os avós, nem sequer os avós do pai.
- Então cem anos é mesmo muito tempo, não é?
- É, Pedro.
- Ó pai, se a República tem cem anos quer dizer que é muito idosa. Eu acho que ela deve usar bengala.
- E usa, Alice. E usa.
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Manhã de domingo. Enquanto bebemos café na cozinha, há bonecos que tomam de assalto o sofá da sala:

«É uma exposição», explicam os comissários Alice e Pedro. «Uma exposição de famílias humanas e não-humanas.»
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Íamos pela rua quando o Pedro viu estas correntes:

«Olha, pai, um sorriso.»
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O vídeo do miúdo de três anos a dizer um poema – e a dizê-lo muito bem, sem aquele ar de papagaio ensinado (ou atracção circense) tão típico da maior parte das proezas infantis documentadas no YouTube – lembrou-me um episódio que ando há muito tempo para contar nesta rubrica em que dou largas à minha faceta de pai babadíssimo.
Quando a Alice tinha três anos (quase a fazer quatro), viu-me certo dia a rabiscar furiosamente um moleskine e perguntou logo: «O que é que estás a fazer, papá?» Expliquei-lhe que era um poema e ela ficou ao meu lado, silenciosa, a ver os traços deixados pela tinta negra da Bic. Na manhã seguinte, apanhei-a deitada no chão do quarto, a rabiscar furiosamente um caderno. A página estava cheia de gatafunhos ilegíveis, mas muito bem ordenados, linha a linha. Pormenor importante: as linhas não chegavam ao fim da página. Foi a minha vez de perguntar: «O que é que estás a fazer, Alice?» E ela, como já terão adivinhado, respondeu: «poemas».
Só isto já merecia ser contado, mas a história não acaba assim. Quando peguei no caderno, apercebi-me de que o primeiro poema tinha apenas duas linhas. E fiz a pergunta óbvia: «Podes dizer-me, Alice, o que está escrito aqui?» Então ela aproximou-se e leu, muito desembaraçada, apontando o seu pequeno dedo aos gatafunhos: «O mar anda / e a água canta».
Eu nem queria acreditar no que tinha ouvido. Pedi-lhe que repetisse. O dedinho lá seguiu o primeiro verso, «O mar anda», e depois o segundo, «e a água canta». O espanto, o espanto, o espanto. Fiquei a repetir os dois versos, a apreciar a sua música, a sua ressonância helénica (um vislumbre de Ulisses e as sereias), perplexo com isto de uma criança de três anos ser capaz de criar assim, out of the blue, um dístico que, perdoem-me o exagero, pede meças a muita coisa que se vê para aí publicada.
Agora, se um dia a Alice se tornar poeta e lhe perguntarem quando é que começou a escrever poemas, ela pode responder com a data exacta: 3 de Janeiro de 2009. E acrescentar os dois versos:
O mar anda
e a água canta
O entusiasmo foi tal que a Alice, à noite, teve dificuldade em adormecer. «Estou a pensar nos meus poemas», dizia ela, com os olhos a piscarem de sono. Disse-lhe que dormisse, que sonhasse com palavras e que na manhã seguinte escrevesse mais versos no caderno. E assim aconteceu.
Os dois poemas seguintes, escritos a 4 de Janeiro de 2009, já correspondem mais ao imaginário que se espera de uma criança de três anos. Eis o primeiro:
O vento sopra
as nuvens flutoam [sic]
o sol não brilha
a praia fica lisa.
– Está a chover,
dizem as pessoas.
– É o Outono,
diz o pai.
E agora o terceiro (e último):
A chuva cai.
– Ai, ai,
dizem as girafas.
Pingas, pingas
caem em cima
das girafas.
Depois, como quem deixa um brinquedo de lado, a Alice não escreveu mais poemas. Virou-se para outras coisas, outras actividades. E eu não a incentivei, nem lhe pedi mais versos. O primeiro contacto directo com a poesia foi tão belo e espontâneo que não merecia prolongamentos forçados. O reencontro acontecerá quando tiver de acontecer. E nessa altura ela saberá que o pai não se esqueceu dos seus primeiros poemas, escritos quando ela ainda nem sequer sabia escrever.
Perguntas difíceis
Ao almoço, depois de beber um copo de sumo de melancia, o Pedro virou-se para mim e perguntou:
«Como é que se diz todas as coisas que vão de nós para o mundo em inglês?»
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Há umas semanas, chamei a Alice e o Pedro para lhes mostrar um segredo escondido na couve-flor e nos brócolos: se olharmos com atenção, vemos que cada uma das suas partes progressivamente mais pequenas tem uma forma igualzinha ao todo. «A isto, meninos, chama-se uma estrutura fractal.» Eles fizeram que sim com a cabeça, como fazem de cada vez que lhes explico uma coisa nova, mas julguei que o conceito talvez fosse demasiado complexo e que rapidamente o esquecessem, sepultado sob milhares de outras informações adquiridas todos os dias a uma velocidade vertiginosa.
Engano meu, está bom de ver. No outro dia, o Pedro pôs-se a gritar na secção de produtos hortícolas do Intermarché, apontando com evidente entusiasmo para o local onde estavam expostas as couves-flor: «Olhem, olhem, estruturas fractais.»
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Maravilhas da paternidade

Pedro: Sabias que há meninos lá na escola que pensam que a bandeira portuguesa só tem duas cores?
Eu: Vermelha e verde, não é?
Pedro: Sim.
Eu: Mas tu sabes que são três cores.
Pedro: Três cores?
Eu: Sim. Vermelho, verde e amarelo.
Pedro: Ó pai, mas não são três cores!
Eu: Então?
Pedro: São cinco. Não sabes? [Expressão facial de incredulidade absoluta.] Vermelho, verde, amarelo, branco e azul. Nunca viste que há coisas azuis [quinas] no meio da parte amarela [esfera armilar]?
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Diz o Pedro: «Sabes, no fim a história [Alice no País das Maravilhas] é só um sonho, mas eu acho que aquilo não é um sonho, é uma inventação.»
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Como a Alice me vê, aos cinco anos e meio.
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O Pedro, triste, depois da derrota de Portugal: «Há um dia que o Sporting vai ganhar, não é?»
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«Ó pai, tu és directamente lindíssimo», diz o Pedro. E eu derreto-me com o advérbio, até porque nem peço tanto: um «indirectamente bonito» já me satisfaria. Não se pense, contudo, que tenho o monopólio dos superlativos do Pedro. Logo a seguir, acrescentou: «A mãe também é directamente lindíssima, a mana também é directamente lindíssima e eu também sou directamente lindíssimo. Somos todos directamente lindíssimos.»
Maravilhas da paternidade
«Pai, o que são monocotiledóneas?»
Depois de rebuscar na memória do biólogo que nunca cheguei a ser, lá respondi ao Pedro, um pouco a custo e questionando-me se com a idade dele, três anos e meio, também fazia perguntas destas. Acho que não.
Maravilhas da paternidade
A pouco e pouco, o Pedro vai alargando e corrigindo o seu léxico botânico. Já diz macieira em vez de maçãzeira, nogueira em vez de nozeira. No outro dia, perguntou-me se eu sabia o nome da árvore que dá o vento. É a venteira, claro. Quanto à árvore que tem livros no lugar dos frutos, não podendo chamar-se livreira, que nome se lhe dará? Não sei. Por mero acaso, no blogue literário da revista New Yorker encontrei um exemplar de tal espécie, fotografado numa aldeia suíça:
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Em inglês é fácil: chamam-lhe Book Tree e já está. Mas em português? Tenho de perguntar ao Pedro.
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No banco de trás do carro, a Alice e o Pedro falam sobre Beethoven, o compositor que há muitos meses lhes abre o último caminho para o sono (depois da fase quartetos de cordas, estão agora na fase sonatas para piano e violoncelo), música que fecha o dia, logo depois das histórias dos livros em papel e do audiolivro que ouvem já de luz apagada.
ALICE: Mas Pedro, o Beethoven já morreu.
PEDRO: Não morreu nada.
ALICE: Morreu, morreu.
PEDRO: Ó pai, a Alice está a dizer que o Beethoven já morreu.
PAI DA ALICE E DO PEDRO: E é verdade, filho. Já morreu.
PEDRO: Oh. Isso quer dizer que agora só o Mozart é que toca.
PAI DA ALICE E DO PEDRO: Não, Pedro. O Mozart também já morreu. O Mozart e o Beethoven morreram os dois há muito tempo. Ainda antes do pai nascer, e dos avós nascerem e até antes dos avós dos avós nascerem.
ALICE: Então morreram no tempo dos dinossauros.
PAI DA ALICE E DO PEDRO: Não, querida, isso também não. Foi há muito tempo, mas não há tanto tempo.
PEDRO: E os dinossauros morreram todos, pai?
PAI DA ALICE E DO PEDRO: Sim, filho.
PEDRO: Até aqueles que voam?
PAI DA ALICE E DO PEDRO: …
PEDRO: Até os pterodáctilos?
PAI DA ALICE E DO PEDRO: Sim, até os pterodáctilos.
O Pedro cala-se, pensativo. Beethoven, Mozart, pterodáctilos. São demasiadas coisas de que ele gosta que deixaram de existir. A irmã começa a dizer que há um castelo no meio do Tejo («Almourol?», pergunto; «É isso, é isso») com uma passagem secreta por baixo do rio que vai dar a um tesouro. «Para ir ao castelo é preciso um barco», explica ela. E estamos nisso do barco – se há-de ser grande ou pequeno – quando finalmente consigo estacionar, perto do jardim.
PEDRO: Olha, pai, não faz mal. [Como se ainda estivesse a pensar nos pterodáctilos e compositores extintos.] Vamos brincar para o parque, pode ser?
Maravilhas da paternidade
– Ó pai, os meus amigos da escola chamam-me bebé, mas eu já não sou bebé.
– Pois não, Pedro, estás até muito crescido. Olha, não ligues a esses teus amigos.
– E como é que eu podia ligar? Não tenho telefone.
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– Ó pai, o que é o 25 de Abril?
– É o dia em que celebramos a revolução que acabou com a ditadura em Portugal.
– E o que é a ditadura?
– Olha, era uma coisa muito má que…
– (interrompendo) Uma coisa muito má como uma planta carnívora?
– Não, Pedro. Era pior do que uma planta carnívora.
– Pior do que uma planta carnívora? Ui, que medo.
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Diz o Pedro: «Ontem foi o dia ideal do livro, não foi?»
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A Alice vem ter comigo, trazendo na mão uma pequena caixa em folha de flandres, com a forma de um coração.
«É uma surpresa», diz ela, «fecha os olhos».
Eu fecho os olhos.
«Já podes abrir.»
Eu abro.
Dentro do coração, dezenas de minúsculos triângulos de papel branco (escalenos quase todos, alguns isósceles, nenhum equilátero), resultado de mais de uma hora de labor, com uma resma de folhas A4 para reciclar e uma tesoura.
«Obrigado, Alice. Podes dizer-me o que significam os triângulos?»
«Posso, pai, claro que posso. Significam o meu amor por ti, que é feito de muitos pedacinhos pequeninos todos juntos.»
«Muitos pedacinhos? Muitos, muitos?»
«Sim, pai. Muitos, muitos. Infinitos.»

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Diz a Alice: «Estou muito zangada com a minha sombra porque ela faz tudo o que eu faço, pai, parece que só sabe imitar-me.»
Maravilhas da paternidade
Ouvir o filho de três anos a dizer, com a convicção de quem já sabe usar as palavras certas, «olha, pai, ela não consegue subir porque a superfície é escorregadia».


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