Na Tenda dos Pequenos Editores

«A estranheza começa com uma visita à tenda propriamente dita, e é uma estranheza que tem vindo a verificar-se ao longo dos anos. O conceito de ‘pequenos editores’ remete unicamente para os meios financeiros e o resultado disso é, para o leitor/visitante, algo desajustado; na tenda encontram-se, sem qualquer arrumação lógica, livros de ensaio da Vendaval lado a lado com livros de auto-ajuda de quinta categoria, poemas de António José Forte na vizinhança de resmas de manuais de actividades para crianças cheios de desenhos fluorescentes, edições da Abril em Maio acompanhadas de anedotas do Hérman, a revista Intervalo encostada a Cristos ressuscitados, ou que falam, ou que sangram enquanto revelam todos os mistérios esotéricos ao alcance dos vendilhões do Templo. O desequilíbrio é visível e merecia reflexão por parte dos organizadores da Feira e dos editores. Repare-se: a ideia de permitir às editoras com menos posses uma presença na Feira é louvável, não propriamente pelo gesto de generosidade, mas porque permite que os leitores não sejam privados de livros que, de outro modo, não chegariam à Feira. E também não se esperaria que houvesse uma espécie de censura que definisse que espécie de livros, dentro dos editados por estas editoras, teriam direito a essa presença (mesmo que os meus preconceitos relacionem pequenos editores com projectos meritórios e de grande qualidade que só são pequenos no tamanho, o que deixaria de lado os Cristos falantes e os desenhos fluorescentes, dando espaço apenas aos vendavais e a outros familiares). Não sei bem como se poderia corrigir a situação de um modo justo, mas creio que valeria a pena pensar no assunto.»

Excerto de um post muito pertinente da Sara Figueiredo Costa, que vale a pena ler na íntegra aqui.



Comentários

2 Responses to “Na Tenda dos Pequenos Editores”

  1. Rui Almeida on Maio 3rd, 2010 21:52

    Deixo aqui também o comentário q lá deixei e ainda não está visível:
    A &etc, além da Letra Livre, está também (tal como a Hiena) no pavilhão da Frenesi.
    Na Letra Livre está também (cito de memória) a Averno e a Vendaval.

  2. Pedro Marques on Maio 4th, 2010 18:06

    Curiosamente, também reparei no facto de, na tenda dos PE, estarem livros de algumas chancelas cujas editoras-mãe, digamos assim, tem tenda própria na Feira. Isso quer apenas dizer, no fundo, que o espaço disponível na tenda se torna, enfim, “apertado” para pequenas editoras como a minha para quem as condições aliciantes de presença na Feira nessa tenda (leia-se, o baixo valor da inscrição) são um factor determinante. Se lá estão editoras com livros maus ou bons, creio que isso será o público leitor/comprador a decidir (convenhamos que há livros péssimos noutras tendas na Feira).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges