José Saramago regressa aos temas bíblicos

Em Outubro, exactamente um ano após o aparecimento do seu último livro de ficção (A Viagem do Elefante), o Nobel de 1998 volta a publicar um romance, como sempre na Caminho. E já há título: Caim. Quase duas décadas volvidas sobre a polémica em torno de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), que acabou por ditar o seu afastamento físico de Portugal e o exílio em Lanzarote, Saramago volta a encontrar na Bíblia inspiração literária.
Em carta aos amigos do escritor, partilhada no blogue da Fundação José Saramago, Pilar del Río coloca bastante alta a fasquia das expectativas:

«Saramago escreveu outro livro. O seu título é Caim, e Caim é um dos protagonistas principais. Outro é Deus, outro ainda é a humanidade nas suas diferentes expressões. Neste livro, tal como nos anteriores, O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo, o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos – ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros – uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus.
(…) Com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia. Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar.
(…) Este último romance de José Saramago, que não é muito extenso, nem poderia sê-lo porque necessitaríamos mais fôlego que o que temos para enfrentar-nos a ele, é literatura em estado puro. Dentro de pouco tempo podereis lê-lo em português, castelhano e catalão, e então vereis que não exagero, que não me move nenhum desordenado desejo ao recomendá-lo: faço-o com a mais absoluta subjectividade, porque com subjectividade lemos e vivemos.
(…) A idade, amigos, aguça a inteligência e agiliza a capacidade de trabalho. Que sorte a nossa, leitores, de ter quem nos escreva.»

Cá os esperamos. Ao livro e à eventual polémica, não deixando de saudar, desde já, a energia e a coragem do escritor, que nunca se entregou ao sereno remanso da glória adquirida e continua a agitar as águas com as ganas e a alegria de um rapazinho.



Comentários

3 Responses to “José Saramago regressa aos temas bíblicos”

  1. Gerana Damulakis on Agosto 28th, 2009 14:13

    … e recebendo sempre o entusiasmo de seus fãs. Fico extremamente feliz com mais um título de José Saramago, o grande escritor da nossa língua. E mais não escrevo, porque acabaria fazendo uma apologia.

  2. José Saramago regressa aos temas bíblicos | Alessandrolândia on Agosto 29th, 2009 23:36

    […] José Saramago regressa aos temas bíblicos – Em Outubro, exactamente um ano após o aparecimento do seu último livro de ficção (A Viagem do Elefante), o Nobel de 1998 volta a publicar um romance, como sempre na Caminho. E já há título: Caim. Quase duas décadas volvidas sobre a polémica em torno de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), que acabou por ditar o seu afastamento físico de Portugal e o exílio em Lanzarote, Saramago volta a encontrar na Bíblia inspiração literária. Via Thiago […]

  3. Henrique Fernandes on Agosto 31st, 2009 17:19

    Aguardo ansioso este novo livro de Saramago. Gostei muito do último A VIAGEM DO ELEFANTE pelo que ele tem de crítica aos costumes e esbanjamento da classe dirigente de então, com desprezo pela penúria do povo. Ontem como hoje, salvaguardando as devidas difereças, a coisa pública não mudou muito e o POVO continua a ser explorado.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges