As respostas de Bolaño

Eis um blogue precioso sobre Roberto Bolaño: Estrela Selvagem. Mantido pelos brasileiros Lucas de Sena Lima e Daniel Fernandes Vilela, o seu objectivo é «reunir as entrevistas e outros materiais referentes ao escritor chileno e traduzi-las para o leitor de língua portuguesa, a exemplo do que acontece em outros países, onde vários blogs são criados para divulgar a obra do escritor».
Eis um excerto de uma entrevista dada ao jornal colombiano El Tiempo, em 2003, poucos meses antes da sua morte:

«Em Os Detetives Selvagens se narra o mundo dos poetas jovens de duas décadas, suas penúrias e sonhos, é como uma desmistificação do intelectual, uma humanização do artista. Que pensa disto?
Quando entrego um romance ao meu editor, não volto a pensar nele.

Que escritores foram chaves de sua educação sentimental literária e quais não aconselharia a leitura?
Cervantes, Stendhal, Rimbaud, Poe. E que cada um leia o quiser e puder. Eu, ao menos esta noite, me sinto incapaz de desaconselhar qualquer coisa.

(…)

Que pensa do autobiográfico na literatura?
Tudo, de alguma maneira, é autobiográfico, o que demonstra, por acaso, a inutilidade de se escrever autobiografias.

Que significa para você a data de 11 de setembro?
Uma putaria. O início de um baile parecido com o de San Vito. A queda de Allende mais a festa nacional da Catalunha, que comemora outra derrota, mais o ataque dos suicidas às Torres Gêmeas, que vem a ser uma terceira derrota da cultura frente à religião. O 11 de setembro catalão eu não vivi na carne, e se tivesse vivido não calaria, pois isso significaria que sou um vampiro ou um imortal. O 11 chileno eu vivi e padeci, e como tinha vinte anos, também o desfrutei. Os jovens ignoram a morte. Só querem sua dose de adrenalina e sexo, e eu também. O 11 novaiorquino me pegou em Milão, com minha mulher e meus dois filhos, e quando vi a explosão, no primeiro momento, pensei nas imagens que tínhamos nos anos 80 sobre a Terceira Guerra Mundial. É claro que voltamos para o hotel de imediato.

Está escrevendo um romance extenso. Que pode dizer a respeito?
O romance tem mais de mil páginas, e, como pode imaginar, é impossível resumi-lo. Escrever algo tão longo cansa. Trabalhar cansa, como disse Pavese. E eu me canso, além disso, com uma facilidade incrível. Mas este é meu trabalho, e tenho que seguir.

Que te vem à cabeça ao escutar estes nomes?
César Vallejo: a virtude e a torção. A lírica que se autodevora.
Juan Carlos Onetti: para maiores de trinta e três anos.
Jorge Luis Borges: o centro do cânone da América Latina.
Pablo Neruda: dois livros extraordinários e nada mais.
Gabriel García Márquez: um homem encantado de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.
Mario Vargas Llosa: o mesmo, só que mais polido.
Guillermo Cabrera Infante: um escritor estranho.
Na verdade, de todos os escritores que me citou, só me interessam Vallejo, Onetti e Borges.»

Muito bolañianas são também as respostas ao Questionário de Proust. Eis algumas delas:

«Qual seu defeito mais deplorável?
Sou uma pessoa cheia de defeitos, e todos são deploráveis.

(…)

Se depois de morto tivesse que voltar à Terra, gostaria de voltar convertido em que coisa ou pessoa?
Um colibri, que é o menor dos pássaros e cujo peso, em algumas ocasiões, não chega a dois gramas. A mesa de um escritor suíço. Um réptil do deserto de sonora.

(…)

Qual a sua maior extravagância?
Minha grande coleção de wargames de mesa e minha pequena coleção de wargames de computador.

Em que ocasiões você mente?
Quando falo de pintura abstrata. Quando falo de poesia metafísica.

Que pessoa viva te inspira mais desprezo?
São muitos, e já sou demasiado velho para estabelecer um ranking.

Que pessoa viva admira?
Admiro as mães e avós da Praça de Maio. Pessoas como elas.

Que palavras ou frases usa mais?
“Foder” e “boceta”.

Qual sua idéia de felicidade perfeita?
Minha felicidade imperfeita: estar com meu filho e que ele esteja bem. A felicidade perfeita, sua busca, gera imobilidade ou campos de concentração.

(…)

Qual seu maior remorso?
São muitos, e se deitam, e levantam comigo, e escrevem comigo porque meus remorsos sabem escrever.

Qual a virtude mais valorizada socialmente?
O êxito, mas o êxito não é nenhuma virtude, é só um acidente.

O que te desagrada mais em sua aparência?
Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação.

(…)

Qual sua posse mais valiosa?
Meus livros.

(…)

Onde desejaria viver?
Se tivesse muito dinheiro, na Andaluzia, sem escrever nem fazer nada, passar o dia nos bares, conversando.

Qual seu passatempo favorito?
Ver vídeos até às cinco da manhã.
(…)»



Comentários

7 Responses to “As respostas de Bolaño”

  1. João on Março 30th, 2010 19:54

    Que giro, penso exactamente o mesmo de Neruda e de Garcia Marquez.

  2. fallorca on Março 30th, 2010 22:12

    Ando pelo Sul, mas suponho que é a mesma ou excertos de uma outra que oportunamente te enviarei. Favoritos com o lInk, obrigado pela partilha :)

  3. csd on Março 31st, 2010 8:19

    Cinco estrelas.

    Obrigada pela partilha.

    csd

  4. João Cerqueira on Abril 1st, 2010 0:28

    De Bolaño apenas li o incensado 2666.
    Mas, ao contrário da maioria dos críticos, na minha modesta opinião o livro não passa de uma manta de retalhos.
    Alguém que julgou saber mais do que o próprio autor, decidiu transformar cinco romances num só. E o resultado cansa e desilude (tendo em conta as expectativas criadas).
    A primeira história é fascinante e logo prende o leitor. Mas, depois de muitas páginas que ainda suportam o inicial fascínio, a parte onde são descritos os crimes e as violações na cidade de Juarez torna-se repetitiva, maçadora e até mórbida.
    No final é tentada como que uma ligação de todas as pontas soltas que não chega para salvar o livro.
    Afirmar que se trata de uma obra-prima é absurdo, mas considerar que o livro é um dos melhores dos últimos anos raia a anedota.

  5. henedina on Abril 2nd, 2010 0:29

    “A felicidade perfeita, sua busca, gera imobilidade…”

    Não li nada de Bolaño detesto publicidade tipo Margarida rebelo Pinto (desculpe lá fjv) mas depois desta entrevista talvez leia.

  6. José Mário Silva on Abril 3rd, 2010 9:51

    Caro João Cerqueira,

    A opinião é livre. Se não gostou, está no seu direito. Isso nem se discute, desde que respeite as opiniões dos outros. Mas, já agora, gostava de saber quais são para si os melhores livros dos últimos anos.
    Cumprimentos,
    ZM

  7. ana on Abril 3rd, 2010 17:34

    o bolaño não é aquele q foi publicado pela mesma editora do Passos Coelho? O passos coelho é muito bom, o bolaño não sei, não li

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges