Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov

Faz hoje 150 anos que Anton Tchékhov nasceu. Filipe Guerra, seu tradutor (como é tradutor de outros clássicos russos), não esqueceu a data. No blogue O Vermelho e o Negro, por entre enlevos de avô babado, dedica-lhe este parágrafo:

«Faz 150 anos que nasceu Anton Tchékhov, um homem bom, e não um bom homem, senhora Revisora, de quem alguém me disse “gostaria que fosse meu pai”, mas não vou dizer quem, por suspeita de que haja nesse alguém eventual pudor, e na Rússia hoje é tudo Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov. E depois? Depois, 150 anos depois, ainda se continua a descrever Tchékhov como o mestre da nostalgia, quando se trata de melancolia, doutores, que no tempo dele era uma doença (e no nosso tempo, se fores ao psicas e pagares bem), a melancolia dos escritores russos tal como a dos escritores de Istambul tão bem descrita pelo tchekhoviano Orhan Pamuk em Istambul (Presença), e, 150 anos depois, ainda se continua a dizer Cerejal ou, ainda mais poeticamente, Jardim de Cerejas, quando se trata de Ginjal, doutores, um grande pomar de ginjas para comercialização e industrialização (a cereja na época era demasiado frágil para isso), pomar que foi derrubado pelo pragmatismo económico da época e cujas machadadas melancólicas no abate arborífero deram azo ao mais belo momento de teatro que jamais vistes na vida, doutores.»



Comentários

4 Responses to “Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov”

  1. Gerana Damulakis on Janeiro 30th, 2010 2:25

    Nossa, até hoje eu não sabia que tenho a honra de ter nascido no mesmo dia e mês do grande Tchékhov.

  2. Luís Graça on Janeiro 31st, 2010 4:41

    Depois de ler “A Estepe” ainda antes de ter idade para votar, fiquei devoto do senhor. Um mestre. Mais ou menos na mesma altura li “Almas mortas”, de Gogol. Outro mestre.

    Mas Tchékhov tem um fabuloso talento contista. De um nada constrói uma narrativa deliciosa e traça painéis precisos da sociedade russa.

    É um trabalho de precisão e filigrana. As palavras estão todas no sítio. E constantemente “vemos” personagens sem necessidade de maiores explicações. Não os vemos só fisicamente. Anton tinha a capacidade de mergulhar na alma dos seus protagonistas e dá-la ao leitor em pequenas colheradas de ironia e subversão. Sem esquecer a ternura.

    O esquema hierárquico da sociedade russa é trucidado de forma suave.

    De alguma forma, o cuidado descritivo da sociedade russa está também um tanto impregnado de Tchékhov no cinema de Nikita Mikhalkov. “O sol enganador” tem esse toque tchékoviano, se quisermos.

  3. José Mário Silva on Fevereiro 1st, 2010 11:43

    Então parabéns atrasados, Gerana. Espero que tenha vivido um bom aniversário.

  4. A continuar assim « Blogue Literário do Porto on Fevereiro 1st, 2010 12:59

    […] com etiqueta: AUTORES, BLOGUES, LITERATURA não faço mais nada senão ler blogues. Descobri por este post no Bibliotecário de Babel que Filipe Guerra tem um blogue. Desatenção minha. Corrige-se […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges