Juan Gelman (1930-2014)

gelman

Apagou-se um imenso poeta argentino. Sobre ele escreveu o El País no seu obituário: «Maestro de un “oficio ardiente”, de versos que hablan del amor, la muerte y el dolor, combinó la poesía con la militancia política y su defensa de los derechos humanos. Sin embargo, desdeñaba el término de “poesía comprometida” porque creía que la ideología y la obra de un escritor estaban a menudo conectadas por canales oscuros.»
Eis o seu último poema, escrito a 28 de Outubro de 2013, já consciente do fim próximo:

VERDAD ES

Cada día
me acerco más a mi esqueleto.
Se está asomando con razón.
Lo metí en buenas y en feas sin preguntarle nada,
él siempre preguntándome, sin ver
cómo era la dicha o la desdicha,
sin quejarse, sin
distancias efímeras de mí.
Ahora que otea casi
el aire alrededor,
qué pensará la clavícula rota,
joya espléndida, rodillas
que arrastré sobre piedras
entre perdones falsos, etcétera.
Esqueleto saqueado, pronto
no estorbará tu vista ninguna veleidad.
Aguantarás el universo desnudo.

António Ramos Rosa (1924-2013)

António Ramos Rosa

PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

Juan Luis Panero (1942-2013)

panero

EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO

Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Óscar Lopes (1917-2013)

Morreu um Mestre, um homem bom, um sábio.

Joaquim Benite (1943-2012)

Estou demasiado triste para escrever sobre a morte deste homem extraordinário que fez uma coisa extraordinária: inventou um público para o teatro onde o teatro é mais necessário. Isto é, do outro lado do rio, na outra margem, na periferia da grande cidade e dos poderes instituídos. Ele fez outras coisas magníficas, mas só esta chega e sobra para dar a medida da sua importância na cultura portuguesa das últimas décadas. Lembro a voz do Joaquim, grave (de nicotina e vida vivida até ao tutano), lembro o desassombro com que falava das peças, dos actores, do mundo à sua volta. Há quase uma década, escrevi: «É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos (…) e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras». Foi sempre isso, o Joaquim. As coisas continuarão, porque tudo continua sempre. A Companhia de Teatro de Almada. O Festival. A alegria milagrosa do teatro. Mas vamos sentir tanto a tua falta.

Manuel António Pina (1943-2012)

Morreu um homem bom, um cronista certeiro, um cidadão exemplar, um dos maiores poetas da nossa língua (e um grande sportinguista). Que dia tão, mas tão, tão triste.

Eric Hobsbawm (1917-2012)

Morreu um dos mais lúcidos e argutos historiadores do século XX, aquele a que o próprio Hobsbawm chamava o «século curto» (teria começado com a I Guerra Mundial e terminado com a queda do Muro de Berlim), a «era dos extremos». Respeitadíssimo, mesmo pelos intelectuais no extremo oposto do espectro ideológico, nunca deixou de ser marxista e ainda recentemente defendeu a relevância do pensamento de Marx no cenário da crise global, pós-colapso do sistema financeiro. Vale a pena ler o obituário e os depoimentos publicados pelo Guardian.

Gerrit Komrij (1944-2012)

Já passaram vários dias sobre a morte do escritor holandês Gerrit Komrij, um homem setentrional que primeiro estranhou e depois se habituou a Portugal, observando-nos com atenção e desvelo, lá dos recantos transmontanos onde vivia desde a década de 80. O funeral acontecerá em Vila Pouca da Beira, no próximo dia 19. Em jeito de homenagem, partilho com os leitores deste blogue o comunicado de imprensa da sua editora holandesa, que Arie Pos e Fernando Venâncio traduziram «para os amigos portugueses»:

«MORREU GERRIT KOMRIJ

Também em nome da família, a editora neerlandesa De Bezige Bij informa que Gerrit Komrij faleceu ontem à noite, em Amesterdão, após um curto período de hospitalização.
Com ele perdemos um importante poeta, um autor e tradutor multifacetado, um grande estilista, um polemista mordaz e, sobretudo, um amigo querido. Gerrit Komrij foi um inspirador para gerações de poetas, escritores e jovens conquistadores dos céus, e continuará a sê-lo.
Gerrit Komrij (Winterswijk, Países Baixos, 30 de março de 1944) estreou-se em 1968 com o volume de poesia Maagdenburgse halve bollen en andere gedichten (Hemisférios de Magdeburgo e Outros Poemas), que atraiu logo a atenção pela poesia contra a corrente, rimada em formas fixas e um humor absurdista. Komrij manter-se-ia sempre fiel ao ofício de poeta. No total, publicou uma boa dúzia de livros de poesia, reunida em Alle gedichten tot gisteren (Todos os Poemas até Ontem, 2004). Em português, foi publicada a antologia poética Contrabando (Assísiro & Alvim, 2005). Sobre a secretária em Portugal deixou o volume Boemerang (Bumerangue), pronto para uma última revisão. O livro será publicado postumamente, neste outono.
Foi um crítico e colunista ímpar, compilador de antologias ‘definitivas’ de poesia neerlandesa e sul-africana, um tradutor produtivo (da obra dramática de Shakespeare, por exemplo) e autor de teatro, ensaio e romances.
Durante o ano de 1976, Gerrit Komrij foi um crítico impiedoso de televisão para o jornal NRC Handelsblad; as controversas críticas foram reunidas, em 1977, em Horen, zien en zwijgen (Ouvir, ver e calar). Enquanto crítico literário sentia afinidade com o espírito da época, de procura da verdade e sarcasmo. Nas décadas de setenta e oitenta, ganhou sobretudo fama como ensaísta, não se esquivando de qualquer tema que fosse, desde o feminismo à arquitetura. Também aqui, o seu estilo mordaz mostrou-se a sua arma mais importante. Os ensaios foram reunidos em, entre outros títulos, Heremijntijd (Minha Nossa, 1978), Papieren tijgers (Tigres de Papel, 1978), Averechts (Avesso, 1980), Het boze oog (O Mau Olhado, 1983), Humeuren en temperamenten (Humores e Temperamentos, 1989), Met het bloed dat drukinkt heet (Com o Sangue chamado Tinta, 1991), Morgen heten we allemaal Ali (Amanhã, todos nos chamamos Ali, 2010) e Kunstwonderen (Milagres Artificiais, 2011).
Em 1980, publicou o primeiro romance (autobiográfico), Verwoest Arcadië (Arcádia Destruída). Seguiram-se os romances Over de bergen (Atrás dos Montes, 1990; trad. portuguesa ASA, 1997), Dubbelster (Estrela Dupla, 1993), De klopgeest (O Poltergeist, 2001), Hercules (Hércules, 2004) e De loopjongen (O Moço de Recados, 2012).
Extremamente bem conseguidas e influentes foram as suas colossais antologias poéticas, nomeadamente De Nederlandse poëzie van de 19de en 20ste eeuw in duizend en enige gedichten (A Poesia Neerlandesa dos Séculos XIX e XX em mil e um poemas, 1979) e De 21ste eeuw in 185 gedichten (O Século XXI em 185 poemas, 2010). Hilariante é a sua antologia caprichosa Kakafonie. Encyclopedie van de stront (Cacafonia. Enciclopédia da Merda, 2006).
Komrij ganhou muitos prémios, entre os quais o prémio nacional P.C. Hooft 1993 pelos seus ensaios e o Mocho Dourado (Gouden Uil) 1999 pelo volume de ensaios poéticos In Liefde Bloeyende (Florescendo em Amor). Em 2000, foi-lhe concedido o doutoramento honoris causa da Universidade de Leiden.
De 2000 a 2004, foi o primeiro poeta laureado neerlandês, papel que desempenhou com muito brilho.
Gerrit Komrij viveu em Amesterdão até 1984, ano em que se mudou para Portugal, que evocou magistralmente em Een zakenlunch in Sintra (Um Almoço de Negócios em Sintra, ed. portuguesa ASA, 1999), Atrás dos Montes e Vila Pouca (2008), título nomeado para o prémio Gouden Uil 2009.
Durante décadas, Gerrit Komrij conseguiu, com a sua alegria desenfreada e perspicácia, criar movimento na paisagem literária. Ajudou a mudá-la e agora partiu dela. ‘De papel sois e a papel voltareis.’ (De: Da Capo, Morgen heten we allemaal Ali).

TUDO CONTINUA

Aí se erguia uma parede em que toquei.
A parede foi demolida. O entulho
Serviu mais adiante de fundamento.
Uma árvore plantei no meu jardim.

Que foi asfaltado. A cinco metros
De fundo, a raiz contém-se, amuada.
Meio milénio se preciso. Um dia
Chega a Marte a pneumónica porque tossi.

Houve um amigo a quem escrevia,
Uma rocha onde gravei o meu nome.
Somos parte de tudo enquanto vivemos
E tudo continua quando morremos.

(de: Luchtspiegelingen [Miragens], 2001)»

Jorge Figueira de Sousa (1931-2012)

Uma notícia muito triste. Jorge Figueira de Sousa era o proprietário da Livraria Esperança, no Funchal, a segunda maior do mundo, com mais de cem mil volumes espalhados por uma espécie de labirinto. Na mais recente edição da revista Ler (Julho/Agosto), Sara Figueiredo Costa traça o perfil deste homem singularíssimo, que entre muitas outras coisas explica a original forma que encontrou de expor os livros: «A ideia de pendurar veio dessa necessidade de os expor com a capa. E um dia descobri uns ganchinhos, uma espécie de molas, que permitiam pendurar os livros com um fio, e arranjei um daqueles paus para tirar bacalhaus, das mercearias, que têm um gancho. Claro, há algumas reclamações, porque os livros podem ficar marcados, mas a verdade é que se não estivessem expostos ninguém os via nem sabia que existiam. Ou seja, a desvantagem de uma marca que o livro possa ter é muito inferior à hipótese de nunca encontrar esse livro.»
Algumas imagens (com demasiado grão) da livraria Esperança, aqui. E a crónica que escrevi sobre aquele fabuloso lugar, aqui.

Carlos Fuentes (1928-2012)

Dos três grandes nomes do boom latino-americano (os outros são Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa), foi o único a não chegar ao Nobel. Resumo biográfico aqui. A Porto Editora, que publicou recentemente o romance Adão no Éden, editará em breve dois livros do escritor mexicano ainda inéditos em Portugal: Contos Naturais e Contos Sobrenaturais. As principais obras de Fuentes, como O Velho Gringo e Aura, foram durante muitos anos publicadas pela Dom Quixote.

Wisława Szymborska (1923-2012)

Prémio Nobel da Literatura em 1996, a poeta polaca Wisława Szymborska morreu ontem, em Cracóvia, de cancro. Como lembra o obituário do The Guardian, o comité da Academia Sueca chamou-lhe o «Mozart da poesia», mas com «alguma coisa da fúria de Beethoven». No discurso de aceitação do Nobel, disse: «Na linguagem da poesia, em que cada palavra é pesada, nada é usual ou normal. Nem a simples pedra, ou a simples nuvem que paira por cima dela. Nem o simples dia ou a noite que vem depois. E sobretudo, nem a simples existência, nem a existência de seja quem for neste mundo.»
A sua poesia era directa, olhava de frente para as coisas, para os gestos quotidianos, para a beleza escondida nas brechas da realidade – nunca esquecendo que a poesia é um «corrimão providencial» a que se agarram muito poucos (uma resoluta minoria), mas que ainda assim vale a pena desenhá-lo no ar, a esse corrimão, com palavras.

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

(Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves para a antologia Alguns gostam de poesia, com poemas de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, edição Cavalo de Ferro, 2004)

Rui Costa (1972-2012)

Quando soube da notícia, não tive tempo de escrever, não tive cabeça para escrever, não tive vontade de escrever. Eu conheci muito mal o Rui. Há três anos, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, conversámos durante uma viagem de autocarro. Ele estava empenhado em candidatar-se à direcção do Pen Clube e falou muito sobre os jogos de bastidores, sobre as tricas em que é pródigo o mundo literário, sobre os egos que os escritores transportam como um estandarte, para ser exibido aos outros como os galos mostram as suas cristas.
Conversámos também sobre poesia, sobre livros adiados, versos que nunca nos chegam a satisfazer e outras misérias líricas. Quando o autocarro estacionou no cimo de um monte, com vista panorâmica e o mar lá muito ao fundo, cheio de brilhos dourados, sentámo-nos em pontas opostas do restaurante e a conversa ficou a meio (era, na verdade, uma conversa que ficaria sempre a meio, por muito que a continuássemos).
Há dez dias, ao saber que o Rui estava desaparecido desde dia 5, sem fazer levantamentos no multibanco, nem dar sinal de vida nos telemóveis, temi logo o pior. Nem por isso foi menos violenta, a notícia. Lembrei-me, por exemplo, da morte do Olímpio Ferreira, muito diferente nas circunstâncias, mas com a mesma brutalidade de ver um homem tão novo (40 anos), e com tanto para dar, arrancado assim de repente ao convívio dos que o amavam. Há um buraco que se recorta no quotidiano, sempre tão cheio de prioridades que nos afastam uns dos outros, e no momento em que nos apercebemos dessa cratera, a irreversível cratera, já nada podemos fazer.
Conheci muito mal o Rui. Ignoro as histórias que se escondem por trás da história da sua morte. Prefiro não saber mais nada. Sei que durante aquela viagem de autocarro ele me pareceu um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas, e isso basta-me. O essencial ficou dito, com raiva, com o coração todo à mostra, pelo Henrique Manuel Bento Fialho (a quem roubei a fotografia do Rui), neste post.

Raúl Ruiz (1941-2011)

O cineasta chileno Raúl Ruiz morreu hoje aos 70 anos, em Paris, na sequência de uma infecção pulmonar. Em 2010, realizou Mistérios de Lisboa, um filme inspirado na obra homónima de Camilo Castelo Branco, com recepção ditirâmbica da crítica em todo o mundo.

Maria Lúcia Lepecki (1940-2011)

Morreu uma grande professora e uma grande amante da literatura portuguesa. Uma grande mulher.

Micro-obituário de Harold Bloom sobre José Saramago

Na última edição do ano passado, a revista Time disse adeus a 25 figuras que morreram em 2010, entre as quais J.D. Salinger, Dennis Hopper, Richard Holbrooke, Tony Curtis, Arthur Penn e Bobby Thomson (o jogador de basebol que foi autor do home run descrito por Don DeLillo nas páginas iniciais de Submundo). Europeus, apenas quatro: Éric Rohmer, Louise Bourgeois, Alexander McQueen e José Saramago. Eis o textinho sobre o Nobel português, assinado por Harold Bloom:

«José Saramago, whom I remember with great affection, will be a permanent part of the Western canon. He was the first Portuguese-language writer to win the Nobel Prize and is probably best known now for Blindness — an interesting antitotalitarian allegory. His many novels have astonishing variety and sensitivity and a versatile range that embraces tragicomedy and something close to old-fashioned quest romance.
My own favorites among his books include the darkly comic The Gospel According to Jesus Christ and the frightening Blindness. But I have more pleasure in returning to his deeply comic works, such as The Stone Raft, The History of the Siege of Lisbon and, most of all, The Year of the Death of Ricardo Reis.
In all of his wonderful meditations upon the ruefulness of our lives, there is always the spirit of laughter beckoning us in the art of somehow going on. His achievement is one of the enlargements of life.»

Carlos Pinto Coelho (1944-2010)

Era um jornalista à antiga, de voz colocada e entusiasmo contagiante. A cultura, para ele, era uma festa e por isso festejava-a, soletrando muito bem as palavras, como que para sublinhar a matéria (os sons) de que elas são feitas. A música da língua. Cumpriu-se como jornalista à frente da equipa do Acontece, um programa que foi durante anos um importantíssimo bastião das artes na televisão pública (mesmo se imperfeito e com uma linguagem demasiado convencional). Para a rádio, meio em que se sentia particularmente bem, o Carlos entrevistou-me duas vezes. A primeira ainda nos tempos do DNJovem, quando recebeu em estúdio, gentil sem ser paternalista, alguns dos colaboradores do suplemento. A segunda há cerca de ano e meio, num estúdio quase secreto em Miraflores. Num caso como no outro, relembro a alegria e generosidade de quem encarava a divulgação cultural como um desígnio.
Há cada vez menos jornalistas assim. Há cada vez menos homens assim. E a falta que eles fazem.

Benoît Mandelbrot (1924-2010)

Morreu Benoît Mandelbrot, o matemático franco-americano que «inventou o termo fractal, para descrever objectos matemáticos fragmentados e irregulares, cuja estrutura se repete a diferentes escalas». A representação gráfica da geometria fractal dá origem a imagens de uma beleza estranha. Como esta:

Para além das projecções teóricas, não faltam objectos fractais na natureza, como as linhas costeiras ou a couve-flor, um exemplo clássico a que o próprio Mandelbrot recorreu na sua conferência TED:

Como homenagem ao grande cientista, publicarei de seguida um conto meu, incluído no livro Efeito Borboleta e outras histórias, em que Mandelbrot é evocado explicitamente.

Claude Chabrol (1930-2010)

Morreu Claude Chabrol, um dos mais prolíficos cineastas franceses, capaz do melhor e do pior quando se sentava atrás das câmaras. Dele recordo sobretudo o bisturi com que devassava as entranhas (quase sempre sombrias e sórdidas) da pequena burguesia provinciana.
Nos últimos tempos, adaptou para formato televisivo diversos contos de Maupassant, mas a paixão pela Literatura esteve sempre presente na sua vida e nos seus filmes. Em 1991, foi o autor do argumento e realizador de Madame Bovary, um filme bastante fiel ao romance original de Flaubert, com Isabelle Huppert no papel de Emma. Eis o trailer:

Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

Morreu hoje, aos 89 anos, Matilde Rosa Araújo, autora de O Palhaço Verde e dezenas de outros livros infantis. Quando recordo os meus primeiros anos de bibliófago, as palavras de Matilde estão lá, a iluminar essas memórias de um prodígio maior (a leitura). Hão-de estar sempre.

Carlos Monsivais (1938-2010)

José Saramago não foi o único grande escritor de esquerda a desaparecer nesta semana aziaga. Um dia depois (sábado), morria também Carlos Monsivais, um dos mais talentosos cronistas do México contemporâneo. Obituário de Miguel Angel Gutiérrez, aqui.

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

Politicamente, não podia estar mais distante deste escritor. Nunca consegui, aliás, ler os seus textos de pendor mais direitista e patrioteiro. Mas, para lá do António Manuel Couto Viana com cheiro a mofo, havia um poeta e ficcionista que me surpreendeu várias vezes com a sua verve, o seu arrojo, a sua ironia. É esse artista desconcertante e difícil de arrumar no cenário da literatura portuguesa que recordo no momento da sua morte.
Sendo hoje o Dia de Camões, resgato um soneto que Couto Viana escreveu sobre o autor de Os Lusíadas:

CAMÕES

Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
– Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?

João Aguiar (1943-2010)

Morreu hoje, vítima de cancro, o escritor João Aguiar. Revelado em 1984, com o romance histórico A Voz dos Deuses, nunca deixou de ter os favores do público (mais do que os favores da crítica). Cruzei-me com ele algumas vezes. Recordo a sua bonomia, uma certa delicadeza galante, os ditos de espírito por entre o fumo do cachimbo.
Há uns 20 anos, a tertúlia de quase imberbes colaboradores do DN Jovem a que eu pertencia costumava gozar com uma frase que Aguiar dissera, creio que numa entrevista: «O objectivo do escritor de ficção é imitar a fogueira à volta da qual os nossos antepassados se reuniam, para ouvir histórias» (cito de memória). Para nós, aquela era uma visão redutora da literatura. A ficção serve para muito mais do que apenas contar histórias perfeitinhas, com princípio, meio e fim.
Entretanto, deixámos de ser imberbes e alguns de nós ainda hoje gozariam com a frase (outros talvez não). A fogueira de Aguiar, essa, apagou-se. E ele já nem teve tempo de concluir um livro que andava a escrever sobre a crise de 1383-1385.

Joaquim Vital (1948-2010)

Chamaram-lhe «bom dinossauro irascível», «Orson Welles dos livros», «um príncipe de esquerda». Com a sua editora (La Différence), Joaquim Vital contribuiu decisivamente, nas últimas décadas, para a divulgação da literatura portuguesa em França. No seu caso, dizer que se trata de uma perda enorme para a cultura nacional não é uma mera figura de retórica.
Há menos de um mês, o suplemento Actual do Expresso traçou-lhe o perfil – trabalho de Daniel Ribeiro que pode ser lido, em pdf, aqui.

Fred Halliday (1946-2010)

Especialista em relações internacionais, Fred Halliday morreu esta semana, aos 64 anos, vítima de cancro. Obituários no The Guardian (aqui) e no site openDemocracy (aqui). De Halliday, a Tinta da China publicou em 2008 o livro 100 Mitos sobre o Médio Oriente, sobre o qual escrevi aqui.

Jaime Salazar Sampaio (1925-2010)

Um grande dramaturgo, quase secreto. No obituário do Público, Jorge Silva Melo considera-o «um mestre absoluto do diálogo» e Baptista-Bastos salienta a atenção especial que o autor de Madalena Lê Uma Carta dava ao teatro amador: «Ele disse-me, uma vez, que escrevia principalmente para os grupos amadores, porque não só recebia deles mais atenção, como via neles o melhor do teatro em Portugal».

Morreu José Gabriel Viegas

Eis uma notícia muito triste. Eu sabia que o José Gabriel estava doente (um cancro complicado, dos que não costumam perdoar), ele há meses que não escrevia uma das suas recensões sobre livros de História ou sobre ensaios políticos para o Actual, mas ainda assim fui apanhado de surpresa (somos sempre). Recordo bem as conversas com o José Gabriel, a sua sabedoria, a vasta cultura pressentida (nunca exibida), a patine de velho jornalista que já viu muito mas ainda é capaz de se espantar com as voltas do mundo.
Adeus, JGV.

Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

Morreu, aos 77 anos, Rosa Lobato de Faria. Foram poucas as vezes em que nos cruzámos, mas guardo dela a imagem de uma mulher delicada e inteligente, hábil com as palavras, atenta e simpática.
Mesmo depois de eu ter escrito uma recensão negativa ao seu último romance, As Esquinas do Tempo (Porto Editora, 2008), não senti da sua parte aquele calado rancor que alguns escritores fazem questão de manifestar aos críticos. Era, para usar a expressão de Eduardo Pitta, uma verdadeira «Senhora». E é assim, julgo, que será lembrada.

J. D. Salinger (1919-2010)

Morreu Jerome David Salinger, o mais recluso dos artistas reclusos, criador de Holden Caulfield, personagem bigger than life que foi uma espécie de matriz literária para sucessivas gerações de adolescentes norte-americanos. A primeira frase do romance mais célebre de Salinger, The Catcher in the Rye (1951), começa assim: «If you really want to hear about it (…)» Milhões de leitores em todo o mundo, e em muitas línguas, quiseram (e continuam a querer) «hear about it».
Obituários: The Guardian (escrito por Mark Krupnick, que morreu em 2003), The New York Times, The Washington Times, The L.A. Times, Slate, Salon. O New York Times fez ainda uma infografia com um mapa que permite acompanhar as deambulações de Holden Caulfield por Manhattan.

Pina Bausch (1940-2009)

Morreu Pina Bausch. A grande coreógrafa, a inventora de gestos, a mulher que revolucionou a dança-teatro, tudo isso. Mas eu só me consigo recordar, agora, do seu corpo-ruína, percorrendo em cima do palco um labirinto de cadeiras, nesse Café Müller de há um ano, no São Luiz, em que foi fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso.
Desceu hoje um silêncio insuportável sobre Wuppertal. E sobre o mundo.

Mario Benedetti (1920-2009)

Morreu o escritor uruguaio Mario Benedetti, «poeta do compromisso, do amor e da alegria», como é definido por Juan Cruz, no obituário do El País. Noutro texto, muito breve, José Saramago considera-o «um amigo, um irmão».
Em Portugal, a Cavalo de Ferro publicou dois dos seus romances: A Trégua e Obrigada pelo Lume.
Neste vídeo, excertos de uma entrevista ao canal Telesur:

J.G. Ballard (1930-2009)

Morreu o mestre das distopias tecnológicas, um dos poucos escritores que se atreveu a explorar os limites mais sombrios da condição humana.
Obituários na imprensa britânica: The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent, The Times.

John Updike (1932-2009)

Morreu um dos grandes da literatura norte-americana contemporânea (um dos grandes a quem o adjectivo grande assentava de facto bem), autor prolífico, vencedor de dois Pulitzer, mas não do Nobel (acontece aos melhores).
«His style was one of compulsive and unstoppable vividness and musicality. Several times a day you turn to him, as you will now to his ghost, and say to yourself ‘How would Updike have done it?”», escreveu Martin Amis, no The Guardian.

João Aguardela (1969-2009)

Esta apanhou-me desprevenido. A morte aos quase 40 anos é sempre de uma violência que nos esmaga.
O João Aguardela, em palco, parecia um feixe de energia. Disso eu lembro-me. Um corpo completamente à mercê da música, do seu poder transfigurador. E é transfigurado que o recordo, quer nos tempos da permanente aceleração (Sitiados), quer nos modos mais suaves do projecto A Naifa.
Em rigor, não posso dizer que o conhecia. Meia dúzia de frases trocadas num camarim, no final de um concerto, não permitem conhecer ninguém. Mas agora que penso nesse encontro tão breve, nos bastidores do Maria Matos, em 2004, consigo ver o sorriso e o movimento do queixo, «A sério? Gostaste mesmo?», quando lhe disse que apreciara muito a canção que ele e Luís Varatojo fizeram de um poemeto meu, publicado há muito tempo na revista Bíblia.

Tereza Coelho (1959-2009)


Fotografia de Luís Vasconcelos

Nasceu precisamente 13 anos antes de mim, a 2 de Março de 1959. Ao longo dos anos, habituei-me a ler o que escrevia sobre os livros dos outros e depois a ler os livros dos outros que fazia seus (nesse minucioso, secreto e invísivel ofício que é o de editor). António Lobo Antunes, cuja obra trabalhava com desvelos maternais, nunca deixou de elogiá-la como merecia e merece.
Cruzei-me com ela poucas vezes, mas de todos esses encontros breves, e em contexto profissional, guardo a memória de uma paixão pelos livros que se sobrepunha a quase tudo o resto. Tereza Coelho era uma Leitora maiúscula, omnívora mas exigente. Se houvesse um apocalipse cultural como o previsto por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, estou certo de que se tornaria uma mulher-livro, recitando de memória uma qualquer obra maior da literatura mundial (talvez um dos romances de Marguerite Duras que traduziu com obstinado rigor).

[No Ciberescritas, Isabel Coutinho reproduz as duas páginas do obituário do Público e faz o link para uma página onde se podem ler vários depoimentos de amigos e de pessoas que a conheceram.]

José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009)


Fotografia de Margarida Ferra

Morreu o Rodrigues da Silva. Esta madrugada, vítima de um cancro. Morreu o jornalista exemplar, no activo desde 1 de Agosto de 1968 (tinha a carteira profissional n.º 161), com passagens por jornais entretanto extintos (o Diário Popular, o Diário de Lisboa, o semanário O Jornal) e uma longa permanência no Jornal de Letras, de que foi editor desde 1992 e com o qual por vezes quase se confundia. Homem atento a todos os aspectos da actividade cultural, foi um cinéfilo voraz e um leitor não menos voraz, tendo entrevistado nas últimas décadas todos os grandes escritores e cineastas portugueses. Escrevia textos longos num estilo característico, feito de encadeamentos e deambulações, entusiasmos e embirrações. Contra a mediocridade reinante, defendeu sempre a arte e os artistas que exigem, do público, não apenas tempo e atenção, mas também inteligência e sentido crítico. Nunca escondeu o seu posicionamento ideológico (à esquerda das esquerdas convencionais) ou a sua insatisfação com o estado do mundo.
Morreu o Rodrigues da Silva, o camarada, o jornalista. Mas morreu também, e isso é que dói mais, o Zé Manel. O amigo atento. O incansável remetente de postais ilustrados com as palavras certas. O homem que foi uma referência para várias gerações mais novas (às vezes, muito mais novas). O professor que ensinava nas escolas secundárias, mas igualmente na mesa do café ou na redacção do jornal, e que sabia cultivar uma proximidade rara, de velho sábio e compincha. A sua principal obra, discreta e invisível como a de todos os bons editores, foi talvez essa: transmitir os fundamentos de uma ética, de um modo de estar no mundo que não passe pela resignação face ao que existe. No seu sentido mais nobre, mestre é uma palavra que lhe assentaria bem. Mas um mestre que nunca seria capaz de se assumir como tal, mais por desconfiança em relação à autoridade do que por modéstia.

Harold Pinter (1930-2008)

Na véspera de Natal, à noite, morreu Harold Pinter, um dos mais importantes dramaturgos ingleses do século XX e Prémio Nobel da Literatura em 2005. Eis o obituário do The Guardian. E eis um excerto da peça O Encarregado (The Caretaker, 1959), traduzido por Francisco Frazão:

Aston Você podia ser… o encarregado disto, se quisesse.
Davies O quê?
Aston Podia… tomar conta do sítio, se quisesse… sabe, as escadas e o patamar, os degraus da entrada, ficar de olho nisso. Arear as campainhas.
Davies Campainhas?
Aston Vou colocar algumas, lá em baixo, junto à porta da rua. Latão.
Davies Encarregado, hã?
Aston Sim.
Davies Bom, eu… eu nunca me encarreguei assim dum sítio, sabe… quero eu dizer… nunca… o que eu quero dizer é que… inda nunca fui encarregado.
Pausa.
Aston O que é que acha de ser, então?
Davies Bom, admito… Bem, ia ter de saber… sabe…
Aston Que tipo de…
Davies Pois, que tipo de… sabe…
Pausa.
Aston Bom, quer dizer…
Davies Quer dizer, ia ter de… ia ter de…
Aston Bom, eu podia dizer-lhe…
Davies É… é isso… percebe… tá-me a compreender?
Aston Quando chegar a altura…
Davies Quer dizer, é aí que eu quero chegar, percebe…
Aston Mais ou menos exactamente o que é que…
Davies Percebe, o que eu quero dizer… onde eu quero chegar é… quer dizer, que tipo de tarefas…
Pausa.
Aston Bom, há coisas como as escadas… e as… as campainhas…
Davies Mas ia ser coisa para… não ia… ia ser coisa para uma vassoura… não é?

Neste diálogo está, parece-me, a essência do que foi o teatro de Pinter. As famosas pausas. A conversa que se enrola sobre si mesma e não vai dar a lado nenhum. As frases interrompidas, partidas ao meio, atropeladas. As personagens que não sabem muito bem o que esperar dos outros (e de si mesmas). A interacção humana como coisa imperfeita, mal acabada, dúbia, frágil, indiscernível. E, também por isso, assustadora e comovente.

António Alçada Baptista (1927-2008)


Fotografia: Adriano Miranda (Público)

Morreu hoje, aos 81 anos, o autor de Os Nós e os Laços. Hipótese de epitáfio: amou a escrita, quase tanto como as mulheres.

Rogério Mendes de Moura (1925-2008)

Morreu, ontem à noite, aos 83 anos, o fundador da Livros Horizonte e decano do mundo editorial português. No site da APEL, associação a que Mendes de Moura presidiu entre 1972 e 1974, podem ser lido testemunhos de editores que o conheceram bem.

Acácio Barradas (1936-2008)

Conheci o Acácio no Diário de Notícias, no final dos anos 90, quando em fim de carreira assegurava, com um zelo e um rigor que já não se usam, o sempre ingrato trabalho de Agenda/Planeamento. Era um jornalista da velha guarda, no melhor sentido da expressão. Alguém que era capaz de ficar à conversa com os novatos, partilhando experiências e memórias, épicas descrições de fechos que eram só o início de noitadas boémias, queixas contra a mediocridade reinante e o abismo à beira do qual andávamos (e ainda andamos).
Como escreveu Ana Marques Gastão no obituário publicado hoje pelo DN (sem link na edição online), o Acácio era um «exímio organizador, obsessivo, perfeccionista», capaz de «gritos de fúria perante a incompetência e a negligência». Era, sobretudo, um homem íntegro. Um homem raro. Um homem desses que nos fazem cada vez mais falta.
Adeus, camarada.

Dinis Machado (1930-2008)

dinismachado.bmp

O autor de O Que Diz Molero foi-se embora hoje, discreto, de mansinho, tão ao seu jeito. Havia nele um sentido lúdico e uma desfaçatez irónica que serviam apenas para disfarçar, quando disfarçavam, o poço de melancolia que havia lá por trás. Mesmo nos seus romances policiais escritos à pressa e à americana (com pseudónimo camone e tudo), livros alimentares mas nem por isso menos dignos, mesmo nesses sucedâneos de Dashiell Hammett, inventados por um jornalista faz-tudo que papou muitos films noirs nas matinés do Bairro Alto, havia essa espécie de sombra inclinada e abrupta. Podem encontrar um exemplo neste excerto de «monólogo maynardiano» (conversa do assassino profissional Peter Maynard consigo mesmo), quase no fim do reeditado Mão Direita do Diabo (Assírio & Alvim), que li há poucas semanas e sobre o qual escrevi para o número da revista Ler que deve estar quase a chegar às bancas:

«Não estás quieto, Maynard, tens um bichinho dentro de ti, ou então é a febre, a que tens no corpo, e todas as outras febres, as de descobrires coisas que não devias descobrir porque te fazem mal, porque afinal tu és pura e simplesmente o tal rapazinho que nunca deixaste de ser, trémulo perante as coisas, eternamente desabituado de olhar a verdade de frente, e agora já velho, de cidade para cidade, olhando as paisagens que encontras quando te voltas para dentro, os lugares mais desabitados do mundo atrás dos teus olhos fechados. Merda para isto, a febre há-de passar, e então tudo será mais simples, isso de te sentires desgraçado é muito menos profundo do que parece, de resto até acho que resolvo o assunto numa penada e nunca mais penso nisso. Que esperas tu das pessoas, Maynard? Olha para ti próprio e vê lá o que vês. Não olhes, rapaz, não penses nisso, assobia, olha para as pernas das garotas, limpa a arma e segue em frente.»

O velório de Dinis Machado está a decorrer esta noite, na Igreja da Encarnação (Chiado). O funeral sai amanhã à tarde para o cemitério do Alto de S. João, onde o corpo será cremado, pelas 19h00.

Fotografia: Augusto Cabrita

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges