Melancólicas criaturas

Eis o milagre de Tabu: assumir-se como declaração de amor ao cinema (aos seus artifícios e convenções) sem cair nas armadilhas da cinefilia. Murnau paira como sombra? Sim, embora apenas de forma esquiva. Miguel Gomes foi buscar ao filme homónimo do mestre alemão a estrutura em duas partes (Paraíso, seguido de Paraíso Perdido), mas a homenagem nunca se materializa verdadeiramente. Tabu é só um monte imaginário, algures em África; Aurora, uma personagem atormentada pelo passado e pela culpa.
A sustentar o filme, a articulá-lo, está Pilar, a vizinha boa samaritana que faz jus ao nome. Ela é a verdadeira espectadora, tanto das vidas alheias como do próprio filme, visto na cadeira de um cinema. Depois de assistir perplexa ao prólogo fantasista, comove-se antes de nós com o trágico idílio adúltero da jovem Aurora, chorando lágrimas que só mais tarde (através de um genial raccord musical) compreenderemos. Se a segunda parte assume todos os riscos formais – extenso relato em off; diálogos mudos; um travelling autoconsciente; a epistolografia lida pela voz anacrónica, porque envelhecida, dos amantes –, se emerge como a memória traumática de algo que se desfez (o império colonial; o tempo em que o amor era possível), é porque antes do fogo contemplamos as cinzas, nessa primeira parte de um realismo cru, temperado por assomos de humor e ironia.
Numa Lisboa crepuscular, «melancólicas criaturas» fazem bolos de cenoura, perdem dinheiro no casino, encontram-se na selva plástica dos centros comerciais. Ridículas, desamparadas, são humanas até ao osso. E Miguel Gomes filma-as com infinito respeito, oferecendo a Laura Soveral (Aurora) e Teresa Madruga (Pilar) aqueles que são talvez os papéis das suas vidas.

[Texto publicado no suplemento Actual, do jornal Expresso]



Comentários

5 Responses to “Melancólicas criaturas”

  1. Ricardo on Maio 23rd, 2012 9:49

    E sobre o Dalton Trevisan?

  2. Luís Carvalho on Maio 24th, 2012 10:21

    Eu percebo que uma pessoa não entendida escreva sobre cinema, e acho bem, o que não percebo e não gosto é uma pessoa não entendida escrever como se o fosse, para isso estão lá os críticos e cineastas. A novidade que o olhar inocente poderia trazer perde-se no desejo de aceitação pelos especialistas. Desculpe a sinceridade, para repetir o que todos os outros dizem (os que percebem mesmo) será que vale a pena escrever?

  3. José Mário Silva on Maio 24th, 2012 12:37

    Pediram-me para escrever. Eu aceitei. Só isso.
    Não sei se valeu a pena ter escrito. Sei que vale a pena ver o filme.

  4. Luís Carvalho on Maio 24th, 2012 16:12

    Ok, aceito a resposta e a sua honestidade.

    O mais importante para mim era que tivesse assumido o olhar literário e humano em lugar do olhar cinéfilo, eu podia ter ganho, aprendido mais com essa leitura do que com esta. Mas pronto, isso, sou eu.

  5. José Mário Silva on Maio 24th, 2012 18:20

    Eu percebo a sua posição, Luís, mas para todos os efeitos a breve nota foi publicada na secção de cinema. Se eu convidar um dos críticos de cinema a escrever sobre um romance na secção de Livros, não espero que ele me fale de planos sequência ou de campo/contracampo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges