O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (8)

Eufórica com o Nobel atribuído a um dos escritores que adora («ainda por cima, um homem lindo»), a Ana Cristina Leonardo, crítica literária do Expresso, fumadora inveterada e blogger saudavelmente selvagem (cf. aqui), respondeu finalmente ao desafio que lhe lançámos:

«Para ir directa ao assunto, e sem délicatesse (a tal que lixou o Rimbaud). No fundo, a pergunta a que o José Mário Silva me pediu que respondesse é esta: o que é que lês quando não te pagam para ler?
Ora bem. Atendendo aos baixíssimos valores de mercado da leitura crítica, diria que leio mais ou menos o mesmo do que quando me pagam para ler (salvo as raríssimas excepções em que, exceptio regulam probat, num impulso messiânico de salvação das letras, encho os pulmões de altruísmo e me proponho zurzir em coisas ilegíveis, o que também me acontece).
Na realidade, gostaria de poder responder, com Wilde, «I never read a book I must review, it prejudices you so». Não seria verdade, e «só a verdade é revolucionária», como terá um dia jurado a pés juntos Vladimir Ilitch Lenin, um autor que deixei de frequentar muito antes do João Carlos Espada se ter convertido ao charme (neoliberal) do countryside.
Deixando de me armar em engraçadinha e indo, agora sim, directa ao assunto, respondo que, pro bono, digo, à borla, as últimas coisas que li, ou reli (esse sim, o maior prazer que se retira da possibilidade de fugir ao ritmo frenético dos escaparates…) foram:


O que diz Molero, de Dinis Machado (Bertrand)


O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame (Tinta da China)


O Delfim, de José Cardoso Pires (Dom Quixote)


Bouvard et Pécuchet (Gustave Flaubert, Livre de Poche, mas pode ser descarregado gratuitamente aqui)


The Yiddish Policemen’s Union, de Michael Chabon (HarperCollins)

E agora ando-me a babar pel’ A Faca Não Corta o Fogo – Súmula & Inédita do Herberto Helder, pelo qual já passei os olhos. Confirmei o que sabia: ainda há grandes poetas, e ainda há grandes poetas que gostam de mulheres.»

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (7)

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Osvaldo Manuel Silvestre (Professor de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Coimbra e colaborador do blogue Os Livros Ardem Mal):

«”As férias ideais deveriam ser, no que toca à leitura, um tempo descomprometido em que se lesse pelo prazer de ler”. Este é, pelo menos, o grande mito romântico da leitura estival, geralmente traduzido em coisas leves (policiais, romances de aventuras, etc.) ou pesadas (os calhamaços). Como acredito na esterilidade da oposição entre leitura descomprometida e leitura “com programa”, a questão não me preocupa. Lembro-me sempre, a este propósito, de uma pergunta que um dia uma repórter (Maria João Avillez?) fez a Fernando Mamede: “Gosta de correr?” Mamede ficou interdito, pois a questão nunca lhe tinha ocorrido: corria porque não conseguia viver sem o fazer, e era tudo. Como também não consigo viver sem ler ou escrever, a questão é-me secundária: que leia um livro porque simplesmente um impulso sem amanhã me levou a fazê-lo, ou que o faça porque o livro se inscreve nos meus interesses (profissionais, até), obsessões ou compromissos, é-me irrelevante. A única coisa que para um leitor não é irrelevante, creio, é a falta de tempo. Ora, como em princípio nas férias há mais tempo – embora sempre menos do que nesse paraíso dourado da leitura que são as “férias grandes da adolescência” –, o leitor sente-se em casa nesse interregno laboral que lhe permite dedicar-se ao seu vício. Passo então a enumerar alguns dos livros que li nestas férias (opto por não referir os mais propriamente académicos).

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Comecei-as a ler O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, na magnífica tradução de João Barrento. Tinha-o lido há muito e aproveitei o pretexto da nova edição para voltar à obra, que me confirmou na ideia de que a noção de literatura de que ela se alimenta é hoje uma coisa infelizmente do passado (noutra versão um tanto diferente, poderia dizer que é minha convicção que não há hoje um Musil, e seguramente que não há um Musil na Europa). Um passado glorioso, o de Joyce, Proust, Pessoa, Beckett, etc., sem par hoje. Ao ler o livro, apercebi-me de que, como outras grandes obras (o Livro do Desassossego, por exemplo), é um livro que em rigor só se relê. Ou seja, é impossível lê-lo sem que sejamos de imediato arrastados para o espaço labiríntico da releitura. A sua própria organização, em capítulos que são blocos autonomizáveis no seu devir ensaístico, pede paragem, retrocesso, regressão, demora, reflexão e releitura sem fim. Fico a desejar que o volume III demore a sair, para poder reler durante muito tempo estes dois, ou partes deles.

Li também os volumes da série ‘O Bairro’ de Gonçalo M. Tavares que ainda não conhecia, e confirmei duas coisas: o seu parentesco com a linha genealógica moderna que tem em Musil uma figura patriarcal; e que, de entre os ficcionistas novos, Gonçalo é o único que vale a pena ler, talvez com Alexandre Andrade.

Li e reli, ou ao contrário, os últimos, e excelentes, livros de poemas de Bénédicte Houart, Vida: Variações, e de Daniel Jonas, Sonótono, que, juntamente com Luís Quintais, são os poetas portugueses abaixo dos 40 cuja leitura mais me mobiliza.

Comecei ainda a leitura de um livro que espero não tenha fim: Borges, de Adolfo Bioy Casares, editado em 2006. São 1664 páginas nas quais Bioy Casares registou, ao longo de 40 anos, todos os seus encontros com Borges. Como o próprio sugere, há algo do labor de Boswell, na Vida do Dr. Johnson, neste empreendimento tão impúdico como revelador de uma amizade rara. Para quem ama a obra de Borges, e a de Bioy, este livro – de magnífica factura, manejável e leve, apesar de grossíssimo – é mais do que obrigatório: porque é um breviário, um livro para todas as estações, um compêndio de tudo o que a literatura, e em especial a literatura de dois escritores tão sábios, pode dar. Chamo a atenção, no plano pessoal, para as revelações sobre a vida amorosa, e mesmo sexual de Borges, que aprendemos ser algo de distinto daquela versão “branca” que foi circulando; ou para as páginas inigualáveis sobre a morte de Borges. Não resisto a citar uma nota brevíssima desses últimos momentos: “Hasta el final [Jean-Pierre] Bernès le leyó Ulrica. Borges comentó: ‘Soy un escritor’.” (pág. 1596).

Por fim, e na sequência de uma viagem rápida ao Rio de Janeiro, comecei a ler o n.º 20, naturalmente comemorativo, da revista de poesia Inimigo Rumor, hoje editada pela 7 Letras do Rio e pela Cosac & Naify de S. Paulo. É um número admirável, sem par nas revistas de poesia em português. Do pouco que já li quero destacar as traduções de poetas franceses recentes por Carlito Azevedo. Poemas magníficos, a mostrar que há no Brasil uma atenção despreconceituosa às coisas francesas que por cá não se encontra, pois toda a gente sabe, de ciência certa, que “a poesia francesa acabou”… E ainda um magnífico ensaio de Flora Süssekind, uma das grandes ensaístas do Brasil, intitulado “Hagiografias”, sobre a obra, as lendas, a “hagiografia” que rodeia três grandes figuras da poesia brasileira dos 70: Ana Cristina Cesar, Cacaso e Paulo Leminski. Há muito mais nas quase 330 páginas da revista, que inclui até um dossiê sobre fotografia, mas, como no caso do livro de Borges, faço questão de ir lendo devagar, de preferência até que saia o próximo número.»

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (6)

António Guerreiro

António Guerreiro (crítico literário do Expresso):

«Um dos campos de reflexão teórica que mais me mobiliza é a filosofia e a epistemologia da história e as questões da relação entre memória e história. Por isso, um dos livros que levei para ler nas férias foi um dos títulos fundamentais de Reinhart Koselleck (1923-2006), aquele em que o historiador alemão desenvolve a sua teoria da semântica dos tempos históricos. Intitula-se Vergangene Zukunft (Futuro Passado) e foi publicado em 1979.

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Foi este mesmo interesse que me levou a um autor inglês da época vitoriana, pouco conhecido e mal amado pelas suas posições altamente reaccionárias: Thomas Carlyle (1795-1881). Este inclassificável escritor escocês escreveu palavras inflamadas a favor da escravatura e reflectiu em termos apologéticos sobre o culto dos heróis. Foi aliás referindo-se a esta concepção de que a história universal era a história dos grandes homens que Borges o classificou como um precursor do nazismo.

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De Thomas Carlyle, li um dos seus livros mais estranhos e mais inclassificáveis (nomeadamente quanto ao género: é um ensaio, expõe teorias, mas também tem elementos de ficção) que tem o título latino Sartor Resartus (1833). Este livro foi muito importante para o historiador de arte alemão Aby Warburg. Foi através de Warburg que cheguei a ele.»

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (5)

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Rui Lagartinho (jornalista da RTP; escreve sobre livros na revista Time Out Lisboa):

«Não tenho férias grandes: apenas grandes férias.
Para ter a certeza que assim é, na minha mala, nos últimos anos, viajam sempre livros de Alexander McCall Smith.
McCall Smith é uma fonte inesgotável: de origem escocesa, é médico forense, viveu no Zimbabwe (onde nasceu) antes de se dedicar por completo à escrita. Publicou mais de sessenta livros, repartidos em várias séries. A mais conhecida é a “Agência n.º 1 de mulheres detectives”. A heroína é Precious Ramotswe uma intuitiva e curiosa detective que abre no Botswana uma agência de investigação privada. É o retrato de algo raro: uma África que deu certo. Os livros são exóticos, ternos e positivos na sua mensagem da vida numa aldeia que nunca foi tão global.
Em Portugal, a série foi comprada pela Presença, que publicou a conta-gotas três dos dez volumes já existentes: Agência n.º 1 de mulheres detectives, As lágrimas da Girafa e Moralidade e Raparigas Bonitas.

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Mais snobish são as séries “The 44 Scotland Street” e “The Sunday Philosophy Club”. Ambas passadas em Edimburgo, são um retrato perfeito da maneira de ser e de viver dos escoceses através, no primeiro caso, do microcosmos de um prédio de uma rua onde se cruzam ambições e estilos de vida muito diversos. Cada livro da série é publicado antecipadamente, em capítulos, no jornal The Scotsman.

A protagonista da série “The Sunday Philosophy Club” é Isabel Dalhousie, filósofa, editora de uma revista de Ética Aplicada. Torna-se detective acidentalmente, quando num concerto da orquestra sinfónica um espectador cai do último balcão.




Existe ainda uma outra série, para já encerrada, estando os três volumes condensados no livro The 2 ½ Pillars of Wisdom. O herói chama-se Moritz Maria Von Igelfeld, é professor de Filologia e a sua especialidade são os verbos irregulares portugueses. É uma sátira ao mundo académico.

Como o autor é prolífico e escreve a um ritmo superior aos meus tempos livres, tenho de reserva as duas últimas entregas de “Scotland Street” e espero a ocasião de incluir no rol das compras Amazon as quatro últimas histórias passadas no Botswana e sei que a filósofa Isabel Dalhousie está de volta em Outubro.
É que tenho muito respeito pelas minhas folgas, férias, momentos de tédio ou de insolente preguiça.»

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (3)

Eduardo Pitta

Eduardo Pitta:

«Não propriamente férias, porque um escritor nunca está em férias, mas este Verão tem sido mais calmo que os últimos meses, período em que se acumularam mil compromissos, entre eles a edição das obras completas de António Botto (os dois primeiros volumes tinham que chegar às livrarias até ao fim da Primavera), e a adaptação, para crianças, de um clássico do Eça, O Crime do Padre Amaro, que vai ser posto à venda, juntamente com o Sol, no próximo sábado, dia 23.
Agora, o tempo mais solto permite voltar ao Shakespeare de Harold Bloom, o tipo de obra que não se lê de enfiada.

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O título diz tudo: afinal, A Invenção do Humano é de nós todos que fala.

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Outro em que se pode pegar ao sabor dos humores é Foucault. Dits et écrits (um compacto dos textos que o autor publicou entre 1954 e 1975) permite essa leitura desordenada.

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Com mais disciplina, porque esteve parado quase um ano, desde que o trouxe de Roma, L’eroe negato, de Francesco Gnerre, sobre o tema sempre esquivo da homossexualidade, neste caso reportada à literatura italiana de Novecentos.

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Outro que cabe no laissez-faire é Octavio Paz. Delta de Cinco Brazos lê-se com agrado, mas não explica a vela que o mexicano tem acesa em Meca desde o primeiro verso.

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Por último mas não em último, a fabulosa P. D. James, de novo às voltas com o inspector-poeta Adam Dalgliesh. Crimes e Desejos era dos poucos em que ainda não tinha metido o dente.»

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (2)

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Isabel Lucas (jornalista do Diário de Notícias e coordenadora das páginas de Livros da Time Out Lisboa):

«Não penso as férias sem grandes volumes. Os “calhamaços”, sobretudo os clássicos, mas não só, aqueles que vou sempre adiando à espera de dias mais longos, enchem parte da minha mala. Dão-me a sensação de tempo, essa ilusão de que as férias têm qualquer coisa de eterno, como um livro com muitas páginas. E há sempre mais olhos do que barriga. Para ler ou para reler… E não sei se estes chegam. Talvez abra a mala para acrescentar mais uns.

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Debaixo do Vulcão, de Malcom Lowry

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O sexto volume de Em Busca de O Tempo Perdido, de Marcel Proust

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Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

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The Diaries of Franz Kafka, de Franz Kafka

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Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (1)

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Pedro Mexia:

«Como é meu malfadado costume, trouxe para férias uma mala cheia de livros. Mas quase todos por razões de “trabalho”: críticas, crónicas, traduções e outras escritas in progress.
Dos que vieram sem nenhuma intenção especial, cito:

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The Selected Poetry of Yehuda Amichai

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Madame Bovary’s Ovaries. A Darwinian Look at Literature, de David P. Barash e Nanelle R. Barash

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L’ Hurluberlu ou le reactionaire amoureux, de Jean Anouilh

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Selected Stories, de Andre Dubus

Camilo

Os Narcóticos. 1º volume, de Camilo Castelo Branco

E daí, não se admirem se também escrever sobre estes cinco.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges