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Senhor Palomar avistado na Costa Vicentina?

Para além dos 20 livros que trouxe na bagagem (entre papel e ficheiros digitais), a ampla bagageira do Skoda trouxe ainda outra mochila com mais uma dúzia de volumes (amor, amor, leituras à parte). Nessa outra mochila, junto com Marguerite Duras, Clarice Lispector e Emily Brontë, veio o Palomar, de Italo Calvino. Como quem não quer a coisa, reabri as páginas magníficas do italiano. E encontrei, logo a abrir, a “Leitura de uma onda”, da sequência “Palomar na praia”, primeira parte do capítulo “As férias de Palomar”. Começa assim:

«O mar está levemente encrespado e pequenas ondas vêm bater na costa arenosa. O senhor Palomar encontra-se na praia, de pé, observa uma onda. Não se pode dizer que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe muito bem aquilo que faz: pretende observar uma onda e observa-a. Não está contemplando, porque para a contemplação é necessário um temperamento adequado, um estado de espírito adequado e um conjunto de circunstâncias externas adequadas: e apesar do senhor Palomar não ter qualquer questão de princípio contra a contemplação, nenhuma destas três condições se verifica no seu caso. Finalmente, não são as “ondas” que ele pretende observar, mas uma única onda e basta: querendo evitar as sensações vagas, estabelece para cada um dos seus actos um objectivo limitado e bem definido.»

Ontem de manhã, na Praia da Amoreira, um senhor de certa idade contemplava uma onda, e uma só, de cada vez. Estava do lado direito, junto às rochas que vistas em contraluz parecem uma fortificação miniatura. Tinha os pés (que imaginei muito brancos) enterrados na areia e as calças minuciosamente arregaçadas até ao joelho. Punha a mão direita em pala sobre os olhos, rodopiava ligeiramente, rabiscava qualquer coisa no seu moleskine, voltava a guardá-lo no bolso do sobretudo (sim, no bolso do sobretudo) e recomeçava as suas observações.
Às tantas, o nadador-salvador começou a apitar e a gesticular, avisando-o que tinha de sair rapidamente dali. O senhor de certa idade, perplexo, apontou interrogativamente para o sobretudo. O nadador-salvador fez que não com a cabeça, como quem diz que se está nas tintas para a indumentária dos veraneantes. Depois, apontou para a bandeira vermelha e voltou a apitar, um apito demasiado agudo, tão agudo que deve ter trazido ao areal toda a canzoada das redondezas.
O senhor de certa idade encolheu os ombros e saiu da água (os pés eram efectivamente muito brancos, brilhavam sobre a areia como peixes albinos). Tirou novamente o moleskine do bolso e escreveu muito depressa, movido por uma energia mais resignada do que furiosa. Desta vez, era o nadador-salvador (sempre a apitar, com os seus calções vermelhos e t-shirt amarela) que ele observava obsessivamente e já não a nova onda que se formava ao largo.
Suspeito que aquele senhor de certa idade era o Senhor Palomar, não o blogger mas o original, o de Italo Calvino, mas não tenho a certeza.



Comentários

4 Responses to “Senhor Palomar avistado na Costa Vicentina?”

  1. José Catarino on Agosto 27th, 2009 15:13

    Cuidado com as visões. Lembre-se daquele cavaleiro da triste figura, o tal que de tanto ler se lhe incendiou o juízo.

    • José Mário Silva on Agosto 28th, 2009 8:16

      Já estive mais longe. E olhe que por onde eu ando o que não faltam é moinhos de vento, dos novos, branquinhos, altíssimos, com três pás gigantescas e powered by Mitsubishi.

      • Sofia Afonso Ferreira on Agosto 30th, 2009 14:40

        não tenho dúvidas de que era o senhor palomar. belo texto

        • Luís Galego on Setembro 2nd, 2009 22:39

          verdadeiramente extraordinário…

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          «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges