Arte da edição

Vale a pena ler, de fio a pavio, esta entrevista a Mary Norris, uma das responsáveis pela impecável, minuciosa e hiper-perfeccionista edição dos textos da revista The New Yorker. Para um jornalista português, olhar para a maneira como aquela gente trabalha é o mesmo que um treinador-adjunto do Ramaldense assistir a uma sessão de trabalho do Pep Guardiola com os seus jogadores, no relvado do Camp Nou.



Comentários

5 Responses to “Arte da edição”

  1. leal maria on Agosto 13th, 2010 22:25

    Aí está… o tradicional provincianismo português: “tudo o que vem de fora é muito melhor do que por cá se vai fazendo…”
    Seria exaustivo enumerar a miríade de exemplos em que estamos uns furos acima do que os outros fazem em determinadas áreas. Como também seria exaustivo enumerar o que lá fora se vai fazendo bem enquanto por aqui teimamos em fazer mal. Conclusão: É um lugar comum; mas a verdade é que todos somos maus em alguma coisa e bons noutras. No caso do jornalismo português; sem dificuldade, dar-te-ia mil e um exemplos de excelência. Como também, sem dificuldade, dar-te-ia mil e um exemplos do execrável jornalismo que lá por fora se vai (infelizmente) fazendo. Tens noção, José Mário, que, sendo um rapaz de reconhecidos méritos, amiúde, resvalas para o mais puro parolismo ( Parolismo – de parolo; se me permitem a liberdade linguística). Fizeste-me lembrar, com este teu post, aqueles nossos emigrantes que, dignificando a nossa nação, na estranja, com a sua abnegação ao trabalho; na ânsia de se fazerem notar, quando em férias por cá, se esquecem da língua que dá forma aos seus mais sinceros afectos.
    aaafff… por vezes não tenho a mínima paciência para ti. Não estragues este teu excelente blog, com esse teu pedantismo.

    Luis Leal

  2. José Mário Silva on Agosto 14th, 2010 10:29

    Caro Luís,

    Pergunto-me apenas se leste a entrevista que o meu post referia. Não deves ter lido. Em quase 20 anos de profissão, passei pelas redacções de alguns dos melhores jornais de referência portugueses, do ‘Diário de Notícias’ ao ‘Expresso’. E assisti à progressiva diminuição dos controlos de qualidade dos textos impressos. Só para teres uma ideia, quando comecei a escrever no DN, no início da década de 90, havia umas seis pessoas a rever atentamente textos naquilo a que se chamava “o fecho”. Lembro-me deles, rodeados por pilhas de dicionários e enciclopédias (ainda não havia internet). Eram revisores experientes e profundos conhecedores da língua portuguesa, profissionais séniores que não deixavam passar disparates gramaticais, construções de frase abstrusas ou gralhas embaraçosas. Em 2007, quando saí do jornal, havia dois jornalistas para a mesma função e por vezes apenas um (por causa das folgas). Resultado: muitas vezes era impossível ler sequer na diagonal, quanto mais corrigir, um considerável número de páginas. O mesmo se deve passar no ‘Público’, se tivermos em conta o número de gralhas e lapsos que se encontram nas suas páginas todos os dias.
    Meu amigo, a excelência no jornalismo paga-se caro, porque implica uma cadeia sólida de processos que evitem aquilo que está sempre à espera de acontecer: o erro. Além de todos os extraordinários mecanismos de controlo da qualidade, não só jornalística mas literária, que fizeram e fazem a justa fama da “The New Yorker”, tão bem explicados por Mary Norris, existe algo nas redacções americanas que eu nunca vi em Portugal e que é, parece-me, fundamental para garantir a confiança na informação que se transmite. Chamam-lhe “fact checking”; ou, se quiseres, a “comprovação dos factos”. Quando um jornalista apresenta um trabalho, tem que entregar os contactos das pessoas que entrevistou e alguém telefona a essas pessoas a perguntar: “foi mesmo isto que disse? foi mesmo assim que se passou?” Em Portugal, os editores confiam plenamente na honestidade e seriedade dos jornalistas. E às vezes queimam-se por causa disso.
    Se chamo a atenção para estas diferenças, é porque elas reflectem um problema mais sério. O grau de investimento económico na actividade jornalística. É impossível fazer jornalismo de excelência sem dinheiro. Dinheiro para viajar sem ser à boleia ou a convite de partes interessadas. Dinheiro para permitir que um jornalista trabalhe meses a fio numa única história. Dinheiro para procurar a informação pelos seus próprios meios, em vez de esperar que ela caia em cima da secretária em press-releases enviados por agências de comunicação.
    Dito isto, e sabendo que o jornalismo também atravessa uma crise nos EUA (será que Bob Woodward e Carl Bernstein teriam hoje margem para investigar o escândalo Watergate como investigaram em 1972?), a verdade é que a diferença de meios ao dispor dos jornais norte-americanos e portugueses continua a ser absurda. Por cá, faz-se o que se pode. Mas o abismo existe e a mim, desculpa que te diga, incomoda-me.
    Se achas que isto é parolismo, então admito sem problemas que sou parolo.

  3. Luis Leal on Agosto 15th, 2010 8:13

    Devo-te um pedido de desculpas, José Mário. De facto li a entrevista, mas já “contaminado” pelo pré-conceito que formei ao ler o teu post. Acontece-me amiúde e peço-te um bocado de paciência para comigo se por acaso vier a acontecer de novo. Pensei que falavas da qualidade dos conteúdos jornalísticos e da sua forma, quando te estavas a referir à sua qualidade (ou falta dela) literária e se a transcrição gráfica reflectia na integra e sem adulterações o que oralmente foi colectado pelo jornalista. É de todo pertinente a abordagem desse assunto; pois, não tendo eu, nem de longe, nem de perto, conhecimentos linguísticos que me permitam ser “revisor” de outros, detecto mais frequentemente frases mal elaboradas que deturpam o sentido ou tornam ambíguo o que se quer transmitir. Penso que isso é reflexo de um maior recorrer à mão-de-obra barata que são os estagiários de Jornalismo. Algo a que nem jornais de referência como o Público ou Diário de Noticias estão imunes, porque os constrangimentos económicos são de tal maneira enormes, que eu me vejo na obrigação de publicamente (aproveito esta tua página para o fazer) manifestar o meu mais sincero agradecimento as esses dois Jornais que acima referi, pelo abnegado trabalho que têm tentado (nem sempre conseguido) fazer em prol de um bom jornalismo.

    É bom que uma “voz” considerada como a tua, traga estes (e outros de igual pertinência) assuntos à “Baila” para que deles tomemos consciência e, se possível, os possamos corrigir. Mas… essa consideração (aliás, muito merecida) que te tributam, vinculam-te à obrigatoriedade de ao abordares os assuntos, não caias na tentação de o fazer a “correr” mercê de uma falta de tempo que as tuas muitas actividades, devem tornar escasso. Sabes como é Mário; eu sou sempre de uma condescendência a toda a prova quando se tratam de erros meus. Com os erros dos outros… de uma severidade tal que mais pareço um furibundo Jeová, cioso do que considera lhe ser devido… lol :)

    Abraço amigo. Continua o teu caminho e não me ligues. Sou um “velho pára-quedista” embrutecido.

  4. Luis Leal on Agosto 15th, 2010 8:21

    Mário, meu nome escreve-se mesmo Luis. Sei que o comum é Luís, mas o meu escreve-se assim; não é erro.

  5. José Mário Silva on Agosto 15th, 2010 9:39

    Caro Luis (sem acento),

    Pois eu funciono ao contrário: condescendo muito mais com os erros alheios do que com os erros próprios.
    :)
    Abraço

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges