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Wisława Szymborska (1923-2012)

Prémio Nobel da Literatura em 1996, a poeta polaca Wisława Szymborska morreu ontem, em Cracóvia, de cancro. Como lembra o obituário do The Guardian, o comité da Academia Sueca chamou-lhe o «Mozart da poesia», mas com «alguma coisa da fúria de Beethoven». No discurso de aceitação do Nobel, disse: «Na linguagem da poesia, em que cada palavra é pesada, nada é usual ou normal. Nem a simples pedra, ou a simples nuvem que paira por cima dela. Nem o simples dia ou a noite que vem depois. E sobretudo, nem a simples existência, nem a existência de seja quem for neste mundo.»
A sua poesia era directa, olhava de frente para as coisas, para os gestos quotidianos, para a beleza escondida nas brechas da realidade – nunca esquecendo que a poesia é um «corrimão providencial» a que se agarram muito poucos (uma resoluta minoria), mas que ainda assim vale a pena desenhá-lo no ar, a esse corrimão, com palavras.

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

(Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves para a antologia Alguns gostam de poesia, com poemas de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, edição Cavalo de Ferro, 2004)

Rui Costa (1972-2012)

Quando soube da notícia, não tive tempo de escrever, não tive cabeça para escrever, não tive vontade de escrever. Eu conheci muito mal o Rui. Há três anos, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, conversámos durante uma viagem de autocarro. Ele estava empenhado em candidatar-se à direcção do Pen Clube e falou muito sobre os jogos de bastidores, sobre as tricas em que é pródigo o mundo literário, sobre os egos que os escritores transportam como um estandarte, para ser exibido aos outros como os galos mostram as suas cristas.
Conversámos também sobre poesia, sobre livros adiados, versos que nunca nos chegam a satisfazer e outras misérias líricas. Quando o autocarro estacionou no cimo de um monte, com vista panorâmica e o mar lá muito ao fundo, cheio de brilhos dourados, sentámo-nos em pontas opostas do restaurante e a conversa ficou a meio (era, na verdade, uma conversa que ficaria sempre a meio, por muito que a continuássemos).
Há dez dias, ao saber que o Rui estava desaparecido desde dia 5, sem fazer levantamentos no multibanco, nem dar sinal de vida nos telemóveis, temi logo o pior. Nem por isso foi menos violenta, a notícia. Lembrei-me, por exemplo, da morte do Olímpio Ferreira, muito diferente nas circunstâncias, mas com a mesma brutalidade de ver um homem tão novo (40 anos), e com tanto para dar, arrancado assim de repente ao convívio dos que o amavam. Há um buraco que se recorta no quotidiano, sempre tão cheio de prioridades que nos afastam uns dos outros, e no momento em que nos apercebemos dessa cratera, a irreversível cratera, já nada podemos fazer.
Conheci muito mal o Rui. Ignoro as histórias que se escondem por trás da história da sua morte. Prefiro não saber mais nada. Sei que durante aquela viagem de autocarro ele me pareceu um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas, e isso basta-me. O essencial ficou dito, com raiva, com o coração todo à mostra, pelo Henrique Manuel Bento Fialho (a quem roubei a fotografia do Rui), neste post.

Raúl Ruiz (1941-2011)

O cineasta chileno Raúl Ruiz morreu hoje aos 70 anos, em Paris, na sequência de uma infecção pulmonar. Em 2010, realizou Mistérios de Lisboa, um filme inspirado na obra homónima de Camilo Castelo Branco, com recepção ditirâmbica da crítica em todo o mundo.

Maria Lúcia Lepecki (1940-2011)

Morreu uma grande professora e uma grande amante da literatura portuguesa. Uma grande mulher.

Micro-obituário de Harold Bloom sobre José Saramago

Na última edição do ano passado, a revista Time disse adeus a 25 figuras que morreram em 2010, entre as quais J.D. Salinger, Dennis Hopper, Richard Holbrooke, Tony Curtis, Arthur Penn e Bobby Thomson (o jogador de basebol que foi autor do home run descrito por Don DeLillo nas páginas iniciais de Submundo). Europeus, apenas quatro: Éric Rohmer, Louise Bourgeois, Alexander McQueen e José Saramago. Eis o textinho sobre o Nobel português, assinado por Harold Bloom:

«José Saramago, whom I remember with great affection, will be a permanent part of the Western canon. He was the first Portuguese-language writer to win the Nobel Prize and is probably best known now for Blindness — an interesting antitotalitarian allegory. His many novels have astonishing variety and sensitivity and a versatile range that embraces tragicomedy and something close to old-fashioned quest romance.
My own favorites among his books include the darkly comic The Gospel According to Jesus Christ and the frightening Blindness. But I have more pleasure in returning to his deeply comic works, such as The Stone Raft, The History of the Siege of Lisbon and, most of all, The Year of the Death of Ricardo Reis.
In all of his wonderful meditations upon the ruefulness of our lives, there is always the spirit of laughter beckoning us in the art of somehow going on. His achievement is one of the enlargements of life.»

Carlos Pinto Coelho (1944-2010)

Era um jornalista à antiga, de voz colocada e entusiasmo contagiante. A cultura, para ele, era uma festa e por isso festejava-a, soletrando muito bem as palavras, como que para sublinhar a matéria (os sons) de que elas são feitas. A música da língua. Cumpriu-se como jornalista à frente da equipa do Acontece, um programa que foi durante anos um importantíssimo bastião das artes na televisão pública (mesmo se imperfeito e com uma linguagem demasiado convencional). Para a rádio, meio em que se sentia particularmente bem, o Carlos entrevistou-me duas vezes. A primeira ainda nos tempos do DNJovem, quando recebeu em estúdio, gentil sem ser paternalista, alguns dos colaboradores do suplemento. A segunda há cerca de ano e meio, num estúdio quase secreto em Miraflores. Num caso como no outro, relembro a alegria e generosidade de quem encarava a divulgação cultural como um desígnio.
Há cada vez menos jornalistas assim. Há cada vez menos homens assim. E a falta que eles fazem.

Benoît Mandelbrot (1924-2010)

Morreu Benoît Mandelbrot, o matemático franco-americano que «inventou o termo fractal, para descrever objectos matemáticos fragmentados e irregulares, cuja estrutura se repete a diferentes escalas». A representação gráfica da geometria fractal dá origem a imagens de uma beleza estranha. Como esta:

Para além das projecções teóricas, não faltam objectos fractais na natureza, como as linhas costeiras ou a couve-flor, um exemplo clássico a que o próprio Mandelbrot recorreu na sua conferência TED:

Como homenagem ao grande cientista, publicarei de seguida um conto meu, incluído no livro Efeito Borboleta e outras histórias, em que Mandelbrot é evocado explicitamente.

Claude Chabrol (1930-2010)

Morreu Claude Chabrol, um dos mais prolíficos cineastas franceses, capaz do melhor e do pior quando se sentava atrás das câmaras. Dele recordo sobretudo o bisturi com que devassava as entranhas (quase sempre sombrias e sórdidas) da pequena burguesia provinciana.
Nos últimos tempos, adaptou para formato televisivo diversos contos de Maupassant, mas a paixão pela Literatura esteve sempre presente na sua vida e nos seus filmes. Em 1991, foi o autor do argumento e realizador de Madame Bovary, um filme bastante fiel ao romance original de Flaubert, com Isabelle Huppert no papel de Emma. Eis o trailer:

Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

Morreu hoje, aos 89 anos, Matilde Rosa Araújo, autora de O Palhaço Verde e dezenas de outros livros infantis. Quando recordo os meus primeiros anos de bibliófago, as palavras de Matilde estão lá, a iluminar essas memórias de um prodígio maior (a leitura). Hão-de estar sempre.

Carlos Monsivais (1938-2010)

José Saramago não foi o único grande escritor de esquerda a desaparecer nesta semana aziaga. Um dia depois (sábado), morria também Carlos Monsivais, um dos mais talentosos cronistas do México contemporâneo. Obituário de Miguel Angel Gutiérrez, aqui.

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

Politicamente, não podia estar mais distante deste escritor. Nunca consegui, aliás, ler os seus textos de pendor mais direitista e patrioteiro. Mas, para lá do António Manuel Couto Viana com cheiro a mofo, havia um poeta e ficcionista que me surpreendeu várias vezes com a sua verve, o seu arrojo, a sua ironia. É esse artista desconcertante e difícil de arrumar no cenário da literatura portuguesa que recordo no momento da sua morte.
Sendo hoje o Dia de Camões, resgato um soneto que Couto Viana escreveu sobre o autor de Os Lusíadas:

CAMÕES

Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
- Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?

João Aguiar (1943-2010)

Morreu hoje, vítima de cancro, o escritor João Aguiar. Revelado em 1984, com o romance histórico A Voz dos Deuses, nunca deixou de ter os favores do público (mais do que os favores da crítica). Cruzei-me com ele algumas vezes. Recordo a sua bonomia, uma certa delicadeza galante, os ditos de espírito por entre o fumo do cachimbo.
Há uns 20 anos, a tertúlia de quase imberbes colaboradores do DN Jovem a que eu pertencia costumava gozar com uma frase que Aguiar dissera, creio que numa entrevista: «O objectivo do escritor de ficção é imitar a fogueira à volta da qual os nossos antepassados se reuniam, para ouvir histórias» (cito de memória). Para nós, aquela era uma visão redutora da literatura. A ficção serve para muito mais do que apenas contar histórias perfeitinhas, com princípio, meio e fim.
Entretanto, deixámos de ser imberbes e alguns de nós ainda hoje gozariam com a frase (outros talvez não). A fogueira de Aguiar, essa, apagou-se. E ele já nem teve tempo de concluir um livro que andava a escrever sobre a crise de 1383-1385.

Joaquim Vital (1948-2010)

Chamaram-lhe «bom dinossauro irascível», «Orson Welles dos livros», «um príncipe de esquerda». Com a sua editora (La Différence), Joaquim Vital contribuiu decisivamente, nas últimas décadas, para a divulgação da literatura portuguesa em França. No seu caso, dizer que se trata de uma perda enorme para a cultura nacional não é uma mera figura de retórica.
Há menos de um mês, o suplemento Actual do Expresso traçou-lhe o perfil – trabalho de Daniel Ribeiro que pode ser lido, em pdf, aqui.

Fred Halliday (1946-2010)

Especialista em relações internacionais, Fred Halliday morreu esta semana, aos 64 anos, vítima de cancro. Obituários no The Guardian (aqui) e no site openDemocracy (aqui). De Halliday, a Tinta da China publicou em 2008 o livro 100 Mitos sobre o Médio Oriente, sobre o qual escrevi aqui.

Jaime Salazar Sampaio (1925-2010)

Um grande dramaturgo, quase secreto. No obituário do Público, Jorge Silva Melo considera-o «um mestre absoluto do diálogo» e Baptista-Bastos salienta a atenção especial que o autor de Madalena Lê Uma Carta dava ao teatro amador: «Ele disse-me, uma vez, que escrevia principalmente para os grupos amadores, porque não só recebia deles mais atenção, como via neles o melhor do teatro em Portugal».

Morreu José Gabriel Viegas

Eis uma notícia muito triste. Eu sabia que o José Gabriel estava doente (um cancro complicado, dos que não costumam perdoar), ele há meses que não escrevia uma das suas recensões sobre livros de História ou sobre ensaios políticos para o Actual, mas ainda assim fui apanhado de surpresa (somos sempre). Recordo bem as conversas com o José Gabriel, a sua sabedoria, a vasta cultura pressentida (nunca exibida), a patine de velho jornalista que já viu muito mas ainda é capaz de se espantar com as voltas do mundo.
Adeus, JGV.

Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

Morreu, aos 77 anos, Rosa Lobato de Faria. Foram poucas as vezes em que nos cruzámos, mas guardo dela a imagem de uma mulher delicada e inteligente, hábil com as palavras, atenta e simpática.
Mesmo depois de eu ter escrito uma recensão negativa ao seu último romance, As Esquinas do Tempo (Porto Editora, 2008), não senti da sua parte aquele calado rancor que alguns escritores fazem questão de manifestar aos críticos. Era, para usar a expressão de Eduardo Pitta, uma verdadeira «Senhora». E é assim, julgo, que será lembrada.

J. D. Salinger (1919-2010)

Morreu Jerome David Salinger, o mais recluso dos artistas reclusos, criador de Holden Caulfield, personagem bigger than life que foi uma espécie de matriz literária para sucessivas gerações de adolescentes norte-americanos. A primeira frase do romance mais célebre de Salinger, The Catcher in the Rye (1951), começa assim: «If you really want to hear about it (…)» Milhões de leitores em todo o mundo, e em muitas línguas, quiseram (e continuam a querer) «hear about it».
Obituários: The Guardian (escrito por Mark Krupnick, que morreu em 2003), The New York Times, The Washington Times, The L.A. Times, Slate, Salon. O New York Times fez ainda uma infografia com um mapa que permite acompanhar as deambulações de Holden Caulfield por Manhattan.

Pina Bausch (1940-2009)

Morreu Pina Bausch. A grande coreógrafa, a inventora de gestos, a mulher que revolucionou a dança-teatro, tudo isso. Mas eu só me consigo recordar, agora, do seu corpo-ruína, percorrendo em cima do palco um labirinto de cadeiras, nesse Café Müller de há um ano, no São Luiz, em que foi fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso.
Desceu hoje um silêncio insuportável sobre Wuppertal. E sobre o mundo.

Mario Benedetti (1920-2009)

Morreu o escritor uruguaio Mario Benedetti, «poeta do compromisso, do amor e da alegria», como é definido por Juan Cruz, no obituário do El País. Noutro texto, muito breve, José Saramago considera-o «um amigo, um irmão».
Em Portugal, a Cavalo de Ferro publicou dois dos seus romances: A Trégua e Obrigada pelo Lume.
Neste vídeo, excertos de uma entrevista ao canal Telesur:

J.G. Ballard (1930-2009)

Morreu o mestre das distopias tecnológicas, um dos poucos escritores que se atreveu a explorar os limites mais sombrios da condição humana.
Obituários na imprensa britânica: The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent, The Times.

John Updike (1932-2009)

Morreu um dos grandes da literatura norte-americana contemporânea (um dos grandes a quem o adjectivo grande assentava de facto bem), autor prolífico, vencedor de dois Pulitzer, mas não do Nobel (acontece aos melhores).
«His style was one of compulsive and unstoppable vividness and musicality. Several times a day you turn to him, as you will now to his ghost, and say to yourself ‘How would Updike have done it?”», escreveu Martin Amis, no The Guardian.

João Aguardela (1969-2009)

Esta apanhou-me desprevenido. A morte aos quase 40 anos é sempre de uma violência que nos esmaga.
O João Aguardela, em palco, parecia um feixe de energia. Disso eu lembro-me. Um corpo completamente à mercê da música, do seu poder transfigurador. E é transfigurado que o recordo, quer nos tempos da permanente aceleração (Sitiados), quer nos modos mais suaves do projecto A Naifa.
Em rigor, não posso dizer que o conhecia. Meia dúzia de frases trocadas num camarim, no final de um concerto, não permitem conhecer ninguém. Mas agora que penso nesse encontro tão breve, nos bastidores do Maria Matos, em 2004, consigo ver o sorriso e o movimento do queixo, «A sério? Gostaste mesmo?», quando lhe disse que apreciara muito a canção que ele e Luís Varatojo fizeram de um poemeto meu, publicado há muito tempo na revista Bíblia.

Tereza Coelho (1959-2009)


Fotografia de Luís Vasconcelos

Nasceu precisamente 13 anos antes de mim, a 2 de Março de 1959. Ao longo dos anos, habituei-me a ler o que escrevia sobre os livros dos outros e depois a ler os livros dos outros que fazia seus (nesse minucioso, secreto e invísivel ofício que é o de editor). António Lobo Antunes, cuja obra trabalhava com desvelos maternais, nunca deixou de elogiá-la como merecia e merece.
Cruzei-me com ela poucas vezes, mas de todos esses encontros breves, e em contexto profissional, guardo a memória de uma paixão pelos livros que se sobrepunha a quase tudo o resto. Tereza Coelho era uma Leitora maiúscula, omnívora mas exigente. Se houvesse um apocalipse cultural como o previsto por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, estou certo de que se tornaria uma mulher-livro, recitando de memória uma qualquer obra maior da literatura mundial (talvez um dos romances de Marguerite Duras que traduziu com obstinado rigor).

[No Ciberescritas, Isabel Coutinho reproduz as duas páginas do obituário do Público e faz o link para uma página onde se podem ler vários depoimentos de amigos e de pessoas que a conheceram.]

José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009)


Fotografia de Margarida Ferra

Morreu o Rodrigues da Silva. Esta madrugada, vítima de um cancro. Morreu o jornalista exemplar, no activo desde 1 de Agosto de 1968 (tinha a carteira profissional n.º 161), com passagens por jornais entretanto extintos (o Diário Popular, o Diário de Lisboa, o semanário O Jornal) e uma longa permanência no Jornal de Letras, de que foi editor desde 1992 e com o qual por vezes quase se confundia. Homem atento a todos os aspectos da actividade cultural, foi um cinéfilo voraz e um leitor não menos voraz, tendo entrevistado nas últimas décadas todos os grandes escritores e cineastas portugueses. Escrevia textos longos num estilo característico, feito de encadeamentos e deambulações, entusiasmos e embirrações. Contra a mediocridade reinante, defendeu sempre a arte e os artistas que exigem, do público, não apenas tempo e atenção, mas também inteligência e sentido crítico. Nunca escondeu o seu posicionamento ideológico (à esquerda das esquerdas convencionais) ou a sua insatisfação com o estado do mundo.
Morreu o Rodrigues da Silva, o camarada, o jornalista. Mas morreu também, e isso é que dói mais, o Zé Manel. O amigo atento. O incansável remetente de postais ilustrados com as palavras certas. O homem que foi uma referência para várias gerações mais novas (às vezes, muito mais novas). O professor que ensinava nas escolas secundárias, mas igualmente na mesa do café ou na redacção do jornal, e que sabia cultivar uma proximidade rara, de velho sábio e compincha. A sua principal obra, discreta e invisível como a de todos os bons editores, foi talvez essa: transmitir os fundamentos de uma ética, de um modo de estar no mundo que não passe pela resignação face ao que existe. No seu sentido mais nobre, mestre é uma palavra que lhe assentaria bem. Mas um mestre que nunca seria capaz de se assumir como tal, mais por desconfiança em relação à autoridade do que por modéstia.

Harold Pinter (1930-2008)

Na véspera de Natal, à noite, morreu Harold Pinter, um dos mais importantes dramaturgos ingleses do século XX e Prémio Nobel da Literatura em 2005. Eis o obituário do The Guardian. E eis um excerto da peça O Encarregado (The Caretaker, 1959), traduzido por Francisco Frazão:

Aston Você podia ser… o encarregado disto, se quisesse.
Davies O quê?
Aston Podia… tomar conta do sítio, se quisesse… sabe, as escadas e o patamar, os degraus da entrada, ficar de olho nisso. Arear as campainhas.
Davies Campainhas?
Aston Vou colocar algumas, lá em baixo, junto à porta da rua. Latão.
Davies Encarregado, hã?
Aston Sim.
Davies Bom, eu… eu nunca me encarreguei assim dum sítio, sabe… quero eu dizer… nunca… o que eu quero dizer é que… inda nunca fui encarregado.
Pausa.
Aston O que é que acha de ser, então?
Davies Bom, admito… Bem, ia ter de saber… sabe…
Aston Que tipo de…
Davies Pois, que tipo de… sabe…
Pausa.
Aston Bom, quer dizer…
Davies Quer dizer, ia ter de… ia ter de…
Aston Bom, eu podia dizer-lhe…
Davies É… é isso… percebe… tá-me a compreender?
Aston Quando chegar a altura…
Davies Quer dizer, é aí que eu quero chegar, percebe…
Aston Mais ou menos exactamente o que é que…
Davies Percebe, o que eu quero dizer… onde eu quero chegar é… quer dizer, que tipo de tarefas…
Pausa.
Aston Bom, há coisas como as escadas… e as… as campainhas…
Davies Mas ia ser coisa para… não ia… ia ser coisa para uma vassoura… não é?

Neste diálogo está, parece-me, a essência do que foi o teatro de Pinter. As famosas pausas. A conversa que se enrola sobre si mesma e não vai dar a lado nenhum. As frases interrompidas, partidas ao meio, atropeladas. As personagens que não sabem muito bem o que esperar dos outros (e de si mesmas). A interacção humana como coisa imperfeita, mal acabada, dúbia, frágil, indiscernível. E, também por isso, assustadora e comovente.

António Alçada Baptista (1927-2008)


Fotografia: Adriano Miranda (Público)

Morreu hoje, aos 81 anos, o autor de Os Nós e os Laços. Hipótese de epitáfio: amou a escrita, quase tanto como as mulheres.

Rogério Mendes de Moura (1925-2008)

Morreu, ontem à noite, aos 83 anos, o fundador da Livros Horizonte e decano do mundo editorial português. No site da APEL, associação a que Mendes de Moura presidiu entre 1972 e 1974, podem ser lido testemunhos de editores que o conheceram bem.

Acácio Barradas (1936-2008)

Conheci o Acácio no Diário de Notícias, no final dos anos 90, quando em fim de carreira assegurava, com um zelo e um rigor que já não se usam, o sempre ingrato trabalho de Agenda/Planeamento. Era um jornalista da velha guarda, no melhor sentido da expressão. Alguém que era capaz de ficar à conversa com os novatos, partilhando experiências e memórias, épicas descrições de fechos que eram só o início de noitadas boémias, queixas contra a mediocridade reinante e o abismo à beira do qual andávamos (e ainda andamos).
Como escreveu Ana Marques Gastão no obituário publicado hoje pelo DN (sem link na edição online), o Acácio era um «exímio organizador, obsessivo, perfeccionista», capaz de «gritos de fúria perante a incompetência e a negligência». Era, sobretudo, um homem íntegro. Um homem raro. Um homem desses que nos fazem cada vez mais falta.
Adeus, camarada.

Dinis Machado (1930-2008)

dinismachado.bmp

O autor de O Que Diz Molero foi-se embora hoje, discreto, de mansinho, tão ao seu jeito. Havia nele um sentido lúdico e uma desfaçatez irónica que serviam apenas para disfarçar, quando disfarçavam, o poço de melancolia que havia lá por trás. Mesmo nos seus romances policiais escritos à pressa e à americana (com pseudónimo camone e tudo), livros alimentares mas nem por isso menos dignos, mesmo nesses sucedâneos de Dashiell Hammett, inventados por um jornalista faz-tudo que papou muitos films noirs nas matinés do Bairro Alto, havia essa espécie de sombra inclinada e abrupta. Podem encontrar um exemplo neste excerto de «monólogo maynardiano» (conversa do assassino profissional Peter Maynard consigo mesmo), quase no fim do reeditado Mão Direita do Diabo (Assírio & Alvim), que li há poucas semanas e sobre o qual escrevi para o número da revista Ler que deve estar quase a chegar às bancas:

«Não estás quieto, Maynard, tens um bichinho dentro de ti, ou então é a febre, a que tens no corpo, e todas as outras febres, as de descobrires coisas que não devias descobrir porque te fazem mal, porque afinal tu és pura e simplesmente o tal rapazinho que nunca deixaste de ser, trémulo perante as coisas, eternamente desabituado de olhar a verdade de frente, e agora já velho, de cidade para cidade, olhando as paisagens que encontras quando te voltas para dentro, os lugares mais desabitados do mundo atrás dos teus olhos fechados. Merda para isto, a febre há-de passar, e então tudo será mais simples, isso de te sentires desgraçado é muito menos profundo do que parece, de resto até acho que resolvo o assunto numa penada e nunca mais penso nisso. Que esperas tu das pessoas, Maynard? Olha para ti próprio e vê lá o que vês. Não olhes, rapaz, não penses nisso, assobia, olha para as pernas das garotas, limpa a arma e segue em frente.»

O velório de Dinis Machado está a decorrer esta noite, na Igreja da Encarnação (Chiado). O funeral sai amanhã à tarde para o cemitério do Alto de S. João, onde o corpo será cremado, pelas 19h00.

Fotografia: Augusto Cabrita

David Foster Wallace (1962-2008)

O The New York Times deu hoje a notícia, sob o título “Postmodern Writer Is Found Dead at Home”. Alguns excertos do obituário:

«Mr. Wallace burst onto the literary scene in the 1990s with a style variously described as “pyrotechnic” and incomprehensible, and it was compared to those of writers including Jorge Luis Borges, Thomas Pynchon and Don DeLillo.
In a New York Times review [de Infinite Jest, o seu magnum opus, com mais de mil páginas], Jay McInerney wrote that the novel’s “skeleton of satire is fleshed out with several domestically scaled narratives and masses of hyperrealistic quotidian detail.”
“The overall effect”, Mr. McInerney continued, “is something like a sleek Vonnegut chassis wrapped in layers of post-millennial Zola.” The novel was filled with references to high and low culture alike, and at the end had more than 100 pages of footnotes, which were trademarks of Mr. Wallace’s work.
Michael Pietsch, who edited Infinite Jest, said Saturday night that the literary world had lost one of its great talents.
“He had a mind that was constantly working on more cylinders than most people, but he was amazingly gentle and kind”, Mr. Pietsch said. “He was a writer who other writers looked to with awe.”»

Mahmud Darwich (1942-2008)

darwich.jpg

Em 1998, este grande poeta palestiniano foi operado ao coração. Pouco depois, escreveu o poema Morte, venci-te. Ontem, voltou a fazer uma cirurgia cardíaca de peito aberto. E a Morte vingou-se da vitória pírrica de Darwich.

Alexander Soljenitsine (1918-2008)

Alexandre Soljenitsin

Morreu, ontem à noite, em Moscovo, de insuficiência cardíaca aguda, o epítome do escritor dissidente.

Albert Cossery (1913-2008)

Albert Cossery

Morreu o escritor da preguiça. Uma preguiça langorosa e magnífica.
Eis os parágrafos finais de dois dos seus sete romances, todos editados pela Antígona:

«Si Khalil ouve esta voz que se ergue na noite. É a voz de um povo que desperta e que cedo vai estrangulá-lo. Cada minuto que passa o separa da sua antiga vida. O futuro está cheio de gritos. O futuro está cheio de revoltas. Como represar este rio transbordante que vai submergir as cidades? Si Khalil imagina a casa desabada sob o pó dos escombros. Vê os livros aparecer por entre os mortos. Pois nem todos serão mortos. É preciso contar com eles, quando se erguerem com os seus rostos sangrentos e os seus olhos de vingança.»

[in A Casa da Morte Certa, trad. de Ana Margarida Paixão, 2001]

«Quando Samantar saiu da gruta, o sol levantava-se por cima do mar, fazendo explodir debaixo dos seus raios mágicos todas as cores da paisagem. O verde dos palmeirais, o ocre das extensões arenosas, o azul do mar, apareciam em todo o esplendor da sua frescura primitiva. Era quase um chamamento sensual, uma exortação ao amor que Samantar sentiu com uma indizível felicidade. Então, fez vaguear o olhar maravilhado por toda aquela beleza cintilante debaixo do sol, como uma oferenda àquele que simplesmente quer viver e que a ambição de um homem quase destruíra.»

[in Uma Ambição no Deserto, trad. de Sarah Adamopoulos, 2002]

Torcato Sepúlveda (1951-2008)

Torcato Sepúlveda

Ele era um jornalista, dos bons, dos que dizem as coisas que outros preferem calar. Um homem dos livros, da leitura atenta, dessa arte tão difícil que é explicar o assombro de uma página bem escrita (ou duzentas, ou mil). Cruzei-me com ele algumas vezes (inconfundíveis aquelas barbas, aquele cabelo branco, aquele perfil cervantino) mas nunca lhe falei. Imagino a dor dos amigos, a dor sem saída. Sei que era um homem, dos bons. E sei que vai fazer-nos muita falta.

Zélia Gattai (1916-2008)

Zélia Gattai

A autora de Anarquistas, Graças a Deus, viúva de Jorge Amado, morreu sábado à tarde, em Salvador da Bahia. Miguel Arcanjo Prado fez-lhe hoje o obituário, na edição electrónica do jornal Folha de S. Paulo. Um excerto:

«Nos últimos anos, Zélia foi para um apartamento e não vivia mais na velha casa, onde estão as cinzas do marido, em um recanto do jardim, debaixo da mangueira. Suas cinzas serão depositadas no mesmo lugar. Com a morte dela, no último sábado (17), a Bahia perde muito de sua graça. E o Brasil também. (…)
Zélia foi simples até quando envergou o fardão, que deixa muitos soberbos, e substituiu o marido na Academia Brasileira de Letras, na cadeira de número 23, cujo fundador foi ninguém menos que Machado de Assis e o patrono, José de Alencar. (…)
Ela costumava dizer que, dos cinco filhos de dona Angelina e seu Ernesto, era a única que teimava em viver. Guerreira, fez isso enquanto pôde. Atrevida, essa menina, diria sua mãe.»

Clarke e Claus

Durante esta semana desapareceram dois escritores muito diferentes: no estilo, nos temas e na escala das respectivas obras. O britânico Arthur C. Clarke (1917-2008) e o belga flamengo Hugo Claus (1929-2008).
O primeiro era obcecado com o infinitamente grande (os mistérios do universo) e tão visionário que inventou uma fronteira, o ano 2001, a que chegámos muito aquém do que ele imaginara. Morreu na plena posse das suas faculdades, lúcido e depois de terminar o que sabia ser o seu últimpo opus.
O segundo era obcecado pelo infinitamente pequeno (a identidade da Bélgica) e estabeleceram-lhe um objectivo inalcançado, o Nobel. Morreu na plena posse do seu livre arbítrio, porque ao ver-se destruído pela doença de Alzheimer pediu que lhe encurtassem o sofrimento através da eutanásia.

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

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«PARTÍCULA 100 — Ela (Ética)

Ela não é a beleza absoluta, mas é um indício de certeza. Ela não é a beleza relativa. É apenas o espectáculo em cena, que a inteligência oferece à beleza.»

[in Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim, 2007; a fotografia é da Fátima Rolo Duarte (incluída neste portfolio) e foi publicada no blogue Espaço Llansol, da Associação de Estudos Llansolianos, com sede em Colares]

Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

Alain Robbe-Grillet, por Roch C. Smith

Morreu Robbe-Grillet, um dos “pais” do Nouveau Roman, o que quer dizer que o Nouveau Roman ficou apenas um pouco mais órfão do que já estava. Pierre Assouline, no seu blogue, chamou-lhe «grand bourgeois marginal» e lembrou alguns aspectos paradoxais da morte de quem não chegou a ser imortal:

«Par un étrange paradoxe, alors qu’elle affronte une pénurie de candidats de qualité conjuguée à un taux de mortalité inquiétant, c’est bien la première fois que l’Académie française respire en apprenant la disparition de l’un de ses membres. Celui-ci ayant refusé depuis son élection il y a plusieurs années de se soumettre à ses rituels (port de l’épée et de l’habit, discours préparé etc), sa réception se fait attendre. Il n’aura donc jamais été immortel.»

Luiz Pacheco (1925-2008)

Luiz Pacheco

Morreu o Pacheco. O escriba sem medo, o maldito, o bendito, o sacripanta, o pelintra, o míope, o desbocado, o crava, o madraço, o arrasa-livros, o salva-livros, o editor extremoso, o pai aflito, o prosador desassombrado, o lúbrico, o chico-esperto, o espalha-brasas, o fura-vidas, o franco-atirador, o asmático que berrava, o trafulha , o remetente de cartas intermináveis e outras fúrias epistolares, o abjeccionista, o lírico inesperado, o procrastinador, o coscuvilheiro, o crítico que atirava à cara tudo o que tinha a dizer, o marginal, o amigo da onça, o polemista sem meias medidas, o hiper-lúcido, o inimputável, o português mais português de Portugal (no seu jeito malandro de oscilar entre a grandeza e a miséria).
Era um génio? Era. Génio heterodoxo e escangalhado, mas génio. Leia-se o que fez à língua portuguesa em livros como O Teodolito, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor ou Comunidade. Tratos de amante canalha, coisas milagrosas.
Quando a morte o procurou, ontem à noite, num lar da terceira idade no Montijo, das duas uma: ou lhe fez um manguito dos antigos e riu na cara dela como um alarve, ou deixou-se ir com a mansidão dos resignados mas ainda a mirar-lhe as pernas e a magicar um piropo.

PS — Ao ler o texto de Alexandra Lucas Coelho, no suplemento P2 de dia 7 de Janeiro, apercebi-me de que Luiz Pacheco morreu afinal no trajecto entre a casa de um dos filhos e o Hospital do Montijo (no domingo, partira de um take divulgado pela Lusa). Fica feita a correcção.

[Foto de João Francisco Vilhena]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges