Sobre os pontos de exclamação

Também eu, como o Senhor Palomar (e o Pedro Mexia), me inclino para a suave erradicação dos pontos de exclamação. Com raríssimas excepções, eles são o sintoma da absoluta falta de requinte estilístico, uma coisa demodée, meio rançosa, ideal para adolescentes idealistas e sonetos de amor foleiros, mas pouco própria para quem pretende levar a escrita a sério.
Tiveram o seu tempo, os pontos de exclamação. Aquela pose vertical de sentinela, aquela explosão na página, aquele estremecimento no fim da frase, que a põe em bicos de pés e é prenúncio de estridências capazes de furar o silêncio da leitura. Se no final do século XIX eram uma necessidade (tivesse Zola proclamado o seu «J’accuse!» sem ponto de exclamação e desconfio que Dreyfus morreria na cadeia), no início do século XXI são um disparate, uma inutilidade, um sinal de fraqueza, um arcaísmo que trai a mão pesada e pouco subtil de quem a eles recorre.
O Senhor Palomar toca no cerne da questão quando afirma que o abuso deste sinal de pontuação «esconde uma profunda incapacidade de alguém se fazer explicar». Sim, o ponto de exclamação é o recurso de quem precisa de «gritar aos nossos ouvidos» para se fazer entender. É o desgraçado que gesticula muito, com medo que não reparem nele. É a alça do vestido que descai despudoradamente, como se ainda não tivéssemos reparado que existe, ali ao lado, um decote generoso. É a muleta dos maus escritores que querem impressionar, a todo o custo, os seus leitores pouco exigentes.
Ao esboço de manifesto do Senhor Palomar faltou só, parece-me, um exemplo. Um qualquer exemplo da terrível maleita, de preferência retirado das novidades editoriais. E como ele não se chegou à frente, chego-me eu. Sabem onde é que o ponto de exclamação anda à solta, como se não houvesse amanhã, tornando ainda mais frágil um texto que já era de si fragílimo? Pois bem, é no «quase romance» que lidera neste momento todos os tops de vendas: No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares. Só entre a página 81 e a página 83, temos 14 ocorrências do dito cujo, mas a praga estende-se ao livro inteiro. A maioria das malditas sinalefas surge, há que dizê-lo, nos capítulos correspondentes à voz feminina, toda ela entusiasmos e arroubos (ao ponto de referir-se ao narrador principal, sem ironia, como «O meu Fellini!» e «O meu Pulitzer!»). Mas o narrador principal, que é o próprio autor, também guarda para si uma boa dose de exclamações, quase todas desnecessárias e estilisticamente desastrosas.
Já agora, se dúvidas houvesse sobre a absoluta sobreposição entre o autor Miguel Sousa Tavares e o narrador principal da história (de resto assumida em entrevistas), bastaria um ou dois excertos para as desfazer. Julgo que ninguém, a não ser o célebre portista fanático e orgulhoso tecnófobo, escreveria isto assim:

«Distribuímos T-shirts, frascos de compotas e cubos de marmelada, latas de conserva e fotografias do Madjer a marcar o seu imortal golo de calcanhar em Viena, com a camisola do F. C. Porto. Mas nada, nada podia apaziguar aquele indefinível mal-estar que sentíamos na presença deles. A seus olhos, tínhamos vindo de outro planeta, carregados de coisas novas e estranhas que eles nunca tinham visto – até mulheres loiras de jeans – mas logo partiríamos, de encontro ao deserto onde estava a nossa “aventura” e a sua desventura.» [pág. 116, negrito meu]

E isto assim:

«As coisas mudaram muito, Cláudia! [Lá está ele.] Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.» [pág. 117/118, negrito meu]



Comentários

20 Responses to “Sobre os pontos de exclamação”

  1. tiago sousa garcia on Julho 27th, 2009 18:54

    subscrevo.

    um abraço,
    tsg.

  2. Dos pontos de exclamação « Livros [s]em Critério on Julho 27th, 2009 19:45

    […] Tags: exclamação, histeria, moção, petição, ponto O Senhor Palomar lançou o repto, o Bibliotecário de Babel adoptou-o e eu […]

  3. Ricardo Miguel Costa on Julho 28th, 2009 7:44

    Meu caro José Mário e, por precedência, Palomar,

    Nunca fui para a cama com o ponto de exclamação. A sua necessidade nunca se impôs em demasia e nunca foi empertigado o suficiente para com ele terminar a excelência das minhas frases.
    No entanto, e permita-me o contraditório no seu espaço, vejo-me na obrigação de defender uma instituição que, apesar da tradição consagrada, se vê, à boca do século XXI, desenobrecido pelas gargantas monocórdicas, pouco apaixonadas e tendencialmente jornalísticas deste tempo.
    E deixe-me, continue a deixar, que lhe relembre a feminilidade nas exclamações agudas de muitas musas, a grafia arrojada das exclamações invertidas espanholas ou o espanto incalculável aquando da sua junção ao ponto de interrogação.
    E agora deixe-me que o questione, meu caro José Mário, com que ponto terminou a exclamação de prazer no final do seu livro favorito, com que ponto terminou o “Sim, quero” que o casou, com que ponto se assusta no início do SAW IV ou, permita-me, com que ponto olhou para os seus filhos pela primeira vez?
    Se o ponto de exclamação, como reforço de tudo isto ou como tradição secular bebida por Pessoa, Céline ou Borges, o incomoda ou lhe parece inútil neste momento, abstenha-se de o usar e que Deus o abençoe com a força vocabular suficiente para sobreviver sem ele. Mas deixe, prometa-me que deixa, que não me sinta ultrapassado, rural ou desequilibrado sempre que leio ou escrevo.

    Mas mantenho todo o respeito e admiração que tenho por si que isto já dura há uns dois anos e, como reparou, sou pela tradição.

    P.S.: Lembro que o ! surgiu da junção de letras da palavra io (“exclamação de alegria”, em latim). Escrevendo com o i em cima do o, formando aquilo que viria depois a ser o ponto de exclamação. Confirma-me a Wikipédia.

  4. José Mário Silva on Julho 28th, 2009 14:28

    Caro Ricardo,

    Obrigado tanto pela etimologia como pela defesa apaixonada do !.
    E confesso-lhe uma coisa: ainda bem que não tinha papel e caneta no momento em que vi pela primeira vez os meus filhos.

  5. Dona Mulata on Julho 29th, 2009 8:43

    José Mário,

    O menino é uma doçura, mas que me desculpe, estou indignada.
    Depois do Acordo[sic], querem acabar com meu coração.

    Mas não será sempre melhor escolher inventar novos sinais de pontuação?
    Não será melhor inventar novas palavras? Novas letras? Novos significados?

    Que será de nós se por uma acaso de disposição blasée, começarem a lançar reptos contra o ponto de interrogação? Deixámos de nos questionar? Sinceramente, não esperava uma brigada de censura ao pobre do ponto de exclamação pela manhã, mais-valia não ter aprendido a usar a net se é para ficar deste jeito. A minha idade avançada não me permite tal comoção, especialmente vido de um grupo de pessoas que eu admiro.

    Eu não queria dar razão ao John Cage e à Laurie Anderson , mas acho que um dia, com tanta confusão, acabaremos todos a falar por ditongos.

    Tem a sua piada, a ideia, mas é demasiado trágica no seu âmago.

    Dona Mulata

  6. Causa fracturante | Bibliotecário de Babel on Julho 29th, 2009 10:02

    […] recentes Dona Mulata em Sobre os pontos de exclamaçãoAlexandra Pinto em O ‘caso João Bonifácio’ segundo Pedro MexiaManuel Pacheco em O […]

  7. Jonas on Julho 29th, 2009 10:37

    Acho difícil sustentar que a culpa é da pontuação. Se já se descobriu que o horror dos horrores é a “profunda incapacidade de alguém se fazer explicar”, isso acontece logo desde o início da frase, quando nem sequer é visível que pontuação a finalizará. Acontece com os artigos definidos, as vírgulas, os verbos e os tempos escolhidos, enfim, com cada partícula da frase.

    Coloco até estas hiperbólicas demonizações do ponto de exclamação sob a mesma acusação que fazem ao ponto de exclamação: excesso de gesticulação, com medo de não se ser notado, mão pesada e pouco subtil que a ela recorre, perfeitamente estridente e histérica. Ou estou errado?

    Não deixa de ser divertido, blogs livres de pontos de exclamação, é recolher da voz popular “para que diabo vos havia de dar”. No meu tempo dizia-se que estas afectações eram fruto da ociosidade.

    A minha argumentação é fraca é frágil, pois, mas promover a eliminação de um sinal da emoção humana, corrijam-me, é desprezar essa emoção?

  8. Vee on Julho 29th, 2009 11:34

    E por que não abolir todos os sinais de pontuação Primeiro estes depois as cedilhas gradualmente ate ao preguicoso til que se estende sobre algumas vogais De seguida deixariamos de utilizar as maiusculas seja em inicio de frase ou nao por ultimo poderiamos passar a abdicar das vgs sr ngrcd n

  9. José Mário Silva on Julho 29th, 2009 13:03

    Dona Mulata,

    Não se aflija, por favor. Como é evidente, isto não passa de uma brincadeira que leva ao limite uma afinidade estilística entre o Senhor Palomar, o Pedro Mexia, o Francisco José Viegas, eu e outros: não gostamos de ver pontos de exclamação nos textos alheios e fugimos deles como o diabo da cruz nos nossos. Apenas isso. Quem os quiser utilizar, força. Que o faça sem vergonhas nem constrangimentos. Não queremos proibir nada, nem desejamos apartheids linguísticos. Era o que faltava.
    Esta é apenas uma forma mais aguerrida de demonstrar o repúdio estético por um recurso ortográfico perfeitamente legítimo.

    Jonas,
    Compreendo o seu ponto de vista, agradeço o contributo para a discussão, mas relembro: isto não é para levar à letra (salvo seja). Usar ou não usar pontos de exclamação fica ao critério de cada um. Eu, como Bartleby (e, pelos vistos, muitos outros escribas), prefiro não o fazer.

    Vee
    :)
    Brilhante. Belo exercício. A sério. Muito boa, essa sua desconstrução. Já agora: até “vgs” apanhei tudo, mas o que quer dizer “sr ngrcd n”?

  10. anita on Julho 29th, 2009 15:16

    No geral concordo com o sr. ricardo.
    eu percebo que os pontos de exclamação possam por vezes ser histéricos e irritantes, mas banir também me parece um verbo bastante irritante. Quando ouvi falar em banir pontos de exclamação comecei logo a ver tudo cinzento. Voto em banir o banir.

  11. Jonas on Julho 29th, 2009 15:18

    De acordo, José Mário, assustei-me com a abordagem fundamentalista, a qual continua a inquietar-me mesmo se moderada.

    Gostaria então de saber qual é, na sua opinião, a diferença estética entre uma frase histérica pontuada com uma exclamação e a mesma frase histérica terminada com um ponto final.

    Não pense por favor que este é um desafio insolente!

    (Exclamei…)

  12. donamulata on Julho 29th, 2009 17:38

    Caro José Mário,

    Pois então não me vou indignar. Fico eu também como o Bartleby: Prefiro não o fazer.

    Sabe que depois de ler a sua resposta fui buscar o meu velhinho volume sobre essa incógnita que é o Bartleby pois comecei a ter reminiscências antigas, e encontrei um óptimo exemplo do uso do ponto de exclamação:

    “ Ah, Bartleby! Ah Humanidade!”

    É a última frase do livro.

    P.S – Devo acrescentar que sensibilizou-me com a expressão repúdio estético, é algo que eu prezo muito, e assim sendo sorte para essa demanda.

    Abraço

    Dona Mulata

  13. Da exclamação : Húmus on Julho 29th, 2009 19:44

    […] a irradicação do ponto de exclamação, com mão primeira do Senhor Palomar, secundada por José Mário Silva, Francisco José Viegas, Tiago Sousa Garcia e ilustração de Pedro Vieira, digo que tendo para a […]

  14. Vee on Julho 29th, 2009 21:47

    Seria engraçado, não? 😉

  15. Elton on Julho 30th, 2009 3:59

    Mas acabar, eliminar? Pra sempre? Meus netos leriam vovô rasgando aquele traço ereto sobre o ponto e pensariam tratar-se de esquisitice de gente cansada, como se ali houvesse um hieroglifo, ou pior, como se o velho usasse escrita cuneiforme, a dos iniciados na confraria da extemporaneidade? E se morto pela decrepitude meus netos me achassem soltariam um desesperado “Por Deus, vovô morreu.”? Oh, céus. Se for pra moderar, vamos adiante, se não, não dá. É pra eliminar? Soy contra!

  16. José Mário Silva on Julho 30th, 2009 8:01

    Obrigado, Vee.
    😉

  17. Vee on Julho 31st, 2009 1:23

    De nada.

  18. Português em Dia » Blog Archive » O ponto de exclamação on Agosto 3rd, 2009 16:25

    […] Quanto ao ponto de exclamação, o abuso na sua utilização apenas prolonga a histeria do autor, a gritaria, e muitas vezes a sem-razão de um texto, para não mencionar a agressividade ou o gosto português pela indignaçãozinha. (…) O ponto de exclamação é um excesso de ruído que não acorda ninguém, uma espécie de martelo pneumático colocado no final de uma frase. E por José Mário Silva: […]

  19. anonimo on Agosto 4th, 2009 21:32

    eu vou continuar a usar o ponto de exclamação! não sou jornalista e não estou sujeito ao livro de estilo de um qualquer jornal! tenho direito a marcar os meus pontos, a exclamá-los com certeza absoluta!, direito à minha indignação e ao grito, se for preciso!… continuarei a usar os tres pontos de suspensão também, que francisco jose viegas diz ser um sinal de preguiça, a maior das virtudes filosóficas, isso mesmo para que todos deveriam tender… os pontos de suspensão estão aqui para mostrar que o discurso não tem fim e a exclamação para dizer que há afirmações definitivas, para quem as profere!

  20. cinco dias » Etiqueta literária on Agosto 14th, 2009 19:28

    […] seguir como se tivesse dado um traque, por deferência para com as Paulas Bobones da etiqueta & boas maneiras literárias. “Eu sei que não é de bom tom usar pontos de exclamação”, “eu […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges