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Mínimas máximas

No seu blogue, José Bandeira, para mim um dos melhores humoristas portugueses (e talvez o mais refinado), juntou uma dezenas de «mínimas» (ou aforismos; ou humorismos) anteriormente publicados na primeira encarnação do Bandeira ao Vento. Eis aqueles de que mais gostei:

«A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.»

«Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.»

«Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.»

«De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.»

«Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.»

«O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.»

«Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.»

«Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.»

«Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.»

«Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.»

«Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.»

«Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.»

«Eles pareciam desfeitos um para o outro.»

«O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.»

«Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.»

«Certeza: uma dúvida sem saída.»

«É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.»

«Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.»

«Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.»

«A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.»

«Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.»

«Morte: pronome pessoal reflexo.»

«Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.»

«Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.»

«Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.»

«Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.»

«A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.»

«As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.»

«Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.»

«Um português só faz sentido na tropa.»

«Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.»

«As aves raras poisam em lugares comuns.»

«Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.»

«A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.»

«Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.»

«Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.»

«A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.»

«A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.»

«Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.»

«Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.»

«Mito urbano: A província existe.»

«Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.»

«O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.»

«A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.»

«Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.»

«O código de Hamurabi: 6339.»

«Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.»

«Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.»

«Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?»

«Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.»

«Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.»

«Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.»

«Há um Sísifo em cada gilette.»

«Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.»

«Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.»

«”Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.»

«Não se pode ser um suicida toda a vida.»

«Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.»

Mais pequenas maravilhas aqui.



Comentários

3 Responses to “Mínimas máximas”

  1. Io on Abril 21st, 2009 16:29

    Tem toda a razão JMS! Sem dúvida, um dos melhores e mais refinados humoristas portugueses e, sem dúvida, um eloquentíssimo e absolutamente delicioso conjunto de máximas mínimas.

    • antonio saias on Abril 22nd, 2009 21:13

      é sem dúvida um humorista de Bandeira
      felicito-o cá de baixo

      • Nancy Marchioro on Abril 30th, 2009 0:21

        Muito obrigada, José Mario, por me proporcionar a oportunidade de conhecer José Bandeira. Fico feliz de ter encontrado seu blog!

        Leia os últimos textos publicados
        «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges