O escritor português em risco

A propósito do recente lançamento do iPad, José Vegar reflecte sobre o que pode vir a acontecer em breve no sector do livro, com a «passagem do texto a produto digital». Um excerto:

«A equação poderá ser enunciada do seguinte modo: os leitores adoptam massivamente o texto em formato digital. Aplicando a mesma tendência cultural já estabilizada na música e no cinema, defendem que o produto deve ser gratuito. Aceitando estas duas variáveis como assentes e dominantes do mercado num futuro próximo, é necessário tentar desenhar as hipotéticas linhas mestras da revolução. Começando pelo fim da cadeia, uma extinção ou completa reinvenção das livrarias. No coração do processo de produção, uma diminuição radical do papel das gráficas e das distribuidoras. No centro da cadeia, uma desvalorização das editoras, e uma queda brutal das suas receitas, dando possivelmente origem a micro-empresas especializadas em serviços técnicos, como a detecção de novos talentos, a revisão e publicação nos vários formatos digitais dos textos, ou a “boutiques” com selo de qualidade, criado pelo valor no mercado dos autores que representam. Para o escritor, o cenário do futuro imediato parece ser ainda mais indistinto. À partida, com a eliminação do valor retido pela editora e pela distribuidora, poderá ver a sua margem de receita, que vai hoje dos 10 aos 36 por cento, chegar facilmente a números entre os 70 a 80 por cento. O problema é o de que estará completamente dependente do mercado, isto é do seu sucesso junto dos leitores.»



Comentários

15 Responses to “O escritor português em risco”

  1. C on Fevereiro 11th, 2010 8:06

    O que, inevitavelmente e porque a discrição não vende ou só tem resultados póstumos, levará o escritor que vive das vendas, a chamar cada vez mais a atenção sobre si próprio nos blogues e outros digitalismos, designadamente, e a vários níveis, para captar públicos e atenções.
    Ser conhecido e quanto mais agitar os bracinhos, melhor.
    Terá que criar shows, duplos, alter egos; como criador saberá fazê-lo e terá espectadores e adeptos, que cobram. O habitual em qualquer negócio.
    And why not? Se for para a sua subsistência.
    Haverá o perigo da máscara se tornar real (como todas as máscaras) e lhe exigir, diàriamente, uma vida outra que vingará sobre a matriz. Se for melhor.
    Gaita.
    O escritor pode até tornar-se ‘num pau mandado’ convencido que não é (isto é um regionalismo da minha terra e nada ofensivo). Qualquer manual de psicologia da infância/adolescência explica muito bem esta relação de poder que ‘ o outro’ tem sobre nós ainda que camuflada, passando-se o mesmo com as vendas.
    Eh pá.
    Não será então o leitor o lesado, esse, pelos vistos chegará sempre ao livro.
    Eu, como leitora, desejo é que os escritores escrevam e bem. e vou COMPRANDO.
    In spite of.

  2. João André on Fevereiro 11th, 2010 9:59

    O iPod não veio extinguir os músicos. O iTunes até deu oportunidade a muitos mais, e de qualidade. Quem poderá sofrer (e até acho bem) são as editoras e todos os outros intermediários no percurso escritores-leitores que cobram absurdamente e pouco dão aos autores.

  3. Ana Fagundes on Fevereiro 11th, 2010 15:57

    achei o texto catastrofista e com consequencias mt mal retiradas e fundamentadas. de facto, o que vai acontecer é a “democratização” da literatura. Vai haver mais autores a poderem publicar, vai haver maior publicidade no meio digital, vai haver maior facilidade de compra do livro, etc.
    de facto alguem vai sofrer com isso: editoras, distribuidoras, gráficas…

    quanto a pequenas nichos, será óptimo. pense-se nos poetas portugueses por exemplo. sabe-se que praticamente só publica quem cria uma editora ou ediçoes de autor (auto-edição), amizade com editor, ou contactos. isso vai acabar.

    quero muito que venha o progresso nesta área.

  4. José Catarino on Fevereiro 11th, 2010 17:59

    Pode, até, ser uma ”janela de oportunidades’ que se abre, libertando os autores da dependência total das editoras, as quais, no momento actual, parecem ter uma visão muito restritiva daquilo que devem publicar. (Não surpreende: li numa entrevista que Nelson de Matos foi uma vez substituído numa editora por um gestor que viera da Gillete…).
    O problema do sucesso do escritor junto do público leitor — já que junto dos seus leitores não terá problemas de aceitação — não é novo, parece-me, especialmente para aqueles que apreciam a sombra que lhes permite melhor fazer aquilo de que gostam: escrever, com leitores ou sem eles.

  5. Rosadosventos on Fevereiro 11th, 2010 20:42

    Eu nunca deixarei de comprar livros!
    Gosto de os folhear, de metê-los dentro de um saco, de sublinhar frases interessantes, de os arrumar ou tirar das estantes…

  6. José Vegar: Com o digital, o mercado ditará o texto « eBook Portugal on Fevereiro 12th, 2010 15:01

    […] Vegar, escritor in Sniper via Bibliotecário de Babel Share and […]

  7. Fernando Frazão on Fevereiro 12th, 2010 17:18

    A analogia entre os livros e os discos e filmes é abusiva.
    De facto o que faz a diferença é a mudança de suporte.
    Com filmes e discos o suporte não muda entre o produtor e o consumidor final e portanto a distribuição pouco acrescenta.
    No caso dos livros a situação é radicalmente diferente. Não vislumbro qualquer hipotese de alguém conseguir ler, por muito evoluído que seja o suporte digital, o 2666 do Roberto Bolaño.

  8. Escrever num mundo digital — Blogue da revista Os Meus Livros on Fevereiro 12th, 2010 17:19

    […] O jornalista e escritor José Vegar deixou no seu blogue algumas considerações sobre as transformações e possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias, no que respeita ao mundo da escrita, dos livros e da sua difusão.  Pode ler aqui. Informação recolhida no Bibliotecário de Babel. […]

  9. luis on Fevereiro 13th, 2010 19:41

    É inevitável. O formato digital tem muitas vantagens. No limite, o escritor poderá prescendir do editor, publicar directamente os seus conteudos. O livro tal como o conhecemos irá sofrer uma metamorfose profunda. Irá incorporar imagem e som, para além do texto escrito. É possivle que num futuro mais longinquo o livro seja só imagem e som, sem texto escrito/impresso. O texto será hipertexto, com links praticamente ilimitados, remetedno para outros textos, ad infinito. Mais do que o escritor, será o editor o mais afectado pela advento do livro digital. Acabarão os stocks de livros não vendidos. As árvores agradecem. Quanto ás livrarias, irão desaparecer. Visto bem as coisas, o que adianta (como acontece actualmente) publicar livros quando não há quem os venda porque as livrarais são poucas ou inexistentes fora dos grandes centros.

  10. Carlos on Fevereiro 15th, 2010 13:01

    Já escrevi, não sei se foi aqui, que para mim o livro físico é insubstituível.
    Porque um livro não é só para ler as letras.

    Os meus livros são a minha vida. Cada livro que tenho na estante representa as circunstâncias em que o obtive, quem mo deu, ou onde o comprei.

    além disso, só de olhar para os meus livrs, ou de os manusear, recordo as emoções que contém, as histórias, o conhecimento e a informação.

    Além de que não há maior beleza numa casa que uma biblioteca, ou ao menos uma estante com livros.

  11. Fernando Frazão on Fevereiro 16th, 2010 13:16

    Caro Luis

    Livros só com imagem e som? Não acha isso imginação a mais? Teremos então o triunfo absoluto da Banda Desenhada e até as suas queridas onomatopeias serão substituidas por links (em vez de Booouuum teremos um verdadeiro estrondo) e os balões serão substituídos por um link para uma fala.
    Se o escritor quiser ser mais realista passa a ser um misto de Cormac Mccarthy com Clint Eastwood. Não vale a pena descrever o sherif. Link para o site do Tommy Lee Jones e já está.
    Também é bom porque se evita não sei quantas páginas de Proust a descrever o (um) campanário. Pesquisa no Google, que na alutra será muito mais sofisticado, vê-se qual se adequa e link para a fotografia.
    Por outro lado um texto com muitas ligações, sobretudo se for um texto corrido, torna-se ilegivel. O mesmo não se passa nos livros, sobretudo os cientificos, onde é necessário recorrer a muitas citações e remissões que na maioria dos casos os torna em enormes calhamaços. Mesmo assim, o reler, voltar atrás, anotar, torna-se missão quase impossivel.
    Quanto às arvores vou-lhe contar uma história engraçada. Com o advento do e-mail (eu trabalho em informática) não faltou quem prepectivasse organizações sem papel, enormes reduções do consumo do mesmo etc. Adivinhe o que se passou. O consumo de papel aumentou. Passou a ser mais fácil distribuir uma carta, um relatório ou qualquer outro documento por mais pessoas que sistematicamente o imprimia.
    Já agora concordo com o Carlos. Uma estante com livros é uma beleza.

  12. luis on Fevereiro 17th, 2010 21:46

    Fernando Frazão

    Eu adoro livros impressos. Só quis chamar a atenção para evoluções possíveis e inimagináveis do livro na era tecnológica. O livro electrónico irá implicar alterações profundas na forma de fazer literatura, tal como hoje os computadores estão a mudar a nossa forma de comunicar e escrever. É bem possível que, como sugere, as descrições literárias de um espaço sejam substituídas por uma imagem 3D, ou análoga. Ou então que, ao visitar um espaço físico real, possamos através de um dispositivo electrónico ter acesso a todos os trechos literários e respectiva recreação 3D desse espaço. E que possamos ver materializar-se diante de nós, numa imagem a três dimensões, as descrições de Proust conforme as fossemos lendo. Ou situar num espaço real as personagens e acções conforme descritas pelo autor… As possibilidades são imensas. Estámos ainda no principio, quer dizer, na pré história da revolução tecnológica..

    A grande vantagem dos livros electrónicos é a de poder ter acesso ao seu conteúdo instantaneamente e em qualquer parte. Uma vantagem nada desprezível, se tivermos em conta as graves distorções que existem na distribuição do livro em Portugal. Há zonas do nosso país onde não existe uma única livraria num raio de quilómetros.

    O papel impresso acabará por desaparecer, mais cedo ou mais tarde. A realidade tenderá a ser virtual, com as novas gerações cada vez mais integradas na comunicação electrónica sem necessidade do papel impresso, como acontece hoje. Não é nada que nos deva surpreender. Afinal a realidade é uma construção virtual, literária. Neste sentido, as novas tecnologias e a realidade virtual que elas criam, é o que há de mais próximo da boa literatura.

  13. luis on Fevereiro 17th, 2010 22:02

    Num certo sentido, concordo que o escritor está em risco, não de desaparecer, mas de ver alterada a sua função. Na era tecnológica o escritor tenderá a aproximar-se à figura de ‘criador de conteúdos’. Terá ao seu dispor múltiplas plataformas, não só a escrita, mas também a imagem, o holograma, o cinema 3D, e outras. Aquilo que hoje chamámos livros poderá ser o resultado da mistura destas plataformas tecnológicas e de outras que entretanto venham a ser inventadas. Parecem ilimitadas as possibilidades abertas pelas novas tecnologias. Não creio que o leitor do futuro se irá satisfazer em “apenas” ler um livro. Ele quererá ver o livro, recreá-lo, torná-lo numa peça interactiva, modificar o seu conteúdo, a trama, tornar-se ele próprio, o leitor, numa personagem, assumir o papel de personagem da realidade virtual criada pelo escritor…

  14. Literatura e formatos digitais | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 19th, 2010 12:20

    […] propósito do debate que se gerou neste post do BdB, em torno de um texto de José Vegar, jaa diz de sua justiça sobre as possíveis consequências da […]

  15. Fernando Frazão on Fevereiro 19th, 2010 14:39

    Segundo o conceito mcluhanesco, como o meio conduz a mensagem, ele próprio é a mensagem. A TV condiciona não pelo que informa e sim por como informa. A mudança de percepção ocorre devido ao meio (máquina) e não ao seu conteúdo.
    Como cada tecnologia tende a criar seu “habitat”, a cada nova forma de comunicação a humanidade se modifica criando uma nova realidade. Esse ciclo repete-se indefinidamente devido, principalmente, a influência dos meios na sociedade e na relação desses com o ser humano, pois para McLuhan os meios são extensões destes dando ao homem novas formas de perceber e modificar o mundo a sua volta.

    Quer isto dizer que os novos meios tecnlógocos colocam há disposição meios de comunicação que de nenhuma maneira substituem os já existentes, tal como a TV não substituiu a rádio, nem os jornais on-line substituram as edições impressas.
    Há clientes para tudo.
    Quanto à participação activa, ela já aí está, nos Mundos Virtuais.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges