Clarke e Claus

Durante esta semana desapareceram dois escritores muito diferentes: no estilo, nos temas e na escala das respectivas obras. O britânico Arthur C. Clarke (1917-2008) e o belga flamengo Hugo Claus (1929-2008).
O primeiro era obcecado com o infinitamente grande (os mistérios do universo) e tão visionário que inventou uma fronteira, o ano 2001, a que chegámos muito aquém do que ele imaginara. Morreu na plena posse das suas faculdades, lúcido e depois de terminar o que sabia ser o seu últimpo opus.
O segundo era obcecado pelo infinitamente pequeno (a identidade da Bélgica) e estabeleceram-lhe um objectivo inalcançado, o Nobel. Morreu na plena posse do seu livre arbítrio, porque ao ver-se destruído pela doença de Alzheimer pediu que lhe encurtassem o sofrimento através da eutanásia.

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

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«PARTÍCULA 100 — Ela (Ética)

Ela não é a beleza absoluta, mas é um indício de certeza. Ela não é a beleza relativa. É apenas o espectáculo em cena, que a inteligência oferece à beleza.»

[in Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim, 2007; a fotografia é da Fátima Rolo Duarte (incluída neste portfolio) e foi publicada no blogue Espaço Llansol, da Associação de Estudos Llansolianos, com sede em Colares]

Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

Alain Robbe-Grillet, por Roch C. Smith

Morreu Robbe-Grillet, um dos “pais” do Nouveau Roman, o que quer dizer que o Nouveau Roman ficou apenas um pouco mais órfão do que já estava. Pierre Assouline, no seu blogue, chamou-lhe «grand bourgeois marginal» e lembrou alguns aspectos paradoxais da morte de quem não chegou a ser imortal:

«Par un étrange paradoxe, alors qu’elle affronte une pénurie de candidats de qualité conjuguée à un taux de mortalité inquiétant, c’est bien la première fois que l’Académie française respire en apprenant la disparition de l’un de ses membres. Celui-ci ayant refusé depuis son élection il y a plusieurs années de se soumettre à ses rituels (port de l’épée et de l’habit, discours préparé etc), sa réception se fait attendre. Il n’aura donc jamais été immortel.»

Luiz Pacheco (1925-2008)

Luiz Pacheco

Morreu o Pacheco. O escriba sem medo, o maldito, o bendito, o sacripanta, o pelintra, o míope, o desbocado, o crava, o madraço, o arrasa-livros, o salva-livros, o editor extremoso, o pai aflito, o prosador desassombrado, o lúbrico, o chico-esperto, o espalha-brasas, o fura-vidas, o franco-atirador, o asmático que berrava, o trafulha , o remetente de cartas intermináveis e outras fúrias epistolares, o abjeccionista, o lírico inesperado, o procrastinador, o coscuvilheiro, o crítico que atirava à cara tudo o que tinha a dizer, o marginal, o amigo da onça, o polemista sem meias medidas, o hiper-lúcido, o inimputável, o português mais português de Portugal (no seu jeito malandro de oscilar entre a grandeza e a miséria).
Era um génio? Era. Génio heterodoxo e escangalhado, mas génio. Leia-se o que fez à língua portuguesa em livros como O Teodolito, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor ou Comunidade. Tratos de amante canalha, coisas milagrosas.
Quando a morte o procurou, ontem à noite, num lar da terceira idade no Montijo, das duas uma: ou lhe fez um manguito dos antigos e riu na cara dela como um alarve, ou deixou-se ir com a mansidão dos resignados mas ainda a mirar-lhe as pernas e a magicar um piropo.

PS — Ao ler o texto de Alexandra Lucas Coelho, no suplemento P2 de dia 7 de Janeiro, apercebi-me de que Luiz Pacheco morreu afinal no trajecto entre a casa de um dos filhos e o Hospital do Montijo (no domingo, partira de um take divulgado pela Lusa). Fica feita a correcção.

[Foto de João Francisco Vilhena]

Olímpio

De todos os fazedores de livros, ele era o mais discreto. Estava lá atrás, nos bastidores, a meter em página os textos dos outros, a compor as manchas gráficas, a zelar pela harmonia visual que não passa despercebida aos leitores mais exigentes. Aqueles leitores que provavelmente liam o seu nome, em letras minúsculas, nas fichas técnicas dos livros da & Etc, da Tinta da China, da Averno ou das edições de teatro dos Artistas Unidos.
Chamava-se Olímpio Ferreira, tinha quarenta anos, dois filhos pequenos e uma espécie de reserva nos contactos sociais que ainda hoje ignoro se nascia da timidez ou da humildade. Ao apresentá-lo no extinto blogue Barnabé, Rui Tavares apelidou-o de “nosso homem da sombra” e acrescentou: “É o gajo mais culto do Barnabé, razão pela qual diz que não sabe se vai escrever.” Não escreveu muito, de facto. Mas o que escreveu deixou-nos com pena de que o “homem da sombra” nunca tivesse desejado chegar-se mais à luz.
Agora que me deram a notícia, com a violência absurda do que não conseguimos compreender, só me ocorrem imagens: encontros por acaso em livrarias, manhãs de sábado no jardim do Príncipe Real, tardes na Feira do Livro com carrinhos de bebé, sacos cheios de preciosidades e uma alegria que parecia estar a salvo de tudo (mas não estava).

[Havia outros posts previstos para hoje, nomeadamente as inevitáveis listas dos melhores livros de 2007 para o BdB, mas tudo isso terá que ficar para amanhã. Não consigo mesmo escrever mais. Desculpem.]

Christian Bourgois (1933-2007)

christian bourgois

O editor francês Christian Bourgois, conhecido pela forma muito pessoal como acompanhava os seus escritores (nomeadamente o português António Lobo Antunes), morreu esta manhã em Paris, com 74 anos, após doença prolongada. O anúncio foi feito pela sua editora de sempre, a Christian Bourgois Éditeur, criada em 1966.
O seu vasto catálogo apresenta obras de W. H. Auden, Bernardo Atxaga, Roberto Bolaño, Peter Carey, e. e. cummings, William Burroughs, Friedrich Dürrenmat, Carlo Emilio Gadda, Hanif Kureishi, Manuel Vázquez Montalbán, Ricardo Piglia, Susan Sontag, Peter Sloterdijk e Enrique Vila-Matas, entre muitos outros.
Além de Lobo Antunes, de quem vinha publicando a obra completa, Bourgois também editou Fernando Pessoa e Mário de Carvalho.

Fernanda Botelho (1926-2007)

Foi uma das mais importantes romancistas portuguesas da segunda metade do séc. XX. Morreu ontem de manhã, na sua casa em Lisboa, aos 81 anos, após prolongada luta contra uma doença que a foi destruindo por dentro (osteoporose).

Na sua edição de hoje, o Público dedicou-lhe menos de meia página. Na sua edição de hoje, o Diário de Notícias dedicou-lhe menos de um quarto de página. Nas suas edições de hoje, os restantes diários ou nem sequer referiram o facto (24 Horas) ou dedicaram-lhe uma breve (Correio da Manhã e Jornal de Notícias).

A notícia da morte de Fernanda Botelho apareceu na Lusa às 17h47. Creio que não é preciso acrescentar mais nada.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges