Pré-publicação: ‘Amor Livre e outras histórias’ (Ali Smith)

«UM TEXTO POR DIA

Imagine-se a coleção de livros de Melissa distribuída pelo quarto e pela sala de estar quando Melissa está na cama a dormir ou quando está fora todo o dia a trabalhar ou foi passar a noite fora ou o fim de semana. Centenas ali muito quietos nas estantes, de Agee a Yevtushenko (não tem ninguém com Z). Um conjunto significativo de clássicos dos cursos de literatura inglesa e escocesa — Melissa estudou Literatura e Cultura Inglesa dez anos atrás. Há uma grande coleção da mais recente literatura americana, inglesa e europeia; Austen, uma amiga de Melissa que trabalha numa livraria, consegue arranjar-lhe muitas vezes livros com 30% de desconto. Livros e livros, blocos de livros movendo-se infinitesimalmente durante a noite quando os alicerces renovados da casa fazem estremecer todo o prédio. Livros tão apertados uns contra os outros que as capas de vários deles ficam coladas; por exemplo, se Melissa tivesse querido tirar Villette, de Charlotte Brontë (Penguin), para ler outra vez, vê-lo-ia preso, de um lado, a Shirley (Penguin), e do outro, a uma edição de 1933 de Testament of Youth, de Vera Brittain (Gollancz), assinado pela autora e comprado por 50 pence numa feira do livro.
Imagine-se os livros silenciosos no apartamento silencioso, durante a noite, sem se moverem na escuridão, com o nome de Melissa, o sítio onde os comprou e a data escritos em cada um deles entre a primeira página e a capa; imagine-se as lombadas dos livros durante o dia no apartamento silencioso, a amarelecerem, a perderem a cor, a desvanecerem-se ao mesmo tempo que a luz vai percorrendo a sala.

Melissa começou por dizer ao namorado, Frank, para se pôr a andar, estava farta que lhe chamasse Amorzinho, já não conseguia achar graça nenhuma. E no dia seguinte, em vez de ir trabalhar, ficou na cama, com os cobertores puxados até ao pescoço e, quando o aquecimento central se desligou e ficou mais frio, usou o secador de cabelo entre o edredão e o colchão para se aquecer, algo que sempre recusara fazer por causa do aquecimento global e da conta da eletricidade. Depois levantou-se e atirou o secador pela janela; desfez-se no empedrado, quase atingindo o carro do vizinho do lado. Abriu energicamente as janelas para deixar entrar o ar frio. Depois foi atirando para o chão os livros em todo o apartamento. Tudo se passou nesse dia. Preparava-se para desaparecer rapidamente, estava a um passo de partir de vez.
Mais tarde, já ela se fora embora há muito, os menos imaginativos dos seus amigos que repararam que ela deixara de aparecer pensaram que provavelmente tinha decidido tirar algum tempo para si, talvez andasse pelos Estados Unidos de mochila às costas ou coisa do género. Outra pessoa, um colega de trabalho, pensou que podia ter conseguido um emprego novo e mais interessante, certamente melhor do que este de Transferidora de Informação, e o aceitara sem dizer ao antigo patrão, para não ter de o informar oficialmente. Embora nada disso fosse coisa que ela pudesse realmente fazer ou que alguém esperasse dela. Outros amigos e conhecidos ou não deram por nada ou nem sequer tinham ainda sabido, a maior parte deles já não se lembrava dela e os poucos que se lembravam partiam do princípio, de uma maneira geral, de que ela estava onde a tinham visto pela última vez, a fazer o que a tinham visto fazer pela última vez, tal e qual como se parte do princípio de que alguém que se conhece continua a fazer as coisas do costume, a respirar, a andar, a fazer compras, a comer bolachas, até que se vem a saber que a pessoa morreu, morreu há muito tempo e ninguém sabia de nada.
Austen percebeu que alguma coisa não batia certo, porque tinha a chave do apartamento de Melissa e os livros, os livros, seu orgulho e alegria, estavam todos espalhados pelo quarto e pela sala de uma maneira estranha, numa desarrumação completa no chão ou empilhados totalmente ao acaso, enormes buracos nas estantes de todas as paredes e mais livros tombados nas prateleiras, havia até livros espalhados pela casa de banho. Tal como o anúncio de televisão que mostra uma casa assaltada para alertar contra os ladrões e sugerir que se deve deixar sempre uma luz acesa durante a noite para fingir que está alguém em casa, pensou Austen. A luz do apartamento de Melissa estava acesa e, com a janela e os cortinados abertos, adquiria um certo ar sinistro. Não havia ninguém e nada tinha sido mexido, tudo intacto e na mesma ordem de sempre, exceto os livros.
Fechou as janelas por causa do frio e foi ao quadro na cozinha ligar o aquecimento. Sobre a mesa, ao lado de uma garrafa de leite, algumas folhas deixadas ao acaso, rasgadas; do sítio onde estava Austen podia ver, distorcida através do vidro da garrafa, a palavra Introdução. Junto aos seus pés, a capa de um livro de bolso de Kafka (Penguin Modern Classics). Fez chá — com leite azedo —, abriu o caixote do lixo para deitar a saqueta do chá e viu que estava cheio de páginas arrancadas e capas soltas de vários livros. Por trás do caixote do lixo, mais páginas. Continuou o que estava a fazer, sentou-se no sofá e percebeu que tinha posto os pés a descansar, como era inevitável, em cima de uma pilha de livros. Ao seu lado, em cima da almofada, como se ali tivesse aterrado de emergência após um voo com as asas danificadas, estava um exemplar de pernas para o ar de Seeing Things, de Seamus Heaney (Faber and Faber).
No exato momento em que Austen introduzia um dedo no chá para desfazer um coágulo de leite na parte interior da chávena, Melissa estava a sair de um supermercado aberto até às oito, à chuva, a mastigar qualquer coisa que tirava de um pacote, com um livro de bolso na outra mão, e uma senhora de certa idade com uma capa para a chuva a vociferar na direção dela numa exaltação fora do comum e de braços no ar, a chamar a atenção dos rapazes que arrumavam os carrinhos de compras, a dizer-lhes olhem, olhem o que ela fez, nunca em toda a vida dela.

Frank ligou a Austen na noite seguinte. Não gostava particularmente de Austen, mas era amiga de Melissa.
— Ela disse-me para me ir embora, Austen, portanto, olha, ha, ha, eu fui. Acho que está um bocado desvairada. Estou um bocado preocupado com ela — disse Frank. Ainda se sentia satisfeito consigo próprio por ter demonstrado a Melissa, fazendo precisamente o que ela lhe disse, como a sua exigência era absurda.
— Hum. É engraçado, mas eu não estou, acho que não.
— Não estás o quê?
— Preocupada. Pelo menos, acho que não estou. E desvairada como? Como quando entornaste o chocolate quente em cima do Keats e do sofá? — disse Austen.
— Bem, não, realmente não, não no sentido de estar zangada. A questão é que até parecia muito calma, é estranho.
— Pois é, muito estranho — disse Austen.
— Mas, sabes, isso torna tudo ainda mais esquisito. Começou a dizer coisas muito estranhas ali sentada no chão, fria que nem uma pedra a dizer aquilo tudo.
— Hum — disse Austen. Ela não gostava muito de Frank, não gostou dele logo quando se conheceram e ele lhe disse que ela tinha um nome esquisito.
— Ela não está a viver no apartamento, sabes — disse Frank.
— Sei, olha, Frank, tenho mesmo de desligar.
— Sabes onde ela está?
— Não, não sei, mas se ela me telefonar eu digo-lhe para te ligar. Olha, deixei uma coisa ao lume e…
— Não há maneira de saber e também já não posso entrar no apartamento. E no emprego ninguém sabe onde ela está, telefonei a perguntar se tinha metido baixa, mas disseram-me que não. Achas que devo ir à polícia?
— Bem, não, acho que não, mas se te faz sentir melhor… — disse Austen, algo ausente.
Mais tarde, nessa mesma noite, Melissa telefonou a Austen e a Frank de uma cabina. A ligação não era boa e a voz dela ouvia-se ao longe, muito fraca, no meio de uma confusão de ruídos.
— Não devias ter ido lá arrumar nada, Austen. Bem, foi simpático da tua parte, mas… sim, fui buscar algumas coisas. Não, ouve, não posso voltar atrás, e só tenho vinte pence… ouve… usa o apartamento se quiseres. Fica com o apartamento, aproveita-o e olha, Austen, também podes utilizar o carro. Vou mandar-te… não sei… talvez um postal (a voz dela estava a ficar cada vez mais fraca), tenho de desligar…
— Sim, Frank? Sou eu, a Melissa. Oh, meu Deus, não me chames isso… sim… não é isso, será que estás a ouvir? Estou, sim, o mais alto que… Não, não é preciso, é óbvio que não estou desaparecida. Eu disse é óbvio que… Olha, só telefonei para dizer, não, só telefonei para dizer adeus. Adeus. Percebeste? Sim? Não, não é preciso… adeus…
Frank pousou o auscultador, depois pegou nele outra vez e ligou para a polícia. Quanto a Austen, deu consigo de repente a olhar no vazio e pousou o auscultador. Imaginou a porta da cabina a baloiçar e a fechar-se e Melissa a sair do cheiro a urina para o frio límpido da noite.

Melissa estava sentada à luz ténue do luar, enroscada como um animal. Escalara o portão, fechado a cadeado, passara sobre os espigões no cimo depois de ter atirado a mochila, que caiu com um barulho surdo do lado de lá do empedrado, e ela própria também se lançou praticamente sem ruído. O vapor de água embaciava as janelas da casa junto ao portão. Invisível, silenciosa na escuridão, ao frio, dirigiu-se como pôde até ao outro lado do cemitério e deixou-se cair junto a uma das sepulturas. Encostou as costas à pedra tumular. Sob a silhueta de um anjo em pedra tirou os livros da mochila. Ao longo do dia já arrancara as páginas de Terna É a Noite, de F. Scott Fitzgerald (Penguin), Bliss, de Peter Carey (Faber and Faber), The Novel Today, organizado por Malcolm Bradbury (Fontana), Madame Bovary, de Gustave Flaubert (Penguin), Selected Dramas and Lyrics of Ben Jonson (editor Walter Scott, 24 Warwick Lane, Paternoster Row, Londres, em 1886, um dos favoritos), Memórias de Uma Rapariga Bem-Comportada, de Simone de Beauvoir (Penguin, outro dos favoritos, e depois de um breve momento de nostalgia, apenas e só alívio), e finalmente Gente de Dublin, de James Joyce (Penguin). Quanto a Gente de Dublin, voltara a lê-lo, apreciando-o imenso, e arrancara cada página à medida que ia acabando de ler, deixando-a cair ao acaso se ia a andar ou se estava num lugar qualquer sentada. Nunca tinha gostado tanto de ler «Os Mortos», pensou ela, quase em lágrimas, enquanto arrancava a última página, a página que fala da neve, e a deixava cair.
Este era um sítio em que ninguém ficava a olhar, fazia comentários ou gritava zangado. Tirou o primeiro livro da pilha, The Sunday Missal and Prayer Book (Collins). E de lá extraiu a lista dos feriados móveis, os preâmbulos, a ordem da Missa; nem precisava de luz para saber que estava a arrancar o primeiro domingo do Advento, o segundo domingo do Advento, o terceiro domingo do Advento, o quarto domingo do Advento, o Natal, a Páscoa, o ano todo. À sua volta caíam as folhas finas, viravam-se na relva por entre as sepulturas e restolhavam levemente no empedrado.

A polícia ficou preocupada. A mulher desaparecida ou alguém fazendo-se passar por ela esvaziara a conta bancária. Elementos da polícia deslocaram-se a casa de Austen, a casa de Frank e à seguradora onde Melissa trabalhava. Encontraram o livro de endereços de Melissa debaixo da cama e contactaram toda a gente que lá estava. Austen disse-lhes em que estado encontrara o apartamento e o que Melissa lhe tinha dito ao telefone e eles levaram o carro e vários livros rasgados para exame forense, instauraram um processo em nome de Melissa e puseram o seu telefone sob escuta. Fizeram o mesmo em relação a Frank, que também lhes falou do telefonema que recebera, do telefonema que por sua vez fizera a Austen, da forma estranha como, enfim, Melissa tinha agido e do que ela lhe dissera na noite em que saíra de casa.
Efetuaram um inquérito a cada um dos empregados da empresa em que Melissa era Transferidora de Informação, o que significava que passava os dias a passar para o computador os números das contas que lhe chegavam em cartas e formulários a fim de que as consultas e toda a gestão das contas se fizesse através de um número e não pelo nome.
Entretanto, Melissa desaparecera mesmo. Parecia haver quem a tivesse vislumbrado, e essas ténues imagens iam chegando a Austen através de Frank, através de amigos comuns, através de pessoas que iam à livraria e ali permaneciam à conversa. Eram imagens que adquiriam uma qualidade quase mitológica. Austen falou disto a Melissa na carta que juntou a uma caixa com livros que lhe mandou para a posta-restante de uma localidade perto da fronteira entre os Estados Unidos e o México. O postal que Melissa lhe enviou tinha uma fotografia a cores com um daqueles carros americanos muito compridos de pernas para o ar numa fenda glaciar e mais acima, à beira da fenda, uma casa e um jardim, intactos. Na parte de trás a caligrafia emaranhada de Melissa, em tinta que parecia comida pelo sol, dizia que estava bem, que no sítio onde estava a escrever o postal cheirava a cravos e a café, como no livro Mornings in Mexico and Etruscan Places, de Lawrence, que andava a ler, e por favor lhe mandasse os livros, uns quaisquer que Austen escolhesse no apartamento. E lhe fosse mandando se possível uma caixa cheia de livros todos os anos na mesma altura até não haver mais livros. Estou agora a reler quase tudo, escreveu ela. Estou a reler Emily Dickinson aqui, em pleno deserto. É magnífica. Beijos, M. Austen entregou o postal à polícia e empacotou os livros. Não consigo deixar de me perguntar, escreveu ela na carta, sobre o que vais fazer quando já não houver livros. Não teve resposta.

Uma rapariga encostada à secção das aves no supermercado a ler um livro arrancou uma página e deixou-a cair no sítio onde estava. Uma senhora de idade ficou chocada ao vê-la rasgar o livro junto à secção dos congelados; sem palavras, ia-a vendo deixar cair poemas nos corredores por onde passava, perto da padaria, junto dos produtos para a casa, na fila para pagar. A mulher, pálida de raiva, seguiu a rapariga para apanhar os poemas que ela ia deixando cair. Já do lado exterior da porta automática, ficou à chuva a ver a rapariga ir-se embora. Olhem o que ela está a fazer!, gritava ela para as pessoas que iam a entrar. Nunca na minha vida vi uma coisa tão fútil, tão ofensiva, tão feita de propósito para provocar. Quando eu era nova, sabíamos dar valor às coisas. Voltou-se, captou o olhar de alguém que ia a sair e ergueu no ar um punho de poesia amarrotada. Olhe, suplicava ela; e havia desespero nos seus olhos.
Numa viagem noturna de autocarro para Londres um homem observava, curioso, uma mulher jovem sentada de lado no corredor a ler e a rasgar com cuidado cada página depois de a ler. Vestia de forma descuidada, o cabelo parecia precisar de uma boa lavagem e colocava delicadamente cada página ao lado dela no lugar vazio, depois de acabar de a ler. No final da viagem o homem deixou que a mulher saísse do autocarro antes dele, recolheu as páginas, levou-as para o seu quarto no hotel e leu-as. Ficou a interrogar-se quem seria ela, onde estaria instalada, como poderia contactá-la para poder ler o resto.
Uma mulher que está de pé numa paragem de autocarro numa grande cidade encontra um pedaço de papel colado ao salto do seu sapato. Num dos lados diz qualquer coisa acerca de pragas e ressurreições, algo que fazia pouco sentido para ela. Mas no outro lado as palavras estavam espaçadas como nos poemas que lera na escola, e viu escrito:

Retornos celestiais,
O dia em que as flores chegam
E os pássaros partem.

Quando chegou a casa, a mulher foi à procura do que queria dizer celestiais no dicionário do marido. Achou as palavras que se lhe tinham agarrado ao salto muito belas, dobrou o pedaço de papel e escondeu-o no seu lugar secreto dentro do forro da gaveta dos produtos de maquilhagem. Não disse do seu achado a ninguém.

Austen trabalha de pé na livraria a vender livros às pessoas, pressionando as teclas da máquina registadora com o conhecimento mecânico de um autómato enquanto as capas multicoloridas dos livros, centenas de livros por dia, novos e excitantes livros de capa brilhante, cintilam quando por eles passa os olhos e os põe nos pequenos sacos de plástico. Distribui o dinheiro pelos vários compartimentos. Barnes e Byatt estão a vender bem agora, tal como a nova biografia dos Kennedys, que saiu pelo Natal. A livraria em que ela trabalha é agradável, arejada, está decorada com bom gosto e fica aberta até tarde. Durante o dia há música clássica a tocar e mais para o fim da tarde é a vez do jazz e sons afins, as pessoas gostam e estão sempre a dizer a Austen que é um prazer fazer compras ali. Há um escaparate dedicado às escritoras canadianas Atwood e Munro num dos lados da entrada e do outro está exposta a nova ficção narrativa da Europa do Leste, o destaque do mês em edição de capa dura. As prateleiras são amplas, bem organizadas e bem fornecidas. De onde se encontra, Austen pode ver toda a extensão da secção de ficção estendendo-se ao longo de uma parede inteira, centenas e centenas de livros, um mero eco de centenas de outros que lá estiveram antes. Austen sabe que as prateleiras não são suficientes, já quase não cabe nelas mais nada, mas não sabe o que se pode fazer. Quando as pessoas perguntam por poesia, indica-lhes o piso de baixo. No apartamento já a cheirar a mofo de Melissa as prateleiras vão-se esvaziando gradualmente; e cada vez é mais raro encontrar alguém que tenha visto Melissa. Austen dá uma vista de olhos por toda a livraria, olha para o relógio, suspira.
Toda a Margaret Atwood já se foi, bem como todo o James Joyce, a Virginia Woolf, o Hardy, o Lawrence, o Forster. Toda a Carter e o Rushdie, o Puig e o Marquez, o Klima e o Levi e o Calvino e o Milosz, toda a Spark e o Gunn e o MacDiarmid, todo o Shakespeare, todo o Coleridge e o Keats, o Whitman e o Ginsberg, o Proust, o Eliot, o Scott, os livros mais grossos, os livros mais finos, todos os mais obscuros poetas e romancistas reunidos em edições de um só volume, todos os nomes mais ou menos conhecidos, mais ou menos perdidos ou esquecidos, a voar à toa pelos ares, caindo depois no chão como sementes ou folhas largadas pelas árvores, desfazendo-se em pequenos pedaços num sopro de fragmentos de sentido. Páginas flutuam sobre autoestradas e campos cultivados, páginas desgarradas dissolvendo-se em rios ou em mares, a embaterem nas sebes das zonas suburbanas, a agarrarem-se às suas raízes. Fragmentos juncam no chão um rasto que depois se espalha em várias direções, deslizando por entre ruas de cidades estrangeiras, amolecendo na água à entrada de pequenas lojas, arremessados pelos caprichos do clima para terras verdejantes e pradarias.
Há poemas em algerozes e em canos de esgoto, debaixo dos carris dos comboios, páginas de romances nos passeios, nos supermercados, agarrados aos pés das pessoas ou às rodas dos carros e das bicicletas; há poemas no deserto. Lá onde não há casas, nem pessoas, apenas céu, vento, um mundo aberto de par em par, um poema acerca de um vulcão adormecido, todo coberto de ervas, está semienterrado na areia, esmorecendo à luz e ao calor como o pequeno crânio de um pássaro.»

[Amor Livre e outras histórias, de Ali Smith, editado pela Quetzal, com tradução de Helder Moura Pereira, chega às livrarias a 12 de Agosto]

Pré-publicação: ‘A Literatura Nazi nas Américas’ (Roberto Bolaño)

«Edelmira Thompson de Mendiluce
Buenos Aires, 1894-Buenos Aires, 1993

Aos quinze anos publicou o seu primeiro livro de poemas, Ao Papá, que conseguiu introduzi-la numa discreta posição na imensa galeria das poetisas da alta sociedade buenairense. A partir de então, foi assídua nos salões de Ximena San Diego e de Susana Lezcano Lafinur, que ditavam a lírica e o bom gosto nas duas margens do rio da Prata nos alvores do século XX. Os seus primeiros poemas, como é lógico supor, falam de sentimentos filiais, de pensamentos religiosos e de jardins. Namoriscou a ideia de se tornar freira. Aprendeu a montar a cavalo.
Em 1917, conhece o ganadeiro e industrial Sebastián Mendiluce, vinte anos mais velho do que ela. Toda a gente ficou surpreendida quando ao fim de poucos meses se casaram. Segundo os testemunhos da época, Mendiluce não apreciava a literatura em geral e a poesia em particular, faltava-lhe sensibilidade artística (embora de vez em quando fosse à ópera) e a sua conversa situava-se ao mesmo nível que a dos seus peões e operários. Era alto e enérgico, mas estava muito longe de ser bonito. A sua única qualidade reconhecida era a sua fortuna inesgotável.
As amigas de Edelmira Thompson disseram que tinha sido um casamento de conveniência, mas a verdade é que ela se casou por amor. Um amor que nem ela nem Mendiluce jamais souberam explicar e que se manteve inabalável até à morte.
O casamento que acaba com a carreira de tantas escritoras auspiciosas deu novos brios à pena de Edelmira Thompson. Abriu o seu próprio salão em Buenos Aires, que rivalizou com o da San Diego e o da Lezcano Lafinur. Protegeu jovens pintores argentinos aos quais não só comprava obras (em 1950, a sua pinacoteca de artes plásticas argentina não era a melhor, mas sim uma das maiores e extravagantes da República), como também costumava levá-los à sua fazenda de Azul para que pintassem longe da agitação mundana e com todas as necessidades cobertas. Fundou a editora Candeia Sulista onde publicou mais de cinquenta livros de poesia, muitos dos quais lhe são dedicados, a «fada boa das letras crioulas».
Em 1921, publica o seu primeiro livro em prosa, Toda a Minha Vida, autobiografia idílica, se não mesmo chã, isenta de mexericos e cheia de descrições paisagísticas e de considerações poéticas que, contrariamente ao que a autora esperava, passa totalmente despercebida pelas montras das livrarias de Buenos Aires. Decepcionada e na companhia dos seus dois filhos pequenos, de duas criadas e de mais de vinte malas, Edelmira parte para a Europa.
Visita Lourdes e as grandes catedrais. É recebida pelo Papa. Percorre em veleiro as ilhas do Egeu e chega a Creta num meio-dia de Primavera. Em 1922, publica em Paris um livrinho de poemas infantis em francês e outro em espanhol. Depois volta para a Argentina.
Mas as coisas mudaram e Edelmira já não se sente bem no seu país. Num jornal acolhem o aparecimento do seu novo livro de poesia (Horas da Europa, 1923) tachando-a de pirosa. O crítico literário mais influente da imprensa nacional, o Dr. Luis Enrique Belmar, considera-a uma «dama infantil e desocupada que faria melhor se dedicasse o seu esforço à beneficência e à educação de tantos catraios esfarrapados que correm pelos espaços sem limites da pátria». Edelmira responde com elegância convidando o Dr. Belmar e os outros críticos para o seu salão. Só aparecem quatro jornalistas mortos de fome que trabalham para páginas de acontecimentos sociais. Edelmira, desdenhada, refugia-se na fazenda de Azul para onde a seguem uns quantos incondicionais. Na paz dos campos, ouvindo as conversas da gente trabalhadora e humilde, prepara um novo livro de poesia que atirará à cara dos seus detractores. Horas Argentinas (1925), a esperada colectânea de poemas, provoca o escândalo e a controvérsia desde o próprio dia da sua publicação. Nele, Edelmira abandona a visão contemplativa e passa ao ataque. Arremete contra os críticos, contra as literatas, contra a decadência que envolve a vida cultural. Propõe um regresso às origens: os trabalhos do campo, a fronteira sul sempre aberta. Ficam para trás os requebros e os desfalecimentos amorosos. Edelmira quer uma literatura épica, epopeica, na qual não lhe trema o pulso na hora de cantar a pátria. À sua maneira, o livro é um grande êxito e num acto de humildade, com pouco tempo para saborear o mel do trabalho reconhecido, Edelmira parte outra vez para a Europa. Acompanham-na os seus filhos, as suas criadas e o filósofo de Buenos Aires Aldo Carozzone que faz as vezes de secretário particular.»

Este romance de 1996, agora traduzido para a Quetzal pela dupla Cristina Rodriguez e Artur Guerra, chega às livrarias na próxima sexta-feira, dia 22.

Pré-publicação: ‘Bibliotecas cheias de fantasmas’ (Jacques Bonnet)

«”Já os leu todos?” Não, claro que não. Ou talvez sim. Na verdade, não sei. É complicado. Há livros que li e esqueci (muitos), e alguns que me limitei a espreitar e de que me lembro. Ou seja, nem todos foram lidos, mas todos foram folheados, cheirados, sopesados. Depois disso, a obra pode tomar três direcções possíveis (refiro-me aos livros escolhidos, comprados por mim e por isso já “seleccionados”, e não aos livros simplesmente recebidos): leitura imediata ou a breve prazo, leitura para mais tarde (o que pode levar semanas, meses ou anos, se as circunstâncias forem particularmente desfavoráveis e o afluxo demasiado intenso, formando-se “pilhas de livros a ler”), ou leituras para arrumar nas prateleiras. Mas mesmo estes últimos livros foram, de certa maneira, “lidos”, e ficaram arrumados tanto numa parte qualquer do meu espírito como na minha biblioteca. Eles servirão um dia, embora não saiba quando nem porquê. Há decerto uma razão para estarem aqui. Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguiremos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem, desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos, dos que temos vontade de reler por puro prazer, dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar, dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir, etc. (“Na verdade, uma biblioteca, seja qual for o seu tamanho, não precisa de ter sido lida de uma ponta à outra para ser útil; cada leitor beneficia de um equilíbrio exacto entre saber e ignorância, memória e esquecimento”, Alberto Manguel). Séneca chegava ao ponto de considerar que os numerosos rolos da Biblioteca de Alexandria eram “decorações de sala de jantar”.
“Mas tem um método de leitura rápida?”, perguntam-me. Sim, claro que tenho. É o seguinte: faz cinquenta anos que passo uma grande parte do meu tempo a ler todo o tipo de obras, em todo o tipo de circunstâncias, para todo o tipo de fins. Como em qualquer actividade que se torna familiar (seja ela manual, artística ou desportiva), cria-se uma relação especial com o objecto em questão, no caso a coisa impressa (“São necessários muitos anos de trabalho para que as engrenagens cerebrais da leitura, já bem oleadas, deixem de ser conscientes”, Stanislas Dehaene). O importante não é ler depressa mas ler cada livro à velocidade que ele merece. É tão pernicioso demorar tempo demais com alguns do que ler outros demasiado rápido. Há livros que ficamos a conhecer folheando-os, outros que só compreendemos à segunda ou terceira leitura, outros ainda que poderemos reler com proveito toda a vida. Um policial lê-se em poucas horas, mas preparar uma aula sobre algumas páginas de The Waste Land, de T. S. Eliot, exige vários dias. Mas o cúmulo do desequilíbrio entre o tempo passado com um texto e a sua extensão estaria sem dúvida num trabalho de análise ao célebre monóstico de Apollinaire: “Et l’unique cordeau des trompettes marines”! Escrever um artigo para a imprensa sobre uma obra que acaba de ser publicada exige – pelo menos no que me diz respeito – duas leituras: a primeira para descobrir o livro enquanto leitor inocente, a segunda para dar uma ordem às impressões e ideias que o livro me suscitou. E depois, é um facto que esquecemos a maior parte do que lemos. Pierre Bayard, em Comment parler des livres que l’on n’a pas lus? (Minuit, 2007; Como falar dos livros que não lemos?, tradução de Maria Amaral e Sílvia Sacadura, Verso da Kapa, 2008), dissertou brilhantemente sobre o facto de sermos todos levados a falar de livros que não lemos, livros dos quais apenas ouvimos falar. Aliás, Bayard disserta até de forma demasiado brilhante, uma vez que a soma das leituras que pressentimos por trás do seu ensaio está em flagrante contradição com a sua tese. Ele evoca igualmente o esquecimento em que tombam a maior parte das nossas leituras: “Torna-se difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, uma vez que a leitura é o lugar da evanescência.” Porque mesmo quando o livro foi efectivamente lido, e tão bem que ganha um lugar específico no nosso espírito, muitas vezes não sobra mais do que a memória da emoção vivida durante a sua leitura e nada de muito preciso quanto ao seu conteúdo (acontece oferecermos durante anos a fio um determinado livro, certos de que gostámos de o ler, e contudo sermos incapazes de falar sobre ele porque entretanto os detalhes já se apagaram completamente).
Stanislas Dehaene mostra, em Les Neurones de la lecture (Odile Jacob, 2007), o que o surgimento da leitura teve de singular na evolução humana. Trata-se de uma actividade do nosso cérebro que é relativamente recente: a invenção da escrita pelos babilónios aconteceu apenas há 5400 anos e o alfabeto tem 3800 anos, ou seja, tempo insuficiente para que o nosso genoma tivesse oportunidade de se modificar com vista a desenvolver circuitos cerebrais específicos para a leitura (“Como é que a arquitectura cerebral de um bizarro primata bípede que se tornou caçador-recolector se foi ajustando com tanta precisão, em poucos milhares de anos, às dificuldades que derivam do reconhecimento da escrita?”, Stanislas Dehaene). Esta faculdade, apercebida individualmente como mágica, constitui também um acontecimento improvável no plano da evolução humana, e é um dos aspectos mais surpreendentes do nosso funcionamento cerebral. A leitura, ao começar por recolher informações (sobre contabilidade comercial, câmbios e impostos), permitiu que se passasse depois à notação de reflexões mais gratuitas, transmitindo-as à distância e, ao serem legadas às gerações seguintes, favorecendo a sua acumulação e o seu enriquecimento constantes. Com a escrita, e por arrasto com a leitura,o homem não efectuou apenas um salto cultural quantitativo, ele passou também para outra escala em termos mentais. Tornou-se, em suma, um ser pensante complexo. (“O Homo sapiens é o único primata capaz de pedagogia, na medida em que apenas ele sabe prestar atenção aos conhecimentos e aos estados mentais de outrém, tendo como objectivo o ensino. Não só conseguimos transmitir de forma activa os objectos culturais que consideramos úteis, mas também – e isto é particularmente evidente no caso da escrita – conseguimos aperfeiçoá-los intencionalmente. Há cerca de cinco mil anos, os primeiros escribas descobriram um poder escondido do cérebro humano: o de aprender a transmitir a linguagem através da visão”, Stanislas Dehaene).
Não espanta por isso que a leitura continue a ser percepcionada como uma actividade única. E, no meu caso, há sempre euforia no acto de formar uma realidade por trás do simples nome de um autor ou do título de uma obra (“Leio sem escolher, simplesmente para entrar em contacto”, Walter Benjamin). Quando não foi lido, um livro é na pior das hipóteses um conjunto de letras. Na melhor das hipóteses, é uma vaga – e muitas vezes falsa – imagem nascida do que sobre ele ouvimos dizer. Pegar num livro e descobrir o que realmente contém equivale a dar-lhe um corpo; quer dizer, uma espessura e uma densidade que ele nunca mais perderá.»

O ensaio de Jacques Bonnet, traduzido por mim e editado pela Quetzal, vai para as livrarias dia 8 de Outubro.

Pré-publicação: ‘O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua’

«24.
É possível que alguns leitores se interroguem sobre o que é, ao fim e ao cabo, este livro, e qual a sua relação, se alguma existe, com a literatura. Para dizer a verdade, não sei. Mas o miúdo que pregava pregos numa tábua, ou talvez o autor, quem sabe se eu próprio, já uma vez escreveu que, para ele, a poesia está aquém e além da literatura. E até confessou que de literatura pouco ou nada sabe. Mas sabe de um rio e de uma ria ou, se preferirem, sabe dos rios e dos mares e da influência da lua nas correntes e nas marés e, ao que parece, no fluxo do sangue, sabe do voo e do grito da narceja, que é um alerta e, ao mesmo tempo, um viva à liberdade. E sabe da respiração da terra, que essa, sim, tem a ver com o ritmo e a respiração da escrita. Num certo sentido já fez essa respiração boca a boca quando, na Nicarágua, acompanhado pelo poeta Fernando Silva, que se dizia descendente de portugueses, se sentou no rebordo da cratera do vulcão Santiago e sentiu o bafo que ritmadamente saía das entranhas da terra.
– Parece um boi a respirar – disse o poeta nicaraguense.
O miúdo que tocava música nos dentes achou que o vulcão respirava a um ritmo que era o da sua própria respiração. Dentro da cratera, no meio do fumo, das chamas e das cinzas, voavam centenas de pássaros que ali faziam ninho. A terra respirava pela boca do vulcão Santiago e o miúdo que dedilhava guitarras invisíveis sentiu que estava ali a respirar boca a boca com a própria terra e que assim era o fluxo do seu sangue e só assim poderia ser a cadência das palavras.
A mesma cadência e a mesma respiração que descobriu quando, num daqueles quartos antigos de Coimbra que, em certas noites, parecem directamente poisados sobre a lua, um poeta, ainda jovem, leu, com o seu sotaque da ilha, o poema de Camilo Pessanha “Ao longe os barcos de flores”.
Só, incessante, um som de flauta chora – lia ele como se cada uma daquelas sílabas batesse ao ritmo do seu próprio coração. Era, de certo modo, uma outra forma de respiração da terra e dos rios e dos mares. Então o miúdo percebeu que podia dedilhar nos seus dentes o ritmo com que o poeta lia e que era o da música que estava dentro dos versos de Camilo Pessanha. Uma flauta cantava na voz do poeta da ilha, a flauta de Camilo Pessanha, uma flauta que trazia no bater das sílabas a batida do coração do mundo.
Mais tarde, já no quarto do miúdo que gostava de contar as sílabas pelos dedos, o poeta com ligeiro sotaque da ilha escrevia pela noite fora uns contos que andava então a terminar. O miúdo ouvia o roçagar da caneta no papel e pressentia que naquela grafia havia uma flauta a cantar dentro das sílabas. Era uma liturgia quase mágica, uma escrita nova e dentro dela um mundo novo que nascia. Algo que só muito mais tarde sentiria, mas em sentido inverso, como se um mundo se estivesse a extinguir, quando, pela última vez, visitou Sophia no quarto do hospital. Estava recostada numas almofadas muito brancas, ela própria também de branco, estranhamente esplendorosa e bonita, a princípio abriu muito os olhos, parecia que nos reconhecia e não reconhecia, uma das filhas disse-me: Fala-lhe. Eu falei e então ela murmurou o meu nome e o de minha mulher. Sentei-me ao pé dela e comecei a dizer-lhe um dos seus poemas: Ia e vinha / E a cada coisa perguntava, e então ela terminou: Que nome tinha. Fui dizendo poemas de que me lembrava, dela própria, de outros poetas, sobretudo de Camões, que ela pediu, ela ia repetindo comigo, até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, poesia em estado puro, só o ritmo, só a cadência, só a respiração do poema na sua própria respiração.

[O novo livro de Manuel Alegre, editado pela Dom Quixote, chega às livrarias na próxima sexta-feira]

Pré-publicação: ‘O Terceiro Reich’ (Roberto Bolaño)

«Tomámos o pequeno-almoço no Bar La Sirena. Ingeborg comeu um english breakfast que consistia numa chávena de chá com leite, um prato com um ovo estrelado, duas fatias de bacon, uma dose de feijão-verde e um tomate grelhado, tudo por 350 pesetas, bastante mais barato do que no hotel. Na parede, por detrás do balcão, há uma sereia de madeira com o cabelo ruivo e a pele dourada. No tecto ainda estão penduradas umas velhas redes de pescar. Quanto ao resto, é tudo diferente. O empregado de mesa e a mulher que atende ao balcão são jovens. Há dez anos trabalhavam aqui um velho e uma velha, morenos e enrugados, que costumavam conversar com os meus pais. Não me atrevi a perguntar por eles. Para quê? Os de agora falam catalão.
Encontrámos Charly e Hanna no sítio combinado, perto das “gaivotas”. Estavam a dormir. Depois de estendermos as nossas esteiras junto deles, acordámo-los. Hanna abriu logo os olhos, mas Charly grunhiu qualquer coisa ininteligível e continuou a dormir. Hanna explicou que ele tinha passado muito mal a noite. Quando Charly bebia, segundo Hanna, não conhecia limites e abusava da sua resistência física e da sua saúde. Contou-nos que às oito da manhã, quase sem ter dormido, saiu para fazer windsurf. Com efeito, a prancha estava ali, ao pé das costas de Charly. Depois Hanna comparou o seu creme bronzeador com o de Ingeborg e ao fim de um bocado, ambas estendidas de costas para o Sol, mudaram a conversa para um tipo de Oberhausen, um administrativo que, segundo parecia, tinha intenções sérias relativamente a Hanna, embora esta só “o apreciasse como amigo”. Desinteressei-me do que diziam e dediquei os minutos seguintes a observar as “gaivotas”, que tanta inquietação me haviam causado na noite anterior.
Não eram muitas as que se encontravam na praia; na sua maioria já estavam alugadas e deslizavam lentas e vacilantes por um mar calmo e de um azul intenso. É claro que nas “gaivotas” que ainda não tinham sido alugadas não se notava nada de inquietante; velhas, de um modelo superado até pelas “gaivotas” de outros postos, o sol parecia reverberar sobre as suas superfícies gretadas onde a tinta se descascava inexoravelmente. Uma corda, presa por uns quantos paus enterrados na areia, separava os banhistas da zona reservada às “gaivotas”; a corda erguia-se apenas a uns trinta centímetros do chão e nalguns sítios os paus tinham-se inclinado e estavam prestes a tombar de vez. À beira-mar distingui o encarregado: ajudava um grupo de clientes a fazer-se ao mar, atento a que a “gaivota” não batesse na cabeça de algumas das inúmeras crianças que chapinhavam em volta; os clientes, seriam uns seis, todos em cima da “gaivota”, com sacos de plástico onde possivelmente levavam sandes e latas de cerveja, faziam gestos de despedida para a praia ou batiam palmas de regozijo. Depois de a “gaivota” ter atravessado a zona das crianças, o encarregado saiu da água e começou a avançar na nossa direcção.
– Coitadinho – ouvi Hanna dizer.
Perguntei a quem é que se referia; Ingeborg e Hanna fizeram sinal para observar disfarçadamente. O encarregado era moreno, tinha o cabelo comprido e uma aparência musculosa, mas o mais notável da sua pessoa, acima de tudo, eram as queimaduras – quero dizer, queimaduras de fogo, não de sol – que lhe cobriam a maior parte da cara, do pescoço e do peito, e que eram visíveis sem rebuço, escuras e rugosas, como carne grelhada ou chapas de um avião sinistrado.
Por instantes, devo admitir, senti-me como que hipnotizado, até que me apercebi de que ele também olhava para nós e que no seu gesto abundava a indiferença, uma espécie de frieza que imediatamente achei repulsiva.
A partir de então evitei olhar para ele.
Hanna disse que se suicidaria se ficasse assim, desfigurada pelo fogo. Hanna é uma rapariga bonita, tem os olhos azuis e o cabelo castanho-claro e os seus seios – nem Hanna nem Ingeborg usam a parte superior do biquíni – são grandes e bem-feitos, mas sem muito esforço imaginei-a queimada, a dar gritos e a andar de trás para a frente no seu quarto do hotel. (Porquê, precisamente, no quarto do hotel?)
– Talvez seja uma marca de nascença – disse Ingeborg.
– É possível, vêem-se coisas muito estranhas – concordou Hanna. – Charly conheceu em Itália uma mulher que nasceu sem mãos.
– A sério?
– Juro-te. Pergunta-lhe. Foram para a cama os dois.
Hanna e Ingeborg riram-se. Às vezes não compreendo como é que Ingeborg consegue achar graça a afirmações dessas.
– Talvez a mãe tenha tomado algum produto químico quando estava grávida.
Não soube se Ingeborg falava da mulher sem mãos ou do encarregado das “gaivotas”. De qualquer modo tentei corrigir o seu erro. Ninguém nasce assim, com a pele tão martirizada. Ora bem, não havia dúvida de que as queimaduras não eram recentes. Provavelmente datavam de há uns cinco anos, julgando mais até pela atitude do pobre tipo (eu não olhava para ele) acostumado a despertar a curiosidade e o interesse próprio dos monstros e dos mutilados, os olhares de repulsa involuntária, a piedade pela grande desgraça. Perder um braço ou uma perna é perder uma parte de si mesmo, mas sofrer tais queimaduras é transformar-se, converter-se noutro.
Quando Charly, por fim, acordou, Hanna disse que achava o encarregado atraente. Musculoso! Charly riu-se e fomos todos para a água.»

[Início do terceiro capítulo do romance póstumo de Bolaño (Quetzal), nas livrarias a partir de sexta-feira]

Pré-publicação: ‘a máquina de fazer espanhóis’ (valter hugo mãe)

«com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, caindo, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver aos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à revelia de tudo quanto me parecia menos cruel. e a natureza, se do meu coração não se esvaziou o amor pela laura, estaria numa aniquilação imediata para mim também, poupando-me à miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.
fica-se muito zangado como pessoa. não se criem dúvidas acerca disso. fica-se zangado e deseja-se aos outros pouco bem, e o mal que lhes pode acontecer é-nos indiferente ou, mais sinceramente, até nos reconforta, isso sim, como um abraço de embalo, para que não se ponham por aí a arder como o sol e, sobretudo, não nos falem com uma alegriazinha ingénua, de tempo contado, e nos façam perceber o quanto éramos também ingénuos e nunca nos preparáramos para a derrocada de todas as coisas. nunca nos preparamos para a realidade. passamos a ser cidadãos terrivelmente antipáticos, mesmo que façamos uma gestão inteligente desse desprezo que alimentamos crescendo. e só não nos tornamos perigosos porque envelhecer é tornarmo-nos vulneráveis e nada valentes, pelo que enlouquecemos um bocado e somos só como feras muito grandes sem ossos, metidas dentro de sacos de pele imprestáveis que já não servem para nos impor verticalidade nem nas mais pequenas batalhas.»

[O novo romance de valter hugo mãe (editado pela chancela Alfaguara, da editora Objectiva) começa a chegar às livrarias no final desta semana.]

Pré-publicação: ‘Enciclopédia da Estória Universal’

Chega amanhã às livrarias o novo livro de Afonso Cruz, artista mais do que versátil e capaz de jogar simultaneamente em vários tabuleiros (literatura, música, ilustração). A sua Enciclopédia da Estória Universal, editada pela Quetzal, é uma obra difícil de classificar, um engenhoso e divertidíssimo exercício borgesiano, ao mesmo tempo erudito e lúdico. Deixo-vos aqui seis das muitas dezenas de “entradas”:

ESTE LADO DO ESPELHO
– Levo uma vida normal, Sr. Dr., ando nua pelas ruas, voo de prédio em prédio, as pessoas à minha frente mudam de cara constantemente, mas à noite, Sr. Dr., à noite sonho que me levanto às oito da manhã, saio de casa e vou trabalhar durante oito horas. Tenho uma hora de almoço, como à pressa (por vezes em pé), saio às seis e vou para casa de carro, sempre em filas, vejo televisão e, depois, acordo com suores frios. É horrível, Sr. Dr., isto acontece-me todos os dias, há anos, dum modo absurdamente repetitivo, e isto não vai lá com comprimidos.
– Isso é uma situação normalíssima, minha cara senhora, normalíssima. Nem imagina a quantidade de pessoas que têm esse sonho. Aliás, poderemos mesmo afirmar que esse é o único sonho normal. A senhora vir até aqui queixar-se de coisa tão banal, só prova que está de saúde. No outro dia – nem lhe devia estar a dizer isto – apareceu-me aqui um maluquinho, um caso perdido, que sonhava que trabalhava por conta própria, ficava em casa a maior parte dos dias e viajava muito com subsídios ou lá o que era aquilo. Quando ele me disse isto, transformei-me logo numa porta de mogno e mandei-o sair.
(Agnese Guzman, A Borboleta Taoísta)

INFINITOS
Nicolau de Cusa disse que uma circunferência infinita é uma recta; Dovev Rosenkrantz disse que um homem infinito é aquele que não tem parte de fora; Miroslav Bursa disse que uma casa infinita é uma igreja; Teodoro de Reims dizia que uma bebedeira infinita não dá ressaca; Deus determinou que a justiça eterna é o tempo que os tribunais terrestres levam a despachar os processos; e Malgorzata Zajac disse que uma língua infinita é da porteira do meu prédio.

(DO) LABIRINTO DA VIDA
– Tudo o que é vivo tem um ligeiro cheiro a morto – exclamou Marija de Breslov, parteira de Wilhelm Möller, enquanto lhe cortava o cordão umbilical. Admoestada pelo pai da criança sobre a rudeza da frase, respondeu: – Quando nasce uma criança, Sr. coronel, abre-se uma cova. O cordão umbilical é o que nos liga à origem e não nos deixa perder num labirinto, liga-nos à matriz. É o fio de Ariadne que nos cortam para sermos abandonados à mercê do monstro de Minos, à vida labiríntica. Esse cordão, o umbilical, vai para o lixo e é substituído por outro que começa nas minhas mãos de parteira e termina nas do meu marido. Ele é coveiro.

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Ilustração para a capa de ‘Enciclopédia da Estória Universal’

NEOLIBERALISMO E A MODA
«O grande defeito da direita é esse neoliberalismo animal, que considero uma forma de estar aberrante. O grande defeito da esquerda é essa mania de usar casaco com cotoveleiras.»
(Samuel Lieber, Imagiologia do Estadista)

NOTA PASTORAL
«Uma nuvem é uma maneira mais volátil de dizer rio. Os Abokowo, da bacia amazónica, chamam às nuvens rios-pássaros e dizem que cada rio tem seis margens: a esquerda, a direita, a nascente, a foz, o leito e o céu. Já os Ubitatã, do Sudoeste africano, crêem, muito justamente, que as árvores bebem o mar. Chupam-no de longe e transformam cada golo em nuvem que pastoreiam como se apascentam ovelhas e depois fazem-nas chover conforme a sua sede. Por isso é que não há nuvens no deserto. Nenhuma árvore com bom senso mandaria para lá os seus rebanhos de água.»
(Eugène Faucher, As Margens dos Céus)

PESSIMISMO
Há principalmente duas coisas que se perdem com a idade: a visão e o optimismo. Mas para a primeira existem óculos.
(Malgorzata Zajac, Fragmentos do Espanto)

Pré-publicação: ‘Deslizamento’

Eis dois pequenos contos de Jorge Listopad, incluídos no livro Deslizamento (QuidNovi), prestes a seguir para as livrarias:

O comboio de Dita

Para Manuel Gusmão

Vivemos nele. Comboio, este comboio é frio, cheio de soldados que estão a voltar às casernas. É um fim de domingo. Nesse compartimento, sou o único que não está fardado. Mais ela, a rapariga pálida de cabelos loiros, sujos. Ou então é a luz na carruagem que lhe cria a palidez e o resto. Na rede, em cima, as caixas e os sacos militares. A porta do compartimento está a abrir-se a fechar-se; entram outros militares, camaradas, com garrafas de cerveja na mão. Parece-me que é Dezembro, princípio de Dezembro.
A rapariga está quieta, e, tal como eu, não sei porque escolheu este compartimento. Talvez porque houvesse nos outros muitas malas em cima dos bancos e nos corredores. E para mim, que não estou fardado, mais perigosos. É pena que não caísse neve para iluminar um pouco a paisagem nocturna, lá fora. Dois soldados estiveram a falar um com o outro, mas já se calaram cansados, meio adormecidos.
Não sei nada. Isto é a guerra? Ou será apenas a sua ameaça? Aparentemente, só aparentemente, estamos sem destino.
– Você também é alemão? – pergunta-me a rapariga. Não sei o que responder, por prudência.
Pergunto à Renée o que vai ela fazer assim grávida. Mas isto já é, evidentemente, outra situação, outra época, noutro país. Não se trata da Renée com quem vivi dois ou três anos, ou mais – é outra Renée, embora parecida com ela.
É o último dia que aqui estou. Tento dar a impressão de um homem tranquilo, que viaja normalmente para outra cidadezinha, perto da fronteira.
C’est impossible – digo eu. – Qu’est-ce qu’on fera? O marido dela está, não está, está a trabalhar. É simpático, dirige uma secção da UNESCO, que ainda está situada na avenida Kléber. – Não se pode brincar com as crias, digo, com algum mau gosto.
Adivinha-se que nos sacos dos soldados, ou pelo menos de alguns, há roupa limpa. Aliás, são matulões lavados, que parecem mais limpos do que é habitual. Mas cheiram a cerveja. Agora não bebem.
Paixão. Vamos estudar juntos Paul Klee. As nossas baixezas são as assimilações às situações. Creio no que estou a dizer. Paris dégueulasse, terra batida e cultura para os outros.
Mas nada disto eu sabia ainda. Na última estação possível desci, tal como eles, os soldados; Dita, a rapariga, nunca mais a vi. Passei ilegalmente a fronteira para a Suíça, entre a morte e a vida.
Foi isto que aconteceu no comboio da Dita, o resto começou depois.
Entre a claridade e as trevas, entre a memória e o esquecimento, pouco espaço.

O cerco de Kafka

A medalha Franz Kafka chegou por correio com outras cartas, encomendas e folhetos. Foi uma surpresa absolutamente inesperada. Fui à janela para verificar se já tinha começado a nevar. Esqueci-me que estava em Lisboa; a última vez que nevou, durante alguns minutos, foi nos anos sessenta. A máquina da meteorologia local é diferente.
Kafka não é um acaso, mas também não é o destino. À primeira vista tenho qualquer coisa em comum com ele, nos lados literário e existencial, e por isso deixou cedo de me interessar. No mundo começaram a acontecer coisas inenarráveis e, assim, passei a confiar apenas na segunda – ou em nenhuma – vista. Evitava Kafka, não como o diabo mas como um vizinho incómodo que partilhasse connosco a mesma varanda. A sua literatura parecia-me impotente,
enferma, friorenta, auto-hipnótica; de ânimo sufocante causado por uma doença imaginária. Filme a preto e branco numa cópia acinzentada. Escrevi sobre ele uma boa porção de artigos informativos e até reflexões e estudos, mas sempre a pedido de outros, redactores e instituições estrangeiras que nos pressentiam ligados por um parentesco. Na área do teatro, dramatizei os seus contos. Quanto menos estudava Kafka, mais sabia sobre ele e reconhecia a sua realidade antipática.
Kafka é o micélio. Aquilo que não se vê. E nós apenas registamos o que, a partir do substrato complexo e oculto, cresce à luz do mundo. Luz do bosque ou luz da cidade gótica. Chamemos-lhe lusco-fusco. Sombra da sombra. Não há muita coisa objectivamente inegável. Como nos icebergues do mar polar: nove décimos vogam na escuridão das águas.
Kafka nasceu demasiado cedo e demasiado tarde. A medalha de ouro, que eu também recebi demasiado cedo e demasiado tarde, tenho-a exposta no soco estreito da lareira, com um seixo em forma de coração que o ano passado encontrei numa praia amada, com um bilhete de comboio para Kolín, com um gancho de cabelo de H., com uma pedra de âmbar onde ficou imobilizado um insecto sem nome e sem tempo, ao lado de uma pequena cruz polaca de madeira de choupo-tremedor. A lareira, no Inverno húmido deste país meridional, de vez em quando aquece-me.
Escrever quer dizer ir confessando e apagando os rastos.

Pré-publicação: ‘Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe’

Em Março, a Tinta da China vai publicar a Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe, traduzida por Margarida Vale de Gato. Eis, em antecipação, um dos poemas e uma das várias ilustrações de Filipe Abranches que serão incluídas no livro:

A CIDADE NO MAR

Olhai! A morte ergueu seu alto trono
Numa estranha cidade ao abandono,
Lá longe, onde o Sol morre com langor,
E os bons e os maus, e os piores e os melhores,
Desfrutam nessa terra o eterno sono.
Aí, palácios, templos, coruchéus
(Que o tempo corroeu, mas não estremecem!)
Com nada do que é nosso se parecem.
Em torno, resignadas, sob os céus,
Esquecidas do furor da ventania,
Jazem as águas quedas de apatia.

Do santo céu nenhum raio se esparze
Sobre a noite tão longa da cidade;
Mas no mar medonho há uma luz que arde,
Que as torres silenciosamente invade,
Que trepa aos pináculos, tudo abrasa:
As cúpulas, salões, colunas jónicas,
Os fanos, as paredes babilónicas,
Os canteiros sombrios e esquecidos
De flores de pedra e musgo carcomidos…
Os muitos, muitos templos altaneiros
Em cujos frisos se urdem, reunidas,
A viola, a violeta e a videira.

Esquecidas do furor da ventania
Jazem as vagas quedas de apatia.
E nas sombras se enlaçam torreões
Pelo ar em pendulares oscilações,
Enquanto a morte altiva, na seteira,
Vigia a cidade, sobranceira.

Aí fanos e campas se descobrem,
Abertos como as ondas de luz fátua;
Porém, nem as fortunas que se escondem
Nos olhos diamantinos das estátuas,
Nem os mortos de jóias cumulados,
Fazem vibrar as vagas no seu leito;
Pois nada, ai, perturba o mar sujeito
Àquele seu desterro envidraçado…
Nenhuma escuma indica o movimento
De um outro mar distante, mais dilecto…
Nenhuma crispação sugere o vento
Em mares menos quietos e abjectos.

Mas oh, eis que no ar paira uma brisa!
A onda… qualquer coisa que desliza!
Como se as torres, mansas, sucumbissem,
Repelindo a maré do mar estagnado…
E seus cumes um espaço oco cindissem
Entre as nuvens do Céu envernizado.
As ondas brilham já com mais rubor…
As horas sopram já… brando rumor…
E quando, sem qualquer pranto mundano,
Tal reino for tragado pela voragem,
O Inferno, emergindo soberano,
Prestar-lhe-á sua homenagem.

Pré-publicação: ‘O Filho Eterno’

Excerto do segundo capítulo do romance O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, editado em Portugal pela Gradiva (nas livrarias a partir do próximo dia 20):

«Como agora: e ele deu outro gole da bebida, quase entrando no terreno da euforia. Ele queria criar a solenidade daquele momento, uma solenidade para uso próprio, íntimo, intransferível. Como o diretor de uma peça de teatro indicando ao ator os pontos da cena: sinta-se assim; mova-se até ali; sorria. Veja como você tira o cigarro da carteira, sentado sozinho neste banco azul, enquanto aguarda a vinda do seu filho. Cruze as pernas. Pense: você não quis acompanhar o parto. Agora começa a ficar moda os pais acompanharem o parto dos filhos — uma participação quase religiosa. Tudo parece que está virando religião. Mas você não quis, ele se vê dizendo. É que o meu mundo é mental, talvez ele dissesse, se fosse mais velho. Um filho é a idéia de um filho; uma mulher é a idéia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a idéia que fazemos delas; às vezes não. Quase sempre não, mas aí o tempo já passou, e então nos ocupamos de coisas novas, que se encaixam em outra família de idéias. Ele não quis nem mesmo saber se será um filho ou uma filha: a mancha pesada da ecografia, aquele fantasma primitivo que se projetava numa telinha escura, movendo-se na escuridão e no calor, não se traduziu em sexo, apenas em ser. Preferimos não saber, foi o que disseram ao médico. Tudo está bem, parece, é o que importa.
Ali, era enfim a sensação de um tempo parado, suspenso. Naquele silêncio iluminado, em que pequenos ruídos distantes — passos, uma porta que se fecha, alguma voz baixa — ganhavam a solenidade de um breve eco, ele imagina a mudança de sua vida e procura antecipar alguma rotina, para que as coisas não mudem muito. Tem energia de sobra para ficar dias e dias dormindo mal, bebendo cerveja nos intervalos, fumando bastante, dando risadas e contando histórias, enquanto a mulher se recupera. Seria agora um pai, o que sempre dignifica a biografia. Será um pai excelente, ele tem certeza: fará de seu filho a arena de sua visão de mundo. Já tem pronta para ele uma cosmogonia inteira. Lembrou de alguns dos versos de O filho da primavera — a professora amiga vai publicá-los na Revista de Letras. Sim, os versos são bonitos, ele sonhou. O poeta é bom conselheiro. Faça isso, seja assim, respire esse ar, olhe o mundo — as metáforas, uma a uma, evocam a bondade humana. Kipling da província, ele se sente impregnado de humanismo. O filho será a prova definitiva das minhas qualidades, quase chega a dizer em voz alta, no silêncio daquele corredor final, poucos minutos antes de sua nova vida. Era como se o espírito comunitário religioso que florescia secretamente na alma do país, todo o sonho das utopias naturais concentrando seu suave irracionalismo, sua transcendência etérea, a paz celestial dos cordeiros de Deus revividos agora sem fronteiras, rituais ou livros-texto — vale tudo, ó Senhor! —, encontrasse também no poeta marginal, talvez principalmente nele, o seu refúgio. O empreendimento irracional das utopias: cabelos compridos, sandálias franciscanas, as portas da percepção, vida natural, sexo livre, somos todos autênticos. Sim, era preciso um contrapeso, ou o sistema nos mataria a todos, como várias vezes nos matou. Há um descompasso nesse projeto supostamente pessoal, mas isso ele ainda não sabe, ao acaso de uma vida renitentemente provisória; a minha vida não começou ainda, ele gostava de dizer, como quem se defende da própria incompetência — tantos anos dedicados a… a o que mesmo? às letras, à poesia, à vida alternativa, à criação, a alguma coisa maior que ele não sabe o que é — tantos anos e nenhum resultado! Ficar sozinho é uma boa defesa. Vivendo numa cidade com gênios agressivos em cada esquina, ele contempla a magreza de seus contos, finalmente publicados, onde encontra defeitos cada vez que abre uma página. O romance juvenil lançado nacionalmente vai se encerrar na primeira edição, para todo o sempre, depois de uma rusga idiota com o editor de São Paulo, daqui a alguns meses. «É preciso cortar esse parágrafo na segunda edição porque as professorinhas do interior estão reclamando.» Desistiu do livro. Ele não sabe ainda, mas já sente que aquilo não é a sua literatura. Três meses antes terminou O terrorista lírico, e parece que alguma coisa melhor começa ali, ainda informe. Alguém se debatendo para se livrar da influência do guru, tentando sair do mundo das mensagens para o mundo da percepção, sob a frieza da razão. Ele não é mais um poeta. Perdeu para sempre o sentimento do sublime, que, embora soe envelhecido, é o combustível necessário para escrever poesia. A idéia do sublime não basta, ele começa a vislumbrar — com ela, chegamos só ao simulacro. É preciso ter força e peito para chamar a si a linguagem do mundo, sem cair no ridículo. Há algo incompatível entre mim e a poesia, ele se diz, defensivo — assumir a poesia, parece, é assumir uma religião, e ele, desde sempre, é alguém completamente desprovido de sentimento religioso.
Um ser que se move no deserto, ele talvez escrevesse, com alguma pompa, para definir a própria solidão. A solidão como um projeto, não como uma tristeza. Eu ainda não consegui ficar sozinho, conclui, com um fio de angústia — e agora (ele olha para a porta basculante, sem pensar) nunca mais. Começou há pouco a escrever outro romance, Ensaio da Paixão, em que — ele imagina — passará a limpo sua vida. E a dos outros, com a língua da sátira. Ninguém se salvará. Três capítulos prontos. É um livro alegre, ele supõe. Eu preciso começar, de uma vez por todas, ele diz a ele mesmo, e só escrevendo saberá quem é. Assim espera. São coisas demais para organizar, mas talvez justo por isso ele se sinta bem, feliz, povoado de planos.»

Pré-publicação: ‘Myra’

O novo romance de Maria Velho da Costa, Myra (Assírio & Alvim), sucessor de Irene ou o Contrato Social (2000), só vai para as livrarias dentro de cerca de um mês. Data prevista: 23 de Outubro. Enquanto esperam, os muitos admiradores da ficcionista podem levantar desde já uma pontinha do véu. Eis, na íntegra, o segundo capítulo do livro:

«Era noite cerrada. O camionista Kleber segue pela faixa da direita. As traves de madeira estralejam por detrás da cabine. Ora se vê, ora não se vê bem o perfil hirsuto, ruivo, de Kleber. A miúda vai sentada ao seu lado com o cinto de segurança por cima da manta de que só tira uma das mãos para afagar a cabeçorra do cão aos pés. E para ter comido o hamburger que Kleber lhes comprou na estação de serviço.
Os antigos egípcios acreditavam que era um deus-cão, Anubis, que os conduzia na barca dos mortos, diz Kleber.
Eu queria que este se chamasse Tzar, mas eles não deixaram. Que era falta de respeito. Ficou César.
Vem a dar ao mesmo, Sónia. Um nome é um destino. E depois?
Não é não, senão a pessoa mudava de destino cada vez que mudasse de nome. E depois, já lhe contei, só que comecei pelo fim, quando o Senhor Kleber me apanhou na berma, toda encharcada, com o César neste estado.
Myra continuou a bela narrativa. Kleber não parecia espantado, nem incrédulo. Como se tudo na vida fosse possível.
Depois eles fizeram-me vir de lá tinha eu seis anos para eu não ficar ladra como os meus irmãos. A minha avó chorou muito. Eu vim de carrinha em carrinha. Ninguém tinha papéis, mas os que me iam trazendo tinham sempre dinheiro e onde ficar. Quando cheguei aos meus pais não os conheci. Eles também choraram muito mas eu chorava mais com saudades de casa da avó, que era muito pobre mas tinha um quintal e às vezes lá conseguia que eles lhe dessem dinheiro para comprar um ganso que ela engordava com sobras de pão seco e couves do quintal. Isto no Verão porque no Inverno passávamos muito frio a pedir na neve à porta de S. Basílio e das entradas quentes do Metro, até nos enxotarem por causa dos turistas. Escumalha russa, diziam, escumalha russa.
Santa mãe Rússia, disse o Sr. Kleber, abrandando para deixar passar uma carrinha com um carregamento de fardos de palha. Para lá cortiça, para cá palha e betoneiras. Santa mãe Mundo. O cão vai vivo?
Vai sim, agora que comeu e bebeu água da chuva. E vai quente.
E Myra afagou o que não seria mais Rambo.
Vais bem, César?
E o cão agitou a cauda.
Bom, bom, também sabia mentir.
E depois? disse o Sr. Kleber. Como foi cá? Desamarra-lhe a corrente. Há para aí um cinto, o bicho no estado em que está não precisa de levar tanto ferro no cachaço.
Tantos cuidados, pensou Myra. Se eu tiver que fugir deste, como é que faço?
E continuou com a sua narrativa mirífica pela noite e estrada dentro. Clareava. Havia plainos e sobreiros descarnados e casas caiadas, com os pés, as portas e as janelas em azulão. Casas caiadas. Já não estavam na auto-estrada mas num ramal bordejado de mimosas em flor. Pode-se ser morto e esquartejado em qualquer lugar, mas Myra, ladina, não tinha muito por onde escolher. Nem que ele lhe pedisse uma mamada e isso ela tinha aprendido a fazer.
Falta muito? perguntou Myra, no desvio do descampado deserto, agreste de árvores cinza na madrugada, rebanhos de ovelhas e bois com a cabeça descida à terra ocre, de fome, de sono.
Falta o que falta da tua história. E o Sr. Kleber sorriu.
Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.
O Sr. Kleber é professor?
Não, mas fui bem ensinado. Não como crianças e muito menos carne de cão. Ora diz lá, que até chegarmos há tempo.
O que é uma herdade, senhor Kleber?
É aquilo que se herda, mas também se compra e vende.
É sua, a casa?
São várias casas, como cogumelos aos pés de um castanho, que é a patroa, na Casa Grande. É para lá que vais. E depois? Há quanto tempo tens o cão, Sónia?
Há cinco anos, mentiu Myra mais.»

Pré-publicação: ‘A Blusa Romena’

O primeiro romance de António Mega Ferreira, A Blusa Romena (Sextante), começará a chegar às livrarias nos primeiros dias de Outubro. Em antecipação, revelo de seguida as primeiras quatro páginas do livro:

«Por curiosidade, por simples e fatídica curiosidade, aceitei encontrar-me com Duarte Lobo (um nome suposto, evidentemente), na terceira sala da Bertrand do Chiado, a dos livros de Arte e de História, às três e meia da tarde de uma quarta-feira, um dia muito quente de Junho de 2001. O contacto fora igual a tantos outros que me chegavam diariamente, através do correio electrónico. Eram convites para conferências, anúncios de vernissages e de lançamentos, newsletters e pedidos de patrocínio em teses de mestrado. Às conferências respondia que não, às teses de mestrado não dava saída; como não frequentava inaugurações nem promoções editoriais, a remessa diária terminava invariavelmente no ícone do lixo. Ficavam para resposta posterior as mensagens de amigos ou os questionários de jornais e revistas: mas as primeiras eram escassas, talvez porque deixara escassear os amigos, e, quanto aos segundos, basta dizer que chegaram a pedir que eu me pronunciasse sobre as grandes linhas da política energética («à escala global») até meados do século XXI. Não sei a que título fui consultado, mas admito que me tenham confundido com algum especialista na matéria, se é que existe. Em qualquer caso, era para mim um horizonte temático e temporal suficientemente distante para eu me preocupar com ele.
Quase sempre me esquecia de responder. Com isso, ganhei a fama de ser avesso à utilização do computador e de nunca abrir a minha caixa de correio. Os poderes ocultos que controlam a nossa itinerância no espaço virtual sabem que não é verdade. Todos os dias, sem falha, eu ia ver o que me chegara pela rede, para constatar, melancolicamente, que nada – ou quase nada – merecia a vaga ansiedade com que, de manhã e à noite, colocava o cursor sobre a palavra Inbox e clicava duas vezes no rato, na expectativa de que se me revelasse a surpresa de um contacto inesperado e aliciante. Inesperados, eram quase todos; aliciantes, praticamente nenhum.
O que me despertou a atenção na mensagem que me chegara de dlobo@mail.com foi o título: Blusa Romena. Era um eco longínquo, mas tocara-me na memória como qualquer coisa que nos desperta um sinal sonoro longamente adormecido, o primeiro, quase ofegante, repicar de um sino há muito imobilizado. Era um nome que vivia comigo há tanto tempo, que, provavelmente, eu já conseguira esquecê-lo. Mas a sua invocação como título de uma mensagem electrónica, naquela manhã de um dia muito quente de Junho, teve o efeito de o despertar em mim, rapidamente tornando presente tudo o que eu sabia sobre ele. E não era muito.
Há bastante tempo, talvez uns quinze anos, eu começara a escrever uma história que andava à volta do quadro de Matisse A blusa romena, que o pintor datara de 1940. A reprodução do quadro vinha na capa de um livro de Roland Penrose que, durante muitos anos, ocupara o extremo da prateleira da estante da sala, junto à porta da entrada. Todos os dias, era A blusa romena, a mancha branca da camisa bordada que envolvia o busto de uma mulher sem idade, a primeira impressão visual que me chegava com a manhã.
Devo ter-me habituado à Blusa romena de Matisse como nos habituamos às coisas que, com a rotina dos olhares, se transformam em dados indiscutíveis do nosso quotidiano: o carro do vizinho do 4.º esquerdo coberto por um oleado verde-seco, o duplo toque do carteiro, pendularmente, ao meio-dia e um quarto, a dona do quiosque de jornais apoiada sobre os cotovelos no balcão, como se estivesse numa janela de sacada. Tinha-a ali, todos os dias, diante dos meus olhos, e, pouco a pouco, um novelo qualquer foi-se formando na minha memória, uma espécie de reminiscência pressentida de uma verdade que eu já soubera, mas que fora recuando para o esquecimento, movida pela intensidade cromática do quadro de Matisse. Nunca passei da terceira página da história e nunca soube verdadeiramente porque começara a escrevê-la, muito menos até onde me poderia levar. Numa das arrumações da estante, a capa do livro desapareceu da minha vista, espalmada entre um estudo de Gombrich (O legado de Apeles) e os ensaios de Abraham Moles sobre o kitsch. Nunca mais pensei na Blusa romena.
A mensagem de Duarte Lobo dizia o seguinte:

“exmo. senhor,
contacto-o por causa de um assunto de natureza literária. acontece que li com muito interesse o seu livro sobre caravaggio e, por coincidência, vi, pouco tempo depois de o ter lido, uma entrevista sua na qual referia, de passagem, uma história que nunca conseguiu escrever e a que deu o título de A blusa romena. sei perfeitamente como nos pesam, pela vida fora, os projectos que nunca fomos capazes de concretizar (aliás, se não fosse assim, por que razão o teria referido na sua entrevista?). acho que, pelo menos no que se refere à blusa romena, estou em condições de ajudá-lo. há coisas que se passaram na minha vida, além de elementos que entraram na minha posse, tudo relacionado com esse quadro de matisse. creio que v. exa., como excelente investigador que é, pode encontrar interesse neles. o resto cabe ao seu talento de escritor; acho que tenho a história que dará corpo, finalmente, à sua blusa romena. se a curiosidade do escritor não se atemorizar com a singularidade do contacto, proponho-lhe que nos encontremos na quarta-feira, dia 20 p.f., na livraria bertrand, ao chiado, na sala dos livros de arte. eu terei nas mãos um exemplar do seu livro os últimos dias de caravaggio, mas é natural que o veja primeiro e tomarei a liberdade de me dirigir a si.
com os melhores cumprimentos,
duarte lobo”»

Pré-publicação: ‘O anjo literário’, de Eduardo Halfon (Cavalo de Ferro)

o anjo literário

Eduardo Halfon (n. 1971) é um escritor guatemalteco ainda inédito em Portugal. A meio de Fevereiro, coincidindo com a sua passagem pelas Correntes d’Escritas, a Cavalo de Ferro lançará O anjo literário, conjunto de seis textos breves (a meio caminho entre a ficção e o ensaio) sobre as circunstâncias e as motivações que levaram vários escritores famosos a cair na literatura. Finalista do Prémio Herralde, o livro foi traduzido por Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. A apresentação da obra será feita pelo Pedro Mexia a 18 de Fevereiro (18h30) na Casa Fernando Pessoa.
Em jeito de antecipação, a editora permitiu-nos revelar o início do segundo capítulo (Como a maré):

«Estava numa lavandaria de Iowa City, a ler um conto de Chekov enquanto a roupa dos seus filhos dava voltas em quatro máquinas de lavar. Tivera de se encostar a uma parede; as três únicas cadeiras estavam ocupadas. No tecto, uma ventoinha misturava o calor de Verão com aquele das máquinas de secar. Era final de Agosto, 1964. Estava a suar. Continuava enjoado. Por cima do barulho vertiginoso das máquinas, conseguia ouvir um fundo de música instrumental. Parando à frente dele, uma senhora insultou-o por estar a usar quatro máquinas de lavar ao mesmo tempo. Ele gritou-lhe algo de volta e ela foi-se embora, a resmungar, com as peças de roupa amontoadas numa velha caixa de cartão.
De quando em quando, pegava no lápis que mantinha sobre a orelha e escrevia algumas palavras na primeira página em branco do livro: pensamentos soltos, frases, cenas, ideias para desenvolver mais tarde. Não se lembrava de quando decidira tornar-se escritor. Nem porquê. Porém, sem que disso se apercebesse, tinha afastado a possibilidade de escrever um romance. Para além de não conseguir concentrar-se durante períodos muito longos, achava que os romancistas viviam num mundo que, para eles, tinha sentido. O seu mundo, em contrapartida, era insensato. Passava o mês inteiro a preocupar-se com o pagamento da renda e a manutenção dos filhos. Não havia tempo para grandes narrativas. Só escrevia textos de uma assentada. Poemas. Contos. Depois, durante semanas, reescrevia-os com prazer, dez, quinze, vinte vezes.
Há mais de um ano que estava em Iowa City. Graças ao punhado de escritos que conseguira publicar em algumas revistas literárias, a Universidade de Iowa concedera-lhe uma bolsa para participar no seu famoso Writer’s Workshop. E há mais de um ano que ali estava, enclausurado num canto da sala de aulas, participando em silêncio.
A primeira máquina de lavar acabou.
Colocou a cesta de plástico vermelho à beira da pequena porta e, com o livro de Chekov debaixo do braço, de joelhos, tirou os trapos molhados. Fez a mesma coisa nas outras três máquinas, até acumular uma pequena montanha de cuecas, peúgas e t-shirts infantis que emanavam um repugnante vapor de humidade e sabão.
As máquinas de secar estavam todas ocupadas. Ficou em pé, a ler, a suar, com a cesta vermelha entre as pernas. Tinha de ir buscar os filhos daí a menos de uma hora.

HALFON: Quando é que começaste a escrever, Sergio?
RAMÍREZ: Mais do que a escrever, comecei a desenhar com giz no chão da mercearia do meu pai, em Masatepe, na Nicarágua, aos cinco anos. Eram histórias com argumento, efémeras porque a empregada doméstica as ia apagando com o esfregão atrás de mim. Mas ali, com a cara nos ladrilhos, deixava voar a imaginação.
HALFON: Lembras-te de alguma coisa ou de alguém que te tenha influenciado?
RAMÍREZ: A minha mãe. Talvez não me visse como um escritor de profissão, mas antes como alguém de cuja vida a literatura teria de fazer parte. Aos doze anos, induziu-me a escrever a crónica de uma viagem à praia, “As minhas férias no mar”, que foi publicada na revista do colégio. E com essa
idade, escrevi um sketch radiofónico, pelo qual ganhei duas garrafas de rum Cañita, o meu primeiro prémio literário.
HALFON: Falas de uma crónica que te induziu a escrever, Sergio, mas, haverá outras pontes que ela te tenha estendido para a literatura?
RAMÍREZ: A minha mãe foi educada no Colégio Baptista de Manágua, dirigido por protestantes rigorosos e muito sérios. Parece-me que essa circunstância impôs um travão selectivo às suas próprias leituras enquanto jovem, embora depois, já eu estava longe de casa, se tivesse tornado uma leitora voraz e partilhássemos recomendações de livros. Lembro-me de que uma vez, quando eu tinha catorze anos, ela pegou no livro que eu estava a ler, Os caminhos da liberdade, de Sartre, e, depois de o folhear, me disse que não era recomendável, mas sem mo proibir. Vargas Vila, que tinha uma fama negra de depravado, também a assustava.
HALFON: Existe alguma influência…
RAMÍREZ: Desculpa, Eduardo. Não sei porque é que me esqueci de te mencionar que, nesses anos da minha adolescência, um primo da minha mãe me deu a ler uma cópia dactilografada de A Condessa Gamiani, um livro de excessos e promiscuidades sexuais que, anos depois, descobri que era de Alfred de Musset. A minha mãe teria ficado horrorizada.
HALFON: Existe alguma influência paterna, Sergio, na tua literatura?
RAMÍREZ: O meu pai, pelo contrário, não lia. Com ele, que era comerciante, e com os meus tios músicos, aprendi uma coisa muito valiosa para um escritor: o sentido de humor sem recato. Aprendi a rir-me de mim próprio, como eles faziam.
HALFON: Consegues situar o momento em que decidiste dedicar-te às letras?
RAMÍREZ: Quando, aos dezassete anos, escrevi o meu primeiro conto, “O estudante”. A partir desse momento, soube que acabar um conto, dando-lhe um fim, era saber-se parte de uma confraria de artistas. Depois, três anos mais tarde, saiu o meu primeiro livro, Contos. Já era um caminho sem regresso.

Existe o momento da primeira inspiração literária. O primeiro golpe. Como escritor, suspeito de que todas as pessoas que decidem fazer uma incursão no mundo das letras, sem dúvida, sem dúvida alguma, têm um momento específico de génese literária. Situá-lo é diferente. Dito de outra forma: em que momento é que alguém se torna escritor? Dito ainda de outra forma: em que momento é que alguém é engravidado por esse estranho anseio de narrar, de contar, de escrever, de adoptar as palavras como sua forma de expressão e, em certos casos, seu modus vivendi? Encontrar esse instante e narrá-lo. Encontrar o momento preciso em que uma pessoa qualquer deixa de ser uma virgem literária e começa a fazer amor com as palavras; ou, como me disse um amigo: encontrar o momento da vida de pessoas com tão poucas circunstâncias propícias em que um anjo as sobrevoa e as faz cair na literatura.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges