Três poemas de Paulo Tavares

O Paulo Tavares enviou-me, no dia em que mudámos de estação, «os dois últimos poemas de Atravessando o Inverno (esse meu livro que dificilmente verá a luz do dia) e um outro, a propósito do título do teu blogue».
Ei-los:

OS VELHOS

Os velhos falam do voo rasante
dos pombos sobre os telhados marítimos.
Sei que ao falarem do voo dos pombos
os velhos querem dizer coisas que apenas
outros velhos entendem.

Um deles diz nunca ter sido
especialista com a fisga,
mas eu oiço outras palavras:

falhar é uma bênção para quem
atira pedras aos céus.

Andei em círculo
e reparo entretanto que percorri,
fora de tempo, todas as esplanadas
das cidades à beira-mar.


ATRAVESSANDO O INVERNO

Finalmente,
atinjo a margem.
Acabo por beber a água.
Banho o corpo com as memórias
residuais. Sorrio o último
dos sorrisos que me reconheço.

Procurei durante a era glaciar
meio vivo
meio morto
um caminho ou uma ponte
para o rio onde se lavam as palavras.

Procurei
as crateras dos meteoritos,
a evidência dos terramotos,
o rasto da humanidade perdida.
Ao longo do Inverno rigoroso,
tentei encontrar em cada laje dos cemitérios
que atravessei o nome dos Antepassados,
o alento das origens, uma epígrafe para
a nova modernidade.

Mas os cemitérios
são agora campos de cultivo
e as campas estão vazias.

Nunca houve uma cratera
na ordem natural dos desastres.

Meio morto
meio vivo
banho o peito na corrente
sempre inconstante do Letes
e bebo a água para que seja possível
voltar a lembrar.

O gelo voltará um dia,
restituindo os cadáveres e germinando
o invólucro dos significados.


PASSEIO COM ECO E BORGES QUANDO JOVENS

É verdade que logo em frente
o caminho se bifurcava
e que tínhamos andado demasiado
tempo pelo interior do bosque,
para que agora,
conduzidos pela luz trémula do ocaso,
soubéssemos regressar.



Comentários

One Response to “Três poemas de Paulo Tavares”

  1. Lauren Mendinueta on Março 26th, 2009 22:08

    Gostei imenso dos poemas. Parabéns ao autor.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges