Crónicas do autocarro

O protagonista de Uma Mentira Mil Vezes Repetida anda muito de autocarro e narra, com a atenção extrema do bom observador participante, os diálogos e situações que ocorrem decerto todos os dias nas várias carreiras que atravessam, de um lado ao outro, a cidade do Porto. O autor de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, não sei se levado pelo escrúpulo de quem investiga e faz trabalho de campo, também anda muito de autocarro no Porto e narra, com a atenção extrema do bom observador participante, os diálogos e situações que ocorrem nesses veículos em movimento. O resultado pode ser lido nas deliciosas “Crónicas do autocarro” que vai publicando no seu blogue. Eis um exemplo:

«Quão estranha pode ser a confusão entre a ficção e a realidade? Deveras. Se não o soubesse, teria hoje tirado a coisa a limpo quando entrei no autocarro levando comigo um exemplar de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, o romance que conta a história de um indivíduo que circula nos transportes públicos fingindo ler um livro totalmente falso, Cidade Conquistada. Pois ali estava eu, o tipo que inventou Cidade Conquistada e que inventou o livro que o conta, Uma Mentira Mil Vezes Repetida, agora numa espécie de ficção da ficção da ficção, a qual, entretanto, se tornou realidade e é um livro que tem na capa a fotografia de um homem de chapéu de coco. Pareceu-me que, para completar o ciclo, faltava apenas que abrisse o livro numa página ao acaso e fingisse lê-lo. Foi o que fiz, lamentando não ter, também eu, um chapéu de coco, mas encenando a preceito o logro de um logro de um logro, e repetindo a falsa cerimónia daquela mentira. Foi uma coisa bizarra, mas foi-o apenas para mim, confirmando, se preciso fosse, que sou, de longe, o tipo mais estranho e destrambelhado que circula nos autocarros da cidade.»



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges