A ‘Leitura Furiosa’ em voz alta

Como sempre, a Leitura Furiosa terminou na Casa da Achada, domingo à tarde, com uma sessão de leitura dos textos escritos por dezenas de autores em Lisboa, Porto, Beja e Amiens, depois dos encontros com os mais variados tipos de “leitores furiosos” na sexta-feira.
Mais uma vez, tive a sorte de ouvir um excelente actor (Antonino Solmer) a ler as minhas palavras e as dos meus meninos:

A partir do mesmo texto, a dupla Pedro e Diana, músicos capazes de fazer uma canção em menos de nada, criaram isto:

Foi muito bom. Para o ano há mais.

Queres que te faça um desenho?

Ao lado de outros excelentes ilustradores que se reuniram na Casa da Achada no sábado de manhã, o Nuno Saraiva ilustrou o meu texto (sem conhecer os meninos que o inspiraram, como se nota):

A última noite do mundo

São oito meninos que estão juntos e decidem contar uma história, só não sabem como. Uns ainda têm sete anos, outros já chegaram aos oito. A Ysabel («com i grego») nasceu no Brasil, em Minas Gerais, mas fala sem sotaque porque veio para Lisboa ainda bebé. Das visitas a Belo Horizonte, recorda os gelados de côco e uma piscina gigante. Um dia gostava de voltar, talvez para ser cabeleireira, talvez professora de polícias. A Joana não tem dúvidas, nem talvez: quando for crescida será arquitecta, quer desenhar prédios e escolas melhores. Se tiver tempo aprenderá karaté, porque «é bom para uma pessoa se defender». A Beatriz usa óculos cor-de-rosa. Encolhendo os ombros, admite que só lê quando não tem mais nada para fazer. E ela tem sempre muitas coisas para fazer. Por exemplo, fingir-se mais velha ao espelho, para aí uns 23 anos, com a roupa e os sapatos de salto alto da mãe. A mãe nasceu em São Tomé, o pai em Angola, terras que já visitou nas férias e que cheiravam a chuva, mas em que não gostava de viver porque é difícil, ou até impossível, encontrar um McDonald’s. Quando chegar mesmo aos 23 anos, já sabe: se não for modelo, será fadista. A Cátia é da Madeira mas agora vai de eléctrico para a escola todas as manhãs. O melhor dia da sua vida foram dois: o dia em que a levaram pela primeira vez ao circo e o dia em que o seu pai voltou de Abidjan. O Alexandre é muito tagarela e muito sportinguista (vejam a sua camisola às riscas verdes e brancas, com o leão ao peito). No futuro, dê lá por onde der, vai ser cozinheiro em Hollywood, mas por enquanto entretém-se a forrar o quarto com posters do Faísca McQueen. Enquanto exibe a tatuagem de uma caveira voadora a desvanecer-se no braço, garante que já fez com papel e cartolina um pequeno livro de receitas. «Só coisas esquisitas», explica. Esquisitas como? «Hmmmm, deixa cá ver. Ovo estrelado, por exemplo. E panquecas com doce, panquecas com chourição, panquecas com marmelada.» Mais tímido, o João fala muito menos, mas explica que também está a pensar em abrir um restaurante, onde servirá «comida automática» feita por «máquinas ajudantes». Se pudesse, ia 500 vezes ao Algarve e voava até às nuvens como fazem as fadas, a bater um grande par de asas transparentes. Faltam só duas meninas: a Aurora e a Ana Francisca, melhores amigas que se abraçam muito e às vezes se chateiam, só para se reconciliarem logo a seguir. A Aurora aprende violoncelo no Conservatório e já teve um hamster. A Ana Francisca precisa de controlar a vontade de bater nas pessoas (sobretudo num primo mais velho que mora no Luxemburgo) e diz que o seu maior sonho é ver o FMI fora de Portugal.
Mas a história? Que história será? Comecemos pelo título. Quase todos levantam o braço: Cadela Voadora; A Lua Sombria; A Casa Louca; O Livro sem Cor. É difícil chegar a um consenso. O João esboça no papel, linha a linha, a «menina que gostava muito de dançar e depois acordou», a Beatriz lembra-se de uma composição que escreveu para a escola sobre uma estrada que falava e também ria, a Ana Francisca vai buscar o caderno onde guardou as desventuras de um lobo «velhinho e pobrezinho» que se alimentava a sopas de legumes. Não, não, não, nada disso, o grupo quer fazer uma história nova e de todos, uma história que seja dos oito. Uma história de terror, sugere alguém. «Sim, sim, sim, uma história de terror», respondem quase todos. E assim começa a nascer A Última Noite do Mundo, em que se cruzam lobisomens e lobimulheres, vampiros e vampiras, vários tipos de zombies. De repente os monstros levantam-se, ao fundo da sala não há cenário mas há teatro, a Ysabel («com i grego») e o João representam, sozinhos, o género humano acossado, assustado, encurralado. «Agora os monstros destroem tudo», propõe a Ana Francisca, «e depois fazem uma festa». Finda a festa, fartos de destruição, os monstros viram costas, regressam ao mundo deles. E depois? Meio escondida debaixo de uma mesa, como se ainda temesse os inimigos que já desapareceram, a Ysabel («com i grego») olha para o João, ali a seu lado, erguendo-se junto ao quadro de ardósia como se fosse o primeiro homem, e diz: «Depois recomeçamos.»

José Mário Silva, com Alexandre Monchique, Ana Francisca Teixeira, Aurora Gomes, Beatriz Almeida, Cátia Conceição, Joana Matos, João Alves e Ysabel Silva, alunos da Escola n.º 10 (Castelo)

Oito meninos juntos decidem contar uma história

Na Leitura Furiosa de 2010, couberam-me seis alunos do ensino básico. Na de 2011, cinco homens a quem a vida pregou rasteiras. Este ano, voltei à escola e trabalhei com oito crianças da Escola n.º 10 do Castelo (Lisboa).
Ei-las:


Cátia Conceição, 7 anos


Aurora Gomes, 7 anos


Ana Francisca Teixeira, 8 anos


Alexandre Monchique, 7 anos


João Alves, 7 anos


Beatriz Almeida, 7 anos


Joana Matos, 8 anos


Ysabel Silva, 7 anos

E a fotografia de grupo:

Nietzsche nos Anjos

O primeiro a falar foi o Adelino, Lino para os amigos. E foi o que falou menos. Escondeu o jogo. Os outros contaram em detalhe os seus problemas. O Hélder falou das temporadas no inferno por causa da droga, histórias terríveis mas que ficaram para trás («há mais de um ano que deixei a metadona, não vou arriscar outra recaída»). O Daniel explicou como é que perdeu a vista direita (uma facada) e se lhe pedisse muito mostrava-me a cicatriz que assinala o lugar por onde um dia lhe entrou uma bala. O João Miguel contou como «as drogas e a night» lhe estragaram o futuro de ponta-de-lança com jeito para marcar golos de cabeça; mais a longa peregrinação por centros de apoio e comunidades terapêuticas, em Portugal e no estrangeiro. O José Manuel lembrou um piano-bar em Nampula, durante a guerra colonial, e a experiência de emigrante em Inglaterra, numa fábrica de bacon na Cornualha, seguido de um regresso súbito a Lisboa para tratar da mãe, que depois morreu e o deixou à deriva. Apenas o Lino se fechou em copas. Houve descaminhos e «percalços» que o levaram para trás das grades, muitas vezes. Só isso. Os livros ajudavam-no a sair dali, mentalmente. Leu Hemingway, Umberto Eco, mas também os calhamaços de José Rodrigues dos Santos. «Até se comem bem», resumiu – sorriso irónico à frente das palavras, como um biombo. Estávamos os seis, eu e aqueles cinco homens a quem a vida trocou as voltas, na cave do Centro de Apoio Social dos Anjos, em Lisboa, também conhecido como «a sopa dos pobres». Começávamos assim mais uma “Leitura Furiosa”, iniciativa que leva escritores ao encontro de leitores zangados com a leitura ou com o mundo, leitores ou ex-leitores que não têm dinheiro para os livros e que partilham as suas histórias, as suas raivas, e depois as vêem transformadas num texto que é lido numa sessão pública, com actores e músicos.
Foi só no dia seguinte, ao almoço, já o texto escrito, aprovado pelo grupo e ilustrado por um escultor, que Lino se expôs um pouco mais. Cenário: um restaurante na Mouraria. Sopa de entulho, pataniscas, língua de vaca, vinho carrascão. O João Miguel explicava que em alguns dos centros por onde passou havia uma componente religiosa, católica, muito forte. «Eu cá não me sujeitava a nada disso», replicou o Lino, «a mim não me fazem lavagens ao cérebro nem me chateiam com beatices». E de repente, virando-se para mim: «Já leu Nietzsche? Eu agora queria mesmo é ler Nietzsche.» Estive tentado a dizer que o Nietzsche não se come tão bem como o Rodrigues dos Santos, mas calei-me. O Lino tímido da véspera dera lugar a um Lino afirmativo. «E o Joyce? Conseguiu ler o Ulisses? Olhe que eu não. Esforcei-me, aguentei umas 50 páginas, mas depois larguei. Não tinha pedalada para aquilo. Acho que ele não precisava de ser assim tão complicado, tão obscuro. Do que eu gostei mesmo foi do outro Ulisses, do verdadeiro, o da Odisseia, o do Homero. Li tudo de uma ponta à outra. Que maravilha.»
Apeteceu-me reescrever o texto, começar de novo. Mas suspeito que o Lino não gostaria da aura de intelectual. A sua luta é outra. Sobreviver, seguir em frente, manter-se de pé. À tarde, fomos à Feira do Livro. Havia sol, calor, milhares de pessoas a deambular entre os pavilhões e as praças coloridas. No túnel da Babel, o Lino parou em frente dos livros de capa verde da Guimarães. Lá estava Nietzsche: Assim Falava Zaratustra; Para Além do Bem e do Mal; A Gaia Ciência. Cada volume a três euros. Senti o impulso da generosidade mas contive-me (nada de paternalismos). Lino sabe que pode requisitar Nietzsche nas bibliotecas públicas. Expliquei-lhe quais as mais próximas dos Anjos (onde, além de fazer fila para as refeições gratuitas, também dorme). No dia seguinte, reencontrámo-nos os seis na Casa da Achada. Ouvimos as palavras deles e as minhas, ditas em voz alta. Não os voltei a ver. Mas agora, sempre que passo em frente da igreja dos Anjos, recordo este aforismo escrito em alemão há mais de um século: «E se tu olhares muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também olhará para dentro de ti.»

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

Ecos da ‘Leitura Furiosa’

Ontem à tarde, os textos da Leitura Furiosa 2011, tanto os escritos em Lisboa como os escritos no Porto e em Amiens, foram lidos na Casa da Achada por um grupo de actores, de que fizeram parte Antonino Solmer, Diogo Dória, Elisabete Piecho, Inês Nogueira, Joana Craveiro, Maria Gil e outros.
Apesar da captação de som imperfeita, aqui vos deixo o momento em que Dois Círculos foi lido a cinco vozes:

Logo depois, o Pedro Rodrigues e a Diana Dionísio (também conhecidos como Pedro e Diana) aproveitaram duas frases do texto («À volta, cinco homens com marcas no corpo e na memória: rugas, cicatrizes, tatuagens, histórias de rasteiras que a vida prega»; «Sempre fiz tudo ao contrário») para comporem e cantarem uma bela canção, com acompanhamento de tambor e concertina:

‘Leitura Furiosa’ (quando a ilustração de um texto é uma pequena escultura)

A partir de Os dois círculos, o artista Zé d’Almeida criou uma ilustração 3D. Ou seja, aquilo a que se costuma chamar uma escultura, neste caso em barro, com arames:

Dois círculos

Eis o texto que resultou da conversa, sexta-feira de manhã, no Centro de Acção Social dos Anjos, em Lisboa, com o Adelino, o Hélder, o Daniel, o José Manuel e o João Miguel:

DOIS CÍRCULOS
Assim juntas, as mesas circulares formam um oito, ou então o símbolo do infinito (depende). À volta, cinco homens com marcas no corpo e na memória: cicatrizes, tatuagens, rugas, histórias de rasteiras que a vida prega, «percalços» a que não se quer voltar, nem no tempo suspenso de uma conversa. Dos cinco, o mais reservado é o Lino, o Adelino que hoje faz 50 anos e sorri muito quando todos o cumprimentam («então não dizias nada, pá?») mas depois se fecha em copas. O sonho de ser médico não passou disso mesmo: um sonho. «Sempre fiz tudo ao contrário.» A escola deixada a meio, os descaminhos, as muitas detenções. Atrás das grades, os livros que ia buscar à biblioteca foram importantes: «Ajudavam-me a sair dali, a evadir-me dentro da cabeça.»
Para Hélder, a libertação não foi a leitura, mas a escrita. Há uns anos, a psicóloga das Taipas que o salvou do abismo das drogas, uma rapariga que conhecia desde a infância em Benfica, ali para os lados do Califa, pediu-lhe que pusesse no papel a sua vida e ele escreveu-a, com o seu lado negro, os remorsos, todas as dores. Lá recapitulou a história do pai que era pasteleiro em Luanda e vendia bolos num raio de 400 quilómetros, até ao dia em que teve de voltar para Portugal e deixou tudo, e perdeu tudo, casa, carro, negócio, tudo, tudo. História parecida, a do filho, a dele próprio, mas sem o fim do império como desculpa: «Houve uma altura em que eu era electricista durante o dia e vendedor da TVCabo à noite, nunca ganhei tanto dinheiro, tinha um apartamento em Santo António dos Cavaleiros, mulher, automóvel, e num mês foi-se tudo, num mês perdi o que levou anos a construir.» A psicóloga das Taipas salvou-o, há um ano que nem sequer precisa de metadona, mas as doenças arruinaram-lhe o corpo. «Aos 39 anos, estou reformado por invalidez.» Não é preciso dizer mais nada.
No trajecto de Daniel, 42 anos, há uma mistura de Lino e Hélder: prisões e drogas. Em miúdo, jogava futebol na Praça da Alegria, partia vidros e imaginava-se centrocampista do glorioso SLB. Ainda calçou as chuteiras no Casa Pia e no Oriental, mas ficou-se pelos juniores. Aos 17 anos, a vida inclinou-se para o lado pior e «nem vale a pena entrar por aí», pois nunca passaremos da ponta do icebergue. Ao bafo da morte, conhece-o bem: perdeu a vista direita com uma facada, já levou um tiro, já esteve em coma devido a uma pneumonia. E sabe que o destino prega partidas irónicas. Filho de pai ausente, em pai ausente se tornou. Há 22 anos, era funcionário da Santa Casa, nas oficinas de carpintaria; hoje, é «cliente» das refeições que a Santa Casa serve nos Anjos, no lugar a que em tempos se chamava «sopa dos pobres».
O futebol também foi o futuro não cumprido do João Miguel, 47 anos. Nas camadas jovens, chegou a jogar no Sporting e no Benfica. Depois seguiu como semi-profissional no Odivelas (no tempo em que lá estava o Oceano) e em equipas dos distritais. Era ponta-de-lança, sempre na frente, um fartote a marcar golos de cabeça. A cabeça que infelizmente lhe faltava para o resto. Com os olhos brilhantes, resume: «A droga e a night estragaram-me a vida.» A família tentou curá-lo, mas ele fugia sempre dos centros de reabilitação, mal começava a ressaca. Passou por Espanha, pela Áustria, pela Suíça, pela Alemanha. Tem pena de não ter ficado em Zurique, onde se entusiasmou a tratar de um jardim. Em vez disso, voltou para Portugal. Foi escriturário-dactilógrafo no Hospital Pulido Valente e segurança no Metro. Está desempregado desde Janeiro, ainda com esperança de que as coisas mudem. Aponta para os companheiros de mesa: «Do que a gente precisa todos é de arranjar trabalho.»
José Manuel, o mais velho dos cinco, faz que não com a cabeça. Por ele, prescinde de mais trabalho. Basta-lhe o consolo das refeições quentes e alguma companhia. Aos 50 anos, quando emigrou para Inglaterra, sentia-se com 40. «Agora, com 62, é como se tivesse 70.» A morte da mãe, que acompanhou na doença final, deitou-o abaixo. Mas a memória ainda funciona. Lembra-se do primeiro emprego, aos 14 anos, numa companhia de seguros. Lembra-se de ser dispensado da fábrica de bacon, na Cornualha, com muitos outros, e do curso de mecânica automóvel que fez logo a seguir. Lembra-se da comissão em África, Moçambique, de 1971 a 1973, no destacamento de Fotografia e Cinema, a revelar filmes que mostravam cenas das evacuações em combate, mortos e feridos a entrarem nos helicópteros. Lembra-se do Bagdade, o piano-bar de Nampula, onde se bebiam copos no meio da guerra e o pianista não era nada mau. Lembra-se dos livros que nunca deixou de ler (Eça de Queirós, Soeiro Pereira Gomes, Jorge Amado, José Cardoso Pires). Lembra-se dos discos que ouvia no seu estúdio minúsculo, lá em terras de Sua Majestade (música clássica e muito jazz, sobretudo bebop, Coltrane, Charlie Parker, Gillespie, Miles Davis). Ao contrário dos outros, nunca sucumbiu ao apelo das drogas, essa escura maldição. Ao álcool, sim, sempre ajuda a adormecer à noite, «mas sem abusos».
No relógio, os ponteiros unem-se sobre o 12. É hora de almoço, arrastam-se cadeiras. Afastadas, as mesas voltam a ser só dois círculos numa sala vazia. Uma sala que se fecha, com estas histórias lá dentro, a pairar.

Cinco vidas à volta de uma mesa (aliás, de duas)

Em 2010, a Leitura Furiosa levou-me a uma escola do ensino básico, onde encontrei estes meninos e as histórias que juntei no respectivo texto. Este ano, coube-me o Centro de Apoio Social dos Anjos (a que muita gente ainda chama «sopa dos pobres»), onde ouvi cinco narrativas de percursos e «percalços», contadas por homens a quem a vida de alguma maneira pregou rasteiras, quando não foram eles a pregarem-nas a si mesmos.


Adelino, 50 anos (exactos, feitos hoje)


Hélder, 39 anos


Daniel, 42 anos


João Miguel, 47 anos


José Manuel, 62 anos

‘Leitura Furiosa’


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De amanhã até domingo, entro em modo furioso.

Os ‘meus’ meninos (Leitura Furiosa 2010)

diogo
Diogo, 11 anos

isabel
Isabel, 7 anos

erica
Érica, 9 anos

mario
Mário, 8 anos

daniela
Daniela, 10 anos

willian
Willian, 10 anos

Os seis juntos (e o Mário com o balão vermelho verdadeiro na boca):

grupo

O balão vermelho

E à tarde lá se ouviram, na Casa da Achada, as prosas vindas de quatro pontos do mundo. Realidades terríveis, as retratadas nos textos de Amiens e Kinshasa (muita violência, muitos abusos, muito negrume). Mais solares os contributos portugueses. Pela minha parte, fiquei contente por ouvir o meu texto dito (e que bem dito) pelo Diogo Dória, grande actor, além de cantado em parte (e que bem cantado) pela maravilhosa dupla Pedro e Diana.
Para quem não foi à Mouraria, deixo aqui o texto:

UM BALÃO VERMELHO, SEM FITA-COLA

Difícil é começar, já se sabe. E nós estamos sentados em semicírculo: o Diogo, tuba às fatias na t-shirt; a Isabel das tranças tão perfeitinhas; a Érica de óculos azuis na cara redonda; o Mário deitado no chão, com os pés no ar; a Daniela das pulseiras rosa shock no braço esquerdo; o Willian, com n, assim chamado porque o pai gosta dos «actores dos filmes» (a mãe preferia Felipe, depois resignou-se). E agora? Difícil é começar, ai pois é, pôr uma palavra a seguir à outra, mas entretanto já começámos, os dois mais velhos assumem que são maus leitores, não gosto, não gostamos, fartam-se depressa, o Willian e o Diogo, dez minutos, uma hora, dois capítulos, «aquilo torna-se chato», «estar atento dá-me sono», os mais pequenos encolhem os ombros, com eles não é bem assim, mas deixemos isso para trás. Deixemos isso para trás porque de repente, agora, há histórias a nascer no centro do semicírculo, do recreio cada criança prometeu trazer uma na cabeça, depois dos saltos no pátio de cimento, depois das correrias por baixo dos telhados de zinco, e elas aí estão, as histórias, atropelando-se. A do Mário cabe inteira numa frase: um menino tem medo do escuro, na casa há duas camas, é na da mãe que a escuridão menos assusta. Chegada a sua vez, a Daniela esquece-se do que ia contar, depois já se lembra, mas quando vai contar varre-se tudo de novo, o que não se varre é a memória de umas férias que passou na Alemanha com a irmã mais velha («ela tem 24 anos»), duas semanas em Hamburgo, tal como a Isabel não esquece o dia em que o pai chegou de Espanha, onde estava a trabalhar, e trazia roupas para ela, sapatos para ela, tantas coisas e ainda pastilhas elásticas com sabor a maçã. A história do Willian parece um sonho: há um menino que pega num balão e tenta enchê-lo, sopra, sopra, sopra, mas não consegue porque o balão está furado, até que ele encontra o furo e tapa-o com fita-cola, volta a soprar e o balão enche-se, é um balão vermelho, muito cheio de ar e o menino brinca com ele como se fosse uma bola de futebol. Na história do Diogo há um peixe que tem medo do mar, coisa complicada porque é no mar que ele vive, imaginem o que seria termos medo do oxigénio que respiramos, então um dia uns mergulhadores apanham-no («como no Nemo», lembra a Érica), levam-no e deitam-no ao rio, por ser demasiado pequeno, e ele fica no rio porque da água doce não tem medo (talvez o problema estivesse no grau de salinidade, penso eu), o peixe vê então um menino na margem a construir uma casa com pedras e folhas, dá um salto na água para chamar a atenção e à terceira o menino ouve, vira-se e pergunta-lhe «de onde vieste?», «do mar» responde o peixe, o menino arranja-lhe um aquário na casa feita de pedras e folhas, o peixe aceita ficar com o menino mas diz-lhe: «não expliques é aos teus pais que eu sei falar». Entretanto as cadeiras ficaram vazias, cresce o barulho lá fora, a Érica atrapalhou-se com a história de um menino que gostava de ficar sozinho, a Isabel ri-se muito, a Daniela fala da Shakira e o Mário levantou-se e tem na boca, vindo não sei de onde, um balão, um balão vermelho, um balão vermelho verdadeiro, um balão vermelho verdadeiro que se enche de ar e não está furado, um balão vermelho verdadeiro que se enche de ar e não precisa de fita-cola, um balão vermelho verdadeiro que incha como uma palavra demasiado grande para a nossa boca, uma palavra daquelas que é preciso ir ver ao dicionário e de repente o ar sai todo de uma vez, um som esquisito, um pffffffffff, o som de uma coisa que se esvazia, como as histórias quando já não conseguem ir mais longe ou os textos que se perdem no ar sem ponto final

Lembrete

Cartaz_LeituraFuriosa

Os frutos da Leitura Furiosa 2010 são partilhados esta tarde, a partir das três, na Casa da Achada. As fotos do dia de ontem podem ser vistas aqui.

‘Leitura Furiosa’

leitura_furiosa

Até domingo, vou andar pelo meio de gente «zangada com a leitura», a ouvir histórias, a escrever um texto, a visitar uma livraria, a espreitar outras histórias que outros grupos hão-de contar a outros escritores, em Lisboa, no Porto, em Amiens e em Kinshasa. Até domingo, para mim a leitura (o meu vício, o meu ofício) vai ser furiosa, a ver se contamina quem dela nada quer ou nada espera.
Este ano, couberam-me seis crianças de uma escola perto do Castelo. O Armando Silva Carvalho vai estar com os sem-abrigo da Almirante Reis, o Jaime Rocha com idosos da Mouraria e o Jacinto Lucas Pires com idosos de S. Cristóvão e S. Lourenço, o Miguel Castro Caldas com estrangeiros refugiados (algures na Bobadela), a Filomena Marona Beja e o Raul Malaquias Marques com crianças do primeiro ciclo (como eu), o Mário de Carvalho com adolescentes do antigo Liceu Gil Vicente.
No domingo, às 15h00, na Casa da Achada, os textos e os desenhos criados entre hoje e amanhã serão lidos, cantados, exibidos a quem os quiser ver e ouvir, juntamente com os que chegarão das outras cidades em que a Leitura Furiosa acontece.
Tentarei que parte desta energia também alcance, ainda não sei bem como, este blogue.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges