Bartleby no Teatro do Bairro

De 19 a 22 de Setembro, no Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano, 63, Lisboa), estará em cena o espectáculo Bartleby, um experimento de Melville, adaptação da célebre novela sobre o escrivão que «preferia não o fazer» pela companhia Artivício, com encenação de Rosa Coutinho Cabral. Bilhetes a cinco euros.

‘Jerusalém’ sobe à cena em Atenas

Editado recentemente na Grécia, pela editora Kastaniotis, o romance Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares foi adaptado para teatro por Vana Pefani e Yannis Karkanevatos. A peça, encenada por Pefani, estará em cena até 2 de Outubro, na sede da Fundação Michael Cacoyannis, em Atenas.

Elefante Salomão chega hoje a Lisboa

Praça do Município, 21h30. Mais informações aqui.

O vento que se levanta

sala-vip

Sala VIP
Autor: Jorge Silva Melo
Editora: Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos)
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-989-20-3972-5
Ano de publicação: 2013

Na Sala VIP de um aeroporto internacional, quatro cantores líricos (soprano, mezzo, barítono, tenor), acompanhados pelo seu empresário, esperam noite dentro por uma ligação aérea, a caminho de uma récita que está em risco de ser cancelada. É neste não-lugar – um espaço de transição, neutro, anódino e despojado (até a máquina distribuidora de snacks está vazia) – que Jorge Silva Melo instala as personagens da peça que escreveu a convite do encenador Pedro Gil, mas atravessada, como o dramaturgo admitiu nas notas de produção do espectáculo (estreado na Culturgest, em Julho), por «aquilo que me interessa, aquilo que me inquieta, este meu mundo que termina em breve».
Nas falas sobrepostas dos cantores decadentes e do empresário embrutecido pelo álcool, vemos de facto desfilar muitos dos temas caros a Silva Melo: o poder do dinheiro, a desconstrução da memória, os jogos sexuais, os vasos comunicantes com outras obras (através de um labirinto verbal de referências e citações), a nostalgia política, a amargura das ilusões que se esfumam, tudo numa atmosfera de desencanto crepuscular. “Já não há tiradas, árias, apartes, solilóquios, já não sabem o que é esquerda baixa nem projectar a voz, alexandrinos, já não há lustres, nem caixa do ponto, nem rosas nos camarins…»
O teatro acaba – mas não só o teatro. Na sala de espera do aeroporto, no SPA de um hotel de luxo ou numa clínica privada (quando a tragédia se instala), estas figuras perdidas de si mesmas dançam a melancólica valsa do fim da esperança, tentando resistir ao vento que se levanta, agreste, numa paisagem tão desolada como o deserto em que morre a Manon Lescaut de Puccini, o alicerce oculto desta peça subtil.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um homem, dez cantos

Durante o dia de hoje, das dez da manhã à meia-noite, no Pequeno Auditório do CCB, o actor António Fonseca vai recitar de cor o texto integral d’ Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões. Trazer assim uma epopeia inteira dentro da cabeça: eis um acto de grande coragem intelectual. Eu tentarei assistir aos cantos IX e X, lá mais para a noitinha.

O Festival

Eu estava sentado na terceira fila. Por baixo de mim, a dureza do banco de madeira, a ser mais um degrau da grande plateia erguida na Escola D. António da Costa, desde há muitos anos o «coração» do Festival de Teatro de Almada. Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite. À minha volta, o silêncio do público. O silêncio de quem está preso ao que se passa em cima do palco e gosta de se sentir assim: preso. À minha frente, o palco. O palco iluminado. Luzes de projectores como se fossem o sol na Inglaterra do séc. XVI. O palco sem nada. Nenhum cenário, nada, nem sequer uma cadeira. Só um homem e a sua mala. Um homem mais a sua mala (de vez em quando pousada no chão; de vez em quando aberta para tirar, lá de dentro, um pano ou uma máscara). E as palavras. As palavras de Tubal – a personagem – ditas por Manel Barceló, o actor.
Eu não conhecia Tubal e creio que o público silencioso – muitas cabeças no escuro, à minha volta – também não. Porque Tubal é uma das mais obscuras personagens de Shakespeare, com um papel ainda menos importante, no enredo do Mercador de Veneza, do que o de Rosencrantz e Guildenstern na trama de Hamlet. Antes de ser resgatada por este brilhante monólogo de Gareth Armstrong, Tubal era uma sombra fugaz que durava oito réplicas. Oito frases num diálogo com Shylock, o judeu que empresta dinheiro a António, o mercador, exigindo uma libra da carne deste como penhor. Tubal não é apenas o melhor amigo de Shylock. «Sou o único», diz com orgulho, uma e outra vez. É talvez por ser seu amigo que tenta mostrar-nos outra imagem do «judeu maldoso», livrando-o do labéu diabólico e aproveitando para fazer a exegese desta peça de Shakespeare (devidamente enquadrada na restante obra do bardo, bem como no contexto do teatro isabelino), isto enquanto narra as desventuras e tragédias da História dos judeus na Europa.

Estava portanto sentado na terceira fila, contemplando Tubal a desmultiplicar-se em narrativas dentro de narrativas, transfigurando-se em 43 personagens diferentes – actores, bispos, soldados, o próprio rei – quando aquilo aconteceu. E não sei sequer explicar o que cabe na palavra «aquilo». Foi talvez uma frase dita num murmúrio, um gesto brusco, uma risada, o som da enorme mala a poisar nas tábuas. Foi qualquer coisa que accionou subitamente os mecanismos da memória, uma versão teatral da madalena de Proust. Sei apenas que me ausentei por momentos dali, da terceira fila. E regressei aos meus 12 anos.
Em 1984, eu tinha 12 anos e assisti ao primeiro Festival de Teatro de Almada. Era outra coisa, muito mais pequena, muito mais modesta. Um palco diminuto, ao fundo do Beco dos Tanoeiros, cadeiras de café em ferro (emprestadas daqui e dali), cem pessoas no máximo a assistir, mais as que espreitavam das janelas. Grupos amadores, erros e ingenuidades, uma alegria imensa de ver o mundo a ganhar forma sobre o palco. Depois, fui crescendo e o Festival também. Recordo todos os lugares por onde passou, por onde passámos: o Pátio do Prior do Crato (sempre à cunha; e mais ainda quando lá foi o Mário Viegas), o Largo da Boca do Vento (com as primeiras companhias estrangeiras), o Palácio da Cerca (inclinado sobre Lisboa, recebendo as brisas frescas que sobem do Tejo), o Teatro Municipal e, por fim, a Escola D. António da Costa. A minha antiga escola, a escola onde fiz o ensino preparatório. Abre-se uma memória dentro da memória e revejo as tropelias, as corridas, os cromos com as caras feias dos futebolistas, o jogo do alho, o cerco às raparigas (na fase dos apalpões), as conversas com o meu amigo Prakash Pratapsi Udeshi, um matulão indiano que viera de Moçambique (às vezes ainda tomava banho com leite de cabra, dizia ele) e que foi o meu adversário, vencido, na final do campeonato escolar de xadrez.
Recordo-me depois dos espectáculos que me marcaram. E foram tantos. De alguns perdi as referências: aqueles quatro actores que simulavam um quarteto de cordas (como se chamava a peça? de onde vinham eles?) ou o grupo que interpretou magistralmente a peça O Aumento, de Georges Perec. De outros lembro-me bem: o actor Rafael El Brujo Alvarez a levar ao rubro o Palácio da Cerca, com o seu esfomeado Lazarillo de Tormes; os Touros, Majas y otras Zarandajas, do colectivo Margen (Oviedo), a incendiarem as ruas de Almada; a hipnótica Viagem ao Centro da Terra no comboio transfigurado dos chilenos La Troppa; a poesia de Lorca dita por Núria Espert; as principais peças das grandes companhias portuguesas; ou os trabalhos recentes dos melhores encenadores europeus (Peter Brook, Joan Font, Bernard Sobel; a lista é longa).
Em todos estes anos – sou testemunha credível, porque não falhei uma edição que fosse – há uma figura que permanece no centro das operações e é a própria essência do Festival, mesmo quando se esconde atrás das cortinas para dar a ribalta aos actores. É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos. Chama-se Joaquim Benite e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras. Quando o encontro, junto ao portão da escola, dando as boas-vindas aos espectadores, orgulhoso das peças que lhes vai oferecer logo a seguir, percebo que nem todos os caminhos da cultura estão condenados a terminar no deserto da frustração. Eu vi a barba deste homem a ficar branca com o passar do tempo, esse rio feito de júbilos, sustos, dúvidas, esperanças, inquietações. Mas vi também que o brilho dos seus olhos nunca esmoreceu. É hoje mais intenso do que nunca.
Intenso como a voz – agora triste, agora carregada de melancolia – do actor Manel Barceló, aliás Tubal. A peça está a terminar e ele acaba de explicar-nos a forma repentina como Shylock desaparece dos diálogos finais do Mercador de Veneza. O judeu, vencido no tribunal, mergulha no seu próprio infortúnio, cai na sombra da perdição. E eu desperto da minha viagem no tempo, enquanto Tubal se afasta com a sua mala, desaparecendo aos poucos na penumbra do palco. À minha volta, o silêncio do público desfaz-se. Aplausos, pessoas de pé, mais aplausos. Eu continuo na terceira fila, levanto-me, grito «bravo». Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite.

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em Julho de 2003]

Hemingway ao palco

A partir do romance The Sun Also Rises, de Ernest Hemingway, a companhia nova-iorquina Elevator Repair Service criou uma encenação teatral em que o «palco repleto de cadeiras e garrafas de bebidas alcoólicas transforma-se sem dificuldade nos cafés de Paris ou nas ruas de Pamplona». Esta é a conclusão de uma trilogia que partiu de obras centrais da literatura norte-americana do século XX, iniciada com Scott Fitzgerald (O Grande Gatsby) e Faulkner (O Som e a Fúria). The Select termina a sua curta passagem por Lisboa logo à noite, a partir das 21h30, na Culturgest.

Ler para dentro

Uma biblioteca é, por definição, um espaço de silêncio. Silêncio absoluto, para que as pessoas curvadas sobre os livros possam concentrar-se. Mas se entrarmos na sala de leitura e nos sentarmos numa das mesas (atentos, quietos, com os sentidos alerta), compreendemos que talvez não seja bem assim. À nossa volta, os ruídos multiplicam-se: tosses, passos, espirros, respirações, dedos matraqueando em teclados de computador, zumbidos, objectos que caem, coisas a rasparem noutras coisas, ecos de maquinarias distantes, o troar de um avião que segue a sua rota sobre o telhado, já em descida para o aeroporto. «Não será antes a biblioteca um lugar dedicado à “recolha de sons”?», pergunta uma voz aos nossos ouvidos.
Essa voz sussurrada – prestes a dar-nos todo o tipo de indicações e ordens – é a que guia os espectadores/participantes durante os 50 minutos de The Quiet Volume/O Volume Sossegado, peça de «autoteatro» criada por Ant Hampton (fundador da companhia Rotozaza) e Tim Etchells (director artístico dos Forced Entertainment) para o festival ‘Ciudades Paralelas‘, em Berlim (2010), tendo já passado por Buenos Aires, Varsóvia, Zurique e Londres, antes de chegar à Biblioteca Nacional de Lisboa, onde pode ser vista (ou melhor, ouvida) até 9 de Junho, integrada na programação do alkantara festival.

Munido de um iPod com auscultadores, cada participante senta-se numa mesa, a um canto da sala de leitura da BN, lado a lado com outro participante nas mesmíssimas condições, que servirá de «duplo» e cúmplice durante o espectáculo. À frente, um caderno escrito e quatro livros numa pilha: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago; Trilogia da Cidade de K., de Agóta Kristóf; Quando Éramos Órfãos, de Kazuo Ishiguro; e um volume com fotografias panorâmicas de grandes cidades. A voz narrativa (Pedro Penim) conduz-nos em todas as acções: ler, parar de ler, mudar de página, mudar de livro, seguir certas frases com o dedo, interagir com o companheiro, contemplar o espaço em volta e as pessoas que o ocupam, etc. Aos poucos, da observação de uma circunstância (estar sentado numa sala silenciosa que não é assim tão silenciosa), passamos para movimentos de apropriação física (as páginas em branco, a textura do papel) e depois para os próprios mecanismos da leitura. Na sua maioria, estes são processos inconscientes. Quando lemos, não pensamos na forma como os símbolos inscritos se transformam em ideias no nosso cérebro. O acto da leitura é, em si mesmo, um instrumento transparente. The Quiet Volume torna-o visível. Ao decompô-lo nas suas partes, assistimos ao modo como funciona, como se articula no espaço mental e até como por vezes se dissocia do que está efectivamente inscrito no papel.
Através do condicionamento imposto pela voz, que tem a autoridade de um encenador a fazer marcações num palco, o livro à nossa frente converte-se numa espécie de teatro – um «teatro portátil». Nas palavras de Hampton, entramos «nesse mundo plano e permitimos que se dê a estranha dança triangulada entre o dedo, o olho e a imaginação». O espaço plano ganha então volume e expande-se: «A velocidade lenta de um dedo que acompanha uma linha de texto começa a torcer o tempo; retardando-o, duplicando-o, alongando-o.» Deste modo, a leitura transforma-se numa acção performativa com potencial dramatúrgico, precisamente o que atraiu Etchells para o projecto: «O agora da página é o que me prende – o momento presente, aqui convocado com este arranjo de marcas/códigos, tinta/pixéis, letras e palavras.»
Saltando entre o caderno com frases que nos interpelam (ou se dissolvem) e os livros propriamente ditos – a descoberta da cegueira nas primeiras páginas de Saramago, os dois irmãos que inventam mentiras para não ir à escola (Kristóf) e imagens da destruição numa Beirute bombardeada (Ishiguro) –, construímos dentro da cabeça um mundo, sem que o resto da biblioteca se aperceba. «Há sempre um certo atrito entre a esfera privada e a pública», lembra Hampton. «E desse atrito pode nascer uma emoção.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Na Biblioteca, ouvindo uma voz

The Quiet Volume é um magnífico espectáculo de autoteatro, criado por Ant Hampton e Tim Etchells. Já está «em cena» na sala de leitura da Biblioteca Nacional, integrado na programação do alkantara festival. Para leitores vorazes, como serão muitos dos frequentadores deste blogue, trata-se de uma experiência a não perder.

O avião de Beethoven

«HENRY
(…) Não sei se já pensaste nisso, mas é curioso como tantos dos maiores de sempre começavam com B: Beethoven, Buddy Holly…

ANNIE
É só isso que têm em comum.

HENRY
Eu não diria isso. Estão ambos mortos. O Buddy Holly morreu no mesmo acidente de avião que matou o Richie Valens, sabias?

ANNIE
Não, não sabia. Desististe da peça ou quê?

HENRY
O Buddy Holly tinha vinte e dois anos. Pensa no que ele poderia ter feito. Se o Beethoven tivesse morrido num acidente de avião aos vinte e dois, a história da música teria sido muito diferente. E a história da aviação também.

[in Agora a Sério, de Tom Stoppard, versão de Pedro Mexia, Tinta da China, 2010]

A ideia de escritor

«HENRY
Ele está no comboio.
“És um rapaz estranho, Billy. Que idade tens?”
“Vinte. Mas já vivi mais do que alguma vez viverás.”
Queres que leia alto?

ANNIE
Se quiseres.

HENRY
Vou voltar um bocado atrás. À cena em que eles se encontram, está bem?
[ANNIE diz que sim com a cabeça. HENRY imita um comboio. Ela fica na defensiva, sem ter a certeza se ele está a ser sarcástico.
Ele lê.
]
“Este lugar está vago?”
“Sim.”
“Dá-me licença?”
“É um país livre.”
“[Ele senta-se em frente dela, Mary continua a ler o livro.]”
“Vai para longe?”
“Para Londres.”
“Então, estava a dizer, acha que somos um país livre?”
“Você não acha?”
“É assim, somos livres para fazermos o que nos mandam. O meu nome é Bill, já agora. E o seu?”
“Mary.”
“Prazer em conhecê-la, Mary.”
“Prazer, Bill.”
“Sabe a que horas é que o comboio chega a Londres?”
“Por volta da uma e meia, acho, se chegar a horas.”
“Mary, você faz-me lembrar o Mussolini. Sim, é muito parecida com ele. Tem os mesmos olhos verdes.”

ANNIE
Se não vais ler a sério não te incomodes.

HENRY
Desculpa.
“Por volta da uma e meia, acho, se chegar a horas.”
“Mary, você faz-me lembrar o Mussolini. As pessoas diziam do Mussolini: ele pode ser fascista mas ao menos os comboios chegam a horas. Faz-nos pensar porque é que os comboios ingleses não chegam a horas, não é?”
“Como assim?”
“Quer dizer, tem graça, os fascistas estão no poder mas os comboios continuam atrasados.”
“Mas isto não é um país fascista.”
“Tem a certeza, Mary? Olhe o exército.”
Tu não vais fazer isto, pois não?

ANNIE
Porque não?

HENRY
Porque não presta.

ANNIE
Queres dizer que não é literatura.

HENRY
Não é literatura e não presta. Ele não sabe escrever.

ANNIE
És um snob.

HENRY
Eu sou um snob e ele não sabe escrever.

ANNIE
Eu sei que é cru, mas ele tem coisas a dizer.

HENRY
Ele tem coisas a dizer. Acontece que são coisas extremamente patetas e preconceituosas. Mas tirando isso há ainda um problema: ele não sabe escrever. Sabe incendiar coisas, mas não sabe escrever.

ANNIE
Dá cá. Não te devia ter pedido.

HENRY
Por amor de Deus, Annie. Se não fosse pelo Brook nunca farias isto.

ANNIE
Mas é pelo Brook, aí é que está. Há dois anos e meio ele nem conseguia juntar seis palavras.

HENRY
Ainda não consegue.

ANNIE
Idiota.

HENRY
Eu sou um idiota e ele não sabe…

ANNIE
Olha que levas. Tu é que és preconceituoso. És preconceituoso quanto ao que é literatura. Julgas tudo como se toda a gente partisse da mesma posição e tivesse os mesmos objectivos. Shakespeare vai à frente por mais de uma milha e o resto do pelotão tenta com todas as forças alcançá-lo. Vocês escrevem todos para pessoas que gostavam de escrever como vocês, se soubessem escrever. Bem, que se fodam. E que se foda o Shakespeare.

HENRY
Ok.

ANNIE
O Brook não escreve para competir contigo. Escreve para ser ouvido.

HENRY
Ok.

ANNIE
E fez tudo sozinho.

HENRY
Sim, sim. Vê-se que leu muito.

ANNIE
Não podes esperar que seja Shakespeare.

HENRY
Não.

ANNIE
Ele é um prisioneiro que grita através das grades.

HENRY
Pois, sim. Estou a ver.

ANNIE
Cala-te. Não suporto que concordes comigo só para me agradares. Prefiro o sarcasmo.

HENRY
Porquê uma peça? Foste tu que o sugeriste?

ANNIE
Não exactamente.

HENRY
Porque é que fizeste isso?

ANNIE
O comité, o que resta do comité pensou… Quer dizer, as pessoas cansaram-se do Brook. As pessoas cansam-se de tudo, depois de dois ou três anos. A campanha precisa…

HENRY
De uma injecção?

ANNIE
Não, precisa de…

HENRY
De um pontapé?

ANNIE
[Explode.] Que raio. Pára com isso de acabar as minhas frases.

HENRY
Desculpa.

ANNIE
Já não sei o que ia a dizer.

HENRY
A campanha precisa…

ANNIE
É difícil ignorar um escritor. E pensei, as peças de televisão são discutidas, têm algum impacto. Talvez reabra o processo. Achas que é possível? A sério, Henry, o que é que achas?

HENRY
Acho que faz todo o sentido.

ANNIE
Não. O que é que achas mesmo?

HENRY
Ah, o que acho mesmo? Bem, o que acho mesmo é que escrever peças péssimas não é, em si mesmo, uma prova de reabilitação. E, ainda menos, prova de uma condenação injusta. Mas mesmo que fosse, acho que quem se cansou do Brook se vai entediar de morte com esta defesa. Se é que alguém vai aguentar, porque tem metade do tamanho do Das Kapital e o dobro da graça. Acho que devias saber isto.

ANNIE
És um arrogante de merda.

HENRY
Dizes demasiadas asneiras.

ANNIE
O Roger quer fazer o filme, em princípio.

HENRY
Qual Roger? Ah, o Roger. Porque é que o Roger quer fazer isso?

ANNIE
Ele está no comité. Isto só precisa de um pouco de trabalho.

HENRY
Vocês são uns vigaristas.

ANNIE
Estás com ciúmes?

HENRY
Do Brook?

ANNIE
Estás com ciúmes da ideia de escritor. Queres que continue sagrada, especial, e não uma coisa que toda a gente pode fazer. Alguns de nós têm esse dom, outros não têm. Nós escrevemos, vocês são o nosso tema. O que te irrita no Brook é que ele não conhece o seu lugar. Tu dizes que ele não sabe escrever como um porteiro de um restaurante que diz que não se pode entrar sem gravata. Porque ele não sabe juntar palavras. O que é que tem de especial saber juntar palavras?

HENRY
É tradicionalmente considerada uma vantagem para um escritor.

ANNIE
Ele não é um escritor, é um prisioneiro. Tu és um escritor. Escreves porque és um escritor. Quando escreves acerca de uma coisa tens de inventar alguma coisa sobre aquilo que escreves porque tens de continuar a escrever. Mais palavras escolhidas que ficam bem juntas. E depois? Porque é que tem de ser isso? Quem é que disse que é assim?

HENRY
Ninguém disse, mas funciona melhor.

[in Agora a Sério, de Tom Stoppard, versão de Pedro Mexia, Tinta da China, 2010]

Três vezes Rubem Fonseca

Entre hoje (quinta-feira) e sábado, A Escola da Noite, em co-produção com a Companhia de Teatro de Braga, vai estrear em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo (21h30), três espectáculos, com dramaturgia e encenação de António Augusto Barros, que formam uma Trilogia Rubem Fonseca. Os espectáculos, construídos a partir de cerca de duas dezenas de contos do escritor brasileiro, intitulam-se 1. José (estreia hoje), 2. Rubem (estreia amanhã) e 3. Fonseca (estreia no sábado).
Mais informações aqui.

net-rubem-estreia

O senhor Valéry no Barreiro

«O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.
Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.
O senhor Valéry dizia:
— É preferível assim.
E explicava:
— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.
E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.
Ele explicava:
— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.
Teorizando dizia ainda:
— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.
Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.
O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:
— O espelho é para os egoístas.
— E o desenho? — perguntaram-lhe.
— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.
As pessoas gostavam do senhor Valéry.»

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A companhia teatral Vigilâmbulo Caolho apresenta pela última vez, hoje e dia 9, no Auditório Municipal Augusto Cabrita (Barreiro), pelas 16h00, o espectáculo O Senhor Valéry, a partir do livro de Gonçalo M. Tavares, com Carlos Marques, Nicolas Brites e Pedro Manuel, dirigidos por Júlio Mesquita.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges